TODA A VIDA É DIVINA
“Oh! noite que juntaste Amado com amada, amada já no Amado transformada.”
Canciones del alma – V.
Você não pode fazer grande coisa na vida se se mantém desligado de Deus. Você pode ter posses, dinheiro, sexo, poder, mas isto nada tem com a essência de sua alma... Estas coisas não lhe podem conferir uma visão do Divino. E mais, se você está desligado de Deus, não as pode dominar: elas o escravizarão.
A “busca do Reino” não é um pensamento poético; é uma necessidade indisfarçável da alma. Ninguém pode desejar menos e ser feliz.
O homem pode conquistar o prazer dos sentidos, mas prazer não é felicidade; o homem pode repousar o corpo físico, mas repouso não é felicidade; o homem pode conquistar o mundo, mas esta conquista não é felicidade. Só há felicidade em Deus.
O Reino de Deus é uma conquista interior. Se você o adquire, ele se manifesta, coisa alguma pode desestabilizá-lo. Você não é mais um joguete das circunstâncias da vida. Você adquiriu a verdadeira vida. Ninguém a adquire se não se une ao divino.
Sabe você que isto necessita disciplina, trabalho, porque o homem quer conservar as coisas materiais para levá-las consigo ao Reino. Não é possível misturar coisas tão distintas.
Você pode fazer com que toda a matéria sirva ao Divino, pode inocular o Divino em todas as coisas materiais que faça, mas não pode enganar a Deus mantendo seus próprios interesses egoísticos e ao mesmo tempo encontrá-lo.
Toda a vida é transformável em Deus. Você não pode sentir a felicidade inabalável se não se transforma em Deus. Toda a dificuldade está em lembrar-se que é preciso abandonar o tipo de vida egoísta no qual se estabeleceu, para encontrar a verdadeira vida.
Se você não se abandona sem condições nas mãos do Senhor, se não confia nele a ponto de abandonar todas as suas prisões e entregar-se a ele, se sua mente permanece presa aos valores negociáveis do mundo, você não pode ser transformado.
Se a roseira não crescesse confiante, deixando as raízes no estrume, em busca da atmosfera, se ela se perturbasse com os espinhos que a envolvem jamais poderia alcançar a beleza das rosas que a engalanam e o perfume com que delicia a vida. Não importa se você está colocado na vida terrena entre negócios, problemas, deveres profissionais; faça sua mente colocar-se nas alturas a fim de aspirar o Divino: aí já não importam os espinhos da jornada, você terá a felicidade perfeita que brilhará em sua vida. E as rosas do Divino jamais fenecem.
Você transformará toda a sua vida, miserável, egoística, em luz porque ela será também toda iluminada. A amada estará no Amado transformada.
Yogashririshnam. Divina Presença: comentários mediúnicos a João da Cruz. 2.ed. Salvador: Circulus, 2003.Cap. 1, p. 12. Psicografia e organização de Élzio Ferreira de Souza
O mesmo tema, vários artigos, para ajudar a alguém que está preparando uma exposição ou estudando um assunto
Estudando o Espiritismo
Observe os links ao lado. Eles podem ter artigos com o mesmo tema que você está pesquisando.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Psicodigitação – A Psicografia na era do Computador
Psicodigitação – A Psicografia na era do Computador
Carlos Alberto Iglesia Bernardo
Recentemente o amigo Elzio Ferreira de Souza nos presenteou com um exemplar de uma nova obra mediúnica sua, de autoria do espírito Yogashririshnam, que nos surpreendeu pela apresentação na capa. Junto ao nome do Elzio, como médium, está a palavra “psicodigitação“. Lendo o prefácio e trocando idéias com ele entendemos o motivo da designação que é mais do que exata. O prefácio explica:
“As mensagens constantes deste livro foram recepcionadas durante o período de 27.11.2001 a 19.07.2002. Tínhamos concluído e publicado o livro Espiritismo em Movimento cujos capítulos tinham sido inteiramente digitados pela confreira Diana Santiago da Fonseca, quando, em novembro de 1999, o Espírito de Deolindo Amorin convidou-nos à continuação do trabalho psicográfico. Sem tempo para a recepção e posterior digitação, objetei-lhe que as inúmeras tarefas e a saúde seriam obstáculos para a continuação da parceria, tendo ele sugerido a recepção direta no computador, libertando-me do trabalho posterior à psicografia. Aventurei-me porque no trabalho anterior tinha ele datilografado dois capítulos. E foi assim que a psicodigitação se iniciou” (…) ” Depois que Deolindo terminou os trabalhos que desejava realizar, Yogashririshnam, utilizou-se do mesmo método para continuar o intercâmbio”.
O trabalho anterior mencionado, “O Espiritismo em Movimento”, já foi comentado no Boletim, mas é importante recordar que é uma obra séria e de grande valia para o estudioso da doutrina, discutindo diversos problemas e situações que lidam diretamente com a forma como seus adeptos se organizam e a praticam.. Também chegamos a comentar outra obra do Espírito Yogashririshnam, que traz – dentro da forma de parábolas e pequenos estudos – reflexões profundas sobre o ser e sua vivência da Doutrina Espírita. As origens hindus do autor espiritual de maneira alguma significam sincretismo ou a propaganda de idéias filosóficas estranhas a Doutrina, mas lhe dão uma visão bastante peculiar de seus postulados que lhe permitem ir direto a pontos que normalmente nos passam despercebidos.
A obra que me chamou a atenção para a psicodigitação traz o título “Espaço, Tempo e Causalidade” (Bahia: Circulus, 2003), que a primeira vista parece ser um tratado de física, mas que na realidade se trata de um enfoque sociológico, com explica o Elzio:
” Ao leitor poderá parecer estranho o título Espaço, Tempo e Causalidade por não se tratar de um livro que aborde as questões relativas à ciência física. Determinados termos, porém, são empregados em diversos ramos do saber com diversidade de conceituação conforme o campo do conhecimento em que se estruturam. Espaço, tempo e causalidade são alguns deles. (…) O espaço social é o universo em que se processam as relações humanas ou o campo em que se desenvolvem os processos sociais“.
Desnecessário dizer – pois Elzio é companheiro de longa data no GEAE e também tem um histórico longo de atuação no movimento espírita – que seu trabalho é de grande confiabilidade, demonstrada inclusive na forma como ele descreve o “aprendizado” do processo de psicodigitação:
“Ao recepcionar as mensagens, tomei a precaução de cobrir a tela do monitor, digitando de olhos cerrados, rapidamente. Com o passar do tempo, concluí pela desnecessidade da ocultação, continuando a digitar sem visualizá-lo”.
E bastante interessante é que o aprendizado teve que ocorrer da parte de Yogashririshnam também:
“Pudemos notar que o Deolindo deveria sentir-se mais à vontade em fazê-lo, acostumado que era, em vida, a escrever seus textos diretamente na máquina de escrever. Yogashririshnam teve que se adaptar ao processo, segundo me parece, porque inicialmente eu cometia erros de digitação quando se tratava deste Espírito, o que quase não acontecia com Deolindo”.
A surpresa que tive foi resultado de perceber que este era um desenvolvimento perfeitamente natural no processo mediúnico – considerando o uso cada vez mais intenso do computador – e ao mesmo tempo de não ter ainda visto este gênero novo ser destacado. Também me chamou a atenção o fato de que – da mesma maneira que na época de Kardec* – tenham sido os espíritos que tomaram a iniciativa de propor um novo aperfeiçoamento no processo de transmissão das mensagens mediúnicas.
Enfim, eis que temos uma palavra nova no vocabulário espírita, que com o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, continua a se ampliar.
Muita Paz,
Carlos Iglesia
* “O meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e isto é ainda uma circunstância digna de nota, indicou um outro. É um desses seres invisíveis que dá o conselho de adaptar um lápis a um cesto ou a um outro objeto” Allan Kardec, Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita – IV, O Livro dos Espíritos. Tradução Salvador Gentile, São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1975.
(Publicado no Boletim GEAE Número 471 de 24 de fevereiro de 2004)
Carlos Alberto Iglesia Bernardo
Recentemente o amigo Elzio Ferreira de Souza nos presenteou com um exemplar de uma nova obra mediúnica sua, de autoria do espírito Yogashririshnam, que nos surpreendeu pela apresentação na capa. Junto ao nome do Elzio, como médium, está a palavra “psicodigitação“. Lendo o prefácio e trocando idéias com ele entendemos o motivo da designação que é mais do que exata. O prefácio explica:
“As mensagens constantes deste livro foram recepcionadas durante o período de 27.11.2001 a 19.07.2002. Tínhamos concluído e publicado o livro Espiritismo em Movimento cujos capítulos tinham sido inteiramente digitados pela confreira Diana Santiago da Fonseca, quando, em novembro de 1999, o Espírito de Deolindo Amorin convidou-nos à continuação do trabalho psicográfico. Sem tempo para a recepção e posterior digitação, objetei-lhe que as inúmeras tarefas e a saúde seriam obstáculos para a continuação da parceria, tendo ele sugerido a recepção direta no computador, libertando-me do trabalho posterior à psicografia. Aventurei-me porque no trabalho anterior tinha ele datilografado dois capítulos. E foi assim que a psicodigitação se iniciou” (…) ” Depois que Deolindo terminou os trabalhos que desejava realizar, Yogashririshnam, utilizou-se do mesmo método para continuar o intercâmbio”.
O trabalho anterior mencionado, “O Espiritismo em Movimento”, já foi comentado no Boletim, mas é importante recordar que é uma obra séria e de grande valia para o estudioso da doutrina, discutindo diversos problemas e situações que lidam diretamente com a forma como seus adeptos se organizam e a praticam.. Também chegamos a comentar outra obra do Espírito Yogashririshnam, que traz – dentro da forma de parábolas e pequenos estudos – reflexões profundas sobre o ser e sua vivência da Doutrina Espírita. As origens hindus do autor espiritual de maneira alguma significam sincretismo ou a propaganda de idéias filosóficas estranhas a Doutrina, mas lhe dão uma visão bastante peculiar de seus postulados que lhe permitem ir direto a pontos que normalmente nos passam despercebidos.
A obra que me chamou a atenção para a psicodigitação traz o título “Espaço, Tempo e Causalidade” (Bahia: Circulus, 2003), que a primeira vista parece ser um tratado de física, mas que na realidade se trata de um enfoque sociológico, com explica o Elzio:
” Ao leitor poderá parecer estranho o título Espaço, Tempo e Causalidade por não se tratar de um livro que aborde as questões relativas à ciência física. Determinados termos, porém, são empregados em diversos ramos do saber com diversidade de conceituação conforme o campo do conhecimento em que se estruturam. Espaço, tempo e causalidade são alguns deles. (…) O espaço social é o universo em que se processam as relações humanas ou o campo em que se desenvolvem os processos sociais“.
Desnecessário dizer – pois Elzio é companheiro de longa data no GEAE e também tem um histórico longo de atuação no movimento espírita – que seu trabalho é de grande confiabilidade, demonstrada inclusive na forma como ele descreve o “aprendizado” do processo de psicodigitação:
“Ao recepcionar as mensagens, tomei a precaução de cobrir a tela do monitor, digitando de olhos cerrados, rapidamente. Com o passar do tempo, concluí pela desnecessidade da ocultação, continuando a digitar sem visualizá-lo”.
E bastante interessante é que o aprendizado teve que ocorrer da parte de Yogashririshnam também:
“Pudemos notar que o Deolindo deveria sentir-se mais à vontade em fazê-lo, acostumado que era, em vida, a escrever seus textos diretamente na máquina de escrever. Yogashririshnam teve que se adaptar ao processo, segundo me parece, porque inicialmente eu cometia erros de digitação quando se tratava deste Espírito, o que quase não acontecia com Deolindo”.
A surpresa que tive foi resultado de perceber que este era um desenvolvimento perfeitamente natural no processo mediúnico – considerando o uso cada vez mais intenso do computador – e ao mesmo tempo de não ter ainda visto este gênero novo ser destacado. Também me chamou a atenção o fato de que – da mesma maneira que na época de Kardec* – tenham sido os espíritos que tomaram a iniciativa de propor um novo aperfeiçoamento no processo de transmissão das mensagens mediúnicas.
Enfim, eis que temos uma palavra nova no vocabulário espírita, que com o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, continua a se ampliar.
Muita Paz,
Carlos Iglesia
* “O meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e isto é ainda uma circunstância digna de nota, indicou um outro. É um desses seres invisíveis que dá o conselho de adaptar um lápis a um cesto ou a um outro objeto” Allan Kardec, Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita – IV, O Livro dos Espíritos. Tradução Salvador Gentile, São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1975.
(Publicado no Boletim GEAE Número 471 de 24 de fevereiro de 2004)
OS CORPOS SUTIS NA OBRA DE KARDEC
Elzio Ferreira de Souza
Afirmou ser este constituído de eletricidade, de fluido magnético animalizado, de fluido nervoso, de matéria inerte, semimaterial, “matéria elétrica ou de outra tão sutil quanto esta”. É evidente que tais palavras não são sinônimas e que Kardec procurava abarcar mais amplamente a natureza do perispírito, dando a entender a existência de uma constituição plúrima (= múltipla), como se pode deduzir da assertiva de se tratar de um fluido nervoso.
Se o perispírito também se constitui de fluido nervoso, o espírito o conduziria, quando desencarnado, para o mundo espiritual? É evidente que não, pois o espírito terá que se desvencilhar dele ao abandonar o corpo. Se o perispírito é formado também por matéria inerte, é justo pensar que esta não acompanharia o corpo físico.
Segundo o espírito Erasto, o fluido vital é um apanágio (=atributo) exclusivo do encarnado. O espírito impele e dirige o fluido vital fornecido pelo médium no fenômeno mediúnico. Se Kardec considerou essa terminologia, então, deve se entender que, de alguma forma, ele reconhecia um compósito (=composto) na natureza do perispírito enquanto encarnado ao afirmar, no item 77 de O Livro dos Médiuns, que ele é formado por fluido vital, o elemento que é apanágio do homem.
Sendo este elemento que animaliza a matéria, desfazendo-se após a morte do corpo, constituinte do perispírito e transmissível em parte entre os indivíduos, devemos identificá-lo como a substância que, exteriorizada, chamamos de ectoplasma.
O Fluido Vital
Portanto, Erasto não estava se referindo ao fluido vital no sentido empregado algumas vezes por André Luiz, ou seja, como fluido de espíritos desencarnados, pertencente ao corpo astral, de acordo com a terminologia que adota para se referir aos colaboradores mediúnicos do mundo invisível.
Atentando-se para esse elemento que nasce com o homem e desaparece logo após a morte, podemos deduzir que ele constitui o duplo etérico, ao qual os grandes magnetizadores, os teosofistas e as doutrinas orientais também se referem. Na época, não se empregava o termo duplo etérico, mas quando Kardec escreveu que o perispírito é constituído de matéria sutil, nervosa e inerte, é evidente que ele estava se referindo ao perispírito como um corpo complexo, não de natureza única.
Outro indício dessa complexidade surge quando Kardec se refere à evolução do perispírito. No capítulo IV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o espírito São Luiz afirma que “o próprio perispírito sofre transformações sucessivas, eterizando-se cada vez mais até a depuração completa, que constitui os espíritos puros”. Segundo o codificador, “sabemos que, quanto mais eles se depuram, mais a essência do perispírito se torna etérea, de onde se segue que a influência material diminui à medida que o espírito progride, isto é, conforme o perispírito mesmo se torna menos grosseiro”.
Em O Livro dos Médiuns, disse ainda que “sua natureza se eteriza à medida que ele se depura e eleva na hierarquia”. É claro que, para a compreensão dos textos, existem duas hipóteses: o perispírito tornar-se-ia mais leve, os fluidos ficariam menos grosseiros, porém, a natureza seria idêntica, não sendo necessária a referência a um corpo complexo; a eterização do perispírito é de tal ordem que ele abandona determinadas camadas, próprias de certas zonas invisíveis, quando é elevado na hierarquia espiritual, passando a viver em esferas mais altas. Neste caso, teríamos indicações de uma natureza complexa para o perispírito nas referências. As duas hipóteses de compreensão não se excluem, pois as mensagens espirituais que têm sido recolhidas e a própria vidência deixam claro que o perispírito se mostra mais diáfano e luminoso à medida que o espírito se eleva.
O que se coloca como questão é se o espírito conserva um corpo espiritual da mesma natureza ao se elevar para zonas mais próximas da Terra ou se realmente há uma mudança em sua estrutura, necessária para a nova ambientação, levando à admissão de uma complexidade em sua organização.
Em outras palavras, a evolução do perispírito não seria mais do que a própria modificação dos corpos espirituais.
