Estudando o Espiritismo

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domingo, 24 de outubro de 2021

Perispírito e Chacras - Elzio Ferreira de Souza

 4 - Perispírito e Chacras


Elzio Ferreira de Souza


O perispírito, mais tarde, será objeto de mais amplos estudos das escolas espiritistas cristãs. (Libertação, 1949:85)


Entre as mensagens recolhidas em O Livro dos Médiuns, obra publicada em 1861, registrou Allan Kardec um texto de Lamennais (Espírito) em que este se refere à pesquisa da alma empreendida no mundo espiritual, em contraposição à pesquisa do perispírito que os espíritas começavam a empreender (n" 51). Notáveis magnetizadores como De Rochas, Baraduc, Durville, Lefranc e Charles Lancelin empreenderam mais tarde uma série de pesquisas que lhes possibilitou a sustentação da natureza complexa do corpo espiritual, ou seja, o reconhecimento da existência de vários corpos intermediários entre o Espírito e o corpo físico. As investigações dos metapsiquistas europeus forneceu-nos alguns elementos sobre a materialização dos Espíritos utilizando-se o ectoplasma exsudado pelos médiuns. Por seu lado, os teosofistas resolveram buscar na literatura da índia apoio para suas investigações, comparando as experiências de seus clarividentes com as milenares referências aos Corpos espirituais e a sua fisiologia. No Espiritismo, o médico português Antônio J. Freire, no livro Da Alma Humana, por sua vez, recolheu as lições de Allan Kardec e buscou compará-las e ampliá-las com as experiências dos magnetizadores. Não se fizeram muitos avanços. Mas os Espíritos White Eagle, na Inglaterra, e André Luiz, no Brasil, iniciaram uma série de referências aos corpos espirituais e à sua constituição.


O assunto durante muito tempo pareceu não colher a atenção dos que se dedicavam aos estudos espíritas. Os jovens da Juventude Espírita Manuel Miranda, da União Espírita Bahiana, no final da década de 1960, começaram a estudar os chacras.

No entanto contavam apenas com o livro de Charles Webster Leadbeater (Os Chacras) para informação de apoio, além das obras de André Luiz que tinham sido publicadas.


Edgard Armond aventurou referências ao sistema de chacras, com base em Leadbeater e André Luiz. Na série de artigos que publicamos no jornal Mundo Espírita, sob o título geral Atualidade de Allan Kardec, dedicamos um estudo às revelações de André Luiz sobre multiplicidade de corpos em comparação com as lições constantes da obra kardecista, nos primórdios da Doutrina {Os Corpos Espirituais, 30/9/1967). Em 1985, resolvemos publicar uma apostila (mimeografada), intitulada Os Chacras e a Mediunidade, com a finalidade de recolher alguns textos sobre o assunto publicados no estrangeiro (de Michel Coquet, de Mircea Eliade, de Grace Cooke, de White Eagle [Espírito] e de Hiroshi Motoyma, cujo livro Teoria dos Chacras ainda não tinha sido traduzido àquela época), facilitando o estudo do assunto, porque apenas o citado livro de Leadbeater fora traduzido para o português.


Mas, em face mesmo dessa dificuldade, empreendemos escrever uma introdução que permitisse uma melhor compreensão do assunto, acrescentando uma série de notas elucidadoras e um resumo das primeiras experiências sobre a visão dos chacras que havíamos recolhido no Círculo Espírita da Oração. Depois disso, a literatura espiritualista no Brasil ganhou uma série de traduções de livros tratando sobre os chacras, mas, infelizmente, nem sempre de boa qualidade, e cujas traduções deixam, às vezes, a desejar, tantos são os enganos cometidos. Com a realização do 1º Congresso da Associação Médico-Espírita do Brasil, surgiu a oportunidade de aviventar o assunto, importante não só para médicos e psicólogos, mas para os que lidam no terreno mediúnico. Tratar com seriedade a matéria, é mais que necessário, evitando que as mentes sejam entorpecidas com fantasias de divulgadores de ocasião. Fundamentar estudos em literatura confiável e na experiência torna-se imprescindível.


Há necessidade de comparar o material que pudermos obter no campo espírita com a literatura oriental mais que milenar. Ao relacionar o corpo mental, André Luiz acentuou, em Evolução em Dois Mundos (1959:25n) não poder defini-lo "com mais ampla conceituação, além daquela com que tem sido apresentado pelos pesquisadores encarnados, e isto por falta de terminologia adequada no dicionário terrestre". Não houve interesse; em estudar a matéria nas fontes aludidas por ele. Achamos, portanto, indispensável buscar a literatura fundamental sobre o lema para nossa exposição. A recomendação de não desprezai- o material antigo vem dos próprios Espíritos na questão n" 628 de O Livro dos Espíritos e do reconhecimento do próprio Allan Kardec de que o Espiritismo estava contido nas lições dos filósofos da índia e da China. Não podendo, nos limites de um artigo, reportarmo-nos mais profundamente ao tema, resolvemos por especificar questões básicas e transmitir, ainda que incidentalmente, anotações de algumas das múltiplas experiências registradas no grupo mediúnico.


OS CORPOS ESPIRITUAIS


A Concepção Tríplice do Ser


Comecemos com uma análise sobre o pensamento de Kardec. Ele estabeleceu uma concepção tripartida a respeito do homem: este seria formado do espírito, do perispírito e do corpo físico, concepção que muitos, erroneamente, proclamam

como genuinamente espírita, enquanto ele, reconhecendo a ainterioridade da concepção, fazia questão de esclarecer a respeito da existência dos antecedentes históricos, que comprovavam ser aquela um elemento constante das mais diferentes Culturas, fato que, a seu sentir, constituía uma prova da universalidade do Espiritismo.


Nao se limitou ele aos antecedentes existentes nas culturas orientais, mas trouxe à colação a doutrina de Paulo de Tarso, que registrava a concepção tríplice, constituída do espírito, da alma e do corpo físico. A concepção paulina foi identificada também e explorada pelo pensador protestante Watchman Nee 1986). Em Paulo de Tarso, o conceito de alma não é o de espírito encarnado, constante de O Livro dos Espíritos, nem o de princípio inteligente, conforme veio a propor Kardec: corresponde ao de perispírito, um intermediário entre o espírito e o corpo físico. Não há espaço aqui para abordar a questão na literatura hindu, isto é, no hinduísmo, no budismo etc. No entanto, é interessante destacar que Kardec não reivindicava prioridades para o Espiritismo, pelo contrário, em estudando comparativamente as filosofias religiosas, procurava demonstrar que a verdade nele contida está no fundo dos tempos.


Concepção Múltipla dos Corpos Espirituais


Na continuidade da revelação espírita, foram recebidas mensagens e realizados experimentos que indicavam a existência de uma pluralidade de corpos espirituais, correspondendo, portanto, aos vários shariras ou koshas (corpos) das doutrinas hinduístas. Dr. António J. Freire registra uma comunicação mediúnica, obtida pelo coronel Albert de Rochas, ditada pelo Espírito Vincent, que, apresentando-se como um espírito extraterrestre, "afirmava que o perispírito é constituído por uma série de invólucros, mais ou menos eterizados, de que os habitantes do Mundo astral se vão desfazendo sucessivamente à medida que se elevam na escala da evolução, não sendo embutidos uns sobre os outros como os tubos dum telescópio, mas interpenetrando-se em todas as suas partes" (1956:96). Como assinalamos acima, as investigações dos grandes magnetizadores levaram à admissão dessa pluralidade de corpos espirituais.


Corpos Espirituais na Obra de Allan Kardec


Investiguemos os textos kardecistas para verificar a existência de algum elemento que tenha antecipado as revelações posteriores.


Ao definir o perispírito, em O Livro dos Espíritos descreveu-o como sendo um laço que liga o Espírito ao corpo físico. Kardec, em lhe perquirindo a natureza, afirmou ser ele constituído de eletricidade, de fluido magnético animalizado, de fluido nervoso, de matéria inerte (LE/54, 65, 74.1 e a nota 257; RE/1858, dez.), semi-material (LE/94, 135; LM/74.13, 75), "matéria elétrica ou de outra tão sutil quanto esta". É evidente que tais palavras não são sinónimas, e que Kardec procurava abarcar do modo mais amplo a natureza do perispírito, dando a entender a existência de uma constituição plúrima, como se pode deduzir da assertiva de tratar-se de um fluido nervoso. Se o perispírito se constitui também de fluido nervoso, o Espírito o conduziria, em desencarnando, para o mundo espiritual? É evidente que não, o Espírito terá que desvencilhar-se dele ao abandonar o corpo. Se o perispírito é constituído também de matéria inerte, é justo pensar que esta não acompanharia o corpo espiritual, após a morte do corpo físico. Segundo o Espírito Erasto, o fluido vital é apanágio exclusivo do encarnado (LM/ 98); o Espírito, no fenômeno mediúnico, impele (poussé), dirige o fluido vital fornecido pelo médium (LM/77)1. Se Kardec considerou essa terminologia, então deve entender-se que, de alguma sorte, ele reconhecia um compósito na natureza do perispírito, enquanto encarnado, ao afirmar, no item 77 de O Livro dos Médiuns, que ele é formado por fluido vital, o elemento que é apanágio do homem. Sendo este o elemento que animaliza a matéria (LE/62; G/X: 17), desfazendo-se após a morte do corpo, como elemento constituinte do perispírito (LE/70; G/ X:16), transmissível em parte entre os indivíduos (LE/70 nota), devemos identificá-lo como a substância que, exteriorizada, denominamos de ectoplasma.


Erasto, portanto, não estava referindo-se ao fluido vital no sentido em que, algumas vezes, empregou-o André Luiz, como fluido de Espíritos desencarnados, fluido pertencente ao corpo astral, segundo a terminologia que adota (vide, por ex., AR,1957:70 - "Colaboram com fluidos vitais e elementos radiantes, altamente sublimados [...] )", referindo-se a colaboradores mediúnicos do mundo invisível2.


Atentando-se para esse elemento que nasce com o homem e desaparece logo após a sua morte, podemos deduzir que ele é o constituinte do duplo etérico, a que também se referem os grandes magnetizadores, os teosofistas e as doutrinas orientais. Na época não se empregava o termo duplo etérico, corpo Ódico etc, mas ao escrever Kardec que o perispírito é constituído de matéria sutil, de matéria nervosa, de matéria inerte, evidentemente estava referindo-se ao perispírito como um corpo complexo, e não de natureza única.


Outro indício dessa complexidade registra-se quando Kardec refere-se à evolução do perispírito. No capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo, o Espírito São Luís afirma que: "O próprio perispírito sofre transformações sucessivas; ele se eteriza cada vez mais até a depuração completa que constitui os Espíritos puros". Kardec já escrevera: "Nós sabemos que quanto mais eles se depuram, mais a essência do perispírito torna-se etérea; donde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o perispírito mesmo se torna menos grosseiro" (LE/257). E mais, "(...) Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não tem análogo aqui em baixo" (idem). Em O Livro dos Médiuns (n. 55), anotou também que sua "natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia".


É evidente que duas são as hipóteses para a compreensão dos textos:


a) o perispírito tornar-se-ia mais leve, os fluidos menos grosseiros, porém a natureza seria idêntica, e nesse caso não seria necessária a referência a um corpo complexo;


b) a eterização do perispírito é de tal ordem que ele abandona determinadas camadas, próprias de certas zonas invisíveis, quando é elevado na hierarquia espiritual, passando a viver em esferas mais altas; nesse último caso, teríamos, nas referências, indicações de uma natureza complexa para o perispírito. As duas hipóteses de compreensão não se excluem, porque as mensagens espirituais que têm sido recolhidas e a própria vidência deixam claro que o perispírito se mostra mais diáfano, mais luminoso, à medida que o Espírito se eleva.


O que se põe como questão é se, ao elevar-se para zonas mais próximas da Terra, o Espírito conserva um corpo espiritual da mesma natureza, ou se realmente há uma mudança na sua estrutura, necessária à nova ambientação, o que levaria a admitir a possibilidade de uma complexidade na sua organização. Em outras palavras, a "evolução do perispírito" não seria mais do que a própria modificação dos corpos espirituais. É claro que Kardec apenas ensaiava o estudo do perispírito (LM/ 51) e, portanto, não poderia conhecer tudo o que lhe dizia respeito (LM/3); os próprios Espíritos não foram muito expressos, quer tivesse sido porque preferissem dosar o ensino, como aliás sempre advertiram, quer porque a linguagem humana assinalava-lhes restrições óbvias, o que também sempre fizeram questão de acentuar, ou, finalmente, porque a muitos dos comunicadores faltava-lhes conhecimento mais preciso do assunto, o que seria uma decorrência da relatividade dos próprios Espíritos, conforme tantas vezes assinalou Kardec.


No entanto, devemos recordar que no Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos, que constitui o item 257 de O Livro dos lispíritos, Kardec deu mostras de sua larga visão: partindo da eterização do perispírito ("quanto mais eles se depuram, mais a essência do perispírito torna-se etérea"), concluiu que as sensações do ambiente terrestre seriam inacessíveis para Espíritos muito elevados, o que só poderia ocorrer se a sua natureza fosse completamente diferente.

Com esses elementos iniciais, podemos tecer algumas considerações sobre o problema dos corpos espirituais na obra de André Luiz, procurando aclarar alguns detalhes que parecem importantes.


Os Corpos Espirituais na Obra de André Luiz


Na obra de André Luiz, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, há, a partir de seu primeiro livro - Nosso Lar, (a 1" edição é do ano de 1943), no qual relata suas primeiras experiências no mundo espiritual -, referência a vários corpos espirituais: duplo etérico, ao corpo astral, ao corpo mental e ao corpo causal.


TERMINOLOGIA


Inicialmente, devemos lembrar que André Luiz utiliza o termo perispírito em sentido estrito, para significar, tão-somente, o segundo corpo após o organismo físico, que sobreviverá, com algumas diferenças, a este. Ele utiliza os termos corpo astral,

corpo espiritual e psicossoma como sinônimos. Para os outros corpos, utiliza vocábulos consagrados entre os magnetizadores e espiritualistas - duplo etéreo, corpo mental e corpo causal. Nao se refere à existência de outros corpos que foi respondessem aos denominados corpos (ou alma) moral, Intuitivo e consciencial, isto é, os Aerossomas V, VI e VII da classlflcação de Charles Lancelin. A divergência pode tornar-se uma Simples questão de palavras, se encararmos o perispírito como sendo um corpo complexo, formado, por assim dizer, de "camada,", sintetizando assim todos os corpos espirituais. Essa é a posição de António J. Freire: a concepção clássica do ternário humano não implica necessariamente a homogeneidade do perispírito (1956:95). As palavras pouco importam aos Espiritos, competindo ao homem formular uma linguagem que elimine controvérsias (LE/28).


Duplo Etérico


O eminente Leopoldo Cirne (1870-1941), em Doutrina e Prática do Espiritismo - Io volume (1920:79 a 91), já deduzia, das experiências de materialização, a existência de um corpo invisível no ser encarnado, distinto do perispírito, que poderia subsistir por algum tempo após a morte física, mas não permaneceria definitivamente ligado ao Espírito desencarnado, a que denominou de corpo etéreo, duplo astral, corpo astral, corpo esse que seria responsável pela possibilidade de materialização dos Espíritos. Depois, na obra O Homem Colaborador de Deus, publicada em 1949, após a sua morte, manteve seu ponto de vista sobre a existência de um corpo não-físico além do perispírito, não o designando mais de duplo (corpo) astral, mas apenas de corpo etéreo, inseparável do corpo físico durante a vida (p.18 s).


