Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 22 de julho de 2013

REENCARNAÇÃO E CARMA

REENCARNAÇÃO E CARMA

                         “É tão somente a doutrina do Karma e da continuidade das existências que explica as desigualdades e desarmonias da vida e que justifica a Justiça Divina. E, vista desse ponto de vista, a vida tem uma amplitude muito maior do que aquela que é compatível com a idéia de uma única existência, e que torna a alma independente da disciplina da experiência terrena, uma vez que tal experiência é completamente negada para um vasto número daqueles que morrem na infância. O fato de que as escrituras cristãs não reconheçam explicitamente essa doutrina não representa nenhum argumento contra o fato de que ela seja uma doutrina cristã. Essa doutrina já estava no mundo no Budismo; e o Cristianismo, como o complemento e o coroamento do Budismo, não tinha nenhuma necessidade de reiterá-la”. [The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 143-144]


VIVIANE: O que é Reencarnação e Carma?

ARNALDO: São exemplos de doutrinas básicas que nos permitem interpretar muitas das parábolas cristãs de uma forma não literal ou historicista. Elas estão claras no Budismo, quando depurado de suas idolatrias e superstições. E, assim, são importantes na complementação da necessária interpretação das doutrinas alegóricas do Cristianismo.
            Como citamos antes, “(...) o Cristianismo, em sua concepção original, delegou a regeneração da Mente e do Corpo (...) a sistemas já existentes e amplamente conhecidos e praticados” [Anna Kingsford e Edward Maitland, The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), p. 250], e essas doutrinas são exemplos fundamentais da base filosófica preexistente, sobre a qual o Cristo Jesus trabalhou e complementou com Seus ensinamentos e Mistérios.
            A doutrina do Carma, que em sânscrito significa ação, tem implícita essa idéia de que cada ação gera a sua respectiva reação. Ela está clara no Cristianismo em várias passagens, por exemplo, na passagem de São Paulo “Não vos iludais. De Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá”. (Gálatas, 6:7)
            Já a doutrina da Reencarnação não está tão clara, porém também está implícita em várias passagens dos Evangelhos, como nos exemplos que seguem:

                        ”E saiu Jesus com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipo; e no caminho interrogou os discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que eu sou?
                        Responderam-lhe eles: Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros: Algum dos profetas.
                        Então lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo”. (Marcos, 8:27-29)

                         “Enquanto ele estava orando a parte achavam-se com ele somente seus discípulos; e perguntou-lhes: Quem dizem as multidões que eu sou?
                        Responderam eles: Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros, que um dos antigos profetas se levantou”. (Lucas, 9:18-19)

            Ou seja, em várias passagens dos Evangelhos há claramente a noção de que essa doutrina da Reencarnação era um conhecimento comum entre os discípulos, como também existe o conhecimento de que essa doutrina era dominante naquela época, exceto na seita dos saduceus, que eram considerados infiéis no Judaísmo. Para outras correntes, a Reencarnação era fato tido como comum e pacífico.
            Há várias outras passagens que demonstram que a Reencarnação era parte do cotidiano de Jesus e seus discípulos. Uma passagem que gosto de citar, que não é muito conhecida, do Livro da Sabedoria, deixa muito clara a doutrina da Reencarnação:

                         “Refletindo eu sobre estas coisas e meditando em meu coração que a imortalidade está em união com a sabedoria; que na sua amizade existe um nobre prazer; que na obra das suas mãos há uma riqueza inesgotável; que há inteligência na assiduidade da sua companhia e celebridade no diálogo com ela, ia por toda a parte procurando possuí-la. Eu era um jovem de boas qualidades, que tinha recebido uma alma boa; ou melhor, como era bom, vim para um corpo sem mancha”. (Sabedoria, 8:17-20; grifo é nosso)

            Não é fácil encontrar uma exposição clara dessa doutrina nas Escrituras, no Novo Testamento. Temos que dar uma olhada com lupa em algumas passagens onde ela aparece como pano de fundo subjacente. Contudo, podemos perceber que o conhecimento da Doutrina da Reencarnação era algo comum.


