Estudando o Espiritismo

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sábado, 20 de agosto de 2016

Ódio e Amor

José Carlos Leal

Fonte:
Livro: Evangelho e Qualidade de Vida

Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu Sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa? Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito. Jesus (Mateus, V: 43 a 48.).
O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo XII, item 3.


Ódio e Amor

Uma pessoa relativamente inteligente, e com uma boa dose de bom senso, deve perguntar a si mesma antes de tomar uma atitude: O que posso ganhar com isso? Depois de obter uma resposta honesta e franca para essa questão, entra-se em ação. Se houver mais vantagem do que desvantagem na proposta, fazemos o que desejamos, entretanto, se ocorrer o contrário, devemos abandonar o projeto para buscar outra coisa. Assim, diante dessa passagem evangélica, podemos nos perguntar: O que posso ganhar odiando as pessoas ou fazendo inimigos? Vou tomar a liberdade de responder o que uma pessoa consegue no exercício do ódio através das palavras do Espírito Joanna de Ângelis, pela mediunidade de Divaldo Pereira Franco:

“Toda vez que a raiva é submetida à pressão e não digerida, produz danos no organismo físico e no emocional. No físico, mediante distúrbios do sistema vago-simpático, tais como: indigestão, diarréia, acidez, disritmia, inapetência ou glutonaria – como autopunição – etc. No emocional, nervosismo, amargura, ansiedade, depressão”.

“Muitas raivas que são ingeridas a contragosto e não eliminadas desde a infância, em razão de métodos castradores da educação, ou agressividade do grupo social, ou necessidades socioeconômicas, podem desencadear tumores malignos e outros de graves efeitos no organismo, alterando a conduta por completo”. (Autodescobrimento. Uma Busca Interior. Conteúdos Perturbadores. A Raiva).

Em outras palavras, se deixarmos que o ódio, em qualquer de suas formas, penetre em nossa vida, o resultado é o sofrimento. O ódio apresenta muitas faces, usa muitas máscaras, e a primeira delas é o desprezo. Essa é a forma mais comum, mais simples e, aparentemente, a mais inofensiva do ódio. O desprezo começa com a idéia de que o objeto de nosso ódio (pessoa ou não) não merece nossa atenção, nossa preocupação e muito menos nossa cólera. Então fechamos o coração, pois um ser tão pequeno e desprezível não é digno nem mesmo de um olhar de nossa parte. Convencidos de nossa superioridade, passamos a diminuir a importância daquela pessoa, se a encontramos na rua, desviamos como se fosse alguém impuro ou portador de um mal contagioso.

Esse tipo de comportamento, à medida que cresce e toma força, vai além da pessoa desprezada por quem passamos a ter um sentimento ainda menor: a inveja. Assim, ignoramos as suas conquistas, o seu modo de viver ou de ser; se ela comprou um carro novo, chegamos até a desejar que se acabe em um acidente. Segue-se aqui aquela máxima sobre a inveja: “Dói mais ao invejoso o sucesso do outro do que seu próprio fracasso”.

Um outro sentimento provocado pelo ódio é a vingança. Quem odeia, às vezes, acredita que o ser odiado fez-lhe um grande mal, que pode não ser imaginário, mas real; como o patrão que despede o empregado; o professor que reprova o aluno; um amigo que engana o outro; a jovem ou o jovem que perde o (a) namorado (a) para outra pessoa; e, em casos mais extremos, o assassinato de um ente querido. Nesse momento, a pessoa julga-se com direito de provocar no outro um dano proporcional ao que acredita ter sofrido e vive o sentimento anticristão do olho por olho, dente por dente. Em verdade, o vingador não se vinga da ferida provocada nele ou em alguém que ele pensa amar, mas da ferida em seu amor-próprio. O vingador sente-se humilhado, menor, descompensado, e acredita que vingando-se devolverá ao seu ego a auto-estima perdida. O mesmo se dá com a necessidade de vingança que o marido traído tem contra a mulher adúltera. Esse último caso é disfarçado com o nome de sentimento de honra.

