Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A PRUDÊNCIA



Artigo publicado no jornal Unificação - Ano X - Setembro de 1962 - Número 114

“Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos, sede, portanto prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. (Mateus, 10:16).

Não foram poucas as passagens evangélicas nas quais Jesus definiu a necessidade de termos prudência no trato das coisas do Alto. Na parábola das dez virgens o Mestre, deixou transparecer, de modo preciso, a necessidade de se ter prudência na solução dos problemas que surgem no decurso da nossa vida terrena, tudo fazendo para acumularmos os dons imperecíveis do Espírito, objetivando sairmos vitoriosos das encarnações que nos são propiciadas pele Justiça Divina.
As virgens prudentes levaram o “combustível” suficiente para a jornada, conseguindo, desta forma, atingir o objetivo primacial da mesma: - serem recebidas pelo esposo.
Nos sublimes ensinamentos contidos nas entrelinhas dessa parábola, o Cristo, procurou demonstrar a necessidade de sermos prudentes e, no desenrolar da nossa vida terrena conseguirmos amealhar as aquisições santificantes imprescindíveis para a conquista da sublimação de nossas almas.
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Noutro trecho do Evangelho também o Nazareno assevera que o homem prudente constrói sua casa sobre a rocha, e, a impetuosidade da borrasca nada pode contra ela, que a tudo resiste.
Aqui também o Mestre prescreve a necessidade da prudência no processo de consolidação da vida humana. O objetivo primacial de Jesus ao ensinar essa parábola foi a de fazer evidenciar a importância de constituirmos como base de nossa vida um sistema sólido composto de amor, tolerância, moralidade e conformação com os desígnios de Deus.
Se tivermos a sensatez de edificar nossa vida sobre a rocha da fé, da paciência, da integridade moral e do amor ao próximo, não deveremos temer as tempestades da adversidade e das tribulações inerentes à vida humana.
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Nas palavras que encimam esta crônica, o Messias, prescreve a necessidade de sermos mansos como os pombos, porém prudentes como as serpentes. É óbvio que devemos ser tolerantes, mansos, resignados, entretanto, é imperioso que sejamos prudentes como as serpentes.
Não devemos, sob alegação de humildade e desprendimento abdicar da nobreza de nossas almas, resvalando para o desequilíbrio e para a anulação dos princípios que norteiam uma vida íntegra perante Deus.
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“Os filhos do mundo são mais hábeis na sua geração de que os filhos da luz”.
No versículo 8 do capítulo 6 do Evangelho de Lucas, o Mestre nos fala da necessidade de tirarmos o maior proveito possível do nosso aprendizado no mundo. Os filhos do mundo que tratam exclusivamente das coisas da Terra, muitas vezes sabem ser prudentes fazendo com que seus recursos materiais advenham benefícios de ordem espiritual. Os filhos da luz, aqueles que na Terra cuidam das coisas do espírito, nem sempre sabem tirar o devido proveito dos dons preciosos que Deus, em sua Infinita Misericórdia, coloca ao alcance de suas mãos.
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A prudência é, pois um atributo relevante em nossa vida.
Devemos usá-la do modo mais eficiente possível, pois sem ela dificilmente poderemos vencer os problemas agudos que se nos deparam no desenvolvimento de nosso aprendizado terreno.
Se formos prudentes não alimentaremos ódio, inveja ou ciúme contra os nossos irmãos, não chafurdaremos nossas almas no lodaçal dos vícios, da intemperança e do descalabro moral.
Agindo de modo prudente nós não nos perderemos no labirinto da avareza, do orgulho e da soberba.
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A prudência nos indica que devemos ver nos Evangelhos o manancial de luz e verdade, que contribuirá de modo decisivo para a elevação das nossas almas para Deus.

Você precisa de paciência?



Carlos Alexandre Fett
A vida moderna é repleta de situações que nos perturbam, ou, usando um termo atual, estressam-nos.
É a profissão, onde temos que buscar ser produtivos constantemente, sob pena de perdermos o cargo que ocupamos. É o trânsito, que parece nos modificar, onde se demonstra claramente que é cada um por si. Às vezes são os familiares, que não nos compreendem ou nos cobram atitudes que não conseguimos tomar.
O que fazermos? Simplesmente agimos de forma instintiva, devolvendo aos que nos rodeiam as angústias que passamos?
Não, não é isso que recomenda Jesus. O Mestre nos ensinou que devemos viver na vida sendo "prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas " (Evangelho de Mateus, cap. X, vers. 16). Isso quer dizer que precisamos ser prudentes em nossas atitudes. Ou seja, se estivermos cansados, oprimidos, desgostosos, seria sábio que buscássemos algo que nos aliviasse. E esse algo podemos encontrar na religião.
É nela que conseguimos compreender melhor as situações que nos cercam. É na casa religiosa que temos a oportunidade de nos desligarmos da vida corrida que levamos, e passamos a meditar no que nos é mais importante: nosso progresso moral e espiritual.
E será com a religião que aprenderemos a ser simples como as pombas, conforme orientou Jesus. Pois entenderemos que de nada adianta retribuirmos o mal com o mal, porque isso apenas gerará mais discórdia.
E como conseguirmos a paz que procuramos se nós mesmos estamos gerando confusão?
Pensemos nisso em cada momento estressante da vida. Imaginemos como uma religião poderia modificar nossa existência.
Busque uma casa religiosa, seja um centro espírita, uma igreja católica, protestante, evangélica. O importante é que seja um local cristão, pois é lá que com certeza encontraremos o caminho, a verdade e a vida prometidos pelo Senhor Jesus.

