Estudando o Espiritismo

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Monja “Inquieta e Andeja”

A Monja “Inquieta e Andeja” (*)

Kleber Halfeld
Reformador (FEB), pág. 80 -  Março 1987

               
              Aos 7 anos, a filha de Dom Alonso Sanches de Cepeda e de Dona Beatriz d’Ávila Y Ahumada, convence seu irmão predileto, Rodrigo, quatro anos mais velho, a ir com ela para o continente africano onde combaterão os mouros. Pretendem morrer, caso necessário seja, por amor ao Cristo. Um tio que os encontra em local já distanciado da cidade, leva-os de volta ao palácio paterno.
            Um sonho inocente de duas crianças.
            Mas é um ideal - este de oferecerem a vida a uma causa - que se concretizará anos mais tarde, embora através de uma luta diferente: o trabalho difícil e perseverante junto às consciências humanas.
            Principalmente da parte de Teresa d’Ávila.
            Tarefa que fará da mística e escritora dessa cidade espanhola[1]  um dos nomes mais respeitados no mundo cristão.                                  

  ***

            Na noite de 14 de outubro de 1954, no “Grupo Meimei” [2], o Espírito José Xavier [3], através da psicofonia, avisa aos presentes:
            “Esforcemo-nos por entrelaçar pensamentos e preces, por alguns minutos, pois receberemos, na noite de hoje, um anjo e uma benfeitora. Nosso Grupo, em sua feição espiritual, deve permanecer atento. Neste instante, aproximar-se-á de nós, tanto quanto possível, a grande Teresa d’Ávila e, assim como um grão de areia pode, em certas situações, refletir a luz de uma estrela, nosso conjunto receber-lhe-á a mensagem de carinho e encorajamento, através de fluidos teledinâmicos. A mente de Chico está preparada agora, qual se fosse um receptor radiofônico. Repetirá, automaticamente, com certa zona cerebral mergulhada em absoluta amnésia [4], as palavras de luz da grande alma, cujo nome não ousarei repetir [5]. Rogamos aos companheiros se mantenham em oração e silêncio, por mais dois a três minutos.”(Grifei.)

                A mensagem ditada por Teresa d’Ávila - “Palavras de Luz” -[6] na verdade não constituía a primeira de que o mundo espírita tomava conhecimento. Quem folhear a obra “Falando à Terra” [7], editada em 1951, encontrará outra página da mesma autora, com o título “Lembrete”. Como o “grupo Meimei” seria fundado somente três anos mais tarde, é de se acreditar tenha sido a mensagem recebida por Francisco Cândido Xavier na intimidade de outra agremiação. Em ambiente adequado e após preparo, inclusive, do próprio médium, tal o quilate da Entidade comunicante.

                                   ***

            É realmente considerável o número de obras que descrevem a vida de Teresa d’Ávila, a única “santa” do Catolicismo que mereceu o título de doutora da Igreja, título que no caso foi outorgado pela Universidade de Salamarca.
            Para se ter uma visão dos autores que se ocuparam dessa respeitada figura da Espanha basta tomar do volume que a ÊMECE Editores S.A. (Buenos Aires) imprimiu, contendo duas obras da autora espanhola: “Camiño de Perfección” e “Libro de las Funciones”. É exatamente na Nota Preliminar que se identifica a relação desses três autores.
            A verdade, porém, é que o primeiro que se propôs escrever algo sobre Teresa d’Ávila foi o conhecido Frei Luís de León, apelido da irmã de Felipe II, a Imperatriz viúva da Maximiliano da Áustria. Entretanto, somente pode redigir algumas páginas, porquanto a desencarnação o surpreendeu em plena tarefa.
            O trabalho, incompleto embora apareceu em 1883, na “Revista Augustianiana”.
            Mas, se muitos escreveram sobre ela, por outro lado também escreveu Teresa d’Ávila.
            Além das duas obras citadas, merecem destaque: - “A Vida” - encomendada pelo Padre Gracián, no sentido de fornecer dados ao Inquisidor (!) encarregado de proceder a uma investigação sobre a monja.
- “As Invocações” e os “Cânticos” - que constituem exclamações de amor, espontâneas e diretas, delas extravasando o ardor místico de sua autora. - “Castelo Interior” ou “As Moradas” - que são crônicas leais da única experiência de vida que poderia interessar a Teresa: as diversas etapas que a alma percorre, ao longo da estrada que conduz ao Pai. Aliás, outra obra, “O Caminho da Perfeição”, enquadra-se, igualmente, nesse aspecto.
            Quanto ao trabalho “O Livro das Fundações”, o próprio título denuncia seu conteúdo.
            É toda essa produção literária, aliada ao amplo trabalho de fundação de conventos, que lhe granjeará um certo temor não apenas das religiosas de seu tempo, mas dos próprios Superiores [8], que anos mais tarde acabam por beatificá-la e canonizá-la, conscientes de sua “santidade”.

                                   ***

            Entre tantos e tão singulares fenômenos da vida de Teresa d’Ávila, dois podem ser citados como os mais singulares: os êxtases e a levitação.
            Sobre o primeiro, é a própria monja que confessa:
            “É ele o reflexo exterior de um ímpeto de amor da alma”.
            E um dia revelaria mais minuciosa:
            “Dali a pouco cresceu em mim um amor de Deus tão grande que eu não sabia quem me infundia; por ser muito sobrenatural, nem eu o procurava para mim. Sentia-me morrer do desejo de ver a Deus; e não sabia onde buscar essa vida verdadeira, senão na morte... Às vezes, o ímpeto é tão violento que o corpo parece sem vida e não se podem mover os pés nem os braços; a o contrário, quando estou de pé, caio sobre mim mesma, como que inanimada...” [9]
            A descrição feita coincide perfeitamente com o estudo que vamos localizar em “O Livro dos Espíritos”.
            Quando Kardec indagou:
            “O Espírito do estático penetra realmente nos mundos superiores?” Eis a resposta que recebeu:
            “Vê esses mundos e compreende a felicidade dos que os habitam, donde lhes nasce o desejo de lá permanecer.” (...) [10]
            Mais à frente perguntou o Codificador: “Se se deixasse o estático entregue a si mesmo, poderia sua alma abandonar definitivamente o corpo?” O esclarecimento da Espiritualidade não poderia ser mais claro:



Lembrete

Mensagem do Espírito Teresa D’Ávila

O mundo é cerâmica sublime, 
em pleno cosmos.
A carne é o barro; o espírito é o oleiro.
Cada homem plasma 
seu destino de acordo
com a própria vontade.
Há quem fabrique ânforas
 para o vinho do Senhor, 
e há os que modelam crateras
para a cicuta do espírito.
  Companheiro da Terra,
 faze da existência um vaso sagrado,
em que a Divina Bondade 
se manifeste.
Na pobreza ou na abastança, 
na felicidade ou na desventura, 
não te esqueças 
de que a vida corpórea é 
divina argila em tuas mãos.