Kardec apenas ensaiava o estudo do perispírito e, portanto, não poderia conhecer tudo o que lhe dizia respeito. Os próprios espíritos não foram muito expressivos, seja porque preferiam dosar o ensino (como, aliás, sempre advertiram), porque a linguagem humana lhes assinalava óbvias restrições ou porque faltava conhecimento mais preciso do assunto para muitos dos comunicadores, decorrente da relatividade dos próprios espíritos, conforme Kardec assinalou tantas vezes.
No entanto, devemos recordar que, no Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos, presente no item 257 de O Livro dos Espíritos, o codificador deu mostras de sua larga visão. Partindo da eterização do perispírito (“quanto mais eles se depuram, mais a essência do perispírito se torna etérea”), ele concluiu que as sensações do ambiente terreno seriam inacessíveis para espíritos muito elevados, o que só poderia ocorrer se sua natureza fosse completamente diferente.
DOS CORPOS ESPIRITUAIS (A VISÃO DE ANDRÉ LUIZ)
.jpg)
Podemos agora tecer algumas considerações a respeito do problema dos corpos espirituais na obra de André Luiz, psicografada pelo médium Chico Xavier, procurando esclarecer alguns detalhes que parecem bastante importantes.
A partir de seu primeiro livro, Nosso Lar, no qual relata suas primeiras experiências no plano espiritual, André Luiz faz referência a vários corpos espirituais: duplo etérico, corpo astral, corpo mental e corpo causal. Inicialmente, devemos lembrar que ele utiliza o termo perispírito em sentido estrito, para significar apenas o segundo corpo após o organismo físico, que sobreviverá a este com algumas diferenças. Ele usa os termos corpo astral, corpo espiritual e psicossoma como sinônimos. Para os outros corpos, utiliza vocábulos consagrados entre os magnetizadores e espiritualistas (duplo etérico, corpo mental e corpo causal). Ele não se refere à existência de outros corpos que correspondessem aos denominados corpos moral, intuitivo e consciencial, isto é, os Aerossomas V, VI e VII da classificação de Charles Lancelin.
A divergência pode se tornar uma simples questão de palavras se encararmos o perispírito como sendo um corpo complexo, formado, por assim dizer, de “camadas”, sintetizando todos os corpos espirituais.
Para o dr. Antônio J. Freire, a concepção clássica do ternário humano não implica necessariamente a homogeneidade do perispírito. As palavras pouco importam aos espíritos, competindo ao homem formular uma linguagem que elimine controvérsias.
Duplo Etérico
No primeiro volume de Doutrina e Prática do Espiritismo, Leopoldo Cirne (1870-1941) já deduzia, das experiências de materialização, a existência de um corpo invisível no ser encarnado, distinto do perispírito, que poderia subsistir por algum tempo depois da morte física, mas que não permaneceria ligado ao espírito desencarnado. Ele o denominou como corpo etéreo, duplo astral, corpo astral, que seria responsável pela possibilidade de materialização dos espíritos. Depois, em O Homem Colaborador de Deus, publicado após sua morte, Cirne manteve seu ponto de vista sobre a existência de um corpo não-físico durante a vida.
Em Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz diferencia o perispírito (tratado por ele também como corpo astral, corpo espiritual e psicossoma) do duplo etérico, cuja natureza ele esclarece ser “um conjunto de eflúvios vitais que asseguram o equilíbrio entre a alma e o corpo de carne, (...) formado por emanações neuropsíquicas que pertencem ao campo fisiológico e que, por isso mesmo, não conseguem maior afastamento da organização terrestre, destinando-se à desintegração, tanto quanto ocorre ao instrumento carnal por ocasião da morte renovadora”.
O duplo etérico não é mais do que o corpo vital, também denominado de corpo ódico e corpo ectoplásmico, exatamente o que cede o ectoplasma para a produção de efeitos físicos. Nas ocorrências de materialização, por exemplo, ele pode se desdobrar a partir do corpo físico, permitindo ao espírito comunicante uma sobreposição, quando a manifestação acontece com apropriação por parte daquele, ou apenas ceder o ectoplasma disforme, que possibilita ao espírito construir um corpo.
No primeiro caso, o espírito materializado guarda uma certa semelhança com o médium, proporcionando aos críticos apressados a alegação de fraude. No entanto, sua função em relação à mediunidade não se limita a esses fenômenos, dizendo respeito a toda espécie de fenômeno mediúnico.
Tendo perdido o duplo etérico ou corpo vital, constituído dos fluidos vitais aos quais Kardec se referia, ao se desligar do corpo físico pelo desencarne, o espírito dele necessita para sua ligação com o médium, modo pelo qual se recupera parcialmente o elemento perdido, possibilitando-lhe agir sobre a matéria.
Quando o médium se desdobra sem muita prática, faz com que o duplo etérico seja levado para fora do corpo físico, aparecendo ao vidente como se fosse um duplo do indivíduo, porém, com deformações.
Por isso, ele não poderá ficar mais do que cinco ou dez metros longe do corpo físico, pois a ultrapassagem desse campo causaria sua morte. Por outro lado, pode surgir ao vidente como um fantasma, com cores diferentes do lado direito e esquerdo, às vezes, também com a cor azul.
Nas experiências realizadas pelo coronel Albert de Rochas com Eusápia Paladino em estado de hipnose, a médium descreveu o surgimento de um fantasma de cor azul, de cuja substância o espírito de John se servia durante as reuniões. O fato confere com as explicações fornecidas pelo espírito Katie King e constantes no relatório de Florence Marryat, que abordavam a existência de um corpo do qual se servia, mas que lhe apresentava tamanha resistência passiva que não era possível evitar os traços de semelhança com o médium durante as materializações.
A vidente Prevorst denominou esse corpo de “espírito de nervos” ou “princípio de vitalidade nervosa”, cuja função seria permitir a ligação do espírito com o corpo.
Uma sonâmbula do reverendo Werner também se referiu a um “fluido nervoso” que seria indispensável para que a alma entrasse em relação com o corpo. Durante suas experiências de magnetização dos sensitivos, Albert de Rochas, Hector Durville, H. Baraduc e outros verificaram que estes descreviam o desdobramento de um “fantasma ódico” que tinha uma cor alaranjada à direita e azulada à esquerda, estando ligado ao corpo físico por um cordão fluídico fixado na região esplênica.
DEFORMIDADES NA EXTERIORIZAÇÃO
Descrevendo o desdobramento de um médium, André Luiz nos oferece alguns dados que permitem uma comparação. “O médium, assim desligado do veículo carnal, afastou-se dois passos, deixando ver o cordão vaporoso que o prendia ao campo somático. Enquanto o equipamento fisiológico descansava imóvel,
Castro, tateante e assombrado, surgia junto a nós em uma cópia estranha de si mesmo, porquanto, além de maior em sua configuração exterior, apresentava-se azulada à direita e alaranjada à esquerda”. O espírito esclarece ainda que, quando foi submetido a um médium para renovar as operações magnéticas, Castro teria recuado o duplo etérico até o corpo físico, que engoliu instintivamente certas faixas de força, e se apresentado normalmente fora da matéria densa a partir desse instante.
Essa deformidade existente na exteriorização do duplo etérico foi observada por Mircea Eliade. “Eu vi o corpo do médium, não o físico, mas o fluídico. Estava sentado, porém, tinha uma grande diminuição dos membros inferiores, as pernas se apresentavam curtas e disformes, projetando-se para um lado. Era uma parte distorcida, como se visse uma sombra na parede que, ao movimentar o corpo, tomasse a forma com distorção. A cor era esbranquiçada, como um duplo do médium”, contou.
A clarividente verificou que aplicaram uma espécie de “máscara”, parecida com a utilizada em combates de esgrima, antes da tela final de proteção, algo branco que dava a impressão de ser acolchoado, tomando parte da testa até mais ou menos a boca.
Ajustada essa máscara, o duplo etérico começou a tomar proporções corretas, reajustando-se todo o corpo fluídico. Porém, é de se notar que, ao invés de uma figura maior, o médium teve os membros diminuídos. Só que em outro registro, ela anotou que viu “todo o rosto do médium ondulando como uma imagem desfocada, com coloração inicialmente esbranquiçada”.
Comparando-se a descrição de André Luiz com as referidas acima, no que tange à coloração com que se apresenta o duplo etérico, notamos a divergência com relação à localização das cores azul e laranja (ou avermelhada). Em nosso grupo de trabalho, também tinha sido observada a luminosidade avermelhada à direita e azulada à esquerda, o que não só coincidia com aquelas observações, mas também com as de Shaffica Karagulla, registradas durante as pesquisas feitas sobre os pólos do ímã com a clarividente Diana.
Segundo seu registro, o campo de energia da mão direita (avermelhada) e o pólo sul do ímã (com uma névoa de cor avermelhada) se repeliam, enquanto que, ao segurar o mesmo pólo com a mão esquerda (azulada), ocorria uma atração entre os dois campos. Com o pólo norte, que apresentava uma névoa azulada, aconteceu exatamente o contrário, criando um campo de atração com a mão direita e de repulsão com a esquerda.
As cores dos pólos do ímã correspondem à descrição feita pelo barão Reinchenbach acerca de uma experiência realizada com a senhorita Nowstuy, em abril de 1774, na cidade de Viena, Áustria: pólo sul, amarelo-avermelhado; pólo norte, azul. Correspondem também às experiências do dr. Luys. Então haveria uma contradição com a descrição de André Luiz? É bem verdade que o próprio dr. Luys apurou também que alguns dos sensitivos percebiam o lado direito com uma coloração azul (violeta nos histéricos) e o esquerdo emitindo eflúvios vermelhos, o que coincide com o registro de André Luiz.
A solução dessa aparente contradição é dada pelo próprio dr. Luys. Ele esclarece que, muitas vezes, os sensitivos invertem as colorações que atribuem aos fluídos, isto é, existem aqueles que vêem o vermelho no lado direito e o azul no esquerdo. Quando isso acontece, fazem sempre do mesmo modo, apresentando-se as cores dos pólos do íma igualmente alteradas, ou seja, invertidas.
O duplo etérico também aparece à evidência de modo distinto, como se a “pele” que o reveste fosse retirada e se pudesse enxergá-lo interiormente. Há muito tempo, tivemos a ocasião de observar, ao lado de um médium que expressava a comunicação de um espírito sofredor, um duplo formado por finos fios, com uma luminosidade semelhante a tubos de neon. Parecia uma múmia, com a particularidade de que os fios eram finíssimos. Outros médiuns também realizaram observações desse tipo. “Comecei a ver o lado direito do médium, era como se estivesse todo cheio de fios, que pareciam nervos, feitos de uma substância alva, prateada. Eu não via o médium, somente os fios”, relatou Mircea Eliade. A descrição coincide com a fornecida por Karagulla, ou seja, “para o clarividente, o corpo etérico parece uma teia luminosa de linhas finas e brilhantes”.
O PERISPÍRITO
Já destacamos o fato de que André Luiz utiliza o termo perispírito em um sentido estrito, como sinônimo de corpo astral. No livro Entre a Terra e o Céu, ele o descreve como sendo formado de matéria rarefeita, “intimamente regido por sete centros de força que se conjugam nas ramificações dos plexos e que, vibrando em sintonia uns com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem, para o nosso uso, um veículo de células elétricas que podemos definir como sendo um campo eletromagnético, no qual o pensamento vibra em circuito fechado”. Em regiões destinadas à renovação espiritual, como a colônia Nosso Lar, o perispírito é o veículo de manifestação para as atividades do espírito.
Segundo André Luiz, o corpo espiritual é o “santuário vivo no qual a consciência imortal prossegue em manifestação incessante além do sepulcro, formação sutil urdida em recursos dinâmicos e extremamente porosa e plástica, em cuja tessitura as células, em outra faixa vibratória, face ao sistema de permuta visceralmente renovado, são distribuídas mais ou menos à feição das partículas colóides, com a respectiva carga elétrica, comportando-se no espaço segundo a sua condição específica e apresentando estados morfológicos conforme o campo mental a que se ajusta”. Ele possui uma estrutura eletromagnética e se encontra algo modificado em relação ao corpo físico, no que se refere a fenômenos genésicos e nutritivos, sob a direção da mente que o rodeia. Quando o espírito reencarna, desfaz dos elementos próprios do plano astral. André Luiz refere-se mesmo ao fenômeno da “segunda morte” ou morte do perispírito, que ocorreria em três situações distintas: quando os ignorantes e maus se pervertem adensando a mente e gravitando em torno de paixões infelizes (formas “ovóides, verdadeiros fetos ou amebas mentais”); quando se verificam as operações redutoras para renascimento na carne; quando os espíritos enobrecidos conquistam os planos mais altos. Para maiores informações sobre o assunto, consulte o livro Evolução em Dois Mundos.
Na segunda hipótese, quando o Espírito reencarna obrigatoriamente, o processo de restrição verifica-se em pavilhões de restringimento, sendo ele transformado em sêmen espiritual, “Reduzido a um diminuto corpo ovalado, onde estão preservados os seus centros de força”, “lembrando uma pastilha”. Segundo informação de Francisco Cândido Xavier, os despojos são enterrados num cemitério (ibidem). Na terceira hipótese, o Espírito, passando a viver em região superior, não pode levar instrumento útil na inferior – “o tipo de veículo utilizável se modifica. Utiliza-se então de outro corpo – o mental.
Corpo Mental
Ao descrever suas primeiras experiências no mundo espiritual, André Luiz permite que se deduza a existência de um outro corpo ligado ao corpo astral. Quando sua mãe o visitou, estando ele em tratamento no Ministério do Auxílio, necessário foi lhe passar pelos Gabinetes Transformatórios do Ministério da Comunicação. Por outro lado, como vivesse ela em zona superior, só pode visitá-la durante o sono, e, para tanto, teve que aproveitar o ensejo do repouso após o serviço nas Câmaras de Retificação, quando se desprendeu em outro corpo (mental), amparados por espíritos amigos: “O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. Eu sabia perfeitamente que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação, na colônia espiritual Nosso Lar, e tinha a absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso”.
André Luiz faz uma referência expressa ao corpo mental em Evolução em dois Mundos, afirmando que o perispírito ou corpo espiritual “retrata a si o corpo mental que lhe preside a formação”, isto é, “o envoltório sutil da mente”. Esclareceu André Luiz que, na falta de terminologia adequada, ficava impossibilitado de defini-lo com maior amplitude de conceituação, além da que tem sido utilizada pelos pesquisadores.
Corpo Causal
André Luiz reporta-se ainda ao corpo causal, como sendo a “roupa imunda”, “tecida por nossas mãos, nas experiências anteriores “. Assim sendo, verificamos que o corpo causal é o ponto de registro, o banco divino, onde se encontram os nossos “débitos” e os nossos “créditos”, e que se, presentemente, é ainda roupa imunda. Isto ocorre por desídia nossa, pois a tarefa reencarnatória se destina a “nos purificarmos pelo esforço da lavagem”, tarefa que, na maior parte das vezes, não empreendemos. As explicações são do espírito Lísias, visitador dos serviços de saúde: “Imagine, explica Lísias, que cada um de nós, renascemos no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana. Essa roupa é o corpo causal, tecido por nossas mãos nas experiências anteriores”. Os hindus denominam-no Kâranakosha (corpo causal) ou Anandamaykosha (corpo de bem-aventurança) , o corpo de luz, naturalmente porque se reportam a ele devidamente depurado.
Essa pluralidade de corpos invisíveis corresponde ao que sabemos a respeito através de outra religiões e filosofias. A seqüencia de rarefação dos corpos torna-se compreensível, se atentarmos para a adversidade de planos espirituais , bem como para o fato de que as zonas espirituais devem ser formadas de distintas matérias e os corpos devem ser compatíveis com elas. A questão que se coloca é a de saber o motivo pelo qual André Luiz teria preferido utilizar o termo perispírito para designar só um desses corpos, sem dar um sentido amplo para o mesmo. Provavelmente, porque o que se designa por perispírito é exatamente o corpo astral que se revela nos lances da clarividência, e por ser essa matéria sutil com a qual o espírito se individualiza após a perda do corpo físico nas zonas mais próximas à Terra. Qualquer que seja a preferência na utilização da terminologia, é preciso estar atento para essa particularidade na leitura de André Luiz, bem como deixar claro o significado do termo em qualquer exposição.
CORRESPONDÊNCIAS (ENTRE OS CORPOS)
Sabemos que os fenômenos psicológicos exigem uma base física no organismo humano, isto é, eles se produzem em nosso nível de ação ancorados pelo sistema nervoso central e periférico. Do mesmo modo, existem nos vários corpos espirituais sistemas próprios equivalentes que sustentam esses fenômenos. Registrando as palavras do assistente espiritual Calderaro, André Luiz descreve: “Todo campo nervoso da criatura constitui a representação das potências perispiríticas, vagarosamente conquistadas pelo ser, através de milênios e milênios “. O sistema nervoso é o ponto de contato entre o perispírito e o corpo físico.