Prudentes como as serpentes...



Carlos Alexandre Fett
"Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos. Portanto, sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Jesus, no Evangelho de Mateus, capítulo 10, versículo 16).
Esta passagem da vida de Jesus ocorreu quando ele explicava aos seus doze discípulos suas missões. Escolhidos pela Espiritualidade superior para o acompanharem em seu trabalho, os apóstolos deveriam buscar ter uma vida moral sadia em meio a um povo contrário à Lei de Deus, dando exemplo por onde estivessem. Bom senso e humildade deveriam ser sentimentos primeiros em seus atos.
Discute-se na sociedade atual os porquês do alto índice de violência entre os jovens. Os motivos poderiam ser desde a liberdade exagerada que é dada às crianças, onde pseudopedagogos incitam a discordância de vontades entre filhos e pais, até a ansiedade gerada pelo materialismo desvairado que tomou conta dos seres.
O que acontece sim é um estímulo aos instintos vingativos e violentos do ser humano. Não só dos jovens, mas de todo aquele que se diz "homem suficiente para não levar desaforo para casa".
Como se vivêssemos para ter apenas nossos desejos satisfeitos, transformamo-nos em verdadeiras feras quando somos contrariados. Isto é, devemos apenas ser servidos, não servir, nem que para isso tenhamos que nos impor, verbal ou fisicamente.
Diariamente somos bombardeados por filmes, novelas, jornais e programas sensacionalistas que têm nas disputas o principal sustento para suas audiências.
Instigados pelos nossos instintos, chegamos a nos deliciar com cenas de pancadaria, discussões irracionais e desafetos prolongados, como se a desgraça alheia fizesse parte de um mundo em que não vivemos.
Aí é que mora o perigo!
Sem que percebamos, estamos como que contaminados pela atmosfera violenta que vai ao nosso redor. E ajudamos a alimentá-la, fazendo da sociedade um ambiente propício à instalação do desequilibro moral.
E o que isso tudo tem a ver com a passagem de Jesus no início do texto? Tem tudo a ver.
O Mestre foi a excelência em exemplo. Conhecia como ninguém a natureza humana. Sabia das limitações dos homens, tanto dos do seu tempo, como dos contemporâneos. Seus discípulos, por estarem abraçando uma vida diferente da que viviam - tanto os que eram simples pescadores, como Pedro, até homens estudados, como Matheus -, poderiam trair seus novos ideais, deixando-se contaminar pelos interesses pessoais.
Jesus, então, alertava-os, dizendo que deveriam ter a prudência da serpente. Ou seja, procurarem ser discretos em seus atos, comedidos em suas palavras e sábios em suas ações. Não se deixarem levar pelas emoções, mas julgar a tudo, retendo para si o que de bom encontrassem.
Porém, ressalta o Mestre, nem só de prudência vive o homem. É necessária a humildade do sensato. Tem na pomba a simbologia, dizendo que o verdadeiro prudente é simples nas coisas que faz, não se vangloriando de seu saber e respeitando os menos afortunados, moral e intelectualmente.
Vivemos exatamente ao contrário do que ensinou o Cristo. Temos como guia a violência e o orgulho. Estamos sempre em sentido de ataque, desenvolvendo em nosso íntimo a desconfiança e o preconceito.
Ficamos satisfeitos quando respondemos uma agressão de qualquer nível, demonstrando nosso poder de reação. Se pudermos prejudicar quem nos prejudicou, melhor ainda. Tramas são armadas com o objetivo de ferir. Passamos a ser os autores de ciladas ardilosas, onde os participantes sofrem os resultados de um egoísmo anticristão. Legislando em causa própria, escondemo-nos através de desculpas esfarrapadas, que não encontram base no bom senso do Evangelho. Evocamos, sim, costumes de três mil anos atrás, onde o olho por olho, dente por dente era a Lei.
Desprezando as orientações cristãs nós só poderemos colher a tristeza que vai à nossa volta. A explicação para a violência dos jovens vem da falta de educação espiritual dos pais, que têm como símbolo a seguir, não Jesus, um ser que para muitos parece perdido lá em cima, no espaço. Os ídolos vêm da TV, travestidos de heróis do povo, que podem se chamar Ratinho, Márcia, Valter (ligue Djá!) Mercado... Os textos a serem conhecidos não são os da religião, mas os da novela das oito, onde quem pode mais, chora menos.
Mas é a realidade, poderíamos dizer. Sim, é a realidade da ignorância espiritual do povo, trazendo dor e desilusão para quem vive nela.
Prudentes como a serpente, mansos como as pombas. Meditemos nas palavras de Jesus. Saibamos viver no mundo, mas não como o mundo. Isso não significa sermos alheios ao que nos cerca, ou ainda sofrermos mansamente maus tratos.
O cristão deve conhecer seus direitos de cidadão, e defender-se do mal, não deixando que ele prospere. Jesus nunca condenou a defesa, mas sim a vingança. Isso é prudência, isso é mansuetude.
Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", capítulo 17, item 10, um bom Espírito deu a seguinte mensagem mediúnica: "Não imaginem que, para viver em permanente comunicação com a Espiritualidade amiga, e sob as vistas de Jesus, seja preciso submeter-se ao sofrimento. Não e não, ainda uma vez! Sede felizes, segundo as necessidades humanas, contanto que nessa felicidade não entre jamais nem ato, nem pensamento ofensivo, ou que faça voltar o rosto dos que vos amam e dirigem. Deus ama e abençoa os que amam santamente".

