Estudando o Espiritismo

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domingo, 28 de setembro de 2014

MEDO: INSTINTO OU PATOLOGIA?


(matéria publicada na Folha Espírita em 2003)

A Folha Espírita entrevistou a Dra Maria Julia Peres, psiquiatra e criadora da Terapia Reestruturativa Vivencial Peres – TRVPeres e o Dr. Jaider Rodrigues de Paulo (AME-MG).

O medo é uma emoção presente em quase todos os seres da natureza, representada por um conjunto de sentimentos que se manifestam com grande inquietação e angústia diante de um perigo real ou imaginário de um fato desencadeante de ameaça, pavor, susto, perdas e dor profunda (física ou mental), entre outros.

Ele é expressado nos seres humanos por reações corporais como o susto, olhar espantado, boca seca, taquicardia e sudorese, entre outros, traduzindo o incômodo físico e mental que provoca. Sua presença excessiva é um dos grandes fatores de angústia para o ser. “O medo, em si, não constitui uma patologia e sim, um comportamento de cautela para maior segurança do indivíduo. Ele é racional, perfeitamente controlável, não interfere nas atividades diárias, nem desencadeia sintomas físicos, psicossomáticos”, declara a psiquiatra e especialista em terapia regressiva Maria Júlia Peres, criadora da Terapia Reestruturativa Vivencial Peres – TRVPeres. “Ele é ontológico na raça humana, uma reação emocional a um agente externo, o qual é percebido como agressor à integridade física do indivíduo”, completa o psiquiatra Jaider Rodrigues de Paulo, da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais (AME-MG). Para a ciência psíquica, segundo ele, um dos diferenciais com a ansiedade é o fato de ele ter um objeto real e ela nem sempre. “O medo se caracteriza a partir de uma vivência objetiva, como, por exemplo, de animais, altura e escuro, entre outros. A ansiedade expressaria mais os fantasmas internos”, completa.

De acordo com Jaider, o medo se origina de quatro vertentes. A primeira seria criada pelo instinto de conservação, evitando que o indivíduo se exponha a perigos desnecessários. “Se a pessoa sentisse dor e não tivesse a presença do medo, provavelmente não aprenderia a evitar novos fatos semelhantes, que a levaríam a senti-la, ou seja, não fixaria o aprendizado”, aponta. Este é um fator positivo do medo, segundo o médico. “Dentro deste pensamento, temos, também, o medo do desconhecido, como da imensidão do mar e do cosmo, ou quando viajamos para algum local sem referências”, lembra.

A segunda vertente, de acordo com Jaider, seria fruto do complexo de culpa, originado de atos que julgamos delituosos, em vidas passadas ou nesta própria. “É quando o culpado instala em sua intimidade o tribunal da consciência, o pior de todos, criando o seu inferno particular, despertando este sicário de todos nós, o medo”, informa. A terceira vertente seria fruto dos sofrimentos atrozes que experimentamos nas zonas inferiores da erraticidade, quando brinquedos de inteligências perversas. “Nesses casos, seriam os egressos do suicídio, do homicídio, os viciados de toda sorte, os quais não fazem nenhum movimento para a sua redenção. A mente destas pessoas é povoada de imagens apavorantes que, mesmo depois de serem resgatadas pelas mãos dos obreiros do senhor, continuam como cruéis prolongamentos daqueles momentos infelizes que a reencarnação não consegue abafar”, declara. “Deparando-se com situações que guardam ressonância com este passado, podem despertá-lo, criando campo mental propício para a emersão no presente, daquelas situações pretéritas traumatizantes. São pessoas que aportam a uma nova reencarnação trazendo, em sua estrutura psíquica atual, o temor constante, o qual, muitas vezes, dirige seus atos”, completa.

Mas o medo pode ser conseqüência de educação equivocada, quando os familiares, no intuito de controlar as suas crianças, criam em suas mentes figuras de monstros, como de assombração, bicho-papão e demônios, sem saberem que estão formando clichês mentais torturantes, que podem perturbá-las. “O indivíduo, quando vive sob o guante do medo, é uma pessoa basicamente insegura, assustada e raivosa. Estes sentimentos podem torná-la agressiva, retraída, aparentemente pouco responsável e, às vezes, paradoxalmente temerária”, diz.

Fobia: transtorno neurótico
A fobia é um transtorno neurótico, relacionado ao estresse, que apresenta reações somatoformes (antes chamadas de psicossomáticas) e está caracterizada na CID 10 (Classificação Internacional das Doenças, itens F40 a F48). Segundo a psiquiatra Maria Júlia Peres, criadora do Instituto Nacional de Pesquisa e Terapia Vivencial Peres, de São Paulo (SP), ela é um medo patológico, exagerado, persistente e irracional, que ocorre em relação, entre outros, a objetos (facas, objetos pontiagudos etc), atividades ou situações (sair ou viajar sozinho, medo de multidões, altura, lugares fechados, lugares públicos e de ser foco de atenção etc), coisas específicas (animais e insetos), forças naturais (tempestades, relâmpagos, enchentes, terremotos etc), “hospitalares” (sangue, injeção, cirurgia, ferimentos, vômitos etc) e situacionais (elevadores, túneis, aeroportos etc), entre outros. A literatura médica cita mais de 500 modalidades de fobias.

