Estudando o Espiritismo

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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Parábola do Rico e Lázaro

https://juancarlosespiritismo.blog/2019/04/18/parabola-do-rico-e-lazaro/ 


Parábola do Rico e Lázaro

Textos evangélicos:  

“Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e que todos os dias se regalava esplendidamente.


Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que estava deitado ao seu portão, desejoso de fartar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhes dava; e os cães vinham lamber-lhe as úlceras. 


Morreu o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado.


No Hades, estando em tormento, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e a Lázaro no seu seio. 


E clamou: pai Abraão, tem compaixão de mim! E manda a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo, e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama! 


Mas Abraão respondeu: filho, lembra-te de que recebeste os teus bens na tua vida e Lázaro do mesmo modo os males; agora, porém, ele está consolado, e tu em tormentos.


Demais, entre nós e vós está firmado um grande abismo, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós. 


Ele replicou: pai, eu te rogo, então, que os mandes à casa de meu pai (pois tenho cinco irmãos) para os avisar a fim de não suceder virem eles também para este lugar de tormento!


Mas Abraão disse: eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.


Respondeu ele: não, pai Abraão, mas se alguém for ter com eles dentre os mortos, hão de se arrepender. Replicou-lhe Abraão: se não ouvem a Moisés e aos profetas tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”. (Lucas, 16: 19-31)


Ideia principal:

A Parábola trata: das provas da riqueza e da pobreza; do apego, do desapego e da utilização dos bens materiais; das consequências do egoísmo e do orgulho; dos benefícios da resignação, da caridade e da humildade; do mundo Espiritual; e da vida futura, como consequência justa e equitativa da nossa existência na Terra. 


Grande ensino: fora da caridade não há salvação. 


O Rico e o pobre Lázaro personificam diferentes situações existentes na Humanidade: um com bens materiais (opulência); e o outro com escassez de bens (miséria).


A indigência é prova dura e a riqueza prova perigosa.


A utilidade e benefício providencial da riqueza é o controle da pobreza, não um obstáculo à melhoria de quem a possui. É um instrumento de progresso espiritual como tantos outros disponibilizados por Deus. O emprego correto da riqueza impulsiona o progresso através dos trabalhos desenvolvidos pelos homens. O homem tem por missão trabalhar pela melhoria material do planeta. Cabe-lhe desobstruí-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta.


A parábola analisa algumas questões fundamentais relativas à riqueza: utilidade, emprego e provas; desigualdades socioeconômicas; apego aos bens materiais. Proclama a importância da prática da caridade e revela as consequências do egoísmo, do orgulho e da humildade, assim como do desprendimento das coisas materiais.


A utilidade e benefício providencial da riqueza é o controle da pobreza, não um obstáculo à melhoria de quem a possui. É um instrumento de progresso espiritual como tantos outros disponibilizados por Deus.


O emprego correto da riqueza impulsiona o progresso através dos trabalhos desenvolvidos pelos homens. O homem tem por missão trabalhar pela melhoria material do planeta. Cabe-lhe desobstruí-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta.


Ideias da Parábola:

Jesus falava por parábolas;

esta lição representa o que se passa no Mundo Espiritual, na vida além-túmulo, como consequência justa e equitativa da nossa existência na Terra; 

discorre sobre a lei da caridade, imprescindível a todos; 

o Rico e o pobre Lázaro personificam a Humanidade, sempre rebelde aos ditames da Luz e da Verdade; 

o Rico gozou no mundo e sofreu no Espaço; Lázaro sofreu no mundo e gozou no Espaço; 

o Rico simboliza os que tratam da vida do corpo e esquecem-se da vida da alma, que somente buscam a felicidade nos bens materiais;

são os egoístas, os orgulhosos, de paixões vis, os vaidosos e os soberbos, aqueles que não utilizam corretamente as riquezas, bens dados por Deus, para impulsionar o progresso moral e espiritual pelo trabalho edificante na prática do bem;

o Rico passou toda sua vida a fartar-se, a desprezar os pobres e a Deus; dar as costas à religião; a gozar e a folgar, mas, quando morreu, não pode continuar a viver como vivia, porque no Mundo Espiritual os tesouros são outros, aqueles que conquistam as glórias celestes; 

Lázaro simboliza os submetidos a dolorosas provas, os excluídos que sofrem resignados e desprezam os bens materiais, porque buscam as coisas de Deus, são solos férteis, pacientes, resignados, têm esperança e não se revoltam, porque creem no futuro e esperam as dádivas divinas. São recompensados, na perseverança e vigília, pela Justiça divina. Não são os pobres orgulhosos, vaidosos, egoístas e nefastos;

o pobre da Parábola é o que sofre com resignação, que despreza os bens da Terra, porque busca as coisas de Deus; que se vê usurpado daquilo que por direito lhe pertence no mundo, mas, paciente e resignado, não se revolta, porque crê no futuro e espera as dádivas que lhe está reservada por Deus; 

assim que Lázaro morreu, foi conduzido pelos anjos ao Seio de Abraão; morreu também o Rico e foi posto no Hades;

duas personalidades distintas, uma que gozou, outra que sofreu; uma a quem nada faltava, outra a quem tudo faltava. Vão trocar as suas condições e mudar de cenário: o mendigo vai para a abundância e o rico passa a mendigar;

Comentários

Com as bênçãos de Deus, a paz de Jesus e a interseção de Maria de Nazaré.


Vamos falar sobre a Parábola do Rico e Lázaro, do Evangelho de Lucas (16: 19-31).


As parábolas de Jesus trazem inúmeros ensinamentos para a nossa vida, mas as interpretações podem ser diferentes conforme a crença, a fé e a religião seguida.


Aqui, vamos discorrer o tema segundo os entendimentos e esclarecimentos da Doutrina Espírita, mesmo porque muito dos aspectos apresentados na Parábola dizem respeito a dois mundos: o material, ou físico corpóreo, e o espiritual. Ainda mais, sua mensagem é direcionada a quem acredita na vida futura, na vida que nunca acaba, porquanto crê na imortalidade do Espírito.


De maneira geral, na Parábola vemos representados dois extremos: opulência e miséria. Ricos e pobres são Espíritos em provação. A indigência é uma prova dura. A riqueza é uma prova perigosa.


A parábola analisa algumas questões fundamentais relativas à riqueza: utilidade, emprego e provas; desigualdades socioeconômicas; apego aos bens materiais. Proclama a importância da prática da caridade e revela as consequências do egoísmo, do orgulho e da humildade, assim como do desprendimento das coisas materiais.


A utilidade e benefício providencial da riqueza é o controle da pobreza, não um obstáculo à melhoria de quem a possui. É um instrumento de progresso espiritual como tantos outros disponibilizados por Deus.


O emprego correto da riqueza impulsiona o progresso através dos trabalhos desenvolvidos pelos homens. O homem tem por missão trabalhar pela melhoria material do planeta. Cabe-lhe desobstruí-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta.


Nesse sentido, importante destacar a crença na vida futura. Sem a vida futura, nenhuma razão de ser teria a maior parte dos seus preceitos morais.


Essa crença tem sido o eixo do ensino do Cristo, sendo o objetivo de todos os homens, porquanto somente ele justifica as anomalias da vida terrena e se mostra de acordo com a Justiça de Deus.


“Com o Espiritismo, a vida futura deixa de ser simples artigo de fé, mera hipótese; torna-se uma realidade material, que os fatos demonstram, porquanto são testemunhas oculares os que a descrevem nas suas fases todas e em todas as suas peripécias, e de tal sorte que, além de impossibilitarem qualquer dúvida a esse propósito, facultam à mais vulgar inteligência a possibilidade de imaginá-la sob seu verdadeiro aspecto, como toda gente imagina um país cuja pormenorizada descrição leia. Ora, a descrição da vida futura é tão circunstanciadamente feita, são tão racionais as condições, ditosas ou infortunadas, da existência dos que lá se encontram, quais eles próprios pintam, que cada um, aqui, a seu mau grado, reconhece e declara a si mesmo que não pode ser de outra forma, porquanto, assim sendo, patente fica a verdadeira Justiça de Deus”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo II, A vida futura)


Outro aspecto a destacar desta Parábola é que cada ser irá para a morada que construiu na Terra, aquela que corresponde à sua evolução espiritual.