Ele “mais não é do que a representação de importante setor do organismo perispirítico”. É no sistema nervoso e no sistema hemático que possuímos as duas grandes âncoras do organismo perispiritual com relação ao físico. Não há de causar admiração o fato de haver, no perispírito, sistemas correspondentes aos do organismo físico, desde que, afinal, aquele é que modela este.
“(...) o nosso corpo de matéria rarefeita está intimamente regido por sete centros de força, que se conjugam nas ramificações dos plexos e que, vibrando em sintonia uns com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem para nosso uso, um veículo de “células elétricas”, que podemos definir como sendo um campo eletromagnético, no qual o pensamento vibra em circuito fechado”.
André Luiz descreve o perispírito como sendo formado de matéria rarefeita, intimamente regido por sete centros de força que se conjugam nas ramificações dos plexos e que vibram em sintonia.
A concepção tríplice do Homem (Espiritismo):
Espírito – Perispírito – Corpo.
Nesta visão, o perispírito representa toda
a gama de corpos sutis (corpo astral e mental e causal)
ensinados nas demais doutrinas espiritualistas.
Para os hindus, o chacra esplênico não é considerado um dos sete principais.
É um chacra secundário.
Novas Idéias e a Doutrina
Novas Idéias e a Doutrina
Autor: Deolindo Amorin (espírito)
Médium - Elzio Ferreira de Souza
Livro - Espiritismo em Movimento
Acho que ninguém tem dúvida da necessidade de fortalecer o pensamento espírita. Antes, porém, de pensar nisto ou em divulgá-lo, deve todo adepto sentir a necessidade de estabelecê-lo com firmeza e precisão para que não se espalhe e divulgue, como sendo espírita, aquilo que é apenas pensamento pessoal de um ou outro confrade, idéias que, se bem respeitáveis, não podem por si representar o pensamento doutrinário; não porque possam ser colocadas de lado como visceralmente errôneas, mas pelo fato de não terem ainda amadurecido suficientemente para que possam ser aceitas como fazendo parte do conteúdo doutrinário.
É esta falta de amadurecimento, ausência de reflexão, que produz a aceitação facilitada de toda idéia que surge no campo doutrinário, exposta por oradores, ou em livros e jornais, com completo esquecimento daquelas que constituem o pensamento da Doutrina, com enraizamento na codificação.
Por outro lado, existem companheiros que têm uma completa neofobia e rejeitam qualquer idéia que já não esteja sedimentada, esquecidos de que o Espiritismo não parou no tempo, nem pode paralisar-se, que ele tem de acompanhar o progresso das relações sociais, saber enfrentá-las e compreendê-las para ajustar ao seu pensamento, a fim de poder sobreviver aos desafios que os tempos hodiernos oferecem, sem o que correria o perigo de se ver ultrapassado, quando, sem dúvida, ele possui força suficiente para oferecer soluções certeiras, contanto que não se despreze a base doutrinária, que se a estude e compreenda.
Assim a questão não é citar Kardec, muitas vezes abusivamente, sem compreendê-lo suficientemente, para defender essa ou aquela idéia, ou para combater aqueloutra. O problema é de compreensão. Não se pode apenas amarrar um galho em uma árvore e pensar que se fez enxertia válida; por outro lado, realizar um enxerto exige cuidados para que a planta não morra e a árvore se revitalize. Uma idéia nova deve ser pensada, amadurecida, testada, antes que passe a fazer parte do contexto doutrinário, aceito. Até lá, é importante que as idéias sejam discutidas, sem afogadilho, cada um colaborando no seu exame, o que naturalmente não pode ser feito com paixões e interesses em jogo, uns e outros desconhecendo as lições já centenárias do mestre lionês. Sobretudo, se nos voltarmos para a história, veremos o método seguido por Allan Kardec no estabelecimento das bases doutrinárias, método ainda perfeitamente válido, apesar do tempo decorrido. Kardec não aceitou a própria explicação espírita do fenômeno que ele podia compreender, em face do seu conhecimento do magnetismo, sem antes experimentar, pensá-la com relação a outras possíveis soluções, a fim de buscar a causa mais simples e mais ampla na explicação das mesas que se moviam; procedeu prudentemente, e podemos acrescentar cientificamente, ao procurar uma causa que pudesse abranger a maior parte dos fenômenos (1). Mas, por outro lado, soube ver que nem todos eles procediam da comunicação dos chamados "mortos", e que, em determinados casos, certos indivíduos poderiam provoca-los sem auxílio, ao menos direto, dos Espíritos. Aí, já estamos no terreno do animismo, e Kardec soube reconhecê-lo, antecipando-se, portanto, às críticas dos que, posteriormente, como Hartmann, nele criam encontrar a explicação de toda a fenomenologia espírita (2). Tudo isso foi feito com tempo, amadurecendo as idéias no silêncio da noite, sem apressuramento, sabendo modifica-las e ajustá-las à realidade. Soube assim alterar seu próprio pensamento - refiro-me ao período Rivail -, mas com isto não aderiu a tudo o que os Espíritos trouxeram, fosse qual fosse o nome subscritor da mensagem, por mais respeitável tivesse sido esse nome na Terra, ou a honra que se lhe tributasse. Em O Livro dos Espíritos, colheu de toda a parte, pois lhe interessava saber aspectos reais da vida espírita, e não apenas como pensavam os anjos já desligados das duras fases de evolução no planeta(3). Não teve preferências mediúnicas; importava saber se a mensagem poderia suportar o exame do raciocínio, num momento em que a "dona razão" sofria de uma exacerbação, muito compreensível por sinal, por terem as religiões olvidado o respeito ao homem, impingindo-lhe certos posicionamentos fideístas que escorraçavam sua própria dignidade, tornando-o um joguete do fanatismo e da ortodoxia. A inquisição pode falar historicamente sobre isto.
Pois bem, o modo de proceder do mestre deve ser seguido. Para não alongar-me mais, devo dizer que, se o movimento espírita assim proceder, terá capacidade de absorver toda idéia nova qualquer que seja sua fonte científica ou filosófica, contanto que se mostre verdadeira, depois de convenientemente testada, sem que com isto desfiguremos a Doutrina, nem a tornemos obtusa e envelhecida, voltando as costas ao progresso (4).
Meio termo em tudo. Mas se posso recomendar algo é que as lições de Kardec possam ser estudadas com mais profundidade para que se possa reconhecer seu verdadeiro pensamento.
Texto extraído do livro Espiritismo em Movimento, psicografado pelo médium Elzio Ferreira de Souza, e publicado pelo Círculo Espírita da Oração de Salvador.
NOTAS DE ELZIO FERREIRA DE SOUZA
(1) vide Oeuvres Posthumes - "Minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 243 s. (retorna ao texto)
(2) Eduard Von Hartmann, um dos grandes filósofos do inconsciente ao lado de Carl Gustav Carus (1789-1869) e Arthur Schopenhauer (1788-1869), escreveu um livro intitulado O Espiritismo, publicado em 1885, em que procurou explicar os fenômenos mediúnicos com base no animismo. Alexander Aksakof replicou a tese em seu livro Animismo e Espiritismo (1890) , que foi traduzido para o português a partir da edição francesa e editado pela Federação Espírita Brasileira. Em 1869, Hartmann publicou sua famosa obra Filosofia do Inconsciente em que descreveu três estratos do inconsciente: "1) o inconsciente absoluto que constitui a substância do universo e a fonte das outras formas de inconciente; 2) o inconsciente fisiológico, que, do mesmo modo que o inconsciente de Carus, opera na origem, desenvolvimento e evolução dos seres vivos, incluindo o homem; 3) O inconsciente relativo ou psicológico, que jaz na origem de nossa vida mental consciente" (H. F. Ellenberger - El Descubrimiento del Inconsciente, p. 247).
Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, ainda que não se utilizasse do termo animismo, reportou-se aos casos de indivíduos capazes de produzir fenômenos de efeitos físicos ou intelectuais sem a intervenção de Espíritos - n.º 74, XX e n.º163 (pessoas elétricas, torpedos humanos); n.º 172 a 174 (sonâmbulos). Além de dedicar todo o capítulo XIX ao estudo da influência anímica do médium nas comunicações - "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas" (vide, sobretudo o n.º 223, 2.a, 3.a, 4.a e 5.a questões), ao estudar a influência moral do médium (cap. XX), referiu-se, no item n.º 230, às intervenções anímicas deste nas comunicações espirituais. Além disso, Kardec já recolhia ali o ensino dos Espíritos sobre a existência de visões que eram simples efeitos da imaginação, constituindo-se em verdadeiras alucinações sem base espiritual (n.º 113). O mesmo sobre alucinações sonoras (n.º 151). E, na Revista Espírita de maio de 1865, transcreveu uma mensagem do Espírito Georges, sob o título - "Estudo sobre a mediunidade", em que é feita a diferença entre os médiuns inspirados pelos fluidos espirituais e os que agem apenas sob o impulso do fluido corporal, fazendo, em seguida, considerações a respeito (p. 149-150).
António J. Freire (Ciência e Espiritismo, p. 155) relembrou que, já nos primórdios do Espiritismo, observadores e experimentadores, como Andrew Jackson Davis, em 1855, Metzger e outros, entre os quais o célebre médium intuitivo americano Hudson Tuttle, salientaram a origem humana de muitas mensagens.
Hudson Tuttle, um dos pioneiros da mediunidade e da literatura espírita nos Estados Unidos, em seu livro Mediumship and Its Laws, chamava, inclusive, a atenção sobre a participação anímica do médium na comunicação mediúnica; segundo as observações feitas, a comunicação obtida por cada médium tem um tom ou cor própria de cada um deles, como se fosse proveniente do seu cérebro, ou de um único controle (p. 44). "Quanto mais perfeitamente o caráter do médium concordar com o do Espírito, mais perfeitas serão as comunicações transmitidas. A eliminação da influência do médium exigiria o mais atento cuidado" (p.45).
Por sua vez, Léon Denis (No Invisível, p. 88 - 89) advertiu que a união de forças e vontade dos assistentes podia "ser suficiente para provocar efeitos físicos e mesmo fenômenos intelectuais, que vão logo sendo atribuídos à intervenção de personalidades invisíveis", sendo medida de prudência e de bom aviso "só admitir, por conseguinte, essa intervenção, quando estabelecida por fatos rigorosos'. Vide ainda p. 93 - 94. (retorna ao texto)
(3) "(...); segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado deste mundo, seus costumes, se assim se pode exprimir; eu vi logo que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvelava-me uma face, da mesma maneira que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando-se os habitantes de todas as classes e de todas as condições, cada um podendo ensinar-nos alguma coisa, e nenhum, individualmente, podendo ensinar-nos tudo; é ao observador que cabe formar o conjunto com a ajuda dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e conferidos uns com os outros" (Oeuvres Posthumes - "A minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 244). Vide também - Qu' est-ce que le Spiritisme ?: 2.º diálogo ("Diversidade dos Espíritos", p. 67-71); Revista Espírita, abril de 1866, p. 103 ("Da revelação"); Le Livre des Esprits, Introdução, n.º X, XII e nota ao n.º 613. (retorna ao texto)
(4) Ensinava Kardec - "O Espiritismo não admite, pois, como princípio absoluto senão o que está demonstrado com evidência, ou o que resulta logicamente da observação. Tocando todos os ramos da economia social, às quais empresta o apoio de suas próprias descobertas, ele assimilará sempre todas as doutrinas progressistas, de qualquer ordem que sejam, alcançado o estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria; em cessando de ser o que é, ele desmentiria a sua origem e o seu fim providencial." (La Genèse, cap. I:55) (retorna ao texto)
Autor: Deolindo Amorin (espírito)
Médium - Elzio Ferreira de Souza
Livro - Espiritismo em Movimento
Acho que ninguém tem dúvida da necessidade de fortalecer o pensamento espírita. Antes, porém, de pensar nisto ou em divulgá-lo, deve todo adepto sentir a necessidade de estabelecê-lo com firmeza e precisão para que não se espalhe e divulgue, como sendo espírita, aquilo que é apenas pensamento pessoal de um ou outro confrade, idéias que, se bem respeitáveis, não podem por si representar o pensamento doutrinário; não porque possam ser colocadas de lado como visceralmente errôneas, mas pelo fato de não terem ainda amadurecido suficientemente para que possam ser aceitas como fazendo parte do conteúdo doutrinário.
É esta falta de amadurecimento, ausência de reflexão, que produz a aceitação facilitada de toda idéia que surge no campo doutrinário, exposta por oradores, ou em livros e jornais, com completo esquecimento daquelas que constituem o pensamento da Doutrina, com enraizamento na codificação.
Por outro lado, existem companheiros que têm uma completa neofobia e rejeitam qualquer idéia que já não esteja sedimentada, esquecidos de que o Espiritismo não parou no tempo, nem pode paralisar-se, que ele tem de acompanhar o progresso das relações sociais, saber enfrentá-las e compreendê-las para ajustar ao seu pensamento, a fim de poder sobreviver aos desafios que os tempos hodiernos oferecem, sem o que correria o perigo de se ver ultrapassado, quando, sem dúvida, ele possui força suficiente para oferecer soluções certeiras, contanto que não se despreze a base doutrinária, que se a estude e compreenda.
Assim a questão não é citar Kardec, muitas vezes abusivamente, sem compreendê-lo suficientemente, para defender essa ou aquela idéia, ou para combater aqueloutra. O problema é de compreensão. Não se pode apenas amarrar um galho em uma árvore e pensar que se fez enxertia válida; por outro lado, realizar um enxerto exige cuidados para que a planta não morra e a árvore se revitalize. Uma idéia nova deve ser pensada, amadurecida, testada, antes que passe a fazer parte do contexto doutrinário, aceito. Até lá, é importante que as idéias sejam discutidas, sem afogadilho, cada um colaborando no seu exame, o que naturalmente não pode ser feito com paixões e interesses em jogo, uns e outros desconhecendo as lições já centenárias do mestre lionês. Sobretudo, se nos voltarmos para a história, veremos o método seguido por Allan Kardec no estabelecimento das bases doutrinárias, método ainda perfeitamente válido, apesar do tempo decorrido. Kardec não aceitou a própria explicação espírita do fenômeno que ele podia compreender, em face do seu conhecimento do magnetismo, sem antes experimentar, pensá-la com relação a outras possíveis soluções, a fim de buscar a causa mais simples e mais ampla na explicação das mesas que se moviam; procedeu prudentemente, e podemos acrescentar cientificamente, ao procurar uma causa que pudesse abranger a maior parte dos fenômenos (1). Mas, por outro lado, soube ver que nem todos eles procediam da comunicação dos chamados "mortos", e que, em determinados casos, certos indivíduos poderiam provoca-los sem auxílio, ao menos direto, dos Espíritos. Aí, já estamos no terreno do animismo, e Kardec soube reconhecê-lo, antecipando-se, portanto, às críticas dos que, posteriormente, como Hartmann, nele criam encontrar a explicação de toda a fenomenologia espírita (2). Tudo isso foi feito com tempo, amadurecendo as idéias no silêncio da noite, sem apressuramento, sabendo modifica-las e ajustá-las à realidade. Soube assim alterar seu próprio pensamento - refiro-me ao período Rivail -, mas com isto não aderiu a tudo o que os Espíritos trouxeram, fosse qual fosse o nome subscritor da mensagem, por mais respeitável tivesse sido esse nome na Terra, ou a honra que se lhe tributasse. Em O Livro dos Espíritos, colheu de toda a parte, pois lhe interessava saber aspectos reais da vida espírita, e não apenas como pensavam os anjos já desligados das duras fases de evolução no planeta(3). Não teve preferências mediúnicas; importava saber se a mensagem poderia suportar o exame do raciocínio, num momento em que a "dona razão" sofria de uma exacerbação, muito compreensível por sinal, por terem as religiões olvidado o respeito ao homem, impingindo-lhe certos posicionamentos fideístas que escorraçavam sua própria dignidade, tornando-o um joguete do fanatismo e da ortodoxia. A inquisição pode falar historicamente sobre isto.
Pois bem, o modo de proceder do mestre deve ser seguido. Para não alongar-me mais, devo dizer que, se o movimento espírita assim proceder, terá capacidade de absorver toda idéia nova qualquer que seja sua fonte científica ou filosófica, contanto que se mostre verdadeira, depois de convenientemente testada, sem que com isto desfiguremos a Doutrina, nem a tornemos obtusa e envelhecida, voltando as costas ao progresso (4).
Meio termo em tudo. Mas se posso recomendar algo é que as lições de Kardec possam ser estudadas com mais profundidade para que se possa reconhecer seu verdadeiro pensamento.
