Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

SINCERIDADE E LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (743 leituras)
Fernando Clímaco Santiago Maciel (Carpina/PE)


“A liberdade de consciência é um dos caracteres da verdadeira civilização e do progresso” (L.E., 837)

“Será repreensível aquele que escandaliza com a sua crença um outro que não pensa como ele? “— Isso é faltar com a caridade e atentar contra a liberdade de pensamento”. (L.E., 839)

Quem acompanha atentamente a imprensa espírita brasileira, já deve ter percebido que se tornou bastante comum o uso da expressão “Espíritas Sinceros” em artigos dirigidos ao movimento espírita de nosso país. Há pouco, num mesmo periódico, saíram três textos onde a expressão foi utilizada, por diferentes autores, e o fato levou-nos a refletir mais seriamente.

Começamos a analisar o sentido e a aplicação dessa adjetivação insistentemente utilizada em exortações aos espiritistas do Brasil e percebemos que alguns desses textos desatacam, indireta, mas claramente e por exclusão, a existência de um outro grupo, naturalmente não citado: o dos “Espíritas NÃO-SINCEROS” e, sinceramente, não conseguimos perceber quais os critérios utilizados para essa classificação. Em outras palavras: passamos a nos perguntar o que leva um espírita a tachar outro espírita de insincero?!

Primeiramente, parece-nos claro que quem faz tal censura julga-se, naturalmente, integrante do grupo dos sinceros e, conseqüentemente, deve agir com a mais pura sinceridade, sem nenhuma tisna de inverdade, em todos os atos de sua vida, por menos representativos que os considere. Só, e apenas desta maneira, estará em condições de “atirar a primeira pedra”. Afinal, ensina-nos nossa excelsa Doutrina que “a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura”, acrescentando que “Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apoia no exemplo que dá do bem”. (O Evangelho Seg. o Espiritismo, Cap. 10, item 13).

Sinceramente, não sei como espíritos em provas e expiações — que somos todos nós — podem revestir-se de tal autoridade, quando nem mesmo Jesus — o Modelo — dela fez uso para censurar ou acusar. Combateu a mentira e a hipocrisia, todavia o fez sempre “olhos nos olhos”, buscando educar e sem jamais expor a qualquer de seus irmãos de modo a desacreditá-lo.

Será que não percebemos o equívoco da acusação que generaliza?

Pensemos no efeito causado no leitor; à frente de um artigo assinado por autores tão respeitáveis quanto as instituições que os respaldam, irá, obviamente, indagar quem são os insinceros e por que merecem essa pecha. Ou não?! Como não encontrará resposta no artigo, que normalmente evita acusações diretas a grupos ou pessoas, o que poderá pensar?

Pessoalmente, a impressão que nos dá como leitor é que não se dirigem os autores para seus próprios grupos ou pessoas afins (diz-nos a lógica); estarão voltando-se a grupos ou pessoas com as quais mantém certas “diferenças”, e que ocorrem essencialmente no campo das idéias, isto é, na forma de pensar.

Ora, se o leitor observou com atenção os trechos aqui destacados de “O Livro dos Espíritos”, percebeu que os Imortais trataram a liberdade de consciência e de pensamento como inalienáveis direitos do homem, que caracterizam a verdadeira civilização e o progresso, até porque encontram-se estribados nas próprias Leis Naturais. Sendo assim, teremos o direito de acusar de insincero a quem quer que seja, apenas porque não pensa como nós?

Certamente que não. Afinal, o companheiro poderá ser autêntico e sincero naquilo que pensa, tanto quanto devemos ser em nossas próprias opiniões. Se não bastasse, estaríamos, ainda, ferindo a liberdade de consciência e esquecendo o princípio básico para o justo equilíbrio das relações sociais, exarado em a consciência do homem, e que “consiste em cada um respeitar os direitos dos demais” (L.E., 875). Faltaríamos, então, com a caridade.

Isto não significa que devamos nos omitir quando houver flagrante contradição com o vero pensamento espírita, mas ainda neste caso, deveremos usar a argumentação sólida e transparente respaldada na lógica e no bom-senso, como magistralmente fazia Allan Kardec. Extremamente saudável, portanto, evitássemos esse tipo de expressão que sai do campo da argumentação para o terreno da insinuação, dando margem a dúvidas quanto à intenção daqueles que a utilizam e alimentando a dissensão.

Com estas observações, não queremos, sinceramente, fechar os olhos para as nossas imperfeições, ainda que já estejamos matriculados na escola do conhecimento espírita, no entanto não se justifica o destaque aos insinceros, quando, na verdade, não podemos esquecer dos orgulhosos, dos sensuais, dos autoritários e despóticos, dos irresponsáveis e levianos, dos vaidosos, dos avarentos, dos viciados, dos rancorosos, dos egoístas, etc...

Movidos, pois, pelo espírito de solidariedade e tolerância, aproveitemos todas as oportunidades de auxiliar e educar sempre que possível, entretanto, resguardemo-nos de expor os companheiros — espíritas ou não — ao látego de nossas precipitadas e genéricas conclusões e expressões menos caridosas apenas por pensarmos diferente deles. Do contrário, corremos o risco de aumentar a já longa lista dos imperfeitos, caracterizando-os como espíritas intolerantes.

RESPONSABILIDADE PESSOAL


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (271 leituras)
Rodolfo Calligaris

Os povos cristãos vêm sendo instruídos, séculos pós séculos, que “nossos primeiros pais” haviam sido criados justos, inocentes e imortais, mas que, por haverem cedido à tentação demoníaca, desobedecendo a Deus, perderam o estado de graça, foram expulsos do éden, tornaram-se ignorantes, propensos ao mal, expostos a toda sorte de misérias e condenados a morrer.

Essa culpa, conquanto pessoal, não prejudicou apenas Adão e Eva. Transmitindo-se a todos os seus descendentes, por geração natural, danificou todo o gênero humano, que nascendo já estigmatizado pelo erro, jamais poderia salvar-se por si mesmo.

Deus, porém, apiedou-se dos homens e alguns milênios depois houve por bem enviar à Terra seu filho unigênito, Jesus-Cristo, para que pudesse oferecer-se como vítima expiatória e, assim, os libertasse da escravidão do demônio e do pecado, reconquistando-lhes o direito que tinham ao céu.

Em síntese, o que acima foi dito poderia ser resumido nestas duas proposições:

Adão e Eva pecam e a Humanidade é condenada.

Vem o Cristo, sofre o martírio da cruz e a Humanidade é salva.

Uma pergunta, então, se impõe:

Nesse jogo, qual o papel da Humanidade mesma, uma vez que tudo se realiza por substituição?

Temos, para nós, que a razão pela qual o Cristianismo não há produzido, até agora, tudo aquilo que de bom e de belo dele se deveria esperar, só pode ser atribuída a essa falsa idéia de que somos redimidos do pecado, graciosamente, “pelo sangue do cordeiro de Deus”.

Fosse isso verdadeiro, alcançassem os homens, realmente, a purificação por efeito da morte de Jesus, e o mal já devera ter desaparecido da face da Terra.

Não é tal, entretanto, o que se observa. A ambição, o orgulho, a vaidade, o roubo, a injustiça, o farisaísmo, a crueldade, os vícios e as paixões continuam a dominar grande parte das criaturas, impedindo seja estabelecido entre nós um clima de paz, de alegria e de fraternidade.