Muitas vezes, a pessoa ofendida não pode atingir aquele que a ofendeu. Caso o ofendido tenha uma mentalidade mais primitiva, o ódio poderá ser dirigido contra seu rival através de ações verbais, e o sentimento de hostilidade se transforma em pragas, maldiçoes e, paradoxalmente, a pessoa que se deseja atingir com a maldição não será atingida porque há uma justiça divina que está ao lado dela e que, automaticamente, ferirá a outra pessoa. Eu mesmo já ouvi frases como: “Se existe um Deus no céu”, fulano “há de pagar pelo que me fez”. Essas pessoas parecem ignorar que Deus é amor e jamais atenderia a um pedido de vingança, não importa o motivo.

Esse tipo de pessoa, com suas pragas contra o odiado, e com o poder de sua imaginação, passa a lançar em torno de si uma escura e pesada rede mental, na qual constrói a sua vingança imaginária. “Vê” a outra pessoa morta ou muito doente, abandonada pelo seu amor, coberta de farrapos, esmolando pelas ruas. Nesse momento, sem saber, quem odeia atrai para si a companhia de espíritos desencarnados e trevosos que se afinizam com os sentimentos do encarnado, e como moscas-varejeiras voam sobre ele, impedindo que seus pensamentos alcem vôo em busca dos planos maiores. Daí a loucura, muitas vezes, basta um passo.

Depois dessas considerações introdutórias, vamos ao texto do Evangelho de Mateus. Jesus começa dizendo: “Tendes ouvido dizer que deveis amar o vosso próximo e odiar o vosso inimigo”. Com essas palavras, Jesus quer dizer que existe um discurso tradicional que relaciona amigo e amor inimigo e ódio. Em seguida, ele coloca a palavra “porém” (conjunção coordenada adversativa) que introduz uma oração de sentido contrário à anterior, e dá uma segunda regra sobre amar até mesmo o inimigo: “Amai o vosso inimigo e orai pelos que vos perseguem”. Com isso, Jesus altera a relação antiga para: amigo e amor e inimigo e amor, eliminando o ódio por completo.

A questão, do ponto de vista de Jesus, é tão séria que ele chega a dizer: “Aquele que não conseguir banir o ódio de sua vida não pode ser considerado filho de Deus”. Se o cristão consegue isso, ele se torna diferente do gentio e do publicano, em outras palavras, ele se torna uma pessoa de qualidade que se pode traduzir, em linguagem evangélica, por uma pessoa justa. Por esse motivo, Jesus está muito ocupado em nos dar a oportunidade de refletir sobre a inimizade. Ele chega a dizer em Mateus, V: 24: “Antes de oferecerdes a vossa oferenda ao Templo, correi e reconciliai-vos como o vosso inimigo”. Ou seja, não adianta, ensina Jesus, irmos aos cultos evangélicos, às missas católicas, às reuniões espíritas, aos terreiros de Umbanda, a fim de cumprir as nossas obrigações religiosas, se o nosso coração está tomado por sentimentos menores e hostis contra um irmão. Quando fazemos isso, realizamos um tipo de culto externo que muito pouco valor terá para o nosso progresso espiritual. Deus é amor, e não se pode comparecer perante o amor com o coração manchado de ódio.
A esta altura podemos nos perguntar: O que se pode fazer, do ponto de vista prático, para minimizar ou mesmo eliminar os sentimentos hostis? Acreditamos poder tomar algumas atitudes que, dependendo do compromisso que temos com as mudanças, podem ser bastante úteis.

1. Não feche questão sobre os seus sentimentos.

Não siga a frase impeditiva do crescimento: “Eu sou assim, assim mesmo que eu sou”. Procure refletir sobre o seguinte: nós nada somos, apenas estamos. Quando utilizo o verbo ser, estou me servindo de uma palavra de essência e é muito difícil, difícil mesmo, mudar em nós aquilo que é essencial. Quando uso o verbo estar, emprego uma palavra que exprime circunstãncia. O professor Eduardo Portela, cerra vez, foi questionado sobre a sua posição de ministro. Ele comentou, dizendo: “Eu não sou ministro, estou ministro”. Com essa frase, ele queria dizer que o ministério era um “acidente” e não fazia parte de sua essência e, portanto, poderia abrir mão do cargo sem maiores dificuldades.