“As diferentes moradas são os mundos que circulam no Espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos”. (…)


“Conforme se ache este mais ou menos depurado e desprendido dos laços materiais, variarão ao infinito o meio em que ele se encontre, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que tenha. Enquanto uns não se podem afastar da esfera onde viveram, outros se elevam e percorrem o Espaço e os mundos; enquanto alguns Espíritos culpados erram nas trevas, os bem-aventurados gozam de resplendente claridade e do espetáculo sublime do Infinito; finalmente, enquanto o mau, atormentado de remorsos e pesares, muitas vezes insulado, sem consolação, separado dos que constituíam objeto de suas afeições, pena sob o guante dos sofrimentos morais, o justo, em convívio com aqueles a quem ama, frui as delícias de uma felicidade indizível. Também nisso, portanto, há muitas moradas, embora não circunscritas, nem localizadas”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo III, Diferentes estados da alma na erraticidade)


“Estão próximos os tempos, repito-o, em que nesse planeta reinará a grande fraternidade, em que os homens obedecerão à lei do Cristo, lei que será freio e esperança e conduzirá as almas às moradas ditosas. Amai-vos, pois, como filhos do mesmo Pai; não estabeleçais diferenças entre os outros infelizes, porquanto quer Deus que todos sejam iguais; a ninguém desprezeis. Permite Deus que entre vós se achem grandes criminosos, para que vos sirvam de ensinamento. Em breve, quando os homens se encontrarem submetidos às verdadeiras Leis de Deus, já não haverá necessidade desses ensinos: todos os Espíritos impuros e revoltados serão relegados para mundos inferiores, de acordo com as suas inclinações”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XI, item 14)


Assim, passamos a compreender como devemos construir a nossa futura morada no Mundo Espiritual, a vida além-túmulo, como consequência de nossas obras, pelo que fizemos ou deixamos de fazer na Terra, diante da justiça divina. 


Identificamos que o rico e o pobre personificam a Humanidade, sempre rebelde aos ditames da Luz e da Verdade. 


Os dois personagens da Parábola representam aqueles que desfrutam dos bens terrenos, sem o trabalho edificante na prática do bem, e sofrem no Espaço, e os que sofrem no mundo, suportam as provações e expiações, e gozam das benesses do Espaço. 


O Rico é símbolo daqueles que tratam da vida do corpo e esquecem-se da vida da alma, buscam bens materiais, são egoístas, orgulhosos, vaidosos, soberbos e que somente procuram a sede de prazeres, a luxúria, que mata os sentimentos afetivos e anula os dotes de coração.


No Mundo Espiritual, os tesouros são outros. 


Os Lázaros representam os excluídos da sociedade terrena, os que sofrem com resignação, que desprezam os bens da Terra, porque buscam as coisas de Deus; que se veem usurpado daquilo que por direito lhe pertence no mundo, mas, paciente e resignado, não se revolta, porque crê no futuro e espera as dádivas que lhe está reservada por Deus. 


Pelo que fizeram na Terra, trocam as suas condições e mudam de cenário: o mendigo vai para a abundância e o rico passa a mendigar.


A evolução espiritual passa pelo uso correto do livre arbítrio, das boas escolhas no caminho do bem, da verdade e da vida.


“Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras”. (Mateus 16: 27)


A cada um a sua morada, conforme os seus méritos, as suas obras e o estágio evolutivo.


“Há muitas moradas na casa de Nosso Pai” – assevera-nos o Senhor nas bênçãos da Boa Nova. 


Entretanto viverás naquela que houveres erguido para ti mesmo, segundo o ensinamento do próprio Mestre, que manda conferir a cada um de acordo com as próprias obras. 


Repara, pois, como te situas no campo do mundo, compreendendo que o teu sentimento é a força a impelir-te para os círculos superiores ou para as esferas inferiores, onde tecerás o próprio ninho”. (…)


“Observa, desse modo, a natureza do teu campo íntimo e acautela-te para o futuro, porque, sem dúvida, há inúmeras moradas no universo infinito, mas viverás escravo ou senhor no templo do bem ou no cárcere do mal que tiveres escolhido para a tua residência nos caminhos da vida eterna”. (EMMANUEL, psicografado por Chico Xavier. Evangelho por Emmanuel: comentários ao evangelho segundo João, pg. 205 e pg. 206)


Se você é morada íntima de evolução espiritual, “buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal”. (Mateus 6: 33-34)


Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.


EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. O Evangelho por Emmanuel: comentários ao evangelho segundo João. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.


KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.


MOURA, Marta Antunes de Oliveira. Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte I. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2015.


MOURA, Marta Antunes de Oliveira. Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte II. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.


SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e Ensino de Jesus. 1ª Edição. Matão/SP: Gráfica da Casa Editora o Clarim, 1928.

Imprudência no Trânsito


Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 20



"Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!"


O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 5 - Item 4


Cumprimos nossos afazeres rotineiros no Hospital Esperança, quando fomos chamados com urgência por dona Maria Modesto Cravo no saguão para confinamento de acidentados.


Descemos o mais rápido que pudemos em direção aos pavilhões do subsolo, acompanhados por Rosângela, jovem aprendiz que se tornou infatigável companheira nos serviços de socorro.


Ao chegarmos, adentramos a unidade de tratamentos especializados e vimos Frederico, excelente cooperador das lides mediúnicas em conhecido estado brasileiro, em condições dolorosas.


Dona Modesta nos recebeu com a notícia:


— Fizemos o que foi possível, como você sabe, Ermance, mas veja o resultado...


— E qual o prognóstico, dona Modesta?


— Coma mental! Foi recolhido trinta minutos após o acidente, sem problemas com vampirismo e nem com o desligamento dos chacras.


— Ficará no monitoramento ou vai para as câmaras de recomposição?


— Por dois dias, permanecerá aqui, depois vamos reavaliar o quadro. Verifique você mesma o estado.


Aproximamo-nos. Rosângela, sempre atenta, acompanhava cada detalhe. Frederico estava com o corpo em estado de languidez, musculatura flácida e muitos ferimentos expostos na região craniana. Um leve toque na sua fronte foi o suficiente para aferir a problemática mental. Intenso barulho de vidros estilhaçados e ferro sendo retorcido, seguido de uma infeliz sensação de descontrole e impotência. O corpo perispiritual assemelhava-­se a uma massa amolecida que lembrava um corpo após o desfalecimento, mas com muito maior soma de flacidez. Não seria exagero dizer que parecia estar se desmanchando. A cor arroxeada dos pés à cabeça dava a ideia cadavérica e assombrosa. Rosângela se apiedava da situação de nosso amigo e teve um leve mal­-estar devido à cessão espontânea de energias. Saímos um pouco do ambiente, juntamente com Dona Modesta, enquanto trabalhadores especializados tornavam outras providências.


Dona Modesta, sempre atenciosa, indagou:


— Está melhor, Rosângela?


— Sim, foi uma doação imprevista. Estou tranquila.


Percebendo que Rosângela se recuperava, dirigiu-se a mim com as informações:


— Como você bem conhece a história, a despeito das inúmeras qualidades que faziam dele um homem íntegro, Frederico agia como uma criança ao volante. Sempre impudente no trânsito, acreditava em demasia na segurança do automóvel e preferiu ignorar os cuidados que deveria tomar. Negou-se a se reeducar nas lições do trânsito e colhe agora o fruto amargo de sua opção. Foi alertado muitas vezes fora do corpo, durante as noites de sono, em vão. Providenciamos amizades que o chamaram à responsabilidade, sem sucesso. Por fim, ele vai ser a lição em si mesmo, embora com o elevadíssimo preço da vida física.


Atenta a sempre educadamente curiosa, Rosângela questionou:


— Poderíamos aventar a hipótese de inimigos espirituais no caso, já que era médium?


— De forma alguma, minha jovem.