No livro Nos Domínios da Mediunidade (1955:90), André Luiz diferencia o perispírito - a que denomina também de corpo astral, corpo espiritual e psicossoma - do duplo etérico, cuja natureza, esclarece como sendo de "um conjunto de eflúvios vitais que asseguram o equilíbrio entre a alma e o corpo de carne" (...), "formado por emanações neuropsíquicas que pertencem ao campo fisiológico e que, por isso mesmo, não conseguem maior afastamento da organização terrestre, destinando-se à desintegração, tanto quanto ocorre ao instrumento carnal por ocasião da morte renovadora". (LE:70)


O duplo etérico não é mais do que o corpo vital, também denominado de corpo ódico e corpo ectoplásmico, exatamente o que cede o ectoplasma para a produção de efeitos físicos. Nas ocorrências de materialização, por exemplo, ele pode desdobrar-se a partir do corpo físico, permitindo ao Espírito comunicante uma sobre imposição, quando a manifestação ocorre com a sua apropriação por parte daquele, ou pode apenas ceder o ectoplasma disforme que possibilita ao Espírito construir um corpo. No primeiro caso, o Espírito materializado guarda uma certa parecença com o médium, o que tem proporcionado a críticos apressados a alegação de fraude (Bozzano, s.d:139-144). No entanto, a sua função em relação à mediunidade não se limita a esses fenómenos, senão que diz respeito a toda espécie de fenómeno mediúnico. Tendo perdido, ao desligar-se do corpo físico pela desencarnação, o duplo etérico ou corpo vital, constituído dos fluidos vitais a que se referia Kardec, o Espírito dele necessita para a ligação com o médium, modo pelo qual recupera parcialmente o elemento perdido, o que lhe possibilita atuar sobre a matéria. Quando o médium se desdobra sem muita prática, acaba levando para fora do corpo físico o duplo etérico, e assim, ao vidente, aparece como se fosse um duplo do indivíduo, mas com deformações. Ele não poderá, por isso, distanciar-se do corpo físico mais do que de cinco a dez metros, pois a ultrapassagem desse campo causar-lhe-á a morte. Por outro lado, pode surgir ao vidente como um fantasma com cores diferentes do lado direito e esquerdo, e às vezes também com a cor azul.


Nas experiências do coronel Albert de Rochas com Eusapia Paladino em estado de hipnose, esta descreveu o aparecimento de um fantasma de cor azul, de cuja substância se serviria o Espírito John durante as reuniões. O fato confere com as explicações fornecidas por Katie King (Espírito), existentes no relatório de Florence Marryat, sobre a existência de um corpo do qual se servia, porém que lhe apresentava tal resistência passiva que não lhe era possível evitar os traços de semelhança com o médium, durante as materializações (Bozzano, idem: 140). A Vidente de Prevorst (1820) denominou esse corpo de "espírito de nervos" ou "princípio de vitalidade nervosa", cuja função seria permitir a ligação do Espírito com o corpo. Uma sonâmbula do reverendo Werner (1840) também referiu-se a um "fluido nervoso", que seria indispensável para que a alma entrasse em relação com o corpo (Bozzano - idem:141s. Vide ainda Albert de Rochas d'Aiglun - Exteriorizadon de la Motilidad, p. 35). O coronel De Rochas, Hector Durville, H. Baraduc e outros verificaram, durante as suas experiências de magnetização dos sensitivos, que estes descreviam o desdobramento de um duplo, um "fantasma ódico", que possuía uma cor azulada à esquerda e alaranjada à direita, estando ligado ao corpo físico por um cordão fluídico, fixado na região esplênica (Freire, 1956:51, 91s, 18, 116, 118; Lorenz, 1948:141s).

André Luiz (NDM,1955:89s), descrevendo o fenômeno de desdobramento de um médium, fornece-nos alguns dados que permitem a comparação:


"O médium, assim desligado do veículo carnal, afastou-se dois passos, deixando ver o cordão vaporoso que o prendia corpo somático".


"Enquanto o equipamento fisiológico descansava, imóvel, Castro, tateante e assombrado, surgia junto de nós, numa cópia estranha de si, porquanto além de maior em sua configuração exterior, apresentava-se azulada à direita e alaranjada à esquerda".


"Submetido o médium" - esclarece André Luiz - "a operações magnéticas, recuou o duplo até o corpo; este 'engolira instintivamente certas faixas de força', e dentro em pouco, fora da matéria densa, pôde o médium apresentar-se normalmente" (isto é, em corpo astral - idem:90).


Essa deformidade existente na exteriorização do duplo foi observada por ME: "eu vi o corpo do médium, não o corpo físico, mas, sim, o fluídico; estava sentado, tinha, porém, uma instabilidade, isto é, ele se movia de forma instável e havia uma diminuição muito grande dos membros inferiores, e as pernas apresentavam-se curtas e disformes, projetando-se para o lado, era uma parte distorcida, como se visse uma sombra na parede e que, ao movimentar-se o corpo, tomasse a forma distorcida. A cor era esbranquiçada, era como um duplo do médium". A clarividente verificou que aplicaram uma espécie de "máscara" como a utilizada nos combates de esgrima, antes da tela final de proteção, algo branco, que dava a impressão de ser acolchoado, que tomava parte da testa até (mais ou menos) a boca. Ajustada a "máscara", "o duplo começou a tomar proporções corretas, todo o corpo (fluídico) se reajustou" (observação em 22/11/1989). É de notar-se, porém, que, ao invés de uma figura maior, o médium observou diminuição dos membros. No entanto, em outro registro, anotou: "vimos todo o rosto do médium ondulando como uma imagem desfocada, com uma coloração esbranquiçada, inicialmente".


Comparando-se a descrição de André Luiz com as referidas acima, no que se refere à coloração com que se apresenta o duplo etérico, notamos a divergência quanto à localização das cores azul e alaranjada (ou avermelhada). Em nosso grupo de trabalho, tinha sido também observada a luminosidade avermelhada à direita e a azulada a esquerda, o que não só coincidia com aquelas observações, mas também com as de Karagulla, registradas durante as pesquisas feitas com a notável clarividente Diana (Dora Kunz), a respeito dos pólos do ímã. Segundo seu registro, o campo de energia da mão direita (avermelhada) e o pólo sul do ímã com uma névoa de cor avermelhada repeliam-se, enquanto que quando segurava o mesmo pólo com a mão esquerda (azulada) ocorria uma atração entre os dois campos. Com o pólo norte, que apresentava uma névoa azulada, ocorreu exatamente o contrário: criou-se um campo de atração com a mão direita e de repulsão com a mão esquerda (1986:123s). As cores dos pólos do ímã correspondem à descrição feita pelo barão de Reichenbach acerca de uma experiência realizada em abril de 1774 com a senhorita Nowstuy em Viena: pólo sul - amarelo-avermelhado; pólo norte - azul. Corresponde também às experiências do dr. Luys (vide a respeito Albert de Rochas, 1971:4 e 6s). Haveria uma contradição com a descrição de André Luiz? É certo que o próprio dr. Luys apurou também que alguns sensitivos percebiam o lado direito com uma coloração azul (nos histéricos, violeta) e o lado esquerdo emitindo eflúvios vermelhos, o que coincide com o registro de André Luiz.


A solução da aparente contradição é dada pelo próprio dr. Luys: esclarece ele que os sensitivos muitas vezes invertem as colorações que atribuem aos fluidos, isto é, existem aqueles que vêem vermelho do lado direito e azul do lado esquerdo. Quando isso ocorre, fazem-no sempre do mesmo modo, apresentando-se também as cores dos pólos do ímã igualmente alteradas, isto é, invertidas (De Rochas - idem:6, especialmente a nota n. 6).


O duplo etérico sói também aparecer à vidência de modo distinto, como se a "pele" que o revestisse fosse retirada e se o enxergasse interiormente. Tivemos, há muito tempo, ocasião de observar ao lado de um médium, enquanto este expressava a comunicação de um Espírito sofredor, um duplo formado de fios finos com uma luminosidade como se fossem tubos de gás néon. Parecia-nos uma múmia, com a particularidade de que os fios eram finíssimos. Acrescentaremos aqui observações realizadas por outros médiuns: "Comecei a ver o lado direito do médium, da cabeça até em baixo, era como se ele estivesse todo cheio de fios, que pareciam nervos, de uma substância alva, prateada. Eu não via o médium (o corpo físico), somente os lios" (registro do dia 14/10/87 por ME). "(...) aparecia uma formação branca como um 'casulo humano' com um ser todo enrolado por ténues fios brancos" (registro do dia 10/01/90 por DSF)."(...) percebi todo seu braço até o ombro repleto de canais finos (...).O contorno do braço era prateado" (registro do dia 24/08/88 por DSF). A descrição coincide com a fornecida por Shaffica Karagulla e Dora van Gelder Kunz (1989:30).' "Para o clarividente, o corpo etérico parece uma teia luminosa de linhas finas brilhantes".


Perispírito (Corpo Astral, Corpo Espiritual, Psicossoma, Aerossoma II)


Já destacamos o fato de que André Luiz utiliza o termo perispírito em um sentido estrito como sinônimo de corpo astral. Na obra Entre a Terra e o Céu (1956:126), ele descreve-o como formado de matéria rarefeita, "intimamente regido por sete centros de força, que se conjugam nas ramificações dos plexos e que, vibrando em sintonia uns com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem, para o nosso uso, um veículo de células elétricas, que podemos definir como sen¬do um campo eletromagnético, no qual o pensamento vibra em circuito fechado". Em regiões de renovação espiritual, como na colónia Nosso Lar, o perispírito é o veículo de manifestação para as atividades do Espírito.


Segundo André Luiz, o corpo espiritual é o "santuário vivo em que a consciência imortal prossegue em manifestação incessante, além do sepulcro, formação sutil, urdida em recursos dinâmicos, extremamente porosa e plástica, em cuja tessitura as células, noutra faixa vibratória, em face do sistema de permuta visceralmente renovado, se distribuem mais ou menos à feição das partículas colóides, com a respectiva carga elétrica, comportando-se no espaço segundo a sua condição específica, e apresentando estados morfológicos conforme o campo mental a que se ajusta". Possui ele uma estrutura eletromagnética e encontra-se algo modificado em relação ao corpo físico, no que se refere a fenômenos genésicos e nutritivos, sob a direção da mente que o rodeia. Quando o Espírito reencarna, des-faz-se dos elementos próprios do plano astral. André Luiz (L, 1949:85s) refere-se mesmo ao fenómeno da "segunda morte" ou morte do perispírito, que ocorreria em três situações distintas:


1) Quando os ignorantes e maus se pervertem adensando a mente e gravitando em torno de paixões infelizes ("ovóides, verdadeiros fetos ou amebas mentais").


2) Quando se verificam as operações redutoras e desintegradoras para renascimento na carne (conf. ETC 1956: 179; ML, 1949:214s).


3) Quando os Espíritos enobrecidos conquistam os planos mais altos (L, 1949:85s). Sobre todo o assunto, consulte-se ainda Evolução em Dois Mundos (1959:30).


Na segunda hipótese, quando o Espírito reencarna obrigatoriamente, o processo de restrição verifica-se em pavilhões de restringimento, sendo ele transformado em sémen espiritual, "reduzido a um diminuto corpo ovalado, onde estão preservados os seus centros de força" (Heigorina Cunha, 1994:45 e 83), "lembrando uma pastilha" (idem:44). Segundo informação de Francisco Cândido Xavier, os despojos são enterrados num cemitério (ibidem). Na terceira hipótese, o Espírito, passando a viver em região superior, não pode levar o instrumento útil na inferior - "o tipo de veículo utilizável se modifica". Utiliza-se então de um outro corpo - o mental.


Corpo Mental


Ao descrever suas primeiras experiências no mundo espiritual, André Luiz (NL, 1956:81) permite que se deduza a existência de um outro corpo ligado ao corpo astral. Quando sua mãe o visitou, estando ele em tratamento no Ministério do Auxílio, necessário lhe foi passar pelos Gabinetes Transformatórios do Ministério da Comunicação. Por outro lado, como vivesse ela em zona superior, só pôde visitá-la durante o sono, e, para tanto, teve que aproveitar o ensejo do repouso após o serviço nas Câmaras de Retificação, quando se desprendeu em outro corpo (mental), amparado por Espíritos amigos (idem:172 e 175): "O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. Eu sabia perfeitamente que deixara o veículo inferior na apartamento das Câmaras de Retificação, na colônia espiritual Nosso Lar, e linha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso" (idem:172). André Luiz faz uma referência expressa ao corpo mental em Evolução em Dois Mundos {1959:25), afirmando que o perispírito ou corpo espiritual "retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação", isto é, "o envoltório sutil da mente". Esclareceu André Luiz que, na falta de terminologia adequada, ficava impossibilitado de defini-lo com maior amplitude de conceituação, além da que tem sido utilizada pelos pesquisadores.


Corpo Causal


André Luiz (NL 1953:59). reporta-se ainda ao corpo causal, como sendo a "roupa imunda", "tecida por nossas mãos, nas experiências anteriores". Assim sendo, verificamos que o corpo causal é o ponto de registro, o banco divino, onde se encontram os nossos débitos e os nossos créditos, e que se, presentemente, é ainda uma roupa imunda, isto ocorre por desídia nossa, pois a tarefa reencarnatória se destina a "nos purificarmos pelo esforço da lavagem", tarefa que, na maior parte das vezes, não empreendemos. As explicações são do Espírito Lísias, visitador dos serviços de saúde: "Imagine, explicava Lísias, que cada um de nós, renascendo no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana. Essa roupa é o corpo causal, tecido por nossas mãos nas experiências anteriores" (idem). Os hindus denominam-no kâranakosha (corpo causal) ou anandamaykosha (corpo de bem-aventurança), o corpo de luz, naturalmente porque se reportam a ele quando devidamente depurado.


Essa pluralidade de corpos invisíveis corresponde ao que sabemos a respeito através de outras religiões e filosofias. A sequência de rarefação dos corpos torna-se compreensível, se atentarmos para a diversidade de planos espirituais, bem como para o fato de que as zonas espirituais devem ser formadas de distintas matérias e que os corpos devem ser consentâneos com elas. A questão que se coloca, é de saber-se o motivo pelo qual André Luiz teria preferido utilizar o termo perispírito para designar apenas um desses corpos, sem dar, portanto, um sentido amplo ao mesmo. Provavelmente, porque o que se designa por perispírito é exatamente o corpo astral que se revela nos lances da clarividência, e por ser essa a matéria sutil com a qual o Espírito se individualiza após a perda do corpo físico nas zonas mais próximas à Terra. Qualquer que seja a preferência na utilização da terminologia, é necessário estar atento, na leitura de André Luiz, para essa particularidade, bem como deixar claro, em qualquer exposição, o significado do termo.


CORRESPONDÊNCIAS


Sabemos que os fenômenos psicológicos exigem uma base física no organismo humano, isto é, eles se produzem em nosso nível de ação ancorados pelo sistema nervoso central e periférico. Do mesmo modo, existem nos vários corpos espirituais sistemas próprios equivalentes que sustentam esses fenômenos. Registrando as palavras do assistente espiritual Calderaro, André Luiz escreve: "Todo campo nervoso da criatura constitui a representação das potências perispiríticas, vagarosamente conquistadas pelo ser, através de milénios e milénios" (NMM, 1951:49). O sistema nervoso é um ponto de contato entre o perispírito e o corpo físico (idem:55), ele "mais não é do que a representação de importante setor do organismo perispirítico" (idem: 164). É no sistema nervoso e no sistema hemático que possuímos as duas grandes âncoras do organismo perispiritual com relação ao físico (conf. André Luiz - ML, 1949:221; EDM, 1959:202). Não há de causar admiração o fato de haver, no perispírito, sistemas correspondentes aos do organismo físico, desde que, afinal, aquele é que modela este. André Luiz destaca-os como responsáveis pelo campo eletromagnético do corpo espiritual: "(...) o nosso corpo de matéria rarefeita está intimamente regido por sete centros de força, que se conjugam nas ramificações dos plexos e que, vibrando em sintonia uns com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem, para nosso uso, um veículo de células elétricas, que podemos definir como sendo um campo eletromagnético, no qual o pensamento vibra em circuito fechado" (ETC, 126).


OS CHACRAS


Terminologia


Estabelecida a pluralidade de corpos, verificamos que esses corpos são dotados de centros de força, com funções distintas quer no que se refere à transferência de energias ligadas ao plano físico quer no que se refere ao desenvolvimento espiritual. Eles são denominados de chacra (roda) e de padma (lótus) na literatura hindu. Há quem faça distinções: para uns, a designação de lótus deve ater-se ao chacra coronário; outros denominam de chacras o estado dinâmico do centro e de lótus o estado estático. André Luiz denomina-os de centros de força, centros perispiríticos, centros vitais. Estudando-os psicologicamente, Jung afirmou tratar-se de verdadeiros centros de consciência.