Se considerarmos esse modo de ver, estaremos sempre mais propensos às mudanças. Odiar, portanto, não faz parte de nossa essência. O ódio é uma atitude mental na qual me encontro temporariamente e nela não preciso continuar. Estar aberto às mudanças é o primeiro passo para abandonar rancores e ódios. Troque a frase: “Não gosto dele (ou dela) e acabou” por: “Não gosto dele (ou dela), mas estou disposto a rever minha posição”.

2. Reveja as causas de seu ódio.

Procure examinar com cuidado os motivos por que você não gosta de uma determinada pessoa, raça ou instituição.

Muitas vezes, nos aborrecemos com uma pessoa por futilidades, como:

Ela é uma pessoa “do contra”, se opõe sempre a tudo que falo. Se eu digo: é pedra, ela diz: é pau.

Se não gosto de uma pessoa por causa disso, preciso rever os meus conceitos de democracia. A democracia é a habilidade de conviver com as diferenças. Não posso esperar que uma pessoa pense sempre como eu ou concorde sempre com as minhas idéias, a não ser que me imagine dono da verdade. Somos espíritos muito diferentes uns dos outros, e cada um de nós é resultado de muitas experiências ao longo de várias vidas. Assim, por que ficarmos irritados se um companheiro discorda de nós? Isso é um direito dele. Deixe-o com os seus pontos de vista e sigamos o caminho que escolhemos. O tempo dirá quem estava certo.

Uma outra regra muito boa nesse caso é refletir com honestidade se a discordância do outro possui fundamento. Precisamos admitir que nem sempre temos razão, e que a discordância que nos irrita poderia ser útil à nossa vida se a examinássemos com maior cuidado.

Tomei raiva daquela pessoa quando soube que falou mal de mim.

Embora bastante corriqueiro em nosso dia-a-dia, esse é o motivo mais fútil para se indispor com alguém. É necessário ser muito frágil para acreditar em fofoca, em diz-que-diz. Muitas pessoas, ao ouvir que um amigo ou conhecido falou mal a seu respeito, ficam indignadas e fecham o coração para o suposto ofensor. Não se preocupam com os motivos do “fofoqueiro” e nem querem saber se o que disse (se é que disse) não poderia ser uma advertência que não foi feita diretamente por medo de magoar.

Imaginemos que alguém conte a você que ouviu uma amiga sua dizer: “A fulana não está educando bem a filha. Ontem vi a menina com umas pessoas estranhas, fumando”... Não responda a essa informação com frases como: “Por que ela não se mete com a própria vida? Da minha filha cuido eu”. Não seria melhor averiguar se essa informação procede? Será que a amiga, em vez de uma crítica, fez uma advertência? Não seria mais interessante procurá-la, agradecê-la por seu interesse e pedir-lhe mais informações? Situações como essas são muito comuns, mas as pessoas ficam magoadas quando deveriam ficar agradecidas.

Fulana (ou fulano) não me convidou para a festa na sai casa.

Qual é o problema? Há um fato concreto: não fui convidada(o) para uma festa e isso me magoou. É lamentável que você se magoe por tão pouco. Surpreender-se com esse comportamento é normal, porém, magoar-se não é aceitável. Frente a um fato como esse, não dê asas à sua imaginação, buscando os motivos por que você não foi convidada(o), motivos imaginários, pois os verdadeiros estão vedados a você. Espere que a pessoa, em outro momento, lhe dê uma explicação, e é bem provável que ela o faça. Aceite-a, mesmo que lhe soe uma simples desculpa.

Não se aborreça, não busque desforra, não faça cara feia, isso só provará a sua fragilidade emocional.

Fulano (a) criticou o meu trabalho.