Texto extraído do livro Espiritismo em Movimento, psicografado pelo médium Elzio Ferreira de Souza, e publicado pelo Círculo Espírita da Oração de Salvador.
NOTAS DE ELZIO FERREIRA DE SOUZA
(1) vide Oeuvres Posthumes - "Minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 243 s. (retorna ao texto)
(2) Eduard Von Hartmann, um dos grandes filósofos do inconsciente ao lado de Carl Gustav Carus (1789-1869) e Arthur Schopenhauer (1788-1869), escreveu um livro intitulado O Espiritismo, publicado em 1885, em que procurou explicar os fenômenos mediúnicos com base no animismo. Alexander Aksakof replicou a tese em seu livro Animismo e Espiritismo (1890) , que foi traduzido para o português a partir da edição francesa e editado pela Federação Espírita Brasileira. Em 1869, Hartmann publicou sua famosa obra Filosofia do Inconsciente em que descreveu três estratos do inconsciente: "1) o inconsciente absoluto que constitui a substância do universo e a fonte das outras formas de inconciente; 2) o inconsciente fisiológico, que, do mesmo modo que o inconsciente de Carus, opera na origem, desenvolvimento e evolução dos seres vivos, incluindo o homem; 3) O inconsciente relativo ou psicológico, que jaz na origem de nossa vida mental consciente" (H. F. Ellenberger - El Descubrimiento del Inconsciente, p. 247).
Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, ainda que não se utilizasse do termo animismo, reportou-se aos casos de indivíduos capazes de produzir fenômenos de efeitos físicos ou intelectuais sem a intervenção de Espíritos - n.º 74, XX e n.º163 (pessoas elétricas, torpedos humanos); n.º 172 a 174 (sonâmbulos). Além de dedicar todo o capítulo XIX ao estudo da influência anímica do médium nas comunicações - "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas" (vide, sobretudo o n.º 223, 2.a, 3.a, 4.a e 5.a questões), ao estudar a influência moral do médium (cap. XX), referiu-se, no item n.º 230, às intervenções anímicas deste nas comunicações espirituais. Além disso, Kardec já recolhia ali o ensino dos Espíritos sobre a existência de visões que eram simples efeitos da imaginação, constituindo-se em verdadeiras alucinações sem base espiritual (n.º 113). O mesmo sobre alucinações sonoras (n.º 151). E, na Revista Espírita de maio de 1865, transcreveu uma mensagem do Espírito Georges, sob o título - "Estudo sobre a mediunidade", em que é feita a diferença entre os médiuns inspirados pelos fluidos espirituais e os que agem apenas sob o impulso do fluido corporal, fazendo, em seguida, considerações a respeito (p. 149-150).
António J. Freire (Ciência e Espiritismo, p. 155) relembrou que, já nos primórdios do Espiritismo, observadores e experimentadores, como Andrew Jackson Davis, em 1855, Metzger e outros, entre os quais o célebre médium intuitivo americano Hudson Tuttle, salientaram a origem humana de muitas mensagens.
Hudson Tuttle, um dos pioneiros da mediunidade e da literatura espírita nos Estados Unidos, em seu livro Mediumship and Its Laws, chamava, inclusive, a atenção sobre a participação anímica do médium na comunicação mediúnica; segundo as observações feitas, a comunicação obtida por cada médium tem um tom ou cor própria de cada um deles, como se fosse proveniente do seu cérebro, ou de um único controle (p. 44). "Quanto mais perfeitamente o caráter do médium concordar com o do Espírito, mais perfeitas serão as comunicações transmitidas. A eliminação da influência do médium exigiria o mais atento cuidado" (p.45).
Por sua vez, Léon Denis (No Invisível, p. 88 - 89) advertiu que a união de forças e vontade dos assistentes podia "ser suficiente para provocar efeitos físicos e mesmo fenômenos intelectuais, que vão logo sendo atribuídos à intervenção de personalidades invisíveis", sendo medida de prudência e de bom aviso "só admitir, por conseguinte, essa intervenção, quando estabelecida por fatos rigorosos'. Vide ainda p. 93 - 94. (retorna ao texto)
(3) "(...); segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado deste mundo, seus costumes, se assim se pode exprimir; eu vi logo que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvelava-me uma face, da mesma maneira que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando-se os habitantes de todas as classes e de todas as condições, cada um podendo ensinar-nos alguma coisa, e nenhum, individualmente, podendo ensinar-nos tudo; é ao observador que cabe formar o conjunto com a ajuda dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e conferidos uns com os outros" (Oeuvres Posthumes - "A minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 244). Vide também - Qu' est-ce que le Spiritisme ?: 2.º diálogo ("Diversidade dos Espíritos", p. 67-71); Revista Espírita, abril de 1866, p. 103 ("Da revelação"); Le Livre des Esprits, Introdução, n.º X, XII e nota ao n.º 613. (retorna ao texto)
(4) Ensinava Kardec - "O Espiritismo não admite, pois, como princípio absoluto senão o que está demonstrado com evidência, ou o que resulta logicamente da observação. Tocando todos os ramos da economia social, às quais empresta o apoio de suas próprias descobertas, ele assimilará sempre todas as doutrinas progressistas, de qualquer ordem que sejam, alcançado o estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria; em cessando de ser o que é, ele desmentiria a sua origem e o seu fim providencial." (La Genèse, cap. I:55) (retorna ao texto)
Balada de Um Feto
Elzio Ferreira de Souza
Foi um momento de gozo em pequeno
quarto escuro, a música romântica
inspirando paixões, causava arrepios.
Dentre em pouco, um novo ser
mergulhava no ventre, suspiranto
“Ma+mãe”.
O tempo avança. Sinais diferentes.
A gravidez se estabelece.
No claustro materno, o ser se regozija,
Está seguro e protegido.
Mas eis que vem a ordem “É necessário
expulsá-lo”.
Não tem a quem recorrer, não sabe o
que pensar, nem podia acreditar.
Sua voz não é ouvida, sua presença é
negada.
Corações endurecidos têm ouvidos
cerrados.
As mães dão a vida por seus filhos,
como chamar a quem deseja matá-lo?
Ao coração empedrado do pai, nem em
sonhos podia falar: preso estava às
contas e prazeres.
A escolha fora uma opção de amor.
No tempo, era preciso apagar as
mágoas do passado, eliminar tristezas,
linchar o ódio, fazer crescer a união
embalada na esperança.
Existiam milhões de ventres no mundo.
Reservatórios de vida e de luz, aquele
fora o eleito sem o aleatório lotérico nem
a casualidade da ocasião.
Agora era o dilema. E pensava:
“Por que Jesus nascera e Maria não o
abortara?
Que teria sido do mundo se ela o
rejeitasse?”
Podia escutar o pensamento da mãe por
dentro de si mesmo:
“Ele não era Jesus...”
E tinha em parte razão.
Mas para que mãe seu filho não é um
menino Jesus, carregado dia e noite,
quase de encontro ao peito?
Não é, por isso, que as mães adoram
seus filhos?
Ouvira uma idéia estranha, alguma coisa
tenebrosa:
“E se fosse um Hitler, um Mussolini, um
Átila...,
Não seria melhor que tivessem sido
abortados?
Estes são mais prováveis que Jesus”.
Não podia chorar porque ainda não tinha
lágrimas; o pequeno corte labial, no
entanto, abriu-se como num grito primal:
“Milhões destes tiranos não valem um
Jesus.
Eles foram abortos na evolução.
Quem os cria, senão o ódio, o rancor, o
egoísmo?
Quando se os implanta na cadeia da
vida, destruindo fetos, que se pode
esperar dos que renascem?
Teria sido seu corpo concebido num
momento de ódio?
Não ouvira juras de amor entre a
exaltação dos beijos?
Como poderiam qualificá-lo agora de o
Indesejado, se fora fruto do desejo?”
Enquanto pensava essas coisas, notou
que o fio da vida se esvaia, pouca coisa
poderia fazer.
Agarrar-se ao ventre, colar-se ao corpo
da que o expulsava, lutar, lutar, até tirarlhe
a vida e esperá-la de outro lado?
"Não”.
Outra vez, quis chorar, mas não pôde:
os que amam não destroem, e ele viera
em nome do amor.
Ele a marcaria apenas com o selo da
saudade (o que, por engano, chamam
de complexo de culpa): pelo resto da
vida, pensaria nele, sem saber quem
poderia ter sido: ‘um Beethoven, um
Mozart, um Einstein, ou um João
Ninguém, dissolvido, na multidão?’
Ah! Seria sempre “seu pequeno Jesus”
jogado no lixo. .
ÉLZIO FERREIRA DE SOUZA (Transcrito da Folha Espírita, de abril de 1999).
Foi um momento de gozo em pequeno
quarto escuro, a música romântica
inspirando paixões, causava arrepios.
Dentre em pouco, um novo ser
mergulhava no ventre, suspiranto
“Ma+mãe”.
O tempo avança. Sinais diferentes.
A gravidez se estabelece.
No claustro materno, o ser se regozija,
Está seguro e protegido.
Mas eis que vem a ordem “É necessário
expulsá-lo”.
Não tem a quem recorrer, não sabe o
que pensar, nem podia acreditar.
Sua voz não é ouvida, sua presença é
negada.
Corações endurecidos têm ouvidos
cerrados.
As mães dão a vida por seus filhos,
como chamar a quem deseja matá-lo?
Ao coração empedrado do pai, nem em
sonhos podia falar: preso estava às
contas e prazeres.
A escolha fora uma opção de amor.
No tempo, era preciso apagar as
mágoas do passado, eliminar tristezas,
linchar o ódio, fazer crescer a união
embalada na esperança.
Existiam milhões de ventres no mundo.
Reservatórios de vida e de luz, aquele
fora o eleito sem o aleatório lotérico nem
a casualidade da ocasião.
Agora era o dilema. E pensava:
“Por que Jesus nascera e Maria não o
abortara?
Que teria sido do mundo se ela o
rejeitasse?”
Podia escutar o pensamento da mãe por
dentro de si mesmo:
“Ele não era Jesus...”
E tinha em parte razão.
Mas para que mãe seu filho não é um
menino Jesus, carregado dia e noite,
quase de encontro ao peito?
Não é, por isso, que as mães adoram
seus filhos?
Ouvira uma idéia estranha, alguma coisa
tenebrosa:
“E se fosse um Hitler, um Mussolini, um
Átila...,
Não seria melhor que tivessem sido
abortados?
Estes são mais prováveis que Jesus”.
Não podia chorar porque ainda não tinha
lágrimas; o pequeno corte labial, no
entanto, abriu-se como num grito primal:
“Milhões destes tiranos não valem um
Jesus.
Eles foram abortos na evolução.
Quem os cria, senão o ódio, o rancor, o
egoísmo?
Quando se os implanta na cadeia da
vida, destruindo fetos, que se pode
esperar dos que renascem?
Teria sido seu corpo concebido num
momento de ódio?
Não ouvira juras de amor entre a
exaltação dos beijos?
Como poderiam qualificá-lo agora de o
Indesejado, se fora fruto do desejo?”
Enquanto pensava essas coisas, notou
que o fio da vida se esvaia, pouca coisa
poderia fazer.
Agarrar-se ao ventre, colar-se ao corpo
da que o expulsava, lutar, lutar, até tirarlhe
a vida e esperá-la de outro lado?
"Não”.
Outra vez, quis chorar, mas não pôde:
os que amam não destroem, e ele viera
em nome do amor.
Ele a marcaria apenas com o selo da
saudade (o que, por engano, chamam
de complexo de culpa): pelo resto da
vida, pensaria nele, sem saber quem
poderia ter sido: ‘um Beethoven, um
Mozart, um Einstein, ou um João
Ninguém, dissolvido, na multidão?’
Ah! Seria sempre “seu pequeno Jesus”
jogado no lixo. .
ÉLZIO FERREIRA DE SOUZA (Transcrito da Folha Espírita, de abril de 1999).
Filosofia Indiana e Filosofia Espírita
(Do Livro "Pérolas no Fio", do espírito Yogashririshinam, médium Elzio Ferreira de Souza - Círculo Espírita da Oração. Corresponde a um cápitulo escrito pelo médium como comentário complementar aos textos do autor espiritual)
O termo correspondente a filosofia, em sânscrito, é darshana - "visão direta". A filosofia indiana possui características próprias; ela não se assemelha à moderna filosofia ocidental dominada pela especulação intelectual e pela preocupação informativa. Encontra-se mais próxima dos filósofos da antiguidade (Pitágoras, Platão, Aristóteles, Plotino, etc...) e dos filosofos católicos medievais no que diz respeito ao amor à visão da verdade e à integração das idéias numa estrutura singular, as quais, geralmente, se encontram compartimentalizadas no ocidente (os diversos ramos da filosofia, psicologia, sociologia, fisiologia, física, etc...). Ela fornece a base fundamental para os estudos especializados e a orientação da vida. Sua preocupação fundamental é a transformação do ser; disto decorre a existência de dois aspectos complementares entre si - o teórico e o prático.
Como escreve Tigunait (Pandit Rajmani Tigunati - Seven Systems of Indian Philosophy, 1983), "conhecimento teórico que não tem aplicação na vida diária não é de modo algum filosofia, mas, apenas, mera especulação metafísica". Os sistemas filosóficos da Índia objetivam traçar roteiros para conduzir o aspirante ao conhecimento da Realidade Última. Um ponto de vista idêntico encontramos na afirmativa de Jesus - "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo. 8:32); aí se afirma:
O sujeito cognoscente;
A Possibilidade do Conhecimento;
O Objeto do Conhecimento;
A Conseqüência da obtenção do Conhecimento;
Isso não quer dizer que a filosofia ocidental não esteja na busca permanente da verdade última, mas, como diz Reale (Miguel Reale, Introdução à Filosofia, 1988), "trata-se, porém, mais de uma inclinação ou orientação perene para a verdade última que a posse da verdade plena". A filosofia persegue, ao contrário, a posse desta verdade; portanto a finalidade essencial de sua pesquisa não pode ser meramente especulativa, como ocorre no ocidente.
A conversão do pensamento em ação com vistas à libertação do indivíduo informa a meta do filosofar, por isto, enquanto a filosofia, no ocidente, se limita a enriquecer-se com os dados que lhe vão sendo fornecidos pelas ciências, reformulando suas concepcões, na Índia as experiências são realizadas no próprio ser, sobretudo pela prática do Yoga, testando-se ao vivo as assertivas tradicionais e conduzindo o homem, através desta singular experimentação, a uma maior compreensão de sua origem e destino.
Os sistemas filosóficos indianos constumam, tradicionalmente, ser divididos em dois grandes grupos, com base na aceitação, ou não, da autoridade dos Vedas. Os que a aceitam são denominados de ortodoxos, e entre estes se contam os que acreditam em Deus como criador e aqueles que rejeitam um criador do mundo, como os sistemas Mimansa e Samkhya. Os principais sistemas ortodoxos, além dos dois já referidos, são Vedanta, Yoga, Nyaya e Vaisheshika. Entre as escolas heterodoxas, as principais são Charvaka, Jaina e Bauddha (Budismo). Outras divisões são possíveis - sistemas monistas e dualistas; teístas e ateístas.
A Filosofia Espírita tem traços coincidentes com a orientação da Filosofia Indiana. O saber espírita está direcionado à visão da verdade e à aplicação na vida prática dos pontos de vista teóricos, tendo sempre como preocupação fundamental a transformação do homem, e não a mera especulação. Por outro lado, a consideração de um aspecto prático na filosofia esvazia qualquer discussão sobre religião espírita, decorrente ela própria do conceito de religião, ligada sociológica e historicamente a dogmas, rituais, sacerdócio e hierarquia. A depuração filosófica do conceito é possível (Kardec, O Espiritismo é uma religião ?) . Kardec rejeita uma declaração do Espiritismo como religião por dois motivos:
"não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes";
"na opinião geral, religião é inseparável de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma que o Espiritismo não tem";
Mas não se pode olvidar que a dificuldade não se encontra tão só no vocábulo religião; o termo ciência, por exemplo, pode ser empregado num sentido lato, abrangendo a filosofia, ou num sentido restrito, excluindo-a. E, no entanto, Kardec o utiliza no sentido amplo ao dar o conceito de Espiritismo (Kardec, Qu'est-ce que le Spiritisme ?). Ainda mais, no curso da história as palavras tem adquirido novos significados, às vezes em contradição com o próprio sentido etimológico. Apesar de todo o cuidado de Kardec, não colocou ele de lado palavras como alma e anjo, expressões empregadas pelas religiões tradicionais .
Uma coisa, no entanto, é certa: mesmo aqueles que negam o aspecto religioso do Espiritismo concordam com suas conseqüências morais e a necessidade da vivência dos postulados aceitos, e nisto reside realmente o que importa (Conf. Kardec, Le Livre des Esprits - Conclusão IX).
