Estudando o Espiritismo

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

INDIVIDUAÇÃO: O ENCONTRO COM O SELF


9 - INDIVIDUAÇÃO:
O ENCONTRO COM O SELF

CAPÍTULO 9 INDIVIDUAÇÃO: O ENCONTRO COM O SELF
(Marlon Reikdal)

Ir a Roma — grande esforço, pouco a ganhar —; não encontrarás ali o Rei que procuras, a menos que o tragas contigo. {Poema irlandês do século IX).

O processo de individuação é um tema complexo e profundo por se tratar de um conceito estruturante da teoria de Carl Gustav Jung.111 Nunca é demais lembrar que a consciência em Psicologia Analítica é diferente da consciência definida em O Livro dos Espíritos, questão 621, sede das Leis Divinas. Essa consciência denominada pela Psicologia em geral é a consciência do ego. E' a consciência referida pelo Espiritismo é a consciência divina, que é semelhante ao si-mesmo de Jung.

O termo não foi criado por ele, posto que já foi objeto de estudos de muitos filósofos em uma cadeia de reflexões. Entre eles, tudo parece ganhar espaço com Platão (427 a.C- 347 a.C), passando por Aristóteles (384 a.C.-322 a.C), Plotino (204-270), Porfídio (232-304), Avicena (980-1037), Aquino (1225-1274), Scott (1266-1308), Leibniz (1646—1716), entre muitos outros do passado e da atualidade. Refletiram e buscaram, cada um à sua maneira, responder ao questionamento da causa que faz com que as formas universais se realizem individualmente.

Percebemos, em linhas gerais, que o foco em geral desses estudos era compreender o que exatamente diferenciava um indivíduo de seus semelhantes, ou, em outras palavras, como cada ser se torna um indivíduo e, certamente, para essas perguntas nunca se obteve uma resposta conclusiva.

Jung também se deteve no questionamento de onde decorre a individualidade, e tomou como resposta o inconsciente e os dados a priori. Ele diz que "O indivíduo (psicológico) ou a individualidade psicológica existem inconscientemente a priori (...). A individualidade psíquica é dada correlatamente com a individualidade física, mas de forma inconsciente".

Contudo, o que identificamos como principal acréscimo de seu trabalho foi muito além. Por meio de suas pesquisas, pôde concluir que "se nós nos concentrarmos naquilo que a personalidade interior diz e quer, a dor é logo superada".

Denominando em alguns momentos de personalidade superior, o psiquiatra suíço estava se referindo a uma razão maior, um eixo central e organizador de toda a psique, diferente do ego que é o centro da consciência."

Como personalidade global, essa instância superior "não coincide com o eu, isto é, com a personalidade consciente; pelo contrário, possui uma grandeza que é preciso distinguir do eu. Tal exigência, naturalmente, só se verifica numa psicologia que se defronta com a realidade do inconsciente".2

Temos, assim, estabelecido a presença de duas partes da psique: uma pequenina, que encontra sua liberdade dentro do campo da consciência, denominada de eu ou ego, e outra infinitamente maior, o Self busca si-mesmo, que centraliza e gerência a totalidade do ser.

O si-mesmo (Self em inglês, Selbst em alemão) é considerado por Jung como o ponto central da Psicologia Analítica.1 E a chave para a compreensão de sua teoria psicológica e mostra-se em alguns momentos como o conceito que mais a diferencia das outras abordagens psicológicas.

Este elemento central, segundo Leon e Jette Bonaventure, é utilizado em jargão analítico como Selfe foi nomeado de diversas formas ao longo da história: Meister Eckhart chamava de o fundo da alma, Tauler de centro, Santa Teresa de Ávila usava âmago da alma, e Pascal referia-se ao eu profundo. Mas foi Jung quem teve o mérito de reintroduzi-lo na Psicologia.3

Ele diz que "por definição, o eu está subordinado ao si-mesmo e está para ele, assim como qualquer parte está para o todo".2 Mostra que o eu é a parte que nos identificamos atualmente. Ele goza de certa liberdade, mas do mesmo modo que as circunstâncias exteriores nos limitam em relação à vida; assim também o si-mesmo se comporta, em confronto com o eu, como uma realidade objetiva na qual a liberdade de nossa vontade é incapaz de mudar o que quer que seja.

A personalidade global ou superior é o si-mesmo e, ao dizer que devemos nos centrar nela, Jung está expressando a idéeia de que a meta do desenvolvimento psíquico é o encontro com ele. Quanto mais nos aproximamos dele, mais plenos nos sentimos; e quanto mais dele nos afastamos, mais vazios, incompletos e adoecidos.

Joanna corrobora com essas afirmativas e declara: "A vilegiatura carnal deve ser para a busca do si". Assim, podemos inferir que a Religião e a Psicologia têm o mesmo objetivo em termos de personalidade, que é de auxiliar o ego a desvencilhar-se da perspectiva limitada do eu, para identificar e viver de acordo com uma realidade maior. Essa dimensão superior pode ser chamada de Deus ou de si-mesmo; a qual, às vezes, parece estar fora; em outras vezes, dentro de nós. Independentemente disso, viver em comunhão com ela é transformador, libertador e plenificador.

O ROMPIMENTO ENTRE EGO E INCONSCIENTE

Tudo o que somos, incluindo o acúmulo de experiências milenares e a fonte de toda a pureza e perfeição, atualmente se encontra cindido, como se estivéssemos em desacordo com nós mesmos. Por isso, dizemos que falar de individuação é necessário, afinal, o homem definitivamente está desconectado de si. Os consultórios de análise estão repletos de pessoas buscando se conhecer, reencontrar a si mesmas - resultado do rompimento interno e da falta que sentimos de algo maior, profundo e verdadeiro.

Vivemos as consequências da negação do inconsciente. O ego, no auge do seu poder adoecido, tenta determinar que o homem é somente aquilo que pode ser visto, apalpado e testado, e tudo o que foge à sua compreensão e ao seu controle não merece consideração.

Em contrapartida, os grandes estudiosos da saúde mental, como Freud e Jung, apresentaram o inconsciente e mostraram-no como algo muito importante e necessário para a compreensão do ser. Jung nos acusa de agirmos como jovens inconsequentes quando tentamos menosprezar o inconsciente, pois as influências desse desconhecido são infinitamente mais verdadeiras e lúcidas do que o limitado pensar consciente.