Enquanto supusermos que o “Cristo morreu por nós” e que “a efusão de seu sangue nos limpa de toda culpa”, sem empreendermos qualquer esforço sério no sentido de vencermos nossas fraquezas e imperfeições; enquanto não compreendermos, também, que o que Deus quer de nós não é “adoração”, mas trabalho de cada qual em benefício de todos, visando a eliminar A DOR pela AÇÃO, as coisas não se modificarão e o sofrimento continuará infelicitando indivíduos, famílias, comunidades e nações.

O Espiritismo, recusando fé à lenda da “queda do homem”, porquanto queda jamais houve, e sim evolução do homem das cavernas para o homem nômade e deste para o homem civilizado de nossos dias, o que torna insubsistentes as doutrinas da “expiação”, da “propiciação”, do “pecado original” etc., diz-nos, baseado nos ensinamentos do Evangelho, que “a cada um será dado segundo as suas obras” e que nossa felicidade, neste mundo ou no outro, depende da conquista da Virtude e da prática do Bem, ou seja, de nossos próprios méritos, erigindo, destarte, a responsabilidade pessoal em princípio fundamental de sua filosofia de vida.

Quando toda a Humanidade venha a pensar e a agir deste modo, então, certamente, a Terra se transformará no paraíso com que sonhamos.

(De “Páginas de Espiritismo Cristão”, de Rodolfo Calligaris)

OS LIMITES DO LIVRE-ARBÍTRIO


Publicado por Voluntario em 08/12/2006 (394 leituras)
Elson de Souza Ribeiro


O que vem a ser um indivíduo livre? Segundo o dicionário, “livre é o sujeito que tem seus direitos civis e políticos, amparados por lei”.

Porém, as leis nos indicam que essa liberdade de agir e decidir é relativa. Tanto é que, quando o direito do outro é desrespeitado, mesmo que seja de forma precária, entra em cena o elemento punição. Se na Terra, que é um planeta atrasado, de provas e expiações, existe uma lei que limita a liberdade de agir, imagine nos planos superiores.

Na questão 121 do Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta: "por que é que alguns espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal"? E os espíritos respondem: "não têm eles o livre-arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria".

A resposta sábia dos espíritos para essa questão nos leva a fazer uma reflexão. Em que momento somos realmente livres? No momento em que fazemos o bem ou o mal? A liberdade para o bem está harmonizada com as leis da vida, com as leis eternas, enquanto que o mal tem muito mais vínculo com o desconhecimento delas.

Graças às obras complementares que vieram depois das obras de Kardec (especialmente de André Luiz), é possível perceber que o livre-arbítrio pode ser limitado. Aliás, isso é comprovado desde o planejamento que os Espíritos Superiores fazem para o reencarnante, quando este não tem condição para fazer sua escolha. Ou seja, ele vem pela via compulsória.

No capítulo 7 do livro No Mundo Maior, psicografado por Chico Xavier, André Luiz nos apresenta um caso de reencarnação compulsória. Um garoto de oito anos, conta Calderaro, “não fala, não anda, não chega a sentar-se, vê muito mal, quase nada ouve na esfera humana”. O que teria feito esse espírito no pretérito? Há quase dois séculos, decretara a morte de muitos compatriotas numa insurreição civil, semeando ódio e ruínas.

No capítulo 14, da mesma obra, temos mais um exemplo das limitações do livre-arbítrio. Dessa vez é o caso de Antídio, um velho conhecido de Calderaro que, a cada vez que recebe assistência espiritual, volta a cair nas tentações do alcoolismo. Diante da indisciplina de Antídio, os benfeitores espirituais vão ministrar o que eles chamaram de "recurso da enfermidade provisória". Trocando em miúdos, Antídio conhecerá a prisão do leito, durante alguns meses, graças a uma nefrose cardíaca, para harmonizar o cosmo psíquico. Neste período nada adiantaria apelar para medicamentos. Toda essa enfermidade provisória serviria para que o doente não esquecesse das obrigações sagradas e da nobreza do ato de viver.

Portanto, nos dois casos citados, nós podemos perceber as restrições que a justiça Divina faz com aqueles que não corresponderam à expectativa. Conseqüências? Aflição, desencanto, cansaço, tédio, sofrimento, cárcere etc.; a prisão regeneradora. Somos livres na escolha que fazemos. Mas já não somos livres das conseqüências desta escolha. Cada atitude (positiva ou negativa) gerará conseqüências. E uma das conseqüências poderá ser, até, a suspensão temporária do livre-arbítrio. O Plano Espiritual Superior estabelece para os devedores reincidentes algumas restrições no seu conforto para sanar seus débitos. Em razão disso, não poderão viver à farta, mas sim com abstinência e suor. Castigo de Deus? Não. Conseqüências das más escolhas, má utilização do livre-arbítrio. O inferno ou o céu é um problema de direção espiritual. Busquemos a adesão do Senhor, no entanto, saibamos que todos os problemas criados por nós serão resolvidos por nós mesmos.


Fonte: Revista Espírita Allan Kardec

O PLANEAMENTO FAMILIAR


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (512 leituras)
Heloísa Pires

«Revista de Espiritismo»
nr. 35, Abril-Maio-Junho 1997
Federação Espírita Portuguesa

Matemática, física e pedagoga, Heloísa Pires, espírita renomada, esteve em Portugal em Janeiro, proferindo várias palestras. Por onde passou deixou o rasto luminoso da cultura espírita, encantando quem a ouviu.

Heloísa Pires seria mais uma mulher, incógnita, e não seria notícia se não fosse um dos grandes vultos do espiritismo mundial e licenciada em matemática, em física, em pedagogia.

Espírita convicta, é um dos elementos-chave do movimento espírita brasileiro. Trabalha por opção com deficientes profundos, no campo da pedagogia. Seu pai, José Herculano Pires, foi de tal maneira marcante para o espiritismo, a nível mundial, que foi referido como sendo o metro que melhor mediu Allan Kardec (o codificador do espiritismo). Herculano Pires, escritor, filósofo, deixou uma obra literária impressionante, que ainda hoje é desconhecida da maioria dos espíritas. De realçar "O Espírito e o Tempo" e "Mediunidade", se é que é possível destacar estas duas obras das restantes.

Heloísa Pires esteve em Portugal, a convite do Centro Espírita Perdão e Caridade, de Lisboa, durante oito dias. Conferenciou em Lisboa, no referido centro espírita, em Lagos, em Leiria, em Viseu, no Porto, de novo em Lisboa no Centro Espírita Amor e Caridade e ainda na Federação Espírita Portuguesa. Concedeu ainda três entrevistas, na Rádio Nova (com Rui Castelar), no «Tal e Qual» (Paulo Emereciano) e à Revista de Espiritismo. Aproveitando o ensejo da sua presença colocámos-lhe algumas questões:

Revista de Espiritismo» — Deve haver planeamento familiar ou a mulher é uma máquina de ter filhos?

Heloísa Pires — Se disser-mos "tenha os filhos que Deus mandar" estamos a repetir o que a Igreja Católica e outras correntes defendem. Não somos coelhos nem gatos. O homem obra com conhecimento de causa. Há que planear ter os filhos que possam ser educados para que eles saiam vitoriosos da vida. Ter 11 filhos e deixá-los ao deus-dará é inconsciência criminosa. O planeamento familiar é uma necessidade no momento actual, é indispensável, para melhorar as condições de vida na Terra.

