Estudando o Espiritismo

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domingo, 12 de junho de 2016

Maus Pensamentos


Cada pessoa é responsável por seus pensamentos, palavras e atos. Um pensamento imbuído de qualquer conotação visando ao mal de alguém ou algo, mesmo que não concretizado, gera efeitos em si e no ambiente, pelos quais a pessoa se torna responsável.

Jesus, na passagem de Mateus 05:27-28, assim se expressa a respeito do adultério:

“Tendes ouvido que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que põe seus olhos em uma mulher, para a cobiçar, já no seu coração adulterou com ela.”

O Mestre, nessa citação, se refere ao adultério já cometido pelo mero pensamento orientado a uma má ação. Analisemos as expressões “mau pensamento” e “adultério”, e posteriormente ponderemos acerca das consequências do pensamento desregrado.

Como podemos entender o que é um mau pensamento? Uma consulta à nossa consciência trará a informação sobre a ideia ser contrária ao bem do próximo e à nossa própria harmonia. Em mensagem mediúnica datada de novembro de 1859 e publicada na Revista Espírita de janeiro de 1860, encontramos a seguinte orientação:

“Distinguem-se os bons dos maus pensamentos, porque os primeiros podem, sem nenhum receio, ser transmitidos a todo o mundo, ao passo que os últimos não poderiam, sem perigo, ser comunicados senão a alguns. Quando vos vier um pensamento, para julgar de seu valor perguntai-vos se podeis torná-lo público sem inconveniente e se não fará mal: se vossa consciência vo-lo autorizar, não temais, vosso pensamento é bom.” [1]

A palavra adultério deriva do termo do latim adulterare, que significa alterar, corromper. Este verbete é formado pela combinação de ad (ir a; direção), e alter (outro). Portanto, a palavra adultério vai além da questão da fidelidade conjugal, mas se refere à traição de quaisquer princípios. Também na Bíblia, essa acepção ampla é utilizada, segundo estudos citados pelo pesquisador Carlos Torres Pastorino:

“Concordam com isso Pirot (...) que diz serem adúlteros ‘os infiéis a seu deus’ (sic); e o jesuíta Padre Max Zerwick (Analysis Philogica Novi Testamenti Graeci, Roma, 1960, pág. 31): defectio a Deo; qui cum populo suo quasi matrimonio se junxit, adulterium in Vetere Testamento appellatur, isto é, o afastamento de Deus que se uniu a seu povo como em matrimônio, é chamado adultério, no Antigo Testamento”. [2]

Allan Kardec também analisou esse termo, no capítulo VIII de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, sobre o qual orientou:

“A palavra adultério não deve absolutamente ser entendida aqui no sentido exclusivo da acepção que lhe é própria, porém, num sentido mais geral. Muitas vezes Jesus a empregou por extensão, para designar o mal, o pecado, todo e qualquer pensamento mau, como, por exemplo, nesta passagem: ‘Porquanto se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, dentre esta raça adúltera e pecadora, o Filho do homem também se envergonhará dele, quando vier acompanhado dos santos anjos, na glória de seu Pai.’ (S. Marcos, cap. VIII, v. 38.)
A verdadeira pureza não está somente nos atos; está também no pensamento, porquanto aquele que tem puro o coração, nem sequer pensa no mal. Foi o que Jesus quis dizer: ele condena o pecado, mesmo em pensamento, porque é sinal de impureza.” [3]

Encontramos, portanto, no Evangelho, a informação de que apenas um pensamento orientado ao mal já é um erro. Surge, assim, a questão: há consequências de uma ideia má, ainda que não concretizada? A Codificação Espírita orienta que, quanto mais evoluído o Espírito, tanto mais elevada é a vibração de seus pensamentos e, portanto, maus pensamentos são indício de progresso ainda por alcançar. Contudo, a própria constatação de termos elaborado um mau pensamento pode auxiliar na análise da evolução do Espírito, se ele o analisar e repelir. A respeito desse tema, o Codificador da Doutrina Espírita ponderou:

“Esse princípio suscita naturalmente a seguinte questão: Sofrem-se as consequências de um pensamento mau, embora nenhum efeito produza?
Cumpre se faça aqui uma importante distinção. À medida que avança na vida espiritual, a alma que enveredou pelo mau caminho se esclarece e despoja pouco a pouco de suas imperfeições, conforme a maior ou menor boa vontade que demonstre, em virtude do seu livre-arbítrio. Todo pensamento mau resulta, pois, da imperfeição da alma; mas, de acordo com o desejo que alimenta de depurar-se, mesmo esse mau pensamento se lhe torna uma ocasião de adiantar-se, porque ela o repele com energia. É indício de esforço por apagar uma mancha. Não cederá, se se apresentar oportunidade de satisfazer a um mau desejo. Depois que haja resistido, sentir-se-á mais forte e contente com a sua vitória.
Aquela que, ao contrário, não tomou boas resoluções, procura ocasião de praticar o mau ato e, se não o leva a efeito, não é por virtude da sua vontade, mas por falta de ensejo. É, pois, tão culpada quanto o seria se o cometesse.
Em resumo, naquele que nem sequer concebe a ideia do mal, já há progresso realizado; naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se; naquele, finalmente, que pensa no mal e nesse pensamento se compraz, o mal ainda existe na plenitude da sua força. Num, o trabalho está feito; no outro, está por fazer-se. Deus, que é justo, leva em conta todas essas gradações na responsabilidade dos atos e dos pensamentos do homem.” [4]

Autor: Stefano do Nascimento Genachi

Todo pensamento é força criadora; é irradiado no ambiente e, por isso, traz consequências boas ou más e atrai inteligências encarnadas e desencarnadas com ideias semelhantes, de acordo com seu teor orientado ao bem ou ao mal, independente do pensamento ter implicado ações concretas, e sem correlação com haver mediunidade ostensiva. Toda inspiração, positiva ou negativa, que recebermos, provém da sintonia que nós mesmos estabelecermos. Não há privilegiados, que recebam inspirações elevadas imotivadamente; sua boa sintonia, permeada por ações em prol do Bem do próximo, fê-los receptivos a energias positivas. O mesmo raciocínio se aplica a quem fez sintonias indevidas e recebe inspirações não identificadas com o Bem. André Luiz, na obra “Nosso Lar” [5], transmite as palavras da Ministra Veneranda, acerca do tema:

“Todos sabemos que o pensamento é força essencial, mas não admitimos nossa milenária viciação no desvio dessa força. Ora, é coisa sabida que um homem é obrigado a alimentar os próprios filhos; nas mesmas condições, cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares. Uma ideia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza; um princípio elevado obedecerá à mesma lei. Recorramos a símbolo mais simples. Após elevar-se às alturas, a água volta purificada, veiculando vigorosos fluidos vitais, no orvalho protetor ou na chuva benéfica; conservemo-la com os detritos da terra e fá-la-emos habitação de micróbios destruidores. O pensamento é força viva, em toda parte; é atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos, a Causa e os Efeitos, no Lar Universal. Nele, transformam-se homens em anjos, a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos, a caminho do inferno.”

A Lei de Planck da Radiação indica que, quanto mais alta a frequência irradiada, maior a quantidade de energia. Verificamos, assim, que pensamentos orientados ao Bem, possuidores de frequência vibratória mais alta, também nos trazem maior energia. Pensamentos orientados ao mal, portadores de energia inferior, são tóxicos. Mesmo que nenhum encarnado saiba o que estamos pensando, o reforço de pensamentos de energias mais baixas nos intoxica, como se estivéssemos, de forma deliberada e regular, a tomar veneno, o qual nos fará mal, independente de alguém saber que o estamos ingerindo. Vejamos o que Kardec informa acerca da atmosfera espiritual:

“Se agora se considerar que os pensamentos atraem os pensamentos da mesma natureza, que os fluidos atraem os fluidos similares, compreende-se que cada indivíduo traga consigo um cortejo de Espíritos simpáticos, bons ou maus, e que, assim, o ar seja saturado de fluidos em relação com os pensamentos que predominam. Se os maus pensamentos forem em minoria, não impedirão que as boas influências se produzam, pois estas os paralisam. Se dominarem, enfraquecerão a irradiação fluídica dos Espíritos bons, ou, mesmo, por vezes impedirão que os bons fluidos penetrem nesse meio, como o nevoeiro enfraquece ou detém os raios do sol.
Qual é, pois, o meio de se subtrair à influência dos maus fluidos? Esse meio ressalta da própria causa que produz o mal. Que se faz quando se reconhece que um alimento é prejudicial à saúde? É rejeitado e substituído por outro mais saudável. Já que são os maus pensamentos que engendram os maus fluidos e os atraem, devem-se envidar esforços para só os ter bons, repelir tudo o que é mau, como se repele um alimento que nos pode tornar doentes; numa palavra, trabalhar por seu melhoramento moral e, para nos servirmos de uma comparação do Evangelho, ‘não só limpar o vaso por fora, mas, sobretudo, limpá-lo por dentro’.
(...)
Isto é uma utopia, um discurso vão? Não; é uma dedução lógica dos próprios fatos, que o Espiritismo revela diariamente. Com efeito, o Espiritismo nos prova que o elemento espiritual, que até o presente tem sido considerado como a antítese do elemento material, tem com esse último uma conexão íntima, donde resulta uma porção de fenômenos não observados ou incompreendidos. Quando a Ciência tiver assimilado os elementos fornecidos pelo Espiritismo, ela aí colherá novos e importantes elementos para o melhoramento material da Humanidade.” [6]