Se hoje vivemos uma sociedade neurótica é porque vivemos a desunião com nós mesmos.6 Para ele, a neurose tem sua causa na recusa em assumir tarefas de desenvolvimento, o que significa uma ruptura do diálogo entre ego e inconsciente.

Joanna corrobora dizendo: "a existência terrena tem uma finalidade primordial e impostergável, que é a unificação do ego com o inconsciente, onde se encontram adormecidos todos os valores jamais experienciados e capazes de produzir a individuação"?

Até chegar à fase adulta nos pautamos na vida exterior, inseguros de nós mesmos, preocupados em construir uma persona sólida para que seja aceita e valorizada pelo mundo. Nesse processo vamos deixando de ser quem somos. A busca por inserção e adaptação não é um problema em si, mas dependendo de como vivemos esse processo, passamos a acreditar que isso é a vida e que o mundo externo é tudo, abandonando o mundo interior. Se assim nos comportamos, a partir de determinado momento, essa vida interior não vivida começa a exigir mais espaço em nós.

Stein explica que, embora o inconsciente compense a consciência do ego ao longo da existência toda, na segunda fase da vida o si-mesmo, enquanto força propulsora, exigirá a unificação da personalidade total.8 Em termos teóricos, a primeira metade da vida é tarefa do ego, num esforço de separação e adaptação, construindo seu lugar no mundo.

Retomando os aspectos do desenvolvimento para compreendermos a individuação, Roth explica que na infância o trabalho é dar os primeiros passos para desenvolver um eu estável. É preciso "soltar-se das amarras e diferenciar-se em relação ao complexo dos pais"? Na adolescência, é a fase de descoberta do mundo e conquista de autonomia. A fase adulta, para Roth, é dividida em três etapas: a primeira, envolvendo mais ou menos os 25 a 40 anos, na qual o foco encontra-se na capacidade de imposição e superação de alguns fatores envolvidos na identidade pessoal ou profissional; mas aqui já começa a haver uma necessidade de uma vivência de introversão; a segunda fase, ou idade mediana de adulto, assinalada pelos 40 até os 55 anos, é considerada por ele como a guinada definitiva rumo à segunda metade da vida, e, por isso, diz que "reativa-se e começa a desenvolver 'a criança interior', com seus dons de criação espiritual. Ali podem ser descobertas e ganhar configurações novas, tarefas de vida e processos de busca de sentido"? Por fim, o autor explica que a fase mais tardia da idade de adulto, estabelecida em média até 75 anos, é a continuação da anterior, aproximando-se da sabedoria. E momento de uma introversão mais ampla, muitas vezes marcado pela aproximação da morte, ocasião em que se abre a uma reorganização das funções do eu, e nasce uma relação profunda para com o todo.

Jung afirma que o enraizamento do eu no mundo e o fortalecimento por uma adaptação o mais adequada possível são de suma importância. "Antes de tomá-la [a individuação] como objetivo é preciso que tenha sido alcançada a finalidade educativa de adaptação ao mínimo necessário de normas coletivas: a planta que deve atingir o máximo desenvolvimento de sua natureza específica deve, em primeiro lugar, poder crescer no chão em que foi plantada? 10

Onde nasce o problema?

Verificamos que a existência da personalidade menor, adaptándo-se ao mundo e a materialidade, é algo necessário para nossa inserção e sobrevivência na Terra. O problema está na crença de que essa personalidade inferior seja considerada única ou a mais importante, em detrimento da personalidade superior.

Esse processo de adaptação inicial ao mundo, embora necessário para a instalação e sobrevivência na Terra, precisa ser visto como secundário em relação ao desenvolvimento moral e ao Deus que habita em nós, caso contrário, estaríamos a cultuar primordialmente o deus Mamon.

Stein declara que, em determinado momento, precisamos descobrir que "a vida é muito mais do que abrirmos caminho no mundo equipados com um ego e uma persona sólidos e bem-estruturados"?

Para assumir o Si, é preciso chegar a certo momento em que o ego agonize, se debata, se perca de si mesmo. Joanna apresenta raciocínio idêntico, explicando que nas primeiras fases o ego desempenha papéis relevantes como o da preservação da vida, dos direitos ao prazer transitório, do atendimento às necessidades fisiológicas, aos valores pessoais. Mas liga momento em que esse ego deseja se fixar - constritor -, e passa à condição de algoz, dominando as paisagens do ser e sombreando-as na tentativa de seu predomínio. "Elastecendo-lbe a visão e apontando-lhe o Si, reage com violência e estertora-se à medida que perde espaço psicológico, até ser ultrapassado em vitória culminante.'

Evidentemente existem pessoas que se opõem fortemente à abertura para uma personalidade mais profunda e íntegra pelo simples fato de que não se trabalharam intimamente. Todo aquele que se empenha incansavelmente na construção de uma vida pautada na persona, e acredita ser essa personalidade, tem grandes chances de chegar à segunda metade da vida sem mudanças significativas. Manter essa personalidade intacta, em termos de desenvolvimento psicológico, não é virtude. A vida é transformação, por isso mesmo a crise pode significar busca, desejo de mudança. Tudo isso é predição da integralidade, mais que a aparente coesão dos inertes, que se autodenominam bons.

O servo e o senhor

Uma analogia de fácil entendimento é a do servo e do senhor. O eu pode ser compreendido como um escravo que foi enviado com a missão de conquistar novas terras (uma nova reencarnação). Ele atua no mundo e desenvolve uma capacidade de agir. Vê sua liberdade nesse espaço e, à medida que vai adquirindo consciência de si, distante de seu senhor, crê ser autônomo e dono dessas novas terras. Esquece que veio subordinado e por isso tenta inutilmente reinar em terras que não são suas, afinal, a vida terrena parece um canto de sereia para os inconscientes de si.

Em face dessa insubordinação, o senhor envia mensagens, tenta dissuadi-lo desse egocentrismo. Se não houver qualquer resposta, acabará precisando impor-se de maneira mais vigorosa.

Como um senhor de sabedoria, usará da força na justa medida da resistência. Então, muitas vezes, em decorrência de grande negação, atuará agressiva e violentamente, gerando sintomas físicos ou psíquicos, que são manilestatlos por meio de dores, desencantos e desencontros pelo eu.

O si-mesmo, como senhor ou rei, precisa colocar o ego em seu lugar de submissão, para que possa cumprir com seus objetivos. O servo precisa lembrar que não é senhor de si, que não existe por si próprio e que está ali construindo um lugar habitável para que seu verdadeiro senhor possa reinar.