RE — Há quem diga que a eutanásia pode ser um acto de caridade. Que pensa disto?

H.P. — É um crime, desnecessário. Vemos agora, na Bélgica, o Dr. Morte. Horrível. Um homem, médico, a matar outros homens. Não somos Deus. Devemos ficar na Terra o tempo que for necessário. À luz do espiritismo, se alguém tem uma doença prolongada é porque necessita de passar por essa situação, dentro das leis de causa e feito, para que os seus fluidos vitais se desgastem. Aí, a pessoa parte para o mundo espiritual em boas condições. Provocar essa situação (eutanásia) é provocar sofrimento no espírito, que fica envolvido em fluidos vitais que o ligam ao corpo. Temos de aceitar a vontade divina. Fatal, só o nascimento e a morte. Tudo o resto depende do nosso livre-arbítrio.

RE — E o aborto?

H.P. — O aborto é um crime. É fruto da ignorância, daqueles que não entendem a vida. No entanto, temos de explicar que tudo é considerado a partir do momento do conhecimento. Depois de entender-mos que o aborto é um crime, não podemos praticá-lo. Antes de o sabermos, se o praticámos temos atenuantes. Mas não há justificação para o aborto. É desnecessário.

RE — Como é que uma mulher de ciência é espírita, fala com os espíritos, e acredita em Deus?

H.P. — Einstein, que intelectualmente estava a anos-luz de nós, dizia: "Deus existe". Através do raciocínio temos de entender que existe uma inteligência suprema. Porque a desordem não cria nada e a ordem revela uma inteligência maior que criou tudo e que nos criou. Os físicos actuais, a cada dia que passa, convencem-se mais da existência de Deus. Eles apenas não gostam do rótulo de "Deus", dizem "Inteligência", "Força Criadora". A nossa capacidade de raciocínio, a procura de organização do Mundo, as fórmulas matemáticas, são uma prova evidente de uma inteligência maior que criou inteligências menores.

O LIVRE-ARBÍTRIO


Publicado por Voluntario em 30/9/2008 (1274 leituras)
Escrito por Laylla Toledo



Pare e pense: de vez em quando, é necessário dar uma pausa no conteúdo da própria vida e analisar o que está acontecendo.
Ao pararmos para refletir, colocando-nos como espectadores da própria história, assistimos as cenas que a vida construiu conosco. Muitas destas passagens nos fazem reviver alegrias e emoções de um tempo memorável, mas nem só de boas lembranças é feito o passado. Existem outras cenas nas quais os momentos difíceis e dolorosos também passam diante de nossos olhos e, mesmo depois de muito tempo, ainda podemos sentir o gosto amargo daquele sofrimento ou dor.

Independentemente da história pessoal de cada um, devemos lembrar que somos nós quem construímos nossa própria história, que somos o personagem principal no teatro da vida. Cada ser é a principal célula criadora de seu próprio destino. O roteiro da vida não está completamente escrito, pois, além daquelas tarefas previamente estabelecidas pelo plano espiritual superior, que visam o resgate de nossos erros do passado, existem algumas lacunas à espera de serem preenchidas de acordo com as escolhas que nos permitimos fazer.
Então, se há uma parcela de tempo destinada à recuperação de laços partidos em função de atitudes cometidas anteriormente, uma outra parcela de tempo nos é reservada para que, com o calor de nossas mãos e palavras, possamos construir obras de luz que permitirão auxiliar a todos que estejam próximos de nós, além de contribuirmos com nossa lapidação íntima, rumo a um estágio mais avançado em espírito. A história de vida é escrita pelo indivíduo, portanto, somos os co-produtores de nossa própria peça. Mas além de construirmos nossa própria história, participamos simultaneamente nas peças de outros companheiros, como coadjuvantes.
Ser o próprio redator e personagem principal nos leva a concluir que somos responsáveis diretos por cada ato e cada cena de que participamos. Caso olhemos para trás e recordemos de fatos que nos entristecem ou envergonham, devemos lembrar que cada uma das atitudes que foram tomadas eram equivalentes ao grau de compreensão e percepção que tínhamos na época.
Hoje, após várias experiências, aprendemos quais os caminhos que nos machucam e quais nos conduzem à paz e à felicidade. Entretanto, existem muitos outros trajetos que ainda não descobrimos e que trilharemos muito em breve. Diante de tudo isso, se temos consciência de que somos nós quem dirigimos e protagonizamos a própria história, é nosso dever torná-la repleta de vitórias, conquistas e alegrias, assim como eliminar as passagens dramáticas e as experiências dolorosas.

Mudando o destino
De modo geral, todos os infortúnios, desavenças, doenças e até mesmo desgraças nascem de pontos insignificantes, que, muitas vezes, são alimentados no inconsciente por anos a fio, aspectos estes identificados como sentimento de culpa, remorso, raiva, mágoa, ódio etc. Se cortamos a quota de abastecimento e nos recusamos a ver essas desarmonias crescerem, elas desaparecem de forma natural. Para isso, basta apenas que modifiquemos a postura e o comportamento íntimo.
Porém, não é fácil a tarefa de mudar velhos hábitos de agir, sentir e pensar. Isto exige disciplina, amor, dedicação, perdão e boa vontade. A dificuldade acontece porque os velhos padrões se aderem às profundezas da personalidade, como se criassem raízes. Assim, quando desejamos modificá-los, é como se estivéssemos ferindo nossa própria pele. Mudar é como se tornar um outro indivíduo, perder a identidade que conhecemos.
Ninguém consegue percorrer uma légua em uma passada só. Para chegarmos ao nosso objetivo, devemos buscar encurtar a distância da chegada a cada passo, renovando forças e nos alimentando com coragem para podermos ganhar mais e mais metros. A luta deve ser diária para não sucumbirmos frente ao desânimo, pois aquele que duvida das próprias forças vacila e cai na frustração.
Toda mudança deve ser realizada aos poucos. Os hábitos são a somatória de várias e várias repetições. Para eliminar os velhos hábitos, é preciso se associar ao tempo, pois somente ele é capaz de assegurar a colheita do que um dia foi a semeadura. O hábito só pode ser extraído da personalidade ao ser substituído por outros novos, já que não existe possibilidade de vazios na vida.
Então, se tudo começa no pensamento, é necessário que, antes de qualquer atitude, as idéias sejam bem objetivas. Primeiro se muda a mente, sem pressa, mas com firmeza, pois só ela pode comandar o processo. Corremos sério risco de fracassar caso deixemos o entusiasmo momentâneo guiar nossas decisões. Ele não é o pilar no qual podemos erguer nossas realizações. O alicerce principal está no pensamento, no objetivo a ser alcançado, enfim, na certeza do que se quer obter. A força de vontade, a dedicação e a motivação devem funcionar como elementos de sustentação, como se fossem os tijolos e o cimento da construção íntima, que, juntos, ajudarão a erguer a fortaleza de nossos sonhos.