Idolatria na visão Espírita - Luz e Espírito

Os espíritas não adotam imagens, mas entendem que idolatria não é simplesmente adorar imagens de pedra, madeira, gesso, ouro, etc., mas qualquer coisa material. Por exemplo: há sim, quem idolatre "santos", "imagens" com interesse em fazer pedidos, sem buscar seguir seus exemplos de vida e pedidos; mas, há também, quem diga não ter tempo e dinheiro para dispensar à caridade, mas dispensam tempos e dinheiro iguais ou maiores para idolatrar cantores, atores, jogos, festas, etc.; há quem idolatre time de futebol a ponto de reagir violentamente aos que torcem para outros times; há quem idolatre a religião chegando a causar brigas, desentendimentos, inimizades e até guerras contrariando os preceitos morais pregados por ela; há quem reaja a um assalto, com intenção de matar ou morrer, por idolatrar bens materiais; há quem comete adultério escondido do(a) cônjuge ou com a conivência dele(a), em trocas de casais, etc., alegando “apimentar o relacionamento” por idolatrar o sexo; há quem idolatre o dinheiro, o ouro, a fama, etc., de tal forma que, muitas vezes, procuram alcançar o objetivo de maneira ilícita, indígna, imoral, etc.; há quem idolatre pessoas (político, de posição social abastada, etc.), por interesse pessoal; há espírita que alega várias desculpas para faltar uma palestra em sua cidade de um orador desconhecido, mas anda quilômetros e quilômetros em excursão, pagam estadia em hotel, para assistir aquele orador conhecido ou aquele médium “que faz cura” ou coisas relacionadas a fenômenos; há médiuns aceitando a idolatria e impedindo assim, a comunicação com os amigos do bem, no plano espiritual; há espíritas que querem ser idolatrados porque idolatra a vaidade; há espíritas idolatrando cargos e esquecendo os encargos; há quem desrespeite seu corpo físico, contrariando a saúde física, por idolatrar bebida alcoólica, cigarro, drogas em geral, excesso de alimentos. Como vemos, há vários tipos de idolatria. Quando apontamos um idolatra por "imagens", não nos damos conta que também somos idolatras de outras coisas que atrapalham nossa evolução espiritual. 

Como disse Emmanuel: “É indispensável evitar a idolatria em todas as circunstâncias. Suas manifestações sempre representaram sérios perigos para a vida espiritual.”

Como disse Bezerra de Menezes: “O estudo da Doutrina faz adeptos conscientes para a Causa. Quem se aprofunda no conhecimento da Verdade solidifica a fé.”

ESPIRITISMO E IDOLATRIA


ESPIRITISMO E IDOLATRIA

Doutrina de cunho progressista, o Espiritismo não tem em seu arcabouço nenhum princípio que possa levar ao Obscurantismo e aos preconceitos. Por isso, abomina qualquer modalidade de culto externo ou de adoração de imagens, de esculturas.

E oportuno lembrar que o primeiro mandamento do Decálogo é taxativo na condenação do uso de imagens, de esculturas, como forma de adoração: Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. (Êxodo, 20:3-4)

A idolatria sempre exerceu fascinação sobre os povos demasiadamente apegados aos formalismos e propensos às formas exteriores do culto. As raças mais primitivas adotavam-na, porque não concebiam a idéia de adorar algo que não fosse tangível.
Queriam coisas que impressionassem os sentidos: objetos palpáveis, concretos, terra-a-terra, que pudessem ser vistos e tocados. Muitos povos dos tempos modernos ainda pensam dessa maneira.

O apóstolo Paulo de Tarso, (Atos dos Apóstolos, 17:16) um homem de mente arejada, ao visitar Atenas, o seu Espírito ficou comovido em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria.
Percorrendo os templos da cidade, ali constatou a existência de várias esculturas, homenageando os deuses do Paganismo. Entretanto, notou também que os atenienses, na suposição de que houvesse outros deuses por eles desconhecidos, erigiram um altar ao Deus Desconhecido.
Por isso, Paulo proclamou no meio do Areópago: Varões atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos. Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, Deus, que vós honrais, não o conhecendo é o que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, Senhor do Céu e da Terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Nem é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa, pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e as coisas. (Atos, 17:22-25)

A História afirma que, no ano 726 a.D. o imperador do oriente, Leão III Isaurico, no décimo ano do seu reinado, assinou um decreto, abolindo o culto das imagens, declarando-o inadmissível segundo as Sagradas Escrituras. Foram chamados Iconoclastas os que compartilhavam de suas idéias.
Não se sabe ao certo se ele foi induzido pelo exemplo dos muçulmanos, como consequência de abusos supersticiosos, ou por qualquer outra razão. Esse decreto encontrou feroz resistência de todos, e, após a morte de Leão III, tentaram restaurar as estátuas nos altares. Quando da sua decretação, essa lei encontrou bastante adeptos sendo aplaudida por vários bispos.
No ano 730, foi lavrado novo decreto contra o uso de imagens, não só proibindo a sua veneração como até mandando destruí-las. Esse gesto teve também a condescendência do Chefe da Igreja do Oriente e também foi aplaudido por muitos bispos, no tempo do Imperador Constantino V Coprônímo.