Será que o seu trabalho não merece críticas? Só os trabalhos perfeitos estão ao abrigo de críticas, e a perfeição é um ideal que devemos buscar, mas ainda é apenas um ideal. Não pedi a opinião dele, certo? Poderá você dizer. Mas ele não precisa pedir a sua permissão para criticá-lo, principalmente quando o seu trabalho é público. Se você escreve um livro, ao ser lançado, ele pertencerá ao público que pode ou não gostar da obra. O mesmo acontece com um recital de canto ou de música, com uma palestra, conferência ou aula. Nesses casos, é o receptor que vai nos julgar, pois, de um certo modo, ao correr esse risco, estamos, ainda que sem querer, pedindo a opinião das pessoas.

Nesses casos, seria muito útil questionar a validade da crítica. Pode ser que meu livro não seja tão bom quanto imagino ou eu não cante tão bem como penso, ou ainda, que as minhas aulas não sejam tão boas quanto acredito. Se tiver coragem e honestidade comigo mesmo, poderei crescer a partir dessas críticas. Ficando zangado, magoado com a crítica e com o crítico, nada ganharei, a não ser aborrecimentos.

Em outras situações, estou irado contra uma pessoa que me fez algo realmente grave e com o claro intuito de me prejudicar. São exemplos:

Ela (Ele) fingiu-se de amiga (o) para roubar o (a) meu (minha) esposo (a). Isso não perdôo.

Há, nesse pensamento puramente emocional, um equivoco sério. Não podemos perder aquilo que não possuímos. Não somos proprietários das pessoas, seres humanos não são possuíveis. E mais: se alguém nos tomou a pessoa amada, isso só foi possível porque os laços que nos prendiam a ela já estavam muito deteriorados ou nem mesmo existiam mais. Assim, a pessoa que acusamos de destruidora de lar nada maiôs foi do que um pretexto para o final de uma relação que perdera o significado.

Não podemos nos esquecer ainda que a pessoa com quem somos hostis, nesse caso, pode ter tirado de nossa vida um problema e tê-lo transferido para a dela, abrindo para você perspectivas novas de refazer a vida. É como o povo diz: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Não odeie, portanto, a pessoa que fez isso com você, ela pode ter feito um bem, ainda que, no primeiro momento, pareça um mal.

Por causa dele (dela) perdi o meu emprego.

Esse caso parece muito com o anterior e se ajusta ao dito popular: “Há males que vêm para o bem”. Posso estar há anos em um emprego que não me satisfaz muito, entretanto, tenho medo de abandoná-lo. Porém, se um dia, alguém faz uma “ursada” comigo e sou despedido, inicialmente fico muito aborrecido e posso até desejar me vingar, até com violência, contra a pessoa que fez isso. Se consigo controlar meus sentimentos e não piorar a situação partindo para uma vingança, vou à luta, pois a vida continua. Foi com a indenização recebida de um colégio, onde trabalhou cerca de vinte anos, que um professor amigo meu abriu um colégio que hoje lhe dá um rendimento muitas vezes maior do que anteriormente. O professor, perdendo o emprego, ganhou um colégio. Então pergunta-se: a pessoa que fez mal a ele, despedindo-o, não teria, de fato, feito um bem?

Aqui ainda é pertinente lembrar uma frase do pensador chinês: “O mal que alguém me faz não me faz mal porque não me faz mal; mas o mal que faço a alguém, este sim me faz mal porque me faz mal”. Repare bem essa frase. Se uma pessoa me faz mal, faz mal a si mesma, pois, aos olhos de Deus, ela se torna má, entretanto, se faço mal a uma pessoa, torno-me mau, e isso, segundo a moral evangélica, é ruim para mim. Daí Jesus ter recomendado que orássemos por aqueles que nos perseguem, pois é melhor ser vítima do mal do que ser seu produtor.

Odeio aquela pessoa que matou meu ente querido.

