Estudando o Espiritismo

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sábado, 12 de novembro de 2016

Tolerância é uma palavra feia

http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2016/01/31/tolerancia-e-uma-palavra-feia/

 Marcus Vinicius de Azevedo Braga

marcus-braga

Tolerância é uma palavra feia…Lembra algo do tipo “aceito por que não tem jeito, né”. Prefiro a palavra respeito, que lembra convivência pacífica e compreensão da pluralidade, como é a nossa sociedade, de pessoas, povos e ideias diferentes. Basta olharmos o mundo e a história dos homens encarnados e veremos isso.  Jesus, em sua mensagem, pregava o amor, o sentimento mais universalizante possível, pois é acessível a todos em todas as eras, sem segregações.

De forma depressiva termina o mês de janeiro de 2016, pleno Século XXI, com o homem pensando em colonizar Marte, pois presenciamos no Jornal o incêndio com indícios criminosos em mais uma Casa Espírita, agora em uma área carente de Sobradinho, na Capital federal. Não se trata de fato isolado, com reportes de ocorrências recentes, envolvendo espíritas e nossos irmãos de cultos afro-brasileiros, relembrando os tempos pouco democráticos na história de nosso país, na qual espíritas tinham suas reuniões monitoradas e eram fichados na polícia. Me pergunto se alguém acha que numericamente ou ideologicamente pertencemos, como espíritas, a crença hegemônica? Kardec foi um contestador de paradigmas vigentes!

Não alimentemos essa doce ilusão. Da caixinha que sai essa chamada intolerância religiosa, brotam as agressões de cunho racial, a violência por conta de orientação sexual, os linchamentos, a invisibilidade dos deficientes, os preconceitos de classe social, as piadas de aparência, o antissemitismo e toda sorte de manifestações que nos afastam do sentimento humanista e de fraternidade universal, que anda ladeado com a ideia de pluralidade e respeito. Mais que tolerar, respeitar é um ato de amor.

Para entender esse cenário, precisamos mergulhar no pandemônio em que nos vemos inseridos atualmente. Vivemos em um período recente de pluralização do acesso a informação e mais, dos produtores de conteúdo, em um mundo que viveu algumas décadas de relativa estabilidade e de acréscimo de consumo as vidas cotidianas, após as tensões de conflitos e da guerra fria. No início de 2010, com acenos de crises mundiais e arranjos geopolíticos, o mundo começou a se agitar de novo, como épocas que havíamos esquecido.

Essa agitação, seguida de em um clima de liberdade no chamado pós modernismo, no qual crenças e hábitos são rapidamente desconstituídos, em um mundo que se torna irreconhecível em menos de uma geração, gerou nas pessoas o medo, um pai zeloso do ódio. Surgem agitações, ao som de pandeiros, na busca por direitos, na contestação frente as dificuldades e problemas, como é habitual da vida política e toda essa agitação movimenta energias, de cá e de lá, causando choques, bandeiras e manipulação, em jogos de manutenção de poder, de luta por mudanças, apimentado pela falta de confiança no homem, santo de pé de barro que vê seu lado pior mostrado nos shows dos telejornais.

Nesse contexto, de medo e de desconfiança, emerge da carteira das soluções imediatas movimentos ligados a chamada pauta conservadora, na qual essa profusão anterior de mudanças e quebra de paradigmas é vista como ofensa e causa da desordem estabelecida, personificando grupos e pessoas como causa de nossas mazelas, de um mundo que adolesce e não se entende em conflito. Daí, materializam-se cenas de ódio e agressão no cotidiano, temperado pela facilidade das chamadas redes sociais, em ações orquestradas e conexas, ainda que oriundas de diferentes agentes.

Confundimos meritocracia com falta de compaixão, justiça com ódio, diferenças com ofensa, colhendo as fraturas da globalização que foi mais econômica do que cultural. Com isso abrem-se caixas de pandora, que espalham a loucura em nossas manchetes, com a paranoia e a síndrome de perseguição alimentando relações desumanizadas, em explosões de ódio, tiros e surras.

Por isso, não nos espantemos de agressão a grupos de religiões minoritárias como a nossa. Não fiquemos estarrecidos por esse sentimento *antipanrreligioso que domina as pessoas, pois dentro desse contexto, é plenamente explicável o que está acontecendo. É tudo uma decorrência de uma grande agitação, desse grande pandemônio, que não se restringe ao Brasil e que vem sendo gestado por força de nossas imperfeições e de interesses de toda natureza.

O falso moralismo, a hipocrisia, a forma sobre o conteúdo, o burocratismo, a opressão, a busca do discurso em relação à ação, apresentam-se todos esses como porto seguro diante desse mundo em mudança acentuada e visível. Buscamos um inimigo, um lúcifer para descarregar nossas mazelas de espírito encarnado, como um narciso cego, que se admira e se oculta e que rechaça tudo aquilo que é diferente ou que não entende.

Diante dessa agitação, dessas guerras santas, vale relembrar a lição evangélica da outra face, e do amor que cobre a multidão de pecados. Insta a nós espíritas não jogarmos mais querosene nesse incêndio, personificando situações na multiplicação do ódio. Para curar o ódio, só o amor, e seus irmãos, o respeito e a compreensão.

Nos pautamos por um pedagogo que teve seus livros queimados e por um crucificado, e como espíritas já fomos xingados, objeto de piadas e somente em tempos recentes passamos a ser vistos com outros olhos nas falas, figurando em telenovelas com destaque. Não caiamos nas balelas de coisas sagradas ou povos eleitos, pois como disse Leon Denis, o Espiritismo não será a religião do futuro e sim o futuro das religiões, ou seja, influenciaremos positivamente a religião e para isso não precisamos entrar em disputas por espaços políticos ou na sanha de obter adeptos pelo proselitismo.

Esse frenesi deve ser olhado por espíritas como espíritas, com a nossa fé raciocinada, percebendo que postura nos é demandada nesse momento. Queremos o incentivo a intolerância ou o cultivo, de forma integral em nossa vida, ao respeito? A religião, na sua prática atual, necessita dar as mãos ao humanismo.

Marcus Vinícius de Azevedo Braga

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Nota do autor:
* Antipanreligioso – neologismo do autor que se refere a um sentimento generalizado de não aceitação da pluralidade de crenças e da necessidade de seu convívio harmônico.

Nota do editor:
Imagens do Centro Espírita Chão de Flores, incendiado na madrugada de sexta-feira, 29JAN2016, em Sobradinho II, região administrativa do Distrito Federal.
Imagem em destaque disponível em
<http://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/215151/Centro-Esp%C3%ADrita-%C3%A9-incendiado-no-Distrito-Federal.htm>.
Acesso em: 31JAN2016.

Jesus e tolerância

Jesus e tolerância

Em termos de psicologia profunda, a questão do julgamento das faltas alheias constitui um grave cometimento de desumanidade
em relação àquele que erra.
O problema do pecado pertence a quem o pratica, que se encontra,
a partir daí, incurso em doloroso processo de auto-flagelação, buscando, mesmo que inconscientemente, liberar-se da falta
que lhe pesa como culpa na economia da consciência.
A culpa é sombra perturbadora na personalidade,
responsável por enfermidades desprezíveis, causadoras
de desgraças de vária ordem.
Entalhada nos painéis profundos da individualidade, programa,
por automatismos, os processos reparadores para si mesma.
Toda contribuição de impiedade, mediante os julgamentos arbitrários, gera, por sua vez, mecanismos de futura aflição para o acusador.
Julgando as ações que considera incorretas no seu próximo, realiza um fenômeno de projeção da sua sombra em forma de auto-justificação, que não consegue libertá-lo do impositivo das suas próprias mazelas.
A tolerância, em razão disso, a todos se impõe como terapia pessoal
e fraternal, compreendendo as dificuldades do caído, enquanto lhe distende mãos generosas para o soerguer.
Na acusação, no julgamento dos erros alheios, deparamos com propósitos ocultos de vingança-prazer em constatar a fraqueza dos outros indivíduos, que sempre merecem a misericórdia que todos esperamos encontrar quando em circunstâncias equivalentes.
Jesus sempre foi severo na educação dos julgadores da conduta alheia. Certamente, há tribunais  e autoridades credenciadas para o
ministério de saneamento moral da sociedade, encarregados
dos processos que envolvem os delituosos.
E os julgam, estabelecendo os instrumentos reeducativos, jamais punitivos, pois que, se o fizessem, incidiriam em erros idênticos,
se não mais graves.
O julgamento pessoal, que ignora as causas dos problemas, demonstra o primitivismo moral do homem ainda "lobo" do seu irmão.
O Mestre estabeleceu a formosa imagem do homem que tem
uma trave dificultando-lhe a visão, e no entanto vê o cisco
no olho do seu próximo.
A proposta é rigorosa, portadora de claridade evidente, que não concede pauta a qualquer fuga de responsabilidade.
Ele próprio, diante da multidão aflita, equivocada, perversa, insana,
ao invés de a julgar, "tomou-se de compaixão" e ajudou-a.
Naturalmente não solucionou todos os problemas,
nem atendeu a todos, como eles o desejavam.
Apesar de tudo, compadecido, os amou, envolvendo-os em ternura
e ensinando-lhes as técnicas de libertação para adquirirem a paz.