Talvez, por algum tempo, sejamos capazes de negar nossa destinação maior, essa nobre filiação. Porém, como servos, logo perceberemos que não temos posses, muito menos poder para reinar. Então, estaremos nesse mundo, aparentemente livres, mas com pouquíssimas ou nenhuma realização significativa — afinal, a riqueza e o poder verdadeiros provêm do Todo Poderoso. Obviamente, se a Ele negamos, negamos todo o potencial divino. Aparentemente, nada de mal faremos ao mundo, e, como grandes medíocres, também nada de bom, de significativo e de transformador.

Quando esse mero escravo, limitado, que é o ego, abandona sua descendência superior: o si-mesmo, o psiquismo encontra-se cindido. As forças estão divididas e nada de profundo é possível realizar, pois o escravo não consegue qualquer realização significativa sem o aval e o poder de seu senhor. Este, por sua vez, embora seja ilimitado, precisa de seu serviçal para o trabalho mundano de criar condições materiais mínimas para sua instalação. Dizemos que Deus precisa do homem para se fazer consciente e que o homem precisa de Deus para existir.

Em linhas gerais, podemos afirmar que nas reflexões de Jung, o grande psiquiatra, as relações do ego com os conteúdos do inconsciente desencadeiam um desenvolvimento ou uma verdadeira metamorfose da psique como um todo, e a isso ele denominou de processo de individuação.

No consciente está o que aprendemos desde a nossa infância, mas no inconsciente encontra-se nossa história milenar. No consciente está o que achamos que devemos fazer ou ser no momento atual, no inconsciente está nossa destinação divina.

Verificamos, assim, duas etapas de um processo semelhante ao de todos nós: primeiro, a chegada ao mundo, com a necessidade de sepa¬ração do todo para estabelecimento do eu e do seu respectivo espaço; scgunuo, um ca in ni no uc voira para a comunnao ou uoi.miao com o (ocio, mas agora conscientemente.

A tarefa inicial de separação é necessária para a identificação do todo em nós. Porém, precisamos identificar que estamos conectados, fazendo parte de tudo, incapazes de existir plenamente a sós.

Diríamos, então, que a tarefa de Deus é a criação e a nossa é a consciência.

O Sl-MESMO

A expressão "si mesmo" é usada no cotidiano como equivalente ao conceito de ego, semelhante ao egocentrismo ou ao individualismo -ressaltar a si mesmo é o oposto da humildade. No entanto, o si-mesmo, apresentado por Jung, é o arquétipo central da psique humana e tem um papel e um poder supraordenador.

E' muito interessante a forma como Jung apresenta a questão do si-mesmo, porque evidencia o descabimento que é uma vida sem ele, ou seja, uma vida centrada puramente no ego. O grande psiquiatra questiona se o inconsciente também teria um centro e responde: "eu não ousaria pensar em um princípio dominante no inconsciente, análogo ao eu. Na realidade, tudo sugere o contrário".

Ele não quer dizer com isso que o inconsciente simplesmente deva assumir o papel do eu, mas que o destino individual depende em grande parte de fatores inconscientes. O ego está para o si-mesmo assim como o homem está para Deus. Por isso, ele apresenta o Self como um eu objetivo, "não se trata mais do eu antigo, com sua ficção e seu aparato artificial, mas de um outro eu (...) que por esta razão é melhor designar por si-mesmo". 12

Na obra Tipos Psicológicos, encontramos a seguinte definição: "o si-mesmo, como conceito empírico, designa o âmbito total de todos os fenômenos psíquicos do homem. Expressa a unidade e totalidade da personalidade global. [...] o si-mesmo como totalidade psíquica tem aspectos conscientes e inconscientes. O si-mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de personalidades superiores' como reis, heróis, profetas, salvadores, etc., ou na figura de símbolos de totalidade como o círculo, o quadrilátero, a quadratura do círculo, a cruz, etc. Enquando representa um "comploexio oppositorum', uma união dos opostos, também pode manifestar-se como dualidade unificada, como, por exemplo, no tao, onde concorrem o yang e o yin, como irmãos em litígio, ou como o herói e seu rival". 13

Todas essas imagens se referem a uma instância superior, que apa¬rece para 'salvar' o ego de si próprio, de seu autocentramento ou de sua unilateralidade, quando se faz necessário.

Whitmont apresenta o trabalho com sonhos para mostrar essa atuação do si-mesmo como uma entidade compensadora e complementadora, que não opera ao acaso, mas conforme uma padronização de desenvolvimento que parece existir independente do consciente, mesmo que tudo isso esteja em desacordo com os desejos, ideias e intenções do eu. Também usa para o si-mesmo a noção de um sistema de orientação central dirigido para a realização e a experiência consciente, a integridade predestinada, não meramente de inteireza humana geral, mas da integridade específica de uma vida individual que procura a realização. Pode ser visto como o arquétipo da autoridade central, que governa tanto o mecanismo consciente como o inconsciente, tanto a realidade exterior como a interior.14

Ainda, o autor faz a seguinte analogia para a compreensão da relação ego—Self. se a personalidade fosse uma cidade, o ego seria o prefeito. Essa cidade contaria então com moradores que o prefeito nunca viu, e também acabaria descobrindo outras autoridades que não estão sob seu comando, que parecem obedecer a uma autoridade central, cuja existência ele desconheceria.

Essa autoridade central, que é o si-mesmo, "também poderia ser chamado de 'Deus dentro de nós'. Os primórdios de toda a nossa vida psíquica parecem estar inextrincavelmente enraizados nesse ponto, e todos os nossos propósitos mais elevados e supremos parecem estar lutando por ele"}

O conceito é abordado por Joanna de Angelis em diferentes momentos de sua Série Psicológica, e percebemos que quanto mais avança em seus trabalhos, mais usa e amplia esse conceito.