VIVIANE: Talvez fosse tão natural que não precisava de destaque nos textos.

ARNALDO: Exatamente. Era uma coisa dada como certa, que fazia parte do conhecimento básico comum entre os discípulos de Jesus.


VIVIANE: Qual a importância de entender essas doutrinas e qual a luz que o Budismo traz para o Cristianismo nesses aspectos?

ARNALDO: Essa questão é essencial porque fala da importância dessas doutrinas – e isso é fundamental. Sem esses princípios de Reencarnação e Carma (ou Justiça Divina) e sem a noção de uma sucessão de existências terrenas não é possível ter um mapa consistente da existência. Entra naquilo que falamos sobre não ter um mapa decente a respeito da vida e se não há um mapa confiável não há chance alguma. E mesmo com um mapa decente não há garantia de se chegar ao destino.
            Uma boa doutrina religiosa é como um mapa confiável que nos indica a direção de forma correta. Confiável, sobretudo, do ponto de vista filosófico e ético. Por que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da existência? Um mapa consistente deveria nos dar todas essas respostas.
            Sem as doutrinas da Reencarnação e do Carma não parece existir mapa consistente. O Cristianismo sem as doutrinas da Reencarnação e do Carma não é Cristianismo, é aberração, deturpação e idolatria. Esse é apenas um exemplo da importância dessa complementaridade entre Budismo e Cristianismo.


VIVIANE: O que acontece se não há essa complementação?

ARNALDO: Se não aproximarmos esses dois conjuntos doutrinários, o Budismo fica incompleto, mais difícil de ser compreendido, e o Cristianismo fica sem sua base, uma coisa que não se sustenta.
            Essas doutrinas explícitas no Budismo são fundamentais ao Cristianismo. A idéia que a Dra. Kingsford traz é que Budismo e Cristianismo não são separados – são dois aspectos do mesmo todo.
            O Budismo desenvolveu muito o conhecimento da Reencarnação e do Carma. Esse é um exemplo de base doutrinária fundamental. A partir daí temos toda a ética e toda a filosofia presentes nessas duas colunas que o Budismo reforçou. Na tradição budista, por exemplo, há toda uma literatura que traz exemplos de vidas pretéritas do Senhor Buda. É verdade que muito dessa literatura também é de natureza alegórica, mas o conhecimento está presente, de forma simples e clara.


VIVIANE: Você acha que quando a pessoa toma consciência da Reencarnação e do Carma a tendência é ela mudar alguma coisa em sua vida?

ARNALDO: É como eu disse: se a pessoa tem um mapa incorreto e recebe um mapa correto, a probabilidade de melhorar sua vida é evidente, pois vai ter mais chance de chegar a alguma meta de uma forma feliz, consequente. Se a pessoa tem um mapa incorreto tem muito menor chance de chegar.


VIVIANE: Quem não tem consciência da lei da Reencarnação normalmente acha que a vida acaba aqui. Morreu e acabou.

ARNALDO: Ou vai colher os frutos disso no Céu, no Inferno ou no Purgatório. Isso torna a existência que podemos observar ininteligível, transmitindo a idéia de um Deus despótico e cruel, que cria Seus filhos para condená-los logo a seguir a um sofrimento eterno. E, além disso, de acordo com a noção que temos de Deus, projetamos todos os outros conceitos fundamentais de nossa existência. O próprio conceito de ser humano, a noção de finalidade da existência humana e também os valores e instituições principais de uma sociedade, em última análise, irão se apoiar nessa imagem central da nossa visão do Universo. Em síntese, se temos a noção de um Deus cruel e ininteligível, não teremos valores, normas e instituições sociais justas, lógicas e tolerantes; muito pelo contrário, como podemos observar tão claramente em nossos dias.


VIVIANE: Por isso é que quando a pessoa toma consciência de que vai gerar consequência para outra vida a tendência é mudar a atitude, não é? Muitos até entendem que essa vida é uma chance de corrigir erros passados.