Pensamento:

Tem compaixão por quem cai.
A consciência dele será o seu juiz.
Ajuda aquele que tomba.
Sua fraqueza já lhe constitui punição.
Tolera o infrator.
Ele é o teu futuro, caso não disponhas de forças para prosseguir bem.
A tolerância que utilizares para com os infelizes se transformará
na medida emocional de compaixão que receberás,
quando chegar a tua vez, já que ninguém é perfeito.

Redação do Momento Espírita

Reflexões sobre a tolerância

Desejo ainda que você seja tolerante;
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
você sirva de exemplo aos outros.
Vitor Hugo

Ainda restam muitas mostras de brutalidade na raça humana. Desde ambientes domésticos até as mais conturbadas relações internacionais, vemos comportamentos agressivos e violentos, e não somente produzindo ferimentos físicos, mas também, e com maior freqüência, gerando sérios danos emocionais e conseqüentemente espirituais.
Na base de todas essas ocorrências encontram-se ações humanas, o que nos leva a refletir no quanto ainda nos exige a tarefa de tolerar o outro! Quantas vezes, ainda, escorregamos em julgamentos e, por vezes, na mesma intransigência e violência, se não por atos, por palavras e pensamentos. Compreender o outro é sempre tão difícil. Afinal, por que ele tem que pensar de forma diferente? Por que tem que agir de uma forma que não me agrada? Por que tem tendências que eu abomino, não compreendo ou não aceito? São tantos os porquês que nos ocorrem em momentos de intolerância que por certo encheríamos várias páginas com eles.
Mas, o certo é que diferenças existem e precisamos aprender a ser e viver com tolerância, caso realmente aspiremos a ser dignos de nos dizermos cristãos.
Há alguns meses foi noticiado o caso de uma mulher acusada de adultério na Nigéria. Ela estava divorciada do primeiro marido e engravidou de um relacionamento posterior com outro homem. Segundo as leis vigentes naquela sociedade ela foi condenada a morte por apedrejamento. Cena idêntica nos relata o Evangelho de João:
“Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele dentre vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire a pedra. E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até os últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Ergueu-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe:
– Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.”
É a velha intolerância, matando pessoas e ferindo sentimentos nos tempos atuais, como matava e feria há dois mil anos. E os ensinos de Jesus, esquecidos.
A passagem da mulher adúltera me fala de tolerância, de comportamento tolerante com o próximo. O Mestre, enquanto ensinava, foi confrontado e atacado pela mesma intransigência e intolerância que os levava a acusar a mulher. Não toleravam os pensamentos e as atitudes de Jesus e o agrediam. Ante a primeira agressão, Jesus mostrou-se passivo. Então eles insistem até obterem uma reação - a resposta do atirem a primeira pedra quem estiver sem pecado.
Essa resposta traz a noção de igualdade, compreendida não só como não sermos puros isentos de erro, mas como seres que em situações absolutamente iguais, idênticas, tanto de ordem moral, material, mental, física, espiritual e evolutiva, procederíamos do mesmo modo, o que lhes retira a capacidade de condenar. Assim são as leis da matéria: em iguais condições os elementos químicos e físicos reagem da mesma forma; assim também as leis que regem o plano mental e as que vigoram nos domínios do Espírito, pois não há leis na Natureza que se contradigam umas as outras. Talvez por isso narra João que os velhos – ou os mais experientes e capazes de compreender esse conceito – foram os primeiros a se retirar, acusados pela própria consciência que os lembrava da lei de igualdade.
Ao responder-lhes Jesus exemplifica uma conduta tolerante ante aqueles que os confrontavam. Aliás, note-se que ele deixa claro que a passividade não é forma de tolerância, pois ela permite que a ação equivocada perdure.
Ao responder a segunda investida, dá exemplo de tolerância inspirada pela bondade, ou seja, a não olhar indiferente, nem a condenar o proceder alheio quando ele seja incorreto, inconveniente e possa lesar interesses morais e materiais, próprios ou estranhos, individuais ou coletivos, mas alertar o engano da conduta de forma caridosa, sem revidar agressão, lembrando para o futuro um comportamento mais saudável.
Não temos o direito de violentar a consciência de outrem, impondo-lhes maneiras de pensar e viver. A justificativa do anseio de ampliar ou desenvolver a consciência de alguém não serve, nem autoriza o uso da violência física ou verbal.
A tolerância não consiste na indiferença. Pode e deve a criatura ser tolerante em face das opiniões e condutas alheias, por mais opostas que sejam às suas próprias; ela prescreve o respeito às crenças, aos gostos e tendências dos outros, porém não nos impõe a omissão, o silêncio diante do que nos desagrade, ou seja compreendido de outro modo. O indivíduo tolerante exterioriza suas opiniões, eximindo-se de ser violento, pois compreende a necessidade de considerar os outros como a si mesmo e a fazer-lhes aquilo lhe possa convir. Se já consegue olhar um pouco além das ilusões da matéria e compreende a vida e a lei de evolução, sabe que:

“Na fonte, há lama; a rosa tem espinho;
O sol na eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o verme faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto",
William Shakespeare – Soneto 35.

TOLERÂNCIA E RESPEITO


Warwick Mota

A diversidade religiosa é uma das marcantes características culturais que assinala a humanidade. São milhares de denominações que definem religiões e seitas, reunindo, em todos os pontos da Terra, seguidores de todos os credos.

Essa pluralidade de crenças, em conjunto com a diversidade étnica, torna as relações entre os povos ainda mais complexas, sendo responsável por inenarráveis conflitos que envolvem o homem desde os primórdios.

Recentemente o Rio de Janeiro foi palco de um episódio de grande desrespeito e intolerância religiosa, com agressões verbais e apedrejamento de uma criança de apenas onze anos, conforme relata a revista Istoé, em nota cujo título é “Pedrada do preconceito” (1).

Neta de espírita e filha de evangélica, a estudante Kayllane Campos tem em sua casa uma amostra da saudável tolerância religiosa que existe no Rio de Janeiro, desde que o candomblé, vindo da África, ancorou no bairro carioca da Saúde em 1886 e nele abrigou os primeiros cultos organizados por Mãe Aninha, congregando diversas religiões. Nada tem a ver com a tradição do Rio de Janeiro, portanto, as covardes agressões que a adolescente Kayllane, 11 anos de idade, sofreu na semana passada devido à sua fé. Ela foi apedrejada por dois supostos evangélicos quando saía de um culto de candomblé, e novamente se tornou vítima de violência, dessa vez verbal, quando chegava ao IML para exame de corpo de delito – “macumbeira, macumbeira, vá queimar no inferno”, gritavam insistentemente algumas pessoas. “Quem tacou pedra é vândalo que se esconde atrás da palavra de Cristo”, diz Karina Coelho, a evangélica que é mãe da praticante do candomblé Kayllane. “Eu condeno as pessoas que feriram minha filha”.

O que leva o homem a manifestar esse comportamento? Por que a diversidade de credos paradoxalmente levanta contendas, quando as religiões deveriam ter, por princípios fundamentais, a ética da tolerância, a caridade, o respeito, o amor fraterno, a compreensão e a paz?

As contendas político-religiosas são antigas, e a história registra perseguições implacáveis, desrespeito aos direitos mais básicos do homem e execuções cruéis, como as relatadas no Antigo Testamento, que marcam a rivalidade entre os profetas de Baal e Elias(2). Em todos os momentos da história da humanidade está presente a concepção dualística, que tenta estruturar o mundo à semelhança de uma balança que oscila na eterna batalha entre o bem e o mal, ou entre o mito de Satã e Deus.

