Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

QUE VOSSA MÃO ESQUERDA NÃO SAIBA O QUE DÁ A DIREITA

QUE VOSSA MÃO ESQUERDA NÃO SAIBA O QUE DÁ A DIREITA


Mais uma vez torna o Evangelho ao seu tema central - a caridade - expressão ativa do amor ao próximo. Toda religião, toda moral encontram-se encerradas nos dois preceitos: "Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos que nos fizessem". Se e quando esses preceitos viessem a ser seguidos, a Terra se transformaria num recanto de paz e felicidade, aspiração até agora inatingida justamente porque o egoísmo e a agressão mútua, nas suas mais variadas formas, comandam o comportamento dos homens.

A caridade se revela no seu nível mais profundo, como instrumento essencial da evolução, quando é vista como um ato que deve ser praticado sem ostentação, sem visibilidade, como é dito: quando deres uma esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita. Aqueles que trombeteiam a sua benemerência, para serem honrados pelos homens, já recebem sua recompensa através da glória terrena, não lhes restando créditos onde mais importa, que é no mundo espiritual que a todos aguarda. A esmola, pois, deve ficar escondida, pois o Pai que está no Alto vê o que se passa em segredo e dará a devida recompensa. Muito cuidado, porém, com a modéstia falsa, pois há pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar aparecer uma pontinha, reparando se alguém as vê escondê-la. Pior ainda é a situação moral daquele que faz pesar seus benefícios sobre o beneficiado, que lhe exige de qualquer maneira os testemunhos do reconhecimento.

Além da caridade material há a caridade moral que respeita a suscetibilidade do beneficiado, fazendo-o aceitar a ajuda sem ferir seu amor-próprio e preservando sua dignidade, porque é mais fácil aceitar um serviço do que uma esmola. A verdadeira caridade sabe encontrar palavras doces e afáveis, enquanto a caridade orgulhosa humilha o beneficiado. O sublime da verdadeira generosidaade está quando o benfeitor, invertendo os papéis, acha um meio de parecer ele mesmo agradecido àquele a quem presta o serviço.

Eis o âmago da questão. Essa atitude não é uma teatralidade para deixar bem o necessitado. Verdadeiramente, quem dá é mais beneficiado do que aquele que recebe. Dar ao próximo é o caminho específico de evoluir do egoísmo, da separação, para o nível mais alto da unidade com o Criador, que se manifesta nas suas criaturas. A senda da elevação conduz o ser humano do estágio do eu egoísta para a integração no amor ilimitado, no todo universal que é Deus.

Esta é uma concepção de extrema importância nos tempos atuais, quando a ajuda aos necessitados é uma função social, podendo ser atingida através de caminhos políticos que buscam alcançar uma estrutura social mais justa. A atitude individual da caridade clássica do século passado poderia parecer superada pele "welfare state", que é o Estado moderno provendo as necessidades dos cidadãos mais desfavorecidos. Estaria, assim, eliminada a razão de ser da esmola, da caridade, destinada a amparar os miseráveis, os deserdados, os doentes, os indigentes, as crianças desvalidas, já que a sociedade pode encarregar-se dessas funções, no passado exercidas pelos indivíduos de bom coração.

Se a verdadeira caridade, no seu sentido mais profundo, consistisse apenas nesse tipo de assistência social, estaria à vista a solução dos problemas humanos. Mas o mecanismo da evolução terrena dá à caridade uma configuração muito mais complexa, já que a simples melhora das condições materiais não tem levado ao progresso moral da Humanidade, como pode ser observado nas nações mais prósperas.
A caridade, através de todas as suas manifestações, só é instrumento de evolução quando é uma expressão de amor incondicional ao próximo. Daí a atualidade do Evangelho de Kardec, mesmo quando ele exemplificava a caridade com ações individuais de assistência social, que hoje poderiam ser substituídas pela atuação mais completa do Estado. É óbvio que, ainda assim, resta um grande espaço para a ajuda material aos necessitados, por iniciativa das pessoas e instituições movidas pelo espírito de fraternidade.

"A caridade moral consiste em se suportar uns aos outros e é isto o que menos fazeis neste mundo inferior onde estais encarnados no momento", dizia significativa mensagem espiritual. E ainda em outra mensagem: "Podeis prestar caridade pelos pensamentos, palavras e atos". O essencial da caridade é a mudança de atitude interior de cada um, que não se resume apenas no gesto exterior. O que esse gesto continuado de estender a mão ao próximo faz, é ir mudando os reflexos egoístas para uma nova postura íntima. Caridade é um exercício contínuo que vai condicionando a alma para elevar-se a planos mais altos, no caminho da aproximação com a Divindade. É esse verdadeiro "treinamento" do Espíriito, que torna a caridade mais importante para aquele que dá do que para aquele que recebe.
Na prática do bem, usa o homem o seu livre arbítrio, ou seja, pode deixar de praticá-la, mas receberá, por via da lei de causa e efeito, o retorno da inquietação, da infelicidade, pois Deus, na sua infinita solicitude, colocou no fundo dos corações uma sentinela vigilante a que chamamos de consciência.

As vozes dos Espíritos elevados exortam incessantemente os homens para a prática da caridade. Dizem: "Todos vós podeis dar. A qualquer classe que pertençais, tendes alguma coisa que podeis dividir. Seja o que for que Deus vos haja dado, deveis uma parte disso àquele a quem falta o necessário, porque, no lugar deles, estaríeis bem contentes se alguém viesse dividir convosco. Vossos tesouros da Terra ficarão um pouco menores, mas vossos tesouros no céu serão mais abundantes. Vós colhereis o cêntuplo do que houverdes semeado em benefício aí na Terra".
Baruch Ben Ari