Por Leonardo Pereira
"O homem que sofre é semelhante a um devedor de grande soma, a quem o credor dissesse: "Se me pagares hoje mesmo a centésima parte, darei quitação do resto e ficarás livre; se não, vou perseguir-te até que pagues o último centavo". O devedor não ficaria feliz de submeter-se a todas as privações, para se livrar da dívida, pagando somente a centésima parte da mesma? Em vez de queixar-se do credor, não lhe agradeceria? (Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. V - item 12)".
A palavra resignação aparece com bastante frequência em palestras e livros espíritas. Também está presente nas obras básicas de Allan Kardec, especialmente no Evangelho Segundo o Espiritismo ─ Cap. V - "Bem aventurados os Aflitos".
Esse capítulo aborda, inicialmente, a temática do sofrimento e das provas e expiações e suas origens nesta e noutras existências, causas de muitos de nossos problemas atuais, em vista de nossas escolhas e pela semeadura que fazemos ao longo da nossa esteira reencarnatória. No final, o capítulo aborda o suicídio. Contudo, destacaremos, aqui, o seu item 12 ─ "Motivos de Resignação".
Resignação
Quando adentramos a Doutrina Espírita, muitas questões perpassam por nossas mentes. Logo nos deparamos com algum expositor nos orientando para sermosresignados. O que seria, então, resignação? Como compreender os dramas que a vida nos propõe, frutos ou não de nossas escolhas? Como proceder para ser considerado um indivíduo resignado?
Muitas vezes, entendemos resignação como aceitação do problema ou da dor, sem buscarmos alívio, respostas ou o entendimento para o que ocorre conosco. E também, principalmente, porque devemos ser resignados, questionando aonde isso vai nos levar.
"A resignação, ou ainda aceitação, na espiritualidade, na conscientização e na psicologia humana, geralmente se refere à experienciar uma situação sem a intenção de mudá-la. A aceitação não exige que a mudança seja possível ou mesmo concebível, nem necessita que a situação seja desejada ou aprovada por aqueles que a aceitam. De fato, a resignação é freqüentemente aconselhada quando uma situação é tanto ruim quanto imutável, ou, quando a mudança só é possível a um grande preço ou risco. [...] Noções de aceitação são proeminentes em muitas fés e práticas de meditação". Por exemplo, a primeira nobre verdade do Budismo, "a vida é sofrimento", convida as pessoas a aceitarem que o sofrimento é uma parte natural da vida." ( Wikipédia, a enciclopédia livre).
É justamente esse significado que complica o ensinamento. Se resignação é somente aceitação, sem expectativas de mudanças, ou, mesmo, aceitação pura e simples, fica muito fácil a derrapagem na acomodação, na inércia. É só dizer que "Deus quer assim", e que nada pode mudar.
Se muitos dos nossos problemas não podem ser mudados nesta existência, podemos, entretanto, pela sua compreensão, mudar a forma de enfrentá-los. Ou aliviamos o tal "sofrer", passando pela dor, sem lamentação ou reclamação constante (atitude essa, muitas vezes, responsável por mais dor), ou fazemos o problema ou a dor parecerem maior do que realmente são.
No que diz respeito à citação budista ─ "a vida é sofrimento" ─, é válido ressaltar que esse sofrer significa "passar por", sofrer uma situação de dor. Não recebe, portanto, a conotação de lamentação, desesperação.
A Terra, por ser um mundo de provas e expiações, obviamente não é um paraíso de delicias. Estamos aqui para evoluir. A dor, nesse caso, quase sempre, transforma-se no impulso evolutivo necessário à nossa caminhada. Atrelada à Lei de Ação e Reação, ela nos convida, não raras vezes, ao reajuste, ao resgate de nossos débitos anteriores ou atuais.
Quando temos um problema, a dor que dele resulta é um fato - algo que acontece ou aconteceu. O sofrimento é a nossa resposta a esse fato, a nossa reação diante da dor, do fato, do problema.
É bom lembrar, quanto a isso, que a dor pode vir atrelada ao campo das causas e efeitos, mas o sofrimento é opcional, ou seja, não sofrer no sentido de não se lamentar, não se desesperar, equivalendo dizer, não perder a esperança. Em verdade, isso não nos retira o cadinho da dor, mas sublima os nossos sentimentos em relação ao fato.
"O homem pode abrandar ou aumentar o amargor das suas provas, pela maneira de encarar a vida terrena. Maior é o eu sofrimento, quando o considera mais longo. Ora, aquele que se coloca no ponto de vista da vida espiritual, abrange na sua visão a vida corpórea, como um ponto no infinito, compreendendo a sua brevidade, sabendo que esse momento penoso passa bem depressa [...]". (ESE - Cap. V, item 13).
Diante desses apontamentos, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, queresignação é dor sem sofrimento, momento em que o individuo, ante a imortalidade da alma, compreende o processo. Não pela subserviência, submissão ou inércia diante dos fatos, mas por uma oportunidade de crescimento que nos impulsiona à busca do melhor para nós e para o momento.
Resiliência
O caro leitor, nessa altura do texto, há de perguntar: - E a tal resiliência?
A resiliência começa justamente quando a dor nos encontra.
"Resiliência (psicologia) - A psicologia tomou essa imagem emprestada da física, definindo resiliência como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, etc. - sem entrar em surto psicológico. Tais conquistas, face essas decisões, propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. Assim entendido, pode-se considerar que a resiliência é uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano, condições para enfrentar e superar problemas e adversidades [...]". (Wikipédia, a enciclopédia livre).
Quando o texto acima afirma que a Psicologia tomou emprestado o termo da Física, é porque resiliência é a "[...] Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação." (Dic. online Priberam). Já na Medicina o termo se aplica quando um osso fraturado consegue retomar sua forma original. Podemos dizer, assim, que a resiliência se configura quando, diante de problemas, pressões e traumas, conseguimos superar os obstáculos "dando a volta por cima", como diz popularmente. É a capacidade de organizar, avaliar e retomar o nosso caminho, com a percepção, porém, de "dor" como fonte de crescimento, e não de sofrimento.
O que, então, nos faz resignados ou resilientes?
Podem ser considerados resignados e resilientes indivíduos que suportam grandes dramas na vida, ou passam por situações problemáticas constantemente e, mesmo assim, mantêm um olhar de paz e tranquilidade (considerando-se que os olhos são os espelhos da alma), superando os obstáculos que a vida coloca à sua frente, e dessa forma, superando a si mesmos.
O grande segredo, se é que podemos falar assim, encontra guarita na fé. A fé humana em si mesmo -autoconfiança. A fé divina no Criador, certeza absoluta de que não estamos sós, de que tudo passa e que nossas dores chegarão logo ao fim. Fé é a certeza de que o futuro nos reserva algo muito melhor. É a visão na vida futura, que glorifica os dias na Terra, de tantas provas e expiações. É visão mais além, que modifica o nosso comportamento diante das dores e aflições, e que, nos modificando, transforma tudo o que está à nossa volta.
Somos, portanto, artífices da nossa evolução espiritual, escultores de nós mesmos, tendo o cinzel da vontade como ferramenta para talhar as pedras que nos cobrem e dificultam a nossa existência, removendo, assim, os entulhos do passado para, então, lapidados e polidos, apresentarmos face nova diante do Criador e, afinal, podermos dizer, parafraseando o Apóstolo Paulo: "Já não sei se vivo no Cristo ou é o Cristo que vive em mim".
■
(Leonardo Pereira é designer gráfico,
orador espírita e um dos trabalhadores do
Grupo Espírita Lamartine Palhano Junior - Vitória – ES.)
Imagem: Disponível em: www.google.com .
Publicado originalmente no Blog espiritualismo e espiritismo : http://espiritualismoeespiritismo.blogspot.com/ e no blog:http://glamartinepjr.blogspot.com.br/2010/10/resignacao-e-resilienc...
O mesmo tema, vários artigos, para ajudar a alguém que está preparando uma exposição ou estudando um assunto
Estudando o Espiritismo
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terça-feira, 24 de maio de 2016
Motivos de resignação - Rogério Coelho
Por Rogério Coelho
Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados. – Jesus (Mt., 5:5)
Se, por um lado, Jesus afirmou[1] que no mundo teríamos aflições, por outro lado Ele – consoladoramente – declarou[2]: Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e afadigados e eu vos aliviarei.
Segundo Emmanuel[3]: Quando o discípulo se distancia da confiança no Mestre e se esquiva à ação nas linhas do exemplo que o Seu divino apostolado nos legou, preferindo a senda vasta da infidelidade à própria consciência, cava, sem perceber, largos abismos de destruição e miséria por onde passa.
O Benfeitor Amigo mostra as consequências de tais desvios: eliminação do bom ânimo; destruição da esperança; sufocamento das virtudes e expansão dos vícios; aquisição de pesados débitos; inibição da confiança; asfixiamento do otimismo; imobilização na senda evolutiva; revolta, etc…
E completa afirmando: Desventurados aqueles que não seguem o Mestre que encontraram, porque conhecer Jesus Cristo em espírito e viver longe dEle, será espalhar a destruição em torno dos passos e conservar a miséria dentro de nós mesmos.
Allan Kardec traz[4] à nossa compreensão os meios de suavização das provas, dizendo que o homem voluntariamente pode (…) aumentar ou suavizar o amargor delas, conforme o modo por que encare a vida terrena. (…) Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar.
Quem apenas vê a vida corpórea, interminável lhe parece esta e a dor o oprime com todo o seu peso.
Portanto, da maneira de considerar a vida, com vislumbres do futuro espiritual ditoso, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo. Esse enfoque é de molde a proporcionar uma calma e uma resignação muito úteis à saúde do corpo e da alma. Assim, por paradoxal que possa parecer, devemos nos sentir felizes pelos sofrimentos. Não se trata – absolutamente – de masoquismo, visto que, segundo explicação do Mestre Lionês[5] (…) as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as nossas passadas faltas nos fizeram contrair; suportadas pacientemente na Terra, essas dores nos pouparão séculos de sofrimentos na vida futura.
E, ainda afirma com convicção: Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranquilidade no porvir.
Portanto, a calma e a resignação hauridas no verdadeiro conhecimento do significado da vida corporal em seu aspecto transitório e da confiança no futuro ditoso, dão ao Espírito uma serenidade de quem se sente sob a Divina proteção de Jesus.
Não é sem motivo que Santo Agostinho afirmou: Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas Almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças.
E, sem dúvida, pelas mesmas razões, Paulo escreveu aos Coríntios[6]: Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória.
Sintonizado no mesmo diapasão vibracional, aduz Emmanuel[7]: (…) todos nós, que temos sido salvos de maiores quedas pelos avisos da fé renovadora, estamos informados de que, nos supremos testemunhos, segue o discípulo para o Mestre, quanto o Mestre subiu para o Pai, na glória oculta da crucificação.
[1] - Jo., 16:33.
[2] - Mt., 11:28.
