Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

“Meu Reino não é desse Mundo” - Que Reino?


“Meu Reino não é desse Mundo” - Que Reino?

Dalmo Duque dos Santos
– Em que sentido se devem entender as palavras do Cristo “Meu Reino não é desse mundo?
O Cristo respondeu em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações puros e desinteressados. Ele está em todos os lugares em que domine o amor do bem, mas os homens ávidos das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra, não estão com ele. O Livro dos Espíritos - Questão 1018
A realidade espiritual é muito clara, mas para nós, os eternos insatisfeitos, sempre que esse assunto vem à tona surge a pergunta fatídica: afinal, o que é o Reino de Deus?
Na cultura judaica , no seu idioma e nos seus dialetos o “reino” está relacionado à palavra “Malkuth”, que significa literalmente “estado de coisas”. Mesmo assim, logo se vê que a expressão é dúbia e a sua conceituação ou definição é filosófica e vai depender sempre do ponto de vista de quem a coloca em condição reflexiva. Curioso é que esses pontos de vista, embora infinitamente diversificados pela ótica humana se dividem em duas posições de observação das coisas: a visão interior e introspectiva, portanto espiritualista; e a visão exterior, retrospectiva, portanto materialista. Essa dicotomia só existe porque ainda não conseguimos chegar a um ponto de equilíbrio entre aquilo que é interior ou exterior, espiritual ou material, em nossa experiência existencial. Ainda confundimos a Vida (que é única e eterna) com a existência (que são múltiplas e efêmeras), não entendemos plenamente o que seja a relatividade do tempo e tantas outras coisas que só aprendemos a teorizar, mas que ainda não faz parte da nossa experiência. Sabemos que esses obstáculos de compreensão são impostos pelas limitações dos nossos sentidos e da nossa atual inteligência, ainda muito precária e restrita ao plano intelectual. Sabemos também que esses bloqueios serão gradualmente removidos com o despertar da mediunidade, que nada mais é do uma tecnologia, uma extensão ou exteriorização da mente através do cérebro físico. Essa tecnologia, talvez a mais antiga descoberta humana, vem se aperfeiçoando no desenrolar das nossas existências e, assim como a mecânica e a eletrônica, vem adquirindo configurações de acordo com o uso, a capacidade e a necessidade do seu portador. Diríamos que a mediunidade é o equipamento da descoberta do Reino de Deus - a Natureza em si e a nossa relação com ela, o nosso grau de consciência - que veio sendo sofisticado desde as mais rústicas aplicações da magia primitiva até a mais sutis atividades do ambiente cibernético. Mas tal descoberta continua dividida entre a percepção exterior e interior. Para uns, ela é o fenômeno físico, palpável, lógico, objetivo; para outros, ela é metafísica, imponderável, psicológica e subjetiva.
O papel das doutrinas espiritualistas nessa questão seria influir positivamente no amadurecimento do ser humano. A idéia da imortalidade como um fato científico já foi colocado de forma brilhante, solucionada do ponto de vista lógico, mas no aspecto interior e psicológico continua sendo um enigma, um segredo que só vai ser equacionado quando “acordarmos” do sonho existencial para a Vida real. Não basta vermos e tocarmos Espíritos materializados se não tivermos a sensibilidade da leitura espiritual do fenômeno. Nesse aspecto os novos cientistas psíquicos foram o triunfo de Tomé: substitui-se a curiosidade pela a dúvida e esta foi sendo superada pela fé tranqüila, harmônica, equilibrada.
É preciso saber diferenciar a realeza comum e transitória da realeza espiritual. Na primeira encontramos o universo político de César, o domínio da matéria sobre o Espírito, cujos interesses materiais estão em primeiro lugar e tudo se volta para a solução de problemas dessa modalidade. Na segunda ela é apenas uma simbologia do poder do Espírito sobre a matéria. O extremo dessa consciência é a conversa de Jesus com Pilatos, no qual se mostra perfeitamente convicto do que está fazendo e ciente do que está acontecendo ao seu redor. Essa consciência atinge o ápice quando Jesus prefere a humilhação completa, inclusive da sua dignidade física, para exaltar o seu poder espiritual, isto é, mandar nos corações humanos; a coroa de espinhos, a tortura física e a pena de morte são detalhes que não o incomodam, senão fisicamente, pois são distorções da realidade espiritual, reflexos do poder político efêmero, que certamente serão corrigidos pelas leis da reencarnação e de causa e efeito. Para nós essa é uma experiência ainda absurda, cujo sofrimento físico do Mestre ofusca o sofrimento moral e nos dá uma falsa idéia de masoquismo, ascetismo e anulação. Não entendemos que a salvação caminha por uma outra vertente. Tanto é deformada essa visão que sentimos uma atração sádica pelas cenas da crucificação e chegamos a ponto de querermos reencenar repetitivamente essa tragédia, para atuarmos viciosamente como falsos personagens. Isso é a perversão da religiosidade pelos sentidos físicos, o fundo do poço da religião. Daí surgiram os dogmas, que são os narcóticos do Espírito, talvez o ‘ópio das massas” a que se referiu Karl Marx.
É preciso também comparar a perspectiva materialista e a espiritualista. O Espiritualismo moderno rompe o absolutismo temporal da existência biológica e expõe a relatividade do tempo da vida espiritual.
Essa dicotomia “mundo interior” e “mundo exterior”, na mente humana, depende da nossa reestruturação mental e comportamental. O que vale é o conceito socrático do conhece-te a ti mesmo, mas não no sentido de discurso intelectual, da sabedoria vazia dos sofistas. Trata-se de uma auto-percepção trabalhosa, metódica, complexa quando racionalizada, porém simples quando aplicada na prática cotidiana. Como não temos a capacidade de nos percebermos senão por imagens falsas de nós mesmos (narcísicas), Jesus resolveu facilitar esse processo invocando a lei de sociedade e afinidade entre o seres. A percepção de si mesmo sempre começa pela percepção dooutro. O Reino está em nós, mas só o enxergamos refletido no semelhante; só ele, como um espelho, tem a chave e esta só abre a fechadura que está no outro, e assim sucessivamente. É por isso que o outro conhece bem melhor do que nós os nossos defeitos e as nossas virtudes. É também por isso que o próximo, quase sempre, está bem distante, mesmo estando tão perto. Então, amar o próximo é mais conveniente do que se imagina... Quando tivermos a capacidade de amar de verdade, a obrigação e a conveniência serão transformadas no indescritível prazer da caridade.
Para concluir esse estudo, lembramos que, historicamente, constata-se que a descoberta de si mesmo ou da consciência, como na existência humana, partiu do ponto de vista objetivo e exterior - da descoberta do próprio corpo (infância) - passou da mesma forma para os fenômenos da Natureza (adolescência) e vem voltando gradualmente para o universo subjetivo e interior (maturidade). Se fôssemos mensurar matematicamente essa trajetória poderíamos dizer que cada etapa da transformação pode ser comparada a um processo de verticalização da consciência, que supomos ser no Reino Hominal realizado em três etapas: do Primeiro ao Sexto Ser, de zero a noventa e de noventa graus; e de noventa a cento e oitenta graus, até atingirmos, no Sétimo Ser, a plenitude de trezentos e sessenta graus, que é a Consciência Universal.
Dalmo Duque do Santos é mestre em Comunicação, bacharel em História e pedagogo. Publicou pela DPL os ensaios “A Inteligência Espiritual” e “ Você em Busca de Você Mesmo”. Está lançando pela mesma editora uma história do Espiritismo com o título “O Demolidor de Dogmas – Allan Kardec e a Reconstrução da Fé no Ocidente”.