Não se deve olvidar, entretanto, que os problemas encarados pelo saber espírita deverão ser submetidos a aproximações complexas, seja metafísica, etíca, epistemológica, sociológica, psicológica, física, etc., numa visão holística, idêntica àquela perspectiva sintetizadora, no dizer de Sir B. N. Seal, entre outros, inerente à filosofia indiana (Chatterjee and Datta, 1984); não podem, por isto, serem dissecados em compartimentos estanques para apreciações científicas, filosóficas e religiosas, desprezada a perspectiva globalizante essencial à própria Doutrina. Vide Kardec, La Genèse - I, 18; O que ensina o Espiritismo (Revista Espírita, 1865), p. 224; Crônica de Bruxelas (Revista Espírita, 1866), p. 266; Le Livre des Médiums, n.os 13 e 18; Le Livre des Esprits, Int. n.o XIII.
Finalmente, consignemos, aqui, uma série de princípios fundamentais que são comuns à Filosofia Espírita e à hindu:
Unidade Divina.
Existência dos Espíritos como seres individuais e imortalizáveis.
Concepção múltipla do Homem.
Evolução em todos os planos da Natureza.
Progressividade dos Espíritos.
Reencarnação.
Responsabilidade individual e coletiva.
Lei de causa e efeito.
Pluralidade dos mundos habitados.
Comunicabilidade entre os Espíritos encarnados e desencarnados, e entre encarnados, por meios extra-sensórios.
É certo que o Espiritismo, pela sua própria origem, oferece um destaque todo especial em relação à fenomenologia mediúnica, mas não podemos olvidar que:
o hinduismo é também rico de expressões fenomênicas;
"as manifestações vêem corroborar, a confirmar, mas elas não são a base essencial" da doutrina (Kardec, Le Livre des Médiums, n.o 32).
(Publicado no Boletim GEAE Número 394 de 27 de junho de 2000)
O termo correspondente a filosofia, em sânscrito, é darshana - "visão direta". A filosofia indiana possui características próprias; ela não se assemelha à moderna filosofia ocidental dominada pela especulação intelectual e pela preocupação informativa. Encontra-se mais próxima dos filósofos da antiguidade (Pitágoras, Platão, Aristóteles, Plotino, etc...) e dos filosofos católicos medievais no que diz respeito ao amor à visão da verdade e à integração das idéias numa estrutura singular, as quais, geralmente, se encontram compartimentalizadas no ocidente (os diversos ramos da filosofia, psicologia, sociologia, fisiologia, física, etc...). Ela fornece a base fundamental para os estudos especializados e a orientação da vida. Sua preocupação fundamental é a transformação do ser; disto decorre a existência de dois aspectos complementares entre si - o teórico e o prático.
Como escreve Tigunait (Pandit Rajmani Tigunati - Seven Systems of Indian Philosophy, 1983), "conhecimento teórico que não tem aplicação na vida diária não é de modo algum filosofia, mas, apenas, mera especulação metafísica". Os sistemas filosóficos da Índia objetivam traçar roteiros para conduzir o aspirante ao conhecimento da Realidade Última. Um ponto de vista idêntico encontramos na afirmativa de Jesus - "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo. 8:32); aí se afirma:
O sujeito cognoscente;
A Possibilidade do Conhecimento;
O Objeto do Conhecimento;
A Conseqüência da obtenção do Conhecimento;
Isso não quer dizer que a filosofia ocidental não esteja na busca permanente da verdade última, mas, como diz Reale (Miguel Reale, Introdução à Filosofia, 1988), "trata-se, porém, mais de uma inclinação ou orientação perene para a verdade última que a posse da verdade plena". A filosofia persegue, ao contrário, a posse desta verdade; portanto a finalidade essencial de sua pesquisa não pode ser meramente especulativa, como ocorre no ocidente.
A conversão do pensamento em ação com vistas à libertação do indivíduo informa a meta do filosofar, por isto, enquanto a filosofia, no ocidente, se limita a enriquecer-se com os dados que lhe vão sendo fornecidos pelas ciências, reformulando suas concepcões, na Índia as experiências são realizadas no próprio ser, sobretudo pela prática do Yoga, testando-se ao vivo as assertivas tradicionais e conduzindo o homem, através desta singular experimentação, a uma maior compreensão de sua origem e destino.
Os sistemas filosóficos indianos constumam, tradicionalmente, ser divididos em dois grandes grupos, com base na aceitação, ou não, da autoridade dos Vedas. Os que a aceitam são denominados de ortodoxos, e entre estes se contam os que acreditam em Deus como criador e aqueles que rejeitam um criador do mundo, como os sistemas Mimansa e Samkhya. Os principais sistemas ortodoxos, além dos dois já referidos, são Vedanta, Yoga, Nyaya e Vaisheshika. Entre as escolas heterodoxas, as principais são Charvaka, Jaina e Bauddha (Budismo). Outras divisões são possíveis - sistemas monistas e dualistas; teístas e ateístas.
A Filosofia Espírita tem traços coincidentes com a orientação da Filosofia Indiana. O saber espírita está direcionado à visão da verdade e à aplicação na vida prática dos pontos de vista teóricos, tendo sempre como preocupação fundamental a transformação do homem, e não a mera especulação. Por outro lado, a consideração de um aspecto prático na filosofia esvazia qualquer discussão sobre religião espírita, decorrente ela própria do conceito de religião, ligada sociológica e historicamente a dogmas, rituais, sacerdócio e hierarquia. A depuração filosófica do conceito é possível (Kardec, O Espiritismo é uma religião ?) . Kardec rejeita uma declaração do Espiritismo como religião por dois motivos:
"não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes";
"na opinião geral, religião é inseparável de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma que o Espiritismo não tem";
Mas não se pode olvidar que a dificuldade não se encontra tão só no vocábulo religião; o termo ciência, por exemplo, pode ser empregado num sentido lato, abrangendo a filosofia, ou num sentido restrito, excluindo-a. E, no entanto, Kardec o utiliza no sentido amplo ao dar o conceito de Espiritismo (Kardec, Qu'est-ce que le Spiritisme ?). Ainda mais, no curso da história as palavras tem adquirido novos significados, às vezes em contradição com o próprio sentido etimológico. Apesar de todo o cuidado de Kardec, não colocou ele de lado palavras como alma e anjo, expressões empregadas pelas religiões tradicionais .
Uma coisa, no entanto, é certa: mesmo aqueles que negam o aspecto religioso do Espiritismo concordam com suas conseqüências morais e a necessidade da vivência dos postulados aceitos, e nisto reside realmente o que importa (Conf. Kardec, Le Livre des Esprits - Conclusão IX).
Não se deve olvidar, entretanto, que os problemas encarados pelo saber espírita deverão ser submetidos a aproximações complexas, seja metafísica, etíca, epistemológica, sociológica, psicológica, física, etc., numa visão holística, idêntica àquela perspectiva sintetizadora, no dizer de Sir B. N. Seal, entre outros, inerente à filosofia indiana (Chatterjee and Datta, 1984); não podem, por isto, serem dissecados em compartimentos estanques para apreciações científicas, filosóficas e religiosas, desprezada a perspectiva globalizante essencial à própria Doutrina. Vide Kardec, La Genèse - I, 18; O que ensina o Espiritismo (Revista Espírita, 1865), p. 224; Crônica de Bruxelas (Revista Espírita, 1866), p. 266; Le Livre des Médiums, n.os 13 e 18; Le Livre des Esprits, Int. n.o XIII.
Finalmente, consignemos, aqui, uma série de princípios fundamentais que são comuns à Filosofia Espírita e à hindu:
Unidade Divina.
Existência dos Espíritos como seres individuais e imortalizáveis.
Concepção múltipla do Homem.
Evolução em todos os planos da Natureza.
Progressividade dos Espíritos.
Reencarnação.
Responsabilidade individual e coletiva.
Lei de causa e efeito.
Pluralidade dos mundos habitados.
Comunicabilidade entre os Espíritos encarnados e desencarnados, e entre encarnados, por meios extra-sensórios.
É certo que o Espiritismo, pela sua própria origem, oferece um destaque todo especial em relação à fenomenologia mediúnica, mas não podemos olvidar que:
o hinduismo é também rico de expressões fenomênicas;
"as manifestações vêem corroborar, a confirmar, mas elas não são a base essencial" da doutrina (Kardec, Le Livre des Médiums, n.o 32).
(Publicado no Boletim GEAE Número 394 de 27 de junho de 2000)
Charles Richet
http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/S_autores/SOUZA_Elzio_Ferreira_de_tit_Charles_Richet.pdf
Elzio Ferreira de Souza
Charles Richet
Afirmam alguns que Richet acabou por negar os postulados espíritas, após 20 anos
de pesquisas. Isso é falso. Sobre xenoglossia, em que o médium fala línguas
desconhecidas, afirmou em "A Grande Esperança", que "decididamente a explicação
espírita é a mais aceitável". Provavelmente, ele não tenha assumido uma posição
mais inequívoca de apoio as verdades do Espiritismo pelo receio de se expor as
"zombarias de seus colegas e ao sarcasmo dos ignorantes", conforme ele próprio
escreveu.
E escreveu também em "A Grande Esperança": "Certos fatos singulares pareciam
provar que, fora de toda ideoplastia, há talvez seres (como anjos) que aparecem,
em certas condições. Bozzano reuniu casos emocionantes de aparições de
defuntos no leito de morte. Apresentou 61 casos, cada qual mais curioso que o
outro. E contudo os moribundos não eram médiuns. Sem dúvida, devemos supor
que, no momento da morte, os moribundos tem um poder , senão de evocação, pelo
menos de visão" (pg. 192).
"Entre essas aparições de fantasmas há algumas notáveis que são, quando quem
as vê é uma criança. Posso citar dois casos admiráveis, que parecem copiados , de
tal forma idênticos. Um é o de uma criança americana, o outro o de uma menina
francesa. Rey, com idade de 2 anos e 7 meses, vê seu irmãozinho que acabara de
morrer e que o chamava. "Mamãe", diz ele, "o irmãozinho sorriu para Rey, ele quer
levá-lo". O pequeno Rey morreu dois meses depois.
O caso da menina francesa também é maravilhoso. Tinha ela 3 anos e 3 meses.
Um mês após a morte de uma tia que a adorava, ela ia a janela, olhava fixamente e
dizia: "Mamãe, olhe lá a tia Lili que me chama"; e isso se repetiu muitas vezes. Três
meses depois a pequena adoeceu e, durante a enfermidade, dizia: "Não chore,
mamãe, a tia Lili está me chamando. Como é bonito! Há anjos com ela" A pobre
criança morreu quatro meses depois da sua tia.
Devo apelar a todo meu racionalismo, pois me parece impossível negar que no
momento da morte, anunciando essa morte, haja seres sobrenaturais, fantasmas,
tendo alguma realidade objetiva, que estejam presentes, embora só sejam
divisados por uma criança. Mas não é absurdo supor que as crianças, numa
espécie de transe (agônico, espiritico, se quiserem) possam divisar seres que os
outros assistentes não vêem".
Qualquer que seja a audácia dessa afirmação, da existência de anjos e
desencanados, é impossível, em certos casos, não admiti-la, como, por exemplo,
quando crianças (o pequeno Rey e a pequena francesa) vêem (algumas semanas
antes de morrer) lindas senhoras que as chamam; quando fantasmas erram em
casas assombradas, principalmente quando George Pelham, com milhares de
recordações de sua vida passada, volta na Sra. Piper, etc, etc... Então, a explicação
espírita é a mais racional, ouso dizer. (...) há muitos fenômenos absurdos, porém
incontestáveis e conquanto a ciência oficial ainda não os receba em seu seio zeloso,
não há dúvida que daqui a alguns anos dará lugar ao inabitual, criptestesias,
telepatias, telecinesias, assombrações, fantasmas materializados, xenoglossias,
premonições. Tudo isto está bem autenticado e deve-se reconhecer que o inabitual
existe"
E suas refutações demonstram materialismo e pouco conhecimento sobre ciência
espírita:
"Jamais os espíritos puderam provar que sabem qualquer coisa. Nenhuma
descoberta inesperada tem sido indicada, nenhuma revelação tem sido feita...
nenhuma parcela da ciência futura tem sido suspeitada." (...) "Mostra-nos eles
poetas que não sabem poesia ; filósofos que não conhecem a filosofia ; padres que
não conhecem a religião". (Tratado de Metapsíquica, I, p. 122).
Cabe ao homem progredir em conhecimento pelos seus próprios esforços, embora
jamais lhe falte o auxilio da Espiritualidade, através da inspiração e da facilitação dos
meios.
Disse ainda: "A Senhora Vickman vê o fantasma de um oficial que acaba de morrer.
Será, então, mais simples admitir a teoria espírita de um corpo astral, e contudo, se
rigorosamente se pode admitir que a memória dos defuntos persiste, será realmente
admissível que o corpo de um indivíduo, após alguns dias, muitas semanas ou
meses, depois que a putrefação o desorganizou completamente, possa reaparecer
ainda?"
Ora, isso não passa de uma concessão ao materialismo então vigente.
Questionou ainda como se manifestaria um individuo desencarnado aos 90 anos, se
como criança, adulto ou ancião.
Richet esbarrou em tremenda oposição, tanto dos cientistas, que em sua maioria se
recusaram a investigar fenômenos, quanto ao clero de todas as igrejas, cujos
próceres alegaram, como o fazem ainda hoje, que "o campo da ciência é um e o da
religião é outro". Todos receosos de verem abaladas as suas convicções... Mas o
grande cientista cumpriu sua missão, trazendo os fatos psíquicos para o âmbito da
Ciência e procurando explicações racionais para fenômenos até então relegados ao
terreno da superstição e da magia. Posteriormente, em carta ao escritor Ernesto
Bozzano, Richet admitia finalmente que aceitava plenamente os postulados
espíritas.
=============
Prefácio de Elzio Ferreira de Souza para "No Limiar do Mistério", de Charles
Richet :
"CHARLES RICHET E O ESPIRITISMO
De quando em quando, discute-se a posição real do sábio fisiologista e
metapsiquista francês diante da hipótese espírita. É que os autores, muita vez, ficam
no Tratado de Metapsiquica, publicado pela primeira vez em 1912, citando trechos,
esquecendo outros. Por outro lado, o Prof. Richet oscilou durante muito tempo pelo
caminho da investigação em busca de uma hipótese que pudesse explicar os
fenômenos desconcertantes que estudava. Assim, em sua vida partiu dos fatos,
porque, como dizia, a hipótese do futuro, não a podia ele formular, por desconhecê-
la (vide - Sergio Valle - Silva Mello e Seus Mistérios, Lake, pg 396), procurando
ajustá-los a uma teoria, inicialmente a do conhecimento do real e depois a das
vibrações do éter, chamadas a dar explicação de um conjunto de fenômenos que
realmente não se adaptam as mesmas. Assim, em sua conferência de 1925, ao
despedir-se da Faculdade de Medicina de Paris, ainda se mostrava infenso a
Doutrina Espírita, "provisoriamente, pelo menos" (Carlos Imbassahy, Ciência
Metapsíquica, pg 42). Quando preparou A Grande Esperança, escreveu a Bozzano
que aceitara de muito a teoria espírita, para confessar que - "O titulo do meu livro - A
Grande Esperança - indica assaz nitidamente que pouco a pouco eu me aproximo
de vossas idéias..." (in Sergio Vale, op. Cit. Pg 398).
O preconceito cientifico, a necessidade de teorização complicada, que, quanto mais
difícil de ser entendida mais a torna aceitável, fizeram com que ele completasse o
trecho acima, afirmando - "Todavia eu não creio no Espiritismo segundo as formulas
infantis de Allan Kardec ou de Conan Doyle..."
Mas como descreve Sergio Valle -
"Tais formulas infantis, resultantes da aceitação da sobrevivência, não devem ser
debitadas aos seus codificadores. Se há infantilidade nelas, a culpa é do espírito
humano, que não ascende, automaticamente, a sabedoria e a moralidade, ao perder
o corpo físico. O contrario, alias, é que seria absurdo. As formulas infantis eram tais
porque simples. Essa simplicidade da teoria espírita perturbava o prof. Richet. Tanto
que, ao criticar a teoria aceita por Allan Kardec, teve que desvirtuar o pensamento
do mestre lionês para encontrar um ponto fraco - "Toda a construção do sistema
filosófico de Allan Kardec (que é aquela mesma do Espiritismo) tem por base esta
brilhante hipótese de que os médiuns, nos quais se diz que os espíritos estão
incorporados, não se enganam nunca, e que as escritas automáticas nos revelam
verdades que é necessário aceitar, a não ser que se esteja influenciado por maus
espíritos" (Tratado de Metapsíquica, tomo I, Lake).
