Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Inteligência e Instinto

Idéias Principais:

É freqüente o instinto e a inteligência se revelarem simultaneamente no mesmo ato. No caminhar, por exemplo, o movimento das pernas é instintivo; o homem põe maquinalmente um pé à frente do outro, sem nisso pensar; quando, porém, ele quer acelerar ou demorar o passo, levantar o pé ou desviar-se de um tropeço, há cálculo, combinação; ele age com deliberado propósito. A impulsão involuntária do movimento é o ato instintivo; a calculada direção do movimento é o ato inteligente.

Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente. Segundo outros sistemas, o instinto e a inteligência procederiam de um único princípio, o que não é admissível.

Outra hipótese ressalta do caráter essencialmente previdente do instinto e concorda com o que o Espiritismo ensina, no tocante às relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo.

Síntese do Assunto:

Inteligência é o atributo essencial do Espírito, em virtude do qual ele toma conhecimento da sua própria existência, bem como exerce atividade voluntária e livre. Quando o Espírito atinge o grau de humanização, a inteligência adquire desenvolvimento superior, como o surgimento da razão e do senso moral, que lhe facultam a capacidade de conceber a existência de Deus.

Realizando múltiplos atos livres e voluntários, apresentando finalidades nítidas, e obedecendo a juízos e raciocínios bem elaborados, por isso mesmo o homem se mostra como um ser que afeta dupla natureza: material e espiritual. Mais uma vez cabe, pois, repetir: - Há um Espírito unido ao corpo do homem, que constitui a sua alma, somente à qual deve ele a sua inteligência e racionalidade, seus conhecimentos e sentimentos, bem como sua vontade e liberdade.

Há outros seres, entretanto, que realizam atos em que se revela também nítida finalidade, mas parecem obedecer antes a automatismos, que a impulsos provenientes de vontades livres. Tais atos visam sobretudo à conservação do indivíduo e da espécie, objetivando as funções de nutrição e de reprodução, provendo ao crescimento, ao desenvolvimento, à propagação, enfim, à plena realização da vida dentro das características peculiares a cada espécie. Esses atos diz-se, são devidos ao instinto, são atos instintivos. Existem já esboçados nos vegetais, mas são bem mais evidentes nos animais. Atos instintivos são, aliás, ocorrentes também no homem, ao lado dos atos inteligentes.

Pergunta-se, pois: - Qual a diferença entre o instinto e a inteligência?

Será o instinto uma faculdade distinta, ou um atributo inerente apenas à matéria, como alguns ainda pensam, atribuindo o instinto somente ao corpo? Se assim fosse, entretanto, ter-se-ia de admitir que a matéria é inteligente, o que é evidentemente falso, e até mesmo mais inteligente do que o Espírito, porquanto o instinto não se engana, ao passo que a inteligência, porque é livre, pode enganar-se. Se ao ato instintivo falta, pois, o caráter principal do ato inteligente que é ser deliberado, ele revela, entretanto, uma causa inteligente, porque não se engana. Por isso, outros são levados a admitir que o instinto e a inteligência procedem de um único princípio, que, de início, teria somente as qualidades do instinto, mas depois se desenvolveria e passaria por uma transformação que lhe daria as da inteligência livre. Essa suposição não resiste a uma análise mais profunda, visto que frequentemente o instinto e a inteligência se encontram juntos no mesmo ser e, muitas vezes, se associam no mesmo ato. No caminhar, por exemplo, como lembra Kardec, é instinto o simples movimento das pernas, tanto no homem como no animal, e um pé vai adiante do outro maquinalmente; mas no acelerar o passo ou retardá-lo, bem como no levantar o pé para desviar-se de um obstáculo, intervém a vontade livre, a deliberação e o cálculo. Também o animal carnívoro só pelo instinto é levado a alimentar-se de carne, mas ele age com inteligência e mesmo astúcia, ao tomar as medidas para garantir a sua presa, medidas que variam conforme as circunstâncias.

Assim, à pergunta, que é o instinto e como se distingue da inteligência?, muitos respondem ainda: é uma espécie de inteligência. Outros opinam que é uma inteligência sem raciocínio. Acha-se impossível estabelecer um limite nítido de separação entre o instinto e a inteligência, porque muitas vezes se confundem e nunca se sabe onde acaba um e começa a outra. A nosso ver, bem como de muitos que têm refletido sobre o assunto, inteligência e instinto são, sim, manifestações do mesmo princípio espiritual e, portanto, inteligente, mas que obedecem a duas determinantes ou a dois motores diferentes: um que está ligado à vontade e à liberdade do individuo, outro que escapa totalmente à vontade e à liberdade. Nestas condições podem distinguir-se perfeitamente os atos que dependem da inteligência, plenamente desenvolvida, daqueles que decorrem estritamente do instinto. Sendo a inteligência, em sua plenitude, a faculdade de pensar e agir racional e deliberadamente, os atos inteligentes, são conscientes, voluntários, livres e calculados, obedecendo a um planejamento. Acresce que são suscetíveis de variações para adaptações a circunstâncias ocasionais e a modalidades individuais. A inteligência, variável e individual por excelência, por isso mesmo é suscetível de progresso, de modo que os atos inteligentes decorrem da aprendizagem e pela aprendizagem se aprimoram.