Meu reino não é deste mundo - ESE


CAPÍTULO II

Meu reino não é deste mundo

A vida futura - A realeza de Jesus - O ponto de vista - Instruções dos espíritos - Uma realeza terrestre

1. Pilatos, tendo entrado de novo no palácio e feito vir Jesus à sua presença, perguntou-lhe: És o rei dos judeus? - Respondeu-lhe Jesus: Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui. Disse-lhe então Pilatos: És, pois, rei? - Jesus lhe respondeu: Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence a verdade escuta a minha voz. (S. JOÃO, cap. XVIII, vv. 33, 36 e 37.)

A vida futura

2. Por essas palavras, Jesus claramente se refere à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta a que a Humanidade irá ter e como devendo constituir objeto das maiores preocupações do homem na Terra. Todas as suas máximas se reportam a esse grande principio. Com efeito, sem a vida futura, nenhuma razão de ser teria a maior parte dos seus preceitos morais, donde vem que os que não crêem na vida futura, imaginando que ele apenas falava na vida presente, não os compreendem, ou os consideram pueris.

Esse dogma pode, portanto, ser tido como o eixo do ensino do Cristo, pelo que foi colocado num dos primeiros lugares à frente desta obra. E que ele tem de ser o ponto de mira de todos os homens; só ele justifica as anomalias da vida terrena e se mostra de acordo com a justiça de Deus.

3. Apenas idéias muito imprecisas tinham os judeus acerca da vida futura. Acreditavam nos anjos, considerando-os seres privilegiados da Criação; não sabiam, porém, que os homens podem um dia tomar-se anjos e partilhar da felicidade destes. Segundo eles, a observância das leis de Deus era recompensada com os bens terrenos, com a supremacia da nação a que pertenciam, com vitórias sobre os seus inimigos. As calamidades públicas e as derrotas eram o castigo da desobediência àquelas leis. Moisés não pudera dizer mais do que isso a um povo pastor e ignorante, que precisava ser tocado, antes de tudo, pelas coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus lhe revelou que há outro mundo, onde a justiça de Deus segue o seu curso. E esse o mundo que ele promete aos que cumprem os mandamentos de Deus e onde os bons acharão sua recompensa. Aí o seu reino; lá é que ele se encontra na sua glória e para onde voltaria quando deixasse a Terra.

Jesus, porém, conformando seu ensino com o estado dos homens de sua época, não julgou conveniente dar-lhes luz completa, percebendo que eles ficariam deslumbrados, visto que não a compreenderiam. Limitou-se a, de certo modo, apresentar a vida futura apenas como um principio, como uma lei da Natureza a cuja ação ninguém pode fugir. Todo cristão, pois, necessariamente crê na vida futura; mas, a idéia que muitos fazem dela é ainda vaga, incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos. Para grande número de pessoas, não há, a tal respeito, mais do que uma crença, balda de certeza absoluta, donde as dúvidas e mesmo a incredulidade.

O Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em vários outros, o ensino do Cristo, fazendo-o quando os homens já se mostram maduros bastante para apreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura deixa de ser simples artigo de fé, mera hipótese; torna-se uma realidade material, que os latos demonstram, porquanto são testemunhas oculares os que a descrevem nas suas fases todas e em todas as suas peripécias, e de tal sorte que, além de impossibilitarem qualquer dúvida a esse propósito, facultam à mais vulgar inteligência a possibilidade de imaginá-la sob seu verdadeiro aspecto, como toda gente imagina um país cuja pormenorizada descrição leia. Ora, a descrição da vida futura é tão circunstanciadamente feita, são tão racionais as condições, ditosas ou infortunadas, da existência dos que lá se encontram, quais eles próprios pintam, que cada um, aqui, a seu mau grado, reconhece e declara a si mesmo que não pode ser de outra forma, porquanto, assim sendo, patente fica a verdadeira justiça de Deus.

A realeza de Jesus

4. Que não é deste mundo o reino de Jesus todos compreendem, mas, também na Terra não terá ele uma realeza? Nem sempre o título de rei implica o exercício do poder temporal. Dá-se esse título, por unânime consenso, a todo aquele que, pelo seu gênio, ascende à primeira plana numa ordem de idéias quaisquer, a todo aquele que domina o seu século e influi sobre o progresso da Humanidade. E nesse sentido que se costuma dizer: o rei ou príncipe dos filósofos, dos artistas, dos poetas, dos escritores, etc. Essa realeza, oriunda do mérito pessoal, consagrada pela posteridade, não revela, muitas vezes, preponderância bem maior do que a que cinge a coroa real? Imperecível é a primeira, enquanto esta outra é joguete das vicissitudes; as gerações que se sucedem à primeira sempre a bendizem, ao passo que, por vezes, amaldiçoam a outra. Esta, a terrestre, acaba com a vida; a realeza moral se prolonga e mantém o seu poder, governa, sobretudo, após a morte. Sob esse aspecto não é Jesus mais poderoso rei do que os potentados da Terra? Razão, pois, lhe assistia para dizer a Pilatos, conforme disse: "Sou rei, mas o meu reino não é deste mundo."

O ponto de vista

5. A idéia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes conseqüências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num pai ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. A morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.

Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao presente. Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra, torna-se qual a criança que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não faça para conseguir os únicos bens que se lhe afiguram reais. A perda do menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a existência numa perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira tortura de todos os instantes. Colocando o ponto de vista, de onde considera a vida corpórea, no lugar mesmo em que ele aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus olhos. Aquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande: assim os homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele, porém, a uma montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e coisas.

É o que sucede ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efêmeras a tantas canseiras se entreguem para conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão pouco tempo conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé na vida futura.

6. Se toda a gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria, porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas. Não; o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar e, embora certo de que só por pouco tempo, permanecerá no lugar em que se encontra, cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe seja possível. Ninguém há que, dando com um espinho debaixo de sua mão, não a retire, para se não picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência que, para tal fim, o pôs na Terra. Simplesmente, aquele que se preocupa com o futuro não liga ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola dos seus insucessos, pensando no destino que o aguarda.

Deus, conseguintemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.

Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma pequena soma. Aquele cujos pensamentos se concentram na vida terrestre assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.

7. O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa visão, acanhada e mesquinha, que o concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador. Mostra a solidariedade que conjuga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Faculta assim uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de cada corpo torna estranhos uns aos outros todos os seres. Essa solidariedade entre as partes de um mesmo todo explica o que inexplicável se apresenta, desde que se considere apenas um ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender, motivo por que ele reservou para outros tempos o fazê-lo conhecido.

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS

Uma realeza terrestre

8. Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: "O meu reino não é deste mundo"? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar mais terrível a lição, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo! Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no reino dos céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! como então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que com tanta avidez se requestam na Terra!