— Haveria algum componente cármico em aberto para resgate em forma de morte trágica?


— Também não, Rosângela.


— Algum descuido da parte dele, que não seja na arte de conduzir o veículo?


— Absolutamente, ele era extraordinariamente precavido quanto à manutenção do carro, com o objetivo de que usufruísse tudo o que a máquina podia oferecer. Não ingeria alcoólicos, era possuidor de reconhecida habilidade visual e motora.


— Então é um caso de imprudência?


— Pura imprudência, minha filha. Ultrapassou em muito a velocidade permitida em plena via urbana. Retorna com trinta e sete anos de antecedência, deixando família e uma reencarnação promissora com sua mediunidade e vida espírita consciente. Todo o amparo possível e desejável em nome da misericórdia foi-­lhe oferecido. O mundo físico, nesse instante, vai cogitar de carmas e obsessões, resgate e liberação, todavia, o que Frederico mais vai precisar é de tempo, autoperdão, paciência e muitas dolorosas intervenções cirúrgicas.


— Quanta dor desnecessária! — asseverou a jovem com grande lamento.


— Não existe dor desnecessária, Rosângela, existem provas dispensáveis, ou seja, tribulações que poderíamos evitar. A dor será tão grande e valorosa que levará Frederico à virtude da prudência em toda a eternidade. O que é de se lamentar é que poderia aprender isso a preço módico nos investimentos da vida. Não podemos confundir acaso e programação divina.


— Elucide meus raciocínios, dona Modesta, qual é a diferença?


A benfeitora, no entanto, como de costume, querendo esquivar-­se da postura professoral, falou:


— Querida Ermance, responda você mesmo a essa oportuna interrogação que deveria ser refletida e mencionada entre os espíritas reencarnados.


— Sim, dona Modesta, com prazer. Como sabemos, o acaso seria uma aberração nas Leis do Universo, portanto, não existe. É parte de uma concepção da ignorância em que ainda estagiamos. Dessa forma, todo acontecimento tem suas razões explicáveis. A programação reencarnatória, entretanto, é um plano com objetivos divinos em favor de quem regressa à sagrada experiência corporal na escola terrena. Semelhante projeto sofre as mais intensas e flexíveis alterações durante a jornada. Veja o caso de Frederico, que alterou em mais de três décadas o seu retorno. Nem sempre o que acontece está na programação da vida física; nem por isso existe acaso, ou seja, mesmo o imprevisto tem finalidades sublimes na ordem universal, embora pudesse ser evitado. Nada existe por acaso, quer dizer, para tudo há uma causa, uma explicação. Isso não significa que tudo tenha de acontecer como acontece. Até os fatos do mal não existem sem causalidade, nem por isso podemos concebê-­lo como uma obra do Pai, e sim reflexo oriundo de nossas decisões infelizes.


— Em sua ficha não constava o regresso na categoria de morte trágica?


— Não, ele se enquadrava na morte natural por idade, gozando de plena saúde.


— Suponhamos, então, que constasse um resgate através de tragédia, qual seria sua situação?


Dona Modesta interveio com naturalidade, esclarecendo:


— Se assim fosse, minha jovem, ainda seria um suicida, porque estaria, nesse caso, antecipando o tempo de sua liberação. Inclusive a categoria de desencarne pode sofrer modificações, conforme o proveito pessoal na reencarnação. Temos casos, aqui mesmo no Hospital, de criaturas que ressarciriam velhos crimes de guerra com desenlaces lentos, sofrendo longamente nas pontas dos bisturis e tesouras cirúrgicas e que, no entanto, levaram um leve escorregão no banheiro e acordaram na vida extrafísica felizes e saudáveis... Há também mudanças para melhor...


A conversa avançou, enquanto aguardávamos algumas providências de refazimento a Frederico. Passados alguns minutos, fomos orientados por dona Modesta:


— Chamei-­a, Ermance, a fim de que possa integrar a equipe de amparo à família de Frederico. A esposa está inconsolável. Como você sabe, ela não tem a fé espírita e está confusa.


— Sim, vou inteirar-­me das iniciativas e logo rumaremos para a residência para prestar os auxílios possíveis.


Quando regressávamos para os pavilhões superiores do Hospital, acompanhados por Rosângela, ela retornou sua sede de aprender:


— Ermance, mesmo não tendo sido intencional, a morte de Frederico será considerada um suicídio?


— Certamente. Não há ninguém que vá considerar a morte de alguém um suicídio, mas o Espírito, ao retornar a posse da vida imortal, submete-­se aos regimes naturais que vigoram no Universo. Por se tratar de uma criatura tão consciente quanto o médium Frederico, a cobrança consciencial é maior. Ele próprio se imporá severos castigos.


— Então, mesmo não havendo intenções propositadas de um criminoso, ele guarda um nível de culpabilidade pelo esclarecimento que possuía?


— Certamente. Todo esclarecimento nos torna mais responsáveis. Quando Frederico retomar a lucidez completamente, iniciará uma etapa muito dolorosa de reconstrução mental. Alguns casos similares levam a estágios prolongados, anos a fio, na para-esquizofrenia (1), um quadro muito similar à doença psiquiátrica da classificação humana agravado pelas ideoplastias. Para isso temos aquele saguão no qual ficam confinados os hebetados em transes psíquicos que a Terra ainda desconhece. Seus quadros vão muito além dos transtornos psicóticos. O fato de não ter a intenção do trespasse e de se comportar à luz do Evangelho o livrou de outros tantos tormentos voluntários que ainda poderiam agravar em muito o seu drama, em peregrinações pelas regiões inferiores na crosta terrena. Para se obter melhores noções sobre o tema, sugiro a você, minha jovem, que reflita e estude o tema Lei de Liberdade, na Parte Terceira de O Livro dos Espíritos, acrescido da oportuna questão 954, que diz:


"Será condenável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade? Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita da prática do mal".


                                           


Amigos espíritas,


Por trás da imprudência escondem-­se, quase sempre, os verdugos da ansiedade, da malquerença, da vaidade de aparências, da avareza e de múltiplas carências que o homem procura preencher correndo risco e desafios em nome do entretenimento e da vitoria transitória.


A postura ética do homem de bem perante as leis civis deve ser a da integridade moral.


A direção de um veículo motorizado é uma arte, e como tal deve ser conduzida: a arte de respeitar a vida.


Os códigos existem para ser cumpridos.


Habitue-­se à disciplina nesse mister e procure agir com discernimento e vigilância perante as obrigatoriedades que lhe são pedidas.


Se outros não as seguem, responderão por si mesmos, e não por você.


Você, porém, deve agir no trânsito memorizando sempre que por trás de cada volante existe uma alma em provação carregando perigosa arma nas mãos, nem sempre sob controle.


Procure ser o pacificador e renove seu proceder, por mais desacertos nas avenidas do mundo...


Dirija com o coração, e não com o cérebro, e jamais esqueça que todos nós responderemos pela utilização que fizermos dos bens que nos foram confiados.


Aprenda a respeitar as leis humanas, considerando esse um passo favorável para a sua melhoria espiritual.


Faça de sua condução uma ocasião de autoconhecimento e procure averiguar o que sustenta a atitude de insensatez em acreditar que jamais ocorrerá com você os lamentáveis episódios que já ceifaram milhões de corpos, nos testes da prudência e da responsabilidade. Habilidade pessoal adquirida com o tempo é crédito que lhe solicita mais cautela, enquanto os iludidos nela enxergam competência com permissão para o exagero.


Quanto à segurança das máquinas, analisemo-­la como medida de prevenção e segurança, não como quesito para o abuso.


Recorde que, até mesmo como pedestre, há convenções que lhe cabem para a cooperação nos espaços comunitários.


Nossa tarefa, enquanto desencarnados, é proteger e orientar sempre conforme os limites das convenções, ultrapassando-­as somente quando o amor não se torna conivência.


Nesse sentido, estejam certos os amigos encarnados que, de nossa parte, respeitamos o que estipula a lei terrena; assim, apuramos sempre se o ponteiro não ultrapassa em muito a velocidade permitida como uma medida aferidora de equilíbrio para a harmonia geral, critério seletivo para dispensar amparo e auxílio em casos de reincidência...