Esses centros existem em todos os corpos, e não só no duplo etéreo e no corpo astral. Por isso, é necessário estarmos atentos ao estudar o assunto, ou fazermos uma observação clarividente, para este dado. Só para exemplificar, reparemos que Leadbeater (1974) estuda os centros de força do duplo etéreo, enquanto André Luiz refere-se sempre aos do corpo astral. Motoyama (1981:239) também opina no sentido de que algumas diferenças na percepção espiritual dos chacras entre Leadbeater e Satyananda Saraswati devem ter ocorrido em face de estarem a referir-se a corpos espirituais distintos. O mesmo ocorre com o Swami Sivananda que se refere ao corpo astral (1986:49 e 62). Há necessidade ainda de advertir para o fato de que André Luiz utiliza o termo centros vitais, não para denominar o conjunto de chacras do duplo etérico, que seriam propriamente centros vitais, mas, sim, os referentes ao corpo astral, referindo-se assim à vitalidade num sentido amplo, e não somente físico.


Existência dos Chacras


Ainda que toda literatura clássica do hinduísmo refira-se aos chacras, encontramos autores que lhes negam a realidade. Mas é necessário saber o que desejam dizer, antes de tomar-lhes ao pé da letra as afirmativas. Gopi Krishna, por exemplo, sustenta que durante a sua fantástica experiência de despertamento da kundaliní (ou kundalí) não se deparou com os chacras. Seria apenas uma sugestão feita pelos mestres aos discípulos a fim de ajudá-los na concentração (1993:254). Mas, da leitura do texto, pode verificar-se que ele observou os chacras e os descreveu como "brilhantes centros nervosos", que sustentam "discos luminosos girando, semeados de luzes, ou uma flor de lótus em completa florescência, reluzindo aos raios do sol" (idem:255), "formações luminosas e discos incandescentes de luz, nas diversas junções nervosas ao longo da medula espinhal" (idem). Quando ele diz não ter encontrado os chacras, o que realmente quer dizer é que não os viu na forma descrita pelas escrituras hindus, em que cada um deles é descrito de forma simbólica como contendo no seu interior uma forma geométrica (yantra), um animal (nos quatro primeiros), duas divindades (uma masculina e outra feminina) e uma letra do sânscrito (bijâ mantra), contrariando autores que sustentam que, à visão espiritual, surgem nos chacras as referidas letras, como por exemplo, Sivananda (1986:62) ("As letras existem nas pétalas de forma latente e podem manifestar-se e sentir-se durante a concentração e a vibração das nadis") e Motoyama (1981:238s). Em nossas experiências, têm surgido, algumas vezes, letras sânscritas sem que os videntes tenham conhecimento do assunto e sem que, por isso, pudessem saber do que realmente se tratava. Não nos é possível entrar aqui com mais detalhadas referências, para as quais nos faltaria espaço. (A questão é também discutida por Ken Wilber no artigo Are the Chakras Real?, recolhido na obra coletiva editada por John White -Kundaliní: 1990:120-131)


Limitamo-nos, no que se refere à sua identificação através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, a destacar que não somente André Luiz se refere aos centros de força. Encontramos referência aos mesmos em mensagem de Romeu A. Camargo, recolhida no livro Falando à Terra (1957:84. A 1* edição é de 1951), que reproduz as palavras de Lameira de Andrade (Espírito):


"Nosso corpo espiritual encerra também potentes núcleos de energia, entretanto, não vivem expostos à visão externa, qual acontece ao veículo de carne. São centros de força, destinados à absorção e à transmissão de poderes divinos, quando conseguimos harmonizá-los com as grandes leis da vida. Localizam-se nas regiões do cérebro, do coração, da laringe, do baço e do baixo ventre. Não importa que a ciência do mundo os desconheça por enquanto. O conhecimento humano avança por longos e pedregosos trilhos" (vide sobre viciação dos centros por quadros mentais a p. 85 do mesmo livro).


Outro Espírito que faz referência aos centros de força é Ernesto Senra, descrevendo-os como desempenhando "a função de baterias" para o condensador, representado pelo corpo espiritual (IP 1956:136s). Emmanuel também a eles se reporta no livro Caminhos de Volta (1975:77).


Nadis - O Sistema de Canais Energéticos


Existe nos corpos espirituais uma série de filamentos formando uma rede à semelhança do sistema nervoso. Denominam-se nadis (f.) (literalmente canais, vasos, veias, artérias e também nervos. Conf. Mircea Eliade - 1971:229; John Davidson, 1988:92); são condutoras de energia e existem aos milhares. Equivalem no plano espiritual à rede nervosa, espalhada pelo organismo. Seu número, no entanto, é incerto, porque nem as escrituras hindus certificam um número exato. Uns livros falam de 550.000, outros de 720.000 etc, mas parece que a maioria dos autores se inclina para um total de 72.000, e há quem afirme que tais números são esotéricos. Algumas delas merecem destaque - Sushumnâ, Idâ, Pingaiâ, Gandhâri, Hastajihv, Kuhu, Sarasvati, Púsha, Sankhiní, Payaswini, Varuni, Alambhushâ, Vishvodhara, Yashasvini.


Sushumnâ, Idâ, Pingaiâ, são as três nadis mais importantes. Sushumnâ corre ao centro, na localização da coluna vertebral, enquanto que Idâ se ergue a seu lado esquerdo e Pingaiâ pelo seu lado direito, cruzando-se ao longo do trajeto em direção ao cérebro. Motoyama (1981:143-145) afirma, no entanto, ter chegado à conclusão de que esses dois últimos se erguem em linha reta ao lado do primeiro, julgando tratar-se da segunda linha do meridiano da bexiga. Além disso, acentua que os livros clássicos não se pronunciaram a respeito (no entanto, o Shiva-Svarodaya, no sutra 34, faz referência a duas artérias que correm enviesadas, uma de cada lado do corpo). Em algumas observações em nosso grupo, os videntes observaram o cruzamento das nadis, como se fossem uma espécie de losangos à semelhança também do caduceu do deus Mercúrio. Esses pontos de encontro formam-se exatamente nos chacras ao longo da coluna vertebral. Transcreveremos duas observações feitas por ME:


"(...) energia foi subindo, não na parte central, mas nas par¬tes laterais, como se fossem losangos; elas saíam, faziam o tra¬jeto de forma circular e fechavam nas pontas, abrindo-se outra vez, formando uma espécie de losangos até a nuca" (observa¬ção de ME, durante um passe dado em outro médium, em 18/ 10/89).


"(...) comecei a ver a região da coluna vertebral do médium como se tivessem duas enervações que não subiam retas, subiam sinuosas, e eu comecei a ver sucessivamente todos os chacras (do médium? do Espírito?)" - registro do dia 30/11/88.

As escrituras hindus costumam referir-se a três nadis que se encontram dentro da Sushumnâ: Vajna, Chitrini e Brama, como se fossem bainhas uma das outras. A mais interior forneceria a via para a energia denominada kundaliní.


Em suas investigações, Motoyama (1981:27; vide ainda Motoyama, 1972 e Motoyama and Brown, 1978) concluiu que as nadis parecem ser essencialmente os conhecidos meridianos da acupuntura chinesa, opinião com a qual parece concordar Michel Coquet (1982:41s). Aliás, o conhecimento a respeito provém da índia, somente que na China desenvolveu-se mais a parte referente à Medicina, enquanto no país de origem a investigação é mais ligada ao desenvolvimento espiritual. Richard Gerber (1992:106), ao contrário, distingue entre nadis e meridianos: "Os (sic) nadis são constituídos por delgados filamentos de matéria energética sutil. São diferentes dos meridianos, os quais, na verdade, têm uma contraparte física no sistema de dutos meridianos. Os (sic) nadis representam uma extensa rede de energias fluidas que se compara, em abundância, aos nervos do corpo". A opinião de Motoyama, porém, deriva dos experimentos com o Aparelho para medir as condições funcionais dos meridianos e seus correspondentes órgãos internos (AMI). Essa divergência encontra base na própria natureza da nadi: ela seria um canal por onde fluiria o prana ou fluido vital (Swami Sivananda, 1986:49), ou apenas uma corrente de energia que circula pelo corpo? (Tara Michael, 1979:32; Lilian Silburn, 1983:42 nota).


Local de Origem das Nadis


Inexistindo unanimidade entre os autores e escrituras sobre o local de origem das nadis, vamos relacionar os pontos indicados:


a) muladhara (centro básico);


b) kandasthana (kanda=raiz + sthana=base) ou kanda, ou kandayoni (yoni=matriz);


c) manipura (chacra umbilical; NS Subrahmanian (trad.) Yoga-shikka Upanishad, 1990:421; Alain Daniélou (trad.) LeShiva Svarodaya, 1982:18).


Grande número de autores indica o centro básico como origem de todas as nadis. Essa preferência fortalece-se ao indicar-se as raízes das três principais - a do lado direito, o do lado esquerdo e a do centro. Na visão mediúnica, as observações têm registrado o ponto de início das energias à altura do chacra básico, até o momento.


Quanto ao kanda, sua localização é objeto de discordância. Swami Sivananda situa-o entre o ânus e os órgãos genitais, exatamente sobre o centro básico. Segundo ele (1986:50), a totalidade das nadis têm aí sua origem, esclarecendo que também se pode dizer que o kanda se localiza no ponto onde o canal central (sushumnâ) está unido ao básico (muladhara). A esse centro corresponderia no corpo físico a cauda equina ou filum terminale (1986:53). Mircea Eliade, denominando-o de Yonishtana, localiza-o entre o centros básico e o genital (1971:235). Kalicarana, citado por Tara Michael (1979:84), descreve-o no mesmo local: "dois dedos acima do ânus e dois dedos abaixo do pênis está a raiz bulbosa, tendo quatro dedos de largura, semelhante a um ovo de pássaro" (conf. ainda -Svâtmârâma - Hatha Yoga Pradipika, cap. 3, sutra 113. S. Subrahmanian (trad.) - Sandilyopsanishad, 1990:452)3. Há quem o situe, ao contrário, à altura do manipura. O Siva-Svarodaya, sutra 32, assinala que "próximo ao umbigo se encontra um centro em forma de bulbo. De lá partem as 72.000 nadis que se espalham por todo o corpo". Motoyama (1981:24), por exemplo, identifica-o ao ponto shinketsu (shencheh, CV8), importantíssimo em acupuntura, afirmando que o kanda é "a região esférica em volta do umbigo, incluindo o chacra manipura" (gástrico. Vide ainda pp. 136, 139, 140, 141 e 155). A Shri ]abala Darshana Upanishad situa-o de 18 a 20 cm acima do centro básico, tendo o umbigo por centro. A Yoga-shikha Upanishad descreve-o, por sua vez, como o nadi-chacra - vilambini situado à altura do umbigo, denominado círculo do umbigo, semelhante ? um ovo e que se entrelaça com idâ e pingalâ (Subrahmanian,, idem:1990:421; Motoyama, 1981:136). Em seu comentário ao Hatha Yoga Pradipika, o Swami Muktibodhananda Saraswati (1985:475) parece solver a contradição, afirmando que "o kanda, tendo nove polegadas de altu¬ra, termina no nível do manipura", do umbigo, portanto.


Anotemos finalmente que a Chhandoghya Upanishad situa no coração o início da nadi central - sushumnâ. Essa localização coincidiria em parte com a opinião de Motoyama (1981:141s), que opina ser essa artéria o meridiano do Vaso Governador: inciando-se no cóccix, segue esse meridiano na direção da cabeça, mas ao invés de concluir o trajeto ho chacra coronário, termina no lábio superior. Consultando-se, porém, as lições de Ramana Maharshi (1972:527 - item 549), encontramos uma observação aclaradora: o canal central (sushumnâ) teria um prolongamento que terminaria no coração - a nadi jiva.


Nadis, Prana e Kundalini


A energia que corre pelas nadis é denominada de prana em sentido amplo. A literatura hindu costuma reconhecer cinco espécies de Prana (sentido estrito; em sentido amplo é igual a fluido cósmico) de acordo com os órgãos sobre os quais atuem - prana (sentido estritíssimo), samana, apana, udana e vyana. Mas existe uma modalidade de energia que estaria ligada aos processos de desenvolvimento espiritual, incluindo o êxtase, energia esta que corre pelo interior da Sushumnâ (de acordo com os yogues, pela Brama Nadi, que se encontra encapsulada por esta). Essa energia é conhecida com o nome de kundalini.


Devemos notar que o confrade Jacob Melo (1992:104) fez uma referência à kundalini em sua obra sobre o passe; suas conclusões, porém, a nosso ver, são incorretas. Segundo ele, haveria um choque entre a kundalini e o Evangelho de Jesus, porque recomenda a acentuação no esforço moral da criatura, como se este fosse algo oposto à concentração e meditação ou se o despertamento da kundalini e ativação dos chacras só ocorresse com tais práticas, aliás sempre recomendadas por Espíritos de escol. A kundalini em realidade não é mais que uma espécie de prana com acesso pelos canais centrais do corpo espiritual, e prana não é outra coisa que o fluido vital da literatura dos magnetizadores e da espírita. A denominação distinta provém apenas dos estudos e da língua em que são expressos. A kundalini, por isso, não poderia ser mais perigosa do (|ue o fluido vital ou do que a energia psíquica de C.G. Jung, nome este que preferiu utilizar, finalmente, em substituição à libido de Freud, cujo emprego conduzia a uma associação exclusiva com a energia sexual. Em realidade, como anotou Jung, essa energia psíquica é única, e não só de origem sexual, e ela que domina os processos psíquicos do homem. Pois bem, essa energia é o prana, é a kundalini, é o fluido vital, correndo pelo Canal central, correspondente ao epêndima, o canal existente na medula espinhal e por onde flui o líquido céfalo-raquidiano. A kundalini é a mesma energia conhecida na medicina e prática de meditação do extremo oriente, como Chi ou Ki. (Naturalmente que, na acupuntura e outros tratamentos orientais, ela deve estar sendo considerada em iseu nível mais próximo do corpo físico: o etérico). A energia psíquica percorre os centros de força, despertando-os.


Existem técnicas que são utilizadas, mas qualquer conhecedor do assunto sabe que elas são apenas simples exercícios de controle da mente, que não são os únicos métodos de desenvolvimento espiritual, que elas não dispensam o desenvolvimento moral da criatura, em outras palavras, sua evangelização ou espiritualização. O que ocorre, é que, e já destacamos, como existem bases físicas dos fenômenos e processos psicológicos, existem bases perispirituais para os processos de desenvolvimento espiritual, e essas bases são afetadas quaisquer que sejam os processos adotados, independentemente de religião ou de filosofia adotada. Aliás, assinalemos mesmo que as próprias ondas cerebrais são afetadas, apresentando padrões distintos de acordo com o caminho espiritual seguido, como comentamos no livro Pérolas no Fio (Souza, 1991). Calderaro (Espírito), segundo os registros de André Luiz, destaca este fato, experimentalmente comprovado, afirmando também que "o encéfalo de um santo emite ondas que se distinguem das que despede a fonte mental de um cientista". (NMM:1951:50). A afirmação da existência da kundaliní não se apoia somente na autoridade dos grandes pesquisadores do Espírito, mas nas observações mediúnicas através da vidência. Transcreveremos alguns exemplos:


"Eu vi no médium, subindo à altura da coluna, embora não visse esta, um tubo grosso por todo o trajeto da cervical, com cor mais ou menos rosada, misturada, entre o rosa e o vermelho. Este tubo quando ia formando-se já ia colorindo-se; ao chegar ao tórax do médium, tomou-o completamente já com a cor de vinho" (a visão foi perdida, explica ME, porque desejou ver o coronário antes que o Espírito controlador houvesse avisado. Registro sem data).


Há casos em que não somente o fluido vital se ergue através da coluna, como energias superiores descem pelo mesmo canal central. Eis um registro feito por ME em 12/4/89:


"Ao olhar para o médium, eu tive uma visão sensacional. Eu vi uma entrada de energia, isto é, uma projeção densa de luz, como se estivesse entrando pelo chacra coronário do médium e percorresse todo seu corpo pela coluna vertebral, chegando até ao chacra básico, fundamental, e era de tal forma intensa a luz que era como se estivesse vendo o médium todo transparente por dentro; na parte da cintura para baixo, a luz teve uma intensidade tão grande, tão grande, que chegaram a doer meus olhos; era uma luz totalmente dourada, e quando chegou na base da coluna com essa intensidade aumentada, então houve uma mudança do dourado para o alaranjado e ficou mais vermelho, e misturou-se o dourado com o vermelho e subiu de vez e, à proporção que a luz subia, ia ficando menos vermelha até sair pelo centro coronário, chegando a ultrapassar a própria cabeça".


