Estudando o Espiritismo

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011



CAPÍTULO X
OS DOZE E SUA MISSÃO


OS DOZE E SUA MISSÃO

1 - Então convocando os seus doze discípulos, deu-lhes Jesus poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem e para curarem todas as doenças e todas as enfermidades.

2 - Ora os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, que se chama Pedro e André, seu irmão.

3 - Tiago, filho de Zebedeu e João, seu irmão, Filipe e Bartolomeu, Tomé e Mateus, o publicano, Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu.

4 - Simão Cananeu e Judas Iscariotes, que foi o que o entregou.

Durante algum tempo, os discípulos se dedicam ao aprendizado junto ao Mestre. Espíritos de alto progresso espiritual, fácil lhes foi assimilar as lições que Jesus lhes ministrava diariamente, não só pelas palavras, como também pelo exemplo. Fortificados pela fé que Jesus lhes acendera nos corações, estavam preparados para continuar a obra evangélica, que Jesus lhes confiaria. São sábias e comovedoras as regras, segundo as quais os discípulos pautariam sua conduta no mundo. Há vinte séculos que os discípulos de boa vontade estudam este código de renúncia; os que não se afastaram dele, triunfaram. Palmilhando os ásperos caminhos da terra, quando a taça de amarguras parecia transbordar, lembravam-se das ternas exortações e dos conselhos do Mestre e adquiriam novo alento para perseverarem até o fim. Estas instruções são para todos os tempos e para todos os discípulos de boa vontade. Os médiuns, especialmente, devem meditá-las, estudá-las e assimilá-las muito bem, antes de iniciarem seu medianato. De acordo com os últimos ensinamentos do Espiritismo, estudemos o código do discípulo fiel.

5 - A estes doze enviou Jesus, dando-lhes estas instruções, dizendo: Não ireis caminho de gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos.

6 - Mas ide antes às ovelhas que pereceram da casa de Israel.

Jesus ordena a seus discípulos que se dirijam antes aos que já estavam em condições de entender os novos ensinamentos. Os israelitas eram, naturalmente, os indicados para primeiro receberem o Evangelho, dado o longo preparo espiritual a que a lei de Moisés os tinha submetido, Dirigindo-se a eles, os discípulos encontrariam um terreno propício à semeadura. Ao passo que se procurassem em primeiro lugar os outros povos, as dificuldades para a difusão do Evangelho seriam maiores, pois, ainda não estavam à altura de suas lições. Com o tempo, todos os povos se preparariam convenientemente e, então, surgiriam novos trabalhadores, que lhes levariam as claridades do Evangelho.

Na difusão do Espiritismo, o discípulo inteligente deve seguir a mesma diretriz: primeiro os que estão em estado de o compreenderem; os outros virão depois.

7 - E pondo-vos a caminho, pregai que está próximo o reino dos céus.

O reino dos céus está dentro de nossos corações. É inútil ir procurá-lo mais longe. Caracteriza-se pela bondade, pelo amor fraterno entre todos, pelo acolhimento, amparo e proteção aos que sofrem. O coração, livre de ódios, de remorsos, de cobiça, de ambições descabidas, da concupiscência; e capaz de amar a todos os homens, sem distinção de cor, de classe social, de raças, de credos políticos ou religiosos, um coração assim traz dentro de si o reino dos céus. Portanto, o reine dos céus está ao nosso alcance. A consciência tranqüila e o coração puro causam uma felicidade tal aos que os possuem, que, já na terra, gozam as alegrias espirituais que os aguardam nos planos da espiritualidade. Não deixemos para amanhã o início de adquirirmos essa graça. Comecemos desde agora a trabalhar por merecê-la, combatendo nossas imperfeições, abandonando nossos vícios, abrandando nosso caráter e esforçando-nos por nos amarmos uns aos outros. E depois de termos realizado o reino dos céus dentro de nós, fácil será concretizar na face de nosso planeta. Jesus alude ao começo dos trabalho de regeneração da humanidade pela observância das leis divinas, quando manda a seus discípulos que preguem estar próximo o reino dos céus.

8 - Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; dai de graça o que de graça recebestes.

Conquanto Jesus e seus discípulos e, modernamente o Espiritismo, tenham operado curas materiais, é mais no sentido moral que devemos entender esta ordem de Jesus. Porque o Evangelho é a lição divina que ensina a humanidade a se curar de suas imperfeições morais.

Curai os enfermos, isto é, ensinai os homens a evitarem o mal, para que não sofram suas dolorosas conseqüências.

Ressuscitai os mortos, isto é, ensinai que a morte não existe e que do outro lado do túmulo o espírito continua com sua vida eterna.

Limpai os leprosos, isto é, ensinai os pecadores a se regenerarem e esclarecei os ignorantes sobre as coisas divinas.

Expeli os demônios, isto é, encaminhai os espíritos obsessores concitando-os ao perdão e à prática do bem.

E nunca aceiteis a paga do bem que espalhastes, uma vez que o Pai, que está nos céus, não põe preço em sua misericórdia.

9 - Não possuais ouro nem prata, nem tragais dinheiro nas vossas cintas;

10 - Nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem calçado, nem bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento.

Acima de tudo, o discípulo fiel deve confiar na Providência Divina. O Senhor da seara não deixará os seus obreiros sem o necessário para sua manutenção. Se os patrões humanos não deixam seus operários sem a paga do trabalho que executam, quanto mais o Patrão Divino não cuidará de seus servos?

Além disso, o discípulo do Evangelho ensina os povos a se libertarem da matéria. Daria um péssimo exemplo, o discípulo que se afadigasse pela posse transitória dos bens terrenos; porque demonstraria confiar mais na matéria do que na Providência Divina. A evangelização das criaturas deve ser a principal preocupação do discípulo sincero.

11 - E em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno; e ficai aí até que vos retireis.

12 - E ao entrardes na casa saudai-a, dizendo: Paz seja nesta casa.

13 - E se aquela casa na realidade o merecer, virá sobre ela a vossa paz; e se o não a merecer, tornará para vós a vossa paz.

Os discípulos tinham de ir de aldeia em aldeia e de cidade em cidade pregando o Evangelho. Naqueles tempos não havia a imprensa, nem o rádio nem os modernos meios de propaganda; somente dispunham da palavra oral para tornarem conhecido o Evangelho. Pobres como eram, não podiam pagar pousadas; forçoso lhes era, por conseguinte, procurarem almas caritativas que os hospedassem gratuitamente. Não só era uma oportunidade para essas almas exercerem a caridade para com os viajores sem recursos, como também era um testemunho que os discípulos davam de sua fé em Deus.

Em nossos dias, o Espiritismo é o novo apóstolo que Jesus envia a todas as cidades e a todos os lares para ensinar os preceitos evangélicos. O Espiritismo saúda com a sagrada saudação a casa onde penetra. E a casa passa a gozar a paz, o ambiente doméstico fica livre de espíritos inferiores que o perturbavam, os quais são encaminhados para as escolas de aprendizado e de regeneração no mundo espiritual. Os membros da família extinguem as querelas e doce fraternidade preside as relações familiares. Todavia, para isso é necessário que a casa mereça realmente a paz, o que será conseguido pela observância dos preceitos de Jesus.

Cumpre notar que quando um médium vai ministrar um passe a um doente, prestando assim a caridade espiritual, o doente pode ou não merecer a graça de ser beneficiado. Porque há doentes que só se lembram de implorar o auxílio divino e prometem regenerar-se quando premidos pelo sofrimento. Logo que se livram dos males que os atormentavam, esquecem-se das promessas feitas a Deus e não mais se interessam pelas coisas espirituais. Nesse caso a graça será toda do médium, que será recompensado espiritualmente pelo serviço prestado.

14 - Sucedendo não vos querer alguém em casa, nem ouvir o que dizeis, ao sair para fora da casa, ou da cidade, sacudi o pó dos vossos pés.

Os preceitos de Jesus visam eliminar do seio da grande família humana, todos os motivos que separam os seus membros. O Evangelho, portanto, não poderá ser imposto pela força, mas pelo Amor. Jesus não ordena que seus discípulos forcem a consciência daqueles que os querem ouvir; mas que se afastem deles, sem discutirem.

Mandando que seus discípulos sacudissem o pó dos sapatos ao deixarem os que os repelissem, é como se lhes dissesse: "Mostrai aos vossos irmãos que vos enxotarem ou vos contradizerem que nenhuma das idéias deles conseguiu abalar a vossa fé; e que deles não guardais o menor ressentimento."

Na difusão do Espiritismo, inúmeras vezes terão os discípulos sinceros de sacudirem o pó das sandálias; porque nem todos os encarnados estão em condições de compreendê-los.

15 - Em verdade vos afirmo isto: Menor rigor experimentará no dia do juízo a terra de Sodoma e de Gomorra, do que aquela cidade.

Aqui Jesus nos demonstra que toda aquisição de conhecimentos acarreta aumento de responsabilidade. E cada um experimentará o rigor da Justiça Divina de acôrdo com o grau de conhecimentos que tiver adquirido. Assim sendo, ninguém carregará um fardo mais pesado do que suas forças o permitirem. Todos aqueles que são chamados a participar das alegrias do Evangelho, construindo seus destinos à luz dos ensinamentos de Jesus, é porque já estão em situação de poderem atender ao convite que lhes é feito. Todavia, há os que não atendem ao chamado, furtando-se ao trabalho divino. Se analisarmos muito bem a situação desses irmãos, notaremos que assim agem por não quererem contrariar o comodismo em que vivem, protelando, dessa maneira, o seu progresso espiritual e acumulando sofrimentos para o futuro.

Outra importante advertência que podemos tirar desse versículo, é no que se refere aos que pregam o Evangelho e não o exemplificam. Quem ensina o Evangelho e não vive de conformidade com o que ensina, na verdade experimentará o rigor que Sodoma e Gomorra não experimentaram.

16 - Vede que eu vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede logo prudentes como as serpentes e simplices como as pombas.

Deus ama os humildes e abate os orgulhosos. Por isso é que Jesus nos recomenda que sejamos simples como as pombas. Na simplicidade das pombas, Jesus simboliza a humildade de que devemos nos revestir no desempenho do labor de nosso aperfeiçoamento espiritual; porque aos humildes nunca faltará o auxílio do AltÍssimo. E nossa humildade será provada diante dos reveses da vida, quando sofremos as provas e as expiações reservadas para o progresso e purificação de nosso espírito. Entretanto, Jesus quer também que tenhamos a prudência das serpentes. Com isso ele nos adverte que exerçamos contínua e enérgica vigilância sobre nós próprios, a fim de que as tentações do mundo, quais lobos vorazes, não inutilizem nossa encarnação.

No que se refere ao trabalho espiritual, essa advertência de Jesus é profunda. É fora de dúvida que o trabalhador do Evangelho viverá continuamente assediado pelas forças das trevas, as quais tentarão freqüentemente desviá-lo da tarefa. Os médiuns, sobretudo, e os pregadores da palavra divina, terão de lutar não só contra os encarnados, mas também contra os espíritos desencarnados que, ou por ignorância ou movidos por sentimentos inferiores, tudo farão para anular-lhes os esforços. E como os trabalhadores do Evangelho somente pooderão revidar com as armas do bem, do amor, do pacifismo, da tolerância e da piedade, jamais recorrendo à violência, deverão ser quais ovelhas, cheias de prudência, convivendo no meio de lobos.

17 - Mas guardai-vos dos homens; porque ele vos farão comparecer nos seus juízos e vos farão açoitar nas suas sinagogas;

18 - E vós sereis levados por meu respeito à presença dos governadores e dos reis, para lhes servirdes a eles e aos gentios de testemunho.

Pregando uma doutrina de paz e de igualdade; de amor de fraternidade e de perdão, entre homens que cultuavam a guerra, o ódio, a vingança e os rígidos preconceitos sociais; os discípulos levantariam contra si a perseguição de todos os espíritos que se compraziam na ignorância ou que usufruíam proveitos dela. A História nos conta que as predições de Jesus se realizaram. Ainda hoje as perseguições não cessaram. Onde quer que se erga uma voz concitando os homens à prática do Evangelho em toda sua pureza e simplicidade é certo aí acorrerem muitos para abafá-la. É o que tem acontecido com o Espiritismo. Essa Doutrina, que é o Consolador prometido pelo Mestre, suscitou desde o seu aparecimento todas as perseguições morais possíveis. Desde as religiões organizadas até a ciência, todos se bateram contra ela, culminando no martírio dos médiuns, submetidos a desalmadas experiências de laboratório. Todavia, se cai um discípulo, levanta-se outro; e os trabalhadores da grande causa prosseguem dando o testemunho.

19 - E quando vos levarem, não cuideis como ou o que haveis de falar; porque naquela hora vos será inspirado o que haveis de dizer:

20 - Porque não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é o que fala em vós.

Os pregadores do Evangelho eram médiuns e, por isso, no momento de responderem a seus algozes, eram assistidos por espíritos de elevada hierarquia espiritual, que lhes sugeriam as palavras a serem proferidas. Eis porque vemos que os sacrificados nos circos romanos, ante a turba ébria de sangue e de violência, nada respondiam que não glorificasse o Cristianismo nascente; e elevavam ao Alto suas preces e seus cânticos de perdão e de amor. E acabado o espetáculo, os espíritos mártires partiam para o mundo espiritual nos braços de seus amigos. E o povo voltava para suas casas pensativo e indagando de si para si: - Que nova religião será essa cujos adeptos são sinceros até diante da morte?

E todos queriam conhecê-la.

21 - E um irmão entregará à morte a outro irmão e o pai ao filho; e os filhos se levantarão contra os pais e lhes darão a morte.

Nas perseguições e nas lutas religiosas a que o mundo tem assistido, o fanatismo religioso quase sempre armou os braços dos membros de uma mesma família, uns contra os outros. Pelo lado moral, houve profundo choque entre os adeptos do Cristianismo nascente e os dos outros credos, gerando-se assim a guerra de religiões dentro de um mesmo lar.

Em nossos dias reacende-se a luta contra as idéias progressistas do Espiritismo, que trabalha por reconduzir o Cristianismo à sua forma e pureza primitivas e explicar o Evangelho racionalmente. Embora sem o caráter sanguinolento do passado, a batalha que se trava não deixa de ser intensa a fim de que a luz brilhe novamente. É natural, pois, que no entrechocar das idéias novas do progresso com as idéias velhas do passado e do comodismo, muitas vezes pais, filhos e irmãos se coloquem em campos opostos.