Para se granjear um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos pergunta o que fostes, nem que posição ocupastes, mas que bem fizestes, quantas lágrimas enxugastes.

Oh! Jesus, tu o disseste, teu reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer para chegar ao céu, de onde os degraus de um trono a ninguém aproximam. A ele só conduzem as veredas mais penosas da vida. Procurai-lhe, pois, o caminho, através das urzes e dos espinhos, não por entre as flores.

Correm os homens por alcançar os bens terrestres, como se os houvessem de guardar para sempre. Aqui, porém, todas as ilusões se somem. Cedo se apercebem eles de que apenas apanharam uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que lhes podem facultar acesso a esta.

Compadecei-vos dos que não ganharam o reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces, porquanto a prece aproxima do Altíssimo o homem; é o traço de união entre o céu e a Terra: não o esqueçais. - Uma Rainha de França. (Havre, 1863.).70.71

Meu reino não é deste mundo


ELIANA THOMÉ
ethome@uol.com.br
São Paulo, SP (Brasil)

Jesus, a eterna referência para o homem da Terra, não titubeou em afirmar que o seu reino não era deste mundo. Se a Terra não é a morada do Cristo, a que reino então estaremos sendo levados? A pergunta número 55 de O Livro dos Espíritos nos dá uma pista quando fala da pluralidade dos mundos: Todos os globos que circulam no espaço são habitados?  – Sim, e o homem da Terra está longe de ser, como pensa, o primeiro em inteligência, bondade e perfeição. Entretanto, há homens que se julgam superiores a tudo e imaginam que somente este pequeno globo tem o privilégio de ter seres racionais. Orgulho e vaidade! Acreditam que Deus criou o universo só para eles.

A Terra é assim a abençoada escola da alma imortal, que nela estagia por longos períodos na purificação do próprio ser. Da mesma forma que o aluno, após ser diplomado, não precisa mais dos bancos escolares, também o homem, depois de adquirir as virtudes pelas quais trabalhou em sucessivas encarnações, não mais precisa estagiar em mundos materiais, podendo, a partir daí, ter na Espiritualidade e em mundos mais evoluídos as experiências de que agora carece.

Compreendendo a grande escala evolutiva do ser e a necessidade de libertação do homem, Paulo, o apóstolo dos gentios, alerta em carta aos Romanos que o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo (Carta de Paulo, aos Romanos, 14:17).

A primeira mensagem atesta a existência do plano espiritual e dos vários mundos que servem de asilo para a alma na concretização de suas virtudes. A segunda, importantíssima, nos dá a receita de como atingir os planetas em condições melhores que o nosso.

Ambas são claras na necessidade de passarmos pela Terra sem nos deixar aprisionar por ela. Viver a vida material lutando para que a matéria e tudo o que a engloba sejam elementos providenciais, ferramentas que o Espírito encarnado deve manipular sem atritos ou sangrias.

No entanto, vemos nos dias de hoje a supervalorização de princípios calcados na beleza do corpo e na posse de dinheiro e bens materiais, que estão longe de constituir aquele passaporte que nos permitirá galgar um andar acima visando o mais alto que nos aproximará do Pai.

Pode-se ser belo, ter um bonito corpo e mesmo ter-se dinheiro. É a valorização em demasia desses elementos que constitui obstáculo para alguns. De repente a beleza passa a ser algo tão importante para certas pessoas que tudo sacrificam por ela: tempo, dinheiro, família, amizade etc., numa inversão completa dos valores.

E o maior sacrifício, se assim podemos dizer, que Deus pede aos seus filhos, é que saibamos nos amar uns aos outros. Perdemo-nos na vida na luta pela própria subsistência, enquanto o trabalho, canal de ocupação e mecanismo de aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim, como ensina o Aurélio, torna-se, em nossa visão pequena e egoísta, um empecilho da felicidade.

Devemos, portanto, ocupar nosso tempo da forma mais positiva possível, distribuindo e colhendo afetos por onde passarmos. Saibamos honrar cada dia como uma dádiva de Deus aos filhos bem-amados. Aprendamos a viver dentro de nossas próprias capacidades, pois a espiritualidade nada pode fazer quando a nossa imprevidência nos coloca em situações difíceis, principalmente na questão monetária.

O justo viverá pela fé, já nos alertava o sempre querido Paulo em carta aos Romanos (1:17). Não apenas não devemos misturar o espiritual com o material, no ensaio de uma miscigenação impossível – cada elemento é único em sua essência -, como devemos honrar a oportunidade da reencarnação assumindo todos os deveres que ela nos exige em nível social e moral.

Jesus deixou essa repartição bem clara quando salientou firmemente aos fariseus que tentaram embaraçá-lo na questão dos impostos cobrados por César: É-nos permitido pagar ou deixar de pagar a César o tributo? Jesus, lúcido quanto à oportunidade da lição, responde firme: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mateus, 22:15-22 - Marcos, 12:13-17).

Assim é o mundo material, uma escola plena de desafios, cheia de grandeza e de grandes e necessárias provas. Os que carregam seus fardos e assistem os seus irmãos são os meus bem-amados, já nos alertava o Espírito de Verdade em mensagem inserida em O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. VI, item 6), na qual nos pede para nos instruirmos na preciosa doutrina que dissipa o erro das revoltas e nos mostra o sublime objetivo da provação humana, que é o de poder ingressar finalmente nos mundos celestes ou divinos, habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem.

A Terra, segundo o Espiritismo, pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão por que aí vive o homem a braços com tantas misérias (ESE, cap. III item 4).

É, portanto, na Terra que devemos desenvolver a inteligência e sublimar o nosso mundo moral, a alma, para conseguir as virtudes necessárias que nos farão ingressar no reino colocado por Jesus, sendo então como ele exemplo de bondade e perfeição.