ARNALDO: Sempre que você se aproxima da verdade a tendência é que tudo comece a melhorar, não só sob um aspecto, mas sob vários aspectos. Sem a noção das leis da Reencarnação e do Carma, toda nossa existência fica ininteligível. Aceitar uma vida ininteligível – como aquelas pessoas que dizem que não é preciso entender, basta acreditar – já faz das potencialidades humanas uma aberração, diminui as habilidades humanas e promove a falta de confiança no potencial Divino do ser humano.
            Como São Paulo dizia, “o Cristo em vós”, ou seja, toda Capacidade Divina de podermos crescer infinitamente, porque por mais ignorante que sejamos, temos a Semente Divina dentro de nós. Quem diz que o ser humano não tem a capacidade de poder entender e alcançar o Divino promove uma falta de confiança na capacidade humana de transcender os pecados, as ignorâncias e as limitações. Essa falsa crença, por si só, acarreta um mal imenso. A consequência disso, do ponto de vista social, é desastrosa, porque se desenvolvem instituições baseadas nessa desconfiança, nessa falta de confiança – que é o que a gente vê no mundo hoje. O Liberalismo e o Marxismo – para não falarmos dos fundamentalismos religiosos – são desastrosos, e são baseados nessas concepções equivocadas do ponto de vista filosófico-religioso.


VIVIANE: As pessoas podem encarar o processo das reencarnações como uma forma de ir melhorando o seu Carma?

ARNALDO: Sim, entendendo a lei do Carma como na citação de São Paulo que lembramos, vamos colhendo os frutos que antes semeamos e assim, constantemente, construindo o nosso devir. Tudo tem causa e consequência. Nenhum passarinho morre, nenhum fio de cabelo cai sem que a vontade de Deus esteja presente, sem que a Lei Divina, a Justiça Divina esteja presente.


                        “Não se vendem dois passarinhos por um asse? [antiga moeda romana] e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos”. (Mateus, 10:29-31)


            Esse mundo é um mundo de leis. O Carma é a Lei da Justiça Divina. Se você tira o Carma, tira a Lei de Ação e Reação, tira essa idéia de que você “colhe aquilo que planta”. Inexoravelmente, se a pessoa duvida dessa Lei, acabou com qualquer chance que tinha de uma interpretação correta da vida, do universo.
            O Carma é absolutamente essencial para uma noção de Justiça Divina. Ele é a Lei da Justiça Divina no Cristianismo. E a Reencarnação é a única coisa que pode dar esperança para o ser humano: se hoje ele é pequeno, com a Reencarnação tem uma ampla possibilidade de se regenerar – mesmo que não consiga nessa vida, há outras oportunidades. Ele pode ir semeando causas hoje porque terá a confiança de que nada se perderá, pois nada passa desapercebido da Grande Lei, e toda semeadura tem sua colheita.
            Contando com essas doutrinas, como grandes mapas em nossas mentes, fica mais fácil aceitar a idéia de que a vida foi criada por um poder absolutamente amoroso, absolutamente beneficente. Se observamos a vida à luz das doutrinas hoje dominantes, acreditamos que uns não vão conseguir e, portanto, vão para o Inferno – mas que Deus é esse que joga as pessoas no Inferno? Ele nos criou para o Inferno?
            Muitas religiões têm embutida a idéia de um Deus perverso, que não nos oferece saída, a não ser para alguns predestinados. A Reencarnação vem resgatar a bondade de Deus, e a consequente e infinita esperança que nós, seres humanos, podemos ter na Glória de nosso Destino Final.
            Já dissemos que as doutrinas do Carma e da Reencarnação são as doutrinas da justiça e da esperança. Nisso não estamos sendo nada originais, pois praticamente todos os sábios de todos os tempos assim o repetiram.
            Tirando a idéia da Ação e Reação não existe mais um universo regido por grandes Leis, não existe mais a Justiça Divina. E se tirarmos o conhecimento da Reencarnação, praticamente terminamos com a esperança na Divina Capacidade inata do ser humano e seu consequente glorioso, amoroso e bem-aventurado Destino Final.