Jesus aqui nos adverte acerca das lutas que um espírita travará dentro de seu próprio lar para encaminhar a si e aos seus pelo caminho da Verdade. Deverá, em primeiro lugar, vencer a perseguição que lhe desencadearão os espíritos desencarnados ignorantes, os quais incitarão contra ele seus próprios familiares. Assistimos, então, à crítica impiedosa que tem de suportar e à oposição tenaz que lhe é movida no sentido de afastá-lo do caminho da espiritualidade. Em seguida deverá corrigir seus defeitos, livrar-se dos vícios para que possa adquirir a força moral suficiente para guiar sua família e combater as imperfeições, que cada um de seus familiares apresentar. Manter a força moral para que seja respeitado e se fazer respeitar pela família, é outra luta moral em que se empenhará um espírita que quer seguir à risca os ensinamentos do Evangelho.

Um lar não se domina pela violência. Dominar um lar pela violência é tiranizar a família. Um lar se domina pelo Amor. Mas para que o Amor possa dominar é preciso que seja gerado pelo respeito; e o respeito só será conseguido quando o chefe da família for um alto padrão de moralidade. Então terá a autoridade incontestável para impor à sua família a norma de conduta que o Espiritismo lhe ditar. Fazendo respeitar-se pelo Amor, os pais precisam saber usar da severidade para não deixarem que seus filhos se extraviem. Grande é a responsabilidade dos pais neste assunto. Cada filho extraviado é uma dívida que os pais contraem para com Deus, por não terem sabido desempenhar a missão de bons orientadores das almas que o Senhor lhes confiou. Essa dívida lhes acarretará enormes trabalhos no futuro, além de sofrimentos no mundo espiritual. Quando os filhos ameaçam desviar-se e não querem obedecer pelo Amor, os pais devem empregar em tempo oportuno o corretivo enérgico, embora com mágua no coração para evitarem males maiores. É por isso que Jesus aqui nos fala que sua doutrina causaria divisões na família, trazendo para o seio dela muitas lutas. Ele sabia que os membros mais evoluídos, querendo impulsionar a evolução dos retardatários, entrariam em choque com eles e teriam de trabalhar arduamente para obterem êxito.

22 - E vós por causa do meu nome sereis o ódio de todos; aquele porém que perseverar até o fim, esse é o que será salvo.

Jesus aqui precavém os discípulos contra o orgulho e os preconceitos sociais que separam as criaturas. Como eles pregariam a extinção do orgulho e lutariam contra os preconceitos sociais, ensinando aos homens que todos são irmãos, filhos do mesmo Pai, atrairiam sobre si a cólera de grande número daqueles que não estavam preparados para compreendê-los. Um dos pontos básicos do ensino de Jesus é fazer com que os homens aprendam que todos são irmãos, não importa a que nação ou raça pertençam e como irmãos se devem tratar. É justamente isso que a maioria da humanidade não quer compreender; daí resultaria para os discípulos o ódio de muitos.

Conquanto muito se pregue e já se tenha chegado à conclusão de que a humanidade é uma imensa família, cujos membros são irmãos, o orgulho, gerando os preconceitos sociais, tem prejudicado constantemente o cumprimento desta lei da fraternidade. Mas não é só em relação às coisas terrenas que o orgulho tem feito estragos: sua maléfica ação se estende também às coisas espirituais. Na aquisição dos bens espirituais, o orgulho é o principal tropeço. As vezes, pelo simples fato de não querermos ombrear com nossos irmãos mais modestos e mais pequeninos do que nós, desrespeitamos as leis divinas. A fraternidade é uma das grandes leis morais do código divino. E sempre que o orgulho falar mais alto do que a humildade, sufocaremos o sentimento de fraternidade, que deve presidir ao trato com nosso próximo.

Jesus é a personificação da humildade. E sua doutrina prega a humildade de coração. Na terra ainda predomina o orgulho. E os orgulhosos se revoltam contra os que lhes falam da doutrina de Jesus, porque ela lhes relembra a humildade da qual se afastaram. E por isso o nome do Mestre traria o desprezo para os discípulos. É preciso que não nos esqueçamos de que seremos salvos, isto é, ficaremos livres do ciclo das reencarnações dolorosas, somente se nós nos conservarmos fiéis observadores dos preceitos de Jesus até o fim de nossa vida.

23 - Quando porém vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos afirmo que não acabareis de correr as cidades de Israel, sem que venha o Filho do homem.

Assim como cada espírito, individualmente, obedece à lei do progresso, é natural que também o planeta, em seu conjunto, obedeça à mesma lei. À medida que os espíritos aqui encarnados progredirem, progredirão com eles as instituições humanas, as quais melhorarão não só na parte material, como também na moral, e intelectual. Os principais propulsores desse progresso, principalmente na parte espiritual, são os espíritos desencarnados, que por toda parte inspiram aos encarnados o respeito às leis divinas e por meio de médiuns através dos tempos, indicam à humanidade os rumos espirituais a seguir.

Jesus toma Israel como o símbolo do mundo ao qual vinha ser pregado o Evangelho. E recomenda a seus discípulos que não interrompam o labor evangélico por coisa alguma, nem mesmo por causa das perseguições que sofreriam. Conquanto, materialmente falando, não houvesse possibilidade de os discípulos percorrerem todas as cidades do planeta, nem por isso elas ficariam esquecidas. Uma legião de espíritos desencarnados estava incumbida de levar o Evangelho aos mais afastados recantos do globo, suscitando trabalhadores onde fossem necessários. E modernamente, o Espiritismo, manifestando-se desde os lugarejos às grandes capitais, tornou-se o instrumento para a disseminação dos preceitos evangélicos, preparando assim, o advento do Filho do homem, isto é, do reinado espiritual de Jesus, em todos os corações.

24 - Não é o discípulo mais que seu Mestre, nem o servo mais que seu senhor.

25 - Basta ao discípulo ser como o seu mestre e ao servo, como seu senhor. Se eles chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?

Jesus nos recomenda que o tomemos por modelo em nosso labor evangélico. Calmos, pacíficos, mansos e tolerantes, exemplifiquemos com os atos o que pregarmos com as palavras não violentemos a consciência de ninguém. Não nos percamos no emaranhado das discussões inúteis. Estejamos certos de que se nos foi concedido semearmos algumas sementes, ao Pai Celestial pertence o fazê-las germinar. Quanto aos que nos perseguirem, zombarem e escarnecerem de nossa doutrina perdoemo-las de todo o coração, lembrados de que se assim trataram o Senhor, não saberiam tratar melhor os seus servidores.

26 - Pois não os temais; porque nada há encoberto que se nâo venha a descobrir; nem oculto que se não venha a saber.

27 - O que eu vos digo às escuras, dizei-o às claras: que se vos diz ao ouvido, publicai-o dos telhados.

Os discípulos não devem temer aqueles que não lhes aceitam as lições. A lei da desencarnação os levará para o mundo espiritual e lhes provará serem verdadeiros os ensinamentos, que repudiaram, quando encarnados. É o que sucede atualmente com o Espiritismo; ensina a lei da reencarnação, a imortalidade da alma, prega que não existem tormentos eternos, demonstra o progresso ininterrupto do espírito, estabeleceu a comunicação entre os encarnados e os desencarnados; por fim, explica de modo mais racional os preceitos de Jesus. Apesar de encerrar tanta beleza e simplicidade, ainda encontra perseguições, descrentes e detratores. Não os devemos temer. A desencarnação se encarregará de abrir-lhes os olhos para as verdades eternas. Por isso, publiquemos sempre em voz bem alta e por toda a parte, as lições que recebemos por meio do Espiritismo.

28 - E não temais aos que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes porém ao que pode lançar no inferno tanto a alma como o corpo.

Inferno é o símbolo do sofrimento em que incorremos todas as vezes em que incidimos em faltas. Não há castigos eternos e não há inferno onde os espíritos culpados sofram as conseqüências de suas más ações, por toda a eternidade. Conquanto o sofrimento seja efêmero, é causado ao nosso corpo por todo ato, por mais insignificante que seja, que praticarmos em desacordo com as leis divinas. E é freqüente um espírito sofrer, durante sucessivas reencarnações em corpos carnais, as más conseqüências dos péssimos atos do passado.

A reencarnação é um processo regenerador e aperfeiçoador ao mesmo tempo; enquanto de um lado faz com que corrijamos os erros do passado, de outro lado promove nosso aprimoramento espiritual. Como somos espíritos imortais submetidos a um constante progresso, é através das reencarnações, isto é, das vidas sucessivas que vivemos na terra, e algumas delas bastante dolorosas, é através delas que sairemos da materialidade primitiva e alcançaremos a espiritualidade superior. Tal sucede com a jóia que antes de ostentar todo seu fulgor, tem de suportar inúmeros processos de burilamento até perder toda a ganga que a enfeiava e lhe ocultava o magnífico brilho.

O que devemos temer não são as perseguições que apenas atingem o nosso corpo. Devemos temer o que atinge a alma. O corpo é transitório, a alma é imortal. O que atinge a alma e pode lançá-la no inferno, isto é, em muitos séculos de sofrimentos expiatórios repercutindo nas vidas sucessivas, é a hipocrisia, o orgulho, o ódio, os crimes, os vícios, em resumo, o mal sob qualquer forma de que se revista.

29 - Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse? e nenhum deles não cairá sobre a terra sem a vontade de vosso Pai.

30 - E até os mesmos cabelos da vossa cabeça todos eles estão contados.

31 - Não temais pois, que mais valeis vós que muitos pássaros.

Aqui Jesus nos mostra a soberana vontade de Deus regendo o Universo, até nas menores coisas. E adverte os trabalhadores do Evangelho de que as horas que despenderem no trabalho espiritual nunca lhes farão falta, no que se refere à parte material de suas existências. Se mesmo um passarinho é objeto dos desvelos de Deus, quanto mais nós não o seremos? Por isso aqueles que dedicarem uma fração de tempo ao serviço divino de cooperarem com o Mestre na difusão do Evangelho; e os que destinarem algumas horas por semana ao estudo dos assuntos espirituais e evangélicos, não deverão temer que estes momentos lhes prejudiquem o andamento de suas ocupações materiais.

Há pessoas que não procuram seguir o Espiritismo, e outras que não querem desenvolver sua mediunidade com receio de perderem na parte material. Aquelas horas que deveriam consagrar ao serviço divino e ao estudo do Evangelho para seu aprimoramento moral e espiritual, passam-nas trabalhando para aumentar seus haveres materiais, receosas de que mais tarde, lhes falte o necessário. É um erro pensar assim.

Até mesmo os cabelos de nossas cabeças estão contados é uma figura de que se serve o Mestre para afirmar que na parte material nada há de faltar aos que consagram algumas horas, por poucas que sejam, ao serviço de Deus.

É verdade que devemos ser previdentes; contudo, não devemos exagerar. Para desempenhar nossa vida na terra temos necessidade de duas coisas: dos bens espirituais e; bens materiais; êstes para nosso corpo, e aqueles para nossa alma. E o Senhor proverá às necessidades do trabalhador, uma vez que este demonstre boa vontade na execução seu pequenino labor evangélico. O Senhor não exige que nos sacrifiquemos às coisas divinas; nós, de nossa parte, não nos devemos sacrificar às coisas materiais.

32 - Todo aquele pois que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus.

33 - E o que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.

Confessar Jesus diante dos homens é viver de conformidade com seus ensinamentos. E ter a coragem suficiente de abandonar os preconceitos das religiões dogmáticas, o preconceito das raças e das classes sociais; é ver em cada pessoa um irmão que merece o nosso carinho, respeito e consideração. Enfim, confessar Jesus diante dos homens é submeter-se à lei da fraternidade universal. Os médiuns que sinceramente confessam Jesus diante dos homens, são aqueles que não medem sacrifícios quando se trata de levar sua cooperação mediúnica quer ao leito de um enfermo, quer em auxílio de um obsidiado e a qualquer lugar onde haja dores, aflições e lágrimas. Tais médiuns sabem renunciar aos prazeres do mundo, sempre que estes interfiram no desempenho de seu medianato.

34 - Não julgueis que vim trazer paz à terra; nào vim trazer-lhe paz, mas espada;

35 - Porque vim separar ao homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra.

Uma idéia, por mais nobre que seja, ao aparecer desperta a oposição da maioria. Os hábitos seculares, o comodismo, a indiferença, o interesse, tudo luta contra ela. Semelhante estado de coisas é motivado pelo pequeno adiantamento espiritual, que caracteriza a quase totalidade dos habitantes da terra. Cumpre notar que na terra estão encarnados espíritos em diversos graus de evolução; alguns já alcançaram um grau de adiantamento superior e aceitam facilmente as idéias novas; outros estão em grau inferior de espiritualidade e mostram-se refratários a ensinamentos mais elevados, para cuja compreensão ainda não estão suficientemente preparados. Daí se origina a divergência de opiniões, que divide até os membros de uma mesma família.

Dizendo Jesus que não veio trazer paz, mas espada, quis dar-nos a entender que sua doutrina, enquanto não fosse compreendida pela totalidade dos encarnados, seria causa de atritos entre os que a compreenderiam e os que não a compreenderiam. E nos adverte de que esses atritos começariam dentro dos próprios lares.

O Espiritismo se bate pela unidade religiosa do mundo, porque a lei divina é uma só. Contudo, a unidade religiosa só será possível quando a Terra tiver acabado de sofrer sua transformação para planeta de categoria mais elevada. Então será habitada por espíritos de maior adiantamento espiritual, os quais assimilarão com mais facilidade as idéias progressistas e trabalharão por fazê-las triunfar. Em sua simbologia, a Bíblia prediz que tal transformação será feita pelo fogo e por cataclismas. Não será assim. A transformação que se processará, será apenas de ordem moral e a Terra já está passando por ela. Pouco a pouco se encarnarão espíritos de maior elevação espiritual, uns aqui e outros acolá, até completarem um todo homogêneo, que impulsionará a Terra para uma hierarquia espiritual superior, no concerto dos mundos que compõem o Universo.