A Receita da Felicidade


A Receita da Felicidade

Tadeu, que era dos comentaristas mais inflamados, no culto da Boa Nova, em casa de Pedro, entusiasmara-se na reunião, relacionando os imperativos da felicidade humana e clamando contra os dominadores de Roma e contra os rabinos do Sinédrio.
Tocado de indisfarçável revolta, dissertou largamente sobre a discórdia e o sofrimento reinantes no povo, situando-lhes a causa nas deficiências políticas da época, e, depois que expendeu várias considerações preciosas, em torno do assunto, Jesus perguntou-lhe:
- Tadeu, como interpreta você a felicidade?
- Senhor, a felicidade é a paz de todos.
O Cristo estampou significativa expressão fisionômica e ponderou:
- Sim, Tadeu, isto não desconheço; entretanto, estimaria saber como se sentiria você realmente feliz.
O discípulo, com algum acanhamento, enunciou:
- Mestre, suponho que atingiria a suprema tranqüilidade se pudesse alcançar a compreensão dos outros.
Desejo, para esse fim, que o próximo me não despreze as intenções nobres e puras.
Sei que erro, muitas vezes, porque sou humano; entretanto, ficaria contente se aqueles que convivem comigo me reconhecessem o sincero propósito de acertar.
Respiraria abençoado júbilo se pudesse confiar em meus semelhantes, deles recebendo a justa consideração de que me sinta credor, em face da elevação de meu ideal.
Suspiro pelo respeito de todos, para que eu possa trabalhar sem impedimentos.
Regozijar-me-ia se a maledicência me esquecesse.
Vivo na expectativa da cordialidade alheia e julgo que o mundo seria um paraíso se as pessoas da estrada comum se tratassem de acordo com o meu anseio honesto de ser acatado pelos demais.
A indiferença e a calúnia doem-me no coração.
Creio que o sarcasmo e a suspeita foram organizados pelos Espíritos das trevas, para tormento das criaturas.
A impiedade é um fel quando dirigida contra mim, a maldade é um fantasma de dor quando se põe ao meu encontro.
Em razão de tudo isso, sentir-me-ia venturoso se os meus parentes, afeiçoados e conterrâneos me buscassem, não pelo que aparento ser nas imperfeições do corpo, mas pelo conteúdo de boa-vontade que presumo conservar em minhalma.
Acima de tudo, Senhor, estaria sumamente satisfeito se quantos peregrinam comigo me concedessem direito de experimentar livremente o meu gênero de felicidade pessoal, desde que me sinta aprovado pelo código do bem, no campo de minha consciência, sem ironias e críticas descabidas.
Resumindo, Mestre, eu queria ser compreendido, respeitado e estimado por todos, embora não seja, ainda, o modelo de perfeição que o Céu espera de mim, com o abençoado concurso da dor e do tempo.
Calou-se o apóstolo e esboçou-se, na sala singela, incontido movimento de curiosidade ante a opinião que o Cristo adotaria.
Alguns dos companheiros esperavam que o Amigo Celeste usasse o verbo em comprida dissertação, mas o Mestre fixou os olhos muito límpidos no discípulo e falou com franqueza e doçura:
- Tadeu, se você procura, então, a alegria e a felicidade do mundo inteiro, proceda para com os outros, como deseja que os outros procedam para com você. E caminhando cada homem nessa mesma norma, muito breve estenderemos na Terra as glórias do Paraíso.
XAVIER, Francisco Cândido. Jesus no Lar. Pelo Espírito Neio Lúcio. FEB.

Felicidade


Felicidade

Sérgio Biagi Gregório
1) O que significa a palavra felicidade?
A felicidade pode ser entendida de diversas formas: como bem-estar, como atividade contemplativa, como prazer etc.
De acordo com Abbagnano, o conceito de felicidade é humano e mundano. Em geral, é um estado de satisfação devido à própria situação do mundo. Por essa relação com a situação do mundo, a noção de felicidade difere da debeatitude a qual é o ideal de uma satisfação independente da relação do homem com o mundo e por isso limitada à esfera contemplativa ou religiosa.
2) Como vê-la historicamente?
Na AntiguidadeSócrates referia-se ao "conhece-te a ti mesmo" como sendo a chave para a conquista da felicidade. Platão dizia que a felicidade é relativa aos deveres que o homem tem no mundo. Para Aristóteles, a felicidade é a identificação com as melhores atividades do ser humano.
No âmbito do Velho Testamento, a felicidade centra-se na aquisição dos bens mais elementares como comer, beber e viver em família e no temor a Iahweh, que equivale à atitude religiosa do homem. Na dimensão do Novo Testamento, a felicidade está nas bem-aventuranças prometidas por Jesus.
Plotino (204-270) afirma que a felicidade do sábio não pode ser destruída nem pelas circunstâncias adversas nem pelas favoráveis. Santo Agostinho (354-430) entende a felicidade como o fim da sabedoria, a posse do verdadeiro absoluto, isto é, de Deus. Tomás de Aquino (1225-1274), na Suma Teológica, utilizou a palavra "beatitude" como equivalente à "felicidade" e a definiu como "um bem perfeito de natureza intelectual". Kant (1724-1804) julga que a felicidade faz parte do bem supremo o qual é para o homem a síntese de virtude e felicidade. Bentham (1748-1832) e Stuart Mill ( 1773-1836) retomaram como fundamento de moral a fórmula de Beccaria: "A maior felicidade possível, no maior número de pessoas". (Abbagnano, 1970)
3) Há relação entre felicidade e os hemisférios do cérebro?
No final do século XIX, os médicos notaram algo estranho nas pessoas com lesão cerebral. Quando o dano era do lado esquerdo do cérebro, elas tendiam a ficar mais deprimidas. Richard Davidson, da University of Wisconsin, conduz uma pesquisa para certificar-se se o sentimento de felicidade é objetivo. Em seus estudos, coloca eletrodos em partes diferentes do couro cabeludo e lendo a atividade elétrica. Essas medições de EEG são então relacionadas com os sentimentos que as pessoas relatam. Quando elas experimentam sentimentos positivos, há mais atividade elétrica na parte frontal esquerda do cérebro; quando experimentam sentimentos negativos, há mais atividade na parte frontal direita. (Layard, 2008, cap. 2)
4) Qual a diferença entre a felicidade entendida por Jeremy Bentham e aquela propagada por Aristóteles?
Para Jeremy Bentham, filósofo do Iluminismo do século XVIII, a melhor sociedade é aquela em que os cidadãos são mais felizes. Felicidade aqui é definida como sentir-se bem. Portanto, a melhor política pública é a que produz mais felicidade. E quando se trata de comportamento individual, a ação moral correta é aquela que produz mais felicidade para as pessoas que afeta. Este é o princípio da Felicidade Maior. Aristóteles, por seu turno, acreditava que o objetivo da vida era a eudemonia, um tipo de felicidade associada à conduta virtuosa e reflexão filosófica.
5) Ter mais renda, mais diversão, mais poder é ter mais felicidade?
Pelo fato de não sabermos conceber plenamente a felicidade, ela aparece mesclada de diversos desejos. Uns imaginam encontrá-la na posse das riquezas, porque supõem que com o dinheiro tudo se compra e que a felicidade é uma mercadoria como tantas outras. Outros procuram encontrá-la nos prazeres sexuais, nas diversões, nos passeios. Outros ainda na glutonaria. Em realidade, estamos confundindo posse com felicidade, prazer com felicidade, desejo atendido com felicidade. A felicidade plena e verdadeira requer a atualização das virtualidades do ser espiritual.
6) Em que a concepção de Marx, acerca da felicidade, difere da de Allan Kardec?
Para Marx, a felicidade do indivíduo estaria presa aos proventos materiais do trabalho (salários).
Para Kardec, a felicidade do indivíduo iria além dos proventos materiais do trabalho (salários), pois implica evolução espiritual. São os bônus-horas de que nos fala o Espírito André Luiz, no livro Nosso Lar.
7) Como interpretar a máxima do Eclesiastes: "A felicidade não é deste mundo"?
Pode ser entendida de duas maneiras: 1) que há outros mundos mais evoluídos do que o Planeta Terra, onde a felicidade é mais plena; 2) que a felicidade não estando no mundo material, pode ser encontrada no mundo interior, como conseqüência do dever retamente cumprido.
Bibliografia Consultada
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Mestre Jou, 1970.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.
LAYARD, Richard. Felicidade: Lições de uma Nova Ciência. Tradução de Maria Clara de Biase W. Fernandes. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008.
São Paulo, janeiro de 2009

Educação e felicidade - Parte II


Educação e felicidade - Parte II


Por Maria Ribeiro

A definição de lei natural dada pelos Espíritos na questão 614 de O Livro dos Espíritos, que abre assim o estudo sobre as leis morais, elucida: "a lei natural é a lei de Deus e a única verdadeira para a felicidade do homem. Ela lhe indica o que deve fazer e o que não deve fazer, e ele não é infeliz senão quando se afasta dela.” Mais adiante, na questão 621, com a confirmação de que esta lei se encontra na consciência do homem, conclui-se que a felicidade que este busca alhures, está interiorizada em si, bastando-lhe apenas a satisfação dos desejos espirituais para que possa senti-la. 