A Idade Média é pródiga na propugnação dessa ideia, e as cruzadas representam um marco desse pensamento, pois registram episódios sórdidos, como o impiedoso extermínio dos cátaros ou albigenses, que deixou marcas atrozes de uma perseguição insana, fundamentada nos interesses e preconceitos da Igreja antiga, a qual definiu o catarismo como heresia maniqueísta.

São muitos os episódios de intolerância religiosa ocorridos no período que compreendeu a Idade Média, culminando com o Tratado de Paz de Westphalia (região do norte da Alemanha) que veio laureado por um antigo princípio: cujus regio, eius religio (quem tem a região tem a religião). Esse princípio marca a assinatura do Tratado, ocorrido em 1648, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos, conflito que, por sua vez, teve por estopim a rivalidade política existente entre o Imperador Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico (católicos) e as cidades-Estado comerciais protestantes (luteranas e calvinistas) do norte da Alemanha, que fugiram ao seu controle.

A Paz de Westphalia garantiu, portanto, o direito de cada Estado manter seu regime e religião, sem interferência externa.

Esses acontecimentos, entretanto, não encerram os episódios de intolerância, embora tenham estabelecido o princípio de tolerância e liberdade religiosa.

Incomodado com essa questão, o filósofo jusnaturalista inglês, John Locke (1632 – 1704) resolve, em 1689, publicar uma carta acerca da intolerância (3), quando passa a defender a tolerância religiosa a partir da separação de Estado e Igreja, esclarecendo, de forma irrefutável, qual é o principal distintivo de uma verdadeira igreja, bem como o do verdadeiro homem de bem, digno de ser chamado cristão:

Se um homem possui todas aquelas coisas (bens materiais), mas lhe faltar caridade, brandura e boa vontade para com todos os homens, mesmo para com os que não forem cristãos, ele não corresponde ao que é um cristão.

E continua Locke, a nos ensinar acerca da tolerância religiosa:

Quem for descuidado com sua própria salvação dificilmente persuadirá o público de que está extremamente preocupado com a de outrem. Ninguém pode sinceramente lutar com toda a sua força para tornar outras pessoas cristãs, se não tiver realmente abraçado a religião cristã em seu próprio coração. Se se acredita no Evangelho e nos apóstolos, ninguém pode ser cristão sem caridade, e sem a fé que age, não pela força, mas pelo amor (4).

Os ensinamentos de John Locke corroboram com o pensamento de Allan Kardec, no resgate à aplicação da tolerância e do respeito, conforme lecionou o Mestre Jesus.

Fundamentado na ética do amor, que marca a mensagem do Cristo, o Codificador realça, com o ensino dos Espíritos, na mais pura acepção, o significado valorativo de tolerância e respeito, em O Livro dos Espíritos, quando fala da Lei de Igualdade (5). Esta Lei estabelece respeito como sendo uma atitude que consiste em não prejudicar alguém ou alguma coisa, evocando, assim, a regra de ouro que deveria nortear as relações entre os homens:

822. Sendo iguais perante a lei de Deus, devem os homens ser iguais também perante as leis humanas?

“O primeiro princípio de justiça é este: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem”.

O mestre lionês não apenas teoriza, mas exemplifica tolerância e respeito, ao superar com grandeza os ataques feitos ao Espiritismo, soprando, para bem distante, as cinzas do Auto de Barcelona, aconselhando-nos (6):

O Espiritismo se dirige aos que não creem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas, e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero, de qualquer comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa vontade; oferecei a luz aos que a procuram, porque com os que creem não sereis bem-sucedidos; não façais violência à fé de ninguém, muito mais quanto ao clero que aos seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde a luz em evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos da árvore e deles dai de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados.

Ao tratar da Constituição Transitória do Espiritismo (7), Kardec aproveita para enfatizar o tema respeito e tolerância, exprimindo argumentos que marcam a robustez da Doutrina Espírita:

Acrescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que constitui a base da moral espírita, lhe impõe como um dever respeitar todas as crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.

Fica-nos claro, portanto, que a tolerância exige o respeito à regra de ouro presente na Questão 822 de O Livro dos Espíritos, mas entendemos que ela não é suficiente por ter características de uma virtude passiva: é necessário ir além do tolerar. É preciso amar o próximo como recomenda Jesus, e romper com os limites que estabelecemos para apenar alguém, como estabelece Pedro, ao perguntar ao Mestre: “Quantas vezes devo perdoar meu irmão? Sete vezes?”.          

Sabemos que o excesso de tolerância leva à indiferença e a ausência da tolerância leva à intolerância, mas, quando respeitamos o próximo, nós o amamos, e o amar é ativo, pois nos convida a romper os limites, conforme ensina Jesus: “Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas” (8).          

Cumprir a primeira milha é não fazer o mal ao próximo, cumprindo nossa obrigação de cristão. Cumprir a segunda milha consiste em amar o próximo para alcançar a elevação.



Referências:

Revista Istoé – 24 de junho de 2015, nº 2377, Ed. Três
A Bíblia de Jerusalém – 1º Reis 18: 1/40 – Edições Paulinas
LOCKE, John – Coleção “Os Pensadores” – Abril Cultural – pág. 03-39
Idem LOCKE, John
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos – Feb
KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863 (pág. 367) – Feb
KARDEC, Allan. (Revista Espírita 1868, pag. 515) – Feb
A Bíblia de Jerusalém – Mateus 5, vv.41 – Edições Paulinas.
Artigos Internet

Dossiê Intolerância Religiosa – http://intoleranciareligiosadossie.blogspot.com.br/
A nova ordem global – http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_75.htm
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Transcrito de: “Brasília Espírita”, GEABL, no.198, janeiro-fevereiro de 2016, p.3.

Em defesa da tolerância religiosa e da cidadania


A Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF) vem a público lamentar o ato criminoso que resultou no incêndio do Centro Espírita Auta de Souza, em Sobradinho II, na chácara 14 do Núcleo Rural 2, ocorrido na última madrugada, 29 de janeiro.

As chamas destruíram parcialmente as dependências do centro e também provocaram ferimento em uma vítima. Os danos poderiam ter sido piores caso não houvesse a atitude de vizinhos do centro, que ajudaram a combater o incêndio, e a atuação do Corpo de Bombeiros.

O Centro Espírita Auta de Souza, atua desde a década de 1970. Nesses anos, conquistou reputação na comunidade Chão de Flores pelas atividades religiosas e sociais. Difícil de compreender e aceitar que uma instituição com esse perfil seja alvo de um delito de ódio.

Esse episódio evidencia que a tolerância religiosa está sob risco no Brasil. Importante mencionar que fatos semelhantes tendo por alvo outros segmentos vêm sendo registrados com frequência no Distrito Federal e no país.

A FEDF espera que as autoridades apurem com celeridade e responsabilizem legalmente os autores do ato criminoso.

Da mesma forma ressaltar que o respeito e o direito da liberdade de fé e de credo são valores professados no Brasil e uma conquista que não pode ser maculada.

Esperamos que os valores cristãos, das demais religiões orientais, afrodescendentes e de cidadania sejam defendidos e preservados pela sociedade e pelas instituições brasileiras.

Que este ato, fruto da ignorância das leis divinas, possa fortalecer as ações de integração das lideranças religiosas e da sociedade no desenvolvimento da cultura da Paz, tão necessária para vivermos em harmonia.

Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal
Paulo Maia

JESUS E TOLERÂNCIA RELIGIOSA

JESUS E TOLERÂNCIA RELIGIOSA


Esses, como ontem, são dias de intolerância entre os homens, por motivos religiosos. Explodem as guerras entre nações, aumentam os preconceitos religiosos entre grupos culturais diferentes, ampliam-se os choques no interior das famílias, em virtude das escolhas diferenciadas de religião.
Jesus, porém, admoestou os discípulos que se vangloriavam de ter repreendido a um homem que curava e ensina em Seu nome sem O seguir, afirmando : “Não o impeçais, pois quem não é contra nós, é por nós” (Lc 9:50)
São as propostas pacifistas e fraternais bem como os princípios de respeito, diálogo e compaixão pelo próximo que caracterizam as religiões de natureza transcendental, voltadas para a educação moral do homem, tornando-o melhor.
Extraordinárias lições de respeito e de tolerância religiosa ainda nos daria o Mestre Jesus em inúmeras passagens de seu Evangelho.
Ao ser procurado por um centurião de César que intercedia em favor da cura de um servo, afirmando que bastaria uma palavra de ordem Sua para que seu criado ficaria curado, Jesus exclama admirado: “Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta.”(Lc 7:9). E o sevo do centurião foi curado. Informa-nos ainda Lucas que este Centurião era amigo do povo judeu e tinha edificado a sinagoga.
Em outra oportunidade, na região da Samaria, Jesus dirige-se à mulher no Poço de Jacó, entabulando uma conversação que revela a existência do preconceito por parte dela (“como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?”, em Jo 4:9) e a amorosidade Dele que lhe oferece a “água viva”, que dessedenta para sempre. (Jo 4:10).
Culmina a atitude tolerante e respeitosa do Nazareno para com as diferenças culturais e religiosas quando escolhe um samaritano para se converter no símbolo da solidariedade, por excelência, ao narrar a célebre parábola conhecida como a Parábola do Bom Samaritano (Lc 10: 30 a 37).
Profeticamente Jesus se referiu a outras ovelhas que não seriam “daquele” rebanho (Jô 10:16).
Radicalmente justo, o Mestre afirmou ao responder uma indagação a respeito da salvação, conforme registrou Lucas, capítulo 13 : “Então, haverá prantos e ranger de dentes, quando virdes que Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas estarão no reino de Deus e que vós outros sois dele expelidos. Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Setentrião e do Meio-Dia, que participarão do festim no reino de Deus.” Não bastam os rótulos religiosos ou os vínculos de pertencimento a tal ou qual cultura : é preciso, ainda conforme o texto em destaque, afastarmo-nos da iniqüidade.
Jesus é mensagem de respeito, de tolerância, de diálogo, de oferta daquilo que há de melhor em cada um. Intolerância religiosa, por sua vez, é afastamento do verdadeiro sentido de religiosidade, é estreiteza de vistas, é exclusivismo filho do egoísmo, é fanatismo que fecha as possibilidades do diálogo e da convivência pacífica entre diferentes, não opostos.
“Não haverá paz no mundo enquanto não houver paz entre as religiões”, sentencia o teólogo católico alemão Hans Küng, em sua obra Religiões do Mundo. Sem tolerância e respeito, não haverá paz em qualquer lar, comunidade ou nação
QUEM NÃO É CONTRA NÓS É POR NÓS, é mensagem atualíssima a nos conclamar ao espírito fraternal que Jesus ensinou e praticou, amando a todos, respeitando a todos, por saber que cada um e todos, temos caminhos diferentes para chegar ao Pai, o Deus único que fez os homens (não o Deus que os homens fizeram) embora todos devam se pautar no cumprimento da Lei Divina de Justiça, de Amor e de Caridade, independente das opções formais religiosas.
O mais é a intransigência, a limitação e o egoísmo humano.

Por Sandra Borba Pereira

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tolerância e Bondade

Tolerância e Bondade

Marcelo dos Santos Monteiro
Março de 2013

Nas relações sociais, tolerância e bondade são ideias que remetem diretamente a
uma disposição favorável ao bem viver, constituindo-se em aptidões um tanto quanto
complexas, mas desejadas por grande parte dos indivíduos. São recomendações
bastante adequadas a quem espera passos largos na caminhada da evolução.

Nesse sentido, ambos os substantivos são aplicados de forma que sejam associados
a duas das qualidades básicas esperadas do ser humano que vive de acordo com
os preceitos religiosos que rotineiramente prega. Tais qualidades, porém, são pouco
entendidas isoladamente, chegando a serem confundidas, uma com a outra, com
uma impressionante frequência. Este estudo tem o objetivo de promover um convite à
reflexão sobre o detalhe de cada uma dessas qualidades e mostrar como elas podem se
completar em qualquer tipo de interação com pessoas.

Como início desse trabalho, foi realizada pesquisa sobre o significado de cada uma
das palavras (tolerância e bondade). Os diversos resultados encontrados mostraram-se
bastante homogêneos em termos de conteúdo. Abaixo estão transcritas as definições
encontradas na enciclopédia livre Wikipédia, que retratam um bom entendimento sobre as
palavras.

Tolerância

A tolerância, do latim tolerare (sustentar, suportar), é um termo que define o grau de
aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural, civil ou física.

Do ponto de vista da sociedade, a tolerância define a capacidade de uma pessoa ou
grupo social de aceitar, noutra pessoa ou grupo social, uma atitude diferente das que são
a norma no seu próprio grupo. Numa concepção moderna é também a atitude pessoal e
comunitária face a valores diferentes daqueles adotados pelo grupo de pertença original.

O conceito de tolerância se aplica em diversos domínios:
• Tolerância social: atitude de uma pessoa ou de um grupo social diante daquilo que é
diferente de seus valores morais ou de suas normas.
• Tolerância civil: discrepância entre a legislação, a sua aplicação e a impunidade.
• Tolerância segundo Locke : “parar de combater o que não se pode mudar”.
• Tolerância religiosa: atitude respeitosa e convivial diante das confissões de fé
diferentes da sua.
• Tolerância farmacológica ou medicamentosa: diminuição da responsividade a um
fármaco, ou seja, a diminuição do efeito farmacológico com a administração repetida da
substância.
• Tolerância técnica: margem de erro aceitável, ou capacidade de resistência a uma
força externa.
• Tolerância: em gestão de riscos constitui o nível de risco aceitável normalmente
definido por critérios preestabelecidos.
(Fonte: Wikipédia)

Bondade

Bondade é a qualidade correspondente a ser bom, ou seja, a qualidade de manifestar
satisfatoriamente alguma perfeição, que se pode aplicar a pessoas, coisas e situações.

Em que pese a bondade ser usada frequentemente para designar uma virtude pessoal,
quando aplicada a objetos e situações ela pode se referir apenas à perfeição de algumas
características do objeto ou situação. Por exemplo: ao afirmar que um vinho é bom, a
bondade em questão se refere apenas às qualidades de aroma e sabor.

A bondade pode significar a disposição permanente de uma pessoa em não fazer o
mal, ou de um objeto ou situação em não ser prejudicial, neste sentido tem por sinônimo
a benignidade. Neste sentido, na medicina diz-se que um tumor é benigno, embora,
concretamente, seja uma patologia.

A bondade pode significar a disposição permanente de uma pessoa em fazer o bem,
neste sentido tem por sinônimo a benevolência.
(Fonte: Wikipédia)

Em uma primeira análise, tanto a tolerância quanto a bondade podem parecer qualidades
que imprimem no homem uma certa passividade, ou seja, criam uma sensação de
enfraquecimento do caráter, uma vez que o homem excessivamente bondoso e tolerante
aparentemente deixa de defender as suas verdades e se omite na luta pelas suas
ideias, deixando que outros o conduzam pelo caminho da vida. Essa visão, porém, é
desprovida de um alcance mínimo e proporciona ao seu detentor, nada além de uma zona
de sombra nas habilidades e nos conhecimentos necessários a qualquer pessoa nas
relações humanas, podendo por vezes provocar uma inesperada e dispensável geração
de conflitos sociais.

Para melhor entendimento dessas duas virtudes, faz-se necessária uma análise prévia
de seus opostos. A maldade se contrapõe à bondade e a intolerância é o contrário da
tolerância. É possível afirmar que, entre os homens, ninguém é completamente bondoso
ou maldoso, tolerante ou intolerante. Qualquer pessoa detém uma posição intermediária
entre esses extremos, em menor ou maior grau, dependendo da evolução espiritual de
cada um. É fato que esse entendimento é resultado de um aprendizado permanente,
que não está necessariamente associado ao grau de formação escolar ou à religião do
indivíduo, uma vez que deriva de percepções pessoais e particulares independentes.

A maldade do indivíduo pode estar associada ao egocentrismo, ou seja, a uma espécie
de falta de percepção de que o outro existe e é importante. A forma mais perceptível
de egocentrismo é ao mesmo tempo a mais presente e a mais combatida nas relações
sociais, a vaidade. Assim como as qualidades citadas anteriormente, qualquer indivíduo
possui um certo grau de egocentrismo, maior ou menor, de acordo com a sua evolução.