Notemos que todas as religiões do planeta são boas, pois, estão graduadas de conformidade com a compreensão de seus adeptos, constituindo cada uma delas uma face da Verdade, que se revela progressivamente à humanidade. Sendo as revelações progressivas, há religiões que melhor explicam as leis divinas. E os espíritos que acompanham o progresso, são aqueles que vão aceitando as revelações à medida que elas surgem. Nesse caso está o Espiritismo com revelações mais adiantadas. Moisés revelou uma parte da Verdade, graduada para a compreensão dos povos de seu tempo. Jesus continuou a obra de Moisés, acrescentando-lhe novas revelações e novo, ensinamentos. O Espiritismo continua a obra de Moisés e de Jesus, enriquecendo-a de novos valores espirituais, mediante o que vem revelar aos homens. Assim vemos que o Espiritismo nada mais é do que a continuação das religiões que o antecederam, explicando-as sob um ponto de vista mais adiantada, mais racional e mais compreensível, porque não usa símbolos, nem tem dogmas. E lança luz sobre o que seus predecessores deixaram subentendido, por não terem podido explicar tudo aos povos das épocas em que viveram. A Moisés e a Jesus cumpria esperarem que a inteligência humana se desenvolvesse, para que pudesse assimilar conhecimentos de ordem superior.

E o Espiritismo veio precisamente na época em que a humanidade, estando com sua inteligência amadurecida, podiam receber ensinamentos novos.

36 - E os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos.

37 - O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim.

Jesus nos avisa de que os inimigos do homem são os seus próprios domésticos, porque as opiniões contraditórias, que se formam dentro de um lar, poderão desviar do caminho espiritual aqueles que o querem seguir.

É comum alguém querer desenvolver sua mediunidade e encontrar cerrada oposição justamente naqueles que mais deveriam entusiasmá-lo para isso. Outros querem seguir o Espiritismo, freqüentar as sessões, estudar o Evangelho e a mesma má vontade em secundá-las em seus esforços divinos se manifesta no seio de sua família. Às vezes é o marido que serve de obstáculo à mulher e a mulher ao marido; outras vezes são os pais que não se interessam pelo futuro espiritual de seus filhos e nada fazem para guiá-los espiritualmente; e acontece também que pelo falso amor que os pais consagram aos filhos, não usam da energia necessária para conduzi-los pelo reto caminho, deixando que eles se percam nas ilusões do mundo. Os pais espíritas precisam prestar atenção nesse particular: não basta que eles se esforcem por seguir a Jesus; é imprescindível que incutam no coração de seus filhos, desde pequeninos, os hábitos de acordo com os ensinamentos de Jesus; só assim estarão cooperando com o Mestre na evangelização do mundo.

Ser digno de Jesus, portanto, é saber superar todos os obstáculos que se nos apresentarem contra nosso desejo de espiritualização. Esses obstáculos se manifestarão com maior intensidade em nosso ambiente doméstico; é indispensável, então, uma grande dose de boa vontade, muita fé em Deus, muita oração a fim de que esses obstáculos sejam removidos, não pela violência, mas pelo entendimento mútuo e pelo amor que todas as criaturas se devem umas às outras.

38 - E o que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.

A cruz a que Jesus se refere, pode apresentar-se a nós sob três aspectos: no cumprimento de nosso dever de cada dia, no sofrimento e na mediunidade.

É mister que cumpramos nossos deveres diários com a melhor boa vontade e segundo os preceitos de Jesus, tratando cristãmente de todos os que se aproximarem de nós e dos que vivem sob nossa dependência. Para isso devemos esforçar-nos para sermos um padrão de moralidade, de trabalho, de fé em Deus e de amor ao próximo. É baseando mesmo os nossos mínimos atos no Evangelho de Jesus, que nos tornaremos dignos de Jesus.

O sofrimento pelo qual passaremos também constitui a cruz que devemos carregar durante nossa existência. Não há efeito sem causa. Se sofremos, é porque o merecemos. Se não conseguirmos descobrir a causa de nosso sofrimento na existência atual, ela estará, forçosamente, numa de nossas existências do passado. Nunca nos esqueçamos de que nossa vida presente é a conseqüência dos atos que tivermos praticado em nossas encarnações anteriores, assim como nosso futuro será o resultado de nossas ações da vida presente .. Geralmente, os que sofrem se afastam de Jesus por se lastimarem. E o sofrimento humano pode ser causado pelo desvio das leis divinas, pela ignorância e pelo endurecimento. Qualquer transgressão das leis divinas causa sofrimentos. Podemos escapar da justiça terrena, mas jamais poderemos escapar da Justiça Divina, que dá a cada um unicamente o que cada um merece, como conseqüência de seus atos.

A ignorância é outra grande causa de sofrimentos. A ignorância conduz ao vício e ao crime. Por isso o indivíduo já esclarecido à luz do Evangelho deverá combater acerrimamente a ignorância de seus irmãos, ensinando-os a respeitarem os preceitos de Jesus.

O endurecimento é outra fonte de sofrimento. O indívíduo endurecido é aquele ao qual já foi mostrado o bom caminho, mas por orgulho, por comodismo, por conveniências sociais ou por pouca vontade, persiste no erro. Semeia, assim, sementes de sofrimentos que, mais cedo ou mais tarde, e nesta vida ou na outra, germinarão, resultando numa colheita de frutos amargos.

Os que sofrem, por conseguinte, que tornem a cruz dos seus padecimentos e a carreguem com calma, paciência, resignação e coragem até o fim, para que possam ser dignos de Jesus.

Dado o estado de incompreensão em que está imersa a maioria dos encarnados, a mediunidade se torna, por vezes uma cruz bem pesada. E o médium digno de Jesus é o que toma a cruz de sua mediunidade e a transforma em luz para os que jazem nas trevas, consolo para os aflitos, esperança para os tristes, alívio para os sofredores e guia para os ignorantes.

39 - O que acha a sua alma, perdê-la-á; e o que perder a sua alma por mim, achá-la-á.

Nossa verdadeira vida é a vida espiritual que viveremos quando estivermos libertos da matéria. A vida material é fugaz e por mais que façamos, não a poderemos conservar senão por um curto período .. É um erro, pois, não cuidarmos de nos preparar para a vida espiritual, que constitui nosso futuro. Se desde nossa infância tudo fazemos para que fiquemos aparelhados para triunfarmos materialmente, procurando auferir as maiores vantagens que a terra nos pode oferecer, porque não nos prepararemos também para a vida espiritual na qual ingressaremos infalivelmente?

Acham sua alma na terra os que julgam que é aqui que estão seus únicos interesses e concentram seus esforços apenas na consecução das coisas materiais. Quando despertarem no mundo espiritual, verificarão que correram atrás de ilusões. E como não conquistaram nem um pouquinho de bens espirituais, estarão com suas almas perdidas na maior pobreza espiritual. Os que perdem suas almas na terra são aquêles que tudo fazem para conquistar os bens espirituais, através da vida terrena. Compreendem que a vida terrena é um meio que Deus lhes dá para o progresso de suas almas. E como sabem que a vida terrena é passageira, envidam seus melhores esforços na aquisição de tudo quanto lhes possa ser útil na pátria espiritual.

Perder a alma por Jesus é observar rigorosamente os seus preceitos, única maneira de se conseguir a riqueza espiritual, que fará com que as almas se achem ricas e felizes quando desencarnarem.

40 - O que a vós vos recebe, a mim me recebe; e o que a mim me recebe, recebe aquele que me enviou.

Diariamente estamos recebendo os ensinamentos de Jesus.

Se prestarmos um pouco de atenção, notaremos que continuamente somos advertidos sobre a prática do bem. Não só os evangelizadores, porém, mesmo uma criança serve de mensageira para trazer-nos uma mensagem de Jesus, que nos aponte nossos deveres para com Deus e para com nosso próximo. Os bons espíritos estão incessantemente velando para que os ensinamentos do Mestre sejam relembrados por nós e para isso usam de todos os meios ao alcance deles. Nosso anjo da guarda não cessa de nos dirigir salutares inspirações para que não nos afastemos da observância das leis divinas. Nos conselhos de um amigo, nas leituras úteis, nos bons pensamentos que se formam em nosso cérebro, nas preleções evangélicas que ouvimos, são transmitidas lições de alto interesse para nossas almas. Nossa consciência é a sentinela vigilante, que faz com que jamais deixemos de receber a Jesus no Íntimo de nossos corações. Basta que ouçamos nossa consciência com sinceridade e humildade e sua voz nos recordará sempre nas vicissitudes e na bonança, a fé que Jesus nos recomendou, a esperança que ele nos trouxe, a caridade que nos ensinou a praticar e a resignação ante a vontade do Pai celestial que exemplificou.

41 - O que recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta; e o que recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo.

42 - E todo o que der de beber a um daqueles pequeninos um copo de água fría só pela razão de ser meu discípulo, na verdade vos dígo que não perderá a sua recompensa.

Profetas, no tempo de Jesus, eram os inspirados que ensinavam o povo a respeitar os mandamentos divinos. E os justos eram as pessoas que viviam conforme a lei de Deus. Era crença geral que o Pai não deixaria sem recompensa aquele que agasalhassem um profeta ou um justo. Jesus leva mais longe ainda a recompensa divina, afirmando que receberão paga celeste até os que derem um simples copo dágua a um pobrezinho, pela simples razão de quererem obedecer aos preceitos do Evangelho.

Eliseu Rigonatti

segunda-feira, 7 de novembro de 2011






EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO

Estudo com base in “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”

Livro IV, cap. II. questões de 990 à 1002

obra codificada por Allan Kardec










O arrependimento se dá no estado espiritual, mas, também pode ocorrer no estado corporal, quando bem se compreende a diferença entre o bem e o mal.



A conseqüência do arrependimento no estado espiritual é a do arrependido desejar uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o privam de ser feliz e por isso aspira a uma nova existência em que possa expiar suas faltas. (332-975)



332. O Espírito pode abreviar ou retardar o momento da reencarnação?

R: — Pode abreviá-lo, solicitando-o por suas preces e pode também retardá-lo, se recuar ante a prova. Porque entre os Espíritos há também indiferentes e poltrões; mas não o faz impunemente pois sofre com isso, como aquele que recusa o remédio que o pode curar.



975. Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo?

R: — Sim, e é isso o que os tortura, pois compreendem que estão privados dela por sua própria culpa. É por isso que o Espírito liberto da matéria aspira a uma nova existência corpórea, pois poderá abreviar, se for bem empregada, a duração desse suplício. É então que escolhe as provas que poderão expiar suas culpas. Porque, ficai sabendo, o Espírito sofre por todo o mal que fez ou do qual foi causador involuntário, por todo o bem que, tendo podido fazer, não o fez, e por todo o mal que resultar do bem que deixou de fazer. O Espírito errante não está mais envolvido pelo véu da matéria: é como se tivesse saído de um nevoeiro e vê o que o distancia da felicidade; então sofre ainda mais, porque compreende quanto é culpado. Para ele não existe mais a ilusão: vê a realidade das coisas.


O arrependimento no estado corporal produz a conseqüência de fazer que, já na vida atual, o Espírito progrida, se tiver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência o exprobra e lhe mostra uma imperfeição, o homem pode sempre melhorar-se.



Há homens que só têm o instinto do mal e parecem inacessíveis ao arrependimento, porém, todo Espírito tem que progredir incessantemente. Aquele que, nesta vida, só tem o instinto do mal, terá noutra o do bem e é para isso que renasce muitas vezes, pois preciso é que todos progridam e atinjam a meta. A diferença está somente em que uns gastam mais tempo do que outros, porque assim o querem. Aquele, que só tem o instinto do bem, já se purificou, visto que talvez tenha tido o do mal em anterior existência.” (804)



804. Por que não outorgou Deus as mesmas aptidões a todos os homens?

“Deus criou iguais todos os Espíritos, mas cada um destes vive há mais ou menos tempo, e, conseguintemente, tem feito maior ou menor soma de aquisições. A diferença entre eles está na diversidade dos graus da experiência alcançada e da vontade com que obram, vontade que é o livre-arbítrio. Daí o se aperfeiçoarem uns mais rapidamente do que outros, o que lhes dá aptidões diversas. Necessária é a variedade das aptidões, a fim de que cada um possa concorrer para a execução dos desígnios da Providência, no limite do desenvolvimento de suas forças físicas e intelectuais. O que um não faz, fá-lo outro. Assim é que cada qual tem seu papel útil a desempenhar. Demais, sendo solidários entre si todos os mundos, necessário se torna que os habitantes dos mundos superiores, que, na sua maioria, foram criados antes do vosso, venham habitá-lo, para vos dar o exemplo.” (361)


361. Qual a origem das qualidades morais, boas ou más, do homem?

“São as do Espírito nele encarnado. Quanto mais puro é esse Espírito, tanto mais propenso ao bem é o homem.”



361a. Seguir-se-á daí que o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem vicioso a de um Espírito mau?

“Sim, mas, dize antes que o homem vicioso é a encarnação de um Espírito imperfeito, pois, do contrário, poderias fazer crer na existência de Espíritos sempre maus, a que chamais demônios.”

O homem perverso, que não reconheceu suas faltas durante a vida, sempre as reconhece depois da morte, então, mais sofre, porque sente em si todo o mal que praticou, ou de que foi voluntariamente causa. Contudo, o arrependimento nem sempre é imediato. Há Espíritos que se obstinam em permanecer no mau caminho, não obstante os sofrimentos por que passam. Porém, cedo ou tarde, reconhecerão errada a senda que tomaram e o arrependimento virá. Para esclarecê-los trabalham os bons Espíritos e também vós podeis trabalhar.



Haverá Espíritos que, sem serem maus, se conservam indiferentes à sua sorte, aliás, há Espíritos que de coisa alguma útil se ocupam. Estão na expectativa. Mas, nesse caso, sofrem proporcionalmente. Devendo em tudo haver progresso, neles o progresso se manifesta pela dor. Esses Espíritos, desejam sem dúvida, abreviar seus sofrimentos, mas falta-lhes energia bastante para quererem o que os pode aliviar. Quantos indivíduos se contam, entre nós, que preferem morrer de miséria a trabalhar?