[3] – XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. 10. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1982, cap. 27.
[4] – KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 13.
[5] - KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 12.
[6] – II Cor., 4:17.
[7] – XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. 10. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1982, cap. 97.
Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados. – Jesus (Mt., 5:5)
Se, por um lado, Jesus afirmou[1] que no mundo teríamos aflições, por outro lado Ele – consoladoramente – declarou[2]: Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e afadigados e eu vos aliviarei.
Segundo Emmanuel[3]: Quando o discípulo se distancia da confiança no Mestre e se esquiva à ação nas linhas do exemplo que o Seu divino apostolado nos legou, preferindo a senda vasta da infidelidade à própria consciência, cava, sem perceber, largos abismos de destruição e miséria por onde passa.
O Benfeitor Amigo mostra as consequências de tais desvios: eliminação do bom ânimo; destruição da esperança; sufocamento das virtudes e expansão dos vícios; aquisição de pesados débitos; inibição da confiança; asfixiamento do otimismo; imobilização na senda evolutiva; revolta, etc…
E completa afirmando: Desventurados aqueles que não seguem o Mestre que encontraram, porque conhecer Jesus Cristo em espírito e viver longe dEle, será espalhar a destruição em torno dos passos e conservar a miséria dentro de nós mesmos.
Allan Kardec traz[4] à nossa compreensão os meios de suavização das provas, dizendo que o homem voluntariamente pode (…) aumentar ou suavizar o amargor delas, conforme o modo por que encare a vida terrena. (…) Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar.
Quem apenas vê a vida corpórea, interminável lhe parece esta e a dor o oprime com todo o seu peso.
Portanto, da maneira de considerar a vida, com vislumbres do futuro espiritual ditoso, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo. Esse enfoque é de molde a proporcionar uma calma e uma resignação muito úteis à saúde do corpo e da alma. Assim, por paradoxal que possa parecer, devemos nos sentir felizes pelos sofrimentos. Não se trata – absolutamente – de masoquismo, visto que, segundo explicação do Mestre Lionês[5] (…) as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as nossas passadas faltas nos fizeram contrair; suportadas pacientemente na Terra, essas dores nos pouparão séculos de sofrimentos na vida futura.
E, ainda afirma com convicção: Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranquilidade no porvir.
Portanto, a calma e a resignação hauridas no verdadeiro conhecimento do significado da vida corporal em seu aspecto transitório e da confiança no futuro ditoso, dão ao Espírito uma serenidade de quem se sente sob a Divina proteção de Jesus.
Não é sem motivo que Santo Agostinho afirmou: Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas Almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças.
E, sem dúvida, pelas mesmas razões, Paulo escreveu aos Coríntios[6]: Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória.
Sintonizado no mesmo diapasão vibracional, aduz Emmanuel[7]: (…) todos nós, que temos sido salvos de maiores quedas pelos avisos da fé renovadora, estamos informados de que, nos supremos testemunhos, segue o discípulo para o Mestre, quanto o Mestre subiu para o Pai, na glória oculta da crucificação.
[1] - Jo., 16:33.
[2] - Mt., 11:28.
[3] – XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. 10. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1982, cap. 27.
[4] – KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 13.
[5] - KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 12.
[6] – II Cor., 4:17.
[7] – XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. 10. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1982, cap. 97.
MOTIVOS DE RESIGNAÇÃO - Leda
Segundo dicionários, resignação é ( Houais) " submissão à vontade de alguém ou ao destino". ( Caldas Aulete) (Fig) " Submissão aliada à constância e paciência em face dos infortúnios, coragem para suportar os rigores dos infortúnios, constância numa situação sem que se reaja contra ela, ou sem que o paciente se lamente dela." (Aurélio ).. " Submissão paciente aos sofrimentos da vida."
Submissão é ( Houais) " disposição para obedecer, para aceitar uma situação de subordinação, docilidade, obediência, subalternidade. ( Aurélio) "disposição para aceitar um estado de dependência."
Como vemos, a resignação implícita nas Bem-Aventuranças de Jesus e mais esclarecidas pelo espiritismo não está em desacordo com as definições acima.
Resignar-se é submeter-se, voluntariamente, às leis de Deus, por reconhecer que sendo Ele, o Absoluto na perfeição, causa de tudo que existe, não comete erros ou enganos e Suas leis sábias e amorosas são as que nos levam à felicidade.
Embora possam essas definições ser interpretadas pela aceitação passiva, podem também ser interpretadas pela submissão racional, lógica e ativa de quem se sente seguro e confiante no Pai e Criador.
Mesmo na definição de Caldas Aulete, a frase " sem que se reaja contra ela" pode ser interpretada como não reagir com revolta, com desespero, mas não coibindo ações para resolver a situação de infortúnio, para tentar amenizá-la, superá-la.
Se assim não fora, Deus não teria dado a seus filhos a inteligência, a razão, que os levam a querer tudo conhecer, a transformar, a criar.
A resignação preconizada pelo espiritismo é submissão ativa, fruto do entendimento dos objetivos da vida e dos seres. Submeter-se aos sofrimentos próprios da vida, compreendendo-os como merecidos e necessários ao desenvolvimento do Espírito imortal é viver, otimisticamente, pela certeza da justiça das leis naturais e do futuro de felicidade que o espera.
É compreender a promessa de Jesus quando oferta as bem-aventuranças aos que sofrem, aos aflitos. É chorar pela dor, mas sorrir pela benção da oportunidade de ressarcimento de dívidas do passado, entregando-se à vontade do Pai.
É colocar o pensamento na libertação que virá após, amenizando, somente com essa certeza, as agruras do momento.
"A resignação é a coragem da virtude." ( Cairbar Schutel: Parábolas e Ensinos de Jesus, Clarim, décima edição, pag.137.)
São, pois vários os motivos que podem levar o homem à resignação nos sofrimentos e dificuldades da vida. Resumindo-os:
- Confiança em Deus e na Sua sabedoria e amor. Se nós ,homens ainda tão imperfeitos, queremos o melhor para nossos filhos, Ele, A Perfeição absoluta, não pode querer menos. Se nós, pela nossa imperfeição, nem sempre sabemos, exatamente, o que é melhor para nossos filhos, Ele sabe , pela Sua onisciência, e faz pela Sua onipotência. Aceitar e compreender - o quanto possível - Deus, " inteligência suprema e causa primária de todas as coisas" , parece-me ser a primeiro motivo para ser resignado nas dificuldades naturais do viver na Terra.
- Compreender e aceitar a imortalidade do Espírito, que nos leva a enxergar todos os acontecimentos e situações da vida como coisas passageiras, importantes sim , mas nada catastróficas ou milagrosas.
- Aceitar e compreender a lei das vidas sucessivas, através das quais vamos evoluindo de Espíritos simples e ignorantes a Espíritos angélicos, sábios e amorosos, precisando, pois das dificuldades da vida material para que essa evolução intelectual e moral se processe.
- Aceitar e compreender a lei de ação e reação, através da qual vamos corrigindo nossos equívocos e omissões, conhecendo as causas dos nossos sofrimentos pelos efeitos que sentimos e recebemos, no uso da nossa inteligência e raciocínios, aprendendo assim a evitar as causas que os provocam.
- Entender as promessas de Jesus, nas Bem-aventuranças, promessas essas que só podem ser cumpridas no decorrer da vida eterna, no processo evolutivo do Espírito imortal.
- Aceitar a perfectibilidade do homem que pode realizar seu desenvolvimento com muito mais facilidade e menos sofrimento, se for submisso às leis de Deus, aproveitando as dificuldades e dores para conhecer-se e desenvolver toda a potencialidade divina que traz inserida em si.
- Compreender e aceitar que o homem é um ser em trânsito na Terra, onde faz sua evolução, e que depende de cada um sofrer mais ou menos, na dependência do entendimento das leis divinas e na sua aplicação no seu sentir, pensar e agir.
Nessa compreensão e aceitação desses princípios, confiando nas palavras de Jesus " Bem- aventurados os aflitos porque serão consolados", os inevitáveis infortúnios da vida poderão ser recebidos como oportunidades de testes de avaliação do processo evolutivo, de liberação de dívidas, portanto com alegria, com confiança, com certeza de que são experiências saudáveis, necessárias e úteis ao nosso progresso espiritual.
Daí a importância da resignação compreensiva e ativa, sempre!
Leda de Almeida Rezende Ebner
Novembro / 2004
Motivos de Resignação - Gregório
Motivos de Resignação
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Aspectos Gerais. 4. Dor e Sofrimento: 4.1. Dor-expiação; 4.2. Dor-evolução; 4.3. Dor-auxílio. 5. Sofrer de Modo Feliz: 5.1. Dívidas do Passado; 5.2. Devemos 100, Pagamos Apenas 1; 5.3. Vontade de Deus em Primeiro Lugar. 6. Consolação: 6.1. Vida Futura; 6.2. O Problema da Salvação da Alma; 6.3. Visão Espiritual do Problema. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
Não há quem não se pergunte: por que tantas dificuldades aos meus pés? Por que as coisas ao meu redor não acontecem como eu as desejo? Por que o meu vizinho está sempre sorridente e eu triste? Analisemos, pois, as questões da dor e as razões pelas quais o Espiritismo nos exorta à resignação.
2. CONCEITO
Motivo: causa, razão, fim, intuito, escopo.
Resignação: tornar-se animoso no sofrimento. Paciência diante da ingratidão, da adversidade, do infortúnio.
3. ASPECTOS GERAIS
Este tema – Motivos de Resignação – encontra-se no capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo (Bem-Aventurados os Aflitos).
Para uma melhor compreensão do tema, convém nos lembramos de que as bem-aventuranças encerram os ensinamentos de Jesus ministrados na fralda de um monte, em Cafarnaum, conhecido também como o Sermão da Montanha, e que tinha o objetivo de fazer uma síntese das leis Morais que regem a humanidade.
As bem-aventuranças é um termo técnico para indicar uma forma literária de ministrar conhecimentos. Pode-se dizer que é uma declaração de bênção em virtude duma boa sorte. Com Jesus toma a forma de um paradoxo: a bem-aventurança não é proclamada em virtude de uma boa sorte, mas de uma má sorte. Jesus dizia: bem-aventurados os que sofrem... os que sentem frio... os que são perseguidos. (Mackenzie, 1984)
Ghandi, o grande libertador da Índia pela política da não-violência, dissera certa vez que se da Doutrina de Cristo os homens tirassem tudo, mas deixassem as bem-aventuranças, de nada sofreria, pois ali contém o alimento necessário para a reformulação do pensamento do ser humano.
Ao refletir sobre este tópico, tenhamos claro em nossa mente o seu fim último, que a consolação frente às nossas dificuldades.
4. DOR E SOFRIMENTO
Embora possamos sentir dor e não sofrer, os termos são, na maioria das vezes, interpretados como sinônimos.
Mas quais são os tipos de dor que, de acordo com a Doutrina Espírita, o ser humano está sujeito?