Em Autodescobrimento: uma busca interior, além dos preciosos ensinamentos, encontramos certa referência ao "eu superior", que organiza o ser; e, quanto ao indivíduo que, à medida que descobre o Si, consciente da sua realidade e origem divina, faz-se humilde.'s Mais à frente, a autora espiritual explica que, até determinado momento da vida, o ego pode atuar como caprichoso, dominador, porque permanece com mais vigor do que o Self. Porém, a atração do Self enseja o arrebentar das algemas para uma conquista interior, que decorre da reflexão em torno dos objetivos da existencia física, do reconhecimento da impermanencia da matéria e da transitoriedade do ego frente ao desenvolvimento do Si, da harmonia do eu profundo.11

Na preciosa obra sobre afetividade, denominada Amor, Imbatível Amor, há um item chamado "Perda do si", no qual a mentora explana sobre a perda do Si como efeito da vida moderna, esmagados pela propaganda que nos perturba e pelas aspirações e gostos gerais. Mas, além disso, ela nos acrescenta o raciocínio de que muitas pessoas aparentemente exitosas, supostos triunfadores, arrogantes, excêntricos, embora pareçam cheios de si, na verdade compensam a ausência da individualidade com uma explosão do ego que aturde. São indivíduos atormentados e inseguros buscando atitudes de autoafirmação por estarem desidentificados do Si.16

No profundo livro O Despertar do Espírito, nos deparamos com o termo superconsciente como equivalente ao Self também conhecido como inconsciente superior, como "área nobre do ser é o fulcro da Inspiração Divina, onde se estabelecem os paradigmas orientadores do processo da evolução". Em ligação com o Psiquismo Cósmico, recebe forças específicas para o desenvolvimento intelecto-moral, da afetividade, das expressões sexuais e de outros fenômenos que afetarão o comportamento psicológico. 17

Ao longo da extraordinária obra Encontro com a Paz e a Saúde, existem várias referências ao Self, que vão se completando uma a uma até o final, coroados com o item "O Self imortal". Ali, Joanna faz re¬ferências a Jung e sua definição de Self para depois ampliar o conceito mostrando que se trata de um equivalente do princípio inteligente, con¬forme o entendimento da Doutrina Espírita. E diz categoricamente: "convimos afirmar, portanto, que o Self, ou espírito criado por Deus, não pode fugir à sua fatalidade imarcescível na conquista da perfeição".

Em Psicologia da Gratidão, encontramos um verdadeiro tratado de saúde mental. Novamente a mentora cita Jung para definir o Self aqui ela acrescenta à Psicologia Analítica o entendimento de que os arquivos do inconsciente coletivo, à luz da Doutrina Espírita, são o resultado de vivências que o Espírito realizou em reencarnações transatas através dos tempos, conduzindo essas heranças impressas em seu perispírito. 19

E para finalizar essa pequena revisão da Série Psicológica, queremos ressaltar a inigualável obra Em Busca da Verdade, na qual a mentora instrui-nos com precisão a respeito do desenvolvimento da personalidade e dos principais conceitos da psicologia junguiana, por meio da Parábola do Filho Pródigo. Ela utiliza o conceito Self ou si-mesmo em praticamente todos os capítulos, não havendo espaço aqui para essas extensas referências. Porém, registramos a profunda abordagem, desde a luta do ego e do Self, passando pelo despertamento do Self até chegar à identificação interior.

De modo geral, encontraremos sempre a necessidade da harmonia que deve viger entre o Self e o ego, restabelecendo a saúde mental através da real identificação de finalidade existencial.

Em muitos momentos, as citações sobre o Self ou si-mesmo parecem confundir o leitor por ora se referirem ao aspecto divino no ser e ora se referirem ao Ser espiritual por excelência.

Jung também apresenta essa aparente confusão quando declara que o si-mesmo é o centro da psique, uma instância supraordenadora, e em outros momentos o define como o arquétipo da totalidade, a representação da unidade dos sistemas consciente e inconsciente.

O que podemos perceber, tanto em Jung como em Joanna, é sobre a impossibilidade de separar e diferenciar algo que é uno. Nós é que ainda temos um pensamento muito linear, limitado e estagnado, pois o Espírito ao mesmo tempo em que é o todo, o somatório das reencarnações anteriores ao longo dos milênios, é também a centelha divina impulsionadora do ser para a perfeição - é a representação de Deus em essência e por isso é o arquétipo ordenador de todo o sistema.

Independente do centro ou do todo, eles declaram o processo de transcender a realidade factual e ilusória do ego. Referem-se ao Espírito ou essência, que precisa se identificar como tal e se reconhecer enquanto filho de Deus, voltando-se assim para Ele. Por isso Joanna diz que "o Self é o arquétipo básico da vida consciente, o princípio inteligente, somatório de todas as experiências evolutivas, sempre avançando na direção do estado numinoso".20

Simboliza para nós a essência divina, lúcida e consciente, como o diamante lapidado, despido da matéria bruta que significa o apego e as ilusões do ego adoecido. Cristo, portanto, representa a meta final, quando conquistarmos o si-mesmo, na condição de espíritos bem-aventurados, conscientes da nossa destinação divina.

INDIVIDUAÇÃO

Na obra Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo, Jung define individuação como "processo de formação e particularização do ser individual".2 Essa referência a um processo é deveras importante, pois anula a idéia de um suposto estado - individuado - ou mesmo da concepção de um final a chegar. Em uma concepção materialista fica claro a definição que não existe um "homem individuado", alguém que chegou lá. E' na compreensão reencarnacionista, podemos entender que um dia "chegaremos lá", mas certamente não será nessa nem nas próximas reencarnações, tendo em vista que ainda não estamos nem na metade da caminhada.

Em termos psicológicos, a individuação é um processo, uma aproximação em direção ao centro e não um lugar específico a ser conquistado. É um caminho, uma meta, um direcionamento ou uma postura frente à vida. E se o si-mesmo é esse princípio, um arquétipo de orientação, de sentido, seu resgate em nossas vidas é a retomada da nossa direção interior.

Jung diz que "a meta só importa enquanto idéia; o essencial, porém, é o opus (a obra) que conduz à meta: ele dá sentido à vida enquanto esta dura"}2 Viver essa noção de meta, e sentir-se cada vez mais próximo dela, embora sem conhecer o final, é algo que produz um efeito profundo em nossas vidas, dando sentido às experiências e estimulando o processo de crescimento interior.

Estudiosos da língua informam que individuação vem do latim "individuus", que significa "indiviso", "não fragmentado" ou "inteiro". Outros afirmam que vem de "individum", referindo-se a "corpo indivisível"'ou "que não pode ser dividido".