“Falando à Terra”.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
        (3ª Ed. FEB)   

            “Perfeitamente, poderia morrer. Por isso é que preciso se torna chamá-lo a voltar, apelando para tudo o que o prende a esse mundo, fazendo-lhe sobretudo compreender que a maneira mais certa de não ficar lá, onde vê que seria feliz, consistiria em partir a cadeia que o tem preso ao planeta terreno.” [11]
            Nesse particular, sou levado a imaginar que nos repetidos êxtases experimentados por Teresa d’Ávila não deve ter faltado a assistência das próprias monjas de seu convento, buscando despertá-la, embora agindo sem a devida compreensão do fenômeno.
            É possível mesmo que algumas chegassem a mentalizar a repetição das crises que ela apresentara algum tempo antes.
            A esse propósito, a própria Teresa d’Ávila em sua autobiografia revela:
            “Comecei a ter delíquios contínuos e, pouco depois, sobreveio um mal do coração tão violento que eu incutia pavor a quantos me viam. A isto se ajuntaram muitos outros males.”
            De fato, houve na vida dessa monja períodos de contínuos padecimentos. O mais sério parece ter ocorrido em 1537, quando contava ela 22 anos. Neste ano, após muitos dias de sofrimento foi dada como morta. Dom Alonso, entretanto, recusava acreditar em sua desencarnação, mantendo-se junto à filha durante três dias, prazo em que a moça voltou ao normal.
            Teresa explica em sua autobiografia:
            “Na Páscoa desse mesmo ano, eu só tinha ossos. Assim permaneci oito meses e, se bem melhorasse gradativamente, continuei encolhida durante três anos. Quando comecei a arrastar-me de gatinhas pelo chão, agradeci a Deus.”
            Foi nesta fase de vida que ocorreu um fato curioso, sem explicação para aqueles que a rodeavam. Ou melhor, o caso foi levado à conta de milagre, uma vez que ninguém encontrou explicação conhecida. Tanto médicas, quanto religiosas.
            Um dia, de repente, ergueu-se Teresa e saiu da enfermaria, tão saudável quanto suas companheiras de convento. A partir desse instante retornou às suas atividades regulares: quer às tarefas de sentido puramente espiritual, quanto às de ordem funcional propriamente dita.
            Alguns de seus biógrafos explicam que os delíquios de que era vítima poderiam produzir “ausências” recorrentes, de natureza epiléptica e que o “mal do coração” por ela citado tenha correlação com a dor que se difundia do peito a todo o corpo. Mas, eles mesmos, os biógrafos, acrescentam por prudência que ‘tudo isto são simples hipóteses”.
            Na verdade, Teresa d Ávila não tinha saúde boa, bastando lembrar que em certo período foi dada como tísica irrecuperável. Mas não se pode alijar a decisiva influência do mundo espiritual sobre sua organização, fazendo surgir quadros patológicos que aos facultativos da época traduziam doenças tipicamente de fundo extrafísico.
            Por essa razão, não acredito fossem todos seus delíquios “ausências” recorrentes de natureza epiléptica.
            Não devemos nos esquecer de que muitas vezes fenômenos epilépticos têm sido responsáveis por casos em que a Ciência não dispõe de melhores explicações.
            É muito mais simples diante da complexidade de determinados casos tomar-se a epilepsia como a melhor porta de saída...
            Com referência à levitação, era um fenômeno que a molestava sobremodo, consoante sua própria confissão:
            “É uma coisa terrivelmente extraordinária, que dá azo a muitos falatórios.”
            Tudo acontecia inopinadamente. Ela era como que “aspirada” para o teto, de nada valendo seu esforço para manter-se no chão, diante das atônitas irmãs do Convento da Encarnação.
            Passado o fenômeno e já refeita do susto, costumava candidamente exclamar que “Sua Majestade” [12] assim procedia, porquanto desejava atraí-la para Si...
                                   ***
            A pesquisa sobre a vida e a obra de Teresa d’Ávila nos propicia ensejo de concluir que não obstante ter sido religiosa católica vinculada a um sistema de clausura; apesar de viver em um país dominado pelo clero e, ainda, curvada ao jugo de múltiplas enfermidades, tornou-se, ao cabo de longas reflexões e contínuas interpenetrações no mundo dos Espíritos, símbolo de trabalho dinâmico, consciência livre e mentalidade otimista.
            Justifico, embora resumidamente, essa assertiva.

1. Trabalho Dinâmico
            A organização do Carmelo, primitivamente subordinada a um regime de severidade, sobretudo no que dizia respeito ao voto de pobreza, afastara-se ao tempo de Teresa d ‘Ávila de tal preceito. Uma das provas eram os “parlatórios-salões” dos conventos, transformados em salões mundanos onde as monjas adereçadas como grandes damas da sociedade e aqueles tidos como benfeitores das “servas de Deus” se distraíam em conversas fúteis, malbaratando o tempo, com o que não se conformava Teresa. Por isso mesmo, em companhia de algumas religiosas com ela identificadas no mesmo pensamento, retirou-se para um pequeno mosteiro, iniciando então o movimento pela reforma da obra do Carmelo.
            Aliás, esse desejo de reforma no seio de uma ordem religiosa me faz recordar uma visita que Francisco Cândido Xavier fez a Juiz de Fora em 1945, quando em um grupo de confrades teve a oportunidade de esclarecer que diversos Espíritos evoluídos, de época em época, descem à Terra para a renovação dos costumes, até mesmo no campo religioso. Adiantou, ainda, que não demoraria muito para que um grande número de Entidades devidamente preparadas no Espaço encarnassem em nosso Planeta visando a operar sensíveis transformações no seio de congregações tidas como “muito fechadas”.
            O trabalho de Teresa, é óbvio, encontra forte resistência, não só da parte do padre provincial da Ordem, do Governador da cidade de Ávila, dos magistrados do Conselho, como dos membros do Capítulo. Uma discussão agita todas as camadas religiosas ao ponto de o núncio apostólico, Felippo Sega, exclamar certa feita:
            “-Não lhe pronuncieis o nome! (referindo-se a Teresa) É uma monja inquieta e andariega (uma monja inquieta e andeja), desobediente, obstinada, que propaga doutrinas perniciosas a pretexto da devoção e deixa o seu convento contra as ordens superiores e os decretos do Concílio de Trento.
            E arrematava mal-humorado:
            “-É uma ambiciosa que tem a pretensão de ensinar Teologia como se fosse um doutor da Igreja, desprezando os ensinamentos de São Paulo, que ordena às mulheres que se abstenham de ensino.” [13]
            Essa é uma característica dos renovadores.
            De nada receiam.
            A própria vida entregam por amor a uma causa que julgam justa.
            Em troca, invariavelmente, recebem a perseguição, os apodos, as calúnias!
            Teresa, porém, não se dá por abatida. E a continuidade de seu esforço persistente acaba por propiciar-lhe, anos mais tarde, assistir à multiplicação dos conventos dentro de um esquema de ação como houvera sonhado.
            Era o triunfo de uma monja sobre um sistema organizado.
            Constituía a vitória da severidade sobre a futilidade.
            Para sustentá-la em sua jornada reformadora, houve por bem a Espiritualidade Maior colocar-lhe ao lado um grupo de dedicadas monjas. Eis por que certa vez escreveu:
            ‘O ver-me encerrada nesta casa, com almas tão dedicadas, é para mim grandíssima consolação.”
            Sem mencionarmos aqui o trabalho propriamente dito de reforma dos conventos, é de ser destacado igualmente o número daqueles que criou: 17 para freiras e 15 para frades, totalizando, desta forma, 32! Isso, ao longo de 20 anos de um trabalho decididamente penoso, porquanto sem qualquer descanso!