VIVIANE: Quando nossa Alma passa a ser influenciada por essa Lei de Ação e Reação, do Carma?

ARNALDO: Todo o universo manifestado no nível das formas, das imagens, das comparações e, portanto, do pensamento concreto está sob o domínio dessa Grande Lei. Desde a mais infinitesimal partícula até os gigantescos corpos celestiais. Tudo nesse mundo da dualidade, conforme percebido por nossas mentes concretas, está submetido ao Tempo e, portanto, à Grande Lei do Carma ou da Justiça Divina.
            Quanto às nossas Almas, de igual modo, desde que elas se polarizaram e se lançam na trajetória do mergulho em corpos psíquicos e físicos, passam a estar sob a operação da Lei de Causa e Consequência, ou Carma. A partir de então a Alma cria para si mesma corpos e formas que são resultado exato da sua conduta pretérita. É a Lei: ação e reação, semeando e colhendo.
            As capacidades, para o bem ou para o mal, de cada encarnação física da Alma do ser humano dependem das tendências para o bem ou para o mal que foram semeadas por ele como Alma em encarnações passadas.
            Todos nós nascemos com uma carga de tendências, com uma “herança” que nós deixamos para nós mesmos. Desse modo também é composta a relativa felicidade ou infelicidade da Alma dentro de cada encarnação. O indivíduo vai colher na outra vida o que semeou nas anteriores – ou, não raro, na mesma encarnação. Semeando coisas ruins, vai colher coisas ruins; o que fez de bem também vai colher. Nada se perde, Como diz a Escritura: – até nossos fios de cabelos estão contados.
            A conduta do homem hoje está determinando suas próprias circunstâncias e as características futuras de sua vida. Todos nós estamos semeando hoje o nosso futuro. Essa é a Lei.
            E o instrumento que o ser humano pode utilizar para moldar seu destino é o seu pensamento – com ele o próprio homem forja seu devir. O homem é resultado do seu pensamento. O seu caráter faz parte da construção do seu próprio destino.
            Essa é uma Lei de Equidade, nem suave nem cruel, apenas eternamente justa e, portanto, eternamente amorosa, pois nos conduz como uma Grande Mãe para um Destino Glorioso.
            Ignorar ou negar a total abrangência da Grande Lei traz infelicidade; compreendê-la e obedecê-la traz paz, segurança e felicidade. Ela é, no fim de tudo, a Lei de nossa Hereditariedade Espiritual – o que a pessoa deixa de herança para si mesma. Por isso existe um tribunal, ao final de cada encarnação, para gravar na Alma, com ênfase, as coisas melhores e piores que cada um fez naquela encarnação.
            A doutrina fundamental da Evolução é a antiga Lei da Progressão da Alma através da Transmigração (Reencarnação), tendo o Carma como um meio tanto de aprisionamento quanto de libertação. Ele é para a maioria, até que a Alma aprenda a distinguir entre permanente e transitório, um processo que acarreta consequências dolorosas. Por isso o Senhor Buda ensinou sobre a existência da dor como presença marcante em nossas vidas – enquanto houver a ilusão e o apego ao transitório – ainda que toda dor tenha sido causada por nós mesmos e seja, portanto, um processo pedagógico que, no final, nos garante a glória de retornarmos conscientemente ao Reino de Deus, de encontrarmos o Cristo em nós, a Libertação.
            Embora a dor embutida na impermanência seja inerente à natureza da existência transitória, ela é o meio para expansão da consciência, é o caminho até as Grandes Iniciações. O sofrimento do ego no homem é equivalente,uma oitava abaixo, à dor que Jesus viveu voluntariamente. Vemos esse sofrimento também no Budismo, na primeira das Quatro Grandes Verdades ensinadas pelo Senhor Buda.