Os Espíritos vêem o mal que lhes resulta de suas imperfeições, contudo há os que agravam suas situações e prolongam o estado de inferioridade em que se encontram, fazendo o mal como Espíritos, afastando do bom caminho os homens, estes são os de arrependimento tardio e assim procedem, mas, também, pode acontecer que, depois de se haver arrependido, o Espírito se deixe arrastar de novo para o caminho do mal, por outros Espíritos ainda mais atrasados. (971)



971. É sempre boa a influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros?

“Sempre boa, está claro, da parte dos bons Espíritos. Os Espíritos perversos, esses procuram desviar da senda do bem e do arrependimento os que lhes parecem suscetíveis de se deixarem levar e que são, muitas vezes, os que eles mesmos arrastaram ao mal durante a vida terrena.”



971a. Assim, a morte não nos livra da tentação?

“Não, mas a ação dos maus Espíritos é sempre menor sobre os outros Espíritos do que sobre os homens, porque lhes falta o auxílio das paixões materiais.”

Vêem-se Espíritos, de notória inferioridade, acessíveis aos bons sentimentos e sensíveis às preces que por eles se fazem. Contudo existem outros Espíritos, que os supomos mais esclarecidos, revelarem um endurecimento e um cinismo, dos quais coisa alguma consegue triunfar, mas a prece só tem efeito sobre o Espírito que se arrepende. Com relação aos que, impelidos pelo orgulho, se revoltam contra Deus e persistem nos seus desvarios, chegando mesmo a exagerá-los, como o fazem alguns desgraçados Espíritos, a prece nada pode e nada poderá, senão no dia em que um clarão de arrependimento se produza neles.” (664)



664. Será útil que oremos pelos mortos e pelos Espíritos sofredores? E, neste caso, como lhes podem as nossas preces proporcionar alívio e abreviar os sofrimentos? Têm elas o poder de abrandar a justiça de Deus?

“A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira àquele que por ela pede e também porque o desgraçado sente sempre um refrigério, quando encontra almas caridosas que se compadecem de suas dores. Por outro lado, mediante a prece, aquele que ora concita o desgraçado ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é necessário para ser feliz. Neste sentido é que se lhe pode abreviar a pena, se, por sua parte, ele secunda a prece com a boa-vontade. O desejo de melhorar-se, despertado pela prece, atrai para junto do Espírito sofredor Espíritos melhores, que o vão esclarecer, consolar e dar-lhe esperanças. Jesus orava pelas ovelhas desgarradas, mostrando-vos, desse modo, que culpados vos tornaríeis, se não fizésseis o mesmo pelos que mais necessitam das vossas preces.”

Nota de Allan Kardec: Não se deve perder de vista que o Espírito não se transforma subitamente, após a morte do corpo. Se viveu vida condenável, é porque era imperfeito. Ora, a morte não o torna imediatamente perfeito. Pode, pois, persistir em seus erros, em suas falsas opiniões, em seus preconceitos, até que se haja esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo sofrimento.

A expiação se cumpre durante a existência corporal, mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes ao estado de inferioridade do Espírito.



Não basta o arrependimento durante a vida para que as faltas do Espírito se apaguem e ele ache graça diante de Deus, o arrependimento concorre para a melhoria do Espírito, mas ele tem que expiar o seu passado.



Se, diante disto, um criminoso disser que, cumprindo-lhe, em todo caso, expiar o seu passado, nenhuma necessidade tem de se arrepender, resulta tornar-se mais longa e mais penosa a sua expiação, desde que ele esteja obstinado no mal.



Já desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas, reparando-as. Mas, não creiamos que as resgatemos mediante algumas privações pueris, ou distribuindo em esmolas o que possuirmos, depois que morrermos, quando de nada mais precisamos. Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que apenas custa o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal. (726)



726. Visto que os sofrimentos deste mundo nos elevam, se os suportarmos devidamente, dar-se-á que também nos elevam os que nós mesmos nos criamos?

“Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Supões que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que de preferência não trabalham pelo bem de seus semelhantes? Vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem pelo que está enfermo; sofram privações para alívio dos infelizes e então suas vidas serão úteis e, portanto, agradáveis a Deus. Sofrer alguém voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo.”

Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem no seus interesses materiais.



De que serve, para sua justificação, que restitua, depois de morrer, os bens mal adquiridos, quando se lhe tornaram inúteis e deles tirou todo o proveito?



De que lhe serve privar-se de alguns gozos fúteis, de algumas superfluidades, se permanece integral o dano que causou a outrem?



De que lhe serve, finalmente, humilhar-se diante de Deus, se, perante os homens, conserva o seu orgulho? (720-721)



720. São meritórias aos olhos de Deus as privações voluntárias, com o objetivo de uma expiação igualmente voluntária?

“Fazei o bem aos vossos semelhantes e mais mérito tereis.”



720a. Haverá privações voluntárias que sejam meritórias?

“Há: a privação dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de simulacro, será uma irrisão.”



721. É meritória, de qualquer ponto de vista, a vida de mortificações ascéticas que desde a mais remota antigüidade teve praticantes no seio de diversos povos?

“Procurai saber a quem ela aproveita e tereis a resposta. Se somente serve para quem a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendam de colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.”

Nenhum mérito, não é bem o termo, haverá em assegurarmos, para depois de nossa morte, emprego útil aos bens que possuímos, mas isso sempre é melhor do que nada. A desgraça, porém, é que aquele, que só depois de morto dá, é quase sempre mais egoísta do que generoso. Quer ter o fruto do bem, sem o trabalho de praticá-lo. Duplo proveito tira aquele que, em vida se priva de alguma coisa; o mérito do sacrifício e o prazer de ver felizes os que lhe devem a felicidade. Mas, lá está o egoísmo a dizer-lhe: O que dás tiras aos teus gozos; e, como o egoísmo fala mais alto do que o desinteresse e a caridade, o homem guarda o que possui, pretextando suas necessidades pessoais e as exigências da sua posição! Ah! Lastimai aquele que desconhece o prazer de dar; acha-se verdadeiramente privado de um dos mais puros e suaves gozos. Submetendo-o à prova da riqueza, tão escorregadia e perigosa para o seu futuro, houve Deus por bem conceder-lhe, como compensação, a ventura da generosidade, de já neste mundo pode gozar. (814)



814. Por que Deus a uns concedeu as riquezas e o poder, e a outros, a miséria?

“Para experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com freqüência.”

Aquele que, em artigo de morte, reconhece suas faltas, quando já não tem tempo de as reparar, o arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve. Diante dele se desdobra o futuro que jamais lhe é trancado para reparar as suas faltas.



171 - Em que se funda o dogma da reencarnação?

R. — Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Somente entre os homens egoístas é que se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem perdão.



Nota de Allan Kardec: Todos os Espíritos tendem à perfeição, e Deus lhes proporciona os meios de consegui-la com as provas da vida corpórea. Mas, na sua justiça, permiti-lhes realizar em novas existências, aquilo que não puderam fazer ou acabar numa primeira prova.

Não estaria de acordo com a eqüidade, nem segundo a bondade de Deus, castigar para sempre aqueles que encontraram obstáculos ao seu melhoramento, independentemente de sua vontade, no próprio meio em que foram colocados. Se a sorte do homem fosse irrevogavelmente fixada após a sua morte, Deus não os teria tratado com imparcialidade.

A doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia da justiça de Deus com respeito aos homens de condição moral inferior; a única que pode explicar o nosso futuro e fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o meio de resgatarmos os nossos erros através de novas provas. A razão assim nos diz, e é o que os espíritos nos ensinam.

homem que tem a consciência da sua inferioridade encontra na doutrina da reencarnação uma consoladora esperança. Se crê na justiça de Deus, não pode esperar que, por toda a eternidade, haja de ser igual aos que agiram melhor do que ele. O pensamento de que essa inferioridade não o deserdará para sempre do bem supremo, e de que ele poderá conquistá-lo através de novos esforços, o ampara e lhe reanima a coragem. Qual é aquele que, no fim da sua carreira, não lamenta ter adquirido demasiado tarde uma experiência que já não pode aproveitar? Pois esta experiência tardia não estará perdida: ele a aproveitará numa nova existência.




O “BOM LADRÃO”

Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós”. Mas o outro, tomando a palavra, o repreendia: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça: estamos pagando por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal”. E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”. Ele respondeu: “Em verdade, eu te digo, hoje estará comigo no Paraíso”.

Lucas 23:39-43




ARREPENDIMENTO

Sentimento de pesar causado por violação de uma lei ou da conduta moral: resulta na livre aceitação do castigo e na disposição de evitar futuras violações. Essa é a definição da ética, e refere-se mais particularmente à lei e à moral humanas. Segundo a religião (sobretudo segundo o Cristianismo) é o sentimento de pesar que se apossa em virtude de falta cometida por atos, palavras ou pensamentos, os quais ela preferiria não ter praticado, dito ou concebido, e que a conduz ao propósito de mudar de atitude ou de comportamento e ao desejo de penitenciar-se. Na verdade, a simples disposição de evitar futuras violações, ou de penitenciar-se, cheio de unção e contrição, é de valor relativo. Válido sob todos os aspectos é o arrependimento que leva à reparação da falta cometida. Sentir-se pesaroso, bater o “mea culpa” e entregar-se a penitências pode ter, de fato tem um valor meramente subjetivo: ameniza a angústia do que errou. Mas o que realmente se espera é que este repare seu erro de modo objetivo: se por palavras ofendeu, busque o perdão do ofendido; se por atos causou dano ou destruiu, indenize o prejudicado, reconstrua o destruído ; se por pensamentos desejou o mal ou prevaricou, conscientize-se disso fundamente, reeduque-se, conheça-se a si mesmo e moralmente se transforme para viver em paz com a própria consciência.

Moderna Enciclopédia Brasileira




182 - O remorso é uma punição?

R: — O remorso é a força que prepara o arrependimento, como este é a energia que precede o esforço regenerador. Choque espiritual nas suas características profundas, o remorso é o interstício para a luz, através do qual recebe o homem a cooperação indireta de seus amigos do Invisível, a fim de retificar seus desvios e renovar seus valores morais, na jornada para Deus.

Emmanuel no livro “O Consolador”




O REMORSO



                            




Muitas pessoas imaginam que não há grandes diferenças entre o remorso e o arrependimento. No livroAborto à Luz do Espiritismo, Eliseu Florentino da Mota Jr., escreve que “dentre as causas determinantes das anomalias psíquicas, é induvidoso que o remorso assume especial relevância, porquanto, ao contrário do arrependimento, que é o primeiro passo para a reabilitação diante de um erro cometido, ele determina o surgimento do complexo de culpa, levando a pessoa que eventualmente tenha errado a crises nervosas, chegando mesmo à loucura”. Dessa forma, podemos entender claramente essa diferença, deixando para reflexão o quanto o remorso é prejudicial para o indivíduo.


Sempre nos questionamos quando deixamos alguma questão mal resolvida ou de não haver uma reconciliação, isto acontece quando o nosso desafeto venha a falecer. Conseqüentemente, o remorso bate à nossa mente por termos protelado a solução de problemas, algumas vezes simples, outras não; mas poderiam ter sido resolvidos ou esclarecidos com uma conversa sincera entre as partes envolvidas. Porém, nosso orgulho acaba sendo predominante fazendo que a conciliação não se realize. Recentemente duas pessoas queridas de minha convivência estavam brigadas, cujo amor entre si eu conhecia, porém o orgulho fazia com que a reconciliação fosse evitada. Uma noite disse a uma das partes que seu desafeto estava doente, que imaginasse se essa pessoa viesse a falecer... o remorso iria ser grande por não ter se reconciliado enquanto podia. Minutos depois, essa pessoa pegou o telefone e se reconciliou com a outra. Neste caso correu tudo bem, mas quantos deixam isso para depois.


O tempo não é eterno e o amanhã pode ser muito tarde. Devemos pensar que o presente é agora e o futuro pode não existir. Vitor Ronaldo Costa em seu livro Gerenciando as Emoções explica que “se alguém alimenta um sentimento de culpa, em decorrência de um mal cometido intencionalmente, o bom-senso recomenda que se busque a solução do impasse na prática inadiável de uma atitude enobrecida. A anulação do remorso sugere a tomada de duas providências essenciais: o cultivo da humildade e o pedido de perdão”.


No livro O Céu e o Inferno, capítulo VI, intitulado “Criminosos Arrependidos”, Allan Kardec descreve o contato feito com um jovem padre de nome Verger que havia assassinado em 3 de janeiro de 1857, Monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, quando saia da Igreja de Saint-Étienne-du-Mont. Verger foi condenado à morte e em 30 de janeiro executado. Em nenhum momento mostrou-se arrependido do seu crime. Ele foi evocado no mesmo dia de sua execução e três dias depois. Nestes contatos, quando Verger foi indagado “Qual a vossa punição?”, ele respondeu: “sou punido por que tenho consciência da minha falta, e para ela peço perdão a Deus; sou punido porque reconheço a minha descrença nesse Deus, sabendo agora que não devemos abreviar os dias de vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso de haver adiado o meu progresso, enveredando por caminho errado, sem ouvir o grito da própria consciência que me dizia não ser pelo assassínio que alcançaria o meu desiderato. Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho; enganei-me e arrependo-me, pois o homem deve esforçar-se sempre por dominar as más paixões – o que, aliás, não fiz”.


Quando tiramos a vida de alguém estamos retardando nossa evolução e cortando a oportunidade de nosso irmão dar seqüência à sua. Além do mais, é um pecado que corrói a nossa consciência por um ato indigno de nossa parte. É muito triste chegar ao Mundo Espiritual e sentir na consciência o remorso.


Deus nos dá a oportunidade de reparação, é parte de nossa evolução colocar em prática os ensinamentos morais de Jesus. O perdão faz parte destes ensinamentos e é providencial, deixando-se de lado o orgulho, que não leva a nada. Dessa vida, a única coisa positiva que levamos são as nossas boas obras, que são realizadas por meio da caridade. Quando falamos em caridade, seu sentido é amplo, começamos por ajudar aqueles que temos por desafeto. Vamos analisar a situação, não somos santos, mas todos sujeitos a erros. Vamos nos colocar no lugar de nosso desafeto e imaginar se não agiríamos da mesma forma. Uma reflexão profunda pode ser essencial para essa reconciliação. O tempo é curto, devemos guardar momentos felizes e aprender com os tristes. São esses momentos alegres que nos fazem refletir sobre quanto somos queridos. As amizades e a família são algo que devemos saber aproveitar, pois representam momentos de compartilhar experiências e reparar erros cometidos em outras vidas ou até mesmo nesta.