2. Consciência Livre

            É Teresa d’Ávila quem escreve jamais ter obedecido cegamente às autoridades eclesiásticas constituídas de seu tempo.
            E a conscientização de que não devia temer qualquer reação parece ter surgido no dia em que um Espírito se lhe apresentou (que julgou ser o próprio Cristo) indagando-lhe:
            -Não sabes que sou onipotente? De que te arreceias?
            A partir desse momento uma autoconfiança a sustentará perante a fadiga, o sofrimento e a própria fome - que não raro experimentou em sua caminhadas. E mais do que isso: dar-lhe-á coragem para manter independente sua consciência, não se submetendo às normativas vigentes no seio da Igreja, e com muitas das quais, não concordava.
            Parece mesmo que Teresa pouco ou nada acreditava em sermões. E muito menos nos pregadores:
            “por que razão as suas prédicas induzem tão pouca gente a deixar os vícios públicos?” - perguntava a si mesma enquanto levantava a correspondente resposta:
            “Porque os que pregam têm demasiada prudência humana e não ardem com aquele grande fogo do amor de Deus com que ardiam os apóstolos: por isso mesmo a chama deles aquece pouco.”
            Essa coragem chegava às vezes a um grau jamais imaginado pelas companheiras. Porque não tinha receio de advertir:
            -Os senhores da Terra colocam toda a sua grandeza  num aparato exterior de autoridade. Com eles só se fala em horas determinadas, e somente algumas pessoas podem fazê-lo. Se, portanto, quem deseja tratar com eles for um pobrezinho, terá de dar voltas e esperar nas antecâmeras, implorar favores e afadigar-se para obter uma audiência... Os que têm o mundo debaixo dos pés dizem a verdade, não têm medo de nada e nem devem tê-lo. Por isso não são feitos para as cortes, onde não se pode agir com sinceridade e onde é necessário dissimular o mal que se vê, pensando que não é mal para não cair em desgraça.
            Apenas quem conhece a história da Inquisição pode avaliar do destemor dessas expressões!...

3. Mentalidade Otimista

            Embora fosse Teresa d’Ávila uma grande contemplativa, sabia perfeitamente nos momentos de necessidade comportar-se como uma criatura de ação. Essa maneira de ser ficou provada quando sentiu que devia sair da sua clausura para o trabalho que sua consciência determinava.
            Desenvolvia sua tarefa com verdadeiro espírito de alegria, o que deixava muita gente espantada.
            Seria tal exteriorização uma qualidade inata em seu Espírito?
            Seria influência de João da Cruz a quem nomeara seu confessor e pai espiritual assim que fora eleita Superiora do Convento da Encarnação? Porque este não cansava de repetir: “A primeira das paixões da alma é a alegria.” [14]
            Muitas vezes sua alegria, seu otimismo, sua descontração diante da situação deixavam desconcertados os circunstantes.
            Quando, no dia 4 de outubro de 1582, caiu desfalecida em Alba de Tormes, após mais uma de suas costumeiras e longas viagens, abatida por um sem-número de padecimentos, indagaram-lhe as piedosas irmãs se desejava ser conduzida de volta a Ávila. De semblante descontraído e com voz sem qualquer embaraço respondeu:
            - Não acreditais que me darão um pouco de terra aqui também?...

                                   ***

            Não seria necessário maior extensão a este trabalho para concluir-se dos justificados adjetivos outorgados pelo núncio apostólico Felippo Sega a Teresa d’Ávila - monja inquieta e andeja. Muito embora emprestemos a esses mesmos adjetivos sentido emoldurado por vibrante positividade!

            Inquieta, buscou penetrar no âmago das questões de caráter teológico, conseguindo dessa incursão corajosa extrair uma normativa de conduta para seus passos.

            Andeja, apesar de toda uma série de barreiras levantadas pelo Clero, foi responsável, conforme vimos, pela fundação de mais de três dezenas de agremiações religiosas!

            Um trabalho para o qual muitos não darão sua concordância, alegando não possuir ele maior objetividade prática, mas que de qualquer forma reflete o dinamismo de uma criatura que, sacrificada por enfermidades, ameaçada pelo poder constituído, não se deteve na tarefa que julgava justa e certa.
            Talvez pudéssemos relacionar sua maneira de agir com a de Saulo de Tarso, que na defesa do mosaísmo julgava - com pureza e sinceridade - estar agindo corretamente.
            E como o grande apóstolo dos gentios, agora já como defensor do Cristo, também Teresa d’Ávila possui outro denominador comum: o gosto pelas repetidas caminhadas por amor Àquele que cognominara - “Sua Majestade”...
           