Poder de transformação
O homem tem o poder de transformar as diretrizes de seu caminho quando acorda para a realidade de suas tarefas. Desde que mude sua mente, ele acabará com as conseqüências de um passado equivocado. Um dos objetivos da existência é a modificação dos hábitos prejudiciais e, desde que esse processo aconteça, não há mais necessidade da dor e do sofrimento. Tudo é mudança de mentalidade e de perspectiva, nada está condicionado a uma lei inexorável.
Assumir o trabalho que nos cabe é um fato do qual não se pode fugir, a responsabilidade é parte integrante de qualquer ser. Quem se esquiva ou tem medo de agir não se dispõe a viver integralmente a página da vida que acaba de virar em branco. Ninguém acelera o tempo, pode apenas adiantar ou retardar seu tempo interior. As etapas seguirão seu curso, sem que ninguém possa detê-las. Então, vale a pena ficar de braços cruzados diante de tantas possibilidades?
Quanto mais lúcido for nosso poder de gerar acontecimentos, mais poderemos manipular o próprio caminho. É por isso que devemos cultivar todas as oportunidades de aprimoramento. Quanto mais seguirmos os impulsos e gostos intuitivos, aqueles ditados pelo coração, mais desenvolveremos os dons inatos, “porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus 6:21).
Esforcemo-nos para garantir o aprendizado gradativo ao qual cada etapa nos conduz, lembrando que olhos distraídos não captam a paisagem. É preciso enxergar o que passa despercebido para os outros, tirar conclusões, ordenar e juntar fatos e idéias, tirar sábias lições de tudo que se passa ao redor. Entretanto, isso tudo dá trabalho, exige um comportamento e uma visão menos acomodada, trabalho de ver e pensar. Circunscrita às próprias limitações, a mente se corrompe e deteriora como água parada. É por isso que a existência apresenta desafios, pois, sem eles, perderíamos a flexibilidade.
Portanto, é indispensável pensar. Se construimos nosso destino diariamente por meio dessa mesma força mental, também podemos transformá-lo. Quando alguém toma consciência de que forja todos os fatos que lhe acontecem com o espírito, passa a prestar mais atenção aos seus atos e pensamentos.
Aqueles que estão acostumados às idéias de fatalidade questionam-se sobre a possibilidade de mudança. Enfraquecidos e desorientados, não crêem no poder de mudar seus destinos. Porém, alterando o panorama das idéias, lidando apenas com energias sutis, eles comprovarão sua infinita força. Tanto os grandes feitos como as pequenas mudanças de rumo se fazem com discernimento, ação e tempo. Mas é sempre bom lembrar: aquele que não se predispõe aos serviços pequenos não conseguirá realizar os mais altos projetos. Está naquelas tarefas mais humildes a chance de exercermos a responsabilidade e a força de vontade.
Mudar o panorama das idéias é reescrever o próprio roteiro da vida. A mente é capaz de grandes realizações caso saibamos trabalhar com nossas disposições mentais e emocionais. O pensamento constrói o destino do ser humano e nunca é tarde para analisarmos e revermos nossa postura. Somente assim seremos capazes de transformar o aspecto de nossa história e alcançar a vitória tão desejada. A conquista do equilíbrio interior e a superação dos próprios limites dependem de nós.

Artigo publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição 16.Escrito por

O LIVRE ARBÍTRIO: FATALIDADE E RESPONSABILIDADE


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (1420 leituras)
Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec

Parte 6
O livre arbítrio: Fatalidade e Responsabilidade
A noção de livre arbítrio está desassociada da de responsabilidade. Se o homem não fosse livre para atuar, seria apenas uma máquina cega ; os criminosos e os viciados não seriam então responsáveis por seus atos, que poderiam atribuir aos seus « genes ». Essa crença de que todos os nossos pensamentos e todos os nossos atos são inteiramente determinados pelas leis da matéria, e que a impressão que temos de ser livres é ilusória, é chamada de determinismo. É a negação de toda responsabilidade e de toda moralidade.

A questão do livre arbítrio é esclarecida pela doutrina dos renascimentos sucessivos e evolução do ser : nas camadas inferiores da criação, o ser ainda se ignora; apenas o instinto e a necessidade o conduzem, e é apenas nos tipos mais evoluídos que aparecem, como uma alva veste pálida, os primeiros rudimentos de faculdades. Na humanidade, a alma está enriquecida pela liberdade moral. Seu julgamento, sua consciência se desenvolve mais e mais, à medida que percorre sua imensa carreira. Colocada entre o bem e o mal, compara e escolhe livremente. Esclarecida por suas decepções e seus males, é no seio das provas que sua experiência se forma, que sua força moral se tempera.

A questão do livre arbítrio pode se resumir assim : O homem não é, de forma alguma, conduzido fatalmente ao mal ; os atos que perfaz não estão escritos antecipadamente; os crimes que comete não são, de nenhuma maneira, o cometimento de um sentença do destino. Ele pode, como prova e como expiação, escolher uma existência onde terá as tentações do crime, seja pelo meio onde se encontra colocado, seja pelas circunstâncias que sobrevêm, mas ele é sempre livre de agir ou de não agir. Assim o livre arbítrio existe, no estado espiritual, na escolha da existência e das provas, e, no estado corporal, na faculdade de ceder ou de resistir aos arrastamentos aos quais voluntariamente nos submetemos.

O Espírito desembaraçado da matéria e no estado errante, faz escolha de suas existências corporais futuras segundo o grau de perfeição ao qual chegou, e é nisso, como dissemos, que consiste sobretudo seu livre arbítrio. Essa liberdade não é de nenhuma forma anulada pela encarnação; se cede à influência da matéria, é porque sucumbe ante as provas que ele mesmo escolheu, e é para ajudar a superá-las que pode invocar a assistência de Deus e dos bons Espíritos.

Sem o livre arbítrio o homem não tem nem culpa no mal, nem mérito no bem; e isso é a tal ponto reconhecido que, no mundo, a reprovação ou o elogio são sempre proporcionais à intenção, isto é à vontade; ora, quem diz vontade diz liberdade. O homem não poderia então procurar uma desculpa de suas faltas na sua organização, sem abdicar de sua razão e de sua condição de ser humano, e assim se assemelhar aos brutos. Se ele assim agisse para o mal, agiria do mesmo modo para o bem; mas quando o homem faz o bem, tem um grande sentimento de estar fazendo algo meritório, e não se preocupa de gratificar seus órgãos, o que prova que, malgrado a opinião de alguns sistemáticos, ele não renuncia, instintivamente, ao mais belo privilégio de sua espécie: a liberdade de pensar.

A fatalidade, tal como se entende vulgarmente, supõe a decisão prévia e irrevogável de todos os eventos da vida, qualquer que seja sua importância. Se tal fosse a ordem das coisas, o homem seria uma máquina sem vontade. Para que lhe serviria sua inteligência, uma vez que em todos os seus atos seria dominado pelo poder do destino? Uma tal doutrina, se fosse verdadeira, seria a destruição de toda liberdade moral; não haveria mais para o homem a responsabilidade, e por conseqüência nem o bem, nem o mal, nem crimes, nem virtudes. Deus, soberanamente justo, não poderia punir sua criatura pelas faltas que não dependeria dele não cometer, nem o recompensar pelas virtudes das quais não teria o mérito. Uma semelhante lei seria a negação da lei do progresso, porque o homem que esperasse tudo da sorte nada faria para melhorar sua posição, uma vez que, em o fazendo, nada ganharia.