Essas são justamente as descrições da nossa língua para indivíduo. O dicionário define indivíduo como "não dividual; indiviso; qualquer ser concreto, conhecido por meio da experiência, que possui uma unidade de caracteres e forma um todo reconhecível; o ser humano considerado isoladamente na coletividade, na comunidade de que faz parte; cidadão; homem indeterminado ou cujo nome não se anuncia; pessoa". Individual é "relativo ou próprio do indivíduo; relativo ou próprio para apenas um ser, objeto ou situação; sem igual; marcado pela originalidade; especial, ímpar, único.''E, por fim, individualidade é definida como "qualidade, caráter do que é individual, do que existe como indivíduo; conjunto de atributos que distingue um indivíduo ou uma coisa; conjunto de atributos que constitui a originalidade, a unicidade de alguém ou de algo".21

Através dessas palavras, é possível verificar que, embora sejamos membros de uma mesma espécie, com muitos hábitos e características em comum, existe em todo ser algo único, particular. Por isso, dizemos que a individuação é um movimento natural, uma necessidade interior, uma força que pulsa dentro de nós para uma realização espontânea dessa unicidade.

Muito do que nos diferencia uns dos outros pode ser facilmente identificado. Até pessoas bem parecidas ou mesmo os gêmeos idênticos (univitelinos) não são absolutamente iguais, nem em aparência, muito menos em personalidade.

Percebemos que o caminho da individuação é um encontro profundo com nós mesmos, com a divindade que nos compõe, com esse "apriori"que nos dirige tão fortemente. Por isso, afirmamos que o processo de individuação é uma oposição à aparência, ao materialismo e ao individualismo.

Oposição à aparência

Quando o mestre suíço diz que "a meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona".22

Nào faremos maiores delongas sobre o papel da persona em nossas vidas e sua importância para a adaptação social, considerando que esse tema já foi abordado anteriormente. Queremos ressaltar o fato de que para atendermos a um papel exterior, idealizado, vamos nos alienando de nós mesmos, de quem verdadeiramente somos. Acreditamos, equivocadamente, que assim adaptados, ao que o mundo supostamente espera de nós, seremos aceitos e reconhecidos. Cremos, imaturamente, que se nos encaixarmos dentro dos padrões atuais e somente assim seremos merecedores do amor e do valor do mundo, sem perceber que entramos em um caminho de fuga desesperada de nós mesmos.

Já argumentamos em favor desse processo de adaptação necessário à inserção social, mas o equívoco pessoal está em crermos que isso nos proporcionará a realização interior, e assim seremos plenos e felizes. O que a experiência mostrou ao eminente analista e têm mostrado a todos nós que trabalhamos com saúde mental é que, a partir de determinado momento da vida, cada passo que o sujeito dá em direção ao ideal externo, é um passo mais distante de si mesmo. A adaptação ao meio e o encontro profundo consigo têm se mostrado vivências opostas, pois os valores do mundo estão pautados muito mais na aparência.

O mais claro exemplo disso foi Jesus. Considerado completamente desadaptado ao mundo, pois estava vivendo sob as regras do Pai, e não as mundanas - embora conhecesse profundamente as leis e os homens, e soubesse segui-las.

Infelizmente, fomos criados e criamos os valores para atendermos e sermos vitoriosos no mundo, e não vitoriosos do mundo, como nos ensinou Jesus, em João, 16: 33: "No mundo tereis aflições, mas animai-vos, eu venci o mundo"}* Por isso, pagamos o preço mais alto que existe para a alma - a alienação da nossa essência.

Somos algo a priori, e por isso não podemos nos comportar como seres recém-criados que têm liberdade de escolher para si o que querem ser. Temos uma essência pulsante, para não dizer determinante, influenciando de dentro para fora e que precisa ser ouvida. Ao contrário, desejamos nos impor alguns ideais, através das máscaras do orgulho, do egocentrismo, da insegurança, como se fosse possível negar quem somos e submeter nossa alma ao pensamento infantil do 'EU QUERO E PRONTO'".

Ressaltamos que o problema não está em termos ideais nobres, mas na imaturidade de não reconhecermos nossa estatura moral (aquilo que já temos a priori) para tal empreendimento. O ideal é uma meta, algo que nos impulsiona, jamais uma obrigação à qual devemos nos Impor. Se nos fazemos isso, em geral será por motivos externos, pois Deus não se impõe. E por ser externo, será superficial, falso, passageiro, correndo o risco de nos mascararmos para os outros e para nós mesmos, crendo ter atingido algo que nossa alma não comporta.

O belo texto de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado "O homem de bem", aborda que o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e caridade na sua mais completa pureza. Tem fé no futuro. É bom, humano e benevolente para com todos. É indulgente. Estuda suas próprias imperfeições. E por que não agimos assim?

A resposta que a Psicologia e o Espiritismo nos oferecem é que não somos simplesmente um corpo, criados como uma tabula rasa. Existe sempre aquele "a priori", de Jung. E a base da qual começamos essa caminhada. Nosso ponto de partida atual. Ter noção do texto do homem de bem nos faz sentir esse impulso vibrante de querer melhorar, sem nos acomodarmos ao que somos ou temos, sem nos satisfazermos com nossas ignorâncias e desejarmos mais. Mas esse desejo precisa ser maduro, no sentido da compreensão exata de quem somos e do que está ao nosso alcance nesse breve período em que nos encontramos na Terra.

Para uma criança, desejar uma profissão é algo significativo, que lhe impulsiona a querer estudar. Mas se essa criança desejar ingressar na Universidade, não terá permissão sem antes vivenciar o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, pois há uma grande etapa a ser cumprida com êxito. Ninguém deseja que ela desista do seu ideal, mas é preciso que reconheça onde está em sua caminhada estudantil para que continue seu desenvolvimento escolar de onde parou, tendo consciência do percurso a superar.

O grande risco que temos de sabotar nosso verdadeiro desejo de transformação e crescimento interior está em não sermos capazes de Suportar a ilustração de reconhecermos nossa pequenez. Se não formos capazes de aceitar nossa verdadeira estatura moral, criaremos mais máscaras para fingir para os outros e para nós mesmos o que não somos. Talvez por isso C. G. Jung tenha dito: "Nada é tão difícil quanto suportar-se a si mesmo"?

Em face dessa ilusão que desejamos criar a nosso próprio respeito, Jung atesta "a renúncia do si-mesmo em favor do coletivo corresponde a um ideal social; passa até mesmo por dever social e virtude, embora possa significar às vezes um abuso egoísta".22 Se refletirmos mais profundamente, certos comportamentos de adequação social são condutas oportunistas e egoístas por trazerem como pano de fundo a preocupação única de reconhecimento e valorização do eu.