Em outras palavras, pode-se afirmar que o homem age em desacordo com sua natureza, apenas para satisfazer um desejo, geralmente fruto do egoísmo, que lhe trará um gozo intenso, mas momentâneo. O agir em desacordo é uma demonstração de imaturidade, mesmo que esta esteja por trás da obstinação, uma vez que um Ser devidamente amadurecido não se presta a cenas de caprichos e teimosia. Assim, a presente análise pretende dividir a Humanidade em obstinados – Espíritos mais experientes que ainda, mesmo sob alguma corrente religiosa, deixam que os vícios morais os dominem; e em imaturos – os que estão desprovidos do aprendizado e experiência que os primeiros já gozam.

A infelicidade do homem é conseqüência das más escolhas; e se a lei de Deus é a única verdadeira para a felicidade e está na consciência de cada um, logo infere-se que todos foram dotados de uma fórmula para ser felizes. Não uma fórmula mágica, não uma felicidade pueril, mas o mínimo de vontade firme, e uma felicidade na medida desta firmeza, desta perseverança. Logo, a consciência não pode indicar o mau caminho; ou seja, o senso moral desenvolvido dá ao homem todo o poder sobre sua liberdade.

Para comprovar tal tese, citem-se o que os Codificadores registram na questão 921 de O Livro dos Espíritos ...”o homem é o artífice de sua própria infelicidade. Praticando a lei de Deus, ele se poupa dos males e chega a uma felicidade tão grande quanto o comporta sua existência sobre a Terra.”

As encarnações sucessivas são a causa do aprimoramento da inteligência humana em todos os aspectos. Um homem verdadeiramente inteligente jamais negará o perdão àquele que lhe ofendeu ou magoou, aliás, quanto mais inteligente, menor será a sensação de ofensa ou mágoa, e por isso será mais feliz, porque pratica a lei Divina. 

Todos conhecerão e compreenderão cada qual a seu turno, as leis divinas. Os Amigos da Espiritualidade, na questão 619, vem esclarecer que “...os que a compreendem melhor são os homens de bem e aqueles que querem procurá-la.” Querer procurar as leis divinas, embora que fora de si mesmo, tem sido o comportamento de uma maioria, mas que representa grande passo para o encontro desejado. O diferencial está, francamente, no QUERER. De acordo com a questão 797 da mesma obra magnânima, a influência das pessoas de bem é que impulsionam as sociedades a reformularem suas leis, e por extensão, sua conduta. 

Quando os Espíritos dizem ser o egoísmo a maior das chagas humanas, também o vinculam à educação,¹ e na questão 914 eles advertem que depende da educação reformar as instituições que o entretêm e excitam. Kardec vê na educação a cura para o estado calamitoso em que as sociedades se encontram, e a chave para o progresso moral.² Mas a educação de que o mestre francês se refere é“aquela que consiste na arte de formar caracteres”.³ Paulatinamente fica à descoberto o quanto a formação de caracteres promove sociedades mais perfeitas, povos mais felizes.  

Nas últimas décadas as sociedades elegeram o consumismo como estilo de vida, ao aceitar e seguidamente manter as instituições que se aproveitam dos vícios humanos para enriquecerem. Personalidades viram sandálias que não duram mais do que duas estações; ou promovem a venda de produtos, seja de uso pessoal seja de uso doméstico, que nem sempre correspondem às expectativas dos ávidos consumidores. Quase todos podem comprar quase tudo hoje em dia, devido às facilidades oferecidas pelas empresas, inclusive as empresas financeiras. De repente as pessoas não param para pensar se sabem o que compram e por que compram. Este retrato das sociedades atuais, principalmente das deslumbradas do terceiro mundo, mostra que as instituições não tem se preocupado com outras questões, senão, as econômicas. Há algumas que ousam fazer apologias à preservação da vida; mas são as mesmas que se utilizam de personalidades em evidência, e muito comumente de mulheres seminuas, para venderem suas marcas de alcoólicos. Seria um acinte à inteligência humana, ou será que não temos homens inteligentes o bastante para perceberem a armadilha cruel à qual se expõem e auxiliam a conservar?

Somente recentemente as escolas se viram coibidas de vender alimentos menos agressivos à saúde das crianças e jovens. Até essas por longo tempo  aderiram ao desenfreado comércio de balas, refrigerantes, frituras, e todo o tipo de empacotado: batatas, chips para todos os gostos, etc que, apesar de conter conservantes, excesso de cloreto de sódio, são relativamente caros, conseguem atrair a preferência da criançada. Parece banal, mas o fato mereceu a atenção das autoridades que terminaram por proibir o comércio destes “alimentos” nas escolas. 
São poucos os que resistem a esta força que arrasta a tantas extravagâncias; mesmo sabendo-se da transitoriedade do momento, a Humanidade tem optado por manter a pose, enquanto intimamente sabe o preço que terá que pagar. 

O consolo é que tudo está submetido à lei de progresso. A função de tudo é progredir em todas as nuances, e muito embora o orgulho ache que não, existe outra força verdadeiramente capaz de conduzir o homem a outros páramos.

De acordo com a questão 625 de O Livro dos Espíritos, nosso guia e modelo é mesmo o Mestre Jesus. A maioria dos que se dizem cristãos, ainda não sabe disso, nem mesmo os Espíritas que têm acesso a esta informação assim de forma tão escancarada. Porque as sociedades elegeram outros modelos: é a estrela da música, ou do cinema, ou das passarelas, ou das revistas... Sempre os mais bem sucedidos materialmente. O carpinteiro de Nazaré ainda não é muito atraente para grande parte dos homens.

Mas já é percebida a necessidade de algo mais incisivo para conter o rumo que as coisas têm tomado. Os homens estão insatisfeitos, infelizes, mas descobriram que o Evangelho pode diminuir as forças mais abrasivas; timidamente a idéia parece convencer, embora ainda não prevaleça. A adesão à moral cristã, capaz de elevar os sentimentos de qualquer que dela se aproxime, faz-se urgente, pois é insustentável continuar num mundo onde todas as instituições estão falidas: a polícia não é confiável; o sistema carcerário é um terror; saúde e educação tratadas com indiferença. 
Mas é a partir das experiências adquiridas que um Espírito obtém a capacidade de traçar o próprio caminho. Sem esta experiência, ele nada sabe, não possui uma bagagem. Sob esta ótica fica fácil compreender a razão de tantos bons conselhos não serem ouvidos – ninguém aprende com a experiência do outro. Portanto, as reflexões são para obstinados e imaturos propriamente ditos, porém as exigências serão mais para os primeiros do que para os segundos, evidentemente.