A fatalidade portanto não é uma palavra vã ; ela existe na posição que o homem ocupa sobre a terra e nas funções que cumpre, e, por conseguinte, no gênero de existência que seu Espírito de fato escolheu como prova, expiação ou missão ; ele sofre fatalmente todas as vicissitudes desta existência, e todas as tendências boas ou más que lhe são inerentes ; mas aí termina a fatalidade, porque depende de sua vontade ceder ou não a essas tendências. Os detalhes dos eventos estão subordinados às circunstâncias que ele mesmo provoca por seus atos, e sobre os quais os Espíritos podem influenciar pelos pensamentos que lhe sugerem.

A fatalidade está então nos eventos que se apresentam, já que são conseqüência da escolha de existência feita pelo Espírito ; ela pode não estar no resultado desses eventos, uma vez que pode depender do homem lhes modificar o curso por sua prudência ; ela jamais está nos atos da vida moral.

É na morte que o homem está submetido de maneira absoluta à lei inexorável da fatalidade ; porque ele não pode escapar à sentença que fixa o termo de sua existência, nem ao gênero de morte que deve interromper seu curso.

Segundo a doutrina materialista, o homem carrega em si mesmo todos os seus instintos ; eles provêm seja de sua organização física, pela qual não seria responsável, seja de sua própria natureza, na qual pode buscar uma desculpa a seus próprios olhos, dizendo que isso não seria sua falta já que nasceu assim. A Doutrina Espírita é evidentemente mais moral : ela admite o livre arbítrio do homem em toda a sua plenitude ; lhe diz que ao agir mal, seja por sua própria vontade, seja por ter cedido à uma sugestão estranha má, lhe cabe toda a responsabilidade, uma vez que lhe reconhece o poder de resistir; o que evidentemente é mais fácil do que se tivesse de lutar contra sua própria natureza. Assim, segundo a Doutrina Espírita, ele não tem um arrebatamento irresistível : o homem sempre pode fechar os ouvidos à voz oculta que lhe sugere o mal em seu foro íntimo, como os pode fechar à voz material dos que lhe falam ; ele assim o faz por sua vontade, pedindo a Deus a força necessária, e, com o mesmo intuito, reclamando a assistência dos bons Espíritos. É o que Jesus nos ensina na sua sublime prece da Oração Dominical, quando nos faz dizer : « Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. »

Esta teoria da causa excitante de nossos atos ressalta evidentemente de todo o ensinamento dado pelos Espíritos ; não somente ela é sublime de moralidade, mas acrescentaremos que ela se revela aos nossos próprios olhos ; ela o mostra livre de sacudir um jogo obsessor, como é livre de fechar sua casa aos inoportunos ; ele não é mais uma máquina agindo por uma impulsão independente de sua vontade, é um ser de razão, que escuta, que julga e que escolhe livremente entre dois conselhos. Acrescentemos que, devido a isso, o homem não está absolutamente privado de sua iniciativa ; não deixa de atuar por sua própria motivação, porque definitivamente não é senão um Espírito encarnado que conserva, sob o invólucro corporal, as qualidades e os defeitos que teria como Espírito. As faltas que cometemos têm então sua fonte primária na imperfeição de nosso próprio Espírito, que ainda não atingiu a superioridade moral que terá um dia, mas que traz completo o seu livre arbítrio ; a vida corporal lhe é dada para purgar-se de suas imperfeições pelas provas que sofre, e são precisamente suas imperfeições que o fazem mais falível e mais accessível às sugestões dos outros Espíritos imperfeitos, que se empenham em procurar fazê-lo sucumbir na luta a que se comprometeu. Se vier a vencer dessa luta, se eleva ; se malogra, permanece naquilo que era, nem pior, nem melhor : é uma prova a recomeçar, e isso pode durar assim por muito tempo. Quanto mais se depura, mais seu lado fraco diminui, e menos se entrega àqueles que o solicitam ao mal ; sua força moral cresce em razão de sua elevação, e os maus Espíritos dele se afastam.

Os filósofos têm freqüentemente contraposto o livre arbítrio à presciência Divina pretendendo que se Deus tem o conhecimento do porvir, então nossos atos não são livres uma vez que não podemos ir de encontro ao plano Divino. Diante do conhecimento antecipado que Deus tem por todas as coisas, podemos verdadeiramente afirmar a liberdade humana ? Questão complexa e árdua na aparência, e cuja solução está entretanto entre as mais simples. Mas o homem não gosta das coisas simples. Prefere obscurecer, complicar e não aceitar a verdade senão após ter esgotado todas as formas do erro.

Deus, cuja natureza infinita abarca todas as coisas, conhece a natureza de cada homem, os impulsos e as tendências às quais ele poderá se render. Nós mesmos, conhecendo o caráter de uma pessoa, podemos facilmente prever em que sentido, em uma dada circunstância, ela se decidirá, seja por interesse, seja por dever. Uma resolução não pode nascer do nada. Ela está forçosamente ligada a uma série de causas e efeitos anteriores dos quais deriva e que a explicam. Deus, conhecendo cada alma em seus mínimos meandros, pode então rigorosamente, com certeza, deduzir do conhecimento que tem dessa alma, e das condições onde é chamada a agir, as determinações que, livremente, ela tomará.

Observemos que a previsão de nossos atos não os faz surgir. Mesmo podendo Deus prever nossas resoluções, nem por isso elas têm seu curso menos livre.

É assim que a liberdade humana e a providência divina se reconciliam e se combinam, quando se considera o problema na luz da razão.

Vale anotar:
Sem livre arbítrio, o homem não teria a responsabilidade dos seus atos.
A fatalidade nunca existe nos atos da vida moral.
Para saber mais:
O Livro dos Espíritos Allan Kardec (3ª parte, cap. X, Livre arbítrio)
O Livro dos Espíritos Allan Kardec (3ª parte, cap. X, Fatalidade)
O Livro dos Espíritos Allan Kardec (3ª parte, cap. X, Resumo teórico do móvel…)
Após a morte Léon Denis (cap. XL, Livre arbítrio e Providência)
O Problema do Ser e do Destino Léon Denis (cap. XXII, Livre arbítrio)
Revista Espírita 2000 - n° 43, p. 19(Livre arbítrio)
Revista Espírita 1863, p.318 (Livre arbítrio e presciência divina)
Revista Espírita 1867, p.253 (Responsabilidade moral)
Revista Espírita 1870, p.109 (O livre arbítrio)

O LIVRE ARBÍTRIO


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (673 leituras)
Inaldo Lacerda Lima

Que é o livre-arbítrio? Abrindo “O Livro dos Espíritos”, vamos encontrar no Capítulo X - Da Lei de Liberdade -, 3ª Parte da obra, oito questões relacionadas com o assunto livre-arbítrio (Questões 843 a 850), nas quais os Espíritos superiores instruem-nos a respeito.

Logo na Questão 843, indaga o Codificador se o homem tem o livre-arbítrio de seus atos. E os Espíritos respondem que se tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar, porquanto, sem o livre-arbítrio ele seria máquina.

Em resposta à Questão 845, os Espíritos afirmam que conforme se trate de Espírito mais ou menos adiantado, as predisposições instintivas podem arrastá-lo a atos repreensíveis, porém não existe arrastamento irresistível.

