Estudando o Espiritismo

Observe os links ao lado. Eles podem ter artigos com o mesmo tema que você está pesquisando.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

CARIDADE PARA COM OS CRIMINOSOS


A violência hoje domina as manchetes dos jornais de todo o mundo. Crimes bárbaros, cruéis e hediondos aos poucos vão tornando as pessoas mais frias, após o choque de revolta do primeiro instante. Mas logo vem outra, e mais outra, e vai sumindo o interesse Ou melhor, o desinteresse vai aumentando. Acostumamos-nos a isso, e passamos a achar tudo isso muito banal.

Em vista de notícias como estas, infelizmente tão comuns nos dias de hoje, recordamos a pergunta 746 do LE:
“É crime aos olhos de Deus o assassínio?”
“Grande crime, pois aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal”.

A partir da resposta dos Espíritos entendemos que um dos grandes problemas do crime é interrompermos a existência alheia, uma existência que poderia estar sendo levada com muita seriedade por parte do espírito que foi atingido. Comprometemo-nos não apenas com a nossa consciência, mas também por interferirmos no destino de irmãos que, a partir deste instante, se liga ao nosso, até que possamos corrigir nossa falta e continuar nossa marcha rumo ao progresso.

Mas, nos dias de hoje, temos um agravante a mais para considerarmos: a mídia, que leva em tempo real as notícias que ocorrem a todo instante. Estamos permanentemente conectados ao dia-a-dia do mundo, seja através da internet, do rádio ou da televisão. E como conhecemos apenas um lado da notícia, ou seja, o lado do portador da mesma, nós formamos nossa opinião baseada na postura tratada pelo repórter ou apresentador. Julgamos sem conhecer todos os fatos que envolvem a história. Julgamos levados, muitas vezes, pela calúnia e maledicência que ainda impera na mente de muitos irmãos em desequilíbrio. E isto é um fato tão perigoso quanto o próprio crime.

Ao lermos ou ouvirmos tais notícias, somos levados a tomar um partido sobre um dos lados da questão, sob pena de parecermos alienados. E julgamos porque somos cidadãos honestos que querem paz e justiça neste mundo em que vivemos.

Mas o que de fato fazemos pela paz no mundo?

Analisando friamente nossa consciência, não descobrimos nenhum ponto que possa ter, ainda que inconscientemente, estimulado a violência? Quando utilizamos drogas, não contribuímos para o tráfico? Quando facilitamos o uso de bebidas, não abrimos o caminho para o desequilíbrio de irmãos ainda vacilantes e fracos, que alheios ao que fazem, causam tragédias diversas? Quando negamos a caridade aos necessitados, não estamos fomentando a revolta social, estimulando uma nova luta de classes?

Se respondermos sim a qualquer uma destas perguntas, então estamos envolvidos no problema. E que moral temos de julgar, se auxiliamos de uma forma ou de outra posturas que nos parecem monstruosas?

No entanto, como verdadeiros hipócritas, fazemos passeatas, colocamos camisetas brancas, mas continuamos vivendo do mesmo modo, sem olhar para o fundo da questão.

Mas isto não é de hoje. Jesus nos o exemplo da mulher adúltera. E no momento em que as pessoas se preparavam para a lei, Jesus, instigando o povo à reflexão, ávido por “justiça”, falou com voz firme: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (S. João, cap. VIII, vv. 3 a 11)

A verdade absoluta é que não temos nenhuma condição moral alguma para julgar. E se o fazemos, estamos nos colocando em evidência para sermos tratados da mesma forma, como nos mostra o Evangelho:

“Não julgueis, a fim de não serdes julgados; - porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que tenhais servido para com os outros” (S. Mateus, cap. VII, vv 1 e 2)

Quem garante que não fizemos coisas piores em um passado talvez remoto?

Devemos, sim, combater o mal e lutar por justiça, mas há uma forma correta de se buscar a paz. Vamos lembrar, seguindo Kardec, que a “autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura. (...) Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo que se dá do bem”.

Uma vez que não dispomos desta autoridade legítima, devido ao nosso próprio estágio evolutivo, não há condições adequadas para julgarmos os criminosos que nos amedrontam.