Em 6/6/90, foi feito um registro semelhante, embora não idêntico, por ME:


Ao observar o médium pelas costas, "parecia haver dois tipos de energia circulando o corpo do médium. Enquanto, mais ou menos à altura do plexo solar, ou um pouco abaixo, subiam ondas coloridas, desciam pelo interior da garganta substâncias transparentes luminosas que iam fundir-se no ponto por onde subiam as outras cores".


Há registros com ME, DSF, JM sobre a "energia formigante" que se eleva no local do epêndima, no centro da coluna vertebral, a partir do cóccix. Essa energia pode espalhar-se pelo corpo, sendo sentida como se uma corrente elétrica descarregasse através dos braços. JM anotou que sentiu como se algo gelado passasse pela sua coluna, momento em que sentiu tontura (registro em 18/10/89).


Devemos tão-só acrescentar a respeito que existem duas teorias acerca da kundalini e mesmo dos chacras:


a) uma concepção não-física, é defendida pela maioria dos autores;


b) a concepção biológica é sustentada por Gopi Krishna (a respeito, consulte-se Darrel Irving: 1995:68-73).


É possível que a discordância se deva ao fato de que as experiências deste foram tão contundentes e afetaram diretamente seu corpo físico e/ou ao fato de estarem relacionadas predominantemente com o corpo etérico, que, como se sabe, é realmente um corpo físico, embora invisível.


Gostaríamos, apenas, de acrescentar que não enxergamos, em Kardec, nenhuma distinção entre princípio vital e fluido vital. Essa nomenclatura não foi criada pelos Espíritos nem por Kardec, mas tomada dos magnetizadores, entre os quais Kardec se inscrevia. Naturalmente, um teórico poderá estabelecer distinções, mas, ao interpretar o pensamento kardecista, evidentemente, parece-nos, não pode encontrar nele apoio. Kardec, ao registrar o ensino dos Espíritos, deixa claro a equivalência na utilização dos termos: "Aqueles que a (alma) colocam no que consideram como o centro da vitalidade a confundem com o fluido vital ou princípio vital" [LE/146, 2" parte; parêntese e destaque nossos).


Podemos verificar também em LE/65 a equivalência colocada na pergunta e na resposta: "O princípio vital reside em um dos corpos que conhecemos? R. Ele tem sua fonte no fluido universal; é o que vós chamais fluido magnético ou fluido elétrico animalisado. Ele é o intermediário, o laço entre o espírito e a matéria", (destaque nosso) Na resposta à questão de n° 70, temos que "a matéria inerte decompõe-se e vai formar novos corpos, e o princípio vital retorna à massa" (o fluido, portanto). Já na Introdução de O Livro dos Espíritos, ao fixar-se nas questões terminológicas, Kardec expõe o duplo entendimento que tinham seus contemporâneos sobre o princípio vital: "Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se acha em certas circunstâncias dadas; segundo outros, e é a ideia mais comum, ele reside num fluido especial, universalmente espalhado, do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como nós vemos os corpos inertes absorverem a luz; este seria o fluido vital, que segundo certas opiniões, não seria outro que o fluido elétrico animalizado, designado também com o nome de fluido magnético, fluido nervoso, etc."


Pode verificar-se que na resposta à questão de n° 63, Kardec reuniu duas respostas dadas à questão de n° 26, da edição de 1857, pelos Espíritos, em que os dois entendimentos são acatados. (Vide ainda G/X, 16). É de notar-se que Jacob Melo desenvolveu um belo esforço no sentido de criar uma simetria, em face da referência no início de O Livro dos Espíritos ao espírito (sentido amplo) como princípio inteligente do universo (n° 23) e aos elementos gerais do universo - espírito e matéria (n° 27).


Entretanto, pode ver-se que, no seu esquema (ob. cit.:63), teve ele de utilizar como sinônimos os termos princípio material e fluido universal, quando os Espíritos, na mesma questão de n° 27, distinguem matéria e fluido universal, dizendo: "Ainda que, de um certo ponto de vista, possa ser classificado como elemento material, dele se distingue; se ele fosse positivamente matéria, razão não haveria para que o Espírito também não o fosse. Ele está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido como matéria é matéria (...)". Ele "é o princípio sem o qual a matéria estaria em estado de perpétua divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá". Naturalmente, é líci¬to, ao investigador, tomar aqueloutro ponto de vista deixado de lado na resposta dada e construir uma nova visão a partir do fluido universal, com nova terminologia, o que evidentemente é outra coisa.


FUNÇÕES DOS CHACRAS


a) Centros de controle e conversão de energia .


Os chacras desempenham a função de condensadores de energia e de transferidores de energia de um corpo a outro. Satyananda Saraswati (1984:122s) destaca essa função dos chacras, ensinando a respeito:


"Além de funcionar como centros de controle, os chacras trabalham como centros de permuta entre as dimensões física, astral e causal. Por exemplo, através dos chacras, a energia sutil das dimensões astral e causal podem ser transformadas em energia para a dimensão física. Isto pode ser visto em yogis que têm sido sepultados sob a terra por longos períodos de tempo". E, exemplificando, lembra ele que os yogis que se deixam enterrar vivos, durante muito tempo, para experiências, conseguem conservar a vida, através da ativação do chacra laríngeo (vishuddhi), que controla a fome e a sede. Os chacras podem operar a conversão de energia física em energia sutil, bem como em energia mental dentro da dimensão física. Os chacras funci¬onariam:


• como centros de transferência e conversão de energia en¬tre duas dimensões vizinhas;


• como conversor de energia entre o corpo físico e a mente.


A ativação e despertamento dos chacras permitiria o conhe¬cimento e a entrada em dimensões mais altas, conferindo po¬der para suportar e dar vida às mais baixas dimensões.


Essa conversão de energia é também destacada por Vivekananda. O homem tende a lançar a energia sexual originária da ação animal para o cérebro a fim de armazená-la ali em forma de energia espiritual (Ojas). "Todos os bons pensamentos, toda oração converte uma parte daquela energia em Ojas e ajuda a dar-nos poder espiritual" (1985:46). b) Centros de consciência.


Os chacras, além de centros energéticos, são centros de consciência. Geralmente, pensamos no cérebro como único centro onde a nossa consciência está ancorada. A Filosofia Yogue sabe que esta não é a única forma de consciência. Os chacras são penetrados por energias sutis e cada um desses pontos torna-se sede da consciência, sede da alma. Essa visão psicológica dos chacras como centros foi admitida por Jung não só em seus Fundamentos de Psicologia Analítica (1972:26), como em conversa com Miguel Serrano (1970:71.Conf. Jung, 1996:85). Segundo Jung, o centro da consciência sofreu variações na história da humanidade, chamando a atenção que, ainda hoje, os índios Pueblos situavam no coração o centro de consciência (1972:6s). M.Vera Bührmann (cit. por Dossey, 1989:85) reproduz a assertiva de um nativo da tribo xhosa, da África do Sul, Mongezi Tiso: "Os brancos pensam que o corpo todo é controlado pelo cérebro. Temos uma palavra, umbelini [os intestinos]: estes é que controlam o corpo. Meus umbelini me dizem o que vai acontecer: você nunca experimentou isso?". Jung chegou mesmo a indicar o grau de consciência que teria cada um deles, como veremos abaixo.


A referência aos chacras como centros de consciência, permite-nos entender melhor uma passagem de O Livro dos Espíritos, que, literalmente entendida, já se mostrava defasada na época de sua recepção. Na questão de n° 146, Allan Kardec registrou o ensinamento dos Espíritos sobre a sede da alma:


"146 - A alma tem uma sede determinada e circunscrita no corpo?


R. - Não, mas ela está mais particularmente na cabeça dos grandes gênios, em todos aqueles que pensam muito, e no coração naqueles que sentem muito e cujas ações dizem respeito a toda a humanidade.


- Que se deve pensar da opinião daqueles que colocam a alma num centro vital?


R - Quer dizer que o Espírito habita de preferência nessa parte do vosso organismo, pois que ali desembocam todas as sensações. Aqueles que a colocam no que eles consideram como o centro de vitalidade a confundem com o fluido ou princípio vital. Pode, todavia, dizer-se que a sede da alma está mais particularmente nos órgãos que servem às manifestações intelectuais e morais."


Modernas pesquisas estão a indicar a existência de mais de um cérebro. Além do cérebro anatômico, encerrado no crânio, existe um outro cérebro funcional, constituído de tecidos e substâncias que desempenham funções semelhantes às daqueloutro. O sangue que percorre todo o organismo produz substâncias idênticas às produzidas pelo cérebro anatômico, entre as principiais endorfinas, analgésicos naturais, possuindo as suas células centros receptores de hormônios e substâncias químicas, idênticos aos que o cérebro possui.


Por outro lado, substâncias que pareciam ser exclusivas do trato intestinal G-I, foram descobertas também no cérebro anatômico: o polipipeptídeo intestinal vasoativo (PIV), a colecistoquinina (CCK-8), a gastrina, a substância P, a neurotensina, encefalinas, a insulina, o glucagon, a bombesina, a secretina, a somatostatina, o hormônio liberador de tirotrofina (IIIT) etc. (vide Larry Dossey, 1989:87).


Dossey reporta-se às pesquisas pioneiras de Cándale B. Pert, assinalando que "cada sítio receptor que ela tem observado no cérebro também é encontrado nos monócitos, um tipo de célula branca do sangue, que tem um papel fundamental no sistema imunológico" [idem:86). Além disso, ela verificou que certas substâncias químicas que afetam a emoção também controlam o trajeto e a migração dos monócitos.


A equipe de Pert notou que essas células do sistema imunológico não possuem apenas receptores para vários neuropeptídeos que controlam o estado de espírito no cérebro como também sintetizam essas substâncias; e que todo o re¬vestimento do trato intestinal, do esófago até o intestino gros-10, está forrado de células que contêm neuropeptídeos e seus icccptores. "Parece-me inteiramente possível para mim" diz Pert, "que a abundância de receptores seja a razão por que o grande número de pessoas sente emoções nos intestinos - elas têm sensações nos intestinos'" (idem:86). Há muito mais, e o livro de Larry Dossey deverá ser consultado. Mas o que terá isto a ver com o duplo etérico, o corpo astral etc.?


É preciso não esquecer que o reconhecimento de um cérebro funcional, extracraneano, conduz-nos a estabelecer não somente uma mente não-localizada, como ainda mais a reconhecer paralelamente a função dos chacras como centros de consciência. Isto ainda fica mais claro quando afirma André Luiz que "o corpo espiritual, que dá forma aos elementos celulares, está fortemente radicado no sangue" (OVE:210). Essa lição coincide com a de Rudolf Steiner, o criador da Antroposofia: "o sangue é, praticamente, o fluido vital" {1971:15); "a expressão do corpo etérico individualizado" {idem:31). Sustenta Dossey (1989:82) que "devemos considerar que onde há sangue, há também cérebro". Ora, onde há sangue, há perispírito e os centros de força que o constituem. Os problemas físicos e psíquicos refletem situações dos chacras.


CONSTITUIÇÃO DOS CHACRAS


Do mesmo modo que os plexos são formados pela concentração da rede nervosa, os chacras ou centros de força o são pela concentração das nadis. A Mundaka Upanishad define o chacra como o local "onde as nadis se encontram como os raios no cubo de uma roda de carruagem". Segundo Michel Coquet (1982:47s) os chacras maiores seriam o resultado da junção de 21 nadis, os menores seriam o resultado da junção de 14 ou de 7 nadis. Tara Michael (1979:33), todavia, entende que a disposição das nadis está relacionada com o número de pétalas que eles apresentam: o número e a posição das nadis que circundam o chacra seria responsável pelo número delas (conf. Kurt Friedrichs, 1983:93; Sivananda, 1986:62).


ENUMERAÇÃO DOS CHACRAS


Em geral, costuma-se fazer referência a sete ou oito chacras. São os chacras maiores, mas não únicos. O destaque dá-se porque eles estão envolvidos com o desenvolvimento espiritual do indivíduo (com exclusão do mesentérico), e ficam ao longo da coluna vertebral. No entanto, existem muitos outros, inclusive abaixo da coluna vertebral, como os situados na planta dos pés (atala), no dorso dos pés (vitala), na articulação superior da perna com o pé (nitala), no joelho (sutala), na parte inferior da coxa (mahatala); parte média da coxa (talatala) e parte superior da coxa (rasatala) (Ada Albrecht (trad.) - Uttara Gita, cap. II: vers. 26 -31). Satyananda Saraswati apresenta uma classificação com alguma diferença: omite o nitala e coloca patala abaixo de atala, completando o conjunto de sete chacras abaixo do básico.

Enumeraremos os sete chacras maiores e suas denominações em sânscrito.


CHACRAS

NOMES SÂNCRITOS

básico ou fundamental

mulâdhara

sacro, sexual, genésico, hipogástrico

svadhisthana

solar ou umbilical

manipura

cardíaco

anahata

laríngeo

vishuddha

frontal ou cerebral

ajna

coronário

sahashara

 


Embora essas sejam as denominações em sânscrito mais usadas, não são as únicas. Se limitamo-nos a essas, fazemo-lo por serem mais conhecidas, como ilustração, pois os centros já possuem denominação em língua portuguesa.


Além desses, é importante destacar o chacra mesentérico (esplênico ou do baço), em geral omitido pela literatura hindu, lisse chacra, apesar de sua importância para a saúde e para o sistema imunológico, não tem especial função no sistema de desenvolvimento espiritual, sendo, por isso, possivelmente omitido naquelas escrituras. Leadbeater refere-se à existência de um segundo chacra secundário à altura do coração, abaixo do cardíaco, mas Aurobindo o nega peremptoriamente:


"Nunca ouvi falar de dois lótus no centro do coração; mas ele é a sede de dois poderes: na frente, o vital mais alto ou ser emocional, aliás, e escondido, o ser psíquico ou alma" (1973:207).

Existe uma certa diferenciação no que diz respeito à enumeração dos principais chacras pelos vários autores, o que não quer dizer que eles sejam designados ao alvedrio de cada um; pelo contrário, é baseada em distintas razões. Faremos algumas referências.


Leadbeater põe de lado o centro genésico ou sacro por "entender que o despertamento deste centro deve considerar-se como uma desgraça pelos graves perigos a ele relacionados" (1974:22 nota), preferindo estudar o esplênico ou mesentérico. Edgard Armond (1978:49, 143) segue-lhe as pegadas com a mesma justificativa, a que acrescenta o fato, segundo sustenta, de ser de diminuta influência sua aplicação nos passes. Sem entrar em maiores detalhes sobre o assunto, deve advertir-se, porém, no que se refere aos passes, ser imprescindível que o médium passista tome conhecimento dele, pois não pode descuidar-se por causa da impregnação possível de energias de baixo teor a necessitarem dispersão.


Na concepção budista, o centro sagrado ou genésico não é considerado como um centro independente, porém é visto como combinado com o centro que fica mais em baixo - o fundamental ou básico. No Yoga tibetano, por outro lado, o centro frontal e o coronário são considerados como sendo um só e assim nomeados nas escrituras (Govinda, 1983:151s). A escola japonesa Shingon omite o centro sagrado e indica o centro das espáduas (esse centro já foi observado, em nosso grupo, no dia 22/11/89) e os dois centros situados à altura dos joelhos (Coquet, 1982:14s). O Shat-chakra-nirupana não considera o coronário como simples chacra, mas o coloca em outra ordem mais elevada. O Trika admite somente cinco chacras principais (Silburn, 1983:42). Satyananda Saraswati indica oito centros, incluindo, além dos sete tradicionais, o bindu, "localizado atrás no alto da cabeça, onde os brâmanes hindus colocam um topete de cabelo". Essas diferentes especificações dizem respeito a diferenciações quanto ao sistema utilizado.