Basta que o Espírito (encarnado ou desencarnado), sendo consciente do mal a que esteja ou se sinta arrastado, utilize a vontade no sentido de a ele resistir.

Verificamos, no contexto geral das Questões acima referidas, que não há desculpa óbvia para o mal que o homem venha a praticar, uma vez que ele, por mais imperfeito que seja, tem a consciência do ato que pratica - se é bom ou se é mau.

O livre-arbítrio é uma faculdade indispensável ao ser humano, não nos resta qualquer dúvida, pois, sem ele, já foi dito, o ser espiritual seria simples máquina ou robô, sem qualquer responsabilidade dos atos que viesse a praticar.

É justamente a faculdade do livre-arbítrio que empresta ao homem certa semelhança com o Pai soberano do Universo. E constitui desiderato pleno desse Pai magnânimo que os Espíritos, seus filhos, cresçam para a glória eterna, iluminando-se na prática da sabedoria e do bem.

A prática do mal pelo Espírito, encarnado ou desencarnado, não tem qualquer justificativa porque ele sabe quando obra indevidamente. Caim, no exemplo bíblico, ao matar Abel, tinha plena consciência do que fazia tanto que o fez às escondidas. O que faltou a Caim foi a compreensão de que nada há oculto aos olhos de Deus!

Pode-se, verdadeiramente, lesar os homens, pode-se até mesmo lesar-se a si próprio, mas nunca lesará alguém a magnânima justiça de Deus.

Esclarece-nos a Revelação da Revelação, ou “Os Quatro Evangelhos”, que o Espírito antes de encarnar toma resoluções quanto ao gênero das provações, quanto à extensão e ao termo delas, até mesmo quanto à duração da existência bem como quanto aos atos que praticará durante a mesma, no entanto, o emprego, o uso ou o abuso que ele faz da vida terrena muitas vezes o impedem de atingir o limite e o bom cumprimento daquela resolução (1º Volume, pág. 139, 7ª edição FEB).

No caso enfocado, o Espírito teve o livre-arbítrio de programar o que seria a sua encarnação, no entanto, em função do próprio livre-arbítrio, por usá-lo mal ou dele abusar, estragou um bom programa de vida. Há, porém, aqueles que procuram justificar-se com fundamento no esquecimento produzido pelo véu da carne.

Os Espíritos, todavia, em resposta à Questão 392 de “O Livro dos Espíritos”, explicam que “não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro.” E concluem: “Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si.”

Vejamos, por exemplo, uma situação em que determinado indivíduo houvesse sido homicida em sua última encarnação e tivesse programado para a atual existência a quitação desse delito. Não obstante a desnecessidade de desencarnar assassinado, ele não teria paz até o dia de seu retorno à vida espírita. Estaria sempre sobressaltado e na expectativa da presença de alguém que lhe viesse subtrair a vida física, se recordasse sua transgressão anterior.

O esquecimento do passado é necessário, misericordioso, e justifica perfeitamente a prova ou provas a que todos estamos naturalmente submetidos, pois essa é uma das funções da vida corporal.

Sentimos a importância do livre-arbítrio quando somos levados a tomar decisões que incomodam a consciência... Isto significa quanto o Pai celestial é bom, nos ama e se preocupa com o nosso progresso. Concede-nos o livre-arbítrio, mas concede-nos igualmente a consciência, espécie de censor natural, que nos alerta quando dele pretendemos abusar.

A propósito queremos fazer um paralelo entre duas informações ou elucidações em torno do livre-arbítrio e as conseqüências de sua errônea utilização. Uma se encontra em “Os Quatro Evangelhos” ou Revelação da Revelação (lº Vol. pág. 299, 7ª edição FEB), nos seguintes termos:

“Esses Espíritos presunçosos e revoltados, cuja queda os leva às condições mais materiais da Humanidade, são então humanizados, isto é, para serem domados e progredirem sob a opressão da carne, encarnam em mundos primitivos, ainda virgens do aparecimento do homem, mas preparados e prontos para essas encarnações (grifos da obra).

A outra se encontra em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (Capítulo III, Item 16, edição FEB), nos termos seguintes:

“Já se vos há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus, senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos revelou de que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah! Há as que sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam dignas da glória que lhes fora destinada.”

Em ambas as elucidações, vê-se que o livre-arbítrio é um dom de que o Espírito pode abusar, mas terá sempre de enfrentar as conseqüências desse abuso, sofrendo encarnações destinadas a purificá-lo, transformá-lo, regenerá-lo, o que não deixa de ser pena de efeito verdadeiramente misericordioso.

Os itens 16 e 17 desse capítulo de “O Evangelho segundo o Espiritismo” são constituídos de uma mensagem de Santo Agostinho, que deve ser lida atenciosamente pelo espírita estudioso. Pois a questão livre-arbítrio confunde bastante aqueles que a conhecem apenas superficialmente, literariamente, sem analisar-lhe a profundidade científico-filosófica.

Há, ainda, aqueles que confundem livre-arbítrio com direito, quando são duas coisas diferentes. No livre-arbítrio temos uma ação voluntariosa de escolha entre alternativas diferentes em que o ator é responsável pelas conseqüências do seu ato. Na ciência do direito a responsabilidade do ato praticado decorre da lei humana.

A Doutrina Espírita exerce, portanto, considerável papel em sua função de Consolador prometido pelo Cristo de Deus: o de alertar as almas que atingiram determinado degrau da escala evolutiva, em que a alegação de ignorância já não atenua determinados erros cometidos em função do livre-arbítrio. No que diz respeito aos habitantes de um mundo em vias de mudança para estágio de regeneração, vale acentuar ainda, conforme vimos acima, a função da consciência como faculdade de alertamento no processo optativo das alternativas para a ação.

A Doutrina está no mundo para todos. Ela não pertence aos espiritistas. Enviou-a Jesus à Humanidade. Os espiritistas somos apenas seus instrumentos de exemplificação e divulgação sem qualquer outro “privilégio” além da consciência do livre-arbítrio.

Reformador nº 1984 – Julho/1994

O EXERCÍCIO INTELIGENTE DO LIVRE-ARBÍTRIO


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (728 leituras)
Vítor Ronaldo Costa

"843. Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?
Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar.
Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina."
(O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec)

O livre-arbítrio é uma lei divina, à qual todos, sem exceção, encontram-se subordinados. Em verdade, trata-se de um princípio universal que se bem utilizado torna-se importante alavanca do progresso individual, na medida em que pode permitir a vivência plena dos sentimentos mais enobrecidos mobilizados de acordo com a vontade e o senso de maturidade moral que cada um alcance.

O comportamento humano, em seus múltiplos aspectos, decorre do exercício pleno da liberdade de ação, contingência a ser respeitada por todos, uma vez que liberdade é apanágio dos seres inteligentes.

É preciso, contudo, bem ajuizar os procedimentos corriqueiros e a conseqüente repercussão do emprego da liberdade usufruída, visando, sobretudo, a não ultrapassar os limites daquilo que deve ser considerado prazeroso ao ego, mas que fere a sensibilidade alheia e compromete a felicidade e a harmonia do semelhante.

Os anseios evolutivos se alicerçam graças à observação responsável das Leis Morais da Vida, caso contrário nos defrontamos com atitudes consideradas antiéticas e geradoras de ações culposas prejudiciais à harmonia consciencial do infrator.