O indivíduo egocêntrico pode avançar os limites da inconsequência na tentativa de obter
o que lhe interessa. Sob a sua ótica, a sua ação não está carregada de maldade, mas
de uma determinação, às vezes exagerada. A maldade do ato está, na verdade, na
percepção do seu oponente, que na maioria das vezes apressa-se em julgar e condenar
aquele que ousou desafiá-lo com suas ideias, aos seus olhos, infelizes. Fica muito
claro que “a vaidade de um só incomoda quando atinge a vaidade do outro”.
Nesse sentido, a maldade é muito mais um sentimento do que um fato ou uma verdade.
Dessa forma, a bondade se opõe ao egocentrismo e se configura como uma generosidade,
que só é possível quando o indivíduo desce do seu altar psicológico e entende que tão
importante quanto as suas verdades, são as do outro. Esse indivíduo respeita e admira
o outro enquanto pessoa, que, independentemente da posição social que ocupa, é tão
importante quanto ele para o todo. Esse é princípio mais básico para a criação de um
ambiente democrático.

Da mesma forma que a maldade, a bondade é um sentimento presente não naquele que
detém a qualidade, mas no que recebe seus efeitos. Via de regra, o indivíduo bondoso
não tem a capacidade de perceber a sua bondade, a menos que alguém o alerte do
fato e, ainda assim, esse indivíduo duvida do bem que fez. A característica marcante da
bondade é o desprendimento. De forma ilustrativa, pode-se dizer que a bondade é um
presente embrulhado que um indivíduo dá para outro e, quem o recebe é que abre o
embrulho e fica com o presente, que já não pertence mais a quem o deu. Pelo fato de
o mesmo ocorrer com a maldade, como regra de bem viver, convém que o embrulho,
por mais atraente que pareça, não seja aberto por quem o recebe, já que cabe a este a
decisão de ficar ou não com tal presente.

A intolerância, por sua vez, tem a sua raiz na profundidade dos conceitos de cada
indivíduo. Quanto mais preso às próprias verdades está uma pessoa, maior a sua
tendência à intolerância. O intolerante é aquele que por algum motivo perdeu ou
abandonou a capacidade de aprendizado em sua plenitude, ou seja, fechou-se a novas
ideias e estabeleceu que as suas verdades são as verdades do mundo. Normalmente
esse indivíduo desenvolve uma forte percepção sobre a maldade e não se importa
muito com a bondade, já que ela não se faz tão necessária, uma vez que suas próprias
verdades são suficientes para a sua vida. Usando a ilustração sobre o presente
embrulhado do parágrafo anterior, esse indivíduo não perde a chance de abrir o embrulho
da maldade e candidata-se a suportar o fardo de todas as maldades que entende já ter
recebido. Nesse caso, as maldades entendidas incluem as derrotas de suas ideias sejam
elas coerentes ou não.

O ser intolerante não suporta a ideia alheia, a menos que seja idêntica à sua, e jamais
permite que suas ideias sejam complementadas por outras que não as suas. Além disso,
tem o hábito de não dividir seus pensamentos, de forma que qualquer um que possa
ameaçar suas ideias com outras diferentes, seja pego sempre de surpresa e não tenha
tempo de refletir e, por consequência, contestar. Para esse indivíduo, o planejamento das
suas ações é segredo absoluto e não é compartilhado com qualquer pessoa que possa
emitir algum questionamento. Em grau extremo, o indivíduo intolerante corresponde à
figura do despotismo, que, segundo Montesquieu, é um regime onde apenas um governa,
sem leis e sem regras, e arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.

Para se tornar tolerante, o indivíduo precisa abrir mão de certos valores, entre eles o
egocentrismo já citado. Abrir mão das próprias verdades deve ser um trabalho realizado
após uma análise muito aprofundada sobre o valor que essa atitude pode gerar, ou seja,
deve-se investigar se vale a pena abrir mão daquilo em que se acredita em razão de um
bem maior. Enquanto o intolerante deseja que todos vivam de acordo com as regras já
definidas e aceitas por ele ou pelo grupo ao qual pertença, o tolerante entende que cada
um deva viver do jeito que melhor entenda ser o correto. John Stuart Mill, um dos ícones
do estudo sobre a tolerância, na sua obra intitulada Sobre a Liberdade, escreveu: “A
humanidade terá muito a ganhar deixando que cada um viva como lhe parece bem, e não
forçando cada um a viver como parece bem aos restantes”.

Para o indivíduo tolerante, a maldade, tão sentida pelo intolerante, não existe, pois não
é um sentimento que pese nele. O entendimento do tolerante é que cada um só pode
oferecer aquilo que tem, logo, o que é entendido como maldade pelo intolerante, não
passa, na verdade, de um dado de realidade ao tolerante. Isso, porém, não significa
que o tolerante concorde com tudo o que ouve ou aceite os fatos que lhe são impostos.
Tolerar é entender e respeitar as verdades alheias, o que só pode ser feito após um
esvaziamento da mente em relação às ideias preconcebidas. Nesse sentido, o tolerante
busca, através do diálogo, compor ideias de forma que ninguém se sinta preterido em
relação a outros. Isso só é possível se houver um entendimento de igualdade entre
os indivíduos, quaisquer que sejam as diferenças em suas posições sociais. A Jules
Lemaitre é atribuída a frase “A tolerância é a caridade da inteligência”, que reflete
claramente essa maneira de pensar. Em complemento a essa ideia, Alexander Chase
afirmou que “O cume da tolerância é mais rapidamente alcançado por aqueles que não
andam carregados de convicções”.

Para o tolerante, qualquer ocasião é uma oportunidade de aumentar seus conhecimentos.
Ouvir ideias alheias com o coração aberto, conduz a uma reflexão sobre as verdades sob
seus diversos aspectos e ângulos. Entender a visão do outro, mesmo não concordando
com ela, é sinal de respeito e carinho, além de se constituir de uma boa forma de
diversificar conceitos. Assim, tolerância não é uma concessão que um indivíduo faz
ao outro, mas um benefício que ele dá a si mesmo. Comparando com a ilustração do
presente embrulhado acima citada, a tolerância é um presente que o indivíduo dá a si
mesmo, só que desembrulhado.

A tolerância e a bondade separadas, apesar de serem virtudes extremamente importantes
ao indivíduo, seriam falíveis em seu propósito. A bondade extrema isolada levaria o
indivíduo ao sacrifício exagerado em prol do outro, deixando de discutir suas próprias
ideias e, por conseguinte, de se sentir importante enquanto membro do grupo. Ao
bondoso extremo caberia uma anulação pessoal para que o outro pudesse ter sucesso.
Já a tolerância extrema isolada, levaria o indivíduo a deixar de se preocupar com o outro.
O tolerante busca o aprendizado e essa é uma capacidade individual. Sem a bondade,
o tolerante seria um acumulador de conhecimento e não se importaria com as verdades
alheias mais do que para seu enriquecimento cultural.

Ao unirem-se a tolerância e a bondade como recomendação de conduta, o indivíduo é
estimulado a apresentar, ouvir e discutir ideias, usando o resultado dessas ações para o
bem coletivo e, consequentemente, para o bem de todas as pessoas, individualmente.
Não é a fórmula da felicidade, mas certamente faz parte do caminho.

SÉCULO VINTE E UM: CONSTRUINDO A TOLERÂNCIA


“14. - (...) A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro passo de contato dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão.”

Mencionávamos no artigo passado sobre a variedade das expressões da verdade, propostas pelo pensamento do homem, adequadas às visões de mundo e de si mesmo que ele já logrou atingir. À primeira vista essa observação pode parecer incoerente com a afirmação de Kardec acima, acerca da tolerância religiosa. Pois, se a verdade é relativa ao grau de amadurecimento do senso moral, então, como ficamos em relação às diferentes interpretações sobre o que comumente chamamos verdade? Nesse presente artigo, vamos, pois, explorar um pouco mais essa questão, i.e., tratemos da verdade. segundo as idéias que podemos colher na doutrina espírita. Antes, porém, façamos uma incursão sobre os significados que pode assumir a palavra verdade.

Três concepções da verdade [1]

Quando escutamos alguém mencionar a palavra verdade não nos ocorre que ela possa ter vários significados conforme o contexto. Em português a palavra verdade possui algumas variações quanto à significação, mas podemos agrupá-las em três grandes grupos.
           
Nossa ideia da verdade foi construída a partir de três concepções vindas do grego, do latim e do hebraico.
           
Aletheia, do grego, quer dizer não-oculto, não dissimulado. Verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão. As coisas, os fatos ou são reais ou imaginários. Surge aqui a dimensão das nossas experiências objetivas.
           