É preciso não ter lido a obra kardecista, ou estar imbuído de desejo de encontrar
um erro para assiná-lo e com isto rejeitar a teoria espírita. A segunda hipótese
parece verdadeira. A leitura da Introdução de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos
Médiuns demonstra o cuidado que teve Allan Kardec em chamar a atenção para
tais problemas. Na Revista Espírita de maio de 1865, Allan Kardec reproduziu uma
mensagem do Espírito de Georges sobre a mediunidade, em que se encontrava,
com todas as letras, a advertência para os automatismos de escrita -
"Jamais se devem atribuir aos Espíritos, e refiro-me aos Espíritos elevados, esses
ditados sem fundo nem forma que aliam a sua nulidade o ridículo de serem
assinados por nomes ilustres. A medianimidade séria só investe cérebros providos
de uma instrução suficiente ou, pelo menos, provados pelas lutas passionais. Os
melhores médiuns são os únicos a receber o afluxo espiritual; os outros sofrem
apenas o impulso fluídico material, que lhes arrasta as mãos, sem fazer produzir a
sua inteligência outra coisa senão o que esta contém em estado latente".
"Tento aqui estabelecer a diferença que existe entre os médiuns inspirados pelos
fluidos espirituais e os que agem apenas sob o impulso do fluido corporal, isto é, os
que vibram intelectualmente e aqueles cuja ressonância física só conduz a produção
confusa e inconsciente de suas próprias idéias, ou de idéias vulgares e sem
elevação" (Revista Espírita - 1865, trad. De Julio Abreu Filho - Ediceu, 1966, pgs
149 e sg.)
E comentando a referida comunicação, Allan Kardec acrescentou de modo claro -
"Posto que o estudo dessa parte integrante do Espiritismo esteja longe de ser
completo, já estamos longe do tempo em que se acreditava que bastasse receber
um impulso mecânico para se dizer médium, e crer-se apto para receber
comunicações de todos os espíritos" (idem, pg. 150).
Como adverte Antonio J. Freire, a teoria do automatismo psicológico de Janet data
de 1889, portanto, muito posterior as observações de Allan Kardec e dos próprios
espíritos sobre o automatismo e o subconsciente. Nos primórdios do Espiritismo,
Jackson Davis (1855), Metzger, etc, salientaram com anterioridade também as
causas determinantes da escrita automática, sendo que o médium norte americano
Hudson Tuttle, nos meados do século passado, insistia sobre a origem humana de
muitas mensagens (Antonio J. Freire, Ciência e Espiritismo, FEB, pgs 153 e 155).
Depois de mostrar a sem razão da crítica, verifiquemos como Charles Richet via o
trabalho de Allan Kardec - "É necessário admirar sem reserva a energia intelectual
de Allan Kardec. Não obstante a sua credulidade exagerada, tem fé na
experimentação. É sempre na experimentação que se apóia, de maneira que a sua
obra não é apenas uma teoria grandiosa e homogênea, mas também um imponente
repositório de fatos" (op. Cit. Pg. 54)
Por ai vemos que, desprezada aquela expressão credulidade exagerada, que se
ligava a crítica que acabamos de refutar, poder-se-ia entender que as teorias
infantis, a que ele aludia, eram mais uma referência a simplicidade (Jesus já havia
assinalado que é dos simples o Reino dos Céus). E tanto assim era, que Richet
também não deixou de reconhecer o trabalho de desbravador e pioneiro do mestre
lionês - "Da mesma maneira é Allan Kardec certamente o homem que, no período
de 1847 a 1871, exerceu a mais intensa das influências, abrindo um rasgo profundo
na ciência Metapsíquica (op. Cit. Pg 54)
A delimitação é, porém, errônea quanto aos anos, se tivermos em conta que, hoje,
no Brasil, a teoria codificada por Allan Kardec encontra a mais ampla e alentadora
aceitação, de modo que fez Andre Moreil abrir suas vistas para o coração imenso do
mundo, conclamando os espíritas de toda a parte a seguirem o exemplo do pais sulamericano
(Vida e Obra de Allan Kardec, trad. De Miguel Mallet, Edicel, pg 241). O
reconhecimento de Richet prendeu-se ao fato de que os fenômenos rotulados de
metapsíquicos eram aqueles que, com anterioridade, estavam sendo estudados pela
Ciência Espírita. Mas a luta do prof. Richet consigo mesmo nunca parou. Por isso,
ao receber o livro A Vida no Outro Mundo, que o nosso Cairbar Schutel lhe enviara,
agradeceu com palavras que são uma demonstração de sua inclinação depois de
tantos estudos - "Obrigado, caro senhor, de vosso livro. Como vos tendes razão de
estudar o mistério da morte e da Metapsíquica. A morte é a porta da vida." (Salvador
Gentile, Documentos Espíritas in Anuário Espírita, 1965, IDE, pg. 172).
Mais tarde foi ao grande amigo Bozzano que fez sua confissão através da carta, na
qual registrou em sua parte superior - Confidencial. Oferecendo o seu livro Au
Secours, o prof Richet colocou a seguinte dedicatória - "A meu sábio e valente
amigo E. Bozzano, com toda crescente simpatia". A palavra crescente viera grifada
e, por isso, Bozzano escreveu ao amigo sobre o assunto, pois achava existir mais
importância teórica do que apreciação pessoal, expressando-lhe, com certa timidez,
a esperança que tal palavra despertara em seu coração. Em resposta, recebeu a
carta com o Confidencial - "Meu caro e eminente colega e amigo: Sou inteiramente
do seu parecer: não creio, com efeito, na explicação simplista segundo a qual os
acontecimentos de nossa existência e a direção de nossa vida são provocados
exclusivamente pelo acaso, embora não seja possível apresentar prova nesse
sentido. O Fado existe, o que equivale a dizer: uma Força que nos guia e conduz
aonde bem lhe pareça, por vias indiretas, tortuosas e muitas vezes bizarras. E,
também, fora da direção da vida, há coincidências tão estonteantes que é bem
difícil não se veja a obra de uma intencionalidade. ( De quem?... De que...?)
"E agora abro-me a você de modo absolutamente confidencial. O que você supunha
é verdade. Aquilo que não alcançaram Myers, Hodgson, Hyslop e Sir Oliver Lodge,
obteve-o você por meio de suas magistrais monografias, que sempre li com religiosa
atenção. Elas contrastam, estranhamente, com as teorias obscuras que atravancam
a nossa ciência. "Creia, peco-lhe, nos meus integrais sentimentos de simpatia e
gratidão" (in Sergio Valle, op. Cit. Pg. 399 e sg. - O jornal londrino Psychic News, de
30 de maio de 1936, publicou as circunstâncias do fato).
O prof. Richet devia temer profundamente o escárnio dos seus colegas materialistas,
e assim, na confissão final, preferiu um amigo e recomendou - Confidencial.
Anteriormente, já em 1927, o seu receio começara a desaparecer, tanto que já
conseguira responder a revista francesa Comedia. - "Respondo-vos com absoluta
franqueza. As vezes creio. As vezes (mais comumente), não creio. Como pode um
fisiologista supor que haja sobrevivência da consciência sem o cérebro? Igualmente,
como negar os fatos chamados espíritas e a hipótese explicativa mais simples do
que qualquer outra?" (in Sergio Valle, op. Cit. Pg. 398)
Neste mesmo ano apareceu em Portugal um romance de sua autoria de pequena
tiragem - A Porta do Mistério, nesta edição brasileira intitulado No Limiar do Mistério,
baseado na Doutrina Espírita, inclusive na lei das vidas sucessivas. No entanto,
somente em 1934 saiu a edição francesa do mesmo livro (Au Seuil du Mystere). O
seu ultimo livro, que provocou a confissão (Au Secours), foi publicado em 1936.
Afinal, ainda que de modo confidencial escancara a porta do mistério, que lutara
tanto tempo para franquear. Interessante, porém, parece-nos concluir estas linhas
com uma noticia mais detalhada sobre o referido romance, pois dar-nos-á uma
melhor compreensão do pensamento do prof. Richet, ainda que, no passo, tenha
preferido a forma romanceada, que não feriria tanto os espíritos encastelados no
academicismo pedantesco. Assim se refere Antonio J. Freire no livro "Da Evolução
do Espiritismo" (Federação Espírita Portuguesa, 1952, pgs 38 a 40) sobre o assunto.
-
"Parece-nos digno de registro um fato invulgar, passado aqui em Portugal, relativo
ao insigne prof. Charles Richet, que, sob o pseudônimo de Charles Epheyre, foi
considerado, por unanimidade da critica francesa, um primoroso poeta, romancista e
escritor teatral. "Trata-se do romance - A Porta do Mistério - que teve a prioridade de
ser traduzido em português anteriormente a sua publicação em francês, em volta de
1927. Fato pouco conhecido em Portugal. "A tradutora foi a consagrada e ilustre
escritora, Senhora D. Virginia de Castro e Almeida, que, certamente, só pelo seu
privilegio e boas relações com o prof. Richet poderia ter conseguido tão invulgar e
honroso privilégio. "O romance é baseado nos princípios que regem o Espiritismo,
particularmente no Reencarnacionismo, nas vidas sucessivas, coluna básica em que
assenta e se desenrola o dinamismo ascendente da Evolução em todos os seus
complexos aspectos físicos, morais e espirituais, desde o mineral ao homem, para
depois surgir a super-humanidade, pois a evolução não tem limites. Deus é
inatingível. Transcrevemos a apreciação do jornal de Lisboa - Diário de Notícias: "A
Porta do Mistério", ditado pela Livraria J. Rodrigues, de Lisboa, é um romance
vasado nas teorias do Espiritismo, que tanto desenvolvimento tem tomado nos
últimos tempos, duma ação empolgante e de rara originalidade e audácia, que
prende a atenção do leitor desde a primeira linha, não lhe permitindo que interrompa
essa leitura. Tem lances da mais alta vibração dramática, descritos num estilo
sóbrio e preciso, mas da maior elegância e fluidez, terminando com uma cena
trágica passada na grande guerra. "O notável fisiologista, prof. Charles Richet,
afirma neste trabalho, mais uma vez., que seus estudos científicos não lhe
estancaram a veia da inspiração e da imaginação.
"Num breve prólogo, o prof. Charles Richet refere-se as teorias espíritas em que
seu romance foi inspirado. A Sra. D. Virginia e Almeida escreve também um
prefácio em que traça com emoção o perfil do autor do romance."
Infelizmente, as nossas academias parecem desconhecer, não só a evolução do
pensamento, mas até o trabalho do magistral professor sobre os fenômenos
espíritas, ainda que Moniz Sodre, em sua clássica obra As Três Escolas Penais,
tenha feito um resumo dos mesmos segundo classificação adotada no "Tratado de
Metapsíquica " *(nota de rodapé: Vide- As Três Escolas Penais, Livraria Freitas
Bastos S.A, 1952. Pgs 53 a 55)
Elzio Ferreira de Souza.
--------
Um trecho do prefácio de Richet:
"Este livro é apenas uma ficção, não é uma história verdadeira. Escrevendo-o
compus uma obra de fantasia. E não quero que, um instante sequer, o leitor possa
imaginar que se trata aqui de uma história autêntica. Mas, apesar disso... Apesar
disso... Os estranhos fenômenos encontrados nessa narrativa estão em rigorosa
conformidade com certos fenômenos verdadeiros. Vivemos em uma época em que
o oculto se tornou científico, o sobrenatural natural, e em que os mistérios do além
são revelados nos laboratórios."
Além da Reencarnação, há no livro, segundo texto na capa, "fenômenos como a
projeção astral, clarividência, premonição, efeitos físicos, visões no leito de morte,
pneumatografia e muitos outros..."
Elzio Ferreira de Souza
Charles Richet
Afirmam alguns que Richet acabou por negar os postulados espíritas, após 20 anos
de pesquisas. Isso é falso. Sobre xenoglossia, em que o médium fala línguas
desconhecidas, afirmou em "A Grande Esperança", que "decididamente a explicação
espírita é a mais aceitável". Provavelmente, ele não tenha assumido uma posição
mais inequívoca de apoio as verdades do Espiritismo pelo receio de se expor as
"zombarias de seus colegas e ao sarcasmo dos ignorantes", conforme ele próprio
escreveu.
E escreveu também em "A Grande Esperança": "Certos fatos singulares pareciam
provar que, fora de toda ideoplastia, há talvez seres (como anjos) que aparecem,
em certas condições. Bozzano reuniu casos emocionantes de aparições de
defuntos no leito de morte. Apresentou 61 casos, cada qual mais curioso que o
outro. E contudo os moribundos não eram médiuns. Sem dúvida, devemos supor
que, no momento da morte, os moribundos tem um poder , senão de evocação, pelo
menos de visão" (pg. 192).
"Entre essas aparições de fantasmas há algumas notáveis que são, quando quem
as vê é uma criança. Posso citar dois casos admiráveis, que parecem copiados , de
tal forma idênticos. Um é o de uma criança americana, o outro o de uma menina
francesa. Rey, com idade de 2 anos e 7 meses, vê seu irmãozinho que acabara de
morrer e que o chamava. "Mamãe", diz ele, "o irmãozinho sorriu para Rey, ele quer
levá-lo". O pequeno Rey morreu dois meses depois.
O caso da menina francesa também é maravilhoso. Tinha ela 3 anos e 3 meses.
Um mês após a morte de uma tia que a adorava, ela ia a janela, olhava fixamente e
dizia: "Mamãe, olhe lá a tia Lili que me chama"; e isso se repetiu muitas vezes. Três
meses depois a pequena adoeceu e, durante a enfermidade, dizia: "Não chore,
mamãe, a tia Lili está me chamando. Como é bonito! Há anjos com ela" A pobre
criança morreu quatro meses depois da sua tia.
Devo apelar a todo meu racionalismo, pois me parece impossível negar que no
momento da morte, anunciando essa morte, haja seres sobrenaturais, fantasmas,
tendo alguma realidade objetiva, que estejam presentes, embora só sejam
divisados por uma criança. Mas não é absurdo supor que as crianças, numa
espécie de transe (agônico, espiritico, se quiserem) possam divisar seres que os
outros assistentes não vêem".
Qualquer que seja a audácia dessa afirmação, da existência de anjos e
desencanados, é impossível, em certos casos, não admiti-la, como, por exemplo,
quando crianças (o pequeno Rey e a pequena francesa) vêem (algumas semanas
antes de morrer) lindas senhoras que as chamam; quando fantasmas erram em
casas assombradas, principalmente quando George Pelham, com milhares de
recordações de sua vida passada, volta na Sra. Piper, etc, etc... Então, a explicação
espírita é a mais racional, ouso dizer. (...) há muitos fenômenos absurdos, porém
incontestáveis e conquanto a ciência oficial ainda não os receba em seu seio zeloso,
não há dúvida que daqui a alguns anos dará lugar ao inabitual, criptestesias,
telepatias, telecinesias, assombrações, fantasmas materializados, xenoglossias,
premonições. Tudo isto está bem autenticado e deve-se reconhecer que o inabitual
existe"
E suas refutações demonstram materialismo e pouco conhecimento sobre ciência
espírita:
"Jamais os espíritos puderam provar que sabem qualquer coisa. Nenhuma
descoberta inesperada tem sido indicada, nenhuma revelação tem sido feita...
nenhuma parcela da ciência futura tem sido suspeitada." (...) "Mostra-nos eles
poetas que não sabem poesia ; filósofos que não conhecem a filosofia ; padres que
não conhecem a religião". (Tratado de Metapsíquica, I, p. 122).
Cabe ao homem progredir em conhecimento pelos seus próprios esforços, embora
jamais lhe falte o auxilio da Espiritualidade, através da inspiração e da facilitação dos
meios.
Disse ainda: "A Senhora Vickman vê o fantasma de um oficial que acaba de morrer.
Será, então, mais simples admitir a teoria espírita de um corpo astral, e contudo, se
rigorosamente se pode admitir que a memória dos defuntos persiste, será realmente
admissível que o corpo de um indivíduo, após alguns dias, muitas semanas ou
meses, depois que a putrefação o desorganizou completamente, possa reaparecer
ainda?"
Ora, isso não passa de uma concessão ao materialismo então vigente.
Questionou ainda como se manifestaria um individuo desencarnado aos 90 anos, se
como criança, adulto ou ancião.