4.1. DOR-EXPIAÇÃO
Essa dor refere-se à consequência de uma ação passada. Dada a nossa ignorância, nos desregramos em relação às Leis de Deus e criamos o que os orientais chamam de "carma", que deve ser purgado para a nossa felicidade e a nossa harmonia interior.
4.2. DOR-EVOLUÇÃO
Enquanto na dor-expiação somos obrigados a sofrer porque merecemos, ou seja, porque cometemos deslize com relação à Lei Natural, nesta ocorre o contrário: sofremos porque temos o anelo da perfeição, a purificação de nossa alma. . O Espírito que atingiu esta fase está num nível de evolução bem superior ao que sofre por um "castigo". Por isso, não é muito correto dizer que a Reencarnação é uma punição. Ela é também motivo de evolução.
4.3. DOR-AUXÍLIO
Esta dor já é mais voltada para o sentido corretivo, pois os nossos desequilíbrios são tantos que muitas vezes precisamos ficar num leito de dor por anos e anos meditando em nossa situação. Quem visitar pessoas internadas em Casas de Recuperação pode notar as feições de cada um nesta situação. (Xavier, 1976, p. 261 e 262)
5. SOFRER DE MODO FELIZ
A lição nos convida a ser feliz no sofrimento. Por que?
5.1. DÍVIDAS DO PASSADO
Voltando para dentro de nós mesmos, e mesmo que saibamos da advertência do esquecimento do passado, temos sempre a intuição do que fomos e porque estamos nesta situação. Quer dizer, não há necessidade de fazermos uma regressão de memória ou terapia de vidas passadas. A nossa própria percepção nos conduz ao que fomos, dando-nos as razões de nosso sofrimento no presente.
5.2. DEVEMOS 100, PAGAMOS APENAS 1
Os Espíritos nos orientam que a resignação ao sofrimento equivale ao seguinte raciocínio: suponha que tenhamos uma dívida de R$ 100,00, que deve ser quitada num prazo X. Na contabilidade divina surge a seguinte operação: se me pagares apenas R$ 1,00, eu quitarei a dívida toda. Quem, que se julga honesto e responsável, não se apressaria em desembolsar os R$ 1,00 e ficar livre de toda a dívida? Assim é que procede a divindade para cada um de nós. O nosso pagamento é sempre menor do que aquilo que deveríamos realmente pagar.
5.3. VONTADE DE DEUS EM PRIMEIRO LUGAR
Nas grandes crises pelas quais passamos, quando colocamos a vontade de Deus acima da nossa, o sofrimento torna-se mais leve, mais suave, enaltecendo os ensinamentos de Jesus que diz que o seu jugo é suave e o seu fardo leve. Ele, o nosso irmão maior, nos dá força para continuarmos no caminho da fé, apesar das asperezas do caminho. É por isso que os Espíritos superiores estão sempre nos alertando: "Em tudo o que fizer, pensa em Deus primeiro".
6. CONSOLAÇÃO
6.1. VIDA FUTURA
Por que nos preocuparmos com a vida futura? Por que o evangelho nos diz que a felicidade não é deste mundo? Por que deixar para o dia seguinte o que podemos gozar hoje? As respostas a estas perguntas dependerão sensivelmente da visão de mundo de cada um de nós. Se formos muito apegados à matéria, poderemos querer gozar já no dia de hoje não importando se, com isso, precisarmos passar por cima do nosso próximo. Ao contrário, porém, se a nossa visão de mundo for espiritualista, olharemos as coisas de um outro ângulo. Ou seja, daremos mais atenção ao Espírito do que ao corpo.
6.2. O PROBLEMA DA SALVAÇÃO DA ALMA
A salvação da alma, após o desencarne, é um problema grave para a maioria das religiões: para algumas são necessárias as obras; para outras, basta a fé. A Doutrina Espírita ensina-nos que a morte não altera o nosso estado moral; mudamos apenas de plano. Deixamos de pertencer ao mundo dos encarnados para fazer parte do mundo dos desencarnados, o verdadeiro mundo espiritual. Assim, não é porque temos fé ou porque acreditamos em Deus que seremos salvos. Para sermos salvos precisamos de nos libertar do erro, do "pecado". Somente assim poderemos nos libertar do mundo das provas.
6.3. VISÃO ESPIRITUAL DO PROBLEMA
Quando olhamos os nossos problemas terráqueos de um ponto de vista espiritual, eles começam a perder a sua intensidade, o seu valor relativo. Esta observação equivale a subirmos a uma montanha e de lá olharmos para baixo: tudo parece em tamanho diminuto. Procede assim aquele que dá mais valor ao Espírito do que à carne. Esse indivíduo pode passar por todos o tipos de dificuldade, que continua calmo, paciente, inclusive, agradecendo a Deus pelo sofrimento, pois o vê como uma forma de ativar a sua evolução espiritual.
7. CONCLUSÃO
Lembremo-nos da oração da serenidade em que pedimos a Deus serenidade para aceitarmos as coisas que não podemos modificar, coragem para modificarmos aquelas que podemos e sabedoria para distinguir uma da outra.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.
MACKENZIE, J. L. (S. J.). Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1984.
XAVIER, F. C. Ação e Reação, pelo Espírito André Luiz. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.
São Paulo, abril de 2005
terça-feira, 17 de maio de 2016
O TESOURO ENFERRUJADO.
"O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram." (Tiago, 5:3).
Se o homem realmente se preocupasse com a reeducação dos seus sentimentos, certamente as suas ações seriam dirigidas pelo bem.
Porém, a maioria não está interessada nos valores Divinos, e assim, preferem desenvolver habilidades que lhes dê bens materiais.
No geral, vemos o amor sendo confundido com a satisfação dos sentidos carnais, principalmente no campo da sensualidade.
A fraternidade nos tempos atuais, é tida como meio de promoção para aqueles que desejam apenas o prestígio social. A fé, é usada como meio de controle de mentes, com o único objetivo de ascensão politica. Aqui, o perdão fala de dificuldades para expressar-se; ali, a humildade pede a admiração dos outros.
Todos os sentimento conferidos ao homem por Deus são sagrados, constituindo o ouro e a prata. Porém, como disse o Apóstolo, deixamos que essas bênçãos enferrujassem, com o passar do tempo.
Assim, é urgente que trabalhemos para eliminar a "ferrugem" que atacou os tesouros do Espírito. Para isso, é necessário compreender que somente pelo estudo, conscientização e prática do Evangelho, poderemos atingir as metas da renúncia e do perdão sem obstáculos, a fim de caminhar verdadeiramente, ao encontro de Jesus.
Emmanuel, Caminho Verdade e Vida, mensagem 24
Se o homem realmente se preocupasse com a reeducação dos seus sentimentos, certamente as suas ações seriam dirigidas pelo bem.
Porém, a maioria não está interessada nos valores Divinos, e assim, preferem desenvolver habilidades que lhes dê bens materiais.
No geral, vemos o amor sendo confundido com a satisfação dos sentidos carnais, principalmente no campo da sensualidade.
A fraternidade nos tempos atuais, é tida como meio de promoção para aqueles que desejam apenas o prestígio social. A fé, é usada como meio de controle de mentes, com o único objetivo de ascensão politica. Aqui, o perdão fala de dificuldades para expressar-se; ali, a humildade pede a admiração dos outros.
Todos os sentimento conferidos ao homem por Deus são sagrados, constituindo o ouro e a prata. Porém, como disse o Apóstolo, deixamos que essas bênçãos enferrujassem, com o passar do tempo.
Assim, é urgente que trabalhemos para eliminar a "ferrugem" que atacou os tesouros do Espírito. Para isso, é necessário compreender que somente pelo estudo, conscientização e prática do Evangelho, poderemos atingir as metas da renúncia e do perdão sem obstáculos, a fim de caminhar verdadeiramente, ao encontro de Jesus.
Emmanuel, Caminho Verdade e Vida, mensagem 24
Chico Xavier, "Paulo e Estêvão" e o sapo
Contou-nos o Chico que a recepção do livro "Paulo e Estêvão", editado pela FEB, durou 8 meses.
Todos os dias, com exceção de domingo, depois do expediente no escritório da Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo, ele descia para o porão da casa do Sr. Rómulo Joviano, o seu chefe, e se punha a trabalhar na psicografia.
Começava por volta das 17:15 horas e, por vezes, ia até a 1 hora da madrugada.
O trabalho se dividia em três partes: ele psicografava, passava a limpo e depois datilografava na máquina que o Sr. Rômulo lhe emprestava, já que não possuía uma.
Apesar de rigoroso, o Sr. Rômulo era muito bom para o Chico.
Todos os dias, com exceção de domingo, depois do expediente no escritório da Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo, ele descia para o porão da casa do Sr. Rómulo Joviano, o seu chefe, e se punha a trabalhar na psicografia.
Começava por volta das 17:15 horas e, por vezes, ia até a 1 hora da madrugada.
O trabalho se dividia em três partes: ele psicografava, passava a limpo e depois datilografava na máquina que o Sr. Rômulo lhe emprestava, já que não possuía uma.
Apesar de rigoroso, o Sr. Rômulo era muito bom para o Chico.
Além de sua esposa, todas as noites, mandar que a empregada lhe servisse um lanche no porão, ele determinava que o funcionário de plantão levasse o Chico em casa de charrete, desde que, pela manhã, pontualmente às 7 horas, ele estivesse firme no serviço.
O mais interessante é o que ele nos conta a seguir:
— "Quando comecei a psicografar o "Paulo e Estêvão", todas as noites aparecia um enorme sapo no porão.
A princípio, não estimava a sua companhia, mas Emmanuel foi me explicando que ele era uma forma de transição entre outras espécies animais, também evoluindo como nós para Deus, e acabei por me habituar com a sua presença.
Aquele sapo era estranho...
Todas as tardes, ele me esperava à porta do improvisado gabinete no porão da residência do Sr. Rómulo Joviano.
Entrava comigo e ficava quieto num canto.
Quando eu saía, ele saía junto e se embrenhava pelo mato...
No outro dia, lá estava ele...
À medida que o "Paulo e Estêvão" ia sendo psicografado, o meu chefe e sua esposa iam acompanhando o livro, como hoje se acompanham os capítulos da uma novela.
O "Paulo e Estêvão" me emocionou muito. Chorei quase que durante os 8 meses que Emmanuel levou para escrevê-lo por meu intermédio.
Quando terminamos, vi que um espírito, que também sempre estava presente, começou a desmontar uma espécie de painel, que, de certa forma, transformava aquele porão numa cabine que me isolava de todo o ambiente externo. E comecei a sentir saudades... Saudades dos personagens do livro, saudades daqueles meses maravilhosos, saudades de quando a narrativa de Emmanuel me transportava para aquela época...
E pensei comigo mesmo de que maneira poderia manifestar a minha gratidão por ter concluído aquele trabalho que me havia feito tão bem ao coração.