Veritas, do latim, refere-se á  precisão, à exatidão de um relato, no qual se diz com detalhes e fidelidade o que aconteceu. O enunciado corresponde aos fatos acontecidos. Os relatos e enunciados sobre as coisas e os fatos são verdadeiros ou falsos. Trata-se aqui da coerência lógica das idéias e das cadeias de idéias que formam um raciocínio. A marca do verdadeiro é a validade lógica de seus argumentos. Surge, então, a dimensão do pensamento, uma vez que a linguagem é sempre a expressão do pensamento para o Espírito.
           
Emunah, do hebraico, significa confiança. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada, ou seja, não traem a confiança. Aqui a verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro. Aqui percebemos surgir o outro no contexto de nossas experiências. A dimensão ética toma vulto no campo da compreensão mútua, da imparcialidade necessária para tal compreensão.
           
Assim, a verdade estará ligada ao ver, ao perceber; ao falar, às palavras (e, por conseqüência, ao pensar); por último, ao crer, ao acreditar. Teríamos, então:

•   ver-perceber

•   falar-dizer

•   crer-confiar

Por fim, a nossa concepção da verdade é uma síntese dessas três fontes, referindo-se, portanto, à realidade, à linguagem e à confiança-esperança.
           
Agora surge, então, uma questão interessante. Quando podemos saber se o que conhecemos é verdadeiro?             Tomemos três casos a título de exemplo. Um cientista, um juiz e uma mãe cuidadosa na relação com seu filho. Para um cientista, por exemplo, a marca do conhecimento verdadeiro é a evidência, isto é. a visão intelectual e racional da realidade tal como é em si mesma e alcançada pela nossa razão (uma idéia é verdadeira quando corresponde à coisa que é seu seu conteúdo). Para um juiz, ela vai depender da precisão e do rigor na criação e no uso de regras que devem exprimir o nosso pensamento ou nossas idéias, como também os fatos exteriores a nós e que nossas idéias relatam (coerência interna ou lógica). Finalmente, para uma mãe, a verdade depende de um consenso ou de um pacto de confiança entre ela e o filho, definindo um conjunto de convenções universais sobre o que é verdadeiro e que deve ser respeitado por ambos.
           
Qual das três concepções deveríamos adotar, então, em relação às nossas experiências? Pode parecer elas  são  independentes entre si, mas é justamente aqui que devemos examinar com mais cuidado essa questão. Qualquer que seja a concepção que tomemos como critério de validade para o que conhecemos, ela estará sempre incompleta. Vejamos. Há coisas que existem e nem sempre são percebidas diretamente, como a influenciação espiritual, entre outros. Por outro lado, por mais completa que seja uma linguagem, por melhor que procure descrever, simbolizar alguma coisa, há sempre o fato de que o exemplo vale por mil palavras, recurso sobejamente conhecido na educação. Por fim, a própria história mostra que nem sempre consensos levaram à verdade dos fatos, como no julgamento do Cristo levando-o à crucificação inocente.
           
Como ficamos, então, em relação ao tipo de verdade com que lidamos na Doutrina Espírita? Ela se caracteriza pela multidimensionalidade acima: é preciso perceber os fatos, dentro de um contexto lógico, racional, onde somos levados a "pensar por nós mesmos", animado de espírito de confiança-esperança, sem prevenções. Ou seja, trata-se de um amadurecimento espiritual acontecendo, propiciando-nos maior abertura, receptividade à Vida. Diante de cada experiência, somos convidados a dilatar a capacidade de ver o essencial (somos Espíritos em manifestações humanas), enquadrando essa experiência dentro da razoabilidade que conseguimos desenvolver (a nossa vida tem um propósito dentro de um planejamento realizado por nós), sem perdermos de vista o sentimento de compreensão cada vez maior a vitalizar a nossa própria manifestação (conseguido através do relacionamento de qualidade com o próximo pela segurança que a compreensão do Evangelho do Cristo nos dá).
           
Repensemos, então, a título de exercício do entendimento, no sentido que damos a colocações como:

• a verdade das comunicações mediúnicas;

• a verdade da vida após a morte;

• a verdade da lei de progresso, da lei de ação e reação;

• etc.

É interessante destacar que ocorre com o Espiritismo o mesmo que se dá com as concepções de caráter integral, holístico: não é possível classificar em um único critério ou grupo suas concepções básicas. Pelo menos com os instrumentos de percepção de que dispomos no momento (capacidade intelecto-moral), pois, sempre        

“Cada um vive nas dimensões do entendimento e na altura da visão espiritual que já conquistou.” [2]

Que grande apelo ao espírito de tolerância! Onde vemos que somente pela educação do caráter, das tendências passionais da animalidade ancestral, será possível dilatar as dimensões do entendimento e a própria visão espiritual. Eis aí a nossa grande contribuição aos dias do novo século. Somos chamados a educar educando-nos dentro das três dimensões da verdade:

·         viver o fato de sermos Espíritos, e não apenas dele falar,

·         explicando a vida com racionalidade, como a "prova buscada" [3] , por nós mesmos, sem as muletas das aparências e fantasias, dos mitos e das místicas,

·         tudo dentro de um clima emocional fraterno, de solidariedade, construtivo, no respeito à liberdade de pensar, e de gratidão e otimismo – numa "reverência à  Vida", no dizer de Albert Schweitzer.

Os dias de hoje pedem-nos, então, visão integral para a validação daquilo que conhecemos acerca do espírito humano, como afirma Ken Wilber, num dos seus inúmeros livros [4] . Em outras palavras, uma coalizão multicolor ou uma visão de muitos níveis, integrando diversos aspectos do espírito humano: arte, moral e ciência; eu, ética e meio-ambiente; o belo, o bem e o verdadeiro. E é segundo essa visão de ampla perspectiva (vision-logic) que encontraremos no Espiritismo os três aspectos mencionados integrados numa sinergia, numa coerência proposital por haver uma finalidade em tudo isso: o progresso espiritual, percebido como quota de maior felicidade para o Espírito.
           
Assim, a verdade na Doutrina Espirita pode ser compreendida pelas palavras de Kardec no nosso livro de estudo (capítulo I, item 13 – grifos nossos),

“O espiritismo dá coisa melhor (pois, apresenta um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça da infinita bondade de Deus); eis porque é acolhido pressurosamente  por todos os atormentados da dúvida...O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos...“

O que vemos aqui? Aletheia (“fatos materias que se desdobram à nossa vista” sobre o futuro), veritas (coerência lógica na composição do seu corpo de princípios – não há contradição interna) e emunah (esperança-confiança na crença sobre o futuro condicionado à nossa capacidade de amar ao nosso irmão como a nós mesmos). Três raízes a sustentar a nossa experiência na Terra durante a encarnação e além dela! Mas há que fixá-las no solo das experiências reais, vividas, para que  possam ser sorvidos os nutrientes adequados ao nosso amadurecimento espiritual, firmando-nos no campo das nossas realizações. Em outras palavras, três nutrientes são necessários para validar nosso aprendizado no campo das verdades do espírito: o da ação no bem, o da reflexão em torno do que é o bem e o do sentimento de caridade que será sempre o nosso próprio bem em marcha triunfante. Nas palavras de João Lustosa, para nossa reflexão final,

“Por isso mesmo, se nos afeiçoamos ao trato com a verdade, é muito fácil reconhecer que há acontecimentos de fundo espírita, conversas de feição espírita, referências de caráter espírita, e realizações de inspiração espírita, mas o de que necessitamos, sobretudo, é de orientação espírita no sentimento e na experiência individual, de conformidade com o Espiritismo, porque o espírita que aceitou a supervisão do Cristo já não pode agir como quer e, sim, agir como deve querer.” [5]

Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
Novembro / 2001

Bibliografia:
[1] CHAUÍ, Marilena, “Convite à Filosofia”, Unidade 3 – A Verdade, Cap. 3 – As concepções da verdade. Editora Ática. 5ª ed. São Paulo. 1995. [2] BATUÍRA (Espírito), Lourdes Catherine (Espírito),[psicografado por] Francisco do Espírito Santo Neto. “Conviver e Melhorar”, Boa Nova Editora, 1ª ed. Catanduva, SP,1999. [3] KARDEC, Allan – "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Capitulo VI – O Cristo Consolador. FEB [4] WILBER, Ken. “O Olho do Espírito”, Introdução A Visão Integral. Editora Cultrix., 10ª ed. São Paulo. 2001. [5] VIEIRA, Waldo, [psicografia de]. “Seareiros de Volta”, Estados da Consciência. FEB. 4ª ed. Rio, RJ. 1987.

