Estudando o Espiritismo

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sábado, 22 de agosto de 2015

A fatalidade da morte - Joanna de Ângelis

O fenômeno biológico da morte faz parte do equivalente em relação ao nascimento: aglutinação de moléculas que se reúnem e se desarticulam quando ocorre a anóxia cerebral.

Pode-se afirmar, no entanto, que o oposto de morte não é vida, mas renascimento, como afirmou Buda, porquanto, sempre se está na vida, quer no corpo físico, quer no corpo espiritual.

Sendo o Self mortal e imortal na visão transcendente de Jung, ei-lo transferindo-se de vibração, pelo fenômeno da morte, ou mergulhando no corpo através do impositivo da reencarnação.

A morte é, portanto, o término do fenômeno biológico, encerramento de uma etapa orgânica, na qual todos os elementos constitutivos do corpo físico se diluem e se transformam sob a ação poderosa da química presente em a Natureza...

Desse modo, o significado psicológico mais valioso da existência corporal é a conquista valiosa da imortalidade, na qual se está mergulhado, mas que se torna lúcida e plena após a desencarnação.

Nesse período, após a ocorrência breve ou longa de obnubilação da consciência, agora sem o envoltório cerebral, o ser, lentamente, de acordo com as suas construções morais e mentais, retorna ao estágio de energia ou princípio inteligente, sem as intercorrências do aprisionamento no casulo material.

A jornada humana no corpo deve constituir a meta plena para o reencontro com a vida total. Portanto, todos os investimentos mentais, morais e psicológicos necessitam voltar-se para essa realidade, tendo em vista a impermanência do corpo físico.

Considerando-se a imortalidade como a grande meta, definitiva, cada instante da viagem corporal representa oportunidade valiosa de crescimento iluminativo, investimento psicológico precioso para a conquista da saúde integral, aquela que procede do interior para o exterior.

Esse nascer e morrer na esfera física propicia ao Espírito a conquista da incomparável plenitude, etapa a etapa, conforme responderam os Benfeitores espirituais a uma indagação de Allan Kardec, demonstrando que tudo evolve no Universo: ...É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo... (*)

Desde os primórdios do Self, quando surge nas formas primárias, o seu despertamento ocorre através do encadeamento das experiências carnais, em sucessivos renascimentos corporais, permitindo que se agigantem a pouco e pouco as potencialidades nele adormecidas, que são inerentes à Divindade da qual procede...

Não fosse dessa forma, a existência corporal, em razão da sua brevidade, não teria o menor sentido de lógica ou de finalidade, quando se considera o tempo indimensional e o infinito, logo dissolvendo-se o pensamento no nada, no aniquilamento. A sobrevivência do ser espiritual é crucial para que a vida física tenha justificativa e sentido psicológico.

Que o digam aqueles que nasceram sob injunções coercitivas dos sofrimentos quase inconcebíveis, sem lhes haver concedido direito à comunicação, ao pensamento, à razão...

Muitos outros, atrelados às necessidades socioeconômicas, dão início às existências nas palhas da miséria e transitam nos meios escabrosos onde vivem sem a mínima claridade do amor, nem da solidariedade, misturando-se o crime com a adversidade...

Incontáveis seres que deliram na loucura sob maltratos inumanos, enquanto inúmeros atoleimados perdem-se nos descaminhos do esquecimento humano...

Ocorrências cruéis sucedem com indivíduos portadores de inteligência e de beleza, mas que pertencem a etnias e raças consideradas inferiores, sendo obrigados a sorver o amargo fel do preconceito e da perseguição inclementes.

Sucessos e insucessos de toda ordem afetam as criaturas humanas, como se fossem frágeis marionetes ao capricho do absurdo, que se manifesta inesperadamente, a uns elevando ao êxtase da felicidade e a outros, ao abismo da miséria e do abandono.

Gênios do pensamento e da arte, da ciência e da cultura, repentinamente são vítimas de fenômenos infelizes e vencidos por acidentes vasculares cerebrais, perdem o contato com o mundo de beleza a que se acostumaram ou que edificaram e não mais o podem fruir.

Igualmente sucedem, a cada instante, a incontáveis pessoas, outros tipos de acidentes automotores, choques e quedas, incêndios e desabamentos nos quais os sentidos físicos são danificados, quando não deixam sequelas profundas na psique, que se desconecta da realidade e foge para o olvido de si mesmo ou para os delírios sem sentido das alucinações...

Considerando-se que a presença do sofrimento em todos os segmentos da sociedade é normal, qual seria, então, o sentido da vida, além disso?

Nada obstante, o ser espiritual, vencedor de mil embates, em cada dolorosa vivência aprimora-se mais, adquire mecanismos de defesa, robustece a confiança nos valores ético-morais, experiencia as gloriosas possibilidades que lhe dormem no íntimo.

Herdeiro das próprias realizações, é o artífice da saúde e da doença, da sabedoria e da ignorância, responsável pela sombra, pelo anima-us, pelo ego que se devem fundir num eixo equilibrado com o Self, que os precede e os sobrevive.

O prosseguimento da inteligência e do pensamento além da esfera carnal, representa o mais extraordinário sentido existencial, pelo abarcar de todas as expressões da emotividade e dos outros demais sentimentos.

Tendo-se em mira esse significado, mais exequível se torna viver, seja em qual situação ou circunstância for, por saber-se que é temporária e breve a jornada carnal, portadora de finalidade educativa, psicoterapêutica, responsável pelo engrandecimento do si-mesmo.

Com esse equipamento, a certeza da imortalidade faculta que todos os fenômenos humanos adquiram lógica e possam ser compreendidos como edificantes, portadores de futuro bem-estar e de harmonia.

Atavicamente, porém, o medo da morte e do aniquilamento permanece como um arquétipo terrível e ameaçador, herança do período da caverna, quando ocorria o fenômeno que não era interpretado pelo homem primitivo, que via o outro ser decompor-se, tresandar podridão e não mais voltar ao convívio... Sem a capacidade de discernir, o culto do sepultamento desenhou-se-lhe no Self, dando lugar às superstições compatíveis com o nível evolutivo e gerando no inconsciente profundo o horror da ocorrência não compreendida.

Apesar disso, foi na intimidade dessa mesma caverna que as almas aflitas ou não daqueles que sucumbiam ao fenômeno da morte, retornavam, apavorando ou aparentando poder, que proporcionaria ao pensamento mítico a concepção dos deuses, iniciando-se lentamente a compreensão da existência post-mortem e dos gênios bons e maus, dos deuses nobres e viciosos...

A longa jornada atinge, na atualidade, a concepção da Divindade fora dos padrões convencionais em forma de objetivações materiais, apresentando-se como a Causa Incausada, a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas...

A morte, portanto, ao invés de temerária, é o veículo que conduz o ser imortal ao seu destino, proporcionando-lhe, quando terminados os renascimentos carnais, a total conquista do Self, do numinoso, da individuação, da felicidade plena e sem jaça.

Por fim, como escreveu Jung estudando e observando idosos na quadra terminal: ...a psique inconsciente faz pouquíssimo caso da morte.

Prosseguindo, ainda, no tema, elucidou: É necessário, pois, que a morte seja alguma coisa relativamente não essencial... A essência da psique estende-se na obscuridade muito além das nossas categorias intelectuais.

O encontro com a verdade liberta o ser da ignorância e integra-o totalmente na vida.

Desse modo a busca da verdade não deve cessar, pois a cada instante ei-la que se apresenta grandiosa e deslumbrante.

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
( Paulo aos Coríntios 1:15-55)

(*) Questão 540 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. 29 a  edição da FEB. Nota da autora espiritual.