Olhando para o piso do porão, percebi as pegadas luminescentes de Emmanuel e tive ímpetos de beijá-las...
Sentia minh'alma invadida por uma onda de amor e de fé!
Correndo os olhos por aquele quarto subterrâneo, notei um monte de areia grossa e, ao meu lado, o sapo que foi a minha única companhia do mundo durante todo aquele tempo.
O mais interessante é o que ele nos conta a seguir:
— "Quando comecei a psicografar o "Paulo e Estêvão", todas as noites aparecia um enorme sapo no porão.
A princípio, não estimava a sua companhia, mas Emmanuel foi me explicando que ele era uma forma de transição entre outras espécies animais, também evoluindo como nós para Deus, e acabei por me habituar com a sua presença.
Aquele sapo era estranho...
Todas as tardes, ele me esperava à porta do improvisado gabinete no porão da residência do Sr. Rómulo Joviano.
Entrava comigo e ficava quieto num canto.
Quando eu saía, ele saía junto e se embrenhava pelo mato...
No outro dia, lá estava ele...
À medida que o "Paulo e Estêvão" ia sendo psicografado, o meu chefe e sua esposa iam acompanhando o livro, como hoje se acompanham os capítulos da uma novela.
O "Paulo e Estêvão" me emocionou muito. Chorei quase que durante os 8 meses que Emmanuel levou para escrevê-lo por meu intermédio.
Quando terminamos, vi que um espírito, que também sempre estava presente, começou a desmontar uma espécie de painel, que, de certa forma, transformava aquele porão numa cabine que me isolava de todo o ambiente externo. E comecei a sentir saudades... Saudades dos personagens do livro, saudades daqueles meses maravilhosos, saudades de quando a narrativa de Emmanuel me transportava para aquela época...
E pensei comigo mesmo de que maneira poderia manifestar a minha gratidão por ter concluído aquele trabalho que me havia feito tão bem ao coração.
Olhando para o piso do porão, percebi as pegadas luminescentes de Emmanuel e tive ímpetos de beijá-las...
Sentia minh'alma invadida por uma onda de amor e de fé!
Correndo os olhos por aquele quarto subterrâneo, notei um monte de areia grossa e, ao meu lado, o sapo que foi a minha única companhia do mundo durante todo aquele tempo.
Levantei-me da cadeira e ajoelhei-me sobre a areia, rente ao sapo, que não se moveu, e comecei a orar agradecendo a Deus...
Agradeci por ter sido, na minha imperfeição, o médium daquela obra que seria tão importante em nosso meio doutrinário...
E agradeci ao sapo, que me fitava com os seus olhos imóveis, dizendo a ele:
— Irmão Sapo, a graça divina há também de brilhar para você!... Por alguma razão que não conheço, você esteve aqui comigo nesses oito meses. Que Deus o abençoe em seus caminhos!...
Daquele dia em diante, o sapo desapareceu!..."
Ao terminar a narrativa, o Chico tem o rosto banhado de lágrimas.
E mais uma vez me pergunto, em silêncio, que homem seria esse que ia passando pela Terra, ocultando a sua própria grandeza na humildade de suas atitudes?!
Carlos A.Baccelli
Agradeci por ter sido, na minha imperfeição, o médium daquela obra que seria tão importante em nosso meio doutrinário...
E agradeci ao sapo, que me fitava com os seus olhos imóveis, dizendo a ele:
— Irmão Sapo, a graça divina há também de brilhar para você!... Por alguma razão que não conheço, você esteve aqui comigo nesses oito meses. Que Deus o abençoe em seus caminhos!...
Daquele dia em diante, o sapo desapareceu!..."
Ao terminar a narrativa, o Chico tem o rosto banhado de lágrimas.
E mais uma vez me pergunto, em silêncio, que homem seria esse que ia passando pela Terra, ocultando a sua própria grandeza na humildade de suas atitudes?!
Carlos A.Baccelli
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Terapia do Perdão
http://www.viamaxi.com.br/2014/12/terapia-do-perdao/
Terapia do Perdão
Dr. Ricardo de Souza Cavalcante
Quando não perdoamos alguém, ou a nós mesmos, alimentamos inúmeros sentimentos ruins, como a mágoa, o rancor, o ódio e a vingança. Apesar de serem sentimentos fortes, não há em nenhum deles, sequer, algo que faça bem a nossa saúde física, emocional e espiritual.
São sentimentos que fazem, comprovadamente, mal ao nosso organismo, provocando e alimentando doenças, em nossa mente e em nosso corpo, incluindo o aparecimento de tumores malignos.
“Enquanto dormimos / a dor que não se dissipa / cai gota a gota sobre nosso coração / até que / em meio ao nosso desespero / e contra nossa vontade / apenas pela graça divina / vem a sabedoria”
Os versos do poeta grego Ésquilo, escritos há 25 séculos, são considerados por muitos a mais bela conclamação ao perdão jamais escrita. Bob Kennedy recorreu a ela na tarde do dia 4 de abril de 1968 para, durante um comício, consolar a multidão revoltada com a chegada da notícia do assassinato do líder pacifista Martin Luther King. Dois meses depois, o próprio Bob foi morto a tiros.
A Via Maxi, nessa edição de final de ano, quando muitos param para reavaliar atitudes e se propor aos planos de mudanças para o ano que se inicia, procuramos o médico infectologista, Ricardo de Souza Cavalcante, do Hospital das Clínicas de Botucatu e professor da faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, que também ministra palestras sobre a “Terapia do Perdão” para falar sobre os efeitos clínicos desses sentimentos. Em nossa 30ª edição da revista Via Maxi publicamos alguns trechos da entrevista, porém, aqui, você poderá acompanhá-la na íntegra.
Via Maxi: Como pode ser definido, de fato, o ato de perdoar?
Muitas pessoas acreditam que perdoar é esquecer a ofensa recebida. No entanto, isso é impossível, pois o fato em que ocorreu a ofensa permanecerá em nossa memória. O perdão significa compreender aquele que nos ofendeu de um modo diferente, modificando a nossa intimidade. É a verdadeira educação da alma.
VM: A mágoa tem o poder de provocar problemas físicos e psicológicos? Como ela pode desencadear doenças?
A mágoa sempre surge da raiva, emoção nata da criatura humana, quando mal conduzida. Sempre que nos sentimos ofendidos, agredidos ou acuados, a raiva surge como uma emoção natural. Ela desencadeia uma reação orgânica chamada “estresse”, em que há liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que irão agir sobre o sistema cardiovascular e imunológico e sobre o cérebro. Quando fugaz, este fenômeno não traz danos ao organismo. O problema surge quando ocorre de maneira repetitiva. Quando não trabalhamos adequadamente a raiva que sentimos a transformamos em mágoa, e a partir deste momento, periodicamente nos lembramos daquela situação incômoda. O fato é que o nosso cérebro não consegue distinguir uma situação que está acontecendo de uma lembrança de algo que já aconteceu. A lembrança desencadeia a mesma reação de “estresse” liberando adrenalina e cortisol que cronicamente estarão agindo sobre o sistema cardiovascular a desencadear doenças como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral; estarão agindo sobre o sistema imune, desmanchando nossas defesas e permitindo a ação deletéria dos agentes infecciosos e das células neoplásicas na formação dos cânceres; estarão agindo sobre o cérebro a desequilibrar os neurotransmissores abrindo portas ao desenvolvimento dos transtornos de ordem emocional como a depressão.
VM: Quem é mais prejudicado quando não perdoamos?
O grande prejudicado pela mágoa é aquele que a sente. A incapacidade de perdoar não é danosa para aquele que ofende, mas para o ofendido. É creditada a Shakespeare uma frase que vem de encontro a isso: “Não perdoar é como beber veneno desejando que o outro morra.” Quem não perdoa carrega consigo um grande fardo que trará no futuro danos físicos, psicológicos e espirituais ao portador da mágoa.
VM: Quais os problemas que a mágoa pode causar em um indivíduo?
Conforme já colocamos anteriormente, a mágoa gera danos físicos, psicológicos e espirituais. De modo geral, as doenças apresenta origem multifatorial. Isto significa que muitos fatores contribuem para a ocorrência delas. Estão bem definidas pela medicina as condições relacionadas ao desenvolvimento de doenças como o sedentarismo, tabagismo, etilismo, alimentação com quantidade excessiva de gorduras e carboidratos entre outros. Quando colocamos que a mágoa pode ser um gerador de doenças significa que este sentimento tem um importante papel na origem destas patologias. Há 2000 anos, Jesus trouxe uma série de recomendações para que pudéssemos perdoar, pois a mágoa é extremamente deletéria em nossas vidas. E este conceito foi resgatado por Allan Kardec na codificação da doutrina espírita, apontando a mágoa e outros sentimentos comuns à criatura humana como altamente deletérios a vida e gerador de doenças. Hoje, as ciências médicas têm estudado este aspecto corroborando esta ideia. Assim identificamos que a mágoa pode estar na gênese das doenças cardiovasculares como o infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral; das neoplasias como os mais diversos tipos de câncer; das doenças infecciosas; dos transtornos de ordem emocional como o transtorno de ansiedade generalizada, as fobias e mesmo a depressão. Também, na doutrina espírita, identificamos outro grande problema. Aquele que é portador de mágoa, mantem pensamentos negativos que muitas vezes atraem espíritos infelizes permitindo a influência destes sobre o indivíduo. Isto pode ser intenso o suficiente para desencadear um processo obsessivo, em que ocorre grande estado perturbação espiritual.
VM: O perdão pode curar doença físicas e mentais?