O Concílio de Constantinopla, realizado em 754 a.D., declarou a veneração das imagens como "obra do demônio" e grande idolatria, pelo que tratou de destruí-las com mais rigor que anteriormente. Em todos os lugares foram as esculturas retiradas das Igrejas, as pinturas substituídas por paisagens, e quase todos se curvaram à decisão do Concílio.
A Igreja do Ocidente ofereceu resistências porém não foi muito bem-sucedida. Leão, o Armênio, no ano 815, renovou aquele ato, ordenando a destruição das imagens, uma vez que os decretos anteriores haviam sido revogados por alguns dos seus antecessores.

O apóstolo Paulo também combateu a idolatria entre os chamados gentios. Para isso, ele se dirigiu à cidade de Éfeso, juntamente com outros companheiros tentando explicar ao povo que não são deuses os que se fazem com as mãos, que eles não deveriam continuar prestando culto diante dos nichos da deusa Diana.

Entretanto, levantaram-se contra Paulo os ourives da cidade, tendo à frente Demétrio. Formaram uma espécie de motim dentro da cidade; durante duas horas o povo enfurecido gritou: Grande é a Diana dos Efésios. É desnecessário dizer que prevaleceu o fanatismo, e Paulo e seus companheiros tiveram que deixar, apressadamente, a cidade, dada a fúria desenfreada da população, que ameaçava linchá-los.

No O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, encontramos a seguinte explanação sobre a adoração exterior:
"Ela é útil, se não consistir num vão simulacro. É sempre proveitoso dar um bom exemplo, mas os que somente por afetação e amor-próprio o fazem, desmentindo com o proceder a aparente piedade, mau exemplo dão e não imaginam o mal que causam." (Cap. II - Livro Terceiro, perg. 633-a)

Paulo A. Godoy

A Idolatria



Paulo Alves Godoy
“Não são deuses os que se fazem com as mãos” (Atos, 19:26)
O primeiro mandamento do Decálogo prescreve que não se deve fazes escultura alguma do está na terra, no céu ou no mar, debaixo das águas, e nem lhe prestar culto.
Moisés, quando desceu do Monte Sinai, portando as tábuas da lei, viu o seu povo adorar o bezerro de ouro; ficou enfurecido, quebrou as tábuas e ordenou que fossem mortos todos aqueles que adoravam ídolo.
 Não obstante, até mesmo algumas religiões do ramo cristão, que aceitam e adotam dos Dez Mandamentos, persistem na adoração de imagens, mergulhadas que estão, num sistema de franca idolatria.
A história registra que um imperador, chamado Leão III, aboliu a idolatria, no seio da Igreja. Ele e seus seguidores, então, chamados iconoclastas, encontram feroz resistência, tentando-se, após a sua morte, a restauração das estátuas, nos altares. Isaurico, no ano de 726, décimo ano do seu reinado, publicou um decreto contra o culto das imagens, declarando-o inadmissível, segundo as Sagradas Escrituras; não se sabe ao certo, se induzido pelo exemplo dos muçulmanos, ou como conseqüência de abusos supersticiosos, ou por qualquer outra razão. Essa lei foi aplaudida pelos bispos Constantino de Nacólia, na Frigia, Thomaz de Claudiópolis e Theodósio e Éfeso. No ano de 730, foi lavrado novo decreto, contra o uso de imagens, não só proibindo a sua veneração, como, até, mandando destruí-las todas. Esse ato teve a condescendência do chefe da igreja do Oriente, tendo sido aplaudida por muitos bispos, no tempo do imperador Constantino V Caprônio.
O Concílio de Constantinopla, realizado em 754, declarou a veneração das imagens, como “obra do demônio” e grande idolatria. Em todos os lugares, foram as esculturas retiradas das igrejas, as pinturas substituídas por paisagens, e quase todos se curvaram à vontade imperial. A igreja do Ocidente ofereceu resistências, porém, não foi muito bem sucedida. Leão, o armênio, no ano 815, renovou aquele ato, ordenando a destruição das imagens, uma vez que os decretos anteriores haviam sido revogados por alguns dos seus antecessores.
Os que apóiam o uso de imagens, afirmam que se trata, apenas de veneração, e que a adoração, somente, é prestada a Deus.
Não nos consta que os cristãos dos dois primeiros séculos adotassem o costume de adorar ou venerar imagens. Esse hábito foi introduzido após ter o Cristianismo sido oficializado pelo imperador Constantino, no ano 306, pois os pagãos, principalmente os membros da nobreza, não se sentiam bem em humildes casas, desprovidas das imagens dos antigos deuses. A singeleza das casas, onde se reuniam cristãos primitivos, contrastava com a suntuosidade dos templos pagãos, agravada pela ausência das imagens que alegravam as vistas. Procurou-se, então, um meio de agradar os novos conversos do Cristianismo, restaurando-se, nos altares, as figuras petrificadas, agora, com nova roupagem e novo nome.
Muita gente não consegue fazer uma prece a Deus se não estiver frente a uma imagem ou gravura. Para fixar o pensamento e fazer a adoração, precisam contemplar qualquer coisa tangível.
O uso de imagens deixou rastros profundos, até mesmo em muitos daqueles que mudaram de religião. Numa grande Casa Espírita de São Paulo, existe um grande busto de Allan Kardec, moldado em bronze. A casaca do Codificador, já, está bem gasta, em determinado ponto, de tanto os freqüentadores da Casa, ao adentrarem o salão principal da instituição, tocarem-na com os dedos, num gesto de pedir uma benção ou esperar uma graça.
A seu tempo, o apóstolo Paulo de Tarso insurgiu-se contra o uso de imagens, entre os gentios. Para tanto, ele dirigiu-se à cidade de Éfeso, juntamente com outros companheiros, tentando explicar ao povo que “não são deuses os que se fazem com as mãos”, e que não deveriam continuar a prestar homenagem à deusa Diana, através de nichos de prata, geralmente vendidos na cidade.
Entretanto, levantaram-se contra ele os ourives da cidade, inspirado por outro ourives, chamado Demétrio. Formaram, assim, uma espécie de motim, dentro da cidade e, durante duas horas, o povo gritou enfurecido: “Grande é a Diana dos Éfesios”. É desnecessário dizer que prevaleceu o fanatismo, e Paulo e seus companheiros tiveram que deixar, apressadamente, a cidade, dada a fúria fanática da multidão enfurecida.
O Espiritismo não adota o uso de imagens ou quaisquer outros objetos de adoração. Sendo uma doutrina que vem a fim de cumprir a sentença de Jesus: “Conheça a verdade e ela vos fará livres”, ano poderá, de forma alguma, consagrar essas esdrúxulas formas de adoração ou veneração, pois conforme sentenciou o Mestre à mulher samaritana: “Deus é Espírito e, em Espírito, deverá ser adorado pelos verdadeiros adoradores”.  (Unificação - nov-84/jan-85 - São Paulo-SP)
Tribuna Espírita - Setembro/Outubro de 2000