Pode-se, inclusive, pensar que o grupo dos obstinados conte com maior número de adeptos das várias religiões, especialmente das espiritualistas. Esta reflexão é devido ao resultado que a própria experiência tem demonstrado: muitos companheiros da lide Espírita se confessam, seja por palavras, seja por atitudes, portadores de dificuldades que bem seriam julgadas já por vencidas, dado o tempo de estudos. É evidente que é muito mais fácil a correção dos defeitos materiais do que morais, embora nem todos encontrem a mesma facilidade, mas há que se ponderar sobre alguns pontos. Primeiro: aos portadores de vícios deve ser dado todo o apoio moral, para que se sintam fortes a fim de que também recorram ao auxílio psicológico e tratamentos convencionais. Segundo: não se deve exigir dos outros uma conduta inatacável, por motivos óbvios. E pensar que em muitos casos, o colega que ainda bebe ou fuma, mesmo que socialmente, pode já ter vencido vícios morais, como a maledicência, ou a inveja, por exemplo, vícios que muitos abstêmios ainda cultivam. Terceiro: não ser hipócrita, principalmente com relação aos próprios defeitos e dificuldades para vencê-los. E é exatamente neste ponto que se encontra a maior de todas as dificuldades humanas. Jesus repudia a hipocrisia em várias passagens evangélicas. A recomendação citada na questão 919 de O Livro dos Espíritos –conhece-te a ti mesmo – imprime mais profunda reflexão a respeito, quando cada qual se permite tal ensejo. Entender aquelas palavras dos amigos Espirituais é o mesmo que reconhecer a senectude da raça humana, pois eles dizem: “Um sábio da antiguidade vos disse”. 

A mensagem do Cristo deve atravessar as fronteiras dos livros e dos lábios. Sua magnânima essência não deve permanecer nos romances nem nas ilusões, porque todos precisam da sua vivacidade, da sua realidade tornada presente e ativa. As orientações de Jesus estão todas fundamentadas na Ética, ciência estudada desde muitos séculos antes e que fez muitos adeptos sinceros, leva muitos homens a pensarem sobre seus atos e corrige muitas condutas equivocadas. A educação que Kardec pontuou como primordial para liquidar com os problemas humanos vige em todas as concepções que o termo é capaz de abranger. 

As mensagens evangélicas trazidas para o palco da vida convencerão que é através da simplicidade que o Ser se torna honrado; é cumprindo a vontade do Pai que a criatura se eleva, porque disso se alimenta: “Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou”.(João 4, 34) E tudo isto se faz no dia a dia, na convivência com os semelhantes. Faz-se urgente tornar o Cristo uma personagem tão conhecida quanto um jogador de futebol, tão querido quanto um astro de Hollywood e tão plagiado quanto um modelo das passarelas. É preciso exemplificar, na medida da condição de cada um, o amor puro que Ele ensinou. É necessário que os Espíritas aprendam a rever conceitos, a mudar de opinião sobre si mesmos. Atitudes cristãs são lições que influenciam em algum grau, o mundo em redor. 

A Terra, conforme dissertam os Codificadores, em O Evangelho segundo o Espiritismo, é uma escola, é uma prisão, é um hospital4. Com um pouco de reflexão, ver-se-á que nos três ambientes é possível promover a reeducação de hábitos, ou mesmo a educação primária, básica de vários aspectos da personalidade humana. O planeta se encontra como uma dona de casa que faz uma faxina para aguardar por uma comitiva que breve se aportará. O período é angustiante, a espera fastidiosa, mas o trabalho, embora pouco apreciável, não pode parar: ela segue dia a dia fiel na sua incumbência. 
Agora é momento de Jesus ficar em evidência por meio das atitudes dos seus seguidores.

¹ Questão 913 – O Livro dos Espíritos
² ------------- 917 – ------------------
³ --------- 685 - ----------------------
4- O Evangelho segundo o Espiritismo – Capítulo III – item 7.

Educação e felicidade


Educação e felicidade


Por Maria Ribeiro

Muitos poderão questionar qual a relação entre a educação e a felicidade, já que cada um desses conceitos tem sua definição própria, não havendo nenhum vínculo, aparentemente nem mesmo indireto, entre ambos. Para realizar a associação entre educação e felicidade, é preciso conhecer antes de tudo, tais definições, segundo o que considera o dicionário*. Portanto, educação é a ação de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais; conhecimento e práticas dos hábitos sociais; boas maneiras. E felicidade é o estado de quem é feliz; ventura; bem aventurança; bem estar; contentamento.

O mundo oferece muitas formas de se adquirir tanto uma como outra, bem como formas, ainda que sutis, para que ambas interajam através das ações humanas. 

A experiência faz demonstrações inequívocas do quanto a educação é necessária para a conquista da felicidade, e mesmo a educação representa aquisição individual tanto quanto a própria felicidade. Melhor dizendo: educação é conquista e felicidade lhe é conseqüente, nem conquista, nem privilégio.

Sob esta concepção, entende-se porque a reencarnação configura lei divina indispensável à evolução humano-espiritual. Sem arregimentação de valores cristãos, jamais se experimentará a felicidade em sua versão legítima. Já antes do Cristo, a Filosofia tentava conduzir o homem para uma reflexão profunda, para pensamentos mais maduros sobre a vida, sobre a morte, sobre um Ser superior, culminando numa visão introspectiva. O homem voltando o olhar para o próprio interior, passa a compreender melhor o que se passa a sua volta, qual a sua destinação, o porquê dos dissabores, das desgraças, qual o seu papel diante de tudo isto. Compreende sua inferioridade e a necessidade de educar-se, visto que a real felicidade é incompatível com sentimentos de egoísmo e todos os que deste se originam.  

Num mundo como a Terra, onde o crime em todas as suas nuanças grassa sem trégua, pode haver um único indivíduo realmente feliz? Pode-se dizer que apenas os homens nos quais habitam Espíritos mais adiantados gozam de tal sentimento. Estes se encontram num estágio mais avançado de educação espiritual através das experiências reencarnatórias que bem souberam aproveitar. Mas nestes não se vê o riso escancarado, nem a alegria ruidosa, nem sinal de excitação, porque estes caracteres são da felicidade egoísta, insana, irrefletida ou inconsciente. Ao contrário, trazem a serenidade no olhar, a doçura na discrição do sorriso que é sempre verdadeiro, os gestos e as palavras invariavelmente mencionam o auxílio, a cortesia ou a gratidão. 

Mas não foi sempre assim. Educação é um processo. Processo é uma coisa que não acontece de repente, mas paulatina e metodologicamente. 

De acordo com necessidades específicas, reencarna-se com esta ou aquela característica física, nesta ou naquela família ou classe social, bem como a localidade e outros fatores são determinados para que facilitem a jornada do reencarnante. Mas este facilitar longe está de significar moleza e regalias. Educação espiritual é a educação do Espírito, que ora se acha em estado de imaturidade. Repetindo Paulo: quando eu era menino, falava como menino, discorria como menino, mas logo que cheguei a ser homem, deixei as coisas de menino. É a imaturidade espiritual que impele o homem a práticas odiosas, más, ou, recorra-se a um eufemismo – a práticas infantis. É por desconhecer o bem que o homem faz o mal; é por ignorar a Verdade que o homem vive no erro; é por desconhecer a luz que espalha as trevas. Mas o mal, o erro e as trevas não são a sua essência, mas o homem ainda não descobriu isso. Quando “chegar a ser homem”, ou seja, quando crescer espiritualmente através da educação, que nada mais é do que reencarnações bem aproveitadas, deixará de praticar tais infantilidades, que hoje ainda são julgadas como barbaridades, perversidades, crueldades...