(*)  Não pretende o presente trabalho traçar dados biográficos completos a respeito de Teresa d’Ávila. O escopo principal é de sua própria biografia extrair passagens que se correlacionem com o que temos estudado na Doutrina Espírita, aproveitando-se ainda o ensejo para tecer apreciações em torno de fatos que, possivelmente, terão passado despercebidos daqueles que lhe analisaram a vida e a obra.
[1]  Ávila, cidade espanhola, é Capital da Província do mesmo nome. Está situada às margens do rio Adaja.
[2]  O “Grupo Meimei”, localizado em Pedro Leopoldo, consoante esclarecimentos do confrade Arnaldo Rocha na obra “Instruções Psicofônicas”, realizou sua primeira reunião na noite de 31 de Julho de 1952.
  Meimei, pseudônimo de D. Irma de Castro Rocha, foi, quando encarnada, esposa de Arnaldo.
[3]  Irmão de Francisco Cândido Xavier, à época de sua última encarnação.
[4]  Observa-se aqui o preparo realizado pela Espiritualidade Maior em Francisco Cândido Xavier, para captação da mensagem de Teresa d’Ávila.
[5]  José Xavier evidencia em suas palavras o grau evolutivo do Espírito que logo após daria sua comunicação.
[6]  Título dado à página pelo organizador da obra “Instruções Psicofônicas”
[7]  Tanto esta obra como “Instruções Psicofônicas“ foram editadas pela FEB.
[8]  A grande reformadora do Carmelo nasceu em Ávila em 28 de março de 1515 e desencarnou em Alba de Tormes em 4 de outubro de 1582. Foi beatificada pelo Papa Paulo V em 24 de abril de 1614 e canonizada por Gregório XV em 12 de março de 1622.
 Conforme lemos na súmula biográfica dos autores que compõem a obra “Falando à Terra”, os escritos de Teresa d’Ávila são “singelos, humildes, cândidos, e tidos como os mais belos monumentos da língua castelhana”.
 Constituíam, por um lado, a manifestação de sua própria sensibilidade; por outro, a expressão das entidades espirituais que, por seu intermédio, se faziam presentes na literatura católica. Mas, médium que era, não conviveu ela somente com a psicografia. Teve êxtases e visões, assim como experimentou os fenômenos da levitação e transporte.      
[9]  “Mulheres Imortais”, ed. Cia. Melhoramentos de São Paulo.
[10]  Questão nº 440.
[11]  Questão nº 442.
[12]  Assim gostava Teresa d ‘Ávila de chamar a Jesus.
[13]  Há que considerar a época em que semelhante preceito foi instituído, porquanto a realidade é que os costumes vão sendo modificados com o passar dos anos.
[14]  João da Cruz, escritor místico, deixou: “Subida ao Monte Carmelo”, “Noite Escura”, “Cântico Espiritual”, “Chama de Amor Viva”. Sofreu muito em decorrência das contínuas perseguições movidas contra ele. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O olho gordo

O olho gordo


“Tempo, na mediunidade, a gente não tem mesmo, mas para fazer o que não deve, a gente arranja” (Chico Xavier)



Lembro quando contava apenas nove anos de idade, minha mãe e eu estávamos no portão de casa aguardando meu pai retornar do trabalho. Uma vizinha parou para conversar com minha mãe. Em determinado momento, ela voltou-se para a jardineira onde minha mãe cultivava suas plantas. E, indignada, exclamou:

— Dona Aurora! Que avenca bonita! Por que a minha avenca nunca ficou tão linda?

Logo depois ela foi embora. Minha mãe, após alguns instantes, apontou para a avenca cujas folhas se fecharam como se estivessem murchando, e explicou-me:

— Viu, meu filho, o que o pensamento de despeito e de inveja da nossa vizinha fez com a nossa plantinha? Guarde esta lição! Nunca use o seu pensamento para invejar ou odiar alguém. Da mesma forma que a planta se ressentiu do magnetismo negativo, as pessoas mais sensíveis também se ressentem e podem até adoecer. Mas, se você usar os seus pensamentos para ajudar, envolvendo-as com amor, o magnetismo poderá curar as suas enfermidades.

Dizendo isso, voltou-se para a planta e impôs suas mãos sobre ela e orou. Antes que meu pai retornasse do trabalho, a avenca já se recuperara, voltando a ficar bonita e viçosa como era antes da influência.

Minha mãe passou-me esta lição como conhecimento de causa, pois, durante toda sua vida, aliviou muita gente impondo suas mãos nas pessoas. Ela se revestiu da generosidade e do amor que nos ensina o Espiritismo Cristão.

No ano 1970, morava numa casa com quintal muito grande. Como gosto de animais, passei a criar um casal de gansos, um peru e algumas galinhas. E estava muito feliz porque a gansa chocara, trazendo à vida 6 filhotes. Uma conhecida nossa, dona do armazém onde realizávamos nossas compras, ficou sabendo e quis ver os gansos, pois eles não procriam facilmente em cativeiro.

Certo dia, ela apareceu em casa e, logo ao entrar no quintal, demonstrou ser apaixonada pela criação de gansos e revelou-me que possuía três casais que nunca procriaram. Percebi no seu olhar e semblante uma certa indignação. Ficou algum tempo olhando para os gansos, admirando-os e elogiando a beleza de todas as aves do meu quintal. Logo depois, despediu-se e partiu.

No dia seguinte da sua visita, as galinhas não desceram do poleiro para se alimentar e ali ficaram defecando fezes líquidas até morrerem. No terceiro dia, foi o galo que, à semelhança das galinhas, permaneceu no poleiro até a morte. No quarto dia, morreram os gansos. Entretanto o peru continuava vivo, mas apresentava sinais de que também morreria, pois já não descia do poleiro e não se alimentava.

Foi quando, conversando com minha mãe, cheguei à conclusão que aquela mulher poderia estar por trás daquelas mortes, pois nenhum remédio veterinário conseguira curá-los.

Foi então que resolvemos tentar salvar o peru, magnetizando-o. A nossa surpresa foi que o peru, após algumas horas de termos atuado sobre ele, apresentava visível revitalização. Não precisa dizer que ele se recuperou completamente ao final do dia.



Nelson Morais
http://www.jornaldemocrata.com.br/materias

"Um olhar sobre a inveja"

"Um olhar sobre a inveja":  Cada um de nós já nasce trazendo em sua essência dons, capacidades e talentos "únicos", porque a vida é sábia e na concepção de suas criaturas jamais repete figuras e, muito menos, comete a injustiça de favorecer a uns e desfavorecer a outros, pois se houvesse uma desigualdade, certamente, ao descobrirmos que fomos desabonados, enquanto outros foram beneficiados, isso despertaria em nós uma destruidora comparação que fatalmente criaria intermináveis divergências.

As pessoas mais determinadas, logo cedo descobrem os potenciais que precisam desenvolver no decorrer de sua existência, para chegar à realização e, assim, por direito, manifestar a sua nata e intransferível competência.  Mas, existe um tipo de pessoa que ainda não reconhece em si esses tesouros íntimos e desperdiça os seus dias tentando ser uma cópia daquilo que admira, nos outros, sem perceber que a estrela da sorte só brilha através daqueles que agem com originalidade, e que o carisma dos criadores estará sempre acima dos copiadores, como um farol de luz ofuscando a visão de seus imitadores.

Com o passar do tempo, a pessoa que anula os seus próprios potenciais para seguir na cola dos outros torna-se abatida, frustrada e amarga. Ao se deparar com alguém que conseguiu desabrochar o melhor de seus talentos, em vez de se espelhar no exemplo como modelo e inspiração, acaba é despertando a inveja. Então, colocando o seu poder contra o próprio progresso, ela perde a sua força espiritual e não consegue avançar na vida, porque age guiada por um sentimento de inferioridade, dando-se por vencida diante dos obstáculos - que precisa ultrapassar para chegar à concretização de seus sonhos.