Ídolos



"Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos Ídolos." - (ATOs, capítulo 15, versículo 29.)
Os ambientes religiosos não perceberam ainda toda a extensão do conceito de idolatria.
Quando nos referimos a ídolos, tudo parece indicar exclusivamente as imagens materializadas nos altares de pedra. Essa é, porém, a face mais singela do problema.
Necessitam os homens exterminar, antes de tudo, outros ídolos mais perigosos, que lhes perturbam a visão e o sentimento.
Demora-se a alma, muitas vezes, em adoração mentirosa.
Refere-se o versículo às "coisas sacrificadas aos ídolos", e o homem está rodeado de coisas da vida. Movimentando-as, a criatura enriquece o patrimônio evolutivo. Ë necessário, no entanto, diferenciar as que se encontram consagradas a Deus das sacrificadas aos ídolos.
A ambição de alcançar os valores espirituais, de acordo com Jesus, chama-se virtude; o propósito de atingir vantagens transitórias no campo carnal, no plano da inquietação injusta, chama-se insensatez.
Os "primeiros lugares", que o Mestre nos recomendou evitemos, representam Ídolos igualmente. Não consagrar, portanto, as coisas da vida e da alma ao culto do imediatismo terrestre, é escapar de grosseira posição adorativa.
Quando te encontres, pois, preocupado com os insucessos e desgostos, no círculo individual, não olvides que o Cristo, aceitando a cruz, ensinou-nos o recurso de eliminar a idolatria mantida em nosso caminho por nós mesmos.
Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Caminho, Verdade e Vida. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 28 edição. Capítulo 126. Brasília: FEB. 2009.

Idolatria


 04/04/2006

Francisco Aranda Gabilan 

“Não vos façais, pois, idólatras”
Paulo, I Coríntios, 10:7

No sentido mais geral, idolatria significa o ato de prestar culto divino a criaturas, mas se vulgarizou como a adoração aos ídolos. Ídolo, no sentido que aqui será abordado, é a estátua, a figura, a imagem que representa uma divindade e que é objeto de adoração.

No passado remoto, especialmente antes e ao tempo de Jesus, os povos, com exceção dos hebreus, eram politeístas e, em conseqüência, idólatras, pois que adoravam toda a sorte de divindades, elegendo um deus para cada circunstância, necessidade, ou desejo da vida: por exemplo, chuva, vento, fogo, riqueza, beleza, colheita, amor, sexo e dezenas ou centenas de outros.

Parece incrível que passados milênios - e mais especialmente depois da mensagem clara e precisa do Cristo da existência de um Criador, em tudo e por tudo conceituado como causa fundamental de todas as coisas, ou, como quer a ciência moderna, o princípio fundamental do Universo, o “agente estruturador” ou “agente atuante” inicial - ainda as criaturas precisam de símbolos e imagens materiais para expressar a “sua fé”. Colocamos entre aspas, porquanto fé não é crença mística em qualquer objeto, mas a confiança que se tem na realização de uma coisa, a certeza de atingir determinado fim, movimentada pela vontade de atingi-lo; e ainda: ter apoio na inteligência (alijando o misticismo) e ter apoio na compreensão das coisas e das causas (apoiada nos fatos e na lógica).

Ensina-nos a espiritualidade que a adoração de imagens e objetos, os cultos exteriores constituem-se em “venenoso processo de paralisia da alma” pois que, representa um perigo sutil através do qual “inúmeros trabalhadores têm resvalado para o despenhadeiro da inutilidade.”