Mas quem são de fato os criminosos? Antes de tudo, há que se entender que o criminoso é um ser humano como qualquer outro. É um irmão que se desviou do caminho correto, motivado por toda espécie de problemas. Infelizmente, pelo poder de influência da mídia, muitas vezes somos levados a acreditar que os criminosos (principalmente aqueles que cometeram crimes hediondos) são seres animalizados, bestas humanas que atormentam e destroem a vida das pessoas. São seres que viveram e vivem ainda à margem da sociedade, seja por opção própria, seja como resultado de ambientes sociais complexos. De qualquer forma, são seres que precisam e merecem nosso respeito e ajuda.

Além do mais, precisamos entender que ninguém reencarna com a missão de matar.

Na resposta da pergunta 861 do LE, os Espíritos alertam que “escolhendo uma vida de lutas, sabe que terá ensejo de matar um de seus semelhantes, mas não sabe se o fará, visto que o crime precederá, quase sempre, de sua parte, a deliberação de praticá-lo. Ora, aquele que delibera sobre alguma coisa é sempre livre de fazê-la, ou não. Se soubesse previamente que, como homem, teria que cometer um crime, o espírito estaria a isto predestinado. Ficai, porém, sabendo que ninguém há predestinado ao crime e que todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio.”

Em nossos grupos mediúnicos, nos acostumamos a encontrar irmãos que vivem nestas condições, que são sofredores, e que por baixo da carapaça de mal, revelam-se irmãos que choram muito, e que estão cansados da situação em que vivem. E nestas ocasiões, nos compadecemos, e fazemos um esforço muito grande para ajudá-los.

E porque temos que esperar que eles desencarnem e se tornem obsessores para receber nossa atenção?

Esta nova compreensão do problema é muito importante em momentos em que, no auge de crises de violência, toda a sociedade clama pela instituição da pena de morte, tentativa infeliz e inútil de solucionar as anomalias referentes à segurança pública.

Sabemos que a Doutrina Espírita é contra a pena de morte. Mas, e os espíritas? Nos momentos em que as notícias estão mais assustadoras, muitos espíritas alegam que “neste caso, o bandido deveria mesmo morrer!” São companheiros descuidados e que ainda não estão bastante firmes na postura cristã e doutrinária. Afinal, quem quer que se diga espírita ou cristão não poderá jamais apoiar tais movimentos, uma vez que Cristo sempre nos ensinou o amor e o perdão. Disse também que são os doentes que precisam de remédio, e não os sãos.

Entendemos que as grandes dificuldades da vida às vezes nos deixam em situações de cansaço e estresse de tal forma que precisamos de uma maneira de descarregar nossas angústias e mágoas em “alguma coisa”.

São fatos que mostram a falta de uma visão de vida superior. Falta de fé no Reino de Deus prometido por Jesus, falta de motivação para trabalhar no bem e pelo bem.

O julgamento alheio é coisa muito séria, e antes de emitirmos nossa opinião, paremos por um instante, e façamo-la passar pelo crivo da razão.

A emoção deve ser bem dirigida para ocasiões em que realmente precisamos dela.

O ideal é sempre lançar um pensamento de luz, uma prece ao espírito envolvido em crimes, pois assim demonstramos que somos efetivamente cristãos. Não vamos nos deixar levar pela turba odiosa que pede justiça com armas na mão. Lembremos que foi a voz do povo que condenou injustamente à morte o maior Espírito que pisou a Terra, que foi o nosso Mestre Jesus.

Quando lermos alguma notícia sobre crimes violentos ou hediondos, vamos nos comprometer a refrear nossos impulsos, e façamos uma prece não apenas pela vítima, mas principalmente pelos autores do crime, pois estes são os que efetivamente estão precisando de ajuda. Pois enquanto a vítima normalmente está quitando seus débitos, o criminoso está assumindo débitos novos.

Isabel de França, no Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XI, item 14, nos desafia a pensar da seguinte forma: “Observai o vosso modelo: Jesus. Que diria ele, se visse junto de si um desses desgraçados?” Com certeza não seria a condenação à pena de morte, mas o amor sublime que precisamos ainda aprender. É a verdadeira caridade, ainda nas palavras de Isabel.

Por Fernando Luiz Petrosky