Todo ato indigno, como aborto, suicídio, traição, entre outros, é prejudicial a nós mesmos. Elizeu Florentino descreve em seu livro a diferença do remorso para o arrependimento, em se tratando de aborto praticado, quando arrependimento leva a pessoa a reparar o seu erro adotando uma criança ou trabalhando em lugares que cuidam de crianças carentes, enquanto o remorso é patológico à medida que o autor da conduta abortiva é levado ao monoideísmo, o que causa anomalias psicológicas e psíquicas.


André Luiz no livro Nosso Lar, descreve as palavras de consolo do benfeitor Clarêncio: “Aproveita os tesouros do arrependimento, guarda a bênção do remorso, embora tardio, sem esquecer que a aflição não resolve problemas”.


Dias atrás, recebi um e-mail que conta a história de uma senhora de 87 anos, de nome Rose. Em determinado momento ela comenta o mal que faz o remorso, mas sua história é tão comovente e bonita que me sinto na obrigação de reproduzir este e-mail por completo por se tratar de uma lição de vida maravilhosa. Em determinados momentos o leitor amigo poderá achar que o assunto não tem nada a ver com o que propusemos a comentar, porém uma reflexão profunda fará o leitor compreender melhor a grandeza de um ser humano quando sua mente é voltada para o bem, deixando de lado qualquer maldade, principalmente o remorso, já que quando praticamos o amor ao próximo a felicidade é o nosso sentimento. Reflitam sobre as palavras que se seguem...


“No primeiro dia de aula nosso professor se apresentou aos alunos e nos desafiou a que nos apresentássemos a alguém que não conhecêssemos ainda. Eu fiquei em pé para olhar ao redor quando uma mão suave tocou meu ombro. Olhei para trás e vi uma pequena senhora, velhinha e enrugada, sorrindo radiante para mim. Um sorriso lindo que iluminava todo o seu ser. Ela disse: “Hei, bonitão. Meu nome é Rose. Eu tenho oitenta e sete anos de idade. Posso te dar um abraço?” Eu ri, e respondi entusiasticamente: “É claro que pode!”, e ela me deu um gigantesco apertão. Não resisti e perguntei-lhe: “Por que você está na faculdade em tão tenra e inocente idade?”, e ela respondeu brincalhona: “Estou aqui para encontrar um marido rico, casar, ter um casal de filhos, e então me aposentar e viajar”. “Está brincando”, eu disse. Eu estava curioso em saber o que a havia motivado a entrar neste desafio com a sua idade, e ela disse: “Eu sempre sonhei em ter um estudo universitário, e agora estou tendo um!”. Após a aula nós caminhamos para o prédio da união dos estudantes, e dividimos um milk-shake de chocolate. Nós nos tornamos amigos instantaneamente. Todos os dias nos próximos três anos teríamos aula juntos e falaríamos sem parar. Eu ficava sempre extasiado ouvindo aquela “máquina do tempo” compartilhar sua experiência e sabedoria comigo. No decurso de um ano, Rose tornou-se um ícone no campus, e fazia amigos facilmente, onde quer que fosse. Adorava vestir-se bem, e revelava-se na atenção que lhe davam os outros estudantes. Estava curtindo a vida! No fim do semestre convidamos Rose para falar no nosso banquete de futebol. Jamais esquecerei o que ela nos ensinou. Foi apresentada e se aproximou do podium. Quando começou a ler a sua fala, já preparada, deixou cair três, das cinco folhas, no chão. Frustrada e um pouco embaraçada, pegou o microfone e disse simplesmente: “Desculpem-me, eu estou tão nervosa! Eu não conseguirei colocar meus papéis em ordem de novo, então me deixem apenas falar para vocês sobre aquilo que eu sei”. Enquanto nós ríamos, ela limpou sua garganta e começou: ‘Nós não paramos de jogar porque ficamos velhos; nós nos tornamos velhos porque paramos de jogar. Existem somente quatro segredos para continuarmos jovens, felizes e conseguir sucesso. Primeiro, você precisa rir e encontrar humor em cada dia. Segundo, você precisa ter um sonho. Quando você perde seus sonhos, você morre. Nós temos tantas pessoas caminhando por aí que estão mortas e nem desconfiam! Terceiro, há uma enorme diferença entre envelhecer e crescer. Se você tem dezenove anos de idade e ficar deitado na cama por um ano inteiro, sem fazer nada de produtivo, você ficará com vinte anos. Se eu tenho oitenta e sete anos e ficar na cama por um ano e não fizer coisa alguma, eu ficarei com oitenta e oito anos. Qualquer um, mais cedo ou mais tarde ficará mais velho. Isso não exige talento nem habilidade, é uma conseqüência natural da vida. A idéia é crescer através das oportunidades. E, por último, não tenha remorsos. Os velhos geralmente não se arrependem por aquilo que fizeram, mas sim por aquelas coisas que deixaram de fazer. As únicas pessoas que têm medo da morte são aquelas que têm remorso’. Concluiu seu discurso cantando corajosamente “A Rosa”. Desafiou cada um de nós a estudar poesia e vivê-la em nossa vida diária. No fim do ano, Rose terminou o último semestre da faculdade que começara havia tantos anos. Uma semana depois da formatura, Rose morreu tranqüilamente em seu sono. Mais de dois mil alunos da faculdade foram ao seu funeral, em tributo à maravilhosa mulher que ensinou, mediante seu exemplo, que nunca é tarde demais para ser tudo aquilo que você pode provavelmente ser, se realmente desejar. Quando terminar de ler isto, envie esta palavra de conselho para seus amigos e familiares. Eles realmente apreciarão! Estas palavras têm sido divulgadas por amor, em memória de “Rose”. Uma grande mulher. Na verdade um grande ser humano. Lembre-se: Envelhecer é inevitável, mas crescer é opcional!






Por Marco Tulio Michalick






Texto original publicado na Revista Internacional de Espiritismo, edição nº 02, ano 2002.


Autoperdão: Felicidade Sem Culpa

Nazareno Feitosa


Livro Tormentos da Obsessão: Espíritas sofrendo no mundo espiritual, na maioria, casos de auto-obsessão por perfeccionismo e sent. de culpa.
CULTURA DA CULPA: fruto do nosso orgulho
Autoflagelações na igreja primitiva (autochicotear-se) acreditando que isso fosse agradável a Deus. Jesus nunca afirmou isso. Nos convidou para o amor. A psicologia moderna diz que as palavras "culpa" e "pecado" deveriam ser abolidas do dicionário. Não servem para nada, só nos atrapalham. Aprendemos tanto com os erros quanto com os acertos. O erro só pode ser considerado um fracasso, quando não tiramos dele um aprendizado útil. (H) A culpa é provocada pelo nosso orgulho. Quanto maior o orgulho, maior o sentimento de culpa.
Até em algumas mensagens espíritas a cultura da culpa se infiltrou
Para julgarmos uma comunicação mediúnica, devemos analisar quem é (ou foi) o espírito comunicante, e quem é o médium, posto que muitas vezes, continuamos com as mesmas crenças que nutríamos em vidas passadas. No Evangelho Seg. o Espiritismo, há comunicações de espíritos que foram da igreja antiga, como Santo Agostinho, São Luís, São Vicente de Paulo, Adolfo (bispo de Argel), João (bispo de Bordéus), etc. Alguns deles (ou os médiuns), falaram em termos que refletem alguns atavismos e concepções ultrapassadas, como "Deus castiga", "Deus pune", que promovem o sentimento de culpa. (DF)
Ao passo que no Livro dos Espíritos (p. 13) as entidades venerandas nos apresentam um Deus perfeito, soberanamente justo e bom, e não um Deus vingativo, ou que castiga seus filhos. Afirmam que o mal que sofremos é criação nossa (colhemos o que semeamos). E que Deus só permite que colhamos o mal que nós mesmos plantamos, por que sabe que dele nascerá um bem maior. Que o sofrimento não é a regra do universo, mas uma exceção, própria de mundos ainda atrasados como o nosso (talvez haja tanto sofrimento na Terra porque parece que é o único remédio que funciona contra o nosso imenso orgulho).
SOMOS NOSSOS PRÓPRIOS JUÍZES
L.E. p. 621: "Onde estão escritas as leis de Deus? R.: Na consciência."
Não é Deus quem nos condena. Nos condenamos ou nos absolvemos.
SENTIMENTO DE CULPA: UM "PLUGUE" PARA A OBSESSÃO
Só existe obsessão, porque somos "obsediáveis". Nós oferecemos o "plugue", a "tomada" que são as imperfeições morais - egoísmo, orgulho, inveja, etc - e ainda o sentimento de culpa, que permitem o processo obsessivo, baixando nosso padrão vibratório.
Melhor do que espantar as moscas, é curarmos a ferida. (CX)
"Podemos ter 200 obsessores e não ser obsediados" (SR)
A importância da reforma íntima. Podemos fazer quantas desobsessões quisermos, se não nos perdoarmos, além de nos auto-obsediarmos, continuaremos atraindo outras entidades, por sintonia.
A alegria é um atributo dos espíritos nobres. Fco. de Assis era o “cantor da alegria”; Chico Xavier adorava contar “causos” divertidos.
Os maiores palestrantes que conheço são todos alegres e espirituosos.
PERDOE-SE

Se não nos perdoarmos, como vamos conseguir cumprir o maior mandamento (amar a Deus... como a si mesmo)? Como vamos conseguir nos amar? Se Jesus nos ensina a perdoar os inimigos, por que não deveríamos perdoar a nós mesmos?
DEUS SABIA: Deus, perfeito e onisciente, sabia que nós iríamos errar. Se ele não quisesse que errássemos, teria nos criado “anjos perfeitos”, e não espíritos simples e ignorantes, que aprendemos com os milênios de evolução (H). O erro faz parte do processo evolutivo.
“INFÂNCIA” ESPIRITUAL: Como é que Deus nos perdoa, mesmo com tantas imperfeições? Estamos ainda na "infância espiritual", somos crianças, espiritualmente. Quem não perdoa o filhinho traquinas? (DF)
Nós ainda não “sabemos”, não introjetamos o conhecimento. (H)
Saber que é bom ser bom, não nos transforma em pessoas boas.
"Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem"
Deus permite a convivência de "lobos" com "ovelhas" na Terra
Quem colocaria raposas e galinhas juntas no mesmo local?
Deus, sabendo das nossas inúmeras imperfeições, que dentre nós há ainda "lobos", e "ovelhas", se nos colocou todos juntos, certamente sabia o que poderia acontecer. Há uma explicação para isso no L.E. Primeiramente, isso só ocorre nos mundos de prova e expiação, como ainda é a Terra. Nos mundos mais evoluídos, só há espíritos bons, porquanto os espíritos atrasados foram enviados para outros mundos. Essa é a interpretação do juízo final que Jesus ensinou. Aqui, junto aos maus, os bons aprendem a perdoar, a compreender, a amar, são provas para seu adiantamento. Os maus, por sua vez, recebem a educação e o exemplo dos bons para se melhorarem. Não somos tão "lobos", nem tão "cordeiros" assim. Os "cordeiros" de hoje, provavelmente foram os "lobos" de ontem, e precisam despertar. No nosso atual estágio evolutivo, o orgulho ainda é tão grande que o único remédio que funciona conosco ainda é o remédio amargo do sofrimento. Mas ele não é um fim em si mesmo. Só é necessário para despertamos para o amor. Deus não nos criou para sofrermos, mas para amar e sermos amados.
"As flores despertam somente com o alvorecer, o nascer do sol. Mas as pedras, elas precisam da dinamite para despertar." (JA)
CONTO: “O Bendito Aguilhão” de Humberto de Campos
SE NÃO FÔSSEMOS NÓS, PROVAVELMENTE OUTRO FARIA
Nosso modo de pensar atrai nossas experiências, pois pensar é um contínuo ato de escolher. (H) Deus sendo infinitamente justo e bom não permite injustiças. Assim, aquela pessoa que prejudicamos atraiu aquela experiência dolorosa. Nós fomos os responsáveis, mas poderia ter sido qualquer outro. Ela só sofreu aquilo porque atraiu tal experiência e talvez no passado, tenha cometido a mesma falta.
"Na Terra, há injustos, mas não há injustiçados" (Raul Teixeira)
Aceitamos algumas provas antes de reencarnar - L.E. p. 258
Se, antes de reencarnar, aceitamos passar por aquelas determinadas provas e expiações, que importa se foi o fulano ou beltrano o instrumento? Perdoe-o, ele foi somente instrumento para nossa elevação moral. Se não fosse ele, possivelmente seria outro, porque atraímos as experiências pelas quais precisamos passar.
VIVÊNCIA ou ATENÇÃO PLENA (filosofia zen budista)
Esteja “presente”, aproveitando cada momento da vida. Não se pré-ocupar, não “morrer de véspera”. Confiança em Deus. Por que as crianças são tão felizes? Porque vivem o momento presente, não se inquietam com o dia de amanhã.
É irracional analisar o passado – o que poderíamos ter feito. Nós não podemos mudar uma vírgula sequer do que fizemos.
O maior presente que recebemos: o “momento presente”.
“O espírito que fica preso ao passado não progride. Se eu não deixo o passado passar, ele vira presente!” (H)
"O trabalhador que lança mão da charrua (arado), e olha para trás, não é digno do Reino dos Céus" (__).
Nada de “arrependimentos mórbidos”, mas sim trabalho no bem.
O arrependimento deve ser momentâneo, e não durar muitos anos.
NOSSO “KARMA” É DINÂMICO
“Kardec nunca usou a palavra ‘karma’, na codificação, indicando que o karma é dinâmico. O bem que faço modifica o nosso “karma” (DF)
“O amor (a caridade) cobre a multidão de pecados” (Pedro)
“O bem que fazemos é nosso advogado em qualquer parte” (E)
O importante é dar o melhor de si, tentar ser melhor a cada dia.
Mesmo imperfeitos, podemos fazer grandes obras.
Exemplos de renovação de Paulo de Tarso e Maria Madalena.
ESQUECIMENTO DAS NOSSAS OFENSAS
Se, para o nosso próprio bem, vamos esquecer tudo o que fizemos, queiramos ou não, no momento da próxima reencarnação, por que não colaborarmos com o progresso, esquecendo agora mesmo? Deus nos faz esquecer tudo, mas ficamos teimando, querendo lembrar.
Imaginemos um encontro com Jesus. Ele nos daria um sermão, nos condenando, ou nos perdoaria, estendendo-nos a mão?