A Inveja


Dentre os sentimentos negativos que o homem ainda conserva em seu íntimo, vamos encontrar a inveja como larva destruidora, capaz das piores ações. Quando se manifesta, é quase sempre de forma camuflada, tornando-se uma perfeita armadilha para todos.

Quem acolhe a inveja, nem sempre tem consciência do que faz. No entanto, é ela uma arma devastadora que sempre encontra eco nos planos espirituais inferiores. Com isto, forma-se a cumplicidade entre “mortos”e “vivos”, levando o encarnado a vivenciar momentos bem cruéis em sua própria vida.

Jesus nos ensinou que o amor deve orientar nossos passos para conseguirmos paz e harmonia. Porém, se acolhemos a inveja no trato com os nossos irmãos encarnados estamos fazendo justamente o oposto daquilo que o Mestre nos ensinou.

Quando invejamos, destruímos os laços da fraternidade que deveriam unir a todos nós, espíritos reencarnados na Terra. A inveja é como punhal, cuja lâmina aponta diretamente para o invejoso, que raramente se dá conta que é ele o grande prejudicado.

Este sentimento inferior, infelizmente, encontra grande acolhida entre a humanidade terrena. As oportunidades para o desenvolvimento desta chaga são inúmeras: pode-ser a promoção no  emprego, que nosso amigo conseguiu; a compra do imóvel pelo vizinho; a melhor classificação  na escola pelo colega do nosso filho; enfim, são inúmeros os acontecimentos que podem despertar esta mancha que a alma humana ainda abriga.

A inveja desvendada

A inveja desvendada



Pesquisa revela que esse sentimento é processado na mesma região cerebral que a dor física. Saiba como controlá-lo


Claudia Jordão e Carina Rabelo


Certa vez, um homem, extremamente invejoso de seu vizinho, recebeu a visita de uma fada, que lhe ofereceu a chance de realizar um desejo. "Você pode pedir o que quiser, desde que seu vizinho receba o mesmo e em dobro", sentenciou. O invejoso respondeu, então, que queria que ela lhe arrancasse um olho. Moral da história: o prazer de ver o outro se prejudicar prevaleceu sobre qualquer vontade. É por meio dessa fábula que a psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960) definiu na obra "Inveja e Gratidão", um dos principais estudos já feitos sobre o tema, o comportamento de quem vive intensamente esse sentimento.


Ao mesmo tempo que o ciúme é querer manter o que se tem e a cobiça é desejar aquilo que não lhe pertence, a inveja é não querer que o outro tenha. O mais renegado dos sete pecados capitais é uma emoção inerente à condição humana, por mais difícil que seja confessá-la. Afinal, todo mundo, em algum momento da vida, já sentiu vontade de ser como alguém. Há até um lugar no cérebro reservado para a inveja. Pela primeira vez, uma pesquisa científica mostra onde ela e o shadenfreude - palavra alemã que dá nome ao sentimento de prazer que o invejoso experimenta ao presenciar o infortúnio do invejado - são processados na mente humana.


De autoria do neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, em Tóquio, o estudo "Quando a sua Conquista É a minha Dor e a sua Dor É a minha Conquista: Correlações Neurais da Inveja e do Shadenfreude" foi publicado recentemente pela prestigiada revista cientifica americana Science. Por meio de ressonância magnética realizada em 19 voluntários (dez homens e nove mulheres), na faixa etária dos 20 anos, foi possível identificar onde os sentimentos são processados no cérebro. Ao sentir inveja, a região do córtex singulado anterior é ativada.


O interessante é notar que é nesse mesmo local que a dor física se processa. "A inveja é uma emoção dolorosa", afirma Takahashi. O shadenfreude, por sua vez, se estabelece no estriado ventral, exatamente onde se processa a sensação de prazer. "O invejoso fica realizado com a desgraça do invejado", diz o pesquisador. Durante a pesquisa, Takahashi induziu os voluntários a imaginarem um cenário que envolvia outros três personagens, do mesmo sexo, faixa etária e profissão que eles. Dois deles seriam, hipoteticamente, mais capazes e inteligentes.


Dessa comparação nasce a inveja, especialmente quando as pessoas são muito parecidas. Ou seja, é mais comum uma mulher se incomodar com outra, da mesma faixa etária e profissão, do que com alguém com características totalmente diferentes. "Trata-se de um sentimento caracterizado pela sensação de inferioridade", explica o neurocientista Takahashi. "Quando há essa sensação, é porque houve comparação e a pessoa perdeu."


O ator Roberto Birindelli perdeu muitas batalhas, mas parece ter vencido a guerra. Ao longo de seus 46 anos, a inveja sempre o perseguiu. Na escola, nutria o sentimento pelos colegas de classe que conquistavam as garotas com facilidade. Na vida adulta, sofria quando um colega ator conseguia um teste para o melhor papel de uma produção.


O sentimento o corroía tanto que ele chegou a invejar o modo como uma determinada jaqueta de couro caía bem em um conhecido. "O que me deixava mal era saber que a roupa não ficaria tão boa em mim", confessa Birindelli. "A minha inveja se repetia em tantos palcos quanto houvesse situações de comparação." Insatisfeito em se projetar o tempo todo nos outros, o ator foi em busca de auto-conhecimento.


Descobriu o eneagrama (técnica para estudo do comportamento humano), fez terapia e mergulhou na meditação. "Percebi que o problema era comigo", reconhece. "Sou inseguro em relação à maneira como a sociedade me vê." Amparado, aprendeu a lidar com a questão. "Hoje em dia, sempre que vou sentir inveja de alguém, me pergunto: ser como ele é melhor do que ser quem sou?", explica Birindelli, que está no ar na novela "Poder Paralelo", da Record. Além da insegurança, a baixa autoestima, o sentimento de incapacidade e a sensação de injustiça são características comuns aos invejosos. "Pessoas bem resolvidas e esclarecidas tendem a ter menos inveja", diz o psiquiatra José Thomé, da Associação Brasileira de Psiquiatria.


Mas por que há pessoas muito invejosas e outras que passam a vida quase sem sentir essa emoção? A psicóloga Sueli Damergian, professora da Universidade de São Paulo (USP), acredita que o segredo está em não ultrapassar a linha da afeição. "A inveja é sempre fruto da admiração", diz. "Se ela ficar restrita a isso, pode funcionar como impulso para o desenvolvimento." O problema é quando essa barreira é rompida. "Se o impulso destrutivo for muito forte, o invejoso passa a viver a vida do outro e isso pode ser danoso tanto para ele quanto para o invejado."


Em casos patológicos, que, segundo especialistas, são mais comuns do que se imagina, quem sofre do mal é capaz de caluniar, perseguir, e, em casos mais extremos, desejar a morte do invejado. Há, também, os que somatizam. Nessas situações, podem apresentar quadro depressivo, autodestrutivo, agressividade e tendências suicidas. O psiquiatra Thomé acredita que, salvo os casos patológicos, as pessoas têm livre-arbítrio para viver ou eliminar a inveja. "É um sentimento muito primitivo, que deve ser trabalhado."