Amor


A vivência do amor é apenas uma necessidade passageira ou algo a que estamos fatalmente destinados? No que consiste esse sentimento? Como ele se manifesta? Quais as virtudes a ele vinculado? Do que o amor é capaz?


A vivência do amor é apenas uma necessidade passageira ou algo a que estamos fatalmente destinados? Na nota explicativa da questão 938, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, temos as seguintes considerações de Allan Kardec:


A Natureza deu ao homem a necessidade de amar e de se sentir amado. Um dos maiores prazeres que lhe sejam concedidos sobre a Terra é o de reencontrar corações que se simpatizam com o seu, o que lhe dá as premissas de uma felicidade que lhe está reservada no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo é amor e benevolência. [1]

Suas palavras estão intrinsecamente associadas a uma das muitas definições do que seja o amor: “Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso.” [2]

Se estamos fatalmente destinados à vivência desse sentimento belo, digno e grandioso – porque se assim não fosse, não nos impulsionaria à benevolência em nossas escolhas e atitudes –, torna-se imprescindível o conhecimento de suas várias possibilidades, bem como das virtudes que abarca.

O que é amar? Como esse sentimento se manifesta?

Na Primeira Epístola aos Coríntios (13:1-13), o Apóstolo Paulo traz um dos mais belos cânticos sobre o que seja o genuíno amor:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entre o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso se aproveitará.
O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. [3]

Em suas palavras, o Apóstolo se refere a nove virtudes do amor. Portanto, comentemos sobre elas.

A primeira a ser elencada é a paciência, quando diz que “o amor é paciente”; e a paciência é a “virtude de quem suporta males e incômodos sem queixumes nem revolta.” [2]
       
No entanto, tal virtude não representa a omissão ou a submissão diante das inconvenientes atitudes alheias, mas trata-se, na realidade, de um equilíbrio mental e emocional que permite à pessoa sustentar a serenidade e a firmeza na condução de qualquer relacionamento, até mesmo naqueles marcados por sérios conflitos. O Espírito Emmanuel afirma:

A verdadeira paciência é sempre uma exteriorização da alma que realizou muito amor em si mesma para dá-lo a outrem, na exemplificação. [4]

Por sua vez, a paciência relaciona-se com a tolerância. Por isso é que o amor “não se exaspera”.

A tolerância, segunda virtude do amor, é o “direito que se reconhece aos outros de terem opiniões diferentes ou até diametralmente opostas às nossas.” [2] O tolerante é aquele que, por aceitar e compreender que cada indivíduo possui sua própria maneira de pensar, sentir e comportar-se, age com tato, cautela e benevolência, procurando extrair dos outros o que eles, intimamente, possuem de melhor.

A vida e as pessoas não são exatamente o que gostaríamos que fossem; quanto mais aceitarmos este fato, menos estressados e infelizes seremos.

A terceira virtude é a benevolência, pois o amor “é benigno”.

A criatura benigna é aquela que se compraz em fazer o bem. Como a afetuosidade e a gentileza são as suas principais características, ela mesma se satisfaz ao promover a satisfação alheia.

O genuíno amor sempre nos possibilita desejar o melhor a quem quer que seja, impulsionando-nos a tomar as devidas atitudes para que os benefícios realmente se concretizem. Dessa forma, ele não é somente sentimento, mas, sobretudo, ação. O Espírito André Luiz afirma: “O verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar sempre”. [5]  
       
Ademais, a benevolência promove a incondicionalidade do amor. Esta é, portanto, sua quarta virtude, porque, de acordo com o apóstolo Paulo, o amor “não procura seus interesses”.

Amor incondicional, por definição, é aquele que não impõe condições – seja por meio de chantagens, cobranças ou exigências – para que possa existir ou expressar-se. É, portanto, a atitude de quem não espera por recompensas ou retribuições pelos benefícios que oferece a outrem. Hammed alerta:

Somos nós mesmos que nos iludimos, por querer que as criaturas deem o que não podem e que ajam como imaginamos que devam agir. [6]

Nenhum de nós tem o poder de fazer com que outra pessoa nos ame, mas todos temos a possibilidade de amá-la em primeiro lugar. E será a manifestação incondicional de nossos sentimentos que atrairá a atenção de muitas delas para nós.

Quem ama intensamente só pode acreditar, confiar, aceitar e ter a esperança de receber amor de volta. Mas não existem garantias. Quem guarda seu amor para o momento em que tiver certeza de receber amor igual corre o risco de esperar para sempre. E quando amamos com qualquer expectativa, corremos o risco de nos desapontarmos, porque não é provável que consigamos encontrar quem atenda a todas as nossas necessidades, por maiores sejam o amor e a dedicação dessa pessoa, pois as pessoas nos dão o que podem e quando podem, não necessariamente o que queremos e quando queremos.
(...) Quando deixamos de impor condições para amar, damos um enorme passo na direção do aprendizado do amor.
Mas como renunciar às nossas exigências e desenvolver o amor em seu estado mais puro? Acredito que a melhor forma de aprender a amar é mergulhando profunda e intensamente na vida. Como começar? Acho que uma boa maneira é abrindo-se para o amor, estando atento para suas manifestações, procurando não deixar passar uma ocasião de manifestá-lo. E convencendo-se de que, por mais difícil que pareça ser, você é capaz de mudar. Confie em si e trabalhe, invista.
(...) Já que vivemos em um mundo imperfeito, onde nosso amor nem sempre é correspondido, é bom nos fortalecermos para continuar a amar. Repetir sempre: “Amo porque quero. Amo por mim, não pelos outros. Em primeiro lugar, amo pela alegria que o amor me dá. Em segundo, amo pela alegria que o amor dá aos outros. Se retribuírem meu amor, ótimo. Se não, vou procurar não dar importância, porque o que eu quero é amar”. Lembrar que vivemos pela alegria de amar. Esperar que os outros façam o mesmo, mas sem expectativas nem exigências. Assim, se formos correspondidos, ficamos duplamente felizes. [7]

A quinta virtude é a maturidade, porque o amor “não arde em ciúmes”.
       
O ciúme trata-se de uma inquietação mental e emocional que ocorre diante da possibilidade – ainda que irreal – de perder algo que julgamos ser nosso por direito. Mas é justamente no campo afetivo que ele mais se expressa e desenvolve-se.

Certo grau de ciúme é bastante natural em muitos de nós. Paulo, entretanto, refere-se ao ciúme doentio, pois esse excessivo desassossego mental e emocional faz sofrer quem o alimenta e quem o suporta, prejudicando consideravelmente a relação. O psicanalista de origem suíça Valério Albisetti ensina:

O ciúme faz parte de uma visão possessiva do ambiente, do outro, de si.
(...) É neurose.
É uma doença.
Não faz crescer.
(...) Viver com o ciumento significa, na verdade, não ter vivido.
(...) Baseia-se na insegurança do próprio eu, em sua não completa, correta e sadia evolução.
(...) Quem acredita que sentindo ciúme tem amor está no caminho errado. O amor é respeito pelo outro, pelas suas escolhas, quaisquer que elas sejam.
(...) Desconfie da pessoa que tem ciúme de você. Ela quer dominá-lo, possuí-lo, não amá-lo, pois o ciumento usa o ciúme como arma para manter a outra pessoa em seu poder. Controlam, espreitam, desconfiam de tudo, asfixiam o parceiro com perguntas reduzindo-lhe ao mínimo a liberdade.
Não de deve aceitar passivamente a vida com uma pessoa ciumenta. Nem devemos iludir-nos pensando que tudo passará sem alguma intervenção planejada. Infelizmente, esse tipo de neurose não melhora com o passar do tempo, pois os ciumentos não percebem e nem admitem que o seu problema é sério.   [8]

A sexta virtude é o respeito, porque o amor “não se conduz inconvenientemente”.
       
