Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Vivenciando a espiritualidade em família


Queridos irmãos,
Que Jesus nos abençoe!

Vamos hoje falar sobre como vivenciar a espiritualidade em família. Comecemos compreendendo o que é família:

O QUE É FAMÍLIA

Segundo o filósofo Comte-Sponville família é:
“Conjunto de indivíduos, ligados pelo sangue, pelo casamento ou pelo amor”.

Pode ser considerada de um ponto de vista restrito, da família nuclear: pai, mãe e filhos; com também de uma perspectiva mais ampla, incluindo avós, tios e tias, primos e sobrinhos, família do cônjuge e família recomposta (que inclui os enteados, padrastos, madrastas, meios-irmãos).
Até aí todos sabemos, mas o que surpreende é a explicitação do filósofo de que:
“A família começa na criança. Um casal sem filhos não é uma família, é um casal apenas. Ao passo que uma mãe solteira que cria sozinha seu ou seus filhos, é evidentemente uma família.”
Realmente, é um fato que nem sempre temos consciente, mas que está no conceito de família, de modo que prossegue Sponville: “A família é a filiação aceita, assumida, cultivada.” Porque se, mesmo havendo uma criança, não há pais que a reconheçam como filha, como no caso daquelas que se encontram num orfanato, não temos uma família!
Mas, para o Espiritismo, o que constitui uma família?

 FAMÍLIA E ESPIRITISMO
Segundo os Espíritos da codificação, como se vê em o Evangelho segundo o Espiritismo, a família transcende as determinações do mundo material, que denominamos as relações mundanas:
“Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais.” (ESE, cap.15, item 8)
As famílias pelos laços corporais são as que se incluem nos conceitos anteriores, mas as famílias por laços espirituais nada devem ao sangue ou às convenções sociais. Pelos laços espirituais, alguns amigos são mais irmãos que irmãos de sangue e um pai e um filho podem ser mais desconhecidos que dois estrangeiros que acabaram de entrar no mesmo avião!
Isto porque os laços espirituais dizem respeito à afinidade. Falamos dos espíritos afins, que sempre se atraem e costumam renascer no mesmo ninho doméstico, mas que às vezes, por imposições das experiências que devem passar, não reencarnam próximos uns dos outros.
A lei geral, porém, é de reencarnarem na mesma família sanguínea, havendo raras exceções, segundo nos explica ainda O Evangelho Segundo o Espiritismo  (cap.15).
Espíritos que não têm afinidade com sua parentela corporal, desde cedo apresentam-se como problemáticos ou, no mínimo, estranhos. E daí se explicam as “ovelhas negras”, aquelas pessoas que fogem ao padrão do campo familiar, a ponto de incomodar sobremaneira os parentes e serem o pivô de muitas confusões.
Como podemos, então, constatar, o Espiritismo nos revela que numa família consanguínea os espíritos se reúnem por sua necessidade evolutiva, que tem ascendência sobre seu desejo afetivo. Dizem-nos várias obras psicografadas que há um planejamento anterior à reencarnação, traçado para cada família.  Como afirma Emmanuel, em O Consolador:
“O colégio familiar tem suas origens sagradas na esfera espiritual. Em seus laços reúnem-se todos aqueles que se comprometeram, no Além, a desenvolver na Terra uma tarefa construtiva de fraternidade real e definitiva.” (q. 175)
Ninguém nasce num lugar por acaso. Cada um tem a família que precisa para o objetivo de sua evolução.
Há um livro de Martins Peralva, em que o autor nos informa que nem todos os casamentos se deram por uma determinação prévia, a partir do plano espiritual. Como temos livre arbítrio, nem tudo á tão “maktub” (estava escrito) como se pode pensar. Pode acontecer de a gente reencarnar com um plano e se desviar dele, não só em questões de casamento e família como em outros eventos significativos.
Porém, este aparente acaso ainda está obedecendo à lei universal de causa e efeito. A pessoa atrai para si aquele que naquele momento lhe é afim, mesmo que seja um instante de “insanidade”. O resultado é que há um reajuste a partir do “desvio” , uma mudança de planos ou reconfiguração.
Seja como for que tenha se formado, a família terá sempre uma função teleológica.
A função teleológica da família é uma das contribuições do espiritismo para a compreensão das relações familiares.
Teleologia é a ciência que estuda as finalidades das coisas. Segundo esta perspectivas tudo tem um para quê.
Assim, a família não tem apenas um por quê (espíritos que se atraem), mas também um para quê (espíritos evoluírem).
Para quê nela nascemos? Para progredir. Segundo O Livro dos Espíritos:
“Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família tornam mais apertados os laços sociais: eis porque os laços de família são uma Lei da Natureza. Quis Deus, dessa forma, que os homens aprendessem a amar-se como irmãos.” (LE, q. 774)
A família é, portanto, uma escola onde se aperfeiçoa o Espírito imortal. E o que é que caracteriza o desenvolvimento espiritual?

AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES DO HUMANO
O desenvolvimento acontece no sentido de aproveitarmos de todas as nossas potencialidades. Todo desenvolvimento é assim. O máximo de um desenvolvimento ou a plenitude, se dá quando um ser aproveita todos os seus recursos.
Quais os recursos de um ser humano? São recursos que referem-se às diversas dimensões de sua vida:
Físicos – seu corpo
Psíquicos – sua mente
Históricos – o que herdou do seu passado
Sócio-culturais – o que herdou do seu povo
Existenciais – seu momento atual
Espirituais – sua realidade espiritual
Transcendentes – sua essência divina

Se o homem aproveitar sem restrições o que todos estes recursos lhe oferecem, o homem terá chegado à plenitude! É por isso que Jesus nos diz que devemos ser como os lírios do campo ou as aves do céu. As flores são o que são e sendo assim, são plenas. Elas vivem em plenitude o que têm e o que são. Não se encontra uma flor querendo ser o Sol, ou a água, ou a terra. Ela recebe de todos estes, mas vive o que é. Nós, seres humanos, é que estamos sempre procurando ser o que não somos ou ter o que não temos.
Hoje há uma supervalorização das dimensões materiais da vida e um descaso com as dimensões espiritual e transcendente. Não nos voltamos para Deus, nem para nós mesmos enquanto seres espirituais.

A DIMENSÃO ESPIRITUAL
Segundo Viktor Frankl, um psiquiatra judeu que esteve preso num campo de concentração na IIa Grande Guerra e desenvolveu a Logoterapia:
“De forma alguma podemos falar do homem em termos de uma unidade psicossomática. O corpo e o soma podem formar uma unidade – uma unidade psicofísica –, mas esta unidade ainda não representa o todo do homem. Sem o espiritual como base essencial, esta unidade não pode existir. Enquanto falamos apenas de corpo e psique, a integridade ainda não está dada.” Viktor Frankl
E é assim que temos feito hoje em dia. Logo no seio da família, quando começamos a incutir valores em nossos filhos, superestimamos a saúde física e mental, ignorando a espiritual. Se tivermos condições, nos preocuparemos em matricular nossos filhos numa boa escola e também num esporte, a fim de que ele se desenvolva intelectual e fisicamente.
Mas, e espiritualmente?Como podemos cuidar da dimensão espiritual na família?