Na literatura proveniente do mundo espiritual, o Espírito White Eagle, guia espiritual da famosa médium Grace Cookc, enumera sete chacras principais, incluindo o esplénico, omitindo, porém, o centro básico como centro independente, indicando porém o sacro a que denomina de genital ou kundalini (citado por Grace Cooke 1973:40). André Luiz segue o mesmo roteiro: não menciona o chacra fundamental e inclui o esplênico (ETC, 1956:127s), e ao frontal, denomina-o de cerebral (idem:128; E.D.M., 1959:27)" . Não se segue disso que esses Espíritos neguem a existência do chacra básico; eles o devem encarar como formando um sistema juntamente com o genital que lhe fica logo acima. Esta ligação é tão profunda que, muitas vezes, indica-se o básico como responsável pelos impulsos sexuais, enquanto os impulsos de ódio, medo, ira e violência são relacionados ao genital (entre outros, Osho, 1996:87s e 88s). Satyananda Saraswati também relaciona o chacra básico com o sexo, considerando o genésico como o "lar do inconsciente" (1984:148s e 155s).


Chacras existem, situados bem próximo do centro frontal, geralmente não nomeados pelos autores, tais como o mana chacra e soma chacra, relacionados, segundo Mircea Eliade, com as funções intelectivas e certas experiências yôguicas; além destes, nas mesmas proximidades, encontra-se o karana rupa.


Como nos referimos, Jung, que considerava os chacras centros de consciência, indicou o grau de envolvimento psicológico de cada um deles. Pierre Weil (1976:105) recolheu na síntese publicada no exemplar datilografado da

Biblioteca de Jung:


• Fundamental: Mundo dos instintos. Consciente


• Sacro: Entrada no inconsciente. Novo nascimento. Batismo


• Umbilical: Emoções. Paixões. O Inferno


• Cardíaco: Começo do Self. Sentimento. Pensamento e valores. Individuação


• Centro laríngeo: Reconhecimento da independência da psique. Pensamento abstrato. Conceitos; produtos da imaginação


• Frontal: União do Self no todo, no não-ego


• Coronário: Nirvana


LOCALIZAÇÃO


Esses centros de força estão em geral localizados nos locais correspondentes ao plexos, isto é, nos locais em que uma grande quantidade de nervos se reúne. Entretanto, existe um centro que se localiza no topo do cérebro, na parte superior da cabeça, que não está diretamente ligado ao corpo físico por um plexo.


0 Swami Narayananda (1979:54) afirma, porém, que as diferentes localizações anatômicas não são locais exatos dos chacras, mas só grosseiramente indicam os centros sutis. À visão mediúnica, eles surgem nas regiões geralmente apontadas, mas muitas vezes interligados de tal modo que parecem uma formação abrangendo, por exemplo, o coração e a garganta como se o cardíaco e o laríngeo formassem um só chacra. O quadro a seguir indica as localizações.


CHACRAS

LOCALIZAÇÃO

básico ou fundamental

entre o ânus e o genital

sacro, sexual, genésico,

acima dos genitais

solar ou umbilical, gástrico

região do umbigo

cardíaco

região do coração

laríngeo

região da garganta

frontal

na cabeça, entre os supercílios

coronário

no topo da cabeça, correspondendo à ontanela

 


APRESENTAÇÃO CLARIVIDENTE


Quando há anos passados preparávamos uma apostila sobre os Chacras, os Espíritos começaram a dirigir os médiuns na captação visual dos chacras. As visões eram dirigidas por um médium-controlador, amparado por um Mentor, que orientava a investigação. Embora a quase totalidade dos registros fossem obtidos desse modo, a visão (aparentemente) espontânea ocorreu algumas poucas vezes. Os chacras foram observados pelos videntes de duas maneiras:


a) formando um disco luminoso;


b) girando vagarosamente, quando então se podia ver uma espécie de pás, como de um ventilador. É interessante anotar que, quando o disco luminoso é observado, os médiuns não conseguem manter a observação por muito tempo e tendem a desprender-se, o que, em geral, ocorre. A nosso ver, essa sensação depende do nível da visão. Quando essa não se aprofunda e o vidente apenas percebe a intumescência à altura do chacra, formada de ectoplasma, a sensação não ocorre, embora possa causar uma grande emoção. Nesse caso, a visão mantém-se no nível do duplo etérico.


Segundo Barbara Ann Brennan (1990:72 e 74), cada um dos chacras teria uma contraparte traseira emparelhada. Choa Kok Sui (1993:17s) refere-se a chacras dorsais do baço, do plexo solar, do coração, além do que ele denomina de meng mein (sic), também dorsal. Mas, em seguida, ao tratar das terapias, inclui um outro chacra, o posterior da cabeça, na região do occipital (1993:64s, 70). Parece que essas referências a chacras dorsais dizem respeito aos pontos de acupuntura Yu-Chen BL-9, Chi-Chung GO-6, Ming-Men GO-4, Chang-Chiang (Vide Mantak Chia, 1987:66). Esses pontos situados nas costas estão localizados em posições antagónicas a certos chacras, que aliás correspondem a outros pontos de acupuntura, o que leva a crer que sejam eles os chacras situados no duplo etérico. Em nenhuma das observações clarividentes, pôde ser observada a referida contraparte de chacras. Não encontramos ainda dela registro em livros da índia.


Leadbeater (1974:20), ao descrever o chacra, compara-o ao pecíolo de uma flor que brotasse de um pedúnculo, de modo que a coluna vertebral assemelhar-se-ia a um talo central do qual as flores com suas corolas brotassem. ME registrou que, ao ter-lhe aplicado um passe, pôde observar, no passista, "um pedúnculo que saía da altura da ponta inferior do esterno e que se abria numa circunferência do tamanho de um pires a emitir uma luz azul claríssimo, transparente e luminosa, mas também prateada e alva com prateado. O pedúnculo voltou-se para cima e a luz emitida passou a iluminar o rosto do médium, por baixo do pescoço. Depois, o pedúnculo retraiu-se, tomou a posição horizontal e a luz expandiu-se em minha direção. A circunferência dava a idéia de que formava um funil" (registro em 30/9/92).


Descreveu Leadbeater, ainda, a existência de uma tela etérica Mtre os chacras etéricos e os astrais correspondentes, com a (unção de evitar uma "prematura comunicação entre os planos", que poderia ser prejudicial, permitindo a influência de entidades obsessoras (idem:107s)


Shalila Sharamon e Bodo J. Baginski (1994:26s) indicam diferentes movimentos (horário e anti-horário) para os chacras, variando de acordo com o chacra e o sexo, como indicado no quadro abaixo:

CHACRAS

MULHER

HOMEM

básico

anti-horário

horário

genital

horário

anti-horário

gástrico

anti-horário

horário

cardíaco

horário

anti-horário

laríngeo

anti-horário

horário

frontal

horário

anti-horário

coronário

anti-horário

horário


Sharamon e Boginski escrevem, em seguida, que "O movimento circular dessas rodas faz com que a energia seja atraída para o interior dos chacras. Quando a rotação é ao contrário, a energia é irradiada pelos chacras" (idem:23), o que parece desdizer discriminação do movimento por sexo, pois decorreria disso que existiriam sempre chacras atraindo energias e outros que a irradiariam permanentemente. Essas diferenciações nunca foram notadas nas observações feitas. Às vezes, o chacra inicia uma rotação anti-horário e depois passa a girar no sentido horário. No entanto, recolhemos em Karagulla e Van Kunz (1989:199) a observação, feita pela segunda, de que o chacra sagrado é o único centro em que a direção do movimento é diferente no homem e na mulher: o feminino movimenta-se em sentido anti-horário.


Muitos autores referem-se a cores fixas para cada um dos chacras. Nas observações feitas pelo grupo, constatou-se que as cores variam, dependendo inclusive do indivíduo que está sendo observado, encarnado ou desencarnado. Por isso, as cores apresentadas por aqueles não conferem entre si nem com as escrituras clássicas.


Em geral, os autores limitam-se a repetir o número de pétalas (ou pás) dos chacras, conforme os registros existentes na literatura hinduísta, ou seja, o básico teria quatro, o genital - 6; o gástrico - 10; o cardíaco - 12; o laríngeo - 16; o frontal - 2 (Leadbeater escreve que cada uma delas tem 48 ondulações, totalizando 96 ao todo); o coronário - 1.000 (segundo Leadbeater, seriam 960, devendo-se ser acrescidas de mais 12 de um torvelinho central que este chacra possuiria). O esplênico teria seis pétalas. O sistema budista apresenta número de pétalas diferente. No entanto, John Mann e Lar Short (1992:78s) reproduzem uma tabela extraída do livro Tibetan Buddhist Medicine and Psychiatry, de Terry Clifford, onde não somente assinalam denominações distintas, mas indicam número de raios diferentes - Bem-aventurança (cabeça) - 32; Contentamento (garganta) - 16; Fenômenos (coração) - 8; Transmutação (umbigo) -64; Felicidade (genitais) - 32. Anagarika Govinda, no estudo do misticismo tibetano, relaciona o mesmo número de pétalas do sistema hinduísta (1983:153-155). Pela descrição dos videntes, torna-se impossível uma contagem de pétalas ou ondulações. Pode até dizer-se que se torna impossível dar uma idéia da velocidade em que giram, das cores, tonalidades, brilho etc.


Tudo o que se possa dizer não dá uma verdadeira ideia da realidade percebida.


Não sendo possível transcrever aqui as observações dos clarividentes, vamos apenas dar um exemplo, por ser de interesse médico a observação.


A observação espontânea foi feita, após a manifestação de um Espírito necessitado de evangelização, em uma médium inconsciente, que é, desde jovem, cardíaca. O chacra cardíaco apresentou-se com três partes: na parte central, um núcleo escuro (vide explicação abaixo); partindo dele, surgiam partes alongadas como hélices de um ventilador quando inicia a rotação, mas sem impulso. Lentamente iniciou-se o movimento, mas não atingiu uma aceleração significativa (esta parte que envolvia o núcleo era dourada); uma terceira parte com cores diversas surgia na extremidade do disco. O clarividente perdeu o contato, por ter modificado sua atenção para "um ponto logo abaixo da garganta, muito alvo, brilhante e transparente" (registro de P/2/91).


Núcleo Central


Os clarividentes destacaram na visão do chacra a existência de um ponto negro que fica ao centro; desse ponto é emitida toda a luminosidade, que alcança níveis impressionantes quando se trata dos chacras dos próprios espíritos. Denominamo-lo de buraco negro, por analogia com os buracos negros da astronomia, embora funcionem inversamente, pois ao invés de absorverem luz eles desprendem luz. Só em uma oportunidade loi feito o registro de absorção de luz. David V. Tansley (1985:25) tambem assinala o núcleo: "Ele possui um ponto incandescente de imergia no meio da depressão semelhante a um pires (...)". Procurando descrever os elementos componentes dos chacras, Lilian Silburn (1983:49) indica apenas um ponto central existente em cada um deles, a que chama de bindu (conf. Tansley, 1968:71; não confundir com o chacra bindu, referido acima). É Interessante anotar que o ponto foi observado antes que tivéssmos encontrado essas referências, não tendo os médiuns conhecimento do que se tratava. O ponto central, porém, não surre, como vimos, à observação clarividente, como um ponto Incandescente, mas como o ponto que gera a luz do chacra. É possível que Tansley não tenha alcançado o núcleo propriamente dito. Durante muito tempo, e ainda hoje, o assunto é objeto de observação.


Assinalemos ainda que o centro do chacra transmite ao clarividente uma sensação de profundidade. Esse núcleo central deve ser o local de transferência de energia entre os vários corpos, incluindo o físico.


No centro de cada uma das mãos, existe um chacra do qual emana luz de diferentes cores e tonalidades, conforme a ocasião. Segundo algumas observações feitas durante os passes em pessoas com males físicos, a luz que dele flui nessas ocasiões é avermelhada (a tonalidade assemelha-se àquela que se obtém quando se coloca o dedo sobre a luz de uma pequena lanterna). Em outras ocasiões, flui grande quantidade de ectoplasma e em outras oferece belos espetáculos de luz com diferentes cores. O ponto central negro é também aí observado. Ainda que não pareça ser o ectoplasma negro que se transforma em luz, na materialização do Espírito, à medida que este vai aplicando pequenas pancadas, há, no entanto, uma certa analogia no que se refere à emanação da luz. Outra indicação seria alguma relação com o corpo causal: Swami Muktananda descreve a visão do corpo causal, como de uma luz negra do tamanho de uma unha (1986:109).


COLORAÇÃO DOS CHACRAS


Tanto nos livros de autores modernos quanto na literatura sânscrita são descritas diferentes cores para cada um dos chacras, muitas das quais não coincidentes. Nas observações mediúnicas feitas, pôde verificar-se que também estas não coincidiam sempre com as cores indicadas nos livros. A conclusão a que deveríamos chegar é a de que inexistem cores fixas para cada um dos chacras, embora alguns se apresentem com as cores descritas nos livros. A título de ilustração, reproduzimos o quadro a seguir.


CHACRAS - COLORAÇÃO

BÁSICO OU FUNDAMENTAL

LEADBEATER E POWEL

laranja avermelhado

COQUET

brilho alaranjado

AUROBINDO, SHAT-CHAKRA

NIRUPANA, SIVA SAMIHITA


vermelho

TARA MICHAEL

carmesim

CHACRA GENÉSICO OU SAGRADO

LEADBEATER e o GARUDA PURANA

brilho do sol

COQUET, TARA MICHAEL,  

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA  

E O SHIVA-SAMHITA

vermelhão

AUROBINDO

vermelho, violáceo escuro

TIBETISMO TÂNTRICO

branco

CENTRO ESPLÊNICO OU DO BAÇO

LEADBEATER cores do espectro solar, menos o índigo

CENTRO SOLAR

LEADBEATER

matizes de vermelho e verde

COQUET

rosa com mistura de verde

TARA MICHAEL

flamejante

AUROBINDO

violeta

SATYANANDA

azul escuro

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA

azul

SIVA SAMHITA

dourado

GARUDA PURANA

vermelho

CENTRO CARDÍACO

LEADBEATER, POWELL E TARA MICHAEL

cor ouro brilhante

COQUET

amarelo ou ouro incandescente

AUROBINDO

rosa dourado

SATYANANDA

escuro, qdo.ativado, vermelhão brilhante

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA

vermelhão

GARUDA PURANA

dourado

CENTRO LARÍNGEO

LEADBEATER

prateado brilhante c/muito azul

POWELL

prateado brilhante c/muito azul

AUROBINDO

cinza

SATYANANDA

cinza violeta

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA

púrpureo escuro

SIVA SAMHITA

ouro brilhante

GARUDA PURANA

prateado

CENTRO FRONTAL

LEADBEATER, POWELL, COQUET

rosa com muito amarelo e azul púrpureo

SATYANANDA

cinza

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA, SIVA SAMHITA

branco

GARUDA PURANA

vermelho

CENTRO CORONÁRIO

LEADBEATER

todas as cores do espectro

COQUET

sol branco brilhante com mil flores douradas

SHAT-CHAKRA-NIRUPANA

branco brilhante

MOTOYAMA

cor de ouro ou luz rosada

CHACRAS E PLEXOS



Os chacras, com exceção do coronário, estão relacionados com os plexos nervosos do corpo físico. Embora não haja a respeito muitas diferenciações a assinalar, elas existem entre os autores com relação a uns poucos chacras.


Anotemos, por exemplo que Weil (1976:104) relaciona o chacra básico com o plexo pélvico ou sagrado, e o genésico, com o plexo hipogástrico.


Gerard Edde (1987:34), ao básico corresponderia o plexo sagrado e o coccígeo, enquanto que o genésico também estaria ligado ao primeiro.


CHACRAS

PLEXOS

básico

coccígeo

genésico,

sacro

mesentérico

esplênico

solar

solar

cardíaco

cardíaco

laríngeo

laríngeo

frontal

frontal

GLÂNDULAS ENDÓCRINAS


Os chacras relacionam-se com as glândulas endócrinas situadas no organismo físico. O quadro a seguir oferece-nos algumas das correspondências. Esta ligação chama-nos a atenção para a importância do seu estudo pelos médicos, sobretudo com o crescente aumento do número de pessoas com alterações glandulares. A observação dos chacras do paciente e o auxílio magnético podem tornar-se medidas aconselháveis. Aqui, também, há diferentes opiniões a respeito,como se pode perceber pelo quadro a seguir.



FINALIZANDO


Evidentemente, temos acima apenas um leve bosquejo da matéria que o estudo envolve. Seria alargá-lo demasiadamente entrarmos em seguida em questões tais como chacras na mediunidade, despertamento dos chacras, chacras e evolução, etc. Na impossibilidade de tratar de todos estes assuntos no momento, colocaremos à guisa de fecho, algumas anotações -


1) As experiências levam a sustentar a existência de vários corpos espirituais.