ALGUNS POSSÍVEIS EQUÍVOCOS NAS INTERPRETAÇÕES

Alguns companheiros citam a passagem: “A quem muito foi dado, muito será cobrado”, esquecendo do restante do Evangelho.
A melhor interpretação, para nós, foi a de Kardec, que completou: “Mas será muito dado também, se souberem bem aproveitar” (nós esquecemos o fim da frase, porque “adoramos” o lado negativo das coisas). Ao analisarmos uma frase, não utilizemos apenas a interpretação literal. Devemos fazer como no direito: ver quem disse, para quem, em que contexto, se está de acordo com a Constituição, códigos, etc. Temos que interpretar uma lei de acordo com todo o ordenamento jurídico, todo o conjunto de leis. Naquele episódio, Jesus falava para um fariseu. Analisemos essas passagens com um cuidado ainda maior, pois Ele foi muito enérgico com eles. Confrontemos com essa outra: “A quem tem (fé, conhecimento) lhe será dado, e a quem não tem (fé, conhecimento), até o pouco que tem, lhe será tirado.”
A IMPORTÃNCIA DO TRABALHO NO BEM
L.E. p.1000: “... Só por meio do bem se repara o mal”. L.E. p. 770-A: Fazer a maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação”.
Jesus nos ensinou parábolas lindas, falando das recompensas “grande será o seu galardão (recompensa) no Reino dos Céus”, etc. como a do Semeador: “Aquele que semeia saiu a semear... e a semente, caindo em solo fértil produzirá 30 por um, sessenta por um e alguns grãos, cento por um”. Falou-nos da misericórdia infinita do Pai, como a do filho pródigo, da alegria do reencontro da ovelha perdida. Por que esquecemos dessas parábolas lindas? A palavra “bem-aventurados” significa “felizes”. Jesus veio falar das felicidades que nos aguardam.
“O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. Se estiver pesado demais, reflitamos sobre o assunto. Não será o perfeccionismo, nos castigando?
L.E. p.909: O esforço é bem pequeno. Mas quão poucos o fazem!
AS TRÊS REGRAS SÃO: DISCIPLINA, DISCIPLINA, DISCIPLINA
Seria um equívoco de interpretação? Quem disse isso? Emmanuel. Para quem? Para Chico. Não foi para nós, para quem ainda está valendo o mandamento mais sublime de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (amor incondicional, sem julgamentos). Emmanuel disse isso para Chico, porque ele já era “todo amor”, e precisava de uma disciplina rigorosíssima para escrever 412 livros e ser um exemplo para o mundo, porque era extremamente assediado.
OBS: A disciplina é muito importante, em especial para os médiuns.
“Se você não acredita em disciplina, observe um carro sem freio” (AL)
SOMOS INSTRUMENTOS, TANTO NO BEM, COMO NO MAL
Incoerências do mov. Esp.: Quando fazemos algo bom, somos apenas instrumentos dos bons espíritos. Mas, se é assim, por que quando fazemos o mal, também não dizemos que fomos apenas instrumentos? Afinal, qual a influência dos espíritos em nossas vidas? L.E. p. 459: "Mais do que supondes, comumente, são eles que vos dirigem".
OBS: Isso não nos isenta de responsabilidades, porque temos o livre-arbítrio. Escolhemos sintonizar com aquela faixa vibratória. Daí a importância do "Vigiai (os vossos pensamentos) e orai, a fim de não cairdes em tentação". Mas, certamente, somos instrumentos utilizados por obsessores que muitas vezes têm responsabilidades maiores que a nossa. Num mundo mais elevado, sem a influência deles, não erraríamos tanto. Portanto, não somos tão maus assim como imaginamos. Mas também não somos ainda tão bons como o nosso orgulho nos faz crer. Nós não nos conhecemos. Portanto, como podemos nos julgar? Estaremos sendo injustos, queiramos ou não.
CONSOLADOR OU CONDENADOR PROMETIDO ?
O Espiritismo é um consolador, e não um condenador.
Vem nos ensinar que o amor (a caridade) cobre a multidão de pecados. Por que muito amou, seus pecados foram perdoados.
O significado da palavra “Evangelho” = Boa Nova, boa notícia.
Jesus veio anunciar o Reino de Deus, falar das felicidades que nos aguardam, da pluralidade dos mundos habitados, afirmando:
“Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai. Se assim não o fosse eu já vo-lo teria dito. Mas eis que me vou adiante de vós, a fim de vos preparar o lugar e retornarei, para que aí onde eu estiver, vós estejais também.”
Jesus nos ama do jeito que somos, porque sabe que ainda temos limitações, e que o Pai não nos exige algo que ainda não podemos dar.
Ainda erramos muito e continuaremos errando. Ainda não somos anjos, a natureza não dá saltos. Nossa evolução é lenta e gradual. Não sejamos hipócritas, exigindo dos outros o que ainda não podem dar.
Conceito de “espírita” para Allan Kardec (ESE).
Jesus repetiu 2x: “Misericórdia quero, e não sacrifício” (Mt 9:13 e 12:7)
A natureza não dá saltos. Seremos, sim, um dia, espíritos puros, mas não iguais. Não nos transformaremos em “Chicos” ou “Ghandis”. É uma prova de humildade reconhecer isso. Cada um tem uma missão própria. Nada na criação é desprezível, pois tudo é criação divina. Cada um irá dar frutos no seu devido tempo. (H).
LE p. 559: Na construção de um edifício não são necessários tanto o mais simples operário como o mais ilustre arquiteto?
Estória: Lampião ajudando no mundo esp. a Bezerra de Menezes. (MM)
SE FORMOS PARA O UMBRAL?
O que faremos se despertarmos no umbral? Ficar nos lamentando e nos consumindo em remorsos, frutos do nosso orgulho, ou iremos fazer algo produtivo por lá? Há algum tempo, se eu fosse para o umbral, iria ficar lá recostado, imóvel, me culpando e me lamentando. Hoje, se ainda for passar uns dias por lá, vou fazer algo diferente: convidar a todos para ler o evangelho, fazer ESDE, palestras, montaremos grupos de auxílio, etc. Por que não? "Floresça onde for plantado" (DF)
Chico disse que queria ir para o CEU = “Centro Espírita do Umbral”

IMPORTÂNCIA DO AUTOCONHECIMENTO PARA O AUTO-AMOR

Qual seria a pergunta mais importante do Livro dos Espíritos? Para alguns, está em um dos 4 livros que o compõem: “As Leis Morais”. Ém sua última questão, Allan Kardec pergunta às entidades benfeitoras:
L.E. p. 919: Qual o meio mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?
R- Um sábio da antiguidade já vo-lo disse: “Conhece-te a ti mesmo.”
Orgulho: o Pai de todos os vícios, porque é o maior obstáculo - nos impede de ver nossos defeitos, impedindo nosso aperfeiçoamento.
Nosso sistema de “crenças” equivocadas nos faz sofrer. Precisamos descobrir as potencialidades divinas que possuímos.
Conhecendo-se através das doenças: Livro A doença como caminho.
Uma das melhores ferramentas: o Pathwork de Eva Pierrakos
Onde se encontra a felicidade?
Conhecemos muito do mundo material. Temos as ciências, a física, a química, a medicina, a biologia, a tecnologia, etc. Nós, espíritas, através das obras de espíritos como André Luís, Manoel Philomeno de Miranda, e outros, conhecemos muito do mundo espiritual. Mas não é em nenhum desses dois mundos que iremos encontrar a felicidade.
O mundo que precisamos conhecer é o nosso mundo íntimo. (H)
O Reino de Deus está dentro de vós. (JC)
Autoconhecimento e Auto-obsessão:
Quase toda obsessão tem no fundo uma auto-obsessão. (H)
A “tentação” é a projeção de tendências infelizes que ainda trazemos, que se exteriorizando, em forma de pensamentos materializados, atraem mentes que se harmonizam conosco. (CX)
Descubramos o que há em nós que está atraindo aquelas experiências
Nossa máscara é fruto do nosso orgulho: queremos parecer melhores.
Qual o vício que Jesus mais condenou? A hipocrisia (a máscara).
A auto-imagem idealizada (máscara) segundo o Pathwork.
JESUS VEIO PARA OS "PECADORES"
Ele veio especialmente para os "pecadores". Acercou-se de coletores de impostos (Mateus), de prostitutas (Madalena), de corruptos (Zaqueu), etc., sendo criticado pelos fariseus, que diziam que Ele andava com pessoas de má vida. Para quem Jesus apareceu primeiro? Não foi para Pedro, a quem confiou seu rebanho, nem para João, o discípulo muito amado, mas fez questão de aparecer para uma "pecadora", Maria Madalena, que era desprezada pelos apóstolos.
"Deus não faz acepção de pessoas" (PT)
Auto-Aceitação: “Nós estamos assim, mas não somos assim.” (DF)
Somos espíritos destinados à perfeição e à felicidade supremas.
Lei do progresso: Nós estamos a cada dia melhores. (LE)
AUTO-AMOR: “Amar ao próximo como a si mesmo”
Só posso dar aquilo que tenho. Se não me amo, como posso amar?
Humildade não é inferioridade, não é se depreciar. É não ser dono da verdade. Cuidar do corpo e do espírito (ESE). O caminho do meio (budismo). Cuidar da aparência, sem excessos, é equilíbrio (AA).
Relaciono-me com os outros do mesmo modo que comigo. (H)
JESUS, A ALEGRIA DOS HOMENS
Jesus era um homem simples, espontâneo. Nas bodas de Caná, transformou água em vinho. Se Jesus fosse um puritano, um hipócrita, teria dito: O que? Mais vinho para esses beberrões? Ele, ao contrário, atendeu o pedido de sua mãe, levando alegria para os convidados.
Os maus de hoje, serão os bons de amanhã. (E)
Os espíritos mais renitentes no crime serão salvos das garras do mal, se invocarem verdadeiramente o amparo do Senhor. (E)
Deus nunca está pobre de misericórdia. (_)
Há mais alegrias no Reino dos Céus quando uma ovelha desgarrada retorna ao rebanho do que quando chegam 99 justos”. Jesus é o bom Pastor:Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
O bom pastor conhece cada uma de suas ovelhas pelo nome.
Nenhuma das ovelhas que o meu Pai me confiou se perderá. (JC)
Vós sois deuses, e filhos do Altíssimo todos vós. (Sl 82:6)
Podeis fazer tudo o que faço, e muito mais! Brilhe a vossa luz!
FIM – Que Jesus, com sua alegria e seu amor, nos ilumine a todos!

OBS: Esse texto não é definitivo. Não são afirmações peremptórias, mas sim questionamentos. Trata-se apenas de uma palestra intuída, ainda não revisada. Há afirmações que precisam ser confirmadas por outros médiuns, conforme nos ensina Kardec. Gostaríamos de receber críticas, correções e contribuições para o tema: Como levar mais alegria para as casas espíritas?

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:
KARDEC - O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo
DIVALDO FRANCO: CDs Divaldo Responde 2; Perdão e Autoperdão;
MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA: Tormentos da Obsessão;
ERMANCE DUFAUX – Wanderley S. Oliveira - “Reforma Íntima Sem Martírio”; “Mereça Ser Feliz Superando as Ilusões do Orgulho”; www.inede.com.br
HAMMED - Fco. do Esp. Santo Neto - Os Prazeres da Alma; As Dores da Alma; Renovando Atitudes; Conviver e Melhorar; Um Modo de Entender.

LIVROS ESPÍRITUALISTAS:
EVA PIERRAKOS – Entrega ao Deus Interior; Criando União; Não Temas o Mal; O Caminho da Autotransformação. www.pathwork.com.br
JOHN WELWOOD – Em Busca de uma Psicologia do Despertar.

ABREVIATURAS:
AA = Alberto Almeida DF = Divaldo Franco E = Emmanuel
ESE = Evang. Seg. o Esp. LE = Livro dos Espíritos H = Hammed
JÁ = Joanna de Angelis AL = André Luís EP = Eva Pierrakos
HC = Humberto de Campos SR = Sílvio Romero Sl = Salmos

TRAÇOS DO ARREPENDIMENTO - "Mereça Ser Feliz" - Ermance

"Que conseqüência produz o arrependimento no estado corporal?

"Fazer que, já na vida atual, o Espírito progrida, se tiver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência o exprobra e lhe mostra uma imperfeição, o homem pode sempre melhorar-se".

O Livro dos Espíritos - Questão 992.

Que adjetivo definiria melhor a nossa condição de Espíritos perante o mundo? Virtuosos, trabalhadores, esclarecidos, caridosos?...

A qualidade comum que estimula os passos da grande maioria das criaturas que agasalham a convicção nos princípios espíritas é o arrependimento. Almas arrependidas. essa é condição espiritual que fielmente nos define perante a vida.

Para muitos arrependimento seria apenas um estado emocional, todavia, é também um estado mental consolidada, que funciona como uma âncora de segurança e um impulso para a caminhada evolutiva das almas submissas aos grilhões da culpa, adquirida no mau uso da liberdade.

Muita vez, para alcançar semelhante estágio, a criatura precisa padecer longamente até saturar-se no "cansaço espiritual", passando a nutrir algum desejo de melhora e progresso em novas linhas de crescimento para Deus.

Três são os traços que caracterizam o arrependimento: desejo de melhora, sentimento de culpa e esforço de superação. Se tirarmos o esforço de superação dessa seqüência teremos o cruel episódio mental do remorso, ou seja, os arrependidos que nada fazem para se melhorar. As tendências mais marcantes dessas experiências interiores podem ser percebidas em algumas manifestações de "dor psíquica corretiva" que se diferencia da "dor psíquica expiatória". O arrependimento impulsiona, o remorso estagna. Esses três traços psicológicos e emocionais que determinam o ato de arrepender-se passam por metamorfoses infinitas, conforme a personalidade que o vivencia. Destaquemos alguns caminhos mais comuns dessa sua transmutação íntima para facilitar o entendimento de suas manifestações.