Muitos irmãos entre nós experimentam tal estágio evolutivo, tirando o sossego de toda uma sociedade que assiste atônita, cenas horríveis todos os dias. Há os que querem perseverar no mal, que se utilizam da inteligência adquirida para corromper e enganar; mas há os que possivelmente se encontram num estágio moral-intelectual muito atrasado, têm poucas experiências em sociedades civilizadas. (OLE** – 102) As leis penalizam, ainda que absurdamente, ao invés de empreender para estes companheiros fórmulas educacionais, neste caso, aliás, fórmulas de reeducação. Fala-se em pena de morte no Brasil, mas já temos uma pena de morte, ainda que velada, em casos específicos, o que mostra a hipocrisia da nossa sociedade, das nossas autoridades policiais. O cidadão comum em estado de euforia deseja o linchamento do infrator; em casos que ganham notoriedade o tema volta à baila como solução para o problema. É assim que a sociedade civilizada auxilia estes irmãos que ignoram o bem, reforçando neles o sentimento de agressividade, de vingança, de mais violência. A solução para o problema talvez esteja na percepção de que ainda não foram vencidos os sentimentos menos dignos, animalizantes e degradantes mesmo entre os civilizados, cujos sentimentos se encontram em processo de aprimoramento.

Um Ser devidamente educado para a Vida em tempo algum desejará o mal, mesmo para aquele que for julgado como o pior dos criminosos. Tem-se esquecido que estes também têm mães que choram por seus destinos malogrados; tem-se hostilizado a idéia de que estes compartilham da mesma paternidade Divina. 

Testemunha-se, principalmente em épocas de festejos, uma felicidade tresloucada e quase primitiva, descompromissada, evidentemente da situação do semelhante: cada um que procure um jeito de ser feliz. Assim, fica esquecido que é impossível encontrar a felicidade sozinho, porque esta é um tesouro que pertence a todos; ser feliz sozinho é impraticável, em se tratando da legítima felicidade cristã. E somente o homem espiritualmente educado será capaz de descobrir a importância do próximo em sua vida, e passará a valorizar a vida e a natureza que o cerca, sentindo em tudo uma sensação indelével de felicidade.

* Dicionário Aurélio
** OLE – O Livro dos Espíritos

A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces.
-- Aristóteles

A Felicidade Não É Deste Mundo - ESE



FRANÇOIS-NICOLAS-MADELAINE
Cardeal Morlot, Paris, 1863


            20 – Não sou feliz! A felicidade não foi feita para mim! Exclama geralmente o homem, em toda as posições sociais. Isto prova, meus caros filhos, melhor que todos os raciocínios possíveis, a verdade desta máxima do Eclesiastes: “A felicidade não é deste mundo”. Com efeito, nem a fortuna, nem o poder, nem mesmo a juventude em flor, são condições essenciais da felicidade. Digo mais: nem mesmo a reunião dessas três condições, tão cobiçadas, pois que ouvimos constantemente, no seio das classes privilegiadas, pessoas de todas as idades lamentarem amargamente a sua condição de existência.

            Diante disso, é inconcebível que as classes trabalhadoras invejem com tanta cobiça a posição dos favorecidos da fortuna. Neste mundo, seja quem for, cada qual tem a sua parte de trabalho e de miséria, seu quinhão de sofrimento e desengano. Pelo que é fácil chegar-se à conclusão de que a Terra é um lugar de provas e de expiações.

            Assim, pois, os que pregam que a Terra é a única morada do homem, e que somente nela, e numa única existência, lhe é permitido alcançar o mais elevado grau de felicidade que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam aqueles que os ouvem. Basta lembrar que está demonstrado, por uma experiência multissecular, que este globo só excepcionalmente reúne as condições necessárias à felicidade completa do indivíduo.

            Num sentido geral, pode afirmar-se que a felicidade é uma utopia, a cuja perseguição se lançam as gerações, sucessivamente, sem jamais a alcançarem. Porque, se o homem sábio é uma raridade neste mundo, o homem realmente feliz não se encontra com maior facilidade.

            Aquilo em que consiste a felicidade terrena é de tal maneira efêmera para quem não se guiar pela sabedoria, que por um ano, um mês, uma semana de completa satisfação, todo o resto da existência se passa numa seqüência de amarguras e decepções. E notai, meus caros filhos que estou falando dos felizes da Terra, desses que são invejados pelas massas populares.

            Conseqüentemente, se a morada terrena se destina a provas e expiações, é forçoso admitir que existem, além, moradas mais favorecidas, em que o Espírito do homem, ainda prisioneiro de um corpo material, desfruta em sua plenitude as alegrias inerentes à vida humana. Foi por isso que Deus semeou, no vosso turbilhão, esses belos planetas superiores para os quais os vossos esforços e as vossas tendências vos farão um dia gravitar, quando estiverdes suficientemente purificados e aperfeiçoados.

            Não obstante, não se deduza das minhas palavras que a Terra esteja sempre destinada a servir de penitenciária. Não, por certo! Porque, do progresso realizado podeis facilmente deduzir o que será o progresso futuro, e das melhoras sociais já conquistadas, as novas e mais fecundas melhoras que virão. Essa é a tarefa imensa que deve ser realizada pela nova doutrina que os Espíritos vos revelaram.

            Assim, pois, meus queridos filhos, que uma santa emulação vos anime, e que cada um dentre vós se despoje energicamente do homem velho. Entregai vos inteiramente à vulgarização desse Espiritismo, que já deu início à vossa própria regeneração. É um dever fazer vossos irmãos participarem dos raios dessa luz sagrada. À obra, portanto, meus caros filhos! Que nesta reunião solene, todos os vossos corações se voltem para esse alvo grandioso, de preparar para as futuras gerações um mundo em que felicidade não seja mais uma palavra vã.

Patrimônio Inútil


Livro: Luzes no Caminho
Richard Simonetti


    Conta Esopo (século VI a.C.), que um homem extremamente zeloso de seus haveres, decidido a resguardar-se de qualquer prejuízo, tomou radical providência:

    Vendeu todos os seus haveres e comprou vários quilos de ouro que fundiu numa única barra.

    Em seguida, enterrou-a em mata cerrada.

    À noite, solitário e esquivo, contemplava, em êxtase, seu tesouro.

    Algo de tio Patinhas, o milionário sovina das histórias em quadrinhos, que se deleita mergulhando num tanque cheio de moedas.

    Um dia foi seguido por amigo do alheio.

    Quando se afastou, após a adoração rotineira, o gatuno desenterrou o ouro e escafedeu-se.

    O avarento quase enlouqueceu, tamanho o seu desespero.