Creiamos ou não, no mero ato de pensarmos no mal para alguém ou algo, desarmonizamos poderosas energias, as quais poderiam ser destinadas ao auxílio ao próximo e, por decorrência, a nós mesmos. Ponderemos o pensamento do Codificador a esse respeito:

“Se se pudesse suspeitar do imenso mecanismo que o pensamento aciona e dos efeitos que ele produz de um indivíduo a outro, de um grupo de seres a outro grupo e, afinal, da ação universal dos pensamentos das criaturas umas sobre as outras, o homem ficaria assombrado! Sentir-se-ia aniquilado diante dessa infinidade de pormenores, diante dessas inúmeras redes ligadas entre si por uma potente vontade e atuando harmonicamente para alcançar um único objetivo: o progresso universal.
Pela telegrafia do pensamento, ele apreciará em todo o seu valor a lei da solidariedade, ponderando que não há um pensamento, seja criminoso, seja virtuoso, ou de outro gênero, que não tenha ação real sobre o conjunto dos pensamentos humanos e sobre cada um deles. Se o egoísmo o levava a desconhecer as consequências, para outrem, de um pensamento perverso, pessoalmente seu, por esse mesmo egoísmo ele se verá induzido a ter bons pensamentos, para elevar o nível moral da generalidade das criaturas, atentando nas consequências que sobre si mesmo produziria um mau pensamento de outrem.” [7]

A prece é um poderoso auxiliar na busca de melhor orientarmos nossos pensamentos. Orar também é formular um pensamento, e a prece de teor nobre, ou prece vertical, busca uma sintonia de frequência e energia superiores, afastando a sintonia com vibrações de teor energético inferior. No capítulo XXVIII de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Kardec traz diversos exemplos de prece, dentre as quais algumas destinadas a pedir inspiração para afastar maus pensamentos. Essas preces não se destinam a ser repetidas palavra por palavra. Trata-se de sugestões do teor dos agradecimentos e rogativas que se podem apresentar aos Espíritos Superiores, os quais sempre estão dispostos a nos ajudar, porém só podem fazê-lo se nos fizermos receptivos a tal auxílio. Vejamos dois exemplos de preces sugeridas:

“Espíritos esclarecidos e benevolentes, mensageiros de Deus, que tendes por missão assistir os homens e conduzi-los pelo bom caminho, sustentai-me nas provas desta vida; dai-me a força de suportá-las sem queixumes; livrai-me dos maus pensamentos e fazei que eu não dê entrada a nenhum mau Espírito que queira induzir-me ao mal. Esclarecei a minha consciência com relação aos meus defeitos e tirai-me de sobre os olhos o véu do orgulho, capaz de impedir que eu os perceba e os confesse a mim mesmo.” [8]

“Deus Todo-Poderoso, não me deixes sucumbir à tentação que me impele a falir. Espíritos benfazejos, que me protegeis, afastai de mim este mau pensamento e dai-me a força de resistir à sugestão do mal. Se eu sucumbir, merecerei expiar a minha falta nesta vida e na outra, porque tenho a liberdade de escolher.” [9]

Leia também, neste blog, as postagens “Focos de desequilíbrio espiritual”, “Pecado — Hamartia — Peccatu”, “O Bem e o Mal”, “Influência do Meio”, “Fluido Universal” e “A Prece 1 e 2”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de janeiro de 1860”. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro, RJ. FEB 2004. “Conselhos de Família (Segunda sessão)”.
[2] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 5, capítulo “O sinal celeste”.
[3] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo VIII, item 6.
[4] Ibidem, item 7.
[5] XAVIER, Francisco Cândido. “Nosso Lar”. Pelo Espírito André Luiz. 23ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB, 1981. Capítulo 37.
[6] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de maio de 1867”. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro, RJ. FEB 2004. “Atmosfera Espiritual”.
[7] KARDEC, Allan. “Obras Póstumas”. 34ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1991. Primeira Parte. “Fotografia e telegrafia do pensamento”.
[8] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo XXVIII, item 12.
[9] Ibidem, item 21.



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