VIVENCIANDO A ESPIRITUALIDADE EM FAMÍLIA
Antes de mais nada, importa esclarecer o que estamos chamando aqui de ESPIRITUAL. Será uma religião, que temos por obrigação, que ensinar aos nossos filhos? Vejamos o que é religião e o que é espiritualidade. Não são a mesma coisa.
Religião é um conjunto de crenças, prática e linguagem, que caracteriza determinada comunidade que busca o significado da transcendência de uma forma particular, geralmente baseado na crença em uma divindade superior.
Espiritualidade é atitude, ação interna, ampliação da consciência, contato do indivíduo com sentimentos e pensamentos superiores e, ainda, com o fortalecimento e amadurecimento que este contato pode resultar para a personalidade.
De modo que, podemos até praticar uma religião em nossa família, mas apenas isto não é vivenciar a espiritualidade em família! Ter uma religião não significa, necessariamente, trabalhar a dimensão espiritual da vida...
Religião é apenas um dos caminhos para Deus:
“Qualquer caminho é apenas um caminho, e não há ofensa para si ou para os outros em abandoná-lo se é isto o que seu coração diz a você... Olhe para cada caminho, bem de perto, estudando-o cuidadosamente. Experimente-o quantas vezes você achar necessário. Então pergunte a você mesmo, e somente  a você mesmo uma questão... Esse caminho tem um coração? Se ele tem, é um bom caminho, se não tem, é inútil.” D.Juan, orientador de Carlos Castañeda
Se você segue uma religião, você pode trocá-la por outra. Você pode ter uma e seu cônjuge outra, seu filho ainda uma terceira, e mesmo assim, se não estiverem nestas religiões-caminhos como o coração, a dimensão espiritual não está sendo vivenciada.
Quando a dimensão espiritual é vivenciada há uma promoção de bem-estar na família. E isso não tem a ver com religião. Aliás, por vezes, por causa da religião, há muito mal-estar. Quando alguém tenta obrigar o outro a aceitar sua crença, por exemplo. Não deveríamos nos preocupar com isso. O que importa é o bem, a prática do bem. E segundo O Livro dos Espíritos:
“O bem é sempre o bem, seja qual for o caminho que a ele conduza” (q. 982)
O reconhecimento de que o bem só é um bem, se estendido aos outros, a compreensão de que formamos uma totalidade espiritual, isto é vivenciar a espiritualidade. Na família, tal compreensão deverá provocar algumas atitudes, que veremos a seguir:

 ESPIRITUALIDADE E RELACIONAMENTO CONJUGAL
No casamento, como se vivencia a espiritualidade?
“Se valorizamos o casamento somente quando ele nos proporciona uma sensação de bem-estar, não teremos força interior para enfrentar as experiências difíceis; mas, se aprendermos a valorizar o matrimônio por causa das oportunidades que ele oferece para a salvação – isto é, para a individuação – bem como para outras graças, nosso relacionamento conjugal mostrará estar apoiado numa base sólida.” John A. Sanford
Ora, quando dotados de uma perspectiva espiritual, sabemos que o casamento não é uma ilha dos prazeres, mas uma escola de crescimento. Aqui neste trecho, o autor junguiano diz que o casamento favorece a individuação, que relaciona ao conceito de salvação. Individuação é como a Psicologia Analítica denomina o aproveitamento máximo dos potenciais do indivíduo.
Assim, não entramos num casamento iludidos de que será sempre como nos primeiros anos do namoro. Nos rituais católicos, pede-se ao casal que repita, na celebração de sua união, os votos do casamento. Eles se comprometem a estarem juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Isto é muito bonito, mas é verdadeiro também. Acho que muitos casais repetem essas palavras porque são bonitas, sem acreditar que são a verdade. E na primeira contrariedade, seu compromisso rui.
Mas um casamento pautado na espiritualidade vê além. Não se alimenta de ilusões, mas também não é amargo. Não acredita no acaso.Quando um casal vivencia a espiritualidade, ele sabe que:
- Não é:
›  Frequentar juntos uma igreja ou templo, ou participar de grupos e movimentos religiosos
›  Tentar convencer/forçar o outro a adotar sua convicção religiosa

- É:
›  Estar consciente de que o casamento é mais que um contrato social, mas uma comunhão de seres espirituais
›  Dialogar e conhecer a ética de cada um, para construir uma ética do casal
›  Pensar “nós” ao invés de “eu”
›  Ter consciência de quem sou “eu” e quem és “tu” na relação