VIVIANE: Dentro dessa idéia da Reencarnação há um ponto evidente – mas não tão discutido – que é o livre arbítrio. Sobre esse tema, o Budismo também contribui com o Cristianismo – e vice-versa – ou o livre-arbítrio se sustenta nas duas vertentes, independentemente?

ARNALDO: Esse tema do livre arbítrio é uma questão que os cristãos convencionais costumam usar para justificar o Inferno, a Perdição. Eles entendem que se Deus nos deu o livre arbítrio para construirmos, para o bem ou para o mal, quem usar para o mal vai colher a Perdição. Não é uma idéia fácil de ser entendida.
            Acredito que também nessa questão do livre arbítrio existe uma complementação entre os dois ensinamentos; se dissociarmos o Budismo do Cristianismo, teremos problemas para entender essa questão.


VIVIANE: Por que?

ARNALDO: Vou tentar responder contando uma história que eu vivi quando era jovem.
            Eu fiquei durante muito tempo angustiado tentando discernir uma questão: “Se existe livre arbítrio, como Deus vai conhecer o futuro? Se Deus é Onipotente e Onisciente, Ele conhece o futuro. Se Deus conhece o futuro, não existe o livre arbítrio e a gente fica entre as aspas de um dilema.” Durante muito tempo eu me angustiei com essa questão filosófica.
            Para mim, o dilema era: se existe livre arbítrio não existe Onisciência de Deus. Se existe Onisciência de Deus, não existe livre arbítrio porque tudo está, de alguma maneira, predeterminado.


VIVIANE: E então nossas decisões não mudariam nada em nossos destinos; não adiantaria nada tentar fazer algo porque estaria tudo predeterminado.

ARNALDO: Exatamente. Eu trabalhava com informática na época em que os computadores estavam começando a se difundir e lia um livro sobre banco de dados em que a cada capítulo o autor colocava uma citação. Em certo capítulo havia uma citação de um pensador cristão, Chesterton, que dizia: “O inevitável acontece através do nosso esforço”. Ou seja, as duas coisas são verdadeiras, embora seja difícil para nossas limitadas mentes concretas entender isso.
            Nós temos livre arbítrio, exercemos o livre arbítrio, mas quando exercemos esse livre arbítrio nós cumprimos a Vontade Divina. Aquilo que tem que ser e aquilo que a Onisciência Divina antecipa – ou não seria Onisciência – acontece e é escrito por nós mesmos no palco do universo manifestado, no palco desse mundo da transitoriedade, do tempo e da impermanência, como diz a filosofia budista.
            Esse destino é escrito através do nosso livre arbítrio. Ou seja, nós estamos aqui para exercer nosso livre arbítrio, para crescermos em Sabedoria, até que a nossa Vontade se encontre com a Vontade de Deus. Nosso destino é reencontrarmos a nossa união fundamental com o Pai-Mãe que é Deus. Na linguagem do Cristo Jesus, até alcançarmos a estatura em que “Eu e o Pai somos um” (João, 10:30).
            Em nosso profundo interior, nossa Vontade é a Vontade de Deus. No fundo, nós somos Deus – ou Filhos de Deus, para usar a expressão das religiões.


                        “Responderam-lhe os judeus: Não é por nenhuma obra boa que vamos apedrejar-te, mas por blasfêmia; e porque, sendo tu homem, te fazes Deus.
                        Tornou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?
                        Se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida – e a Escritura não pode ser anulada – àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, dizeis vós: Blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus?” (João, 10:33-36)