Essa parece ser uma razão suficiente para se odiar alguém e buscar vingança contra o assassino, entretanto, não é. Em primeiro lugar, o meu ente querido não morreu enquanto individualidade, o que desapareceu foi a sua personalidade. Não houve, portanto, uma perda total. Em segundo lugar, o meu desespero, ou mesmo a minha vingança, não vão alterar a situação objetiva, ou seja, não trarão aquela pessoa de volta. Em terceiro lugar, não conhecemos as motivações espirituais do crime; e, em quarto lugar, digna de pena é a pessoa que matou e não a que foi morta. Por todos esses motivos, devo perdoar o assassino, perdoar mesmo, sinceramente, e deixar que a vida dê a cada um segundo as suas obras.

Jesus trata a questão das inimizades com muito interesse pois, para ele, o ódio é o inverso frontal do amor, e não posso melhorar a minha realidade espiritual se ainda abrigo ódio em meu mundo interior. Com isso, abrimos um espaço para falar do ato de amar. Onde não existir amor, não poderá haver nem ação nem vida; por isso, o homem nada será se não amar e for amado. O homem sem amor é uma árvore estéril, sem galhos, flores e frutos. Nela os pássaros não pousam nem fazem ninhos, apenas deslizam negras e venenosas serpentes.

O amor é um sentimento bastante forte para se bastar a si mesmo, por isso, o verdadeiro amor não busca recompensa, apenas ama. Assim, Jesus amou a sua família, aos seus apóstolos, mas também aqueles que o levaram ao suplício da cruz. Suas últimas palavras no Gólgota são uma intercessão em favor de sues algozes. “Perdoai-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem...” Nessas palavras de perdão está a maior de todas as lições sobre a necessidade de amar ao próximo sem restrições.

O amor, lembra Erich Fromm, é o sentimento que busca a união entre os seres, que nos leva a superar o sentimento de isolamento e de separação, sem que, porém, amante e amado percam a sua individualidade. No amor ocorre um paradoxo, pois dois se tornam um sem deixar de serem dois. O amor é, em última análise, uma atividade.

O amor é uma atividade, e não um afeto passivo; é um “erguimento” e não uma “queda”. De um modo geral, o caráter ativo do amor pode ser descrito, afirmando-se que o amor, antes de tudo, consiste em dar e não em receber. (E. Fromm).

O amor, desse ponto de vista, é o contrário do egoísmo. No amor, meu sentimento altruísta volta-se para outro e, no egoísmo, faço de mim mesmo o centro do mundo; entretanto, quanto mais me amo egoisticamente, menos sou capaz de amar o outro. Nenhuma dor me comove, a não ser a minha própria dor, nenhum problema me preocupa, a não ser o meu. Amor e egoísmo não convivem e compete a cada um de nós escolher um ou outro.

No texto do Evangelho que motivou essas paginas há uma exigência de Jesus que, em geral, consideramos muito complexa: “Amar os inimigos”. Vamos voltar a ela. A palavra amigo deriva de um antigo radical indo-europeu que significa ligar, unir, atar. Assim, o amor seria o sentimento que funde dois pronomes eu e tu, convertendo-os em nós. Assim, amigo é aquele que ama, que busca a união, a junção com todos os outros seres. A palavra inimigo é formada de in=não+amigo=ao que ama, ou seja, inimigo é aquele que não amamos, aquele do qual é imperativo viver separado. Como é possível, então, que uma pessoa possa amar o inimigo? Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, há um texto no qual há um esclarecimento sobre o que consiste amar o inimigo:

Amar os inimigos, portanto, não é ter por eles uma afeição que não é natural, uma vez que o contato com o inimigo faz o coração bater de uma forma totalmente diferente da que ocorre ao contato com um amigo. Amar os inimigos é não ter contra eles nem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança; é perdoar-lhes sem segundas intenções e sem restrições o mal que nos fizeram; e não colocar nenhum obstáculo è reconciliação; é desejar-lhes o bem em lugar do mal; é ficar alegre em vez de triste, com o bem que lhes aconteça; é estender-lhes a mão para socorrê-los em caso de necessidade; é evitar por palavras e ações, tudo o que possa prejudicá-los; é, enfim, retribuir-lhes o mal com o bem, sem intenção de humilhá-los. Aquele que assim proceder cumpre plenamente o mandamento: “Amai os vossos inimigos”.