Não se pense que os Espíritos comprometidos com a evolução e moralização dos seres estão apenas criticando as seitas e religiões que usam da idolatria com a intenção de manter viva a chama da fé ou a manutenção dos seus cultos. Não, os Espíritos chamam a atenção para o fato de que no próprio meio espírita cristão, apesar de erguida a bandeira da fé raciocinada, ainda são encontradas criaturas “tentando a substituição dos ídolos inertes pelos companheiros de carne e osso da experiência comum, quando chamados ao desempenho da responsabilidade mediúnica”. Vale dizer que, muitas vezes, “as homenagens inoportunas costumam perverter os médiuns dedicados e inexperientes, além de criarem certa atmosfera de incompreensão que impede a exteriorização espontânea dos verdadeiros amigos do bem, no plano espiritual.” “Criar ídolos humanos é pior que levantar estátuas destinadas à adoração. O mármore é impassível, mas o companheiro é nosso próximo de cuja condição ninguém deveria abusar.”

A Espiritualidade adiciona ainda que o culto das imagens nos altares de pedra é a face mais singela do problema. Existem ídolos mais perigosos e traiçoeiros que os homens necessitam exterminar e que lhes perturba a visão e o sentimento: o culto do imediatismo terrestre com o propósito de atingir vantagens transitórias no campo material, a inquietação constante e descabida, a excessiva preocupação com os insucessos e desgostos, que levam a criatura humana a buscar na Doutrina ou na mediunidade soluções mágicas. Isso é também uma forma corrosiva de idolatria.

A recomendação é que alijemos de nós a idolatria de qualquer natureza (sem converter essa luta em iconoclastia e violência, ou seja, ataques físicos a imagens e assaques a outras crenças e religiões), mas com respeito às convicções alheias, trabalhando na libertação da mente das pessoas pelo nosso exemplo de edificações.

Conservemos, pois, a luz da consolação, a bênção do concurso fraterno, a confiança em nossos Maiores e a certeza na proteção deles; contudo, não olvidemos o dever natural de seguir para o Alto, utilizando os próprios pés. Devemos, sim, combater os ídolos falsos que ameaçam às vezes o Espiritismo, mas lembre-se cada discípulo de Jesus dos amplos recursos da lei de cooperação, atirando-se ao esforço próprio com sincero devotamento à tarefa, lembrando-se todos de que “no apostolado do Mestre Divino, o amor e a fidelidade a Deus constituíram o tema central”.

Francisco Aranda Gabilan

F. A. Gabilan, Entre o Pecado e a Evolução, pg. 53,
Emmanuel, Pão Nosso, cap. 52
Emmanuel, O Espírito da Verdade, cap. 72
Idem, 2
Idem 2, cap. 150
Emmanuel, Caminho, Verdade e Vida, cap. 126
Idem
Idem, 2

Cisco



Texto publicado na Folha Espírita em junho de 2007 .
Richard Simonetti

A idolatria, a admiração exagerada por alguém, velha tendência humana, é um perigo para quem a cultiva.
Costuma neutralizar a razão, induzindo a exageros e desajustes variados.
Exemplo típico está no comportamento de determinados segmentos da população alemã em relação a Adolf Hitler (1889-1945). Seus simpatizantes viam nele o líder carismático, capaz de feitos heróicos, sem perceber os abismos em que ele estava precipitando a nação.
A todos contaminava com sua pretensão visionária de edificar um grandioso império ariano, que governaria o mundo por mil anos.
A idolatria é um perigo maior, para quem é objeto dela.
Tende a incensar sua vaidade, levando o indivíduo a posturas inadequadas e perturbadoras.
Não fosse o apoio das multidões que aplaudiam sua insanidade e, certamente, Hitler não teria produzido estragos tão graves, contabilizando perto de 40 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, a maior tragédia produzida pelo homem em todos os tempos.
Os verdadeiros líderes, aqueles que realmente são importantes, os que fazem a diferença, rejeitam com veemência o rótulo de ídolos, não só por reconhecerem as próprias limitações, mas, também, por terem consciência dos problemas que a idolatria pode lhes acarretar.
Chico, merecidamente, era reconhecido, ainda em vida, como uma das figuras mais marcantes do século XX. Sua contribuição em favor da paz e do progresso humano foi inestimável.
Os livros que psicografou representam um desdobramento da Doutrina Espírita, complementando a Codificação e nos oferecendo uma gloriosa visão da vida espiritual.
O Espiritismo pode ser dividido em antes e depois de Chico.
Na série Nosso Lar, por ele psicografada, André Luiz nos oferece ampla e esclarecedora visão do mundo espiritual, e do inter-relacionamento entre os dois planos, como jamais se viu.
Essa série portentosa de livros, que recebeu nas décadas de 1940 e 50, seria suficiente para consagrá-lo como o que se convencionou chamar de “médium revelador”, por intermédio do qual desenvolve-se o conhecimento espírita.
Não obstante, furtando-se aos perigos de um envolvimento com a idolatria, Chico dizia, humildemente, quando  aclamavam seu nome:
– Sou cisco Xavier, apenas um cisco na ordem das coisas.
Numa entrevista, afirmou:
– Considero-me, na mediunidade, um animal em serviço. Eu sou um animal a serviço dos bons espíritos, e nunca fiz mistério disto. E todas as vezes em que me externei a respeito do assunto, nunca me vi, absolutamente, como uma pessoa privilegiada. Sou uma criatura de condição muito primitiva. Não sei como os espíritos me suportam. Cada vez mais eu sinto a minha desvalia, porque nada tenho a dar de mim. O problema da idolatria corre por conta daqueles que gostam dos mitos.
Importante, em relação ao assunto, prezado leitor, o fato de que a postura de Chico não era “pra inglês ver”, sinalizando humildade aparente.
Os que conviveram com ele são unânimes em afirmar sua absoluta simplicidade e despretensão, exercitando aquela grandeza legítima que é o reconhecimento da própria pequenez.
A postura de Chico foi um exemplo e, ao mesmo tempo, uma advertência quanto aos cuidados que devemos ter no exercício de atividades espíritas.
O primeiro recurso usado pelos espíritos obsessores, quando pretendem afastar o trabalhador do serviço, é incensar sua vaidade, alimentando a pretensão de que é uma luz que brilha na constelação espírita, com contribuição marcante em favor do movimento.
Se queremos realmente produzir na Seara Espírita, é bom imitar Chico, situando-nos como um cisco diante da Doutrina.
Se não o fizermos, é bem provável que tenhamos nossa visão turvada por outro cisco, extremamente perturbador, que, invariavelmente, compromete a ação de muitos companheiros – a vaidade.