Para viver a essência é preciso estar mais conectado às necessidades do eu profundo do que às necessidades de aplausos e confetes do mundo. Até porque é comum as necessidades interiores produzirem um desajuste exterior e certo mal-estar frente às formas aceitas e estimuladas pelo social. Supomos que esse é um dos aspectos que fez Jesus declarar em Mateus, 10: 34: "Não penseis que vim trazer paz sobre a Terra. Não vim trazer paz, mas a espada',23 proclamando, conforme diz Kardec,25 uma doutrina que solaparia pela base os abusos de que viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo, pois muitas vezes nos assemelhamos a esses abusadores.

E prossegue o nobre Galileu em Mateus, 10: 38-39: "Quem não toma a sua cruz e não segue atrás de mim, não é digno de mim. Aquele que tiver encontrado a sua vida a perderá, e aquele que tiver perdido a sua vida por minha causa, a encontrará".3

Eis aqui o grande chamado, o encontro com o profundo, representando nas palavras de Jesus o processo de individuação que tentamos retratar até aqui. E' necessário viver o desencontro da persona, perder-se em relação ao mundo, para encontrar o essencial.

A teoria junguiana está em plena sintonia com as palavras de Jesus, retratando nos dias atuais o alto preço a ser pago por todo aquele que busca anular o si-mesmo.11 Esse resultado do desencontro interior é muito mais presente em nossas vidas do que imaginamos ou poderíamos supor; e, conduzir a personalidade em direção à totalidade que somos é, muitas vezes, um percurso contrário ao convite do mundo.

"O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, idéias obsessivas, fraquezas, vícios, etc.

Certamente há momentos em que nos apresentamos com características que não são verdadeiras. Vivemos dias em que sabemos o que é esperado, posicionamos adequadamente nossos discursos e até forjamos atitudes, porém, nossa alma não acompanha esse comando do intelecto. Para atender às loucuras do mundo, traímos a divindade que somos. Essa alienação produz muito sofrimento. Vivemos uma vida sem alma, vazios de nós mesmos, de Deus.

Por vivermos essa alienação em massa, em que a loucura parece ser normal, é que Stein nos motiva: "A tarefa agora consiste em unificar o ego com o inconsciente, o qual contém a vida não vivida da pessoa e o seu potencial não realizado. Esse desenvolvimento na segunda metade da vida é o clássico significado junguiano de individuação — tornar-se o que a pessoa já é potencialmente, mas agora de um modo mais profundo e mais consciente"}

Oposição ao materialismo

Quando estudamos a individuação, nos sentimos impelidos ao desenvolvimento da alma, pois individuação é a busca pela totalidade existencial. E isso é, em última instância, uma oposição ao materialismo, que tantas vezes Kardec combateu e solicitou que destruíssemos. E' a negação da teoria de que as conquistas materiais produzem um estado de equilíbrio e harmonia interior.

" Jung afirma que Cristo elucida o arquétipo do si-mesmo. Representa uma totalidade de natureza divina ou celeste, um homem transfigurado, um Filho de Deus sine macula peccati, que não foi manchado pelo pecado. (...) Cristo é a verdadeira imago Dei (Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, pp. 52-53, § 70).

'"Sugerimos a leitura da continuidade do texto em JUNG, C. G. O eu e o inconsciente (Obras Completas, vol. 7/2, § 307).

Enquanto acreditamos que a felicidade está na realização de nossas fantasias materiais, e que o objetivo da vida é adaptar-se bem ao mundo e adequar-se às exigências da aparência, estamos agindo como materialistas. O estudo da individuação vem atestar que enquanto não ouvirmos, contatarmos e atendermos o chamado de nossa alma, mesmo possuindo tudo no mundo, nos sentiremos vazios: vazios de nós mesmos.

Desde o início de nossas vidas terrenas, a sociedade nos incentiva ao materialismo. As crianças têm aprendido desde cedo a cuidar do corpo e se preocupar com as marcas e status, inspiradas por modelos da atualidade neurótica. Os jovens se sentem cada vez mais empurrados para as "profissões de sucesso". As propagandas também usam desse filão, convencendo as massas, por meio da mídia em geral, que feliz é aquele que tem poder aquisitivo para desfrutar, que faz uso de determinados alcoólicos, que tem aquela roupa ou aquele carro, que assim seremos alguém.

Atualmente vivemos a "febre" das viagens ao exterior, das roupas de grife, dos carros caros, das boas comidas e bons restaurantes, mesmo que para usufruir de tudo isso seja necessário vender a nossa alma. Desejamos trabalhos que cada vez nos dêem maiores salários, mesmo que paguemos o preço da nossa mediocridade ou insatisfação, aguardando desejosos o dia da aposentadoria para "começarmos a viver". Vendemos nossos dias em família, com amigos, ou mesmo sua tranquilidade e equilíbrio, por horas extras que são quase todas direcionadas ao pagamento das necessidades ilusórias que criamos.

Muitos de nós não arrumamos mais tempo para meditar diariamente, para orar e fazer uma leitura edificante, para trabalhar pelo próximo de maneira significativa ou para nos dedicarmos a uma instituição religiosa um pouco mais do que o convencional, afinal de contas, precisamos fazer a manutenção de um mundo adoecido, de necessidades ilusórias.

Vivemos dias de um materialismo aferrado, que não é percebido por fazer parte da vida de quase todos nós, o comum é visto como normal ou natural, e até esperado. E os pais quando solicitados a estarem maior tempo com seus filhos, seguramente dizem: "meu filho, um dia você vai entender".

O si-mesmo nos faz um chamado. Ali se encontram as respostas mais profundas e verdadeiras a nosso respeito, aquilo que efetivamente nos realizará e nos tornará mais plenos - tudo o que a ilusão do materialismo promete, mas não cumpre.

A individuação é oposição ao materialismo porque privilegia o cuidado interior, o desenvolvimento da transcendência, da superação do convencional e do supostamente adequado para atendimento das necessidades da alma.

O encontro com o si-mesmo é transcendência do ego, assim como a vivência espiritual é transcendência da matéria. Transcender não pode ser entendido como negar ou anular, mas sim como não deixar que essa dimensão impermanente se torne a finalidade única ou última.

Oposição ao individualismo

Quando Jung afirma que o desenvolvimento da personalidade "trata-se de dizer sim a si mesmo, de se tomar como a mais séria das tarefas",26 não podemos fazer um recorte interesseiro; devemos estar alertas para não confundirmos individuação com individualismo, ou desconsideração pelo mundo e pela sociedade.