ESPIRITUALIDADE E CUIDADO COM FAMILIARES FRAGILIZADOS

Mas uma família não é apenas um casal. Envolve outras pessoas. Envolve pais e filhos. A espiritualidade em família toca nossas relações com os cônjuges, também com os pais, os filhos e todos aqueles que através destes, nos estão ligados também.
Na vida em família sempre ocorre de sermos convidados a lidar com familiares fragilizados. Frequentemente são eles os pais idosos, mas podem ser também tios, primos etc.
Vivenciar a espiritualidade em família requer cuidar desses parentes fragilizados, especialmente aqueles mais próximos de nós, como os nossos pais. Bem, e isso inclui o sogro e a sogra! Não pense alguém que, ao casar, não tenha adquirido nenhuma responsabilidade com os pais do cônjuge. Eles passaram a fazer parte de sua família também! Serão os avós dos seus filhos, e como você trata os avós dos seus filhos comunica a estes filhos como você deve ser tratado quando estiver na mesma condição deles.
No exercício da espiritualidade em família, é preciso honrar pai e mãe!
“Honrar pai e mãe não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco, na infância.” (ESE, cap.14, item )
“A velhice, que hoje tarda bem mais do que décadas atrás, pode ser bela na sua beleza peculiar; alegre na sua alegria boa; alerta na medida de seus interesses; procurada e apreciada enquanto não for amarga.” Lia Luft
- Não é:
›  Ameaças com a danação ou inferno eterno
›  Proselitismo
›  Impedir o familiar de expressar suas necessidades espirituais

- É
›  Respeito às crenças e á fé do familiar
›  Incentivo do cumprimento de ritos e sacramentos por pessoas habilitadas na convicção do familiar
›  Incentivo de práticas espirituais, como relaxamento, meditação, visualização
›  Clareza a respeito das próprias questões espirituais

 ESPIRITUALIDADE E ORIENTAÇÃO DOS FILHOS

E na educação dos filhos, é de suma importância uma vivência espiritual. Segundo Chopra:
“A criança dotada de uma aptidão espiritual será capaz de responder às perguntas mais básicas a respeito do funcionamento do universo; ela perceberá a fonte da criatividade, tanto dentro quanto fora dela; ela será capaz de não criticar e praticar a complacência e a verdade, que são as virtudes mais valiosas que se pode possuir para lidar com as pessoas; e ela estará livre do medo e da ansiedade, que incapacitam com relação ao significado da vida e são a podridão secreta existente no coração da maioria dos adultos, sejam eles capazes ou não de admiti-lo.“
Crianças espiritualizadas tem maior equilíbrio e são mais felizes, porque não negligenciam este aspecto da evolução.
- Não é:
›  Imposição de práticas espirituais
›  Transformar Deus num invasor de privacidade
›  Infundir medo e culpa na criança

- É:
›  Viver de acordo com o que ensina
›  Ensinar valores como o amor, o perdão, a caridade, a compreensão, a paciência etc.
›  Transmitir sua crença pessoal sem constranger ou impor pela força

 EVANGELHO NO LAR

Enfim, irmãos, para uma prática espiritual em família, nada melhor que o que, na Doutrina Espírita, chamamos Culto do Evangelho no Lar. É algo muito simples, que pode ser praticado por pessoas de qualquer religião, e que objetiva a alimentação da vivência espiritual em família. Em curtas palavras o roteiro de uma reunião desta é:
›  Escolha um dia e horário na semana em que todos possam reunir-se e haja pouco movimento a casa
›  Todos reunidos, faça uma prece e solicite proteção ao lar
›  Escolha um livro de mensagens para ser lido e comentado
›  As conversações devem gerar em torno do tema lido, evitando embates e acusações
›  Realizar uma prece de agradecimento e encerrar
Agora, se você está convencido da necessidade de vivenciar a espiritualidade em família, lembre-se: comece a vivenciá-la em si mesmo, por este ser o primeiro e mais importante passo. Como disse um moralista francês do século XVII:

“Nada é tão contagioso como o exemplo.”