Entre a inveja destrutiva e a construtiva, a artista plástica Roberta Martinho, 34 anos, ficou com a segunda. Garota curiosa, ela teve consciência do sentimento ainda na pré-adolescência. Queria ser como o Visconde de Sabugosa, personagem de Monteiro Lobato, em "O Sítio do Pica-Pau Amarelo" - é recorrente a inveja de personagens fictícios ou pessoas distantes do convívio, como as celebridades. Seu segundo contato com a emoção, dessa vez mais realista, foi por meio da professora de história. "Invejava a cultura, a erudição e a inteligência dos dois", diz Roberta. Numa versão light do sentimento, ela nem chegou a desejar o infortúnio de seus invejados. "Queria ser como eles, mas não me sentia inferiorizada nem injustiçada", diz.


A maneira que encontrou para lidar com a questão foi mergulhar nos livros. "Ler muito, estudar, pesquisar", diz. Quando a pessoa consegue fazer com que o sentimento, em tese negativo, impulsione ações positivas, ela o transforma no que os especialistas chamam de inveja criativa. "Inveja, ciúme e raiva são tão importantes quanto a visão, a sexualidade e a alimentação", defende o psiquiatra Carlos Byington. "Todos eles trazem informações importantes para formar e transformar a própria identidade." Hoje, Roberta é frequentadora assídua de biblioteca e museu. E diz não sentir mais inveja de nada, nem de ninguém. "Descobri que as pessoas são únicas e que não devemos seguir padrões alheios."


Comum em toda a sorte de relações humanas, a inveja está presente até mesmo dentro de casa. As irmãs Júlia e Lídia Loyola, 25 e 23 anos, respectivamente, e suas meias-irmãs Fernanda e Gabriela Fernandes, 17 e 13, moram juntas e compartilham da incômoda emoção. Filhas da mesma mãe e de pais diferentes, estão sempre se comparando e lamentando aquilo que não são.


As mais velhas invejam a vida cheia de oportunidades das mais novas. "Aos 15 anos, quando precisava de dinheiro, trabalhava", diz Júlia. "A Fê não precisa disso." Fernanda reconhece. "Não fico tripudiando, mas reconheço que me sinto recompensada por ter vantagens em relação às minhas irmãs mais velhas, apesar de elas estudarem tanto", diz. "Ao mesmo tempo, queria ser como elas: tirar boas notas e não ficar de castigo."


O ambiente de trabalho, por sua vez, também é terreno fértil para os invejosos. Uma pesquisa das universidades de Warwick e Oxford, na Inglaterra, mostra que nem sempre se inveja a maneira de ser do rival, mas suas posses. No experimento, os entrevistados poderiam ganhar ou "queimar" o dinheiro do concorrente, sob o custo de perder parte de sua verba - 62% dos participantes escolheram se voltar contra o outro. Segundo a psicóloga Glaura Maria Verdiani, autora da tese de mestrado "Um Estudo sobre a Inveja no Ambiente Organizacional", pelo Centro Universitário de Araraquara (SP), é provável que esse sentimento esteja impregnado em 100% das relações profissionais.


"Em uma equipe de 30 pessoas, é possível que todos invejem alguém, em algum nível", revela. A emoção pode ter origem em qualquer um e partir para diferentes direções. Acontece entre pessoas do mesmo cargo, funcionários de funções inferiores e superiores. "Há chefes invejosos de seus subordinados, que são mais jovens, mais dispostos e, muitas vezes, mais talentosos", diz Sueli.


Aos 28 anos, a designer Claudia Neves foi vítima da inveja em seu local de trabalho. Até seis meses atrás, ela era a única funcionária entre vários homens do departamento em que trabalhava, numa agência de publicidade em São Paulo. Sua vida profissional virou de pernas para o ar com a chegada de outra garota, da mesma idade, que passou a dar expediente numa função com remuneração menor. No início, as duas se davam bem - ao menos aparentemente. Até que a nova colega passou a evitá-la e agir de maneira estranha.


"Ela não fazia o tipo feminina e, de repente, começou a me pedir dicas de maquiagem", conta Claudia. Além disso, mais gordinha, passou a se preocupar com a quantidade de calorias que ingeria. "Essa neurose começou depois que os meninos compararam o corpo dela com o meu", diz. Com o tempo, o melhor amigo de Claudia se afastou. E seu supervisor passou a implicar com seu trabalho.


A designer desconfia que foi vítima de calúnias. "Certa vez, meu chefe foi grosseiro comigo", conta. "Nessa hora, pude ver no rosto dela que estava rindo por dentro." Triste com a situação, Claudia pediu para ser demitida. "O ex-marido dela me disse que ela tinha ódio mortal de mim e queria me destruir", conta. Apesar da atitude drástica que teve de tomar, ela não acredita que a colega tenha saído vitoriosa. "Ela conseguiu me eliminar, mas estou muito feliz fora de lá", afirma.


Em novembro passado, nos Estados Unidos, o ex-âncora de telejornal Larry Mendte, 51 anos, além de demitido, foi condenado a pagar uma multa de US$ 5 mil (R$ 10,1 mil) e a prestar 250 horas de serviços comunitários por violar o e-mail de sua colega de bancada, Alycia Lane, 36 anos. Por dois anos, Mendte enviou mensagens se fazendo passar por ela para veículos de imprensa e colegas de trabalho. Durante o caso, admitiu ter inveja por causa do salário anual de US$ 780 mil (R$ 1,6 milhão) de Alycia. "O meu papel na emissora estava sendo reduzido quando ela me falou que era a nova estrela", disse, à época.


Assim como os demais sentimentos, a inveja vem de berço. Segundo Melanie Klein, até mesmo os bebês nutrem esse sentimento. Eles invejam o seio materno, capaz de alimentá-los e confortá-los. A emoção, no entanto, começa a se tornar mais visível na primeira infância e se manifesta na forma de cobiça. Pedro, 5 anos, e Isabela, 4, são primos e estudam juntos. "Eles disputam tudo: a atenção da família, dos professores, dos colegas", diz a educadora Caroline de Oliveira, 32 anos, mãe de Pedro. "Isabela é mais de cobiçar os brinquedos do primo, e ele, por sua vez, disputa a atenção das pessoas quando ela se destaca." Para lidar com a atenção, a mãe explica para o filho que não é possível ter tudo o tempo todo. "Tento prepará-lo para lidar com essa sensação, que estará sempre presente."