Richet esbarrou em tremenda oposição, tanto dos cientistas, que em sua maioria se
recusaram a investigar fenômenos, quanto ao clero de todas as igrejas, cujos
próceres alegaram, como o fazem ainda hoje, que "o campo da ciência é um e o da
religião é outro". Todos receosos de verem abaladas as suas convicções... Mas o
grande cientista cumpriu sua missão, trazendo os fatos psíquicos para o âmbito da
Ciência e procurando explicações racionais para fenômenos até então relegados ao
terreno da superstição e da magia. Posteriormente, em carta ao escritor Ernesto
Bozzano, Richet admitia finalmente que aceitava plenamente os postulados
espíritas.
=============
Prefácio de Elzio Ferreira de Souza para "No Limiar do Mistério", de Charles
Richet :
"CHARLES RICHET E O ESPIRITISMO
De quando em quando, discute-se a posição real do sábio fisiologista e
metapsiquista francês diante da hipótese espírita. É que os autores, muita vez, ficam
no Tratado de Metapsiquica, publicado pela primeira vez em 1912, citando trechos,
esquecendo outros. Por outro lado, o Prof. Richet oscilou durante muito tempo pelo
caminho da investigação em busca de uma hipótese que pudesse explicar os
fenômenos desconcertantes que estudava. Assim, em sua vida partiu dos fatos,
porque, como dizia, a hipótese do futuro, não a podia ele formular, por desconhecê-
la (vide - Sergio Valle - Silva Mello e Seus Mistérios, Lake, pg 396), procurando
ajustá-los a uma teoria, inicialmente a do conhecimento do real e depois a das
vibrações do éter, chamadas a dar explicação de um conjunto de fenômenos que
realmente não se adaptam as mesmas. Assim, em sua conferência de 1925, ao
despedir-se da Faculdade de Medicina de Paris, ainda se mostrava infenso a
Doutrina Espírita, "provisoriamente, pelo menos" (Carlos Imbassahy, Ciência
Metapsíquica, pg 42). Quando preparou A Grande Esperança, escreveu a Bozzano
que aceitara de muito a teoria espírita, para confessar que - "O titulo do meu livro - A
Grande Esperança - indica assaz nitidamente que pouco a pouco eu me aproximo
de vossas idéias..." (in Sergio Vale, op. Cit. Pg 398).
O preconceito cientifico, a necessidade de teorização complicada, que, quanto mais
difícil de ser entendida mais a torna aceitável, fizeram com que ele completasse o
trecho acima, afirmando - "Todavia eu não creio no Espiritismo segundo as formulas
infantis de Allan Kardec ou de Conan Doyle..."
Mas como descreve Sergio Valle -
"Tais formulas infantis, resultantes da aceitação da sobrevivência, não devem ser
debitadas aos seus codificadores. Se há infantilidade nelas, a culpa é do espírito
humano, que não ascende, automaticamente, a sabedoria e a moralidade, ao perder
o corpo físico. O contrario, alias, é que seria absurdo. As formulas infantis eram tais
porque simples. Essa simplicidade da teoria espírita perturbava o prof. Richet. Tanto
que, ao criticar a teoria aceita por Allan Kardec, teve que desvirtuar o pensamento
do mestre lionês para encontrar um ponto fraco - "Toda a construção do sistema
filosófico de Allan Kardec (que é aquela mesma do Espiritismo) tem por base esta
brilhante hipótese de que os médiuns, nos quais se diz que os espíritos estão
incorporados, não se enganam nunca, e que as escritas automáticas nos revelam
verdades que é necessário aceitar, a não ser que se esteja influenciado por maus
espíritos" (Tratado de Metapsíquica, tomo I, Lake).
É preciso não ter lido a obra kardecista, ou estar imbuído de desejo de encontrar
um erro para assiná-lo e com isto rejeitar a teoria espírita. A segunda hipótese
parece verdadeira. A leitura da Introdução de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos
Médiuns demonstra o cuidado que teve Allan Kardec em chamar a atenção para
tais problemas. Na Revista Espírita de maio de 1865, Allan Kardec reproduziu uma
mensagem do Espírito de Georges sobre a mediunidade, em que se encontrava,
com todas as letras, a advertência para os automatismos de escrita -
"Jamais se devem atribuir aos Espíritos, e refiro-me aos Espíritos elevados, esses
ditados sem fundo nem forma que aliam a sua nulidade o ridículo de serem
assinados por nomes ilustres. A medianimidade séria só investe cérebros providos
de uma instrução suficiente ou, pelo menos, provados pelas lutas passionais. Os
melhores médiuns são os únicos a receber o afluxo espiritual; os outros sofrem
apenas o impulso fluídico material, que lhes arrasta as mãos, sem fazer produzir a
sua inteligência outra coisa senão o que esta contém em estado latente".
"Tento aqui estabelecer a diferença que existe entre os médiuns inspirados pelos
fluidos espirituais e os que agem apenas sob o impulso do fluido corporal, isto é, os
que vibram intelectualmente e aqueles cuja ressonância física só conduz a produção
confusa e inconsciente de suas próprias idéias, ou de idéias vulgares e sem
elevação" (Revista Espírita - 1865, trad. De Julio Abreu Filho - Ediceu, 1966, pgs
149 e sg.)
E comentando a referida comunicação, Allan Kardec acrescentou de modo claro -
"Posto que o estudo dessa parte integrante do Espiritismo esteja longe de ser
completo, já estamos longe do tempo em que se acreditava que bastasse receber
um impulso mecânico para se dizer médium, e crer-se apto para receber
comunicações de todos os espíritos" (idem, pg. 150).
Como adverte Antonio J. Freire, a teoria do automatismo psicológico de Janet data
de 1889, portanto, muito posterior as observações de Allan Kardec e dos próprios
espíritos sobre o automatismo e o subconsciente. Nos primórdios do Espiritismo,
Jackson Davis (1855), Metzger, etc, salientaram com anterioridade também as
causas determinantes da escrita automática, sendo que o médium norte americano
Hudson Tuttle, nos meados do século passado, insistia sobre a origem humana de
muitas mensagens (Antonio J. Freire, Ciência e Espiritismo, FEB, pgs 153 e 155).
Depois de mostrar a sem razão da crítica, verifiquemos como Charles Richet via o
trabalho de Allan Kardec - "É necessário admirar sem reserva a energia intelectual
de Allan Kardec. Não obstante a sua credulidade exagerada, tem fé na
experimentação. É sempre na experimentação que se apóia, de maneira que a sua
obra não é apenas uma teoria grandiosa e homogênea, mas também um imponente
repositório de fatos" (op. Cit. Pg. 54)
Por ai vemos que, desprezada aquela expressão credulidade exagerada, que se
ligava a crítica que acabamos de refutar, poder-se-ia entender que as teorias
infantis, a que ele aludia, eram mais uma referência a simplicidade (Jesus já havia
assinalado que é dos simples o Reino dos Céus). E tanto assim era, que Richet
também não deixou de reconhecer o trabalho de desbravador e pioneiro do mestre
lionês - "Da mesma maneira é Allan Kardec certamente o homem que, no período
de 1847 a 1871, exerceu a mais intensa das influências, abrindo um rasgo profundo
na ciência Metapsíquica (op. Cit. Pg 54)
A delimitação é, porém, errônea quanto aos anos, se tivermos em conta que, hoje,
no Brasil, a teoria codificada por Allan Kardec encontra a mais ampla e alentadora
aceitação, de modo que fez Andre Moreil abrir suas vistas para o coração imenso do
mundo, conclamando os espíritas de toda a parte a seguirem o exemplo do pais sulamericano
(Vida e Obra de Allan Kardec, trad. De Miguel Mallet, Edicel, pg 241). O
reconhecimento de Richet prendeu-se ao fato de que os fenômenos rotulados de
metapsíquicos eram aqueles que, com anterioridade, estavam sendo estudados pela
Ciência Espírita. Mas a luta do prof. Richet consigo mesmo nunca parou. Por isso,
ao receber o livro A Vida no Outro Mundo, que o nosso Cairbar Schutel lhe enviara,
agradeceu com palavras que são uma demonstração de sua inclinação depois de
tantos estudos - "Obrigado, caro senhor, de vosso livro. Como vos tendes razão de
estudar o mistério da morte e da Metapsíquica. A morte é a porta da vida." (Salvador
Gentile, Documentos Espíritas in Anuário Espírita, 1965, IDE, pg. 172).
Mais tarde foi ao grande amigo Bozzano que fez sua confissão através da carta, na
qual registrou em sua parte superior - Confidencial. Oferecendo o seu livro Au
Secours, o prof Richet colocou a seguinte dedicatória - "A meu sábio e valente
amigo E. Bozzano, com toda crescente simpatia". A palavra crescente viera grifada
e, por isso, Bozzano escreveu ao amigo sobre o assunto, pois achava existir mais
importância teórica do que apreciação pessoal, expressando-lhe, com certa timidez,
a esperança que tal palavra despertara em seu coração. Em resposta, recebeu a
carta com o Confidencial - "Meu caro e eminente colega e amigo: Sou inteiramente
do seu parecer: não creio, com efeito, na explicação simplista segundo a qual os
acontecimentos de nossa existência e a direção de nossa vida são provocados
exclusivamente pelo acaso, embora não seja possível apresentar prova nesse
sentido. O Fado existe, o que equivale a dizer: uma Força que nos guia e conduz
aonde bem lhe pareça, por vias indiretas, tortuosas e muitas vezes bizarras. E,
também, fora da direção da vida, há coincidências tão estonteantes que é bem
difícil não se veja a obra de uma intencionalidade. ( De quem?... De que...?)
"E agora abro-me a você de modo absolutamente confidencial. O que você supunha
é verdade. Aquilo que não alcançaram Myers, Hodgson, Hyslop e Sir Oliver Lodge,
obteve-o você por meio de suas magistrais monografias, que sempre li com religiosa
atenção. Elas contrastam, estranhamente, com as teorias obscuras que atravancam
a nossa ciência. "Creia, peco-lhe, nos meus integrais sentimentos de simpatia e
gratidão" (in Sergio Valle, op. Cit. Pg. 399 e sg. - O jornal londrino Psychic News, de
30 de maio de 1936, publicou as circunstâncias do fato).
O prof. Richet devia temer profundamente o escárnio dos seus colegas materialistas,
e assim, na confissão final, preferiu um amigo e recomendou - Confidencial.
Anteriormente, já em 1927, o seu receio começara a desaparecer, tanto que já
conseguira responder a revista francesa Comedia. - "Respondo-vos com absoluta
franqueza. As vezes creio. As vezes (mais comumente), não creio. Como pode um
fisiologista supor que haja sobrevivência da consciência sem o cérebro? Igualmente,
como negar os fatos chamados espíritas e a hipótese explicativa mais simples do
que qualquer outra?" (in Sergio Valle, op. Cit. Pg. 398)
Neste mesmo ano apareceu em Portugal um romance de sua autoria de pequena
tiragem - A Porta do Mistério, nesta edição brasileira intitulado No Limiar do Mistério,
baseado na Doutrina Espírita, inclusive na lei das vidas sucessivas. No entanto,
somente em 1934 saiu a edição francesa do mesmo livro (Au Seuil du Mystere). O
seu ultimo livro, que provocou a confissão (Au Secours), foi publicado em 1936.
Afinal, ainda que de modo confidencial escancara a porta do mistério, que lutara
tanto tempo para franquear. Interessante, porém, parece-nos concluir estas linhas
com uma noticia mais detalhada sobre o referido romance, pois dar-nos-á uma
melhor compreensão do pensamento do prof. Richet, ainda que, no passo, tenha
preferido a forma romanceada, que não feriria tanto os espíritos encastelados no
academicismo pedantesco. Assim se refere Antonio J. Freire no livro "Da Evolução
do Espiritismo" (Federação Espírita Portuguesa, 1952, pgs 38 a 40) sobre o assunto.
-
"Parece-nos digno de registro um fato invulgar, passado aqui em Portugal, relativo
ao insigne prof. Charles Richet, que, sob o pseudônimo de Charles Epheyre, foi
considerado, por unanimidade da critica francesa, um primoroso poeta, romancista e
escritor teatral. "Trata-se do romance - A Porta do Mistério - que teve a prioridade de
ser traduzido em português anteriormente a sua publicação em francês, em volta de
1927. Fato pouco conhecido em Portugal. "A tradutora foi a consagrada e ilustre
escritora, Senhora D. Virginia de Castro e Almeida, que, certamente, só pelo seu
privilegio e boas relações com o prof. Richet poderia ter conseguido tão invulgar e
honroso privilégio. "O romance é baseado nos princípios que regem o Espiritismo,
particularmente no Reencarnacionismo, nas vidas sucessivas, coluna básica em que
assenta e se desenrola o dinamismo ascendente da Evolução em todos os seus
complexos aspectos físicos, morais e espirituais, desde o mineral ao homem, para
depois surgir a super-humanidade, pois a evolução não tem limites. Deus é
inatingível. Transcrevemos a apreciação do jornal de Lisboa - Diário de Notícias: "A
Porta do Mistério", ditado pela Livraria J. Rodrigues, de Lisboa, é um romance
vasado nas teorias do Espiritismo, que tanto desenvolvimento tem tomado nos
últimos tempos, duma ação empolgante e de rara originalidade e audácia, que
prende a atenção do leitor desde a primeira linha, não lhe permitindo que interrompa
essa leitura. Tem lances da mais alta vibração dramática, descritos num estilo
sóbrio e preciso, mas da maior elegância e fluidez, terminando com uma cena
trágica passada na grande guerra. "O notável fisiologista, prof. Charles Richet,
afirma neste trabalho, mais uma vez., que seus estudos científicos não lhe
estancaram a veia da inspiração e da imaginação.
"Num breve prólogo, o prof. Charles Richet refere-se as teorias espíritas em que
seu romance foi inspirado. A Sra. D. Virginia e Almeida escreve também um
prefácio em que traça com emoção o perfil do autor do romance."
Infelizmente, as nossas academias parecem desconhecer, não só a evolução do
pensamento, mas até o trabalho do magistral professor sobre os fenômenos
espíritas, ainda que Moniz Sodre, em sua clássica obra As Três Escolas Penais,
tenha feito um resumo dos mesmos segundo classificação adotada no "Tratado de
Metapsíquica " *(nota de rodapé: Vide- As Três Escolas Penais, Livraria Freitas
Bastos S.A, 1952. Pgs 53 a 55)
Elzio Ferreira de Souza.
--------
Um trecho do prefácio de Richet:
"Este livro é apenas uma ficção, não é uma história verdadeira. Escrevendo-o
compus uma obra de fantasia. E não quero que, um instante sequer, o leitor possa
imaginar que se trata aqui de uma história autêntica. Mas, apesar disso... Apesar
disso... Os estranhos fenômenos encontrados nessa narrativa estão em rigorosa
conformidade com certos fenômenos verdadeiros. Vivemos em uma época em que
o oculto se tornou científico, o sobrenatural natural, e em que os mistérios do além
são revelados nos laboratórios."
Além da Reencarnação, há no livro, segundo texto na capa, "fenômenos como a
projeção astral, clarividência, premonição, efeitos físicos, visões no leito de morte,
pneumatografia e muitos outros..."
"A violência nossa de cada dia"
Elzio Ferreira de Souza
Livro: Ser e Existência (2011)
Editora: Circulus
Capítulo 17
A violência nossa de cada dia
Para estabelecer a paz em volta de si, precisa o homem estabelecer a paz em si mesmo. Sem cuidar do interior da casa, não adianta querer dedicar-se aos jardins da mansão. O processo de cura interior é indispensável para que se possa ter paz no mundo. Ao homem tem sido fácil fazer guerras, não, porém, estabelecer a paz, exatamente porque essas constituem seu clima interior. Sem uma remodelação da interioridade, nada pode ser feito para diminuir a violência que domina cidades, numa espécie de guerra civil de todos contra todos, que acaba por conferir aos homicídios, roubos, etc. um ar de naturalidade, estado este com o qual o ser humano termina por ser obrigado a conviver, fazendo cada um sua parte na manutenção de tal estado de coisas.
"O que faremos para livrarmo-nos disso?" - é a pergunta geralmente feita. Todos querem evidentemente, mudar o quadro, porém não falta quem dele tire proveito. Há profissões que se criaram e vivem da violência, e não há, portanto, interesse fundamental de que as coisas mudem: desde a polícia civil, dos militares até o guardador de veículos, existem categorias profissionais que são dependentes da violação à lei. Se desaparecesse esta, naturalmente faltaria qualquer fundamento para subsistirem fora dos museus. A questão aqui é que a pergunta está evidentemente mal formulada, não adianta questionar sobre como alguém ou a sociedade pode livrar-se do estado de guerra; a pergunta certa é - "O que fazemos para isso?" Qualquer exame ainda que superficial vai revelar-nos que a violência nasce por dentro de nós, e que a violência exterior, a violência dos outros, é bem o reflexo da nossa própria violência, ora contida ora expressa em formas que não possam acarretar a repressão, ou contra alguém que não pode reagir, ou contando com a impunidade, seja por passar desapercebida das autoridades seja por contar com a inércia destas, ou por ter a sociedade se acostumado com uma série de violações aos direitos alheios que já não presta mais atenção em determinadas infrações, consideradas menores e inapreciáveis ante a onda de mortes e ataques ao patrimônio, e, de um modo geral, à integridade pessoal que domina nas cidades. Se o homem estivesse atento a seu interior, verificaria que o estado de guerra social encontra suas raízes mais profundas e as mais superficiais dentro de sua mente e de seu coração.