Entre as reações apresentadas estão os sintomas de ansiedade, que se apresentam antes e durante o aparecimento da situação temida. São eles as palpitações (aumento da freqüência cardíaca), sudorese, tremor; dificuldade para respirar, náusea ou desconforto abdominal, desequilíbrio, tontura, atordoação, medo de morrer. “Pelo menos três dos itens citados devem aparecer no verdadeiro diagnóstico de fobia. O paciente apresenta angústia marcante, causada pelo sintoma, e evita situações fóbicas, que o levam à ansiedade, que ele próprio reconhece que são excessivas e irracionais, como medo das imagens do objeto fóbico e das situações que aparecem em televisão, revistas e outros”, afirma Maria Júlia.

Origem
As fobias são classificadas de várias formas e por várias correntes. Para os chamados “comportamentalistas”, segundo a psiquiatra, são condutas adquiridas em experiências traumáticas ampliadas por reações excessivas, desencadeadas por estímulos que as cercam ou pela insegurança devido à ausência da mãe. Elas podem surgir em qualquer época da vida, em que tenha havido um evento doloroso, que tivesse sido marcante para o paciente. Para os “psicanalistas”, acrescenta, o mecanismo causal da fobia é um conflito intrapsíquico inconsciente não resolvido, geralmente de origem edipica (menino que deseja sexualmente a mãe, mas teme a punição do pai, na forma de castração – vide Freud em O Pequeno Hans). Neste caso, o paciente tem medo das suas pulsões e as substituiu por um objeto. Por não poder assumi-las e por negar sua realidade, desloca suas angústias para um objeto simbólico (no exemplo freudiano do Pequeno Hans, ele desloca o medo de punição do seu pai para o medo de um objeto externo, passando a ter fobia de cavalos. Assim, a evitação de cavalos permitia a evitação da ansiedade causada pelo conflito intrapsíquico, a raiva do pai). Pode surgir também em qualquer época da vida.

Para os “neurobiologistas”, a fobia tem origem em anormalidades neuroquímicas, que ocorrem no transtorno de ansiedade. Envolvem os sistemas Gaba, noradrenérgico e serotoninérgico. As áreas cerebrais do lobo frontal e do sistema línbico estão envolvidas nesta fisiopatologia e há evidências de que os fatores genéticos têm influência na origem destes problemas, ocorrendo em cerca de 20% de parentes de primeiro grau, principalmente de sexo feminino. A concordância para gêmeos monozigóticos é de 50% contra 15% para os dizigóticos.

TRVPeres
Na visão dos “terapeutas em TRVPeres”, a fobia pode aparecer em vários períodos da vida atual e em suposta vida passada. Em geral, são resultantes do contato do paciente com algum fato marcante ocorrido em algum período do seu passado, que ficou reprimido em sua mente inconsciente e bloqueado pela consciente. Com este bloqueio consciente a fobia se torna irracional e se manifesta com atitudes evitativas em relação ao objeto ou situação causadores da mesma. “Assim, um paciente que tem fobia em dirigir carro, pode ter sofrido um acidente de automóvel enquanto estava no útero materno. Outro pode ter fobia de galinha, porque, quando criança, foi atacado quando tentou pegá-la para brincar”, conta Maria Júlia.

“Um paciente obeso, com fobia de solidão e de ser rejeitado, em suas vivências reestruturativas em seções de TRVPeres, relatou ter lembrança, que reconstruiu e vivenciou da cela de uma prisão durante muitos anos, de ter desencarnado solitário, triste, abandonado e faminto. No momento mais traumático dessa sua experiência vivencial, elaborou uma decisão, com padrões negativos e repetitivos de comportamento que, supostamente, o levaram as suas fobias atuais. Esta decisão foi a de ‘nunca mais passar fome´, daí a razão de sua obesidade”, lembra. “Estou sozinho e abandonado” e “minha vida é terrivelmente triste” foram a razão da fobia de solidão e rejeição. Porém, segundo ela, o paciente elaborou uma redecisão que, com a prática concreta, reestruturou sua vida para uma situação adaptativa ao seu momento atual.

Especialistas recomendam tratamento
O tratamento básico do medo, segundo o psiquiatra Jaider Rodrigues de Paulo, é a psicoterapia em suas várias correntes, principalmente, se forem voltadas para o resgate da dignidade humana. “A propósito, a hipnoterapia ericsoniana e a terapia de vivências passadas estariam bem indicadas, principalmente quando há um sintoma claro desencadeante de um quadro específico, como, por exemplo, o medo de altura, de animais, de locais fechados e de viagem”, informa.

“A real terapia do medo, no entanto, em um processo terapêutico bem orientado, é o esforço de transformação interior, pois só ele é capaz de nos proporcionar a paz íntima, imunizando-nos contra os males internos e externos. Somente a busca sincera do real sentido da vida e a integração com este, no cotidiano, serão capazes de libertar o indivíduo dos equívocos da existência, das ilusões e adentrá-lo na intimidade de si mesmo, buscando o Deus interior, o único capaz de libertá-lo em definitivo das ameaças do existir”, completa.

Geralmente, segundo a psiquiatra Maria Júlia Peres, as fobias têm cura. “Mas isso vai depender da etiologia de sua modalidade, do tipo de personalidade de seu portador, do tempo em que ela está instalada no paciente e da existência concomitante de outras enfermidades no paciente”, avalia. “Elas devem ser tratadas, mas cada caso é um caso e não se deve generalizar um tratamento global para todas elas e sim, encaminhar o paciente para um terapeuta experiente para fazer, se for indicado, uma psicoterapia adequada e receitar uma complementação medicamentosa, se for necessário”, complementa.

Paralelamente ao tratamento, a psiquiatra também recomenda práticas que considera úteis, como, por exemplo, o relaxamento, a meditação e o yoga, distrações saudáveis e prática comedida e inteligente da religiosidade. E deve-se evitar programas de TV e filmes “pesados” que contenham violência, filmes de guerra e crimes.