A psicóloga Sueli, da USP, assina em baixo. "É importante eliminar os sentimentos de inferioridade e baixa autoestima e mostrar o outro lado", explica. "Se a pessoa não é boa em algo, certamente será em outra coisa." Afinal de contas, a melhor maneira de domar o sentimento da inveja é, assim como fez o ator Birindelli, identificá-lo e aprender a lidar com ele. Graças a seu esforço, ele hoje circula satisfeito com a jaqueta de couro que tanto invejou no outro e, finalmente, comprou.


Colaborou Rodrigo Cardoso


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 3 de junho de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


A inveja é uma das emoções mais antigas e também uma das mais devastadoras que a humanidade conheceu. Ela esteve na origem de conflitos tremendos, ódios sangrentos, assassínios cruéis e injustiças que a história não conseguiu apagar. Sentir inveja é algo tão pernicioso que raros são aqueles que ousam confessar que a sentem, nem mesmo para si mesmos.


Invejar não é apenas desejar para si o que o outro tem ou é, a isso chamamos cobiça. Além de cobiçar, quem sente inveja pretende sobretudo que o outro não tenha ou não seja. A grande tragédia do invejoso é interiorizar que a sua felicidade não depende de si próprio mas sim da infelicidade dos outros.


Tal como nos relata a notícia, a inveja é um processo muito doloroso e bastante perturbador a nível psicológico. As virtudes, êxitos e felicidade dos outros são para o invejoso uma força que ameaça o seu equilíbrio emocional, enfraquecendo terrivelmente o seu amor-próprio e a confiança nas suas capacidades criadoras. Sente-se irredutivelmente inferiorizado perante a vida, recalcando sucessivos fracassos e frustrações. Tal como uma criatura ferida, reage por instinto, destilando o veneno da maledicência e do desprezo, que usa para esconder a raiva que sente, a insegurança em que vive e a inferioridade que o martiriza.


Como uma emoção instintiva, podemos apreciar a inveja entre diversos animais e, mesmo de uma forma ingênua e natural, nas crianças. É normal que em algumas situações possamos ser invadidos por pensamentos de que determinado indivíduo é melhor do que nós em alguns detalhes, que poderão ser intelectuais, morais, físicos ou materiais. Se não tivermos a maturidade e capacidade necessárias para lidar com as limitações próprias da nossa imperfeição pessoal, esses pensamentos transformar-se-ão num instrumento que conduzirá ao medo, insatisfação e frustração. No fundo, se não conseguirmos aceitar aquilo que temos e aquilo que somos, o fantasma daquilo que os outros têm e são irá assombrar-nos constantemente. Acossados por esse inimigo externo, que passeia as suas virtudes debaixo do nosso nariz, e pelo ditador interno, que aponta constantemente as nossas imperfeições, desiludidos conosco mesmo e tomados por um sentimento de inferioridade, que nos impossibilita de chegar mais adiante, resta-nos apelar a que aqueles a quem nos comparamos sejam despromovidos na sua pretensa jactância. Essa é a obscura forma de prazer a que o invejoso pode almejar: que os outros se deem mal. Apenas dessa forma, diminuindo o termo de comparação, é que ele consegue oferecer algum deleite ao seu confuso espírito.


A inveja ainda prolifera nos nossos dias porque andamos distraídos por uma sociedade que é cada vez mais materialista e competitiva, voltada para fora, para a aparência e satisfação dos sentidos. Estamos tão preocupados em parecer mais que os outros que nos esquecemos de sermos melhores pessoas a cada dia que passa. Vivemos tão obcecados em saber mais sobre tudo e todos que nos esquecemos que as mais importantes descobertas são acerca de nós próprios. Não faz sentido andar constantemente a estabelecer comparações com aquilo que os outros são quando desconhecemos o melhor que podemos ser. Para erradicar a semente da inveja da nossa alma é necessário cultivar o saudável hábito de gostar de nós. Amar quem somos! Olhar no espelho e dizer: “És um cara único e especial. Eu te amo!”. Dessa forma, aceitando verdadeiramente quem somos e aquilo que esta existência nos proporcionou, ficamos menos suscetíveis a comparações confusas e deturpadas.


Confúcio dizia que “não interessa o que se trata de levar a termo: o que interessa é perseverar até ao fim.” É verdade que leva tempo e muito trabalho para nos tornarmos na pessoa que sonhamos ser. Mas se o ideal é legítimo não podemos desistir de nossos sonhos. Não podemos deixar que as naturais imperfeições do nosso Espírito detenham o nosso crescimento. Invejar é parar de crescer. É reconhecer que não somos capazes de ir mais além quando ainda mal iniciamos o caminho. Aquele que persiste alcança. A água que afoga também sacia a nossa sede. Por isso, se tivermos a humildade suficiente, a inveja pode ser transformada num saudável processo de admiração que nos impulsionará e instigará ao desenvolvimento e ao aprendizado. Será o sublime dínamo que nos dará o estímulo à evolução.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.

Inveja

Os homens são Espíritos destinados à Angelitude. Foram criados simples e ignorantes e gradualmente desenvolvem suas potencialidades e virtudes. Por muito tempo viveram os instintos em sua plenitude. Atualmente, deixam de forma paulatina a vida instintiva e pautam seu atuar pela razão. No lento processo evolutivo, alguns antigos vícios perdem sua força. Em seu lugar, algumas novas virtudes vicejam. É no trato com os semelhantes que o homem toma contato com sua realidade espiritual.
Os embates do dia-a-dia tornam possível ao ser humano perceber suas fraquezas.
Ciente delas pode dedicar-se ao seu combate. Uma das fissuras morais bastante comuns na Humanidade atual é a inveja. São Tomás de Aquino definiu esse vício como a tristeza que se tem em relação às coisas boas dos outros. O invejoso simplesmente se sente mal porque o próximo tem sucesso.
Não há necessidade de que algo lhe falte. Ele apenas se considera diminuído com a grandeza alheia.
Na realidade, por vezes se perdoa ao semelhante mais facilmente um erro do que um acerto. É mais fácil auxiliar quem cai do que suportar a vitória do outro.
Ante a fome e a enfermidade, não tardam mãos que auxiliam.
Os benfeitores, sob o prisma material, sempre ocupam lugar de realce.
O auxílio aos miseráveis pode propiciar, de algum modo, a satisfação da vaidade. Bem mais difícil é ser feliz com a felicidade alheia. Perante alguém que vence na vida, a animosidade com frequência torna-se acirrada. Não faltam fiscais e acusadores de alguém que sempre obtém algum sucesso. Muitas vezes ouvimos a respeito de quem enriquece: Deve estar roubando! Na escola, o aluno que obtém boas notas não raramente é objeto de maldosas observações. Ele ganha apelidos grosseiros e sofre comentários pouco generosos. Comenta-se que cola e que goza de favoritismos. A inveja está muito presente em nossa sociedade. A vontade de apontar os defeitos alheios é um indicativo desse vício em nós. Trata-se de uma fissura moral bastante frequente e reveladora de grande mesquinharia. Prestemos atenção em nosso comportamento.
Apliquemos firmemente à vontade em alijar de nosso íntimo esse triste defeito.
Ser caridoso não é apenas amparar a miséria. Ser feliz com a felicidade alheia também é uma forma de caridade cristã.
Valorizemos as conquistas e as virtudes dos outros.
Somos todos companheiros na imensa jornada da vida.
O clima psíquico da Terra é fruto da soma da vibração de todas as criaturas que nela habitam. Todos os homens têm a ganhar com a felicidade dos semelhantes.
Quando alguém se eleva, com ele se ergue toda a Humanidade.
Quando alguém cai, é prejuízo na economia moral do planeta.
Alegremo-nos com as vitórias de nossos irmãos. Ao vencerem, eles não nos tiram nada.
Muitas vezes dão preciosos exemplos, que podemos seguir. Sejamos solidários nas dificuldades do próximo.
Mas participemos também, sinceramente, de seus júbilos.