2) O termo perispírito pode ser empregado, em sentido amplo, referindo-se ao conjunto de corpos espirituais, ou em sentido restrito, dizendo respeito apenas ao corpo astral, como o faz André Luiz.


3) Na obra de Allan Kardec já existem indícios dos corpos espirituais, revelados pela filosofia dos rishis (videntes) indianos e na literatura espírita posterior.


4) Não há diferença, na obra de Allan Kardec, entre princípio vital e fluido vital; Prana, Chi, Ki, Energia psíquica, são denominações do fluido vital.


5) A energia denominada de kundalini é também fluido vital, embora especificada pela sua localização e atuação.


6) A energia conhecida como kundalini pode ser observada, pela clarividência, na região do epêndima, como uma corrente de luz vermelha que sobe do cóceix em direção ao cérebro.


7) Há indícios de que energia central (kundalini) tenha influência no desenvolvimento da mediunidade, como o tem nos fenômenos de êxtase.


8) A kundalini tanto pode erguer-se em direção ao cérebro como descer na direção dos pés, no caso da existência de certos distúrbios.


9) A realidade dos chacras e nadis pode ser comprovada através da clarividência ou de aparelhos, tais como os inventados pelo Dr. Hiroshi Motoyama.


10) Existem chacras e nadis correspondentes em cada corpo espiritual.


11) Diferenças referentes ao número de chacras ou a sua interpretação são devidos aos sistemas de desenvolvimento espiritual utilizados, o que acarreta a omissão de alguns deles ou o destaque dado a outros.


12) Diferenças nos aspectos dos chacras podem ser devidas - a) ao corpo espiritual focalizado; b) ao desenvolvimento espiritual da pessoa ou do Espírito observado; c) ao observador, como em toda observação.


13) Os chacras e as nadis parecem ser idênticos aos pontos e meridianos da acupuntura, pelo menos, a nível etérico. O sistema chinês foi importado, inclusive da índia, e desenvolveu-se mais acentuadamente na parte médica.


14) O relacionamento dos chacras e do sistema de canais (nadis) com o corpo físico, quer através das glândulas endócrinas e dos plexos quer através do sangue, tornam o seu estudo indispensável aos médicos espíritas. O despertamento da energia central (kundalini) no indivíduo pode gerar graves problemas psicóticos, semelhantes aos gerados pela ação de uma personalidade obsessora. Os trabalhos de Itzhac Bentov (1988) e de Lee Sanella {1987) são muito importantes para a compreensão das manifestações da kundalini, desde que seu conhecimento provém da experiência clínica.


15) A colaboração de médicos e médiuns pode gerar considerável desenvolvimento no conhecimento da influência dos chacras na saúde do indivíduo.


16) O estudo do sistema de chacras e nadis é também importante para os psicólogos: os chacras são centros de energia psíquica e de consciência. Os sistemas psicológicos pode ser referidos aos chacras. Swami Rama, Rudolf Ballentine, M.D. e Swami Ajaya (Allan Weinstock, PhD.) escreveram um belo trabalho útil a médicos e psicólogos: Yoga and Psychoterapy; the evolution of consciousness [1979), em que estudam a relação dos chacras com a psicologia do homem.


17) Os fenômenos mediúnicos se verificam pela intermediação do duplo etérico do médium, sejam os de efeitos físicos ou inteligentes, com a utilização dos vários chacras, com resultados correspondentes.


18) O desenvolvimento isolado dos chacras não é sinal de espiritualidade do indivíduo. Pessoas que se entregam aos prazeres sensuais, que abusam da sexualidade, altamente ciumentas e possessivas, têm o chacra genital bastante desenvolvido.


19) Os chacras não devem ser desenvolvidos isoladamente. Embora existam vários modos de realizá-lo, o serviço ao próximo é reconhecidamente uma maneira segura de atingi-lo.


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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Parábola de Lázaro e o Rico

 LEDA MARIA FLABOREA

ledaflaborea@uol.com.br

São Paulo, SP (Brasil)

 


Parábola de Lázaro e o Rico



É um ensino alegórico, representativo do que se passa no plano espiritual, para afirmar que a nossa vida além-túmulo é uma consequência justa e equitativa da nossa existência na Terra.


A parábola fala do abismo entre os que livremente pautam suas escolhas no bem, no nobre e no belo, e os que, também, livremente, insistem em permanecer em atitudes de desequilíbrio, deboche e insensatez frente aos convites de mudanças propostos por Jesus.


É a escolha de cada um e, por isso mesmo, o Mestre nos fala das imutáveis leis divinas e de como o homem é o próprio criador do seu céu e do seu inferno. 


Eis a parábola:


Um rico vivia luxuosamente em seu palacete, vestindo-se com finas roupas e banqueteando-se esplendidamente todos os dias. À porta de sua residência, jazia um pobre homem de nome Lázaro, coberto de feridas e com fome. Desejava catar as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava, e ele não podia mover-se para apanhá-las.


Um dia, o pobre Lázaro morreu e foi levado pelos anjos, ao seio de Abraão. Algum tempo depois, o rico também morreu e “foi sepultado”.


O texto conta que, no inferno, o rico “levantou os olhos”, não os olhos materiais, mas os do Espírito (destaque nosso), seguindo-se estranho diálogo entre ele e Abraão – representante do mundo espiritual, das regiões mais elevadas.


No meio dos seus sofrimentos, o rico pede a Abraão que mande Lázaro refrigerar-lhe a língua com uma gota de água, para aliviar um pouco suas agonias. Abraão, porém, nega-lhe o pedido, acrescentando que há um “abismo” entre os do inferno e os das alturas, de maneira que não há possibilidade de trânsito entre os dois níveis.


Em seguida, pede que mande Lázaro à casa de seu pai, para que conte aos cinco irmãos o que está acontecendo, para que não tenham que vir para o mesmo lugar. Mais uma vez, Abraão diz que eles têm Moisés e os profetas e que se eles não conseguem ouvi-los, como escutarão alguém que já morreu? 


Como todas as parábolas de Jesus, esta também tem endereço certo.


O que se faz necessário, antes de qualquer coisa, é compreender o conceito de rico, segundo o ponto de vista do Mestre, pois a parábola fala de um rico egoísta e avarento, que não sabe aplicar de forma justa a riqueza que Deus colocou, transitoriamente, em suas mãos.


Em momento algum, refere-se aos ricos que fazem com que suas fortunas sejam fonte perene de bens, e que favorecem a todos que estão ao seu redor.


E o Evangelho adverte-nos que o homem não possui de seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e deixa ao partir, goza durante sua permanência na Terra; mas, desde que seja forçado a deixá-los, é claro que só tem deles o usufruto.


Por ser mero depositário, administrador dos bens que Deus, por misericórdia, colocou em suas mãos, terá de prestar contas de como esses bens foram empregados.


Para entender melhor essa parábola, precisamos separar seus trechos.


1 – Assim, quando Jesus narra que há um abismo entre o inferno e o céu, não se refere, certamente, à impossibilidade de uma conversão após a morte, como se os sofrimentos fossem eternos e os gozos dos habitantes celestes sem-fim.


O texto não menciona uma só palavra, algo como “conversão” do sofredor. O que o rico pede é somente alívio das penas; não se mostra arrependido. Pensa em aliviar seu mal, sem se converter da sua maldade. Continua igual a como era na vida planetária.


Segundo o ponto de vista de Jesus, o que o rico sofredor pede não é possível em face da Lei de Justiça. Enquanto a maldade perdurar no seu íntimo, o mal persistirá nos seus atos e pensamentos.


O interessante é que ele não solicita nova encarnação para a remissão dos seus enganos; não solicita que seus irmãos mudem a conduta diante de Lázaro redivivo, mas que eles não venham a sofrer o que ele está sofrendo.


Diante da solicitação, Abraão fez ver que eles não estão com vontade de se converterem, pois sequer atendem a Moisés e aos profetas. 


2 – podemos perceber que a pretensa dissociação entre culpa e pena, entre causa e efeito, entre maldade e mal, é absolutamente impossível em face das leis divinas. Por isso, Abraão diz existir um grande abismo entre uns e outros.


É importante salientar que esse abismo não é criação de Deus, mas é cavado pelo próprio homem. Deus não fez nenhum céu e nenhum inferno para o homem. É o livre-arbítrio humano o responsável por eles.


Por essa razão, céu e inferno não são lugares geograficamente localizados no além-túmulo, mas, sim, estados da consciência, criações humanas que determinam sofrimentos ou bem-aventuranças.


Jesus nos disse que o Reino dos Céus está dentro de nós e o reino do inferno também pode estar. Portanto, é tolice imaginar que desencarnados tornam-se anjos, se não mudarem a mentalidade enquanto estiverem encarnados. Somos o que somos, aqui e além.


A morte do corpo não destrói os sentimentos inferiores, negativos, que abrigamos no Espírito. Quem vivia ligado às coisas da matéria, sem se incomodar com as coisas de Deus, continuará, no plano espiritual, a ser alguém ligado à matéria e, agora, sofrendo.


Por essa razão, existe esse abismo entre os dois mundos da parábola. Então, enquanto esse homem materialista não modificar seus sentimentos, retornará ao círculo da matéria tantas vezes quantas forem necessárias, até que se modifique.


A cada nova vivência, será despertado para novos valores. “Somente um novo compreender, um novo querer, um novo viver é que podem redimir o homem de suas maldades, e, finalmente, de todos seus males.” (Huberto Rohden)  


3 – A parábola do rico avarento e do pobre Lázaro encerra, ainda, outra visão:


Há quem pense que o sofrimento seja fator de redenção. Nenhum sofrimento em si redime o homem, mas, sim, a atitude do homem face ao sofrimento: desespero, revolta ou aproveitamento da lição bendita. Dois caminhos e uma escolha...


Um encara as dificuldades com otimismo, porque tem fé na Providência Divina, nos bons Espíritos e em si mesmo. Sabe que é filho de Deus com infinitas possibilidades de vencer, em cada fase evolutiva, apesar das dificuldades inerentes a ela.


O outro revolta-se ante os problemas: não aceitação, desesperança, transfere para os outros, inclusive a Deus, as responsabilidades que nos são próprias.


Com isso, acabamos por acrescentar um quadro de desequilíbrios, forjados por nós mesmos, frutos das nossas escolhas descabidas, com desejos e caprichos de todas as ordens. Com essa atitude, perde-se o fruto da bênção que poderia aliviar e até mesmo anular as penas em reencarnações vindouras.


O Mestre nos ensina, então, a entender o valor educativo das aflições. No início doem, machucam a alma, como o aluno que é reprovado. Mas, após vencer as primeiras provas, as lutas seguintes transformam-se em alimento espiritual, porque entendemos que só através do trabalho diário de renovação, contra nossas imperfeições, podemos nos melhorar.


Portanto, “o simples fato de ser rico não constitui obstáculo irremovível para os Espíritos que descem à Terra, assim como as palavras de Jesus não representam a proclamação automática da salvação dos pobres de bens materiais” (P. Alves Godoy). O “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” não significa o rico de bens materiais, mas o rico em orgulho, egoísmo, avareza, cobiça.


Quantos ricos há que podem ser considerados Lázaros da parábola; e quantos pobres podem ser considerados os ricos.


O sofredor da parábola não se converteu com os sofrimentos pelos quais passava. Podia querer e não o fez. A alma sem o corpo físico pode converter-se quando quiser, pois o livre-arbítrio – o direito de escolhas – é atributo do Espírito e não da matéria.


A ideia comodista e irresponsável de que “a carne é fraca” sucumbe diante dessa afirmação. A carne não é fraca; fraco é o Espírito que não luta contra as tentações.


E onde buscar a força, a coragem para essa luta? Em Jesus. Na prece sentida, acreditando que não há órfãos na Criação e que somos capazes de vencer as atribulações. 


“Vinde a mim vós todos que estais atribulados e eu vos aliviarei.” Busquemos, pois, Jesus. 


 


Bibliografia: 


1. ROHDEN, Huberto. Sabedoria das Parábolas – 12ª ed., Editora Martin Claret – São Paulo/SP, 1997, p. 35.


2. GODOY, Paulo Alves. As Maravilhosas Parábolas de Jesus – 9ª ed., Edições FEESP – São Paulo/SP – 2008 – p. 74.


3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo – Cap. V e XVI.


4. SCHUTEL, Cairbar – Ensinos e Parábolas de Jesus – 14ª ed., Casa Editora O Clarim – Matão/SP – 1997 – 1ª Parte – p. 104.

 


Maus ricos

 Maus ricos

 

No Evangelho de Lucas encontramos a seguinte parábola proposta por Jesus:


Havia um homem rico, que vestia púrpura e linho e se tratava magnificamente todos os dias.


Havia também um pobre, chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de úlceras - que muito estimaria poder mitigar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico; mas ninguém lhas dava e os cães lhe vinham lamber as chagas.


Ora, aconteceu que esse pobre morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão. O rico também morreu e teve por sepulcro o inferno.


Quando se achava nos tormentos, levantou os olhos e via de longe Abraão e Lázaro em seu seio - e, exclamando, disse estas palavras:


"Pai Abraão, tem piedade de mim e manda-me Lázaro, a  fim de que molhe a ponta do dedo na água para me refrescar a língua, pois sofro horrível tormento nestas chamas."


Mas Abraão lhe respondeu: "Meu filho, lembra-te de que recebeste em vida teus bens e de que Lázaro só teve males; por isso, ele agora está na consolação e tu nos tormentos."


Disse o rico: "Eu então te suplico, pai Abraão, que o mandes à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, a dar-lhes testemunho destas coisas, a fim de que não venham também eles para este lugar de tormento."


Abraão lhe retrucou: "Eles têm Moisés e os profetas; que os escutem."


"Não, meu pai Abraão", disse o rico, se algum dos mortos for ter com eles, farão penitência."


Respondeu-lhe Abraão: "Se eles não ouvem a Moisés, nem aos profetas, também não acreditarão, ainda mesmo que algum dos mortos ressuscite."


*   *   *


Jesus aponta com rigidez, as consequências de uma vida egoísta.


Não condena a riqueza, mas sim a atitude daqueles ricos do mundo que não sabem da responsabilidade que têm, no uso e administração de seus bens.


Esse mau rico foi condenado aos tormentos de seu inferno íntimo - da consciência culpada que queima feito fogo.


Esse rico que se vestia de púrpura e que todos os dias se regalava esplendidamente, é o símbolo daqueles que querem tratar da vida do corpo e se esquecem da vida da alma.


São os que buscam a felicidade no comer, no beber e no vestir. São os egoístas que vivem unicamente para si.


E muitos lázaros se arrastam ao seu redor...


Não só clamando em seus portões por migalhas de suas mesas fartas, mas por vezes dentro de seus lares, na figura daqueles que carecem de atenção e de amor.


Triste fim terão esses ricos do mundo, se não despertarem a tempo...


*   *   *


A riqueza não constitui obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem.


Certas palavras de Jesus, interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito, podem trazer errôneo entendimento.


Se assim fosse, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, ideia que repugna à razão.


Sem dúvida, pelos arrastamentos a que dá causa, pelas tentações que gera e pela fascinação que exerce, a riqueza constitui uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria.


É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida sensual. É o laço mais forte que prende o homem à Terra e lhe desvia do Céu os pensamentos.


Mas, do fato de a riqueza tornar difícil a jornada, não se segue que a torne impossível e não possa vir a ser um meio de salvação para o que dela sabe servir-se, como certos venenos podem restituir a saúde, se empregados a propósito e com discernimento.


Redação do Momento Espírita com base no cap. Parábola do rico e Lázaro, do livro Parábolas

 e ensinos de Jesus, de Cairbar Schutel, ed. O clarim e no item 7 do cap. XVI do livro

O evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, ed. Feb.

Em 13.05.2009.

Parábola do Mau Rico

 

Sérgio Biagi Gregório


SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Por que Jesus falava por Parábolas. 4. a anotação de Lucas: 4.1. O texto evangélico; 4.2. Sintetizando o texto evangélico. 5. Analisando o conteúdo doutrinário da Parábola: 5.1. A prova da riqueza é mais difícil do que a da pobreza; 5.2. O desencarne mostra a verdade das coisas; 5.3. As barreiras da comunicação são morais; 5.4. O seio de Abraão simboliza a Providência Divina. 6. Por que uns são ricos e outros pobres: 6.1. Problema insolúvel; 6.2. O princípio da Reencarnação no dá uma pista; 6.3. Orientação espírita: o desprendimento dos bens terrenos. 7. Conclusão. 8. Bibliografia.