ÍCONES


ÍCONES

"ENTRETANTO, ABANDONANDO DE TODO A IDOLATRIA,
OS JUDEUS DESPREZARAM A LEI MORAL, PARA SE AFER-
RAREM AO MAIS FÁCIL: A PRÁTICA DO CULTO EXTERIOR.
E.S.E. CAPÍTULO 18, ÍTEM 2
A palavra integral significa por inteiro, total. Quando, mencionamos o homem integral, estamos referindo ao ser na sua completude, a integração de todas as suas "partes" num todo.
O homem integral harmoniza os seus opostos e resgata a sua "identidade original", já que ao longo da caminhada evolutiva estruturou uma imagem "irreal" de Eu Divino no espelho da vida mental que nomeamos com. "falso eu", com a qual temos caminhado há milênios no trajeto da evolução.
A vida é dialética, tem aparentes contradições, porque consiste de opostos que são, em verdade, complementares. Basta observar: noite e dia, vida e morte, verão e inverno, razão e intuição, bem e mal, claro e escuro, masculino e feminino. Sem os opostos não existe a vida.
Aprendemos, no entanto, a estabelecer divisões, uma visão cartesiana de partir o indivisível, estabelecendo assim a luta contra o que se convencionou considerar como sendo mau, não aceitável, feio e inutilizável. Nasce então conflito, a perturbação, a cobrança.
Olhar "as duas faces da moeda" é uma grande sabedoria de vida. É uma atitude saudável a ser cultivada, com cuidado no processo de transformação, que é a grande razão de nossa peregrinação pela Terra.
Luz e sombra são opostos. No entanto, uma depende da outra, assim como o passo da perna direita depende do passo da perna esquerda. Luz e sombra, perfeição e imperfeição são faces de uma mesma estrutura da alma, razão pela qual será impróprio adotar o conceito de eliminação para os assuntos da vida interior. Nunca eliminamos uma "parte", a integramos.
Contudo, esse processo de integração gera um doloroso sentimento de perda, necessário ao progresso. Perde-se o velho para construir o novo. Na verdade efetuamos uma reconstrução marcada por etapas desafiantes. Perde-se a "velha identidade" e não se sabe como construir o que se deve ser agora", a "nova identidade".
O conhecimento espírita é uma mola propulsora de semelhante operação da vida mental. Ao adquirir a noção da imortalidade, a alma sensibiliza-se para novas escaladas. Decide pela transformação, mas observa de pronto que mudar não é tarefa simples, que se concretiza de hora para outra. Assim, enquanto a criatura não constrói o homem novo e singular, único e incomparável que todos deveremos erguer na intimidade, ocorre um natural processo de imitação que o leva a "fazer cópias" de conduta do que lhe parece ser ideal. São os "estereótipos espíritas" - referências que adotamos, espontaneamente, para avaliar o proceder perante a nova visão de vida.
Por um tempo esse será o caminho natural da maioria dos candidatos à renovação de si mesmos. Carecem de referências externas que funcionam como bóias indicadoras para sua elaboração interior dos conhecimentos novos. Um livro, um palestrante, um devotado seareiro da caridade ou mesmo um amigo espiritual poderão se tornar bússolas para o progresso pessoal, o que é muito natural.
Porém, semelhante identificação natural pode adoecer em razão de vários fatores dolorosos para a alma em reforma íntima, ensejando que essa relação educativa com os referenciais caminhe para matizes diversos. Um dos mais comuns desvios nesse tema é a idolatria.
Idolatria é o excessivo entusiasmo e admiração por uma pessoa com a qual partilhamos ou não a convivência.
São oradores, médiuns e trabalhadores que costumam destacar-se pelas virtudes ou pelas experiências, e que são tomados à conta de ícones, com os quais delineamos a noção pessoal de "limite máximo" ou "modelo" para os novos passos assumidos na caminhada espiritual.
Os ícones na história grega são as divindades que representam valores excelsos e santificados.
Sem considerar os naturais sentimentos de admiração e entusiasmo dirigidos a quem fez por merecê-los, quase sernpre nas causas dessa idolatria encontra-se o mecanismo defensivo da mente, pelo qual é projetado no outro aquilo que gostaríamos de ser.
Dois graves problemas, entre os muitos, decorrem dessa relação idólatra: as exageradas expectativas e a prisão aos estereótipos.
As expectativas transferidas ao ícone carreiam desejos e anseios que se tornam âncoras de segurança para os problemas individuais. Caso a criatura habitue-se ao conforto de "escorar-se" psicologicamente no outro e fugir do seu esforço auto-educativo, passará ao terreno das ilusões, sentindo-se e acreditando-se tão virtuosa ou capaz quanto ele. Ocorre então uma absorção da "identidade alheia" como se fosse sua ... É como "ser alguém" através dos valores do outro.
