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terça-feira, 14 de julho de 2015
Hammed - Compaixão
Hammed - Compaixão
Ter compaixão é possuir um entendimento maior das fragilidades humanas. É quando nos tornamos mais realistas, menos exigentes e mais flexíveis com as dificuldades alheias.
Compaixão — manifestação de um coração aberto.
“Há mais felicidade em dar que em receber” *1. De bem-aventurado vem a palavra beato — do latim beatus, que significa “feliz”. Beatificar alguém é declará-lo na plenitude da felicidade; por isso é que chamamos comumente de venturosas as pessoas felizes.
Cristo usava com frequência essa forma literária em seus discursos: “Bem-aventurados são aqueles que...”. Essas bem-aventuranças eram e são a fórmula que o Mestre Jesus recomendava para conquistar a verdadeira felicidade ou para alcançar uma vida plena.
Ter compaixão é possuir um entendimento maior das fragilidades humanas. É quando nos tornamos mais realistas, menos exigentes e mais flexíveis com as dificuldades alheias.
Se quisermos a paz do mundo, sejamos pessoas felizes. O bem-aventurado é um agente da paz, pois as criaturas maduras possuem uma compassiva “noção de vida”. Por isso, afirmam os Espíritos Benevolentes: “(...) aquele que vê claramente as coisas tem uma ideia mais justa do que o cego. Os Espíritos veem o que não vedes; eles julgam, pois, de outro modo que vós, mas ainda uma vez, isto depende da sua elevação”*2.
Ao abrirmos o coração para alguém, vivenciamos uma forma de empatia — sentimos o que ele sentiria caso estivéssemos vivenciando a sua situação. Isso é uma questão de ressonância. Só podemos apoiar e cooperar se nossos estados interiores forem sensibilizados; apenas podemos compartilhar a alegria ou a tristeza de alguém se elas também nos tocarem. Se não nos permitimos sentir medo, amor, tristeza ou alegria, não podemos reagir a esses sentimentos diante das pessoas e podemos até duvidar de que elas os estejam experimentando.
Compaixão está associado a empatia. Perde o bom senso quem não estabelece limites nos bens que vai dar ou receber. Alguns de nós fazemos favores ou concedemos benefícios aos outros sem critério ou fundamentação alguma.
No entanto, empatia não é medir ou julgar alguém por nós. Não é nos colocarmos no lugar da criatura e ficarmos ilusoriamente imaginando seu sofrimento. Empatia é o contato direto do nosso coração com o coração de outro ser humano.
A ajuda verdadeiramente sapiencial é aquela que permite que as pessoas à nossa volta aprendam a se desenvolver, solucionando suas dificuldades por si mesmas.
O ser compassivo não invade a vida alheia. Os indivíduos só mudam quando estão prontos para mudar.
Algumas religiões podem distorcer nossa concepção de mundo, utilizando a culpa ou o fanatismo como forma de nos controlar ou de nos forçar a dar coisas. A viseira do emocionalismo pode nos levar à frustração e ao desapontamento. Podemos ser coagidos a conceder benefícios ou participar de doações materiais, usando uma forma distorcida de compaixão. Muitos de nós nos doamos porque esperamos receber em troca atenção e respeito de outras pessoas. Isso não é ajuda real nem mesmo está unido ao amor; mais se assemelha a uma forma de barganha, seguida de eterna cobranças.
Para que possamos cooperar efetivamente com alguém, é preciso abrirmos mão de nossa arrogância salvacionista, ou seja, acreditar que a redenção das almas que amamos depende, única e exclusivamente, de nosso desempenho e de nossa dedicação. Cada pessoa é uma obra-prima de Deus e, quando subestimamos a força divina que há no outro, nossos relacionamentos ficam anêmicos e áridos. A compaixão salvaguarda a liberdade de sentir, pensar e agir.
Os bem-aventurados aos quais se referia Jesus são felizes porque reconheceram que não devem viver de forma ególatra; devem viver, sim, uma existência de auxílio a si mesmo e ao bem comum. Compaixão é o desenvolvimento do sentimento de fraternidade que move o ser fraterno a ter uma noção ética com vistas à integração e à solidariedade entre pessoas.
*1. Atos, 20:35.
*2. Questão 241 (O Livro dos Espíritos). Os Espíritos tem do presente uma ideia mais precisa e mais justa que nós? “Do mesmo modo que aquele que vê claramente as coisas tem uma ideia mais justa do que o cego. Os Espíritos vem o que não vedes: eles julgam, pois, de outro modo que vós, mas ainda uma vez, isto depende da sua elevação.”
(De “Os prazeres da alma”, Francisco do Espírito Santo Neto)
Ter compaixão é possuir um entendimento maior das fragilidades humanas. É quando nos tornamos mais realistas, menos exigentes e mais flexíveis com as dificuldades alheias.
Compaixão — manifestação de um coração aberto.
“Há mais felicidade em dar que em receber” *1. De bem-aventurado vem a palavra beato — do latim beatus, que significa “feliz”. Beatificar alguém é declará-lo na plenitude da felicidade; por isso é que chamamos comumente de venturosas as pessoas felizes.
Cristo usava com frequência essa forma literária em seus discursos: “Bem-aventurados são aqueles que...”. Essas bem-aventuranças eram e são a fórmula que o Mestre Jesus recomendava para conquistar a verdadeira felicidade ou para alcançar uma vida plena.
Ter compaixão é possuir um entendimento maior das fragilidades humanas. É quando nos tornamos mais realistas, menos exigentes e mais flexíveis com as dificuldades alheias.