    Um vizinho, ao saber do fato, ponderou:

    – Não sei por que está tão transtornado! Afinal, se no lugar do ouro estivesse uma pedra seria a mesma coisa. Aquela riqueza não tinha nenhuma serventia para você…

    ***

    Difícil encontrar na atualidade pessoas dispostas a enterrar seus haveres.

    Raras os têm sobrando.

    Além disso, seria correr risco inútil.

    As instituições financeiras guardam com segurança nosso dinheiro. Até produzem rendimentos, sem surpresas desagradáveis, salvo quando têm o mau gosto de quebrar, por incompetência ou corrupção.

    Não obstante, muita gente costuma enterrar um bem muito mais precioso, uma riqueza inestimável – a existência.

    Se nos dermos ao trabalho de analisar a jornada terrestre, com suas abençoadas possibilidades de edificação, perceberemos como é valiosa.

    Traz-nos inúmeros benefícios:

        * O esquecimento do passado ajuda-nos a superar paixões e fixações que precipitaram nossos fracassos.
        * A convivência com desafetos transmutados em familiares favorece retificações e reconciliações indispensáveis.
        * O contato com companheiros do pretérito, nas experiências do lar e na atividade social, estreita os laços de afetividade.
        * A armadura de carne inibe as percepções espirituais, minimizando a influência de adversários desencarnados.
        * As necessidades do corpo induzem à bênção do trabalho.
        * O esforço pela subsistência desenvolve a inteligência.
        * As limitações físicas refreiam os impulsos inferiores.
        * As enfermidades depuram a alma.
        * As lutas fortalecem a vontade.
        * A morte impõe oportuno balanço existencial, sinalizando onde estamos, na jornada evolutiva.

    ***

    No entanto, à semelhança do unha-de-fome de Esopo, muita gente troca o tesouro das oportunidades de edificação por uma barra luzente de efêmeras realizações, cuidando apenas de seus interesses, de seus negócios, de suas ambições…

    Quando tudo corre bem, há os que se deslumbram com essa “riqueza”, como aquele lavrador da passagem evangélica:

    Construiu grandes celeiros, guardou neles toda a sua produção e proclamou para si mesmo (Lucas, 12:18-20):

    – Tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te…

    Mas Deus lhe disse:

    – Insensato, esta noite pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

    Exatamente assim acontece com aquele que se apega às ilusões humanas, buscando realizações de brilho efêmero.

    Um dia vem o indefectível ladrão – a morte –, e lhe rouba o corpo.

    Indigente na vida espiritual, desespera-se.

    Chora, inconformado.

    Recusa-se a aceitar a nova situação.

    Esopo lhe diria:

    – Por que o lamento? Houvesse você estagiado nas entranhas de uma pedra e o resultado seria quase o mesmo. A experiência humana pouco lhe serviu!

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A Verdadeira Felicidade


Rodrigo nasceu numa favela e é um menino muito pobre. Seu pai trabalha na construção civil, mas passa a maior parte do tempo desempregado, já que a saúde debilitada não lhe permite fazer grandes esforços físicos. O único dinheiro garantido para o sustento da família são os minguados pagamentos que a mãe recebe como diarista. Todas as tardes, após a aula, Rodrigo se reúne com seus amigos para jogar futebol numa quadra de esportes existente na única praça que há próximo à favela. A quadra esportiva se situa na parte nobre do bairro.

Defronte à praça, há uma linda mansão, protegida por muros bem altos, cercada por frondosas palmeiras e com um belíssimo jardim. Todas as vezes que Rodrigo olha para aquela casa, suspira fundo e pensa: “Se morasse naquela mansão, eu seria muito feliz!” Tiago nasceu em berço de ouro. Seu pai é um empresário muito bem sucedido e sua mãe trabalha na televisão, apresentando um famoso programa de entretenimentos. Ele mora naquela linda e confortável mansão, defronte à quadra de esportes. Vive cercado de mimos, carinhos e cuidados.

Todas as tardes, Tiago, que é paraplégico de nascimento, fica assistindo à algazarra que os meninos da favela fazem na praça, principalmente Rodrigo, que chega com a bola debaixo do braço. Sempre liderando o grupo, distribui as equipes e, depois, driblando os adversários com extrema facilidade, marca muitos gols que são comemorados com magníficas piruetas. Olhando para a quadra de esportes, Tiago suspira fundo e pensa: “Se tivesse aquela saúde, eu seria muito feliz!

***

A impressão de que a felicidade está sempre fugindo de nós, ocorre devido ao esquecimento das provas que nos foram impostas, ou que escolhemos, para a reparação de faltas cometidas em outras existências. Sendo a Terra um planeta de expiações, é natural que não encontremos aqui a felicidade suprema, mas alguns momentos de alegria que se alternarão com outros de tristezas e decepções.
Ocorre que muitas pessoas insistem em se ver como ser material, ignorando ou fingindo ignorar que o objetivo final das experiências encarnatórias é a evolução espiritual, razão de nossas passagens por este planeta.

É necessário não nos esquecermos de que somos as mesmas pessoas que aqui estiveram no passado, em diversos estágios evolutivos e que, embora tenhamos galgado alguns degraus nesta escalada, há ainda um longo caminho a ser percorrido.
Antigos crimes precisam ser resgatados; faltas cometidas pedem reparações; vícios precisam ser expurgados, maus sentimentos devem ser suplantados…

O Espiritismo veio lançar uma luz determinante sobre a questão da felicidade e dos sofrimentos terrenos. Está claro que, mais felizes, ou menos infelizes, são as pessoas que sabem se conduzir melhor na vida ou que escolheram provas menos duras para a encarnação presente. Não quer dizer que todas sejam menos devedoras, mas podem ter solicitado uma experiência menos dolorosa, adiando para futuras oportunidades a reparação das faltas mais graves.
Os menos felizes, ou mais infelizes, são os que escolheram, ou aos quais foi imputada uma encarnação de expiação e reparação de crimes mais pesados.

O que ocorre é que, beneficiado pela lei do esquecimento, que tem por objetivo, dentre outras coisas, livrar o Espírito encarnado do constrangimento de saber-se faltoso em experiências anteriores, o homem se revolta. O que provoca essa revolta é a equivocada crença na unicidade da encarnação. Ora, se nós estivéssemos no corpo pela primeira e última vez, seria natural que não nos conformássemos com o sofrimento que nos é imposto, pois nada teríamos a expiar e reparar. Mas, nesse caso, onde estariam a justiça e o infinito amor divinos? Por que teríamos sortes tão diferenciadas, se fomos todos criados pelo mesmo Deus e se somos igualmente amados por Ele?

A explicação do sofrimento presente encontra-se na lei de causa e efeito, a qual determina que todo mal praticado exige uma expiação e uma reparação. Sofremos hoje, porque provocamos sofrimentos no passado e precisamos expiar e reparar as faltas cometidas. Não estamos simplesmente sendo punidos; estamos nos purificando; estamos nos elevando moralmente; estamos tentando “pagar até o último ceitil de nossa dívida”, (S. Mateus, cap. V, vv. 25 e 26.).

O objetivo final de todo Espírito é a perfeição absoluta e se essa perfeição exige um estado de pureza a toda prova, é natural, portanto, que haja a penitência pelo sofrimento, pois somente através dele é que o Espírito se depura e encontra a felicidade plena que, definitivamente, não pertence a este mundo.