1. Nota da editora: esta expressão é usada no plano espiritual para indicar outras variantes na classificação das doenças psiquiátricas.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Angústia da Melhora


Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 19



"O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta".


O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 17 - Item 7


Angústia é o sofrimento emocional originado por alguma indefinição interna que leva ao conflito, causando intensa aflição. Seus reflexos podem alcançar o corpo físico com dores no peito e alteração respiratória. A intensidade da reação emocional que a criatura terá, diante desse seu conflito, vai determinar a existência ou não de algum prejuízo para o equilíbrio psíquico e mental. Isso ainda dependerá do maior ou menor comprometimento da individualidade com o tribunal da consciência, no qual está arquivado o montante de desvarios e conquistas de suas múltiplas vivências reencarnatórias.


Seguindo quase sempre uma linha predefinida, os conflitos nascem do desajuste entre aquilo que a criatura quer, aquilo que ela deve e aquilo que ela consegue. Um descompasso entre desejo, sentimento e escolha.


O conhecimento espírita pode levar à angústia existencial diante de novos alvitres comportamentais de suas lúcidas propostas. Muitos corações convidados por suas atrativas ideias poderão experimentar, em graus diversos, a angústia da melhora – o sofrimento que reflete a luta entre o eu real e o eu ideal.


Terminantemente, quantos se entregam ao serviço de autoburilamento penetrarão as faixas do conflito. O efeito mais perceptível dessa batalha interior é o sentimento de indignidade. Por ainda não lograrmos a habilidade do autoamor, costumamos ser muito exigentes com nossas propostas de progresso moral, cultivando uma baixa tolerância com as imperfeições e os fracassos. Uma postura de inaceitação e cobranças intermináveis alimenta essa indignidade em direção ao perfeccionismo.


O resultado iminente desse quadro mental é o cansaço, a desmotivação com as atividades espiritualizantes induzindo o desejo de abandonar tudo, uma postura psicológica de impotência que leva a criatura às famosas senhas de derrotismo: "Não vou dar conta!" ou "Não tem valido a pena o esforço!", "Estou cansado de viver!". Todo esse quadro de desastrosa penúria cria a condição mental do desânimo – o mais cruel e sagaz dos adversários de nosso crescimento espiritual.


Querer ser melhor e não conseguir tanto quanto gostaríamos! Eis a mais comum das angústias durante o trajeto de aperfeiçoamento na vida.


O desânimo é o desejo de parar, contudo nosso sentimento é de querer ser alguém melhor e, para agravar, nossas atitudes, em contraste com o desejo e o sentimento, são de fuga. Desejo, sentimento e atitude em desconexão gerando um estado de pane. Os conflitos criam as tensões no mundo íntimo em razão da contraposição entre esses três fatores: o que a criatura gostaria, o que ela deve e aquilo que ela consegue.


Nesse torvelinho da vida mental, um fenômeno é responsável por intensificar a dor emocional dos candidatos ao autoaperfeiçoamento, ou seja, a ilusão. Em muitos casos, sofremos os impactos emocionais do erro ou do desconforto com nossas imperfeições porque nos acreditamo grandiosos demais, portadores de virtudes que ainda não alcançamos, confundindo o conhecimento espírita e a participação nas tarefas com incomparáveis saltos evolutivos. Ilusão, ou desconexão com a própria realidade pessoal, agrava a tormenta da angústia de melhoramento.


Decerto não deveríamos agir como agimos em muitas ocasiões, considerando o volumoso caudal de conhecimentos e vivências espirituais que enobrecem nossos passos, contudo, quase sempre, sofremos culpa e desânimo perante nossas falhas porque nos imaginamo valorosos em demasia para, ainda, permitir que certas condutas manchem os novos caminhos que escolhemos.


Muito justo que nos exortemos a melhores comportamentos diante do aprendizado espiritual que bem recentemente começamos a angariar. Todavia, muita exigência tem sido formulada aos adeptos do Espiritismo, sem nenhuma identidade com as necessidades individuais de sua singularidade. Mormente nascem de padrões construídos por modelos de conduta. Semelhante quadro pode gerar tormenta e obsessão para quem não sabe adequar sua realidade àquilo que aprende, sendo outra fonte costumeira de episódios angustiantes para a alma.


Ninguém sintetizou tão bem essa caminhada da vida interior quanto Paulo, o apóstolo dos gentios, ao mencionar: "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço" (1). A grande batalha humana pela instauração do bem em si mesmo pode ser sintetizada nessa frase.


A saga da perfeição inclui a dolorosa luta entre aspirações e hábitos, conduzindo-­nos a atitudes desconectadas dos ideias que cultivamos no campo das intenções. É o quadro psicológico que nomeamos como sendo angústia da melhora. Todo aquele que assume a lenta e desafiante tarefa da reforma íntima, inevitavelmente, será lançado a essa vivência da alma em variados lances de intensidade. Somente acendendo a luz do autoperdão, recomeçando quantas vezes forem necessárias, na aceitação das atitudes enfermiças e impulsos infelizes, é que edificaremos estimulante campanha de promoção pessoal no aprimoramento rumo à perfeição.


Reforma também exige tempo e meditação. Por isso não devemos recear a postura de enfrentamento do mundo íntimo. Um acordo de pacificação interior deve existir entre nós e nossa velha personalidade. Em vez de cobrança e tristeza, seria mais sensato um autoexame para verificar o que poderíamos ter feito de melhor nas ocasiões de erro, no intuito de condicionar na mente algumas diretrizes para outras oportunidades, nas quais novamente seremos testados naquelas mesmas deficiências das quais não conseguimos nos desvencilhar. Proceda a uma corajosa reconstituição do mau ato e analise o que poderia ter feito ou deixado de fazer para não chegar aos resultados que o infelicitam. Da mesma forma, instrua-se sempre sobre a natureza de suas mazelas, a fim de melhor ajuizar sobre sua maneira de atuação. Se de nada valerem semelhantes apontamentos, então reflita que pior ainda será se você parar e decidir por interromper o doloroso trabalho de melhoria.


Lázaro nos adverte de forma oportuníssima sobre o dever, definindo-­o como "... uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta". Conquanto o valor do autoconhecimento, jamais poderemos descuidar do dever que nos chama, porque somente em seu rigoroso cumprimento encontraremos as condições essenciais para consolidar os reflexos novos. Somente com novos hábitos, que serão dinamizadores de novos raciocínios e sentimentos, romperemos a pesada carapaça das enfermidades morais, acolhendo no coração um estado de plenitude que ensejará a superação da angústia e da depressão, do desânimo e do desamor a si mesmo.


Diante disso, somente uma recomendação não deve sair do foco de nossas atenções: trabalhar, trabalhar e trabalhar, sem condições e exigências – eis o buril do dever.


Na medida em que progredimos pelas trilhas do dever e do autoconhecimento, adquirimos paz íntima e domínio mental, antídotos eficazes contra quaisquer adoecimentos da vida psíquica.


Enquanto se processam semelhantes ações de fortalecimento, podemos ainda contar com duas medidas profiláticas de dilatado poder em favor de nossa paz: a vigilância e a oração.


Verifiquemos que a função do vigilante é preventiva, é comunicar à sua volta que algo está sob cuidado e não à mercê das ocorrências. A função do vigilante não é atacar. Quem vigia, o faz para que algo não o surpreenda nem agrida. Vigilância no terreno da reforma íntima significa estar atento ao inimigo, aquele que pode nos causar prejuízos, nosso homem velho.


Vigiar o inimigo, no entanto, é diferente de abater o inimigo. A maneira mais pacífica de vigiar é conquistando-­o, e só o conquistamos demonstrando a inviabilidade da guerra, fazendo fortes o suficiente os nossos valores para que ele se sinta impotente, incapaz de ser mais forte.


Vigilância é atenção para com as movimentações inferiores da personalidade, é o estudo sereno das estratégias do homem velho, requer muita disciplina.