Participando a mágoa da origem de diversas doenças, certamente o perdão é um remédio salutar para estas condições. Importante lembrar que todas as recomendações indicadas pela medicina também são necessárias no tratamento das doenças. O doutor Dean Ornish, célebre cardiologista norte-americano, escreveu uma obra intitulada “Amor e sobrevivência” que conta casos atendidos por ele e que foram submetidos à terapia do perdão. Conta o dr Ornish que, certa vez, recebeu um seu consultório um homem que sofria de dores no peito. A avaliação médica apontava para um quadro grave de angina, pondo-lhe a vida em risco. Durante sua conversa, Dr. Ornish questionou tal paciente sobre como estava sua vida. Sem que ele pudesse responder, sua esposa, que o acompanhava, disse enfaticamente: “ – A vida dele vai muito mal. Há anos tornou-se uma pessoa raivosa, irritada, agressiva até mesmo com seus familiares. O convívio dentro de casa é péssimo. Eu e nossos filhos não o aguentamos mais.” Diante do desabafo, o médico questionou o paciente se algo havia ocorrido para tal mudança. A esposa, novamente se interpôs: “ – Desde que ele brigou com o rabino, líder da sinagoga que frequentamos.” Diante do fato, o paciente expôs que ele era um homem muito participativo na sinagoga que frequentava. Para quem não sabe, sinagoga é o templo religioso dos judeus. Porém, outra sinagoga foi inaugurada próxima a sua e muitos fiéis passaram a frequentar o novo templo. Sentindo uma ameaça, o paciente exigiu do rabino (líder espiritual dos judeus, assim como é o padre para a igreja católica e o pastor para as igrejas protestantes) uma posição drástica, mas este manteve sua conduta. Tomou-se então de forte raiva com o rabino, e em reunião pública no templo, pôs-se a agredi-lo verbalmente, com calúnias infundadas, para desmoralizá-lo diante de todos. Desde então, guardava uma raiva contida daquele homem, e não mais conseguiu participar, do mesmo modo, de suas atividades no templo. Assim, aos poucos, foi tornando-se esta pessoa amarga, descontente com a vida. Este paciente tinha uma indicação médica de cirurgia para revascularizar as artérias coronárias, que são aquelas que irrigam o coração. O risco de um infarto do miocárdio era grande. No entanto, Dr. Ornish optou por esperar. Apenas ofereceu-lhe um tratamento clínico, a base de medicamentos e propôs-lhe uma medida que considerava essencial ao tratamento: seu paciente deveria pedir perdão ao seu desafeto. Inicialmente, o homem relutou. Sentia vergonha, acreditava que seria um covarde se tomasse tal medida. Mas, aos poucos, com a ajuda da esposa e algumas consultas este paciente foi convencido. Ele iria pedir perdão e isso seria em público, assim como foi seu momento de ira. Conta este paciente que em uma reunião, levantou-se e pediu a palavra. Emocionado começou a dizer tudo que estava em seu coração. Pediu perdão ao rabino, e disse que muitas vezes sentia inveja do líder judaico. Abraçaram-se junto a lágrimas e soluços. Dr. Ornish relata que a melhora clínica deste paciente foi tão evidente que a medida cirúrgica foi cancelada.
VM: Os efeitos são os mesmos para quem perdoa alguém, quanto para quem se auto perdoa?
O auto perdão é o primeiro passo que devemos realizar para sermos capazes de perdoar. Antes de compreender aquele que nos ofendeu é necessário compreender a si mesmo e aceitar-se com nossas virtudes e defeitos. Sócrates, célebre filósofo grego, difundia um pensamento que leu na entrada de um oráculo “Conhece-te a ti mesmo”, nos ensinando a grande importância da auto aceitação. Jesus também trouxe esta mesma ideia. No evangelho de Mateus, capítulo 5, versículos de 25 a 26, encontramos a seguinte passagem de Jesus: “Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não voz entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. – Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” Esta conhecida passagem de Jesus geralmente é interpretada como a necessidade da reconciliação com os adversários externos, aqueles indivíduos que nos causaram mal. Mas, podemos olhar estas palavras de modo mais profundo, como fez Joana de Ângelis na obra Triunfo Pessoal, psicografia de Divaldo Franco. A autora aponta que este adversário pode ser o adversário interno, os sentimentos que nos perturbam a alma, o orgulho ferido que foi o gerador da mágoa e do ressentimento. Uma importante observação deve ser feita: quem causa a mágoa em nós não é aquele que ofende, mas nós mesmos. É o modo como trabalhamos a situação que gera a mágoa. Carl Jung, psiquiatra e psicanalista suíço, fundador da psicologia analítica, propunha que todos nós temos uma sombra psíquica que contém todos os sentimentos que portamos e não aprovamos. São feridas da alma que adquirimos nesta ou em outras existências e que ficaram mal resolvidas. Quando alguém tem uma atitude conosco que faz desabrochar algum destes sentimentos escondidos, nos sentimos ofendidos. É como alguém que coloca o dedo em uma ferida na nossa pele – sentimos dor. Se o dedo é colocado na pele sã, nenhum incômodo sentimos. O mesmo acontece com a alma – se cutucada na ferida sentiremos dor. Por isso, o primeiro adversário que temos de enfrentar somos nós mesmos, os adversários internos. Foi isto que Jesus provocou na multidão que se preparava para o apedrejamento da mulher adultera. Quando questionado se a mulher deveria ou não ser apedrejada, Jesus pôs-se a desenhar na areia símbolos que representavam as faltas da criatura humana, permitindo uma reflexão daquela multidão sobre o conteúdo de sua sombra psíquica e fazendo-os ter consciência de que também possuíam faltas. A percepção da falibilidade da criatura humana que erra assim como seu semelhante é o primeiro passo para o perdão. Esta aceitação de si mesmo como criatura falível, em processo de evolução, este auto conhecimento, representa o auto perdão. Por isso, Jesus disse que deveríamos nos reconciliar com o adversário enquanto estivéssemos a caminho com ele – é na hora da ofensa que o sentimento guardado se manifesta e é nesse momento que devemos trabalhar com ele. Caso contrário, seremos entregues ao juiz e ao ministro da justiça que nada mais são do que a nossa própria consciência, pois é ela que nos julga, é nela que está escrita a lei divina. Entregues à nossa consciência, esta nos cobrará e nos sentiremos culpados – a culpa é a prisão anunciada por Jesus, da qual apenas sairemos até expiar todo o sentimento negativo. Portanto, certamente os efeitos do auto perdão são tão benéficos quanto aqueles oriundos do perdão a outrem.
VM: Quem ganha mais ao perdoar?
O maior beneficiado do perdão é aquele que perdoa. Como já apresentamos anteriormente, o indivíduo magoado sofre muitos danos pelo sentimento que carrega e, portanto, é o que mais se beneficia com o perdão. Para aquele que ofende também há benefício, em especial se foi uma ofensa intencional. Na doutrina espírita temos o conceito de que toda criatura humana tem em sua consciência as leis divinas, mesmo que momentaneamente não as perceba. Mas, no íntimo é possível discernirmos o que podemos ou não realizar na vida. Quando cometemos uma ação deletéria para alguém, nossa consciência cobrará de nós pelo ato indevido, seja nesta existência ou nas futuras. Uma das etapas para que possamos obter a paz de consciência é o reconciliamento com aqueles a quem prejudicamos em algum momento de nossa jornada. Por isso, o perdão também beneficia o perdoado.
VM: É possível perdoar alguém, mesmo estando ainda magoada com ele?
O perdão não ocorrerá enquanto houver a mágoa. É necessária uma mudança de sentimento. Por isso, dizemos que o perdão não é um ato pontual, mas um processo longo, porque deve ser construído em nossa intimidade. Em “O Livro dos Espíritos”, obra inaugural da doutrina espírita, Allan Kardec traz a seguinte questão: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? R: Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” Em geral, quando pensamos em caridade, mentalizamos o ato de doar um bem material a alguém necessitado. Esta é a caridade material, a mais simples de ser praticada, uma obrigação de nossa parte, visto que nada de material possuímos, apenas temos o direito transitório do usufruto. A única propriedade da criatura é a sua intimidade. Por isso, estamos verdadeiramente a dar quando damos a nós mesmos. É a caridade moral. Aquela que deve ser exercida para com todos, principalmente com aqueles que estão a nossa volta – familiares, amigos, companheiros de trabalho. O perdão representa o ato mais elevado da caridade, ou podemos dizer do amor incondicional que Jesus nos ensinou. Porém, para alcançá-lo antes é preciso exercer a benevolência e a indulgência. A benevolência é fazer o bem mesmo quando nos é oferecido o mal. Certa vez, na Índia ainda dominada pela cora inglesa, os indianos não podiam transitar pela mesma calçada que os ingleses. Gandhi andava pela rua, sem temer a repreensão, foi abordado por um soldado que lhe deferiu um golpe com seu cacetete, atirando no chão. Se esboçar reação agressiva, pois seu lema era a não violência, levantou-se e continuou a caminhar, quando novamente o soldado lhe agrediu derrubando-o no chão. Diante da situação e indignado com a postura de Gandhi, o soldado lhe indagou: “ – Com quem aprendeu a ser tão covarde?”. Gandhi com sua serenidade, apontou o peito do soldado e disse-lhe: “Este homem que você carrega no peito”. O soldado portava um crucifixo com a imagem de Jesus. O homem percebendo a brutalidade que fizera deu as mãos a Gandhi ajudando a levantar-se e pedindo-lhe perdão. Este é o exemplo da benevolência. É retribuir com o bem o mal que alguém lhe fez. O passo seguinte à benevolência é a indulgência. As grandes mágoas que carregamos na alma são de pessoas da nossa intimidade. Jesus nos alertou o seguinte, conforme está escrito no evangelho de Mateus, capítulo 7, versículos de 3 a 5: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? – Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? – Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão”. Devemos ser vigilantes. Sempre que nos percebermos observando incomodados com os defeitos alheios, em especial daqueles que nos são próximos e íntimos, devemos nos lembrar que também temos defeitos que causam os mesmos incômodos nos outros. É a sombra psíquica, ensinada por Jung, a se manifestar neste momento, oportunidade que devemos aproveitar para trabalhar este sentimento em nós. Devemos nos indagar por que este defeito do outro me incomoda? Não haverá algo em mim que devo melhorar para que este defeito não me incomode mais? Somente após obtermos o auto perdão, que representa a aceitação de si próprio, exercer a benevolência e a indulgência é que conseguiremos perdoar verdadeiramente. Por isso, o perdão é um processo construído em nossa intimidade e que devemos por em prática no dia a dia.
VM: Perdoar significa necessariamente reconciliar-se com a pessoa que o perturbou?
Para aquele que verdadeiramente perdoa, a reconciliação é uma vontade presente. Estar de bem com a outra pessoa nos faz sentirmos bem. No entanto, nas relações humanas, em geral, somos ofendidos como também ofendemos. Para que ocorra a reconciliação é necessário que as duas partes estejam dispostas a isto, o que nem sempre acontece de pronto. Às vezes, uma das partes perdoa e deseja a reconciliação, mas a outra, ainda magoada não aceita. Para aquele que perdoa, os benefícios do perdão virão independentemente se outro quer ou não ser perdoado, pois os ganhos ocorrem na intimidade do ser. Nestes casos, o tempo, e as experiências sofridas, e a mudança de postura daquele que já perdoou levarão a outra parte também a perdoar.
VM: Este é um ponto de vista religioso, ou já foi confirmado pela ciência?
O conceito do perdão decorre de um ponto de vista religioso. Todas as religiões são dotadas de conteúdo moral semelhante, e a ideia do perdão é inânime entre elas. Alguns podem combater esta ideia confundindo a religião com certos religiosos radicais que ainda não compreenderam o conteúdo da doutrina que professam e comportam-se com intolerância. A ciência tem cada vez mais adentrado neste campo, pois o preconceito de que estes assuntos não fazem parte do escopo científico tem se tornado menor. Charlotte Van Oyen Witvliet, professora de psicologia do Hope College – Michigan – EUA, realizou um experimento com 71 voluntários pedindo a eles que se lembrassem de algum episódio que tenha causado grande mágoa em suas vidas. Monitorizados, foi possível detectar ao aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e do tônus muscular, semelhante ao que se observa durante uma crise de raiva. Quando ordenou que estes indivíduos mentalizassem o entendimento e o perdão com aqueles que os feriram, observou redução dos níveis de pressão arterial, frequência cardíaca e tônus muscular. A Dra. Charlotte Witvliet é uma grande pesquisadora dos efeitos do perdão, com diversos estudos publicados nesta área. O mesmo experimento foi repetido pela Dra. Britta Larsen, da Universidade da Califórnia – EUA, com 200 voluntários obtendo os mesmos resultados, indicando uma elevada evidência científica dos benefícios do perdão.