1. INTRODUÇÃO


O objetivo deste estudo é mostrar que toda colheita depende da plantação. Assim, daremos uma idéia do que seja parábola, enunciaremos o texto evangélico, analisaremos os seus termos principais e, por fim, colocaremos em questão o problema da riqueza.


2. CONCEITO


Parábola - do gr. parabole significa narrativa curta, não raro identificada com o apólogo e a fábula, em razão da moral, explícita ou implícita, que encerra e da sua estrutura diamétrica. Distingue-se das outras duas formas literárias pelo fato de ser protagonizada por seres humanos. Vizinha da alegoria, a parábola comunica uma lição ética por vias indiretas ou simbólicas: numa prosa altamente metafórica e hermética, veicula um saber apenas acessível aos iniciados.


Sinteticamente: narração alegórica na qual o conjunto dos elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior.


Mau – Que causa prejuízo. Contrário à razão, à justiça, ao dever, à virtude.


Rico –  Que possui muitos bens ou coisas de valor; que tem riquezas.


3. POR QUE JESUS FALAVA POR PARÁBOLAS


Na época em que Jesus esteve encarnado, ele se valia das parábolas para divulgar os seus conhecimentos evangélicos. 


As parábolas – didática utilizada para transmitir instruções da época – eram estórias geralmente extraídas da vida cotidiana, como por exemplo, o semeador que saiu a semear, a ovelha desgarrada que deve ser capturada, a dracma que deve ser procurada, que tinham por objetivo passar de um conhecimento concreto para um conhecimento abstrato, de fundo moral, de alcance espiritual.


4. A ANOTAÇÃO DE LUCAS


4.1. O TEXTO EVANGÉLICO


“Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de Holanda, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um pobre mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à sua porta, e que desejava fartar-se das migalhas que caiam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhes as úlceras. Ora sucedeu morrer este mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. E morreu também o rico, e foi sepultado no inferno. E quando ele estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. E gritando ele, disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda cá Lázaro, para que molhe em água a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou atormentado nesta chama. E Abraão lhe respondeu: Filho, lembra-te de que recebeste os bens em tua vida, e de que Lázaro não teve senão males; por isso está ele agora consolado, e tu em tormentos. E demais, e que entre nós e vós está firmado um grande abismo, de maneira os que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para cá. E disse o rico: pois eu te rogo, Pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, e não suceda eles também venham parar a este lugar de tormentos. E Abraão lhe disse: eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Disse pois o rico: não, pai Abraão, mas se for a ele alguns dos mortos, hão de fazer penitência. Abraão, porém, lhe respondeu: se eles não dão ouvidos a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que seja ressuscite algum dos mortos.” (Lucas, cap. XVI, 19,31.)   


4.2. SINTETIZANDO O TEXTO EVANGÉLICO


Havia um rico (mau) e um pobre (Lázaro), que ficava à porta do rico. O rico não distribuía ao Lázaro nenhuma das migalhas que lhe sobravam.  


Passou-se o tempo: Lázaro desencarna; o rico também.


No mundo espiritual, Lázaro foi acolhido no seio de Abraão; o rico foi para o Hades (Inferno).


O rico pedia para Lázaro molhar a sua língua. Abraão diz ser impossível, pois há uma barreira entre ambos. Tenta outro pedido: manda o Lázaro ir lá na Terra avisar os meus familiares sobre esses tormentos. Abraão fala que eles já têm Moisés e os profetas.


5. ANALISANDO O CONTEÚDO DOUTRINÁRIO DA PARÁBOLA


5.1. A PROVA DA RIQUEZA É MAIS DIFÍCIL DO QUE A DA POBREZA


Esta parábola põe em evidência os dois extremos da condição humana: a pobreza e a riqueza. O rico simboliza as pessoas apegadas à matéria, ao egoísmo; o pobre, os desprovidos de bens materiais, os sofredores.


O rico, por estar mais próximo dos bens materiais, teve um esquecimento temporário dos benefícios que devia prestar ao seu próximo. Não passou pela provação que lhe foi  requerida. O pobre, por não ser vítima das facilidades do dinheiro, pode suportar a contento a sua prova.


5.2. O DESENCARNE MOSTRA A VERDADE DAS COISAS


Na Terra, os pobres convivem com os ricos. Um está próximo do outro. Passando para a outra dimensão da vida, cada qual vai para aonde o peso específico do seu perispírito o enviar.


Lázaro foi admitido no seio de Abrão; o rico foi para o Hades (inferno). Quer dizer, Lázaro recebeu a recompensa pelo seu sofrimento, por sua humildade, por viver uma existência sem nada gozar. O rico, pelo contrário, já tinha recebido a sua recompensa na Terra, pois usufruíra os bens materiais.


5.3. AS BARREIRAS DA COMUNICAÇÃO SÃO MORAIS


O abismo entre o Lázaro e o rico não é físico, mas moral. No mundo dos Espíritos, há ordem e organização, ou seja, não nos é facultado freqüentar qualquer ambiente, quando as nossas vibrações menos elevadas possam atrapalhar o trabalho de almas mais evoluídas. Por isso, Abraão nega a presença de Lázaro, junto do rico.


Não podendo receber o auxílio de Lázaro, o o rico pede a Abrão que mande Lázaro descer na terra e avisar os seus familiares sobre o teor de seus sofrimentos. Abraão nega mais uma vez o seu pedido. Responde: eles já têm Moisés e os profetas.


5.4. O SEIO DE ABRAÃO SIMBOLIZA A PROVIDÊNCIA DIVINA


Abraão, patriarca bíblico vindo da Mesopotâmia para as terras de Canaã, no reino de Hamurabi, por volta de 1850 a.C. De acordo com a tradição bíblica, Deus o havia retirado de uma região politeísta, a fim de fazê-lo guardião da revelação e do culto monoteísta.


Abraão simboliza o homem escolhido por Deus para preservar o sagrado repositório da fé; o homem abençoado por Deus que lhe prodiga as promessas de numerosas descendências e imensas riquezas. É pai da multidão, o homem de fé.


6. POR QUE UNS SÃO RICOS E OUTROS POBRES


6.1. PROBLEMA INSOLÚVEL


Cientistas sociais do mundo inteiro têm se preocupado com esse problema, mas sem solução adequada. Paul Samuelson, em 1976, disse: “Nenhum esclarecimento foi oferecido até hoje para explicar porque os países pobres são pobres e os países ricos são ricos”.


Qual o tamanho do abismo entre ricos e pobres? A diferença em termos de renda per capita entre a mais rica nação industrial, a Suíça, e o mais pobre país não-industrial, Moçambique, é de cerca de 400 para 1. Há 250 anos, esse hiato entre o mais rico e o mais pobre era aproximadamente de 5 para 1.


Tenta-se formular hipóteses que envolvam a inteligência, a educação, os recursos naturais, a posição geográfica etc. O que é válido para um país é refutado em outros países.


6.2. O PRINCÍPIO DA REENCARNAÇÃO NOS DÁ UMA PISTA


De acordo com os princípios doutrinários, mesmo que se distribuísse a riqueza eqüitativamente, logo ela estaria desigual, porque uns saberiam empregá-la melhor que outros. Os mais talentosos frutificá-la-iam, como é expresso na Parábola dos Talentos. Os temerosos deixá-la-iam enferrujar em suas mãos.


O Espiritismo nos mostra também que o Espírito, ao reencarnar, pode escolher a prova da riqueza ou da pobreza. Muitas vezes esta ou aquela provação é sugerida pelos benfeitores espirituais, em função do que o Espírito fez numa reencarnação passada. Nesse sentido, a pobreza é uma prova em que o Espírito iria se conscientizar do que é a falta do necessário para o provento da vida.


6.3. ORIENTAÇÃO ESPÍRITA: O DESPRENDIMENTO DOS BENS TERRENOS.


Se todos nos colocássemos como usufrutuários dos bens materiais, teríamos uma vida mais tranqüila, e não invejaríamos a riqueza do próximo, pois cada ser humano está colocado no devido lugar e circunstância para a sua evolução espiritual.


Refletindo sobre os ensinamentos espíritas, tomaríamos consciência de que tanto a inteligência quanto o dinheiro e o poder foram colocados em nossas mãos para desenvolver as inteligências menos evoluídas. Isso não deve ser um galardão para as nossas funções, mas uma oportunidade de praticar a lei ensinada por Deus a todos os seus filhos.


O desapego, porém, não é dar tudo o que temos, mas saber ter sem se prender ao que se tem. É estar no mundo sem ser do mundo, ou seja, estar pronto para perder tudo o que temos sem nos inquietarmos com isso.


7. CONCLUSÃO


Na pobreza exercitemos a paciência; na riqueza, a humildade. Procedendo desta maneira, conquistaremos a verdadeira propriedade, aquela que nenhum ladrão nos roubará, porque representará um patrimônio inalienável de nossas conquistas interiores.


8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


XAVIER, F. C. Escrínio de Luz, pelo Espírito Emmanuel. Matão: O Clarim, 1973, p. 127.

VINICIUS. Nas Pegadas do Mestre. 5. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1979, p. 155-157.

CALLIGARIS, R. Parábolas Evangélicas à Luz do Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1963.

XAVIER, F. C. Lázaro Redivivo, pelo Espírito Irmão X. 6. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1978, cap. 16.

XAVIER, F. C. Pontos e Contos, pelo Espírito Irmão X. 4. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1978, cap. 28.

MOISÉS, M. Dicionário de Termos  Literários.  5. ed.  São Paulo: Cultrix, 1979.

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984, cap. XVI.

SCHUTEL, C. Parábolas e Ensinos de Jesus. 11.ed., Matão: O Clarim, 1979, p. 104-114. 


São Paulo, maio de 2005 

PARÁBOLA DO MAU RICO - Leda Batuíra

 PARÁBOLA DO MAU RICO

“Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um pobre mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à sua porta, e que desejava fartar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhe as úlceras.

Ora, sucedeu morrer esse mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. E morreu também o rico, e foi sepultado no inferno.

E quando ele estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio.

E gritando ele disse: Pai Abraão, compadece-te de mim e manda cá Lázaro para que molhe em água a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou atormentado nesta chama.

E Abraão lhe respondeu: Filho, lembra-te de que recebestes os teus bens em tua vida, e de que Lázaro não teve senão males; por isso está ele agora consolado, e tu em tormentos.

Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí passar para cá.

E disse o rico: Pois eu te rogo, Pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, e não suceda venham também eles parar neste lugar de tormentos.

Abraão lhe disse: Eles já têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.

Disse o rico: Não, Pai Abraão, se for a eles algum dos mortos, hão de fazer penitência.

Abraão, porém, lhe respondeu: Se eles não dão ouvidos a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite algum dos mortos.” ( Lucas, XVI: 19 A 31.)


Esta parábola de Jesus demonstra, mais uma vez, a verdade que está no lema do espiritismo: “Fora da caridade não há salvação”.


Jesus não diz que o rico era um homem mau, prejudicava os outros, era orgulhoso, vaidoso, mostra-o usufruindo de prazeres materiais, que a fortuna lhe permitia, não se importando com os que não considerava seus iguais.


Aceitava ter o direito de usar sua fortuna, conforme lhe aprouvesse, não se julgando responsável pelos que viviam à margem do dinheiro e das facilidades que ele dá aos homens que o possuem.


Pensava somente em si, na satisfação de aproveitar o que a vida lhe dava Era um mau rico, porque não usava seus bens provisórios em favor dos outros e da comunidade.


Lázaro, pobre, doente, sem poder trabalhar, sem ninguém, mendigava para sobreviver, almejando apenas as migalhas que caíam da mesa do rico e que ninguém lhe dava. Não lamentava, não recriminava Deus e os homens pelos seus infortúnios, fez apenas o que podia fazer, e, com humildade, mendigava.


Ambos desencarnaram e a situação se inverteu. O rico foi para uma região trevosa, sentindo os sofrimentos da fome, da sede, das dores, que não conhecera em vida, mas que deveria conhecer quando saía de sua casa, vendo como viviam os outros.


Lázaro, que nenhum prazer pudera usufruir na sua vida, e que, por certo, respeitava as leis divinas, estava em uma região de paz, de harmonia de felicidade, e o rico, olhando para o alto, o viu juntamente com o Pai Abraão.


Não se surpreendeu, pediu alívio para seus males, aceitou a resposta de Abraão, e, numa demonstração de amor aos seus familiares, pediu que Abraão mandasse Lázaro até a casa de seu pai, a fim de comprovar-lhe e a seus irmãos, a continuidade da vida e a existência das penas e recompensas após a morte.


Nesse pedido, fica claro que os judeus sabiam que as almas dos mortos podiam se manifestar aos homens.


Na frase “Eles têm Moisés e os profetas”, a quem deviam ouvir e seguir, penso ficar evidenciado que sempre, cada povo, recebeu Espíritos missionários que vieram auxiliá-los com ensinamentos adequados ao seu grau de evolução, que lhes poderiam ser úteis durante alguma tempo, sendo mais tarde ampliados ou aprofundados, pela possibilidade de maior entendimento.


Sempre houve revelações, vindas do mais Alto, para auxiliar o desenvolvimento dos homens na Terra. E sempre - como hoje ainda há – houve os que as rejeitaram por falta de amadurecimento espiritual, ou pelo apego aos valores materiais, ou por falta de vontade do esforço e trabalho que toda transformação exige.


Para esses, é atualíssima a frase: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscita alguém dentre os mortos.”


Por isso, Allan Kardec afirma que a filosofia espírita atrai muito mais os homens, tornando-os espíritas, do que os fenômenos mediúnicos.


Tantos missionários vieram em nome de Jesus e de Deus, em todos os lugares do mundo, e muitos e muitos continuam pensando que viver é procurar satisfazer, doa a quem doer, seus desejos egoísticos, esquecidos dos que sofrem ao seu redor, dos que pouco ou nada possuem.


Cairbar Schutel, no seu livro Parábolas e Ensinos de Jesus, no estudo dessa parábola, diz que Lázaro representa os excluídos dos direitos humanos, que sofrem as vicissitudes com paciência e resignação, sem revoltas, sem culpar outros, dando de si o que pode para melhorar a situação, porque confiam em Deus, no seu amor e na sua justiça, certos de que o futuro será melhor.

O rico da parábola representa os que cuidam das necessidades do corpo e esquecem-se das necessidades do Espírito. Vivem somente para si, na satisfação das suas necessidades físicas e materiais. São os escravos do mundo, dos seus valores e prazeres, despreocupados da vida além-túmulo, porque não a esperam.


Leda de Almeida Rezende Ebner

Setembro / 2013

Parábola do mau rico - Caibar

 Caírbar Schutel


“Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e que todos os dias se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que estava deitado ao seu portão, desejoso de fartar-se com migalhas que caiam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhe as úlceras.


“Morreu o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado.


“No Hades, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e a Lázaro no seu seio.


“E clamou: Pai Abraão, tem compaixão de mim! E manda a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo, e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama!


“Mas Abraão respondeu: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens na tua vida e Lázaro do mesmo modo os males; agora, porém, ele está consolado, e tu em tormentos. Demais, entre nós e vós está firmado um grande abismo, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós.


“Ele replicou: Pai, eu te rogo, então, que os mandes à casa de meu pai (pois tenho cinco irmãos) para os avisar a fim de não suceder virem eles também para este lugar de tormento! Mas Abraão disse: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Respondeu ele: Não, Pai Abraão, mas se alguém for ter com eles dentre os mortos, hão de se arrepender. Replicou-lhe Abraão: se não ouvem a Moisés e aos profetas tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos. “


(Lucas, Cap. XVI, v. 19-31.)


Este ensino e a proclamação da Lei da Caridade, cuja execução é imprescindível para todos os que se abrigam sob o seu pálio santo, como também para os que fogem aos seus generosos convites.


O Rico e o pobre Lázaro personificam a Humanidade, sempre rebelde aos ditames da Luz e da Verdade.


O Rico gozou no mundo e sofreu no Espaço; o Lázaro sofreu no mundo e gozou no Espaço.


Este Rico que se vestia de púrpura e que todos os dias se regalava esplendidamente, é o símbolo daqueles que querem tratar da vida do corpo e esquecem-se da vida da alma.