Por sua vez, a oração é o movimento sagrado da mente no despertamento de forças superiores. É a busca da alma que se abre para o bem e se fortalece.


Dever, vigilância e oração – balizas seguras que nos permitem talhar o homem novo, mesmo sob a escaldante temperatura das velhas angústias que nos acompanham há milênios.


1. Romanos, 7:19.

sábado, 21 de agosto de 2021

Fé nas Vitórias

 Fé nas Vitórias

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 18



"Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-­te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível." (S. Mateus, 17:20)


O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 19 - Item 1


A pensadora californiana Louise L. Hay define que as crenças são ideias, pensamentos e experiências que se tornam verdade para nós (1).


As crenças que cultivamos são muito importantes no processo de crescimento espiritual.


Ter a certeza de que vamos alcançar nossas metas íntimas é tão importante quanto alcançá-­las.


A reforma íntima, assim como qualquer outro projeto na vida, exige otimismo e fé para alcançar seus objetivos. Só será concretizada mediante uma reação de confiança conosco mesmos. É a crença de que somos capazes de nos livrar dos males que nos acompanham nas milenares experiências.


Muitos idealistas orientados pelos roteiros de melhoria espiritual, mas tomados de escassa autoestima, sucumbem sob o peso dos monstros da culpa e da vergonha, estabelecendo ideias de inutilidade e desistência pela ampliação dos obstáculos interiores. Supervalorizam suas imperfeições pelo excessivo rigor consigo mesmos, instalando um circuito mental de inaceitação e desgosto, a um passo do desespero e do desânimo com os nobres ideais de transformação e melhoramento, gerando um clima de derrotismo e menos-valia de si mesmos.


De fato, a sensação de frustração acompanhará, por muito tempo, nossos esforços de progresso, em razão das opções que fizemos nos sombrios vales da ilusão e da queda. Fortes condicionamentos se exprimem como traços marcantes da personalidade, contrariando as mais sinceras intenções de aperfeiçoamento. Esse, porém, é o preço justo que temos de pagar pelo plantio do bem em nós mesmos.


Valorizemos aquilo que gostaríamos de ser, contudo, valorizemos também o que já conseguimos deixar de ser, aquilo que não nos convinha. Valorizemos a luz que há em nós, é com ela que resgataremos a condição de criaturas em comunhão com as Sábias Leis do Pai.


Costuma-se observar, na atualidade, uma neurotização da proposta de renovação interior. Muita impaciência e severidade têm acompanhado esse desafio, levando ao perfeccionismo por falta de entendimento do que seja realmente a reforma íntima. Quando digo a mim mesmo: "não posso mais falhar" será mais difícil o domínio interior. Precisamos aprender a ser gente, a ser humano, a exercer o autoperdão, a admitir falhas, ciente de que podemos recomeçar sempre e sempre, quantas vezes forem necessárias, sem que isso signifique, necessariamente, hipocrisia, fraqueza ou conivência com o mal. A proposta espírita é de aperfeiçoamento, e não de perfeição imediata... O objetivo é sermos melhores e não os melhores.


Essa neurotização da virtude gera um sistema de vida cheio de hábitos e condutas radicais e superficiais que são fronteiriços com o fanatismo. Isso nos desaproxima ainda mais da autêntica mudança, e passamos a nos preocupar mais com o que não devemos fazer, esquecendo de investir esforços e descobrir os caminhos para aquilo que devíamos estar fazendo, aquilo que queremos alcançar e ser.


Por isso a memorização e valorização das pequenas vitórias de cada dia haverão de nos trazer incentivo e discernimento na dilatação da crença na perfeição, à qual todos nos destinamos. Semelhante tarefa exigirá que utilizemos, ilimitadamente, o autoperdão na construção mental da autoaprovação, porque, se não nos aprovamos nas faltas cometidas, caminhamos para o desamor a nós mesmos atraindo o fracasso.


Não devemos fazer de nossos erros a nossa queda. Recomeço sempre.


"Quando realmente amamos, aceitamos e aprovamos a nós mesmos exatamente como somos, tudo na vida funciona", assevera Louise L. Hay (2).


Fé pequenina, asseverou o Sábio Nazareno, do tamanho de um grãozinho de mostarda; isso bastará para solidificar nossa confiança no projeto de transformação que, inexoravelmente, vamos conquistar sob a égide dos pequenos êxitos de cada etapa.


Em uma guerra perde-­se muitas batalhas, como é natural ocorrer. O que não se pode é desistir de vencê-­la; esquivemos, portanto, da vaidade de querer vencer todas as batalhas e assumamos a posição íntima do bom combatente, aquele que sabe respeitar seus limites e jamais desistir de lutar.


Vitória sobre si mesmo, esse é o nosso bom combate, conforme destaca o inolvidável Apóstolo de Tarso (3).


Nunca esqueça que mais importante que a severidade da disciplina com nossas imperfeições é a alegria que devemos cultivar com nossos pequenos triunfos e nossas tenras qualidades. Alegria é fonte de motivação e bem­-estar para todos os dias.


Nos momentos de decepção consigo mesmo busque o trabalho, a oração e prossiga confiante na sua luta pessoal, acreditando nas suas pequenas vitórias. Logo mais perceberá, espontaneamente, o valor que elas possuem para sua felicidade e quanto significam para os que o rodeiam.


1 e 2. Você Pode Curar Sua Vida - Louise L. Hay, 44ª edição, Editora Best Seller.

3. II Timóteo, 4:7.

domingo, 8 de agosto de 2021

Por Que Melindramos?

 Por Que Melindramos?

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 17



"Até mesmo as impaciências, que se originam de contrariedades muitas vezes pueris, decorrem da importância que cada um liga à sua personalidade, diante da qual entende que todos se devem dobrar."


O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 9 - Item 9


Por que nos ofendemos? Por que temos tanta suscetibilidade em relação a tudo que nos cerca? Quais as razões de encolerizar-nos perante fatos desagradáveis?


Eis três perguntas para as quais devemos dirigir nossa meditação, caso queiramos entender o que se passa conosco nos desafios do progresso espiritual.


Iniciemos nossas ponderações conceituando a palavra ofensa. Existe a ofensa por razões naturais, provenientes do instinto de defesa e preservação. Por meio dessas agressões, recebemos da mente os sinais de alerta para avaliarmos com melhor exatidão a conveniência e o grau de perigo ou importância do que nos cerca. É natural nos ofendermos com palavrões que causam dor aos ouvidos sensíveis; é natural nos ofendermos ao ver dois seres humanos se agredir; é mais que justo que nos ofendamos e tenhamos raiva ao sermos assaltados em uma rua; seria muito natural nos ofendermos quando formos injustamente julgados pelas pessoas que nos conhecem. A ofensa tem sua faceta benéfica, porque não devemos aceitar tudo que acontece à nossa volta passivamente, sem uma reação que nos faça sentir lesados ou ameaçados. O objetivo desse sentimento será sempre o de nos colocar a pensar na elaboração de uma conduta ajustada à natureza das agressões que sofremos.


Contudo, larga diferença vai entre a ofensa natural e o melindre, que é a reação neurótica às ofensas. Melindre é o estado afetivo doentio de fragilidade, que dilata a proporção e a natureza das agressões que sofremos do meio. Pequenas atitudes ou delicadas situações são motivos suficientes para que o portador do melindre se agaste terrivelmente, fechando-­se em corrosivo sistema de mágoa e decepção com os fatos e as pessoas que lhe foram motivo de incômodos e contrariedade. Assim, aumenta a intensidade do fato e desgasta-­se afetivamente com imaginações febris sobre a natureza das ocorrências que o afetaram.


Sabemos que a mágoa é o peso energético nascido das ofensas transportadas conosco dia após dia, como fosse um colesterol da alma, causando-nos males no corpo e no Espírito. Sabemos, também, que a irritação é como uma dura martelada no sistema nervoso, levando-­nos ao estresse e à perda energética. Então, por que agasalhar semelhantes malefícios quando temos tanto esclarecimento?