VM: Há alguns anos a medicina era mais cética, hoje, existem médicos que acreditam que a fé influencia diretamente na cura. Explique essa situação?
Durante muitos séculos a humanidade utilizou-se da religião como forma de interpretação da vida. Mas, no século XVIII, com o surgimento do Iluminismo, a ciência ganhou força e passou a ditar as regras da sociedade. Neste contexto, a ciência médica esqueceu-se do aspecto espiritual da vida limitando a existência humana apenas ao organismo físico de que somos feitos. Assim, a medicina encara a gênese das doenças como resultado da interação entre os estímulos do ambiente e a carga genética do indivíduo. Se alguém tem um infarto agudo do miocárdio é porque tem predisposição familiar e se expõe a fatores de risco como o sedentarismo, o tabagismo ou a alimentação inadequada. Mais recentemente na história da medicina, alguns pesquisadores começaram a perceber a importância da mente sobre o corpo. Foram identificadas alterações orgânicas em decorrência do estado mental do indivíduo. É o caso de pessoas com depressão que tem maior facilidade para adquirir doenças infecciosas, pois o estado depressivo provoca uma queda das defesas do organismo. Apesar deste aspecto, a mente ainda é vista pela ciência médica como um produto do cérebro, restrita ao comando dos neurônios e suas conexões. Este modo de encarar a vida e a natureza como obras do acaso e negar a existência de uma transcendência é o que chamamos de reducionismo. A medicina reduz o homem a um aglomerado de células que podem funcionar harmônica ou desarmonicamente (quando estamos doentes). Ocorre que esta visão não têm sido suficiente para explicar os fatos referentes à saúde das pessoas e muitos pesquisadores passaram a considerar que além do corpo deveria haver algo transcendente, uma alma. Muitas pesquisas têm sido feitas nesta área indicando que a abordagem médica não deve se restringir apenas ao cuidar do corpo, mas também compreender a espiritualidade da criatura humana, que se apresenta de modo fundamental na vida das pessoas. Esta abordagem não tem a intensão de converter ninguém à determinada religião. Ela busca utilizar a fé que o indivíduo já possui para auxiliar no seu processo terapêutico. A crença pode contribuir para a pessoa enfrentar a doença de modo mais tranquilo e ser mais proativo no seu tratamento. Também é possível contar com o apoio do líder religioso que pode contribuir para uma melhor adesão ao tratamento médico. O apoio social oferecido nas instituições religiosas também é muito importante. Considerando que os sentimentos são agentes importantes na origem das doenças, uma abordagem da espiritualidade e religiosidade do indivíduo se faz altamente impactante em seu processo de cura. Por tudo isso, é que muitos médicos têm abordado esta questão e utilizado a espiritualidade e a religiosidade de cada paciente para contribuir em sua terapia.
VM: Existem pesquisas que estudam a relação Fé / Cura?
Atualmente, existem mais de 40.000 pesquisas médicas que avaliam os efeitos benéficos da abordagem da espiritualidade e da religiosidade no processo de cura das doenças. Um destaque deve ser feito para o Dr. Harold Koenig, médico, professor de psiquiatria e medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke (Duke University Medical Center), na Carolina do Norte, Estados Unidos. O Dr. Koenig é um grande pesquisador na área de saúde e espiritualidade e já esteve em visita no Brasil. A evidência científica desta abordagem espiritual se tornou algo tão concreto que hoje já se somam 100 faculdades médicas norte-americanas que criaram uma disciplina de fé e medicina. No Brasil, ainda estamos iniciando este processo nas faculdades médicas. Mas, em termos de pesquisa, muito se tem feito por aqui. Vale destacar o geriatra Giancarlo Lucchetti e o psiquiatra Alexander Moreira Almeida que são professores da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG e o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira que fundou o Pineal Mind, instituto que realiza pesquisas nesta área. Estudos têm sido realizados nas principais Universidades do estado de São Paulo, como UNESP, USP, UNICAMP e UNIFESP. Em Botucatu, junto a Associação Médico-Espírita e Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, temos realizado uma pesquisa com voluntários para estudar os efeitos terapêuticos do passe espírita sobre o tratamento da ansiedade. Os resultados ainda são parciais, mas observamos impressionante melhora do nível de ansiedade nas pessoas submetidas a este tratamento.
Ricardo de Souza Cavalcante é médico infectologista da Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (CCIRAS) do Hospital das Clínicas de Botucatu; professor substituto da disciplina de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP; coordenador do ambulatório de infecções fúngicas e vice coordenador do serviço de infecções em transplantados do Hospital das Clínicas de Botucatu; presidente da Associação Médico-Espírita de Botucatu; membro do projeto de extensão Saúde e Espiritualidade da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.
Terapia do Perdão
Dr. Ricardo de Souza Cavalcante
Quando não perdoamos alguém, ou a nós mesmos, alimentamos inúmeros sentimentos ruins, como a mágoa, o rancor, o ódio e a vingança. Apesar de serem sentimentos fortes, não há em nenhum deles, sequer, algo que faça bem a nossa saúde física, emocional e espiritual.
São sentimentos que fazem, comprovadamente, mal ao nosso organismo, provocando e alimentando doenças, em nossa mente e em nosso corpo, incluindo o aparecimento de tumores malignos.
“Enquanto dormimos / a dor que não se dissipa / cai gota a gota sobre nosso coração / até que / em meio ao nosso desespero / e contra nossa vontade / apenas pela graça divina / vem a sabedoria”
Os versos do poeta grego Ésquilo, escritos há 25 séculos, são considerados por muitos a mais bela conclamação ao perdão jamais escrita. Bob Kennedy recorreu a ela na tarde do dia 4 de abril de 1968 para, durante um comício, consolar a multidão revoltada com a chegada da notícia do assassinato do líder pacifista Martin Luther King. Dois meses depois, o próprio Bob foi morto a tiros.
A Via Maxi, nessa edição de final de ano, quando muitos param para reavaliar atitudes e se propor aos planos de mudanças para o ano que se inicia, procuramos o médico infectologista, Ricardo de Souza Cavalcante, do Hospital das Clínicas de Botucatu e professor da faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, que também ministra palestras sobre a “Terapia do Perdão” para falar sobre os efeitos clínicos desses sentimentos. Em nossa 30ª edição da revista Via Maxi publicamos alguns trechos da entrevista, porém, aqui, você poderá acompanhá-la na íntegra.
Via Maxi: Como pode ser definido, de fato, o ato de perdoar?
Muitas pessoas acreditam que perdoar é esquecer a ofensa recebida. No entanto, isso é impossível, pois o fato em que ocorreu a ofensa permanecerá em nossa memória. O perdão significa compreender aquele que nos ofendeu de um modo diferente, modificando a nossa intimidade. É a verdadeira educação da alma.
VM: A mágoa tem o poder de provocar problemas físicos e psicológicos? Como ela pode desencadear doenças?
A mágoa sempre surge da raiva, emoção nata da criatura humana, quando mal conduzida. Sempre que nos sentimos ofendidos, agredidos ou acuados, a raiva surge como uma emoção natural. Ela desencadeia uma reação orgânica chamada “estresse”, em que há liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que irão agir sobre o sistema cardiovascular e imunológico e sobre o cérebro. Quando fugaz, este fenômeno não traz danos ao organismo. O problema surge quando ocorre de maneira repetitiva. Quando não trabalhamos adequadamente a raiva que sentimos a transformamos em mágoa, e a partir deste momento, periodicamente nos lembramos daquela situação incômoda. O fato é que o nosso cérebro não consegue distinguir uma situação que está acontecendo de uma lembrança de algo que já aconteceu. A lembrança desencadeia a mesma reação de “estresse” liberando adrenalina e cortisol que cronicamente estarão agindo sobre o sistema cardiovascular a desencadear doenças como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral; estarão agindo sobre o sistema imune, desmanchando nossas defesas e permitindo a ação deletéria dos agentes infecciosos e das células neoplásicas na formação dos cânceres; estarão agindo sobre o cérebro a desequilibrar os neurotransmissores abrindo portas ao desenvolvimento dos transtornos de ordem emocional como a depressão.
VM: Quem é mais prejudicado quando não perdoamos?
O grande prejudicado pela mágoa é aquele que a sente. A incapacidade de perdoar não é danosa para aquele que ofende, mas para o ofendido. É creditada a Shakespeare uma frase que vem de encontro a isso: “Não perdoar é como beber veneno desejando que o outro morra.” Quem não perdoa carrega consigo um grande fardo que trará no futuro danos físicos, psicológicos e espirituais ao portador da mágoa.
VM: Quais os problemas que a mágoa pode causar em um indivíduo?
Conforme já colocamos anteriormente, a mágoa gera danos físicos, psicológicos e espirituais. De modo geral, as doenças apresenta origem multifatorial. Isto significa que muitos fatores contribuem para a ocorrência delas. Estão bem definidas pela medicina as condições relacionadas ao desenvolvimento de doenças como o sedentarismo, tabagismo, etilismo, alimentação com quantidade excessiva de gorduras e carboidratos entre outros. Quando colocamos que a mágoa pode ser um gerador de doenças significa que este sentimento tem um importante papel na origem destas patologias. Há 2000 anos, Jesus trouxe uma série de recomendações para que pudéssemos perdoar, pois a mágoa é extremamente deletéria em nossas vidas. E este conceito foi resgatado por Allan Kardec na codificação da doutrina espírita, apontando a mágoa e outros sentimentos comuns à criatura humana como altamente deletérios a vida e gerador de doenças. Hoje, as ciências médicas têm estudado este aspecto corroborando esta ideia. Assim identificamos que a mágoa pode estar na gênese das doenças cardiovasculares como o infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral; das neoplasias como os mais diversos tipos de câncer; das doenças infecciosas; dos transtornos de ordem emocional como o transtorno de ansiedade generalizada, as fobias e mesmo a depressão. Também, na doutrina espírita, identificamos outro grande problema. Aquele que é portador de mágoa, mantem pensamentos negativos que muitas vezes atraem espíritos infelizes permitindo a influência destes sobre o indivíduo. Isto pode ser intenso o suficiente para desencadear um processo obsessivo, em que ocorre grande estado perturbação espiritual.
VM: O perdão pode curar doença físicas e mentais?