Quanto aos estereótipos, vamos verificar uma outra questão que tem trazido muitos desajustes: o hábito de dogmatismo, uma velha tendência humana de ouvir a palavra dos "homens santificados" pela hierarquia religiosa.
Pessoas que se tornam carismáticas pela sua natural forma de ser ou pelo valoroso desempenho doutrinário são comumente, colocadas como "astros" ou "missionários" de grande envergadura, fazendo, de seu proceder e de suas palavras, idéias conclusivas e definitivas sobre as mais diversas vivências da espiritualidade, ou sobre quaisquer problemáticas humanas, como se possuíssem a visão integral de tais questões.
Quaisquer dessas vivências, expectativas elevadas ou criação de modelos podem nos trazer muita decepção e revolta. Somos todos aprendizes, uns com mais, outros com menos experiência. Todos, no entanto, sem exceção, como aprendizes do progresso e gestores do bem. Podemos sempre aprender algo com alguém, desde que tenhamos visão e predisposição à alteridade. O que hoje entendemos como sendo excepcional em alguém, amanhã poderá não ser tão útil para nossa percepção mutável e ascensional.
Por mais bem sucedida a reencarnação na melhoria espiritual, isso será apenas o primeiro passo de uma longa jornada. Então porque glórias fictícias com ídolos de pés de barro?
Missionários e virtuosos? São muito raros na Terra.
Para conhecê-los é muito fácil, nenhum deles aceita uma relação de idolatria, enquanto verifica-se outro gênero de conduta com muitos que se julgam ou são julgados como tais.
Muita vez os "ídolos espíritas" que miramos não suportariam ter feridas as cordas dos interesses pessoais. Bastaria alguém cumprir o dever - ainda poucas vezes exercido - de questioná-los com fraternidade para se rebelarem. Acostumou-se tanto a essa convenção em nossos ambientes de cristianismo redivivo, que já não se indaga ou filosofa, apenas se crê. Especialmente se determinadas fontes consagradas, sejam homens, instituições ou mesmo desencarnados, expedem idéias ou teorias, não se pesquisa, não se analisa com a prudência que manda o bom senso, apenas crê-se.
Não existem debates e, o que é mais lamentável, muitos corações incensados pela reverência excessiva não fazem nada para dela afastarem os menos vividos, os quais terminam, em muitos casos, como pupilos mimados e protegidos que fazem escolas ...
Apesar da constatação desses malefícios, tudo isso faz parte da seqüência histórica de nossas vidas. Quando refletimos sobre a questão é no intuito de chamar a atenção de todos nós para os prejuízos de continuarmos cultivando semelhantes expressões de infantilidade emocional. Existe, de fato, uma velha tendência que nos acompanha, a qual podemos declinar como "hábito da canonização psíquica".
Muitos ídolos adoram as bajulações e burburinhos em torno de seu nome. São folgas que não deveríamos buscar para nossa vida!
Os ídolos deveriam se educar e educar os outros para assumirem a condição de condutores, aqueles que lideram promovendo, libertando, e não fazendo "coleção de admiradores" para alimentar seu personalismo.
Como bons espíritas, apenas começamos os serviços de transformar a auto-imagem de orgulho, profundamente cristalizada nos recessos da mente. Quando adornamo-nos com qualidades e virtudes que imaginamos possuir, perdemos a oportunidade de sermos nós mesmos, de eleger a autenticidade como nossa conduta, de construir o quanto antes a "nova identidade" que almejamos.,
Inspiremo-nos em nossas referências, todavia, não façamos deles ídolos. Ouçamo-los, tiremos o proveito de suas conquistas, os respeitemos e façamos tudo isso com equilíbrio, nem mais, nem menos.
Retifiquemos os nossos conceitos sobre lideranças no melhor proveito das oportunidades das sementeiras espíritas.
Líderes autênticos são dinamizadores incansáveis da criatividade e dos valores alheios. São estimuladores das singularidades humanas.
Por isso suas qualidades são empatia, confiança, capacidade de descobrir pendores.
Líderes que se integram na dinâmica de "agentes da obra do Pai" assumem a postura de serem livres, sem apego às suas vitórias ou realizações.
Sua alegria reside em ser útil e ver as obras sob sua tutela crescerem em satisfação coletiva.
Dirigir, à luz das claridades espíritas, é valorizar o distinto, o diferente, e não apenas os semelhantes, atendendo sempre ao bem geral. Isso se chama conduta de alteridade.
Expoentes sempre surgirão. O que importa é o que faremos deles ou com eles. Evitemos também a substituição que tem se tornado freqüente: não os deixemos para aferrarmos às práticas. A isso se referia Kardec quando disse: "Entretanto, abandonando de todo a Idolatria, os judeus desprezaram a lei moral, para se aferrarem ao mais fácil: a prática do culto exterior."
Espírito Ermance Dufaux