            Nós somos, no mínimo, como Raios do Sol da Divindade; e o Sol é também composto pelos seus Raios. Nesse mundo o que existe é a nossa Vontade, e nossa Vontade não é diferente da Vontade de Deus. Nós vamos escrever a história e, no fundo, temos esse conhecimento da história que está por vir. Por isso que grandes escolas filosóficas afirmam que aprender é recordar, porque em nosso interior nós temos esse conhecimento, mas ele está aqui, como que esquecido.
            Ao descermos para esse campo da matéria nós aceitamos o Sacrifício de limitar nossa Consciência e ao longo da experiência dessa vida essa Consciência vai de novo florescendo. Vamos, então, recuperando o encontro com o Pai-Mãe, como na Parábola do Filho Pródigo da Escritura cristã, que já foi mencionada.
            Como vimos, o filho sai usando sua liberdade ou livre-arbítrio – que é a nossa Herança – e vai pelo mundo “fazendo loucuras”, até que comeu o resto dos porcos. Vamos então voltando, voltando para a Casa do Pai-Mãe, nossa Consciência vai sendo retomada, vai crescendo, amadurecendo. Quando finalmente voltamos, estamos maiores, mais maduros, com toda uma experiência de autodeterminação que nos ajudou a resgatar nossa verdadeira Filiação Divina. E, como diz na parábola, quando voltamos há festa na casa do Pai-Mãe, no Reino de Deus.
            Essas parábolas procuram aludir temas profundos da história do desenvolvimento da manifestação da Alma. No Oriente, por exemplo, no palco onde o Hinduísmo nasceu, existe a idéia de que Deus criou o mundo como uma forma de Lila (a palavra Lila pode ser traduzida como brincadeira, deleite).


VIVIANE: No Oriente parece mais comum encontrar esse tipo de questionamento sobre temas profundos como reencarnação, livre arbítrio...

ARNALDO: Questões como essa, do livre arbítrio, são chamadas no Oriente de questões finais, pois levam o intelecto concreto ao seu derradeiro limite, que é o conhecimento, a percepção clara de que pensar concretamente é separar, pensar concretamente é dialetizar – separar o mundo em dois. Toda vez que eu penso usando o instrumento de minha mente concreta, eu comparo imagens e, se comparo, é porque dividi, separei. A própria imagem concreta já é uma separação, já é uma representação, uma composição da mente concreta, mas que não é a coisa em si, é claro, por mais que guarde uma relação natural com aquilo que gerou a imagem.
            Mas existe dentro de nós uma capacidade de conhecimento que nos faculta a condição de transcendermos o limite das imagens concretas, e do consequente pensamento concreto, sempre comparativo e baseado na separação. Essa faculdade de conhecimento superior (gnose) – que é unitiva (pois conhece por fundir-se com o objeto do conhecimento) – nasce e floresce no silêncio, na serenidade da meditação, elevando-nos ao conhecimento suprapensamental, que nos revela a realidade existente além da separatividade, além da operação da mente concreta.
            Enquanto estamos na Casa do Pai-Mãe, e ainda não mergulhamos no caminho do Filho Pródigo, não existem essas perguntas. Há apenas a Glória, a Luz e a Bem-aventurança do Reino de Deus.
            Quando entramos no caminho do Filho Pródigo, com nossa consciência distanciada do Reino de Deus, essas perguntas surgem, porém não encontram uma resolução final.
            Quando saímos da Casa do Pai-Mãe, mergulhamos na existência material e buscamos a experiência dentro desse mundo da materialidade. Ao longo dessa jornada vamos colhendo os frutos de toda essa experiência. Depois, vamos retornando até que entramos novamente na Casa do Pai-Mãe, no Reino de Deus, e essas perguntas enfim se RE-solvem – elas se dissolvem, ou seja, novamente deixam de existir porque nos RE-unimos com nossa Consciência Divina.
            Só que quando voltamos, recuperamos a Consciência Divina de maneira mais plena, porque aceitamos o Sacrifício de passar por essa experiência. Estávamos bem na Casa do Pai-Mãe, mas aceitamos esse Sacrifício, assim como Deus aceitou o Sacrifício de se limitar e criar o Universo. Como parte de Deus, aceitamos o Sacrifício de mergulhar nessa materialidade. Quando voltamos, somos os prediletos porque os que aceitaram o Sacrifício ganharam uma nova e maior realização.
            Essas questões só se RE-solvem pela realização consciente da transcendência da operação, e consequente agitação, da mente concreta. Como diz uma das grandes “Bíblias” do Oriente, o Yoga Sutras, de Patanjali: “Yoga é a cessação das oscilações do princípio pensante” [I:2]. Yoga quer dizer união, a verdadeira religiosidade (RE-ligação); o verdadeiro recuperar, na transcendência, da Consciência Divina, ou seja, que ocorre com a transcendência das operações, ou do “barulho” da mente ou do pensamento concreto, separativo.
            Existe essa possibilidade, essa faculdade e esse instrumento de Conhecimento dentro de nós. Ele está relacionado, primeiro, com o Nascimento do Menino Jesus dentro de nós e, finalmente, com a plenitude do Cristo em nós, que, como diz São Paulo, é a esperança de Glória. Nessa gloriosa condição nós RE-solvemos as questões últimas, como essa da aparente contradição entre livre arbítrio e Onisciência Divina, ao transcendermos as operações e limitações da mente e do pensamento concreto, separativo. Quando transcendemos essa mente dialetizante, essas perguntas se dissolvem. A nossa vontade e a vontade do Pai-Mãe tornam-se unas. Nós e o Pai-Mãe somos Um, e a questão se RE-solve.
            Podemos falar intelectualmente dessas coisas, mas elas só se RE-solvem realmente na vivência da Transcendência, através de nossa união com Deus, a realização do Cristo em nós, e a verdadeira realização da nossa unidade com o Divino.
            Nesse estágio, a questão do livre arbítrio desaparece, como dissemos, porque não há falta de liberdade se estamos aqui por livre e espontânea vontade. Não há conflito entre a Vontade de Deus e a nossa Vontade, porque a nossa Vontade e a de Deus são uma só.