São os que buscam a felicidade no comer, no beber e no vestir; são os que se entregam a todos os gozos da matéria, são os egoístas que vivem unicamente para si, os orgulhosos que, entronados nos altares das paixões vis, da vaidade, da soberba, não vêem senão o que lhes pode saciar a sede de prazeres, não cultivam senão a luxúria,. que mata os sentimentos afetivos e anula os dotes de coração.


O rico é a personificação daqueles que são escravos do reino do mundo, que não vêem mais do que o mundo, esse “paraíso perdido” entre os charcos da degradação moral, que avilta as almas e as atira aos infernos hiantes dos vícios.


Jesus falava geralmente por parábolas; e esta lição que o Mestre ofereceu ha 2.000 anos aos povos da Palestina, e que consta do Evangelho de Lucas como um conselho salutar e memorável, nada mais é do que uma parábola; é um ensino alegórico, representativo do que se passa no Espaço, para afirmar que a nossa Vida Ultra-Tumba, é uma conseqüência justa e eqüitativa da nossa existência na Terra.


O rico passou toda a sua vida a se fartar esplendidamente, a desprezar os pobres, a desprezar Deus, a não curar da sua Lei, a dar as costas à Religião, a gozar e a folgar, mas, quando morreu, não pode continuar a viver como vivia, vestindo-se de púrpura, comendo manjares, bebendo licores. porque no mundo dos Espíritos não há púrpuras, não há manjares, não há licores. Ele já se havia fartado com os prazeres da Terra, não podia fartar-se depois com os prazeres do Céu, porque não os havia buscado, nem havia adquirido o tesouro com que se conquista as glorias celestes.


Nu, sem dinheiro, sem crédito para arranjar melhor “morada”, lhe foi destinado o Hades, e, segundo diz o texto, ele lá se achava, contrariado, por lhe faltarem as comodidades que tivera na Terra, os gozos de que fizera o seu reino no mundo.


Lázaro representa os excluídos da sociedade terrena, aqueles que, quando muito, podem chegar ao portão dos grandes templos, aqueles que não podem atravessar os umbrais dos palácios dourados, aqueles que essa sociedade corrompida do mundo despreza, amaldiçoa, cobre de labéus, crava de setas venenosas que lhes chagam o corpo todo.


Os Lázaros não são esses pobres orgulhosos do mundo, que não têm muitas vezes o que comer e o que vestir, mas estão cobertos com a púrpura do orgulho; não é essa gente que não tem dinheiro mas tem vaidade; não tem palácios, mas tem egoísmo; não tem jantares opíparos, mas tem prazeres nefastos; não, os pobres, de que Lázaro serviu de símbolo na parábola, são os que sofrem com resignação, são os que desprezam os bens da Terra, porque buscam as coisas de Deus; são aqueles que se vêem usurpados daquilo que por direito lhes pertence no mundo, mas, pacientes e resignados, não se revoltam, porque crêem no futuro e esperam as dádivas que lhes estão reservadas por Deus.


Eles sabem, porque estudam, esperam e oram, que existe um Criador, um Pai Supremo, que lhes dará o prêmio de suas vigílias, um salário pelos seus afazeres morais, uma luz para sua orientação espiritual; e que esse prêmio, esse salário, essa luz, embora, às vezes, pareça tardar, não faltará, porque a Justiça de Deus é infalível, é indefectível!


É assim que morreu Lázaro, o mendigo, e foi conduzido pelos anjos ao Seio de Abraão; morreu também o rico e foi posto no Hades.


Duas personalidades distintas uma que gozou, outra que sofreu: uma a quem nada faltava, outra a quem tudo faltava, vão trocar agora as suas condições; vão mudar de cenário: o mendigo vai para a abundância, e o rico é que passa a mendigar!


É o reverso da medalha, que se apresenta a todos no dia do julgamento.


Vós tendes visto muitas medalhas? Figuremo-las numa libra esterlina: de um lado traz a figura do rei, mas, do outro, traz o seu valor real. Assim acontece também conosco. Cada um de nós é uma medalha, e como a medalha, a libra de ouro vale segundo o cambio corrente, assim também nós valemos de acordo com o cambio espiritual, que taxa o valor das nossas almas.


Aqueles que olham só a efígie, não conhecem o valor do dinheiro, porque a efígie, o verso da medalha, traz só o retrato do rei, e a medalha não vale o rei. Assim também os que olham o homem só pelas aparências, pelo exterior, não conhecem o homem, porque o exterior do homem é a efígie da vaidade, do egoísmo e do orgulho O que vale na medalha é o reverso; o que vale no homem é o interior, ou seja, o Espírito. O rico trazia no verso o característico do rei, mas, depois que morreu, apurou-se o valor da medalha gravado no reverso, e esse valor não permitiu ao rico senão uma “entrada” no Hades.


Ao pobre, que apurara, desde a sua existência na Terra, o que estava gravado no reverso da medalha, esse sacrifício lhe deu o valor de ser levado pelos anjos ao Seio de Abraão.


Como é diferente o julgamento de Deus, do julgamento dos homens!


Deus não se deixa levar pelo preconceito; Deus não se deixa levar pelo juízo humano.


Que é o seio de Abraão?


Mas continuemos a nossa análise.


Que é o Hades?


Que é Hades?


É isto que precisamos saber para melhor compreendermos a parábola do Grande Mestre.


Seio de Abraão é a liberdade do Espírito no Espaço Infinito; Seio de Abraão é o Mundo Invisível, onde os Espíritos, com os seus corpos imponderáveis, caminham livres de todas as peias, realizando sempre novas conquistas, fazendo novas descobertas, aprendendo novas verdades que os elevam em conhecimentos, que os elevam em felicidade.


Seio de Abraão é o Mundo da Imortalidade, da Luz e da Verdade, onde quanto mais progredimos mais aprendemos, e quanto mais aprendemos mais sabemos amar nosso Deus e nosso próximo; é o mundo da Fé verdadeira, que abala e transporta montanhas, faz espumar oceanos e produz ventos; mas que também dá calma e bonança a todos aqueles que, como os discípulos no Mar da Galiléla, batidos pelo rijo tufão, imploram o auxilio de Jesus, e, com a esperança de salvamento, ouvem as doces palavras do Humilde de Nazaré soarem a seus ouvidos como uma luz a iluminar o caminho numa noite tenebrosa.


Abraão foi o Patriarca dos Hebreus, alta personagem do Antigo Testamento, em quem a fé mais se acrisolava, mais viva e rutila se mostrava, a ponto de não vacilar em sacrificar seu filho Isaac, para obedecer às ordens que havia recebido do Alto.


Abraão era um crente sincero na Imortalidade: via o Espaço semeado de Espíritos, conversava com os Espíritos daqueles que nós chamamos, indevidamente, mortos, vivia em relações continuas com o Mundo dos Espíritos, que era o seu Seio predileto, que era o seu Paraíso, o seu Céu, a sua delicia, a sua felicidade.


Para ai é que foi Lázaro, com inteira liberdade de locomoção nos ares. Ele havia sofrido na Terra, aguilhoado pela dor, na miséria, privado das delicias do mundo, mas cria num Deus Supremo, que lhe concedera aquela existência de expiação e de provas, para que reparasse os males de suas vidas passadas, em que havia também descurado das coisas divinas e só tratado dos gozos efêmeros do mundo; Lázaro saldara a sua conta; ao sair da prisão corpórea, tinha pago o último ceitil de sua divida, e reconquistara o Reino da Liberdade e da Luz, que Deus concede a todos os que se submetem à sua Lei, aos seus santos desígnios.


Eis o que é o Seio de Abraão; eis o painel, o quadro majestoso que Jesus desenhou aos olhos dos ouvintes da parábola com referência a Lázaro, ao mendigo, que tinha como única caridade, na Terra, as caricias, os beijos dos cães, esses fiéis amigos dos homens, que vinham lamber-lhe as chagas!


Continuemos a respigar o Evangelho, e do Seio de Abraão passemos ao Hades.—Que pensais vós que seja o Hades?


Os antigos acreditavam na existência de um mundo subterrâneo, para o qual iam as almas daqueles que não foram bons na Terra.


O corpo ficava no sepulcro, e o Espírito ia para o Hades: “mundo localizado nas entranhas da Terra”. (*)


Dai, essas almas não poderiam sair, assim como nós, em corpo de carne, não podemos sair deste mundo. Entretanto, os Espíritos que estavam no Hades viam com os olhos da alma, e sabiam, portanto, tudo o que se passava no Seio de Abraão.


E era justamente nisso que consistia o sofrimento deles: verem o que se passava no Alto, e não poderem participar dessas regalias que só eram concedidas aqueles que, como Lázaro, haviam saldado sua conta espiritual.


Por isso diz o Evangelho que o rico levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu Seio, e clamou: “Pai Abraão, tem compaixão de mim! E manda a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama!”


O rico queria água!


Antigamente passara a vinhos e licores finos, mas no Hades pedia água; tinha sede e essa sede não era a do corpo, não se tratava de água de rios ou de fontes, porque o corpo estava no sepulcro, e o Espírito não pode beber água material.


Era sede de consolação, de esperança, de perdão!


Ele também já havia compreendido que a causa das suas dores era a vida dissoluta que passara no mundo e a chama viva do remorso abrasava a sua consciência!


Ele queria água, essa água da vida, essa água de salvação que Jesus havia dado à Mulher de Samaria.


Essa água do perdão dos pecados que o rico havia cometido contra todos os que mendigam dos homens a caridade da atenção para as coisas divinas.


E Abraão; o grande Patriarca, que vivia feliz no Mundo Espiritual, dirigindo a enorme falange de Espíritos que havia aumentado a sua descendência, falange de Espíritos a quem guiava, e entre os quais se contava Lázaro, que era um dos seus protegidos espirituais, Abraão respondeu ao rico: “Filho, lembra-te que recebeste os teus bens na tua vida; e Lázaro do mesmo modo os males. É justo, pois, que ele, agora, esteja consolado, e tu em tormentos.”


Acresce ainda que entre nós e vos está firmado um grande abismo, de modo que nem nós podemos viver onde vós estais, nem vós podeis viver onde nós estamos; a vossa atmosfera nos abafa, assim como a vossa vos sufocaria; os ares que respiramos são insuficientes para vós que estais impregnados de matéria.


“Tratastes só da matéria, só do corpo; cultivastes a matéria que não vos deixa elevar e chegar até nos. Ao passo que Lázaro teve os olhos voltados para o Alto, não tendo tempo senão de pagar dividas materiais, e conquistou fluidos espirituais para se elevar ao lugar em que se acha atualmente.


“Mas Abraão ouvia a voz do rico, e o rico ouvia a voz de Abraão; o rico no Hades via Lázaro no Seio de Abraão, todos eles se comunicavam, falavam, conversavam; porque havia necessidade de o rico ser exortado para se regenerar mais tarde, e, como Lázaro, vir novamente ao mundo pagar a sua divida, para, como Lázaro, depois subir também ao Seio de Abraão; porque também ele era filho de Abraão, e Abraão não deixaria seu filho perecer !


Abraão chamou-o de filho; disse-lhe: “Filho, lembra-te da tua vida e lembra-te da vida de Lázaro”, querendo dizer com isto que, sem voltar à vida corporal, semelhante à de Lázaro, para sofrer as conseqüências do seu orgulho e do seu egoísmo, ele, o rico, não chegaria ao seu Seio !


Foi então que o Espírito do rico, agora cheio de pobreza e de sofrimento, lembrando-se de seus cinco irmãos, que faziam a mesma vida que ele fazia quando estava na Terra, replicou: “Pai, eu te rogo, então, que o mandes à casa de meu pai (pois tenho cinco irmãos) para os avisar, a fim de não suceder virem também eles para este lugar de tormentos ”


O rico, que estava no Hades, sabia muito bem, porque via que Pai Abraão mandava sempre outros Espíritos dar avisos aos homens da Terra; então pediu que o mandasse à casa daquele que havia sido seu pai, porque ele tinha cinco irmãos que também faziam vida dissoluta e precisavam ficar conhecendo os tormentos que os aguardavam se continuassem assim.


Mas Abraão lhe disse:


“Eles têm Moisés e os profetas, ouçam-nos.” O que significa: “Moisés conta-lhes tudo o que precisam fazer para serem felizes, e os profetas, que são médiuns, dizem-lhes, pela influência dos Espíritos, o que se passa depois da morte, a fim de lhes dar instruções para que não venham, como tu, parar no Hades.” Mas o rico insistiu com Abraão, e, apresentando-lhe várias razões, disse: “Mas, Pai Abraão, se algum dos mortos for ter com eles, e lhes falar, Lhes aparecer, e eles se manifestar, hão de se arrepender.” O rico desejava que seus irmãos tivessem uma manifestação positiva dos mortos, porque julgava que, por essa forma, se tornariam obedientes à Lei de Deus. Mas Abraão respondeu novamente: “Se eles não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.”


Pois se eles haviam repelido as exortações dos profetas, por quem os mortos costumavam falar, como haveriam de crer nos mortos.


Para crer nos mortos era necessário crer nos profetas, porque os profetas não eram mais do que médiuns, por quem se comunicavam os Espíritos dos mortos.


Se eles não acreditavam nos médiuns, como haveriam de crer nos Espíritos.


Como poderiam os Espíritos dos mortos avisá-los como o irmão queria, sem os médiuns indispensáveis para transmitir a comunicação, sabemos que o corpo do Espírito é muito mais rarefeito do que o nosso e que por isso não o podemos ver nem ouvir; e que o Espírito sempre se manifesta com o concurso de um médium; como poderia Abraão atender o pedido de seu filho para satisfazer outros cinco filhos ricos?


Finalmente, antes que Jesus houvesse proposto à multidão, que se achava em torno dele, a bela parábola que acabamos de estudar, havia ele dito aos fariseus, que eram avarentos: “A Lei de Moisés e os profetas duraram ate João Batista; desde esse tempo o Evangelho do Reino de Deus é anunciado; e todos à força entram nele; porém da Lei de Deus não cairá um til, não será suprimido um i.”


Deus dá a liberdade a todos para buscarem a sua Lei; e àqueles que buscam, o Pai não dá o Espírito por medida. Está escrito “Aquele que pede, recebe o que busca, encontra; e ao que bate, se abre, porque o Pai não dá uma pedra a quem lhe pede um pão, nem uma serpente a quem Lhe pedir um peixe.” (Mateus, 7-8).


Assim Deus respeita o livre arbítrio que a cada um concedeu.


Os Espíritos dos mortos podem comunicar-se e se manifestam aos vivos, mas não podem obrigar os vivos, embora sejam eles ricos e grandes, a tomarem, desde já, posse da felicidade futura!


E é por isso que sabemos de muitos ricos das coisas do mundo, e muitos pobres que querem enriquecer com as coisas do mundo, que, embora tenham visto e ouvido manifestações e avisos dos mortos, não se convenceram com esses avisos.


Ao contrário, dizem que foi ilusão, medo, tolice e loucura !


Por isso fez bem Abraão em não permitir a manifestação espírita aos cinco irmãos ricos daquele que se vestira de púrpura e se banqueteara esplendidamente todos os dias da sua existência na Terra.


O homem que se quer convencer pela força, há de Lhe acontecer o que aconteceu à cigarra de La Fontaine:


“Cantou a sua vida, mas depois chorou a sua morte.” E há de voltar chorando na outra vida para, com justa razão, cantar na Imortalidade.


(*) O Hades eram as regiões infernais na Mitologia Grega, correspondente ao Tártaro dos romanos e equivalente ao Inferno aceito pelos católicos e protestantes. Não deve ser entendido como um “lugar”, mas como um estado de espírito, isto é, um estado de profundo sofrimento. Na pergunta 1011 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga: “Haverá no Universo lugares circunscritos para as penas e gozos dos Espíritos, segundo seus merecimentos?” Da resposta consta o seguinte: “As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos. Cada um tira de si mesmo o princípio de sua felicidade ou de sua desgraça. E como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou outra coisa.” Quando se diz que o Espírito “entrou no Hades”, Isto quer dizer, figuradamente, que ele tomou conhecimento de si mesmo, viu-se na sua profunda miséria moral, cuja conseqüência é um indizível sofrimento e a impossibilidade de se aproximar dos Espíritos felizes.


(Parábolas e Ensinos de Jesus – Caírbar Schutel)