O DESEJO DE MELHORA no estágio em que nos encontramos está, quase sempre, sob o jugo da vaidade e pode expressar-se por mecanismos psicológicos variados. Desejar melhora é ter que reconhecer a própria penúria moral, assumi-la livremente em razão do idealismo nobre. É doloroso o encontro com as sombras interiores, mesmo quando queremos sinceramente nos ver libertos delas.

O impulso para crescer espiritualmente para nós é um desafio de proporções sacrificiais. Chamemos de "neurose de perfeição" ou perfeccionismo a necessidade obsessiva de fazer o bem com exatidão, uma profunda inaceitaçao de suas falhas e as dos outros, gerando melindre e intolerância, face ao nível de exigência e cobrança para consigo e para com o mundo à sua volta. A angústia decorrente do contato com o ego, o homem velho que queremos transformar, leva a ativar mecanismos de defesa para "acobertar" essa inferioridade que detectamos em nós; então entra em ação o orgulho, criando uma falsa imagem, uma imagem idealizada com a qual procuramos nos forrar de ter que olhar e admitir a pequenez da qual somos portadores. Essa luta nos recessos dos sentimentos e do pensamento traz à baila o conflito, a insatisfação e todo o tipo de incômodo interior, deixando a vida íntima em estado de intensas comoções e mudanças. Damos o nome de sentimento de culpa a todo esse conjunto de reações emocionais, quase sempre "indefiníveis" para quem os sofre.

O SENTIMENTO DE CULPA tem camuflagens e nuanças muito versáteis. Deixemos claro que em osso estágio e aperfeiçoamento podemos tomá-lo como um fator de impulsão para a melhora. Se a criatura arrependida não sentisse culpa, não garantiria a continuidade do seu progresso e desistiria, optando pela loucura ou pela queda moral. Digamos que a culpa é uma energia intrusa, porém necessária na sustentação do desejo de melhora. Jamais tomemo-la no entanto, como essencial, porque é um sentimento aprendido, um resultado de vivências anteriores e não uma virtude com a qual tenhamos sido criados. Suas manifestações podem ser percebidas na autopunição, no sentimento de desmerecimento e desvalor, nas fantasias de carma e dor, nas posturas de vítimas da vida, na inconformaçao, no azedume sistemático, nas crises de autopiedade ou ainda nos hábitos da lamúria e da queixa. É só estudar com atenção e perceberemos as relações entre esses processos de culpa e o orgulho que gerencia os mecanismos de defesa como, por exemplo, a "projeção", que se constitui de transferir para fora aquilo que não estamos suportando em nós mesmos, constatando nos outros o que não queremos ver em nossa intimidade.

O ESFORÇO é a ação que promove o equilíbrio o processo do arrependimento. Não existe arrependimento real sem reparação. Querer melhorar, sentir-se culpado e nada fazer é muito doloroso. Eis aqui a importância dos serviços de amor ao próximo que alivia e consola alguém, mas que também estabiliza os níveis energéticos de quem o realiza. É comum verificarmos companheiros de ideal doutrinário orando compungidamente e indagando o que falta para sentirem-se melhor e mais felizes, considerando que estão no esforço educativo e no trabalho do bem. 

Oram sofregamente e com certa dose de desespero, sem saber as razoes de seus sentimentos de culpa, insatisfeitos com a sua realidade inferior diante de tanta luz que possuem no cérebro com os conhecimentos espíritas. 

Todavia, assinalemos, a quantos vivem esses instantes de angústia e solidão das experiências evolutivas, que esse é o caminho dos arrependidos. A felicidade vem logo a seguir quando se consegue superar as refregas, sem desistir dos ideais. Sem exageros, digamos que esses estados doridos assemelham-se a uma "loucura controlada". 

Especialmente os corações dotados de sensibilidade mediúnica os padecem com larga intensidade de dor. 

Só existe uma solução: a oração do alívio seguida da perseverança libertadora.

Sofrem muito as almas arrependidas, eis as razoes dos sofrimentos dos verdadeiros espíritas!

Temos o desejo da melhora, mas o orgulho afeta a imaginação levando-nos a crer que já estamos redimidos com poucos esforços, cria uma sensação de que já somos o que deveremos ser, gerando a auto-suficiência espiritual, ou seja, hábitos milenares de presunção do conhecimento aliado à crença estéril causando-nos agradável sensação de superioridade, uma falsa superioridade...

Se observarmo-nos, com cuidado, veremos que desejamos o bem, mas ainda não o sentimos. Desejamos esclarecer, mas não sentimos alegria em estudar. Desejamos união, mas não nos sentimos bem na presença de qualquer pessoa.

Um ufanismo ronda os nossos passos, e nada de especial temos para apresentar ao Pai na nossa condição de Filhos Pródigos senão o arrependimento. 

Não equivoquemos com virtudes e credenciais... o arrependimento, embora se possa contestar filosoficamente, é uma virtude por se tratar de um estado essencial para o progresso de almas que peregrinaram intensamente pelo mal.

Somos apenas espíritos arrependidos; ativos no bem face ao remorso que nos sensibilizou; cansamos do mal; lamentamos os erros cometidos.

Nada mais somos, os espíritas verdadeiros, que almas profundamente desejosas de recomeçar. Porém, entre os ideais novos e o nosso destino de paz interior está a milenar bagagem que organizamos na "maleta das experiências" inferiores, o orgulho.

 Por isso, em muitas ocasiões, a despeito de cansados e arrependidos, ainda ensaiamos algumas "peças" no teatro da vida querendo passar por quem ainda não somos, adornando-nos de virtudes que ainda não possuímos e ansiosos de que os outros acreditem nessas ilusórias conquistas.

Em razão do personalismo, confundimos a luz que existe no Espiritismo com a luz que imaginamos deter, ostentando qualidades que começamos a desenvolver primariamente. 

Cegos para nossa real condição, mesmos cansados de sofrer, ainda queremos ser quem não somos, razão pela qual somente no espírito da lídima humildade as almas que se arrependeram encontrarão descanso e um pouco de paz interior. 

Por isso não permitamos nos enganar com virtudes que ainda não conquistamos, guardando a certeza de que evitar o mal é uma parte do retorno para Deus, porque o que realmente nos conferirá autoridade e paz perante a consciência será o volume e a qualidade do bem que fizermos o quanto antes.

Em Lucas, capítulo 15, v. 7, O Sábio Nazareno enalteceu a conquista do arrependimento dessa forma: "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento".

Ave a humildade! Lembrai-vos disso, todos os que se encontram em luta sob o guante das dores psíquicas.

(Do Livro "Mereça Ser Feliz, Superando as Ilusões do Orgulho" - Wanderley S. de Oliveira/Ermance Dufaux).


Clique aqui para ler mais: http://www.forumespirita.net/fe/mensagens-de-animo/tracos-do-arrependimento-'mereca-ser-feliz'-espirito-ermance-dufaux/#ixzz1d4KXWVwS

Fazendo o bem - Célia Xavier Camargo





         Durante uma aula de Evangelização, entre todas as coisas que a professora falou, Bentinho gravou mentalmente de modo especial que todos temos tarefas a cumprir e que devemos sempre fazer o bem aos outros.

         Bentinho, garoto esperto e inteligente, ouviu e guardou dentro do coração as palavras da professora.

         No dia seguinte, no horário do recreio, viu uma colega tentando resolver um problema de matemática. Bentinho lembrou-se do que a professora tinha dito e não teve dúvidas, parou e, como tinha facilidade para matemática, em poucos minutos resolveu a questão.

         A garota agradeceu, encantada, e Bentinho afastou-se satisfeito, pensando: Fiz a minha primeira boa ação do dia.

         Na saída da escola, passou por uma casa onde um garotinho tentava empinar uma pipa sem muito sucesso. Num impulso, aproximou-se e, tomando o brinquedo das mãos do menino, rapidamente colocou a pipa no céu.

         O garoto agradeceu, surpreso, segurando o carretel de linha que mantinha a pipa no ar, e Bentinho prosseguiu seu caminho sentindo-se cada vez melhor. Fizera sua segunda boa ação do dia e um grande bem-estar o inundava por dentro.

         Mais adiante, pouco antes de chegar a sua casa, viu um menino abaixado junto a uma bicicleta. Aproximou-se e percebeu que ele estava com problemas. A corrente tinha saído do lugar. Imediatamente, Bentinho ajoelhou-se e, com presteza, arrumou a corrente. O menino agradeceu e foi embora.

         Bentinho entrou em casa todo orgulhoso.

         Contou à mãe o que tinha feito naquela manhã e ela deu-lhe os parabéns pela ajuda às três crianças. Depois, perguntou:

         — E agora? O que pretende fazer, meu filho?

         — Vou almoçar e depois ficarei lá fora vendo se posso ajudar mais alguém hoje.

         A mãe escutou e não disse nada.

         Depois do almoço Bentinho ficou no portão, esperando o que ia acontecer.

         Mais tarde, ele voltou para casa, satisfeito, e contou para a mãe:

         — Mamãe, ajudei uma senhora a atravessar a rua. Depois, ajudei o carteiro a entregar todas as correspondências.

         Bentinho parou de falar, sorriu e concluiu cheio de orgulho:

         — Estou exausto, mas muito feliz, mamãe. Agora vou tomar um banho, jantar e dormir.

         A mãe olhou-o com seriedade e considerou:

         — Bentinho, muito louvável seu desejo de ajudar as pessoas, meu filho. Todavia, e suas tarefas, quem fará?

         Bentinho arregalou os olhos, como se só naquele momento tivesse se lembrado de seus deveres.

         — Mas, mamãe... — gaguejou, decepcionado —, achei que estava fazendo a coisa certa!

         — Sim, meu filho. Só que ajudar aos outros é algo mais que podemos fazer, sem esquecer nossas próprias obrigações. A professora não disse que todos têm suas tarefas a cumprir?

         — É verdade. E agora?

         — Agora, você tem os deveres da escola para fazer, o quarto para arrumar, os brinquedos para guardar. Ah! E ainda ficou de consertar a bicicleta de seu irmão, lembra-se?

         — Mas já é tarde! — reclamou o garoto.

         — Não é tão tarde assim. Você ainda tem algum tempo antes do jantar.

         Vendo que a mãe estava irredutível, Bentinho baixou a cabeça e foi cumprir suas obrigações. Em seguida, tomou banho e jantou. Depois da refeição, extremamente cansado, foi logo dormir.

         A mãe entrou no quarto para fazer a oração com ele.

         Sentou-se na beirada da cama e, acariciando os cabelos do filho, disse:

         — Meu filho, eu estou muito orgulhosa de você hoje. Fez a coisa certa ajudando às pessoas. Só que, no impulso de ser útil, não podemos ultrapassar o limite da ajuda realizando a tarefa pelo outro.

         — Como assim, mamãe?

         — Por exemplo. Fazendo a tarefa de matemática para sua colega, você a impediu de aprender. O mais correto seria tê-la ensinado a resolver o problema. Entendeu?

         — Entendi, mamãe. Quer dizer que eu poderia ter ajudado o garotinho a empinar a pipa, mas não a fazê-lo por ele, não é? Assim também com o garoto da bicicleta. Se eu o tivesse ensinado a colocar a corrente, em outra ocasião ele saberia fazer isso sozinho. E o carteiro?

         — A questão do carteiro é mais complexa, meu filho. A responsabilidade por entregar a correspondência pertence a ele. O carteiro ganha para isso. E se você tivesse feito algo errado? Como entregar uma correspondência importante em endereço diferente? Ou se perdesse uma carta? A responsabilidade seria dele e ele sofreria as consequências.

         — Tem razão, mamãe. Mas acho que agi bem quando ajudei a senhora a atravessar a rua.

         — Exatamente, meu filho, embora tudo o que você fez hoje tenha sido bom. Só não devemos tirar a oportunidade das pessoas de aprenderem fazendo suas obrigações.

         — Nem de nos esquecermos de fazer as nossas!

         Bentinho estava contente. Tinha sido um dia diferente e muito produtivo.

         Abraçou a mãezinha com amor, e, juntos, fizeram uma prece a Jesus, gratos pelas lições daquele dia.
Tia Célia
Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita 

SÓ O BEM REPARA O MAL - Ermance Dufaux

SÓ O BEM REPARA O MAL

"INDETERMINADA É A DURAÇÃO DO CASTIGO, PARA QUALQUER FALTA;
FICA SUBORDINADA AO ARREPENDIMENTO DO CULPADO E AO SEU RE-
TORNO A SENDA DO BEM." E.S.E. CAPÍTULO 27, ÍTEM 21.


O desejo do progresso é princípio ativo em todas as almas, induzindo a vontade para a ascensão nos domínios da evolução. Embora faça parte do processo natural de aperfeiçoamento individual em todo ser humano, esse desejo toma conotações bem específicas, conforme natureza das provas vividas na erraticidade. Quanto mais dor e decepção no interregno entre as reencarnações, mais profundos anseios de mudança integrarão as aspiraçõe desse coração em plena Terra, determinando alguns traço psicológicos. Esse desejo é mais intenso naqueles que já regressaram arrependidos ao corpo físico.


Na verdade, todos retornamos ao carreiro físico com certo nível de arrependimento que intensifica esse anseio de melhora e reparação. Assim sendo, volve-se ao corpo carnal com o olvido temporário dessas recordações, mas com expressiva soma de ideais de renovação, sustentado por esse "piso psicológico do remorso dinâmico", nos recessos da vida mental. Isso determina os motivos pelos quais para uns a reforma Íntima é tão essencial em relação aos vários objetivos da existência, todavia, igualmente explica a causa de tantos sentimentos que levam o homem ao sofrimento, quando ainda estagia no remorso sem o buril da vontade ativa de reparar suas faltas.


Particularmente, a maioria de nós, que somos atraídos para a necessidade imperiosa de renovação perante a vida nas linhas do bem, quando no retorno à escola terrena , carreamos na intimidade uma pulsante aspiração de transformarmos, em razão das angústias experimentadas pelas duras revelações descerradas pela desencarnação.