Compreendamos algo sobre os mecanismos da ofensa e da cólera para avaliar as razões que nos inclinam para essa atitude de desamor e, fazendo assim, procuremos, igualmente, por meio do melhor entendimento, oferecer a nós mesmos o corretivo para os problemas de melindre e contrariedades do dia a dia.


Primeiramente, deixemos claro que na raiz do melindre e da ofensa está o orgulho. Vejamos o que nos diz o codificador a esse respeito: "Julgando-­se com direitos superiores, melindra-­se com o que quer que, a seu ver, constitua ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa, naturalmente o torna egoísta" (1).


O que está por trás da grande maioria das ofensas humanas são as contrariedades, ou seja, tudo aquilo que não acontece como se gostaria que acontecesse. Contrariar, para a maioria das criaturas, significa ser contra aquilo que se espera, ser nocivo aos planos pessoais, ser prejudicial, ser desvantajoso. Nessa ótica, tudo aquilo que não ofereça alguma vantagem na nossa forma de conceber os benefícios da vida é algo inoportuno, indevido, que não deveria ter ocorrido, gerando reações no mundo íntimo, cujos reflexos poderão ser percebidos na criação de sentimentos de pessimismo, infelicidade, desapontamento, animosidade, tristeza e rancor.


Excetuando alguns casos de educação mal orientada na infância, esse vício de não ser contrariado foi adquirido pelo Espírito em suas diversas experiências reencarnatórias, nas quais teve todos os interesses pessoais atendidos a qualquer preço. É o velho hábito da satisfação plena dos desejos da personalidade que, dispondo de poder e recursos, não hesitou em colher sempre para si mesma os frutos dos bens divinos que lhe foram confiados nas anteriores experiências. Hoje, renasce em condições que limitam suas tendências de saciação egoísta, instaurando um delicadíssimo sistema de revolta silenciosa quando não consegue o atendimento de seus interesses, experimentando uma baixa tolerância a frustrações. Essa revolta é o movimento interior de repúdio da alma aos novos quadros da vida a que é lançada, nos quais é compelida, pela força das circunstancias, a aprender a obediência aos ditames da Lei Natural, nem sempre afinados com seus gostos e aspirações individuais. Esse é o preço justo que pagamos pelo costume de termos sido atendidos em tudo que queríamos no pretérito, quando deveríamos ter aproveitado as ocasiões de fartura e liberdade para sermos atendidos naquilo que fosse o melhor para todos.


Assim, a alma passa hoje por uma série de pequenas ou grandes situações na vida, ofendendo-se e irritando-se com quase todas, desde que contrariem seus interesses individualistas. Um singelo ato de esquecer um documento ou ainda o simples fato de não ser correspondido num pedido a um familiar, ou mesmo não ter sido escolhido para assumir a presidência da tarefa espírita, tudo é motivo para a irritação, o desgaste e a animosidade, podendo chegar às raias da ofensa, da mágoa e do desequilíbrio. O estado íntimo, nesse passo, reproduz a nítida sensação de que tudo e todos estão contra sua pessoa, e fatos corriqueiros podem se tornar grandes problemas, enquanto os grandes problemas podem se tornar tragédias lamentáveis...


Os prejuízos desse hábito não cessam com as contrariedades, porque não se consegue improvisar defesas para um condicionamento tão envelhecido de hora para outra. Uma faceta das mais comuns desse estado de suscetibilidade aos fatos da vida pode ser verificada na neurose de controle, que pode ser entendida como a atitude de tentar levar a vida de forma a não permitir nenhuma contrariedade, nenhuma decepção. Essa neurose pode ser considerada como uma maneira de se defender do vício de não ser contrariado.


Mas não para por aqui essa sequência de expiações na vida íntima. O esforço em controlar tudo para que as coisas aconteçam a gosto tem como principal consequência a preocupação. Preocupação é o resultado de quem quer ter domínio sobre tudo da sua existência. Surge inesperadamente ou por uma razão plausível, mas é, em muitas ocasiões, o resultado oneroso dessa necessidade de tomar conta de tudo para não acontecer o pior, o inesperado.


Classifiquemos com maleabilidade nas conceituações três espécies de dramas que vivem os contrariados:


- Contrariado crônico – é aquele que não aceitou o próprio ato de reencarnar, já trazendo impresso na aura o clima de sua insatisfação, que irá refletir em todas as suas realizações. Casos como esse tendem a transtornos de natureza mental.


- Colecionador de problemas – é aquele que traz, de outras vivências corporais, o vício da satisfação de interesses pessoais e que busca seu ajuste com os atuais quadros de limitação na reencarnação presente, desenvolvendo a preocupação com problemas reais e irreais em razão de tentar um controle sobre-­humano nos fatos naturais da existência.


- O adulto frustrado – é aquela criança que foi mal orientada, que teve quase todos os seus desejos e escolhas atendidos, criando ausência de limites e baixa resistência à frustração. Foi a criatura impedida pelos pais de se frustrar com os problemas próprios das crianças.


Em qualquer uma das situações citadas, o sentimento de ofensa será parte comum na vida dessas criaturas, podendo suscitar pequenas ocorrências de decepção rotineira ou ainda dramas dolorosos da psicopatia, conforme as tendências e os valores de cada Espírito. A psicopatologia do futuro verá na contrariedade uma grave doença mental e a etiologia de severos transtornos da alma.


O que importa a todos nós é o ingente trabalho de renovação no campo dos nossos interesses. Afeiçoar-­se com mais devoção a aceitar as vicissitudes da vida, com resignação e paciência, fazendo o melhor que pudermos a cada dia em busca da recuperação pessoal, otimismo ante os reveses, trabalho perante as perdas, confiança e boa convivência com amigos de ideal, serviço de amor ao próximo, instrução consoladora, fé no futuro e boa dose de humildade são as medicações para ofensas e ofendidos na doença do melindre.


Ofender-­nos é impulso natural em vista dos direcionamentos que criamos nas rotas do egoísmo. Contudo, Deus não criou um sistema de punições para seus filhos, e nos concede, a todo instante, o direito de perdoar. E, perdoar, acima de tudo, significa aprender a aceitar sua Vontade Sábia e Justa em favor de nossa paz, na construção de dias mais plenos em sintonia com os grandes interesses do Pai.


1. Allan Kardec, Obras Póstumas – primeira Parte - "O egoísmo e o Orgulho", p. 225 - 25ª edição - FEB.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Diálogo sobre ILUSÃO - Ermance Dufaux

 Capítulo 15


O que são as ilusões?

Definamos ilusão como sendo aquilo que pensamos, mas que não corresponde à realidade. São percepções que nos distanciam da verdade. Existem em relação a muitas questões da vida, tais como metas, cultura, comportamento, pessoas, fatos. A pior das ilusões é a que temos em relação a nós: a auto-ilusão.


Qual a causa das ilusões?

As ilusões decorrem das nossas limitações em perceber a natureza dos sentimentos que criam ou determinam nossos raciocíniios. Na matriz das ilusões encontramos carências, desejos, culpas, traumas, frustrações e todo um conjunto de inclinações e tendências que formam o subjetivo campo das emoções humanas.


Po que a senhora citou que a auto-ilusão é a pior das ilusões?

O iludido pensa muito o mundo “negando” sentí-lo, um mecanismo natural de defesa face às dificuldades que encontra em lidar com suas emoções. Esconde-se atrás de uma imagem que criou de si mesmo para resguardar autoridade social ou outro valor qualquer que deseje manter.

O objetivo da reencarnação consiste em desiludir-nos sobre nós mesmos através da criação de uma relação libertadora com o mundo material. Se não buscamos essa meta então caminhamos para a falência dos planos de ascensão individual.


Conforme a resposta anterior, o iludido esconde-se de quê?

De si mesmo. Criando um “eu ideal” para atenuar o sofrimento que lhe causa angústia de ser o que é- a criatura foge de si e vive em “esconderijos psíquicos”.


Mas, por que se esconde de si mesmo?