Participando a mágoa da origem de diversas doenças, certamente o perdão é um remédio salutar para estas condições. Importante lembrar que todas as recomendações indicadas pela medicina também são necessárias no tratamento das doenças. O doutor Dean Ornish, célebre cardiologista norte-americano, escreveu uma obra intitulada “Amor e sobrevivência” que conta casos atendidos por ele e que foram submetidos à terapia do perdão. Conta o dr Ornish que, certa vez, recebeu um seu consultório um homem que sofria de dores no peito. A avaliação médica apontava para um quadro grave de angina, pondo-lhe a vida em risco. Durante sua conversa, Dr. Ornish questionou tal paciente sobre como estava sua vida. Sem que ele pudesse responder, sua esposa, que o acompanhava, disse enfaticamente: “ – A vida dele vai muito mal. Há anos tornou-se uma pessoa raivosa, irritada, agressiva até mesmo com seus familiares. O convívio dentro de casa é péssimo. Eu e nossos filhos não o aguentamos mais.” Diante do desabafo, o médico questionou o paciente se algo havia ocorrido para tal mudança. A esposa, novamente se interpôs: “ – Desde que ele brigou com o rabino, líder da sinagoga que frequentamos.” Diante do fato, o paciente expôs que ele era um homem muito participativo na sinagoga que frequentava. Para quem não sabe, sinagoga é o templo religioso dos judeus. Porém, outra sinagoga foi inaugurada próxima a sua e muitos fiéis passaram a frequentar o novo templo. Sentindo uma ameaça, o paciente exigiu do rabino (líder espiritual dos judeus, assim como é o padre para a igreja católica e o pastor para as igrejas protestantes) uma posição drástica, mas este manteve sua conduta. Tomou-se então de forte raiva com o rabino, e em reunião pública no templo, pôs-se a agredi-lo verbalmente, com calúnias infundadas, para desmoralizá-lo diante de todos. Desde então, guardava uma raiva contida daquele homem, e não mais conseguiu participar, do mesmo modo, de suas atividades no templo. Assim, aos poucos, foi tornando-se esta pessoa amarga, descontente com a vida. Este paciente tinha uma indicação médica de cirurgia para revascularizar as artérias coronárias, que são aquelas que irrigam o coração. O risco de um infarto do miocárdio era grande. No entanto, Dr. Ornish optou por esperar. Apenas ofereceu-lhe um tratamento clínico, a base de medicamentos e propôs-lhe uma medida que considerava essencial ao tratamento: seu paciente deveria pedir perdão ao seu desafeto. Inicialmente, o homem relutou. Sentia vergonha, acreditava que seria um covarde se tomasse tal medida. Mas, aos poucos, com a ajuda da esposa e algumas consultas este paciente foi convencido. Ele iria pedir perdão e isso seria em público, assim como foi seu momento de ira. Conta este paciente que em uma reunião, levantou-se e pediu a palavra. Emocionado começou a dizer tudo que estava em seu coração. Pediu perdão ao rabino, e disse que muitas vezes sentia inveja do líder judaico. Abraçaram-se junto a lágrimas e soluços. Dr. Ornish relata que a melhora clínica deste paciente foi tão evidente que a medida cirúrgica foi cancelada.
VM: Os efeitos são os mesmos para quem perdoa alguém, quanto para quem se auto perdoa?
O auto perdão é o primeiro passo que devemos realizar para sermos capazes de perdoar. Antes de compreender aquele que nos ofendeu é necessário compreender a si mesmo e aceitar-se com nossas virtudes e defeitos. Sócrates, célebre filósofo grego, difundia um pensamento que leu na entrada de um oráculo “Conhece-te a ti mesmo”, nos ensinando a grande importância da auto aceitação. Jesus também trouxe esta mesma ideia. No evangelho de Mateus, capítulo 5, versículos de 25 a 26, encontramos a seguinte passagem de Jesus: “Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não voz entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. – Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” Esta conhecida passagem de Jesus geralmente é interpretada como a necessidade da reconciliação com os adversários externos, aqueles indivíduos que nos causaram mal. Mas, podemos olhar estas palavras de modo mais profundo, como fez Joana de Ângelis na obra Triunfo Pessoal, psicografia de Divaldo Franco. A autora aponta que este adversário pode ser o adversário interno, os sentimentos que nos perturbam a alma, o orgulho ferido que foi o gerador da mágoa e do ressentimento. Uma importante observação deve ser feita: quem causa a mágoa em nós não é aquele que ofende, mas nós mesmos. É o modo como trabalhamos a situação que gera a mágoa. Carl Jung, psiquiatra e psicanalista suíço, fundador da psicologia analítica, propunha que todos nós temos uma sombra psíquica que contém todos os sentimentos que portamos e não aprovamos. São feridas da alma que adquirimos nesta ou em outras existências e que ficaram mal resolvidas. Quando alguém tem uma atitude conosco que faz desabrochar algum destes sentimentos escondidos, nos sentimos ofendidos. É como alguém que coloca o dedo em uma ferida na nossa pele – sentimos dor. Se o dedo é colocado na pele sã, nenhum incômodo sentimos. O mesmo acontece com a alma – se cutucada na ferida sentiremos dor. Por isso, o primeiro adversário que temos de enfrentar somos nós mesmos, os adversários internos. Foi isto que Jesus provocou na multidão que se preparava para o apedrejamento da mulher adultera. Quando questionado se a mulher deveria ou não ser apedrejada, Jesus pôs-se a desenhar na areia símbolos que representavam as faltas da criatura humana, permitindo uma reflexão daquela multidão sobre o conteúdo de sua sombra psíquica e fazendo-os ter consciência de que também possuíam faltas. A percepção da falibilidade da criatura humana que erra assim como seu semelhante é o primeiro passo para o perdão. Esta aceitação de si mesmo como criatura falível, em processo de evolução, este auto conhecimento, representa o auto perdão. Por isso, Jesus disse que deveríamos nos reconciliar com o adversário enquanto estivéssemos a caminho com ele – é na hora da ofensa que o sentimento guardado se manifesta e é nesse momento que devemos trabalhar com ele. Caso contrário, seremos entregues ao juiz e ao ministro da justiça que nada mais são do que a nossa própria consciência, pois é ela que nos julga, é nela que está escrita a lei divina. Entregues à nossa consciência, esta nos cobrará e nos sentiremos culpados – a culpa é a prisão anunciada por Jesus, da qual apenas sairemos até expiar todo o sentimento negativo. Portanto, certamente os efeitos do auto perdão são tão benéficos quanto aqueles oriundos do perdão a outrem.
VM: Quem ganha mais ao perdoar?
O maior beneficiado do perdão é aquele que perdoa. Como já apresentamos anteriormente, o indivíduo magoado sofre muitos danos pelo sentimento que carrega e, portanto, é o que mais se beneficia com o perdão. Para aquele que ofende também há benefício, em especial se foi uma ofensa intencional. Na doutrina espírita temos o conceito de que toda criatura humana tem em sua consciência as leis divinas, mesmo que momentaneamente não as perceba. Mas, no íntimo é possível discernirmos o que podemos ou não realizar na vida. Quando cometemos uma ação deletéria para alguém, nossa consciência cobrará de nós pelo ato indevido, seja nesta existência ou nas futuras. Uma das etapas para que possamos obter a paz de consciência é o reconciliamento com aqueles a quem prejudicamos em algum momento de nossa jornada. Por isso, o perdão também beneficia o perdoado.
VM: É possível perdoar alguém, mesmo estando ainda magoada com ele?
O perdão não ocorrerá enquanto houver a mágoa. É necessária uma mudança de sentimento. Por isso, dizemos que o perdão não é um ato pontual, mas um processo longo, porque deve ser construído em nossa intimidade. Em “O Livro dos Espíritos”, obra inaugural da doutrina espírita, Allan Kardec traz a seguinte questão: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? R: Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” Em geral, quando pensamos em caridade, mentalizamos o ato de doar um bem material a alguém necessitado. Esta é a caridade material, a mais simples de ser praticada, uma obrigação de nossa parte, visto que nada de material possuímos, apenas temos o direito transitório do usufruto. A única propriedade da criatura é a sua intimidade. Por isso, estamos verdadeiramente a dar quando damos a nós mesmos. É a caridade moral. Aquela que deve ser exercida para com todos, principalmente com aqueles que estão a nossa volta – familiares, amigos, companheiros de trabalho. O perdão representa o ato mais elevado da caridade, ou podemos dizer do amor incondicional que Jesus nos ensinou. Porém, para alcançá-lo antes é preciso exercer a benevolência e a indulgência. A benevolência é fazer o bem mesmo quando nos é oferecido o mal. Certa vez, na Índia ainda dominada pela cora inglesa, os indianos não podiam transitar pela mesma calçada que os ingleses. Gandhi andava pela rua, sem temer a repreensão, foi abordado por um soldado que lhe deferiu um golpe com seu cacetete, atirando no chão. Se esboçar reação agressiva, pois seu lema era a não violência, levantou-se e continuou a caminhar, quando novamente o soldado lhe agrediu derrubando-o no chão. Diante da situação e indignado com a postura de Gandhi, o soldado lhe indagou: “ – Com quem aprendeu a ser tão covarde?”. Gandhi com sua serenidade, apontou o peito do soldado e disse-lhe: “Este homem que você carrega no peito”. O soldado portava um crucifixo com a imagem de Jesus. O homem percebendo a brutalidade que fizera deu as mãos a Gandhi ajudando a levantar-se e pedindo-lhe perdão. Este é o exemplo da benevolência. É retribuir com o bem o mal que alguém lhe fez. O passo seguinte à benevolência é a indulgência. As grandes mágoas que carregamos na alma são de pessoas da nossa intimidade. Jesus nos alertou o seguinte, conforme está escrito no evangelho de Mateus, capítulo 7, versículos de 3 a 5: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? – Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? – Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão”. Devemos ser vigilantes. Sempre que nos percebermos observando incomodados com os defeitos alheios, em especial daqueles que nos são próximos e íntimos, devemos nos lembrar que também temos defeitos que causam os mesmos incômodos nos outros. É a sombra psíquica, ensinada por Jung, a se manifestar neste momento, oportunidade que devemos aproveitar para trabalhar este sentimento em nós. Devemos nos indagar por que este defeito do outro me incomoda? Não haverá algo em mim que devo melhorar para que este defeito não me incomode mais? Somente após obtermos o auto perdão, que representa a aceitação de si próprio, exercer a benevolência e a indulgência é que conseguiremos perdoar verdadeiramente. Por isso, o perdão é um processo construído em nossa intimidade e que devemos por em prática no dia a dia.
VM: Perdoar significa necessariamente reconciliar-se com a pessoa que o perturbou?
Para aquele que verdadeiramente perdoa, a reconciliação é uma vontade presente. Estar de bem com a outra pessoa nos faz sentirmos bem. No entanto, nas relações humanas, em geral, somos ofendidos como também ofendemos. Para que ocorra a reconciliação é necessário que as duas partes estejam dispostas a isto, o que nem sempre acontece de pronto. Às vezes, uma das partes perdoa e deseja a reconciliação, mas a outra, ainda magoada não aceita. Para aquele que perdoa, os benefícios do perdão virão independentemente se outro quer ou não ser perdoado, pois os ganhos ocorrem na intimidade do ser. Nestes casos, o tempo, e as experiências sofridas, e a mudança de postura daquele que já perdoou levarão a outra parte também a perdoar.