Redação do Momento Espírita
Com base no capítulo VII do livro Leis Morais da Vida
Do Espírito Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco

A INVEJA

A INVEJA

ORSON PETER CARRARA



A inveja é a arma dos fracos. Matriz de inúmeros males, mentora de muitas desordens, alicerce de incontáveis desventuras. Discreta, incomodamente, tem sido deixada à margem pelos expositores das verdades evangélicas em todas as crenças. Sutil como é, passa despercebida, embora maliciosa, comparável a vapor deletério que intoxica todo aquele que lhe padece a presença, espalhando miasma em derredor.

Hábil, consegue travestir-se de ciúme exacerbado, quando não o faz como arrogância vingadora ou aparenta na condição de humildade, sempre perniciosa, ou se disfarça como orgulho prepotente.

A inveja, além dos males psíquicos que produz, em razão dos pensamentos negativos que dirige contra outrem, proporciona, simultaneamente, graves prejuízos morais àquele que dela se empesta.

A inveja é capaz de caluniar, investindo contra uma vida com uma frase dúbia, na qual consegue infamar o mais puro caráter. Soez, transmuda palavras e infiltra doestos perniciosos; vê o que lhe apraz e realize conforme lhe parece lucrar.

Consequentemente, o invejoso é um peso infeliz na comunidade humana, porque débil moral; adapta-se, amolda-se, é venenoso na bajulação e terrível na agressividade...

A arma do invejoso é o ódio desenfreado, mortífero. Na impossibilidade de valorizar o trabalho que alguém faz, procura inspirar em muitos o despeito e a mágoa, a raiva e a imponderação, e palavra ácida e a acusação mordaz, a fim de realizar-me e afligir.

As lições da convivência, todavia, muito ensinam. Desprendimentos de uns, simplicidade de outros, confiança de muitos e não obstante a deficiência que há em cada um, sempre menor do que as minhas imensas mazelas da inveja, é preciso aprender a respeitar, porquanto o invejoso não considera ninguém, padecendo despeito de todos, a todos apedrejando, maldizendo...

O exercício é para querer estimar, conseguir amizade e plantar no coração o que muitos chamam amor, mas que ao ególatra constitui um fardo pesado, tenebroso, difícil de carregar.

Sim, o espírito invejoso odeia, persegue, porque, tendo ciúme da felicidade alheia, corrói-se pela inveja da felicidade dos demais.

Os que apresentam recalques entre os homens, os que cultivam complexos de inferioridade, no fundo são Espíritos invejosos, malévolos, insidiosos, infelizes, pois somente quem é desventurado se compraz na desventura alheia...

Por isso o exercicio é treinar a larguesa da generosidade, a difusão da gentileza, a ampliaçao dos horizontes imensos, porque as maos que esparzem rosas sempre ficam impregnadas de perfume... Como é ditoso oferecer-se rosas, muito melhor seria tirar-lhes, tambem, os espinhos, como os cardos do caminho ppor onde transitam incautos pés.

Nota do autor: adaptado do texto A INVEJA, constante do livro Depoimentos Vivos, de Divaldo Pereira Franco, Ed. LEAL, com transcrições parciais.

A inveja na visão espírita

A inveja é considerada um dos grandes males da sociedade, a psicologia a considerada como um câncer da humanidade já que ela desestrutura os campos: emocional e físico, e ainda, ela impede o desenvolvimento de outros sentimentos que estão ligados a ordem superior.

Muitos historiadores definem a inveja como um sentimento inferior de desejo, que é atribuída ao egocentrismo, soberba e cobiça. Pode-se encontrar este tipo de pessoa em todas as áreas, por exemplo, na religiosa, política, esportiva, profissional, entre outras. Quantas pessoas não desejam que o casamento do amigo acabe? Ou então, comemoram quando o colega perde o emprego?

O invejoso muitas vezes, busca compensar suas emoções relacionadas a inveja e que são guardadas desde a infância, vividas em um mesmo ambiente de pessoas ricas e prósperas.

E ainda, a pessoa que tem inveja passa energia negativa para o invejado e também para as pessoas que os cercam. Ele também é inseguro, supersensível, desconfiado, além de se passar por superior, quando na verdade, se sente inferior. Outra característica do invejoso é a questão da cópia, do desejo de ter aquilo que o outro tem, por exemplo, um bom relacionamento, emprego.

Na Revista Espírita de 1858, de Allan Kardec, edição de julho, é possível encontrar o comentário do espírito São Luiz que abordou a questão da inveja, respondendo a um questionamento:

“(…) seu Espírito está inquieto, sua felicidade terrestre está no auge; ele inveja o ouro, o luxo, a felicidade aparente ou fictícia de seu semelhante; seu coração está destroçado, sua alma surdamente consumida por essa luta incessante do orgulho, da vaidade não satisfeita; ele carrega consigo, em todos os instantes de sua miserável existência, uma serpente que ele reaquece, que lhe sugere, sem cessar, os mais fatais pensamentos: ‘Terei essa volúpia, essa felicidade?’ (…) E se debate sob sua impotência, vítima dos horríveis suplícios da inveja. (…)” E conclui: “(…) Fazei vossa felicidade e vosso verdadeiro tesouro sobre a Terra as obras de caridade e de submissão, as únicas que devem contribuir para serdes admitidos no seio de Deus; essas obras do bem farão vossa alegria e vossa felicidade eternas; a inveja é uma das mais feias e das mais tristes misérias do vosso globo; a caridade e a constante emissão da fé farão desaparecer todos esses males (…)”

Infelizmente, a inveja é uma realidade, por isso, é preciso que a pessoa se liberte deste mal. Já que ao vibrar positivamente, a felicidade será certeira.

Na Bíblia em Provérbios 14:30 diz: O coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos.

Fontes: O Clarim | Espiritismo, Prece de Luz







Por Juliana Chagas

Jornalista e produtora da Rádio Boa Nova

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