Interpretações como essa não são raras à medida que as pessoas começam a ler ou se conhecer e descobrir algumas de suas necessidades - acreditando-se, egoicamente, o centro do mundo e que este deve ser em função delas.

Individualismo, segundo o dicionário, quer dizer "tendência, atitude de quem revela pouca ou nenhuma solidariedade e busca viver exclusivamente para si; egoísmo; teoria que privilegia o indivíduo em detrimento da sociedade".

Individuação, como apresenta Jung, não está orientada contra a norma coletiva, mas orientada apenas de outro modo. Isso não quer dizer que o ego precisa se opor à sociedade, e sim, que ele deve ser regido por um novo paradigma, por um outro deus. Acontece que para a adequação ao coletivo atual, fazemos um processo de anulação do essencial, e mais cedo ou mais tarde, teremos que fazer esse resgate em nós mesmos. A individuação leva a uma valorização natural das normas aceito e do comum.

Individuação no sentido de tornar-se único, sem divisão, sem a mistura na massa ou no coletivo também pode induzir a um estado de arrogancia, quando as pessoas dizem "eu sou mais eu", ou se crêem "analisadas". No entanto, a busca por "não se misturar" está relacionada ao sujeito que não projeta seus conteúdos no outro, mas isso não quer dizer que é indiferente ao outro. Individuação quer dizer maior responsabilização pelo que é seu, em detrimento dos complexos dos outros, das suas alienações e fugas. Não se misturar pode ser não se deixar levar pelas aparências do mundo, ao mesmo tempo em que se sabe respeitar as diferenças, e também não se vitimizar, culpar o mundo, constranger os demais com suas dores, porque sendo único, sabe se responsabilizar pela sua própria vida.

Individuação é um processo interno, e ao mesmo tempo de total relação com o outro. A conquista da totalidade que somos inclui o ser social, conectado a tudo e a todos. Por isso, Joanna explica que "a busca da individuação é também a maneira psicológica de encontrar-se o melhor meio para o bom relacionamento com o Si-mesmo, com o outro, com a sociedade".27

Encontrar-se consigo não pressupõe o isolamento ou distanciamento da sociedade. Isso seria uma forma de alienação. A mentora continua sua explicação mostrando que essa justificativa de afastar-se do mundo para encontrar Deus oculta um forte conflito em relação ao próximo.

Conectar-se ao si mesmo é conectar-se com a fonte de amor dentro de nós. Amar como Jesus, sem se submeter aos caprichos do mundo. Ser sábio, capaz de silenciar quando necessário e de amar profundamente. Reconhecer-se é um processo de humanização, e, por isso, inclui-se como consequência o reconhecimento do outro e a necessidade de intercâmbio com ele. Embora seja ainda difícil para nós, pela incapacidade de sentirmos isso em plenitude, estamos retratando uma conexão interna que não é do ego, e sim do Self; um sentimento de solidariedade geral que é criado pelo Self, sem a interferência obtusa e interesseira do ego. Por isso, Franz teoriza "a devoção incondicional ao nosso processo de individuação traz também melhor adaptação social".28

INDIVIDUAÇÃO E ESPIRITISMO

Como espíritas, entendemos que os teóricos da psicologia analítica identificaram no ser humano algo maior que suas experiências pessoais atuais, expressando de outra forma o que entendemos como experiência das vivências passadas. Eles atribuíram ao inconsciente coletivo tudo aquilo que extrapola ao vivido atualmente, e formalizaram assim uma forma de estudar esse mundo preexistente e constitutivo do ser.

Independentemente de compreender se esse mundo "apriori" é - corre de vivências anteriores ou do mundo arquetípico, seus argumentos atestam, assim como o Espiritismo, a necessidade de contato com essa preexistência em nós.

Considerando as vivências pretéritas, desavisadamente, poderíamos supor que individuação seria o processo de acessar os conteúdos das vidas passadas e nos tornarmos quem éramos nas anteriores existências, a pura repetição de nossas antigas condutas. Mas essa idéia seria absurda e negaria a lógica evolutiva da reencarnação, quando o Pai nos oferece uma nova oportunidade, em novo contexto, com experiências diferenciadas para nossa evolução e transformação moral.

O que é apagado de nossa mente, em geral e para a maioria das pessoas, são os fatos e não a moral. Já temos uma vivência de moralidade, embora possamos ter total esquecimento do que fomos ou já fizemos em outras existências.

O processo de individuação, proposto por Jung, significa para nós, espíritas, retomarmos o percurso de nossa evolução moral de onde paramos. Alegóricamente, seria como termos completado o terceiro ano na reencarnação anterior e querermos, na atual, retomar a partir do sexto ano, por aparentarmos condições melhores. Seria como conseguir o material do sexto ano, o uniforme da série adiantada e acreditar que, pelo exterior, teríamos condição de nos manter adequadamente.

Supondo que assim fizéssemos, a vida se encarregaria de nos mostrar essa discrepância. E assim ocorre, basta querermos ouvir seu doce chamado como o servo que atende seu senhor. Caso contrário, poderemos até tentar permanecer no sexto ano, mas perceberemos o descompasso dentro de nós por não termos realizado os anos anteriores - esse somos nós quando não queremos sentir raiva, não queremos sentir tristeza, perdoando para que Deus faça justiça, suportando o cônjuge para se livrar dele na próxima reencarnação, amando, mas exigindo ser amado, fazendo caridade desejando reconhecimento, embora tudo isso possa ser inconsciente.

Precisamos ter consciência e aceitar nossas limitações, desencontros, necessidades e impedimentos, e não negá-los, para obter a conduta - que será apenas exterior - de um ano superior ao que estamos em verdade.

Ao concluir o terceiro ano, devemos adentrar o quarto e não o sexto, mesmo que nos esforcemos para construir a aparência dele - as personas da série adiantada. Isso quer dizer que precisamos retomar quem somos, para que o progresso seja natural, sem destoarmos das imagens que fazem parte de nós, fingindo ser um eu artificial que não comportamos, na busca de uma imagem ideal inexistente e inatingível para o momento, que se mantém como uma performance mascarada e oculta de nós mesmos.

Essa lucidez a respeito dos arquétipos que influenciam as nossas vidas, ou poderíamos dizer, das realizações das reencarnações passadas, geram uma transformação profunda no ser, agora mais consciente de si e do seu caminhar. Isso nos parece o fundamento para direcionar os passos seguintes.