Uma estreita afinidade com o bem é a melhor maneira de se preservar a tranqüilidade de espírito e de se evitar situações conflitivas decorrentes de um inter-relacionamento pessoal inadequado.

Qualquer iniciativa prática aqui na Crosta gera, obrigatoriamente, repercussão benéfica ou não, na dependência do bem patrocinado ou do grau de prejuízo imposto a outrem. Isto nos permite inferir que o uso do livre-arbítrio encontra-se subordinado aos fatores reguladores do comportamento humano, com o objetivo de proteger a comunidade planetária dos excessos cometidos aleatoriamente pelos invigilantes.

O exercício individual do livre-arbítrio deve respeitar a chamada zona fronteiriça, além da qual se encontra o espaço que circunscreve a liberdade de consciência do próximo. A partir de então, é aconselhável existir o consentimento pessoal do outro, para que as idéias e ações executadas sejam devidamente aceitas e compartilhadas harmoniosamente, na ausência de prejuízos, mágoas e ressentimentos.

O uso inadequado do livre-arbítrio desencadeia, no faltoso, reações profundamente desarmônicas do tipo arrependimento e remorso, contingências responsáveis por sofrimentos prolongados, desde que o indivíduo não se proponha a reparar, assim que possível, o mal cometido.

Nem sempre nos damos conta dos prejuízos psicológicos decorrentes de atitudes incompatíveis com as regras da moral evangélica. O ato prejudicial voluntariamente praticado contra o próximo gera repercussões negativas que se fixam indelevelmente no psiquismo do infrator, muito embora as mentes cristalizadas no mal não admitam tal possibilidade.

Em qualquer circunstância, o bom senso evidencia que o cometimento do mal é uma atitude irracional, pois a ação culposa, com o passar do tempo, termina por gerar o arrependimento, e este, por sua vez, estrutura no inconsciente a desagradável e opressiva sensação de remorso.

Significativa parcela da Humanidade sofre os mais variados desequilíbrios em conseqüência de atitudes eticamente inadequadas praticadas nesta ou em vidas anteriores, em conseqüência do mau uso do livre arbítrio.

O remorso equivale a uma certa quantidade de energia desequilibrada a vibrar nos fulcros localizados na intimidade do corpo espiritual, constituindo-se naquilo que ordinariamente denominamos de morbo energético.

Eis aí a causa de inúmeros distúrbios psicopatológicos, que poderiam ser evitados se o homem levasse em conta a necessidade de melhor aproveitar o seu livre-arbítrio de uma forma sempre inteligente, ou seja, em bases condizentes com o Evangelho de Jesus.

Reformador – Junho de 1998

O ACASO NÃO EXISTE


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (1678 leituras)
Victor Leornardo S. Chaves

Comumente esse lema é visto em adesivos colados a vidros de automóveis, seguido da frase "LEIA KARDEC". Ele não está explicitamente na Codificação, mas o conceito que transmite está afirmado várias vezes.

Se não existe acaso,obrigatoriamente tudo no Universo está determinado,isto é, tem um propósito. No entanto,alguns expositores espíritas, fundamentando-se na teoria da relatividade de Einstein e no princípio do indeterminismo de Heisenberg, fazem afirmações como se o Espiritismo fosse indeterminista. Tais palestrantes apóiam-se nas obras [não espíritas] de Fritjoff Capra, como "O Tao da Física" e "O Ponto de Mutação".

Esse autor toma uma posição iconoclasta em relação à ciência ocidental, promovendo um sincretismo entre os princípios da física astronômica, da física quântica e da teoria chinesa do Tao. Nossos confrades confundem os conceitos de determinismo causal (ou causalista),determinismo final (ou finalista) e indeteterminismo.

A ciência mecanicista dos Séculos XIX e XX,admitindo unicamente a relação de causa e efeito (mas, causa só material), é determinista causal (causalista ou etiológica).

O Espiritismo,embora aceitando também a lei de causa e efeito, admite a existência de finalidade. Essa doutrina não pode ser de modo algum determinista no sentido mecanicista. Também não pode ser indeterminista, pois estaria aceitando o acaso, eliminando a intervenção de Deus na ordenação geral do Universo.

A Codificação afirma com veemência que nada ocorre por acaso, havendo um propósito (finalidade) para tudo que há no Universo.

Ela é uma doutrina determinista finalista (teleológica). A confusão feita por alguns palestrantes decorre da presunção de incompatibilidade entre o princípio do livre-arbítrio e o determinismo.

Somente o determinismo causalista contraria o livre-arbítrio. Uma vez ocorrida a causa, ela não muda mais os acontecimentos; tudo deve ocorrer conforme ela determina. Isso exclui a possibilidade da intervenção do livre-arbítrio.O efeito é inexorável.

Desse modo, elimina a responsabilidade humana por suas ações ou omissões. Exemplo: o determinismo geográfico de Rätzel coloca toda a responsabilidade nos acidentes geográficos; o determinismo econômico atribui somente a situação econômica a responsabilidade de tudo que ocorre de errado na vida humana; o determinismo inconsciente de Freud isenta o homem de responsabilidade pelo que fizer de errado, pois ele é vítima das pulsões inconscientes. Por isso, é conhecido também em filosofia por determinismo absoluto. O determinismo finalista apresenta uma finalidade a ser atingida. O homem tem o livre-arbítrio para cumpri-la ou não, mas deverá responder pelo que fizer de errado ou deixar de fazer certo. É conhecido também por determinismo relativo ou finalismo.

Em Esperanto já existe a palavra que traduz finalismo: celismo. Podemos afirmar que o Espiritismo, em relação ao binômio determinismo / indeterminismo, é determinista finalista (final ou teleológico) ou determinista relativo (em Esperanto: celisma doktrino).

Citações que demonstram a posição determinista finalista: Livro dos Espíritos (LE), questão 8: "Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação da matéria (...) ao acaso? Outro absurdo! Que homem de bom senso por considerar o acaso um ser inteligente? E, demais, o que é o acaso? Nada. (...) Atribuir a formação da matéria ao acaso é insensatez, pois o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. LE, 37 Nota: "Diz-nos a razão não ser possível que o Universo se tenha feito a si mesmo e que, não podendo também ser obra do acaso, há de ser obra de Deus". LE, 536 "Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus". LE, 664 "A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus". LE, 687 "(...), Deus isso provê e mantém o equilíbrio. Ele coisa alguma inútil faz". LE, 692, "Sendo a perfeição a meta (grifo nosso) para que tende a Natureza (...)". LE, 728-A "As criaturas são instrumentos de que Deus se serve para chegar aos fins que objetiva". LE,730 "(...) o homem deve prolongar a vida, para cumprir sua tarefa". LE,741 "(...), entre os males que afligem a Humanidade, alguns há de caráter geral, que estão nos decretos da Providência (...)". LE,774, "Diverso dos animais é o destino do homem". LE, 776 "(...) o homem não foi destinado a viver perpetuamente no estado de natureza". LE,778 "(...) o homem tem de progredir incessantemente (...)". LE, 786 "(...) os Espíritos que, encarnados, constituem o povo degenerado não são os mesmos que o constituíam ao tempo do seu esplendor". LE,787 "Deus a ninguém deserda". LE, 964 "Ele traçou um limite (...). Todas as nossas ações estão submetidas às leis de Deus". LE, 1003 (...) tudo, no Universo, se rege por leis (...)". Bíblia (Eclesiastes 3:1.2.3.). "Tudo tem o seu tempo determinado, e há um tempo para todo propósito debaixo do céu: há um tempo de nascer,e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar: tempo de derribar,e de edificar: (...).