Devido ao sentimento de inferioridade que ainda assinala a caminhada da maioria dos habitantes da Terra. Iludimo-nos através de um mecanismo defensivo contra nossa própria fragilidade que,, pouco a pouco, vamos extinguindo. Negar o que se sente e o que se deseja ´´e o objetivo desse mecanismo. Uma forma que a mente aprendeu para camuflar o sentimento de inferioridade da qual o espírito se conscientizou em algum instante de sua peregrinação evolutiva.


Então, iludimo-nos para nos sentirmos um pouco melhores, seria isso?

Auto-ilusão é aquilo que queremos acreditar sobre nós mesmos, mas que não corresponde à realidade do que verdadeiramente somos, é a miragem de nós próprios ou aquilo que imaginamos que somos. Uma vivência psíquica resultante da desconecção entre razão e sentimento. É a crença na imagem idealizada que criamos no campo mental. É aquilo que pensamos que somos e desejamos que os outros creiam sobre nós.


Nós espíritas, temos ilusões?

Responderei com clareza e fratermidade: sim, muitas ilusões. O iludido, quando ambicioso, atinge sem perceber as raias da usura; Quando dominador, chega aos cumes da manipulação; quando vaidoso, guinda-se aos pântanos da supremacia pessoal; quando cruel, atola-se ao lamaçal do crime; quando astuto, atira-se às vivências da intransigência; quando presunçoso, escala os cumes da arrogância; e, mesmo quando esclarecido espiritualmente, lança-se aos pícaros do exclusivismo ostentando qualidades que, muita vez, são adornos frágeis com os quais esnobam superioridade que supõem possuir.


Poderia dizer a nós, espíritas, algo sobre nossas ilusões??

Existe uma tendência à auto-suficiência entre os depositários do conhecimento espírita. Discursam sobre a condição precária em que se encontram assumindo a condição de almas carentes e necessitadas, todavia, diametralmente oposto a isso, agem como se fossem “salvadores do mundo” com todas as respostas para a humanidade. Essa incoerência na conduta é provocada pela ilusão que criaram do papel do espírita no mundo...

O espiritismo é excelente, nós espíritas, nem tanto... Nossa condição real, para quem deseja assumir uma posição ideal perante si mesmo, é a de almas que apenas começamos a sair do primitivismo moral. Alegremo-nos por isso!


Essa auto-suficiência seria orgulho?

O orgulho promove essa condição, é a mais enraizada manifestação da ilusão, é a ilusão de querer ser o que imaginamos que somos. Essa é a pior ilusão, a auto-imagem falsa e superdimensionada de nós mesmos. Essa auto-ilusão é sustentada por uma “cultura de convenções” acerca do que seja ser espírita, um resquício do velho hábito religioso de criar “estampas” pelas quais serão reconhecidos os seguidores de alguma doutrina. Nesse caso, a ilusão desenbolvida chama-sse “idéia de grandeza”. Muitas pessoas desejariam sair prontas para testemunho após pequenos exercícios de espiritualização no centro espírita, entretanto, por ignorarem sua real condição espiritual, fazem da casa doutrinária um templo de aquisição da angellitude imediata. Querem ssair prontos e perfeitos das tarefas e estudos, quando o objetivo de tais iniciativas é capacitar de valores intelecto-morais para repensar caminhos e encontrar respostas para as encruzilhadas da alma, nas refregas da existência.


O que é essa auto-imagem falsa?

uma construção mental que se torna a referência para nossas movimentações perante a vida. É uma cristalização mental, uma irradiação que cria uma rotina escravizante nos sentimentos permitindo-nos viver somente as emoções em uma “faixa de segurança”, a fim de não perdermos o estatus da criatura que supomos ser e queremos que os outros acreditem que somos. O que pensamos sobre nós, portanto, determina a imagem mental indutora dos valores íntimos. Se o raciocínio sofre distorções da ilusão, então viveremos sem saber quem somos.


Como é construída essa auto-imagem?

Através das vivências intelecto-afetivas de todos os tempos dessa criação.


Onde ela permanece?

No corpo mental. Sua maior expressão é conhecida pelas operações do departamento da imaginação no reino da mente.


Quer dizer que além da auto-imagem temos um “eu real”, diferente do “eu crístico”,que ainda não conhecemos? Sim. Temos um “eu real” que estamos tentando ignorar há milênios. Essa “parcela” de nós é a “sombra” da qual queremos fugir. Todavia, o contato com essa “zona inconsciente” revela-nos não só motivos de dor e angústia mas igualmente, a luz que ignoramos estar em nossa intimidade à espera de nossa vontade para utilizá-la.

Aqui chamamos a atenção dos nossos parceiros de ideal para o cuidado com o processo da reforma interior. Existe muita idealização confundindo aprendizes que imaginam estar dando “saltos evolutivos” em direção a esse “eu real”, entretanto, em verdade, estão se movimentanto na esfera do “eu idealizado”...




Poderia explicar mais profundamente essa questão dos “saltos evolutivos”?

É um tipo de ilusão que normalmente assalta os religiosos de todos os tempos. Imaginam-se muito melhorados a partir do contato com alguma diretriz ou prática religiosa e, então, passam a viver uma vida idealizada, um projeto de “vir-a-ser”. É uma ilusão de que se está fazendo a renovação, apenas uma idealização. Uma forma de comportar desconectada do sentimento, um adorno moral para nossas atitudes; é o discurso sem a vivência. O nome mais conhecido deste comportamento é puritanismo.


Como distinguir idealização de mudança verdadeira?


Na idealização pensamos o que somos e, como consequência, vivemos o que gostaríamos de ser, mas ainda não somos. E o hábito das aparências. Na reforma íntima sentimos o que somos, e como consequência vivemos a realidade do que somos com harmonia, ainda que nos causem muitos desconfortos. É o processo da educação paulatina. Na idealização vive-se em permanente conflito por se tratar, em parte, de uma negação da realidade, enquanto na reforma autêntica a criatura consegue penetrar os meandros dos “sentimentos –causais”, encontrando uma convivência pacífica consigo e aceitando-se sem se acomodar em direção a melhoras mensuráveis.


Como vencer nossas ilusões?


Desapegando da falsa auto-imagem falssa que fazemos de nós mesmos. Desapaixonando-se do “eu”. Para isso somente autoconhecimento.


Havendo esse desapego, conseguiremos libertar os sentimentos para novas experiências com o mundo e consequentemente com nosso “eu profundo”. Isso desencadeará um processo de resgate de nós mesmos, venceremos a condição de reféns de nosso passsado escravizante, saindo da “roda viciosa das emoções” perturbadoras, quais sejam o medo, a culpa e a insegurança.

O processo da desilusão custa sorver o fel da angústia de ssaber quem somos, e carregar o peso do sacrifício de cuidar dessa personalidade nova que renasce exuberante. Independente do quão doloroso seja, é preferível experimentá-la no corpo a ter que purgá-la na vida espiritual.



Assinalemos alguns exercícios de desapego dessa paixão que nutrimos pela imagem irreal que criamos de nós mesmos:


-Fazer as pazes com as imperfeições.

- Abandonar os estereótipos e aprender a se valorizar com respeito.

- Descobrir sua singularidade e vivê-la com gratidão.

- Coragem para descobrir seus desejos, tendências e sentimentos.

- Exercitar a auto-aceitação através do perdão.

- Munir-se de informações sobre a natureza de suas provas.

- Aprender a ouvir com atenção o que se passa à sua volta.

- Dominar o perfeccionismo nutrindo a certeza de que ser falível não nos torna mais inferiores.

- Valorizar afetivamente as suas vitórias.

- Descobrir qualidades, acreditar nelas e colocá-las a serviço das metas de crescimento.


Paulo, o apóstolo da renovação, indica-nos uma sublime recomendação que nos compele a meditar na natureza de nossos sentimentos em torno da mensagem do amor; sugerimos que esse seja nosso roteiro na vitória sobre as ilusões: “olhai para as coisas segundo as aparências? Se alguém confia em si mesmo que de Cristo, pense outra vez isto consigo"”..- II Coríntios, 10: 7.