VIVIANE: Você diz que para encontrar a resposta, para dissolver essa questão, precisamos entrar no estado de silêncio, de meditação, de contemplação. Com esse objetivo, no Cristianismo temos as orações e no Budismo, a entoação de mantras. Há um paralelo entre essas manifestações religiosas?

ARNALDO: Sim, um paralelo total. O que é a recitação de um mantra? É uma forma de prece que no Cristianismo chamamos de oração. Apenas, no caso de um mantra, agrega-se à intenção do coração o poder de um determinado som. Isso também existe no Cristianismo, embora esteja um tanto eclipsado. Porém, esses sons, cujo efeito foi estudado pelos sábios, e que nos auxiliam na elevação de nossas consciências, também existem no Cristianismo, sobretudo enquanto o Latim era usado. Palavras com poder mântrico que eram usadas, por exemplo, em momentos chaves da cerimônia da Missa e da Eucaristia.
            Um exemplo de oração e mantra budista é o famoso Om mani padme hum, que tem um significado muito profundo. (Om é um som que reverbera o Divino; mani significa a “jóia” da consciência espiritual; padme significa o lótus que simboliza nossos corações e mentes ao transcenderem a materialidade do mundo físico, com suas raízes no lodo, e dos mundos psíquicos ao atravessarem a água e o florescer da consciência superior quando a flor se abre à Luz do Sol; e hum é uma palavra que significa o exercício da nossa vontade). Apenas para darmos um exemplo de mantra cristão que usa a língua grega é o Kyrie eleison, Christie eleison (Senhor, tende piedade/envia o Teu Sopro/Espírito, Cristo, tende piedade/envia o Teu Sopro/Espírito) ou, usando o Latim, quando a comunidade unida entoa o Amém (Assim seja), que guarda uma correspondência com o Om oriental.


VIVIANE: Essa ligação entre mantras e orações é mais uma comprovação de que essas religiões são complementares? Até os caminhos que elas escolhem para acalmar a mente são similares.

ARNALDO: Até certo ponto sim. Digo até certo ponto porque também as outras grandes religiões têm esse caminho. No Hinduísmo, por exemplo, também há mantras, assim como em outras religiões também há preces cantadas e mântricas.


VIVIANE: Muitos budistas defendem os mantras e não consideram a oração como uma espécie de mantra cristão e muitos cristãos defendem a prece e não vêem o mantra como uma oração budista. Geralmente as pessoas fazem essa diferenciação, como se não fosse uma variedade da mesma manifestação, com o mesmo objetivo, de acalmar a mente para chegar ao Divino.