O autor é licenciado em Filosofia, médico psiquiatra, coronel-médico da reserva da Aeronáutica, especialista em Homeopatia, e esperantista. Espírita desde os 15 anos, atua no movimento espírita da cidade do Rio de Janeiro.

LIVRE-ARBÍTRIO E DETERMINISMO


Publicado por Marcio-geec em 11/8/2006 (1995 leituras)
Octávio Caúmo Serrano

Engano supor que tudo podemos com base no decantado livre-arbítrio. Nosso livre-arbítrio termina quando começa o livre-arbítrio do outro.

Depois das primitivas experiências nos diferentes reinos da natureza, a partir do momento em que o espírito entra na fase humana, quando começa a ser dotado de razão, além da inteligência e instinto, desabrocha nele a liberdade de ação, o que habitualmente é chamado livre-arbítrio.

Livre-arbítrio parece significar que o homem pode fazer o que quer, pelo simples desejo de fazer, sem precisar de maiores razões ou de dar explicações a quem quer que seja.

Todavia, convém examinarmos que o homem é influenciado pela matéria. E em mundos como o nosso, o apelo material sobre o espírito ainda é bastante acentuado. Por essa razão, além de o livre-arbítrio ser mal conduzido quanto aos objetivos espirituais, as normas do mundo material impedem que certas vontades do homem possam realizar-se. Há leis naturais que ele não pode contrariar. Um exemplo típico é o desejo de voar que o homem alimenta desde os primórdios de sua existência. Máquinas estranhas, e até infantis, foram usadas por ele na tentativa de ganhar o espaço. E, observe-se, mesmo depois que ele conseguiu voar de pára-quedas, ultraleve, asa-delta, voa como quando está num avião. Depende de instrumentos, quando a sua vontade continua a de alçar vôo como fazem os pássaros, por si mesmos, batendo as próprias asas.

Já nos explica a Doutrina Espírita, que na nossa atual fase de evolução espiritual, nosso livre-arbítrio pode ser comparado ao do prisioneiro. Pode movimentar-se à vontade dentro da cela, mas estará limitado às quatro paredes. Assim é o livre-arbítrio de homem comum nos planetas como a Terra. Mais do que o livre-arbítrio, o que nos leva ao crescimento espiritual é o determinismo. Por essa lei, somos impulsionados ao progresso, queiramos ou não. Basta viver para progredir. Todo dia aprendemos algo novo. O bandido que usa a inteligência para delinqüir, está igualmente progredindo, porque aumenta o seu conhecimento. Um dia esse homem estará moralizado e o seu conhecimento e as suas atitudes serão canalizadas para o bem. A inteligência é a mesma, na realização do mal ou do bem. O Espiritismo ensina que o espírito não retrograda. Não aceita a metempsicose das doutrinas orientais, que diz que o homem pode reencarnar num animal. Pode estacionar, dizem os Espíritos, mas não perde o que conquistou. No atual estágio em que nos encontramos, diríamos que nem mesmo estacionar conseguimos. A vida nos impulsiona ao conhecimento e mesmo aquele que relute em melhorar-se moral e espiritualmente, cresce em conhecimento e inteligência, à sua própria revelia.

Vemos por vezes contestações a essa afirmativa. Se Emmanuel foi o senador romano Publius Lêntulus, para posteriormente ser o escravo Nestório, temos a impressão que houve uma involução. É preciso compreender, que tal retrocesso, no entanto, foi apenas material, dentro das escalas sociais. O espírito tinha mais conhecimento e estava mais evoluído quando habitou em Nestório do que quando se serviu do corpo do senador romano. Devido às fraquezas cometidas quando tinha poder, o irmão espiritual precisou viver modestamente para reavaliar conceitos e acelerar o aprendizado. Na hierarquia dos homens ficou inferior; na escala espiritual, já estava degraus acima.

O caminho é realmente esse. Primeiro temos que aprender a discernir para depois controlar as emoções e os sentimentos. Uma pessoa boa que não saiba lidar com o seu coração também causa danos. A mãe que impede o filho de enfrentar as dificuldades mais comuns, não o deixa passar pelas necessárias experiências para adquirir conhecimentos próprios, que faz as lições para que o filho não seja reprovado, é uma benfeitora equivocada que está desvirtuando a sua tarefa de genitora, educadora e formadora do caráter do filho.

O filho passa na escola, mas não passa na vida. Se a mãe desencarnar repentinamente, o filho ficará órfão não apenas de mãe, mas, e o que é mais grave, da capacidade de sobrevivência. Ela não o deixou ser ele mesmo, tendo afogado o seu desenvolvimento.

O livre-arbítrio, por tudo o que foi comentado, precisa ser reduzido e o determinismo ser amplo. Com o passar do tempo as posições vão se invertendo e à medida que o homem adquire maior discernimento vai se capacitando a usar o livre-arbítrio de forma mais ampla. Os espíritos superiores gozam de livre-arbítrio quase ilimitado e só dependem do determinismo no respeito às leis naturais. Quanto à vontade de ação, no entanto, são livres para exercê-la quase que por inteiro.

Muitos equívocos são observados em razão da interpretação errada do que seja o livre-arbítrio. Iludido, pensando que tudo pode, o homem pretende usar de todos os direitos, mas se esquece que ele vive coletivamente e os seus direitos não podem invadir os direitos do semelhante. Isto já a partir do lar, indo para as ruas e em qualquer situação onde nos encontremos.

Homens de grande sabedoria confessaram a sua fraqueza diante da vida. Paulo, o maior apóstolo do cristianismo, dizia frase que se tornou antológica: "Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém." Paulo lamentava suas quedas diante de tanto conhecimento que já possuía. E reagia dizendo: "Minhas quedas não são a minha derrota." Fazia como aconselha a letra da canção popular: "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". Era homem de grande cultura, conhecia e praticava as leis judaicas e perseguiu Jesus por não lhe compreender as intenções de amor pela humanidade. Pelo seu livre-arbítrio mandou matar Estêvão, quando se viu também abandonado pela noiva, Abigail, e teria feito o mesmo com Ananias, não fora ter cegado por ação de Jesus - espírito -, que o queria como divulgador do seu Evangelho.

O livre-arbítrio só pode ser exercido por inteiro se o autor souber comportar-se diante do semelhante. O livre-arbítrio, mais do que fazer o que se quer ou o que se gosta, consiste em fazer o que se deve. Assim, quando vemos alguém se desviando do caminho, julgando-se com o direito de fazer tudo, procuremos ajudá-lo mostrando que ele pode estar exercendo um direito, mas que esse gozo vai lhe custar muito caro, o que talvez não compense o prazer temporário.
Neste mês de abril, quando no dia 18, "O Livro dos Espíritos" completa 143 anos do lançamento da primeira edição, lembremos que com o Espiritismo nasceu o discernimento e a fé raciocinada. A partir daí, tudo deve ser cuidadosamente examinado e não podemos nos deixar enganar pelo enunciado frio das palavras. Em tudo é preciso examinar as implicações de nossas atitudes.