Trecho do livro Reforma Intima sem Martirio

ERMANCE DUFAUX

sábado, 10 de abril de 2021

BIOGRAFIA DE "CÁRITA" OU "CÁRITAS"

 BIOGRAFIA DE "CÁRITA" OU "CÁRITAS"

Há no meio espírita uma prece que todos apreciam muito – a Prece de Cárita ou Cáritas -, cuja denominação e origem têm sido muito estudadas e pesquisadas, embora poucos se arrisquem a dar um parecer sobre sua origem. “Chamo-me Caridade, sou o caminho principal que conduz a Deus; segui-me eu sou a meta a que vós todos deveis visar”, esse é o trecho de outra mensagem muito bela assinada pelo mesmo Espírito que, segundo alguns, comunicava-se por intermédio de uma das grandes médiuns de seu tempo, Mme. W. Krell, ligada a um círculo espírita de Bordeaux, na França.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e na Revista Espírita, podemos ler várias mensagens de Cárita, ali inseridas por Allan Kardec. São mensagens muito belas, que estimulam a fraternidade, a solidariedade e a caridade. A prece foi psicografada pela Mme. W. Krell, na véspera do Natal de dezembro de 1873, portanto há quase 150 anos. 

Cárita teria sido Irene, martirizada em Roma. Acredita-se que Cárita foi no passado a jovem Irene, martirizada em Roma no ano 305, quando das perseguições aos cristãos, determinadas pelo imperador Diocleciano. O próprio Allan Kardec dá-nos essa informação, como podemos ver na Revista Espírita de 1862, página 52, na qual a revista noticia uma ajuda financeira enviada pela Sociedade Espírita de Paris aos pobres da cidade de Lyon, transcrevendo em seguida, uma mensagem de Cárita, que teria sido, segundo Kardec, Santa Irene. Na mensagem, Cárita agradece o gesto, sobretudo porque a boa ação foi disfarçada sob a capa do anonimato. “A Caridade é suave e merece que se a pratique”, diz ela, lembrando que “pouca coisa é necessária para transformar lágrimas em alegria, sobretudo em casa do trabalhador que não está habituado à visita da felicidade com freqüência”.

Em poucas palavras, são os seguintes fatos que causaram a perseguição e morte da jovem Irene:

No século IV, época em que governava o imperador romano Diocleciano, considerado o mais sanguinário perseguidor dos cristãos, era proibido que as pessoas portassem ou guardassem escritos que pregassem o Cristianismo. Todos os livros deveriam ser entregues às autoridades para serem queimados. Irene, ainda jovem, e suas irmãs Ágape e Quilônia pertenciam a uma família pagã da Tessalônica, na Grécia, mas se converteram e passaram a pregar os ensinamentos de Jesus. As três irmãs foram denunciadas e em sua casa foram encontrados exemplares da Bíblia, razão pela qual elas foram presas e levadas a interrogatório diante do governador da Macedônia. Deveriam elas, como os demais cristãos, renegar a fé em Jesus e só se salvariam de idolatrassem os falsos deuses dos romanos, oferecendo publicamente comida e incenso a eles, além de queimar os textos evangélicos.

Naquela época, se os cristãos se negassem a renunciar a sua fé, geralmente eram queimados vivos. Foi o que se deu com elas. As suas irmãs foram encontradas antes, presas e interrogadas, negaram-se a adorar os falsos deuses e confirmaram sua fé. Foram por isso, executadas. Irene que havia escondido grande parte dos livros cristãos em sua casa e tinha fugido para as montanhas, foi encontrada e presa no dia do martírio das suas irmãs. Irene foi então submetida a interrogatório, mantendo-se firme em sua profissão de fé. Condenada pelo governador Dulcério, foi entregue aos carrascos, que a violentaram, lhe tiraram a roupa, expuseram-na à vergonha pública e depois a queimaram viva.

O culto a Santa Irene ainda é muito intenso no Oriente e no Ocidente, e se perpetuou até os nossos dias pelo seu exemplo de mártir, bem como pela tradução de seu nome, que em grego significa “paz”, e é muito reverenciado, principalmente entre os povos cristãos.

       Texto publicado no jornal O IMORTAL, ANO 56, Nº 658, ANO 2008.

Cárita - Quem foi?

 https://www.diariodetaubateregiao.com.br/dt/coluna-espirita-um-apelo-de-carita/#:~:text=C%C3%A1rita%20%C3%A9%20o%20pseud%C3%B4nimo%20de,%E2%80%9C%E2%80%A6


 Maroísa Baio – Limeira/SP

No final de 1865, uma epidemia de cólera, em Paris, agravou os rigores do inverno. Em benefício dos pobres da cidade de Lyon e das vítimas dessa doença bacteriana que causa diarreia grave e desidratação, normalmente transmitida pela água, Kardec promoveu uma campanha para arrecadar fundos e distribuir aos necessitados. Ele citou um breve relato das medidas tomadas pelas autoridades:

“Sem dúvida, jamais a solicitude da autoridade se mostrou mais inteligente e mais previdente do que nesta última invasão do flagelo, em relação aos atingidos; prontidão e sábia distribuição dos socorros médicos e outros, nada faltou no caso. É uma justiça que cada um se apraz em lhe render. Assim, graças às medidas tomadas, sua devastação foi rapidamente circunscrita; mas deixa após si traços cruéis de sua passagem nas famílias pobres, e os mais lastimáveis não são os que sucumbem. É aí sobretudo que se faz necessária a caridade particular.”

Nessa mesma ocasião, Kardec recebeu uma correspondência de Lyon na qual seu remetente dizia:

“O Espiritismo, o grande traço de união entre todos os ¬ filhos de Deus, nos abriu um horizonte tão largo, que podemos olhar de um a outro ponto todos os corações esparsos, que as circunstâncias colocaram no oriente e no ocidente, e os ver vibrar a um só apelo de Cárita…”

A carta trazia uma comunicação ditada pelo Espírito Cárita, cuja missão é estimular a beneficência em socorro do infortúnio. Cárita é o pseudônimo de uma mártir cristã, Santa Irene, martirizada em Roma, no ano 300 d.C., por ordem do Imperador Deocleciano. Nessa mensagem, cujo título é “Abri-me”, publicada na RE de dezembro de 1865, ela convida todos a abrir o coração ao sofrimento alheio:

“… Fiz uma longa caminhada através da região da miséria e volto, com o coração semimorto, as espáduas vergadas ao fardo de todas as dores. Abri-me bem depressa, meus amados, vós que sabeis que quando a caridade bate à vossa porta é que encontrou muitos infelizes em seu caminho. Abri o vosso coração para receber minhas confidências; abri a vossa bolsa para enxugar as lágrimas dos meus protegidos e escutai-me com essa emoção que a dor faz subir de vossa alma aos lábios.”

Ela relata os sofredores que foi encontrando pelo caminho: velhos abandonados, mães aflitas com filhos famintos, pais desempregados, corações revoltados e o pior de todos os males, o materialismo.

“… eu vos peço, tende para os meus pobres um pensamento, uma palavra, uma suave lembrança, a fim de que à noite, à hora da prece, eles não adormeçam sem agradecer a Deus, porque vós lhe sorristes de longe. Sabeis que os pobres são a pedra de toque que Deus envia à Terra para experimentar vossos corações. Não os repilais, a ¬ m de que um dia, quando tiverdes transposto o sólio que conduz ao espaço, Deus vos reconheça por corações de sua aliança e vos admita na morada dos eleitos!”

Em 1862, por ocasião de uma campanha efetivada por Kardec em favor dos operários de Lyon, ela se manifestou trazendo palavras enternecedoras aos colaboradores. Essas mensagens foram publicadas na RE de fevereiro daquele ano.

Essa benfeitora espiritual é a autora da conhecida Prece de Cáritas, ditada na véspera do Natal de dezembro de 1873, pela médium francesa, Sra. Watteville Krell, contemporânea a Kardec.

Ouçamos o apelo dessa meiga amiga espiritual, abrindo nossos corações a Jesus, estendendo nosso afeto e nossa atenção aos necessitados que Ele sempre nos envia, não apenas no Natal, mas em todos os momentos de nossa vida!