Não há necessidade de qualquer análise em consultório psicanalítico para descobrir a realidade: basta atentar um pouco para os objetivos, para os instrumentos e meios com que se deseja atingi-los, para os motivos que levam a delineá-los, e perceber-se-á que tudo isso está mergulhado, em realidade, num oceano de egoísmo, que coloca o indivíduo como o centro do universo. Quando isto ocorre, e ocorre sempre, é impossível deixar de reconhecer que ele se encontra numa permanente guerra contra os demais consórcios, ainda que velada por aspectos sociais de manifestação da "luta pela vida": "formação profissional", "eficiência e qualidade", etc. Ou seja, o homem se aperfeiçoa continuamente para exercer sobre os outros alguma espécie de violência, seja que esta surja com a clássica "pesca" estudantil nas salas de aula, com o "pistolão" para desbancar os concorrentes, com pequenas violências nas "festas de calouros", nos esportes violentos ou nos que, apesar de assim não serem qualificados, são motivos para o exercício da violência com a finalidade de sobrepujar o oponente mais rápido ou mais eficiente. Não é de admirar que isto desemboque, em seguida, na violência familiar, em que geralmente a mulher milenarmente leva o quinhão de sofrimento, embora, por sua vez, esteja aprendendo outras formas de violência. Da violência verbal à violência física, o egoísmo é o fundamento de todas as expressões.
Mudar a vida é modificar-se. O trabalho é desafiador porque exige transformação da visão antes da alteração dos hábitos. Se quisermos que as pessoas alterem seu modo de vida, abandonem as casamatas do egoísmo, para que depois possamos fazer o mesmo, o trabalho jamais se iniciará, pois o problema somos nós, e não o outro. Há de reconhecer-se que, não rara vez, a violência do próximo é o reflexo, o resultado do contágio de nossas expressões de vida. Não podemos articular o desejo de paz, se esta aspiração não se tornou algo concreto e consolidado em nós. Se a violência está submetida à lei do contágio mental, em que os semelhantes atraem-se, a paz também se submete à mesma lei. O conhecimento da lei deve possibilitar ao homem exercê-la em benefício da renovação social.
O que se pode ver é que o estado de guerra estabelecido pelo homem é, em verdade, um estado mental: a guerra interna ou externa, de qualquer natureza, é sempre resultado da intemperança mental. Mentes desequilibradas não podem gerar um mundo em equilíbrio. A cura da mente é indispensável.
Ninguém pode curar a mente, porém, se não desenvolve a atenção; sem estar atento não só para o que ocorre a sua volta, mas também para cada um dos seus pensamentos, o homem é apenas um náufrago que perde a vida diariamente. Atentar para todos os movimentos do ser interior é a tarefa inicial. Não adianta falar de concentração, se não se estiver atento para os desvarios da mente. É preciso tomar conhecimento deles, e isto deve ocorrer não apenas quando um se senta para meditar ou orar, mas a todos os momentos. A cada instante, uma série de pensamentos surge, e devemos estar atentos para a direção que tomam, o que pretendem, e por que surgem estes, e não outros, ou estes e outros. Muitos pensamentos e idéias não repelidas podem ter origem na natureza do próprio indivíduo, no entanto é possível que se originem em mentes alheias, encarnadas ou desencarnadas, e que esteja ele simplesmente recepcionando-os. Se os pensamentos se acomodam na casa mental e passam a estimular outros pensamentos, acordando certos aspectos negativos da natureza humana, então teremos o início de uma queda, se não se opera uma cirurgia mental rápida e oportuna. Afinal, a natureza humana é, ainda, de baixo teor, e os impulsos egoísticos, sejam referentes a sexo ou poder, exclusivismo ou destruição, etc. são rapidamente postos em ação por pensamentos do mesmo teor.
É um erro pensar que é possível modificar a mente com métodos violentos, estes acabam impulsionando-a no sentido que se desejava alterar. Nem se deve dar largas a complexos de culpa, pois o pessimismo irrefreável acabaria destruindo mais rapidamente a possibilidade de cura. A solução também não pode ser encontrada na simples condescendência com tal estado da mente sob a desculpa de "naturalidade"; isto pode ser a base das racionalizações com que o ser se dispõe a evitar qualquer esforço no sentido de uma metamorfose, aquietando-se na justificativa de que se trata da própria natureza humana. O caminho a seguir é simples, mas mostrar-se-á eficiente, no entanto só surtirá efeito se praticado perseverantemente em qualquer situação, e não apenas quando se está sentado para meditar. Sempre que pensamentos ocorram em catadupa, deve procurar-se trazer a mente de volta ao que se estiver realizando, sem irritar-se, evitando toda dispersão, do mesmo modo que, após um pequeno escorrego, recoloca-se o corpo em equilíbrio, sem discursos racionalizadores, reprovativo ou justificativo. A princípio, nem sequer é necessário que se distinga sua origem, se interna ou externa, se de um encarnado ou desencarnado. Este pequeno exercício vai gerar mais reserva de força mental para a realização de qualquer tarefa, e, naturalmente, irá propiciar mais energia para os momentos reservados à meditação clássica. Mas, lembre-se, quando atentos ao que se passa na mente, seja qual seja o lugar em que estejamos, não importando a espécie de tarefa material ou espiritual a realizar, executamos uma forma particular de meditação, porquanto estamos presentes a nós mesmos, ainda que envolvidos por uma multidão de pessoas ou de ruídos. Meditação é a arte de estar só para que possamos estar com o outro. Isto parece paradoxal, mas é a pura verdade. Quem não conhece seu espaço interior não desenvolve qualquer respeito pelo espaço interior do outro. À medida que nos descobrimos interiormente, o outro se nos revela mais claramente. Ao adquirirmos compaixão por nós, aprendemos a estendê-la ao próximo. Foi, por isso, que o Senhor Jesus erigiu o amor de cada criatura a si mesma como modelo do amor ao vizinho e recomendou-nos o exercício de fazer o bem com idêntica orientação. Quem não conhece o amor, na cela divina do coração, não pode expressá-lo na vida.
Comentários:
Nesta importante mensagem, o autor espiritual trata de um tema muito comum nas religiões orientais: da concentração. Cuida-se, nessas religiões, de preparar a pessoa à meditação, adestrando-se a mente inquieta. O objetivo é estar atento naquilo que se faz ou se aprecia, não permitindo à mente vagar livremente em múltiplos outros objetos de atenção, retirando o indivíduo de seu natural equilíbrio. Nesta passagem, o autor coloca a concentração ou atenção como meio de interromper o ciclo de pensamentos inquietos que nos levam à "violência nossa de cada dia", conclamando o leitor a modificar-se interiormente a si mesmo se deseja a modificação do quadro social.
Há referência a dois tipos de meditação: (1) a clássica, em que o indivíduo procura silenciar a mente, contra a qual o autor não opõe nenhuma censura e colocando a concentração como meio de reforçá-la; (2) "uma forma particular de meditação", consistente na chamada atentividade, em "estar presente a nós mesmos", atentos a tudo que se passa interiormente em todos os momentos.
Livro: Ser e Existência (2011)
Editora: Circulus
Capítulo 17
A violência nossa de cada dia
Para estabelecer a paz em volta de si, precisa o homem estabelecer a paz em si mesmo. Sem cuidar do interior da casa, não adianta querer dedicar-se aos jardins da mansão. O processo de cura interior é indispensável para que se possa ter paz no mundo. Ao homem tem sido fácil fazer guerras, não, porém, estabelecer a paz, exatamente porque essas constituem seu clima interior. Sem uma remodelação da interioridade, nada pode ser feito para diminuir a violência que domina cidades, numa espécie de guerra civil de todos contra todos, que acaba por conferir aos homicídios, roubos, etc. um ar de naturalidade, estado este com o qual o ser humano termina por ser obrigado a conviver, fazendo cada um sua parte na manutenção de tal estado de coisas.
"O que faremos para livrarmo-nos disso?" - é a pergunta geralmente feita. Todos querem evidentemente, mudar o quadro, porém não falta quem dele tire proveito. Há profissões que se criaram e vivem da violência, e não há, portanto, interesse fundamental de que as coisas mudem: desde a polícia civil, dos militares até o guardador de veículos, existem categorias profissionais que são dependentes da violação à lei. Se desaparecesse esta, naturalmente faltaria qualquer fundamento para subsistirem fora dos museus. A questão aqui é que a pergunta está evidentemente mal formulada, não adianta questionar sobre como alguém ou a sociedade pode livrar-se do estado de guerra; a pergunta certa é - "O que fazemos para isso?" Qualquer exame ainda que superficial vai revelar-nos que a violência nasce por dentro de nós, e que a violência exterior, a violência dos outros, é bem o reflexo da nossa própria violência, ora contida ora expressa em formas que não possam acarretar a repressão, ou contra alguém que não pode reagir, ou contando com a impunidade, seja por passar desapercebida das autoridades seja por contar com a inércia destas, ou por ter a sociedade se acostumado com uma série de violações aos direitos alheios que já não presta mais atenção em determinadas infrações, consideradas menores e inapreciáveis ante a onda de mortes e ataques ao patrimônio, e, de um modo geral, à integridade pessoal que domina nas cidades. Se o homem estivesse atento a seu interior, verificaria que o estado de guerra social encontra suas raízes mais profundas e as mais superficiais dentro de sua mente e de seu coração.
Não há necessidade de qualquer análise em consultório psicanalítico para descobrir a realidade: basta atentar um pouco para os objetivos, para os instrumentos e meios com que se deseja atingi-los, para os motivos que levam a delineá-los, e perceber-se-á que tudo isso está mergulhado, em realidade, num oceano de egoísmo, que coloca o indivíduo como o centro do universo. Quando isto ocorre, e ocorre sempre, é impossível deixar de reconhecer que ele se encontra numa permanente guerra contra os demais consórcios, ainda que velada por aspectos sociais de manifestação da "luta pela vida": "formação profissional", "eficiência e qualidade", etc. Ou seja, o homem se aperfeiçoa continuamente para exercer sobre os outros alguma espécie de violência, seja que esta surja com a clássica "pesca" estudantil nas salas de aula, com o "pistolão" para desbancar os concorrentes, com pequenas violências nas "festas de calouros", nos esportes violentos ou nos que, apesar de assim não serem qualificados, são motivos para o exercício da violência com a finalidade de sobrepujar o oponente mais rápido ou mais eficiente. Não é de admirar que isto desemboque, em seguida, na violência familiar, em que geralmente a mulher milenarmente leva o quinhão de sofrimento, embora, por sua vez, esteja aprendendo outras formas de violência. Da violência verbal à violência física, o egoísmo é o fundamento de todas as expressões.
Mudar a vida é modificar-se. O trabalho é desafiador porque exige transformação da visão antes da alteração dos hábitos. Se quisermos que as pessoas alterem seu modo de vida, abandonem as casamatas do egoísmo, para que depois possamos fazer o mesmo, o trabalho jamais se iniciará, pois o problema somos nós, e não o outro. Há de reconhecer-se que, não rara vez, a violência do próximo é o reflexo, o resultado do contágio de nossas expressões de vida. Não podemos articular o desejo de paz, se esta aspiração não se tornou algo concreto e consolidado em nós. Se a violência está submetida à lei do contágio mental, em que os semelhantes atraem-se, a paz também se submete à mesma lei. O conhecimento da lei deve possibilitar ao homem exercê-la em benefício da renovação social.
O que se pode ver é que o estado de guerra estabelecido pelo homem é, em verdade, um estado mental: a guerra interna ou externa, de qualquer natureza, é sempre resultado da intemperança mental. Mentes desequilibradas não podem gerar um mundo em equilíbrio. A cura da mente é indispensável.
Ninguém pode curar a mente, porém, se não desenvolve a atenção; sem estar atento não só para o que ocorre a sua volta, mas também para cada um dos seus pensamentos, o homem é apenas um náufrago que perde a vida diariamente. Atentar para todos os movimentos do ser interior é a tarefa inicial. Não adianta falar de concentração, se não se estiver atento para os desvarios da mente. É preciso tomar conhecimento deles, e isto deve ocorrer não apenas quando um se senta para meditar ou orar, mas a todos os momentos. A cada instante, uma série de pensamentos surge, e devemos estar atentos para a direção que tomam, o que pretendem, e por que surgem estes, e não outros, ou estes e outros. Muitos pensamentos e idéias não repelidas podem ter origem na natureza do próprio indivíduo, no entanto é possível que se originem em mentes alheias, encarnadas ou desencarnadas, e que esteja ele simplesmente recepcionando-os. Se os pensamentos se acomodam na casa mental e passam a estimular outros pensamentos, acordando certos aspectos negativos da natureza humana, então teremos o início de uma queda, se não se opera uma cirurgia mental rápida e oportuna. Afinal, a natureza humana é, ainda, de baixo teor, e os impulsos egoísticos, sejam referentes a sexo ou poder, exclusivismo ou destruição, etc. são rapidamente postos em ação por pensamentos do mesmo teor.
É um erro pensar que é possível modificar a mente com métodos violentos, estes acabam impulsionando-a no sentido que se desejava alterar. Nem se deve dar largas a complexos de culpa, pois o pessimismo irrefreável acabaria destruindo mais rapidamente a possibilidade de cura. A solução também não pode ser encontrada na simples condescendência com tal estado da mente sob a desculpa de "naturalidade"; isto pode ser a base das racionalizações com que o ser se dispõe a evitar qualquer esforço no sentido de uma metamorfose, aquietando-se na justificativa de que se trata da própria natureza humana. O caminho a seguir é simples, mas mostrar-se-á eficiente, no entanto só surtirá efeito se praticado perseverantemente em qualquer situação, e não apenas quando se está sentado para meditar. Sempre que pensamentos ocorram em catadupa, deve procurar-se trazer a mente de volta ao que se estiver realizando, sem irritar-se, evitando toda dispersão, do mesmo modo que, após um pequeno escorrego, recoloca-se o corpo em equilíbrio, sem discursos racionalizadores, reprovativo ou justificativo. A princípio, nem sequer é necessário que se distinga sua origem, se interna ou externa, se de um encarnado ou desencarnado. Este pequeno exercício vai gerar mais reserva de força mental para a realização de qualquer tarefa, e, naturalmente, irá propiciar mais energia para os momentos reservados à meditação clássica. Mas, lembre-se, quando atentos ao que se passa na mente, seja qual seja o lugar em que estejamos, não importando a espécie de tarefa material ou espiritual a realizar, executamos uma forma particular de meditação, porquanto estamos presentes a nós mesmos, ainda que envolvidos por uma multidão de pessoas ou de ruídos. Meditação é a arte de estar só para que possamos estar com o outro. Isto parece paradoxal, mas é a pura verdade. Quem não conhece seu espaço interior não desenvolve qualquer respeito pelo espaço interior do outro. À medida que nos descobrimos interiormente, o outro se nos revela mais claramente. Ao adquirirmos compaixão por nós, aprendemos a estendê-la ao próximo. Foi, por isso, que o Senhor Jesus erigiu o amor de cada criatura a si mesma como modelo do amor ao vizinho e recomendou-nos o exercício de fazer o bem com idêntica orientação. Quem não conhece o amor, na cela divina do coração, não pode expressá-lo na vida.
Comentários:
Nesta importante mensagem, o autor espiritual trata de um tema muito comum nas religiões orientais: da concentração. Cuida-se, nessas religiões, de preparar a pessoa à meditação, adestrando-se a mente inquieta. O objetivo é estar atento naquilo que se faz ou se aprecia, não permitindo à mente vagar livremente em múltiplos outros objetos de atenção, retirando o indivíduo de seu natural equilíbrio. Nesta passagem, o autor coloca a concentração ou atenção como meio de interromper o ciclo de pensamentos inquietos que nos levam à "violência nossa de cada dia", conclamando o leitor a modificar-se interiormente a si mesmo se deseja a modificação do quadro social.
Há referência a dois tipos de meditação: (1) a clássica, em que o indivíduo procura silenciar a mente, contra a qual o autor não opõe nenhuma censura e colocando a concentração como meio de reforçá-la; (2) "uma forma particular de meditação", consistente na chamada atentividade, em "estar presente a nós mesmos", atentos a tudo que se passa interiormente em todos os momentos.
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)


.jpg)