O traço psicológico característico desse quadro é um forte sentimento de cobrança conosco mesmo. Isso exerce uma pressão psíquica, facilmente percebida por vários incômodos durante todas as etapas da existência carnal, desde a infância até a velhice, somente atenuáveis pelo exercício do amor que modifica as paisagens da dor, através da edificação dos beneplácitos do bem aplicado e sentido.


Nesse torvelinho do "sistema psíquico de cobranças", provocadas pelo "estado de arrependimento", surgem dores emocionais profundas - sintomas de almas em crescimento. Depressão e baixa auto-estima, insegurança e ansiedade muito freqüentemente são "angústias do aperfeiçoamento", são alguns dos "castigos" a que se refere o Mestre Rivail, quando diz: "Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta;" a marca mais saliente de suas manifestações pode ir desde uma suportável perturbação no halo energético da criatura, através de purgação moderada ou mesmo de descargas eletromagnéticas de intenso teor deletério, das distonias comuns da neurose, até ao câncer, a esquizofrenia, a artrite reumatóide, as ulcerações fulminantes, a AIDS, ao desequilíbrio glandular e neuroquímico-cerebral, causando parafrenias, paranóias e atrofia na saúde mental.


Outro "castigo psicológico" muito freqüente é a inquietude interior, expressada em forma de contínua preocupação nascida do "nada", sem utilidade racional ou explicável- reflexos típicos de reajustamento do espírito que se despe pouco a pouco do monturo de suas faltas.


Preciso se esclareça que não temos uma "caixinha de sentimentos guardados do passado". Sentimento é algo vivido no presente. Não existe sentimento de culpa arquivado, existe morbo psíquico acumulado como resultado das "feridas conscienciais" que se espraiam para o corpo, transformando-o em um "dreno".


Todo esse processo de desajuste pode fixar, de forma mais acentuada no psiquismo ou no cosmo biológico, os reflexos de sua ação, criando em muitos casos o encontro de ambas as perturbações, quando não há reações favoráveis à recuperação da paz interior.


A cobrança é o estado de incômodo permanente criado pela presença quase contínua desse morbo psíquico no halo de energias sutis da mente, impedindo o fluxo natural das correntes da saúde, da harmonia e do amor a si. É como se fossem "doses controladas" ou um "expurgo dirigido".


Conquanto dolorosa, essa é a forma pela qual a alma resgata o vínculo entre sentimento e consciência, "rompido" pela artimanha aprendida de negar sentimentos para não "escutar" os alvitres da "voz interior". Nunca enganamos a consciência, porque ela é o tribunal infalível da Verdade em nós. No entanto, desenvolvemos ao longo de milênios a "capacidade" de negar os sentimentos que ela nos envia, como sendo suas mensagens dirigidas ao bem. O coração é o espelho da consciência. Pelo que sentimos identificamos os apelos da consciência em favor do nosso progresso. Recusando reincidentemente, em séculos de rebeldia, os seus alvitres pelas vias do sentir, estabelecemos o que nomeamos como "cristalização de afeto", um desajuste nos reinos da vida mental que causa inúmeros transtornos psiquiátricos.


Arrepender-se é criar um elo entre o que sentimos e a "voz de Deus" na intimidade. E somente um sentimento será capaz de consolidar esse resgate: o amor. Sem amor não existirá transformação para melhor. O auto-amor é base da mudança pessoal. Somente amando-nos venceremos a severidade com nossas imperfeições escapando das garras da culpa e do perfeccionismo. Somente amando-nos permitiremos a alegria com pequenas vitórias de cada dia, acostumando a valorizar nossos esforços na aquisição do otimismo e da motivação para prosseguir. Somente amando-nos encontraremos estímulos para caminhar um tanto mais.


Arrependimento é via de redenção e ao mesmo tempo "castigo" para almas em reeducação. Os arrependidos, conquanto a caminho da recuperação de si mesmos, experimentam larga dificuldade na auto-aceitação, cobram severamente de si em razão do sistema autopunitivo implantado pelo "morbo de culpa" agregado ao seu campo áurico e perispiritual, em mutações vibratórias similares a descargas de alta voltagem. Uma insatisfação incessante, eis a faceta mais traduzível desse processo curativo do Espírito. Esse quantum energético enfermiço é um dos fatores causais da desamornia dos neurotransmissores da química cerebral, como a serotonina e a noradrenalina.


Mesmo em desacordo com as definições da filosofia e da psicologia humanas, tratamos aqui do arrependimento como sendo a "nossa maior conquista", uma "virtude", e não somente um estado mental passageiro que decorre de atitudes equivocadas. É uma questão de decisão profunda para quem atingiu a saturação nas más escolhas que fez, repetidamente em desacerto com as Leis Divinas. É uma "virtude" porque se trata de uma vitória substancial para que a alma, arraigada nos tormentos da ilusão, possa libertar-se dos resultados infelizes de suas atitudes milenares.


Por essa razão costumamos assinalar que para nós, criaturas em linha inicial de consciência e maturidade, especialmente para nós que abraçamos a causa espírita, nossa única qualidade é a de almas que nos arrependemos do mal e desejamos ardentemente o bem.


Que qualidade desenvolvemos senão a de cansarmos do mal deliberado? Que condição seria capaz de endossar o retorno à vida corporal, senão o desesperado anseio de recomeçar e refazer ações? Por que então o encanto ou delírio com traços sublimes que ainda não galgamos?


Acordemos para a Verdade espiritual que nos cerca e promovamos nosso distanciamento das ilusões de grandeza, as quais têm avassalado os conceitos sociais humanos que não asseguram sossego e luz ao coração cansado e sofrido por erros atrozes.


Sem medo, vergonha ou culpa, verifiquemos os quistos morais que fomos chamados a extirpar, e não nos sintamos diminuídos ou desvalorizados em razão dessa inadiável viagem de encontro ao "eu superior".


Conforme elucida Kardec: "Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito."


Aqui chegamos a um ponto clímax de nossa reflexão. Somente arrepender não basta, é preciso realizar. Somente estagiar no desejo de melhora não é suficiente para equilíbrio, é mister agir na construção do bem. A reforma efetiva de nós mesmos depende de trabalho e obras.


Evitar o mal é a parcela inicial de um processo renovador. Fazer o bem é a etapa que vem a seguir, pela construção do bem em nós mesmos. Só o bem construido em ações pode ser sentido pelo coração, e somente sob tutela das suas ondas renovadoras a alma, em ambos planos existenciais, poderá talhar valores com mais intensidade no imo de si mesma. Vemos assim o valor incomparável das atividades doutrinárias de amor nos serviços sociais e nas práticas de espiritualização da doutrina espírita. No campo fértil dos estímulos de elevação, seja pelo estudo ou pela caridade sentida, o homem se ilumina e arregimenta forças sutis que o impulsionarão a mudanças profundas no reino da vida interior, as quais nem ele próprio, a princípio, terá como aquilatar.


"A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetico exclusivamente pessoa! " (O Livro dos Espíritos, q.1000)


"Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais." (O Livro dos Espíritos, q.1000)


O arrependimento é nossa maior conquista, porque através dele já estamos procurando a reparação pelo labor no bem e pela reeducação dos costumes. Somente dessa forma somos capazes de vencer um dia após o outro, sem desanimarmos da oportuna semeadura de amor que começamos a plantar, independente das tormentas interiores provocadas pelo bisturi das "dores emocionais" que venhamos a experimentar.


Só o bem repara o mal. Só o bem nos dará energias essenciais para continuar.


Concluímos, portanto, que lutar e tentar, errar e recomeçar fazem parte da longa caminhada regenerativa, e somente uma atitude pode fazer com que o arrependimento transforme-se em loucura ou perturbação, fracasso ou queda: a desistência de tentar, pois assim transformaremos o arrependimento impulsionador em remorso estagnante e tortura mental a caminho do desajuste ...


Trabalhemos incessantemente pelo bem.


E se algum de nós ainda nutre dúvida sobre o que seja o bem, guardemos a eloquente e universal fala do Espírito Verdade:


"Jesus disse: vede o que queríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis. (O Livro dos Espíritos, q. 632)


Espírito Ermance Dufaux

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O SUICIDA DO TREM


(História contada por Divaldo Franco)


Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio terrível, que me impactou: um homem jogou-se sobre a linha férrea, sob os vagões da locomotiva e foi triturado. E o jornal, com todo o estardalhaço, contava a tragédia, dizendo que aquele era um pai de dez filhos, um operário modesto.

Aquilo me impressionou tanto que resolvi orar por esse homem.

Tenho uma cadernetinha para anotar nomes de pessoas necessitadas. Eu vou orando por elas e, de vez em quando, digo: se este aqui já evoluiu, vou dar o seu lugar para outro; não posso fazer mais.

Assim, coloquei-lhe o nome na minha caderneta de preces especiais - as preces que faço pela madrugada. Da minha janela eu vejo uma estrela e acompanho o seu ciclo; então, fico orando, olhando para ela, conversando. Somos muito amigos, já faz muitos anos. Ela é paciente, sempre aparece no mesmo lugar e desaparece no outro.

Comecei a orar por esse homem desconhecido. Fazia a minha prece, intercedia, dava uma de advogado, e dizia: Meu Jesus, quem se mata (como dizia minha mãe) "não está com o juízo no lugar". Vai ver que ele nem quis se matar; foram as circunstâncias. Orava e pedia, dedicando-lhe mais de cinco minutos (e eu tenho uma fila bem grande), mas esse era especial.

Passaram-se quase quinze anos e eu orando por ele diariamente, onde quer que estivesse.

Um dia, eu tive um problema que me fez sofrer muito. Nessa noite cheguei à janela para conversar com a minha estrela e não pude orar. Não estava em condições de interceder pelos outros. Encontrava-me com uma grande vontade de chorar; mas, sou muito difícil de fazê-lo por fora, aprendi a chorar por dentro. Fico aflito, experimento a dor, e as lágrimas não saem. (Eu tenho uma grande inveja de quem chora aquelas lágrimas enormes, volumosas, que não consigo verter).

Daí a pouco a emoção foi-me tomando e, quando me dei conta, chorava.

Nesse ínterim, entrou um Espírito e me perguntou:

- Por que você está chorando?

- Ah! Meu irmão - respondi - hoje estou com muita vontade de chorar, porque sofro um problema grave e, como não tenho a quem me queixar, porquanto eu vivo para consolar os outros, não lhes posso contar os meus sofrimentos. Além do mais, não tenho esse direito; aprendi a não reclamar e não me estou queixando.

O Espírito retrucou:

- Divaldo, e seu eu lhe pedir para que você não chore, o que é que você fará?

- Hoje nem me peça. Porque é o único dia que eu consegui fazê-lo. Deixe-me chorar!

- Não faça isto - pediu. - Se você chorar eu também chorarei muito.

- Mas por que você vai chorar? - perguntei-lhe.

- Porque eu gosto muito de você. Eu amo muito a você e amo por amor.

Como é natural, fiquei muito contente com o que ele me dizia.

- Você me inspira muita ternura - prosseguiu - e o amo por gratidão. Há muitos anos eu me joguei embaixo das rodas de um trem. E não há como definir a sensação da eterna tragédia. Eu ouvia o trem apitar, via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as rodas me triturando, sem terminar nunca e sem nunca morrer. Quando acabava de passar, quando eu ia respirar, escutava o apito e começava tudo outra vez, eternamente. Até que um dia escutei alguém chamar pelo meu nome. Fê-lo com tanto amor, que aquilo me aliviou por um segundo, pois o sofrimento logo voltou. Mais tarde, novamente, ouvi alguém chamar por mim. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava, eu conseguia respirar, para aguentar aquele morrer que nunca morria e não sei lhe dizer o tempo que passou. Transcorreu muito tempo mesmo, até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem, para escutar a pessoa que me chamava. Dei-me conta, então, que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. Lembrei-me de Deus, de minha mãe, que já havia morrido. Comecei a refletir que eu não tinha o direito de ter feito aquilo, passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal. Ele não quis matar-se." Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu; aí eu vi você nesta janela, chamando por mim.

- Eu perguntei - continuou o Espírito - quem é? Quem está pedindo a Deus por mim, com tanto carinho, com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me:

- É uma alma que ora pelos desgraçados.

- Comovi-me, chorei muito e a partir daí passei a vir aqui, sempre que você me chamava pelo nome.

(Note que eu nunca o vira, face às diferenças vibratórias.)

- Quando adquiri a consciência total - prosseguiu ele - já se haviam passado mais de catorze anos. Lembrei-me de minha família e fui à minha casa. Encontrei a esposa blasfemando, injuriando-me: "- Aquele desgraçado desertou, reduzindo-nos à mais terrível miséria. A minha filha é hoje uma perdida, porque não teve comida e nem paz e foi-se vender para tê-los. Meu filho é um bandido, porque teve um pai egoísta, que se matou para não enfrentar a responsabilidade.

Deixando-nos, ele nos reduziu a esse estado."

- Senti-lhe o ódio terrível. Depois, fui atraído à minha filha, num destes lugares miseráveis, onde ela estava exposta como mercadoria. Fui visitar meu filho na cadeia.

- Divaldo - falou-me emocionado - aí eu comecei a somar às "dores físicas" a dor moral, dos danos que o meu suicídio trouxe. Porque o suicida não responde só pelo gesto, pelo ato da autodestruição, mas, também, por toda uma onda de efeitos que decorrem do seu ato insensato, sendo tudo isto lançado a seu débito na lei de responsabilidades. Além de você, mais ninguém orava, ninguém tinha dó de mim, só você, um estranho. Então hoje, que você está sofrendo, eu lhe venho pedir: em nome de todos nós, os infelizes, não sofra! Porque se você entristecer, o que será de nós, os que somos permanentemente tristes? Se você agora chora, que será de nós, que estamos aprendendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito de sofrer, pelo menos por nós, e por amor a nós, não sofra mais.

Aproximou-se, me deu um abraço, encostou a cabeça no meu ombro e chorou demoradamente. Doridamente, ele chorou.

Igualmente emocionado, falei-lhe:

- Perdoe-me, mas eu não esperava comovê-lo.

- São lágrimas de felicidade. Pela primeira vez, eu sou feliz, porque agora eu me posso reabilitar. Estou aprendendo a consolar alguém. E a primeira pessoa a quem eu consolo é você.

Transcrito do livro "O Semeador de Estrelas", de Suely Caldas Schubert, Ed. Alvorada