No tumulto de nossas emoções, agimos inadequadamente quando não fazemos uso do bom senso, do equilíbrio e do respeito em nossas relações com dos demais, esquecendo que “nossa liberdade termina onde começa a do outro”. Em nome do amor, não temos o direito de ultrapassar os próprios limites, de invadir a privacidade alheia, de cercear-lhe a liberdade. Ainda de Hammed:

Ter limites é o ato de concretizar nossos sentimentos e pensamentos sem subtrair os direitos dos outros, ou seja, é escolher atividades e tomar atitudes com respeito pelas pessoas e por nós mesmos.
(...) Indivíduos descontrolados não possuem limites. Não respeitam as possibilidades, tampouco a individualidade dos outros. Invadem, de forma constante, nossa privacidade e transgridem nossos territórios emocionais, acreditando estar no direito de fazer isso.
(...) Quando queremos que os outros pensem e ajam pelos nossos padrões existenciais, desrespeitamos seus limites emocionais, mentais e espirituais, atraindo fatalmente pessoas que agirão da mesma forma para conosco.  Somente se dá aquilo que se possui. Como, pois, exigir limites de alguém, se ainda não soubemos estabelecer nossos próprios limites? [9]

A sétima virtude é a capacidade de perdoar, porque o amor “não se ressente do mal”.

Em diversas situações, ficamos “cozinhando” o nosso rancor, não deixando com que a raiva e o ressentimento, simplesmente, passem por nós. Não estamos errados em sentir tais emoções, mas, uma vez que insistimos em alimentá-las, torna-se imprescindível descobrirmos os motivos dessa necessidade, visando ao entendimento e à mudança dos aspectos de nossa personalidade que estão favorecendo essa permanência.

Como preservar-nos das desagradáveis atitudes alheias se ficarmos, única e exclusivamente, enfocando os aspectos negativos dos outros? Como desenvolver o perdão, se não compreendemos que todos têm as suas razões para fazer o que fazem? Temos condições de avaliar, com o devido acerto, as dores e as alegrias alheias?

O que realmente sustenta uma vida de amor é nosso desejo de permanecer num espaço amoroso e de reagir com amor nos momentos difíceis. É muito fácil amar quando tudo vai bem e se está rodeado de pessoas amigas. É completamente diferente sentir amor pelos outros (ou pela própria vida) em meio ao caos ou quando nos sentimos agredidos pelas atitudes dos outros – quando você é criticado, quando as pessoas invadem seu espaço ou quando lhe respondem com indiferença a um gesto generoso.  [10]

A oitava virtude é a lealdade, pois “o amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”.

A pessoa leal é ética em tudo o que sente, pensa e faz. Suas atitudes, portanto, estão sempre alicerçadas na honestidade, na sinceridade e, acima de tudo, na fidelidade. Tal é o sentido do seguinte ditado: “viva de forma que, quando pensarem em justiça e integridade, pensem em você”.

E, por fim, a nona virtude é a humildade, porque o amor “não se ufana, nem se ensoberbece”.
       
Ufanar-se e ensoberbecer-se significa tornar-se orgulhoso, envaidecido. Dessa forma, a humildade coloca um selo nos lábios para que não fiquemos nos vangloriando de nossos gestos de paciência, tolerância, benevolência, incondicionalidade, maturidade, respeito, perdão e lealdade para com os demais. Se o inverso, porém, ocorrer, eles poderão sentir-se coagidos a nos retribuir de maneira idêntica. Obviamente que os bons sentimentos que, porventura, venham a alimentar por nós carecerá da sempre necessária espontaneidade.

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O apóstolo Paulo, depois de descrever as nove virtudes do genuíno amor, oferece-nos uma síntese do que ele é capaz: “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

É somente através da real vivência desse sentimento-atitude que fortalecemo-nos no sentido de relevar os atritos que muitos de nossos relacionamentos ainda carregam, numa tentativa de construir vinculações afetivas verdadeiramente enriquecedoras e gratificantes.
       
Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão de pecados. (Pe 4:8) [11]


Silvia Helena Visnadi Pessenda
sivipessenda@uol.com.br


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

[2] Michaelis: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

[3] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 [4] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). O Consolador. 16. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1993. q. 254.

[5] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Nosso lar. 49. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.1999. Cap. 16.

[6] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). As dores da alma. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 1998. p. 53.

[7] CARLSON, Richard; SHIELD, Benjamin (Org.). Os caminhos do coração: ensaios originais sobre o amor. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. Cap. “Celebrando o amor”. (Literatura não-espírita)

[8] ALBISETTI, Valerio. Ciúme: conhecer, enfrentar, superar. Tradução de Antonio Efro Feltrin. 5. ed. São Paulo: Paulinas. 2000. (Literatura não-espírita)

[9] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). A imensidão dos sentidos. 3. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2000. Cap. “Ausência de limites”.

[10] CARLSON, Richard; SHIELD, Benjamin (Org.). Os caminhos do coração: ensaios originais sobre o amor. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. Cap. “O amor é uma escolha”. (Literatura não-espírita)

[11] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.


Literatura não-espírita

DRUMMOND, Henry. O Dom Supremo. Versão original: The greatest thing in the world. Tradução e adaptação de Paulo Coelho. Rio de Janeiro: Rocco. 1992.

SHINYASHIKI, Roberto. A Carícia Essencial: uma psicologia do afeto. 1. ed. São Paulo: Editora Gente. 1985.


Tolerância não é conivência

Tolerância não é conivência

Marco Milani

É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados repudiar e desaprovar abertamente, em seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la (Doutrina Espírita), a fim de não lhes assumir a responsabilidade. Pactuar com os abusos seria acumpliciar-se com eles e fornecer armas aos adversários.
Allan Kardec, Revista Espírita, jun/1865 – Nova tática dos adversários do Espiritismo

Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá em divulgá-las. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale cair um homem do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.
São Luís (Paris, 1860). O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. X, item 21

A caridade mal compreendida faz com que o silêncio e a passividade prevaleçam diante de situações injustas e abusivas. Sob o pretexto da indulgência ou tolerância, uma palavra franca e amiga deixa de ser proferida e uma oportunidade de esclarecimento e auxílio ao próximo é desperdiçada. A inação faz com que o curso dos acontecimentos gere resultados muitas vezes indesejáveis e todo aquele que teve a opção de corrigir ou alertar sobre os equívocos praticados, mas optou pela omissão, também é responsável pelas respectivas consequências.
Ao estudarmos os princípios e valores doutrinários apresentados por Allan Kardec, começamos a compreender a cosmovisão espírita, a qual incentiva a busca por respostas racionais para todas as questões que afligem a humanidade, desde aquelas de caráter existencial que sempre inquietaram o homem (quem somos, de onde viemos e para onde iremos) até aquelas diretamente relacionadas às experiências individuais na vida cotidiana.
Ao contrário de religiões monolíticas, estabelecidas sobre verdades inquestionáveis, o Espiritismo estrutura-se sob a premissa da evolução das ideias mediante a comprovação dos fatos, unindo de maneira elegante e sóbria o conhecimento revelado pelos seres desencarnados com o conhecimento empírico. O dinamismo doutrinário espírita exige, entretanto, postura crítica e posicionamento coerente dos adeptos.
O comprometimento do espírita é, portanto, não somente com seu próprio desenvolvimento espiritual, obtido pelo aprimoramento de seus aspectos morais e intelectuais, mas também para com a própria doutrina que afirma professar, uma vez que se torna exemplo e referência.
Em nosso atual estágio evolutivo, ainda estamos todos aprendendo uns com os outros, sendo insensato se esperar a perfeição de alguém. Todavia, uma vez que estamos em relação direta com várias pessoas e temos a chance de auxiliar no esclarecimento doutrinário quando o objeto em discussão é o Espiritismo e seus princípios, é nosso dever praticar esse ato de caridade sempre que possível. O esclarecimento, naturalmente, deve ser baseado no respeito e desejo sincero de auxílio.
No centro espírita ou em qualquer ambiente de convivência (inclusive virtual), estamos em contato com pessoas de diferentes perfis e experiências de vida, mas todas supostamente têm em comum o elo doutrinário e a intenção de progresso espiritual. Ao nos depararmos com algum tipo de incorreção conceitual ou prática destoante dos princípios espíritas, cabe a nós verificarmos a melhor maneira de colaborar com o esclarecimento e superação dos problemas gerados pela situação. Bom senso, coerência e caridade devem estar acima da rispidez e humilhação. Da mesma maneira, o silêncio não deve ser usado caso outras pessoas possam ser prejudicadas por informações que gerem confusão ou posturas inadequadas, sob o risco da tolerância se converter em conivência.