VM: Este é um ponto de vista religioso, ou já foi confirmado pela ciência?
O conceito do perdão decorre de um ponto de vista religioso. Todas as religiões são dotadas de conteúdo moral semelhante, e a ideia do perdão é inânime entre elas. Alguns podem combater esta ideia confundindo a religião com certos religiosos radicais que ainda não compreenderam o conteúdo da doutrina que professam e comportam-se com intolerância. A ciência tem cada vez mais adentrado neste campo, pois o preconceito de que estes assuntos não fazem parte do escopo científico tem se tornado menor. Charlotte Van Oyen Witvliet, professora de psicologia do Hope College – Michigan – EUA, realizou um experimento com 71 voluntários pedindo a eles que se lembrassem de algum episódio que tenha causado grande mágoa em suas vidas. Monitorizados, foi possível detectar ao aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e do tônus muscular, semelhante ao que se observa durante uma crise de raiva. Quando ordenou que estes indivíduos mentalizassem o entendimento e o perdão com aqueles que os feriram, observou redução dos níveis de pressão arterial, frequência cardíaca e tônus muscular. A Dra. Charlotte Witvliet é uma grande pesquisadora dos efeitos do perdão, com diversos estudos publicados nesta área. O mesmo experimento foi repetido pela Dra. Britta Larsen, da Universidade da Califórnia – EUA, com 200 voluntários obtendo os mesmos resultados, indicando uma elevada evidência científica dos benefícios do perdão.
VM: Há alguns anos a medicina era mais cética, hoje, existem médicos que acreditam que a fé influencia diretamente na cura. Explique essa situação?
Durante muitos séculos a humanidade utilizou-se da religião como forma de interpretação da vida. Mas, no século XVIII, com o surgimento do Iluminismo, a ciência ganhou força e passou a ditar as regras da sociedade. Neste contexto, a ciência médica esqueceu-se do aspecto espiritual da vida limitando a existência humana apenas ao organismo físico de que somos feitos. Assim, a medicina encara a gênese das doenças como resultado da interação entre os estímulos do ambiente e a carga genética do indivíduo. Se alguém tem um infarto agudo do miocárdio é porque tem predisposição familiar e se expõe a fatores de risco como o sedentarismo, o tabagismo ou a alimentação inadequada. Mais recentemente na história da medicina, alguns pesquisadores começaram a perceber a importância da mente sobre o corpo. Foram identificadas alterações orgânicas em decorrência do estado mental do indivíduo. É o caso de pessoas com depressão que tem maior facilidade para adquirir doenças infecciosas, pois o estado depressivo provoca uma queda das defesas do organismo. Apesar deste aspecto, a mente ainda é vista pela ciência médica como um produto do cérebro, restrita ao comando dos neurônios e suas conexões. Este modo de encarar a vida e a natureza como obras do acaso e negar a existência de uma transcendência é o que chamamos de reducionismo. A medicina reduz o homem a um aglomerado de células que podem funcionar harmônica ou desarmonicamente (quando estamos doentes). Ocorre que esta visão não têm sido suficiente para explicar os fatos referentes à saúde das pessoas e muitos pesquisadores passaram a considerar que além do corpo deveria haver algo transcendente, uma alma. Muitas pesquisas têm sido feitas nesta área indicando que a abordagem médica não deve se restringir apenas ao cuidar do corpo, mas também compreender a espiritualidade da criatura humana, que se apresenta de modo fundamental na vida das pessoas. Esta abordagem não tem a intensão de converter ninguém à determinada religião. Ela busca utilizar a fé que o indivíduo já possui para auxiliar no seu processo terapêutico. A crença pode contribuir para a pessoa enfrentar a doença de modo mais tranquilo e ser mais proativo no seu tratamento. Também é possível contar com o apoio do líder religioso que pode contribuir para uma melhor adesão ao tratamento médico. O apoio social oferecido nas instituições religiosas também é muito importante. Considerando que os sentimentos são agentes importantes na origem das doenças, uma abordagem da espiritualidade e religiosidade do indivíduo se faz altamente impactante em seu processo de cura. Por tudo isso, é que muitos médicos têm abordado esta questão e utilizado a espiritualidade e a religiosidade de cada paciente para contribuir em sua terapia.
VM: Existem pesquisas que estudam a relação Fé / Cura?
Atualmente, existem mais de 40.000 pesquisas médicas que avaliam os efeitos benéficos da abordagem da espiritualidade e da religiosidade no processo de cura das doenças. Um destaque deve ser feito para o Dr. Harold Koenig, médico, professor de psiquiatria e medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke (Duke University Medical Center), na Carolina do Norte, Estados Unidos. O Dr. Koenig é um grande pesquisador na área de saúde e espiritualidade e já esteve em visita no Brasil. A evidência científica desta abordagem espiritual se tornou algo tão concreto que hoje já se somam 100 faculdades médicas norte-americanas que criaram uma disciplina de fé e medicina. No Brasil, ainda estamos iniciando este processo nas faculdades médicas. Mas, em termos de pesquisa, muito se tem feito por aqui. Vale destacar o geriatra Giancarlo Lucchetti e o psiquiatra Alexander Moreira Almeida que são professores da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG e o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira que fundou o Pineal Mind, instituto que realiza pesquisas nesta área. Estudos têm sido realizados nas principais Universidades do estado de São Paulo, como UNESP, USP, UNICAMP e UNIFESP. Em Botucatu, junto a Associação Médico-Espírita e Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, temos realizado uma pesquisa com voluntários para estudar os efeitos terapêuticos do passe espírita sobre o tratamento da ansiedade. Os resultados ainda são parciais, mas observamos impressionante melhora do nível de ansiedade nas pessoas submetidas a este tratamento.
Ricardo de Souza Cavalcante é médico infectologista da Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (CCIRAS) do Hospital das Clínicas de Botucatu; professor substituto da disciplina de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP; coordenador do ambulatório de infecções fúngicas e vice coordenador do serviço de infecções em transplantados do Hospital das Clínicas de Botucatu; presidente da Associação Médico-Espírita de Botucatu; membro do projeto de extensão Saúde e Espiritualidade da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.
Anjo Solitário - Irmão X
Anjo Solitário
Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...
Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.
Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância...
O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.
Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas.
Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.
Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.
Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata.
Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.
Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.
Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento.
Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.
Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.
Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.
Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.
O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.
Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.
Esse, era o anjo divino da Caridade.
Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...
Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.
Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância...
O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.
Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas.
Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.
Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.
Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata.
Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.
Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.
Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento.
Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.
Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.
Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.
Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.
O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.
Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.
Esse, era o anjo divino da Caridade.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
INDIVIDUAÇÃO OU INDIVIDUALISMO?
A palavra conceito quer dizer idéia que temos de algo ou alguém. Analisamos a vida e os fatos pela ótica individual de nossas conceituações. Nosso entendimento não ultrapassa esse limite.
Alguns desses conceitos resultam da vivência. Foram estruturados pelo uso de todos os nossos sentidos, adquirindo significados. Chamamo-los experiência. Outros são fruto da capacidade de pensar e adquirir conhecimento. Determinam os pensamentos predominantes na vida mental. Quando criamos fixação emocional a esse padrão do pensar, nasce o preconceito.
A experiência leva ao discernimento. O discernimento é a porta para a compreensão. A compreensão identifica a verdade.
O preconceito conduz ao julgamento. O julgamento sustenta os rótulos. Os rótulos distanciam da realidade.
A atitude construtiva na Obra da Criação depende da habilidade de relativizar. Até mesmo a experiência, por mais preciosa, necessita ser continuamente repensada, evitando a estagnação em clichês.
A vida é regida pela suprema Lei da Impermanência. Certo e errado são critérios sociais mutáveis sob a perspectiva sistêmica. Apesar disso, são referências úteis à maioria dos habitantes da Terra. Funcionam como estacas disciplinadoras. Porém, em certa etapa do amadurecimento espiritual, constituem amarras psicológicas na descoberta da realidade pessoal, cuja riqueza está nos significados únicos construídos a partir dos ditames conscienciais.
Jung chamou de individuação o processo paulatino de expressar nossa singularidade, isto é, a Marca de Deus em nós; o ato de talhar a individualidade, aquele ser distinto e único que está latente dentro de nós.
Na individuação o critério certo/errado é substituído por algumas perguntas: convém ou não? Quero ou não? Serve ou não? Necessito ou não? Questões cujas respostas vêm do coração. Somente aprendendo a linguagem dos sentimentos poderemos escutar as mensagens da alma destinadas ao ato de individuar-se. E sentimento é valor moral aferível exclusivamente por nós mesmos no átrio sagrado da intimidade consciencial.
Somos aquilo que sentimos. As máscaras não destroem essa realidade. Quando aprendemos o auto-amor, abandonamos o crítico interno que existe em nós e passamos a exercer a generosidade do autoperdão, ou seja, a aceitação incondicional da criatura ainda imperfeita que somos. Nossa integração com a verdade depende do conhecimento dessa realidade particular: escutar a alma! Ela se manifesta na consciência cujos sentimentos constituem o espelho. Através das sensações, no seu sentido mais amplo, a alma se manifesta.
Escutando a alma, conectados à sua sabedoria interior, desligamos dos padrões, normas, ambientes, pessoas filosofias contrárias à nossa felicidade e inadequadas ao caminho particular de aprimoramento.
Saber o que nos convém, saber o que é útil exige dilatado discernimento aliado ao tempo. Quando usamos os rótulos certo/errado, fomentamos a culpa e a punição. Quando sabemos o que nos convém, agimos e escolhemos com responsabilidade na condição de autores do nosso destino. Quando amadurecemos, percebemos que certo e errado se tornam formas de entender, experiências diversificadas.
O caminho de ascensão para todos nós é o mesmo, apenas muda a maneira de caminhar. Cada criatura tem seu passo, seu ritmo, sua história.
Refletindo sobre conceitos, teçamos algumas ilações para que não nos confundamos: grande distância separa o processo da individuação da atitude de individualismo.
Na individuação temos: a necessidade, a alma, a consciência, a descoberta e criatividade, o preparo e o amadurecimento, experimentamos a realização pessoal, é fruto do amor, floresce o crescimento espiritual.
No individualismo temos: a prevalência do interesse pessoal, a personalidade, o ego, a imitação e a disputa, a precipitação, a insaciedade, é a leira do egoísmo, é a sementeira do egoísmo.
O individualista também caminha em seu processo de individuação. Evidentemente, com menos consciência de suas reais necessidades, permitindo larga soma de interesses particularistas.
Do Livro: ESCUTANDO SENTIMENTOS – a atitude de amar-nos como merecemos
Wanderley de Oliveira – Espírito Ermance Dufaux
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