ARNALDO: Os mantras e orações servem para nos elevar em consciência, para nos aproximar de Deus e implicam necessariamente na vivência que só acontece plenamente no silêncio, na reverente quietude do princípio pensante. Mas na prática comum das religiões ambos acabam sendo usados pelas mentes imaturas para buscarem coisas mais triviais.
            As religiões também têm que nos apresentar instrumentos para coisas triviais, para problemas na nossa família, com os filhos, com o marido ou a esposa, e assim por diante. Esses instrumentos são valiosos e podem ser usados com licitude, desde que não haja o egocentrismo que chega a causar danos aos demais e, em conseqüência, a nós mesmos.
            A maioria das pessoas não tem nível de maturidade filosófico-religiosa para se preocupar com esses problemas profundos da Consciência. Isso diz respeito a um grupo relativamente menor da família humana. Potencialmente todos chegarão lá. Alguns ainda nem vieram à Manifestação, estão ainda na Casa do Pai-Mãe. Outros estão começando essa trajetória, mergulhando nessa existência. Outros estão, como na parábola, comendo o que os porcos deixaram, na amargura, no sofrimento; estão começando a refletir. É nesse momento que ocorre à consciência a necessidade de começar, de algum modo, o retorno para a casa do Pai-Mãe, para o Reino de Deus. Isto é, uma compreensão de que na Lei Divina encontramos a felicidade e o caminho seguro de retorno à Casa do Pai-Mãe, que é a nossa verdadeira Morada, onde reencontraremos a Glória, e seremos recebidos com Alegria indescritível, como na Parábola do Filho Pródigo.


VIVIANE: Você quer dizer que as pessoas entendem as parábolas, os mantras, as orações de forma diferente porque estão em diferentes níveis.

ARNALDO: Nós temos irmãos nossos que estão em todos os pontos dessa vasta trajetória, em todos os momentos da evolução, nesse caminho das nossas Almas. As religiões devem dar, necessariamente, orientações para todos esses irmãos: dos mais maduros aos mais jovens. A religião verdadeira precisa oferecer tanto o “pão” quanto o “peixe”. Necessita oferecer ensinamentos básicos, ensinamentos intermediários e ensinamentos mais profundos, para alimentar todas as Almas, nos diferentes pontos da trajetória evolutiva das Almas – trajetória que está alegoricamente descrita em vários momentos da Bíblia. E tem também que respeitar as características das tradições culturais de cada povo.
            Para aqueles que precisam de orientação básica, meramente intelectual, com ensinamentos filosóficos introdutórios e normas éticas simples, a religião precisa dar o “leite” e o “pão”, que simbolizam, nas Escrituras, esses ensinamentos mais simples. Já para aquelas Almas mais amadurecidas, a religião precisa oferecer o conhecimento dos Mistérios, representado pelo “peixe”, que simboliza o silêncio. Ou seja, aqueles ensinamentos que conduzem ao conhecimento transcendente que nos advém através do silêncio.
            É característica dos verdadeiros Filhos de Deus de todas as épocas darem em abundância para a multidão esses ensinamentos, em seus diferentes níveis, simbolizados na parábola pelos pães e pelos peixes. E, em outra passagem da Escritura, pelo leite que é oferecido às crianças em contraposição ao alimento sólido.
            Quando esses símbolos não são entendidos e se faz uma leitura literal dessas parábolas, muitos acreditam que Jesus não era vegetariano, mas esquecem que o peixe, na verdade, representa o conhecimento profundo. Não por acaso o peixe é o símbolo do Cristo e era muito usado nos primórdios do Cristianismo. As catacumbas nos arredores de Roma, por exemplo, estão cheias desse símbolo, que representava o Cristo e seus seguidores.

http://www.anna-kingsford.com/portugues/outras_obras_relacionadas/obras_relacionadas/OOR-P-RodaeCruz/07.htm

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