Não são assim os atos instintivos. Consideramos, por exemplo, o ato absolutamente instintivo que realiza o patinho, logo que rompe a casca do ovo, que o mantinha antes encerrado; se vê próximo um córrego ou um lago, corre alegremente para ele e lança-se na água, nadando imediatamente com perfeição. Onde aprendeu este animalzinho a nadar? Com quem, se nadou logo em seguida ao nascer?

É instintivo também o ato do castor, que constrói sua casa ou cabaninha com terra, água e galhos de arvore; dos pássaros, que constroem com perfeição seus ninhos; da aranha, que tece com precisão a sua teia. É admirável como tudo isso se passa de maneira tão perfeita. Vêem-se, já, por aí, alguns dos caracteres do instinto: é inato, perfeito e específico, isto é, surge espontaneamente, sem prévia aprendizagem, em todos os indivíduos de uma mesma espécie, e só dessa espécie, levando a atos completos, acabados, perfeitos, desde a primeira vez que são realizados. Note-se, entretanto, que esses atos continuam durante toda a vida do indivíduo sem mudança alguma. Toda essa capacidade de nadar, de construir, de edificar, de tecer, não sofreu qualquer variação, através dos tempos, e o castorzinho constrói hoje a sua cabana como o faziam seus ancestrais e o farão os seus descendentes, com os mesmos materiais e do mesmo modo. De igual maneira, as aves constroem seus ninhos e as aranhas tecem suas teias, há séculos e milênios, sem variação alguma, sem processo, sem mudança possível.

Tão diferente é isso do que fazem nossos nadadores, nas diversas formas de natação, nossos construtores, os engenheiros e arquitetos! Quanta variação através dos tempos, conforme as circunstâncias, os indivíduos, os meios, as culturas! Quantas adaptações aos gostos, aos desejos, aos pontos de vista e, sobretudo, aos objetivos que se têm em vida! Nas construções dos homens há inteligência, porque há atos sujeitos à vontade e a liberdade, variáveis de acordo com as circunstâncias, obedecendo a raciocínios, a cálculos, a planejamentos. Nada disso existe nos atos que decorrem do instinto, que são perfeitos, mas sempre os mesmos, sem variações, sem progressos; nem por isso são menos maravilhosos. É verdadeiramente maravilhoso o que se passa no mundo dos insetos, de certos himenópteros, por exemplo, da família dos apídios ou abelhas, a ponto de terem merecido uma obra especial a respeito, de autoria de Maurice Maeterlinck, poeta e dramaturgo belga, prêmio Nobel de Literatura em 1911, mas que muito se interessou também pelas coisas da Natureza, tendo escrito A Vida das Abelhas, como também A Vida das Formigas e A Vida das Térmitas. Mas na própria vida do ser humano ocorrem atos instintivos, visando à sua conservação me à sua procriação.

Citemos apenas o que acontece nos primeiros tempos após o nascimento, quando, do mesmo modo como ocorre com as crias de outras espécies de animais mamíferos, a criancinha recém-nascida, assim que é levada ao seio materno, começa imediatamente a sugar e absorver assim o seu primeiro nutrimento. Careceu, porém, de aprender a mamar? Não, a criancinha verdadeiramente nasceu sabendo mamar! E para exercer esse ato, que ela pratica de maneira espontânea e perfeita, reveladora de um conhecimento inato, basta sentir o contato do seio normal. Quantas considerações e elucubrações poderíamos agora fazer sobre essa maneira misteriosa de Deus conduzir as suas criaturas, de modo a realizarem atos espontâneos e perfeitos necessários à própria preservação e da sua espécie! Mas preferimos agora citar Kardec. Diz ele no item do capítulo O3 de A Gênese: “Outra hipótese que, em suma, se conjuga perfeitamente à idéia da unidade de princípio, ressalta do caráter essencialmente previdente do instinto e concorda com que o Espiritismo ensina, no tocante às relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo”.

“Sabe-se agora que muitos Espíritos desencarnados têm por missão velar pelos encarnados, dos quais se consideram protetores e guias; que os envolvem nos seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas vezes de modo inconsciente, sob ação desses eflúvios”.

“Assim, o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude da sua força, inteligência protetora, supletiva da insuficiência, quer de uma inteligência mais jovem, que aquela compeliria a fazer, inconscientemente, para seu bem, o que ainda fosse incapaz de fazer por si mesma, quer, de uma inteligência madura, porém, momentaneamente tolhida no uso de suas faculdades, como se dá com o homem na infância e nos casos de idiotia e de afecções mentais”.

Mas Kardec vai além e, no item 15 do mesmo capítulo 03 da obra citada, diz: “Nesta ordem de idéias, ainda mais longe se pode ir”.

“Se observarmos os efeitos do instinto, notaremos, em primeiro lugar, uma unidade de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados, que cessam logo que a inteligência o substitui”.

“A uniformidade no que resulta das faculdades instintivas é um fato característico, que forçosamente implica a unidade da causa”.

“Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportarmos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. II, n. 24); se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada individuo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o individuo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem”.

“Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem”.

Finalizando:

“Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta o caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter às diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça”.