Em outras palavras, precisamos saber de onde viemos para compreender para onde poderemos ir. Cada reencarnação é parte de um processo contínuo do todo que se chama evolução. Esse presente momento é a continuidade do processo, sem a ilusão que nos afasta de quem moralmente somos, nem a idealização que nos despersonaliza.

Além do mais, queremos ressaltar que ao mesmo tempo em que o inconsciente é um arquivo onde se encontram registradas todas as nossas experiências, desde a criação quando simples e ignorantes, ele não é só isso. O inconsciente também é a nascente de todo o nosso potencial, de tudo que seremos daqui para frente, determinado pela essência, e nao pela aparência. Ou seja, no inconsciente encontra-se a conexão entre o presente e o passado. Elo esse que não nos permite fugir de quem somos, nem nos desobrigar de quem seremos. Por isso, dizemos que no inconsciente encontra-se a ligação entre o passado, o presente e o futuro, respondendo, de alguma maneira, aos grandes questionamentos da humanidade: quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

O aspecto delicado da questão é que, em geral, não queremos nos conectar a tudo que já fomos e fizemos no passado, porque isso nos diminui. E existem aqueles que não querem se ligar ao futuro porque isso lhes desacomoda. Pensar em tudo que já fomos, fizemos e ainda somos capazes de fazer é, muitas vezes, um grande espinho ao ego exacerbado. E pensar no futuro e no desenvolvimento das potencialidades pode ser uma grande ofensa ao ego acomodado.

O contato com o inconsciente proporciona a perfeita comunhão entre o que fomos, o que somos e o que seremos, sem saltos ou estereótipos, aceitando-nos, sem nos escondermos atrás das máscaras, tampouco descambando para posturas extremas e permissivas, desencontradas com nossa essência.

Nesse sentido, Joanna explica que no processo de desenvolvimento é comum desejarmos a independência, sem mesmo sabermos do que se trata - confundirmos liberdade com libertinagem; ansiarmos o prazer que pensamos derivar do poder; e nos arrojarmos às aventuras doentias e perturbadoras - em que o sofrimento nos trará maturidade, como o filho pródigo que vivenciou um período angustiante, para somente então pensar em voltar para casa.29

Podemos, então, compreender que a individuação está ligada a assumir quem somos até aqui, equacionando com a submissão aos nobres valores latentes no ser.

Coragem, fé e humildade

No caminho de descoberta do inconsciente, quando o ego começa a perceber que é apenas uma pequena parcela de toda a psique, há sempre um choque ou um deslumbramento. Isso ocorre na medida em que o eu é obrigado a identificar que, muito menos do que dirigir, ele é Vivemos a dificuldade de nos encontrarmos porque assumir-se é algo perturbador.

Whitmont afirma que, para o ego, reconhecer que existe um plano, com metas e valores que vão além dos seus, podendo até mesmo contradizer os seus, abala o status quo da personalidade, e muitas vezes é tido como uma ameaça ou desafio à ordem estabelecida pelo ego.4

Jung relata que no contato com o desconhecido, em si, era vivido algumas vezes como uma derrota pessoal, porque se via obrigado a assumir que até aquele momento era um ignorante, desconhecendo muitas verdades sobre si mesmo.1

E' uma derrota para o ego, pois necessita abrir mão do suposto controle da vida. Obviamente isso não quer dizer ser irresponsável para com a vida que Deus nos deu, mas identificar a utopia de total controle sobre ela. Somente assim, Ele poderá assumir o real controle e o eu poderá se restringir àquilo que é de fato sua responsabilidade. Por isso, individuação é também uma questão de fé, não uma conquista a ser reconhecida e aplaudida por ninguém. É um processo silencioso, interior, árduo e sofrido, porém, e ao mesmo tempo, libertador.

Viver o si-mesmo não elimina o sofrimento da vida, mas aumenta a capacidade de atribuir sentido ao sofrimento. Assim, transformamos as dores em degraus para a evolução.

Viver o si-mesmo não torna a vida material melhor, mas nos faz espiritualizar a matéria. Assim transformamos os fatos comuns em realidades psicológicas.

Marie Luiz Von Franz, no lindo capítulo já citado, escreve sobre os sonhos e a individuação, e apresenta, de maneira muito didática e clara, o encontro com algumas presenças inconscientes em nós que precisam ser contatadas: a sombra, anima/animus e o Self. Um crescimento psíquico no sentido de ampliação de quem somos. É a descoberta de que somos muito mais do que imaginávamos. É o ego descobrindo-se infinitamente pequeno em relação ao si-mesmo.

Por isso, individuação é também um processo de humildade. Não é uma postura de anulação, de ausência de vontade, de indiferença. O ego não é aniquilado ou diminuído no processo de integração, o que mais flexíveis.

Para adentrarmos o caminho da individuação é preciso se ver pequeno, faltoso, incompleto. Precisamos primeiro assumir que ainda não somos um todo integrado, que nosso funcionamento psicológico atual é fragmentado. Precisamos ter coragem para, como simboliza Joanna, mergulhar no abismo de nós mesmos, sem traumas ou choques, sem ansiedades ou inquietações.30

Por isso, individuação é, antes de tudo, um exercício de coragem, fé e humildade. Somente assim, assumindo a pequenez que estamos é que poderemos permitir viver e sermos governados pela divindade que somos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 JUNG, C. G. Memórias, sonhos e reflexões. 22. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, cap. A Génese da obra, p. 183-184.
2 Idem, Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2011 (Obras Completas Vol. 9/2), cap. 1 - O eu, § 8.
3 Idem, Fundamentos de psicologia analítica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1983 (Obras Completas Vol. 18/1) - prefácio.
4 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Em busca da verdade. Salvador: LEAL, 2009, cap. 7.
5¦JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2011 (Obras Completas Vol. 9/1), cap. 10 - Consciência, Inconsciente e Individuação, § 500.
6 Idem, O eu e o inconsciente. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2003 (Obras Completas Vol. 7/2), Parte II, cap. 3, A técnica da diferenciação entre o eu e as figuras do incons¬ciente, § 373.
7 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Em busca da verdade. Salvador: LEAL, 2009, cap. 4.8
8 STEIN, M. Jung: o mapa da alma. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2006, cap. 8.
9 ROTH, W. Introdução à psicologia de C. G. Jung. 2. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2012, cap. 5.
10 JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2012 (Obras Completas Vol. 6), cap. 11 - Definições, § 853-855.
II ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Autodescobrimento: uma busca interior. Salvador: LEAL, 2001, cap. 12.

JOANNA DE ÂNGELIS