Se quisermos a paz do mundo, sejamos pessoas felizes. O bem-aventurado é um agente da paz, pois as criaturas maduras possuem uma compassiva “noção de vida”. Por isso, afirmam os Espíritos Benevolentes: “(...) aquele que vê claramente as coisas tem uma ideia mais justa do que o cego. Os Espíritos veem o que não vedes; eles julgam, pois, de outro modo que vós, mas ainda uma vez, isto depende da sua elevação”*2.
Ao abrirmos o coração para alguém, vivenciamos uma forma de empatia — sentimos o que ele sentiria caso estivéssemos vivenciando a sua situação. Isso é uma questão de ressonância. Só podemos apoiar e cooperar se nossos estados interiores forem sensibilizados; apenas podemos compartilhar a alegria ou a tristeza de alguém se elas também nos tocarem. Se não nos permitimos sentir medo, amor, tristeza ou alegria, não podemos reagir a esses sentimentos diante das pessoas e podemos até duvidar de que elas os estejam experimentando.
Compaixão está associado a empatia. Perde o bom senso quem não estabelece limites nos bens que vai dar ou receber. Alguns de nós fazemos favores ou concedemos benefícios aos outros sem critério ou fundamentação alguma.
No entanto, empatia não é medir ou julgar alguém por nós. Não é nos colocarmos no lugar da criatura e ficarmos ilusoriamente imaginando seu sofrimento. Empatia é o contato direto do nosso coração com o coração de outro ser humano.
A ajuda verdadeiramente sapiencial é aquela que permite que as pessoas à nossa volta aprendam a se desenvolver, solucionando suas dificuldades por si mesmas.
O ser compassivo não invade a vida alheia. Os indivíduos só mudam quando estão prontos para mudar.
Algumas religiões podem distorcer nossa concepção de mundo, utilizando a culpa ou o fanatismo como forma de nos controlar ou de nos forçar a dar coisas. A viseira do emocionalismo pode nos levar à frustração e ao desapontamento. Podemos ser coagidos a conceder benefícios ou participar de doações materiais, usando uma forma distorcida de compaixão. Muitos de nós nos doamos porque esperamos receber em troca atenção e respeito de outras pessoas. Isso não é ajuda real nem mesmo está unido ao amor; mais se assemelha a uma forma de barganha, seguida de eterna cobranças.
Para que possamos cooperar efetivamente com alguém, é preciso abrirmos mão de nossa arrogância salvacionista, ou seja, acreditar que a redenção das almas que amamos depende, única e exclusivamente, de nosso desempenho e de nossa dedicação. Cada pessoa é uma obra-prima de Deus e, quando subestimamos a força divina que há no outro, nossos relacionamentos ficam anêmicos e áridos. A compaixão salvaguarda a liberdade de sentir, pensar e agir.
Os bem-aventurados aos quais se referia Jesus são felizes porque reconheceram que não devem viver de forma ególatra; devem viver, sim, uma existência de auxílio a si mesmo e ao bem comum. Compaixão é o desenvolvimento do sentimento de fraternidade que move o ser fraterno a ter uma noção ética com vistas à integração e à solidariedade entre pessoas.
*1. Atos, 20:35.
*2. Questão 241 (O Livro dos Espíritos). Os Espíritos tem do presente uma ideia mais precisa e mais justa que nós? “Do mesmo modo que aquele que vê claramente as coisas tem uma ideia mais justa do que o cego. Os Espíritos vem o que não vedes: eles julgam, pois, de outro modo que vós, mas ainda uma vez, isto depende da sua elevação.”
(De “Os prazeres da alma”, Francisco do Espírito Santo Neto)
A esmola da compaixão
De portas abertas ao serviço da caridade, a casa dos Apóstolos em Jerusalém vivia repleta, em rumoroso tumulto. Eram doentes desiludidos que vinham rogar esperança, velhinhos sem consolo que suplicavam abrigo. Mulheres de lívido semblante traziam nos braços crianças aleijadas, que o duro guante do sofrimento mutilara ao nascer, e, de quando em quando, grupos de irmãos generosos chegavam da via pública, acompanhando alienados mentais para que ali recolhessem o benefício da prece.
Numa sala pequena, Simão Pedro atendia, prestimoso. Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contato com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter.
- Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? - gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso - aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez... Não é justo sofra, agora, as consequências?
E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção.
Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado:
- Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos... Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte... Fora daqui! Fora daqui!...
E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro:
- Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas... O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés...
E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto.
Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas. No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento e abatido. O recém-vindo, silencioso, aproximou-se, sutil, e tocou-o docemente. O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção, clamando, porém, impulsivo:
- Quem és tu, que chegas a estas horas, quando o dia de trabalho já terminou?
E porque o desconhecido não respondesse, insistiu com inflexão de censura:
- Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens...
Nesse instante, porém, deteve-se a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. Fitou os pés descalços, dos quais transpareciam, ainda vivos, os rubros sinais dos cravos da cruz e, ansioso, encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas...
Perplexo e desfalecente, compreendeu que se achava diante do Mestre, e, ajoelhando-se, em lágrimas, gemeu, aflito:
- Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo?
Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste:
- Pedro, lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras... Venho rogar-te a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão...
O rude, mas amoroso pescador de Cafarnaum, mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero, e quando ergueu, de novo, os olhos para abraçar o visitante querido, no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve...
Da obra: ‘Contos e Apólogos’. Ditada pelo Espírito ‘Irmão X’, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier.
Numa sala pequena, Simão Pedro atendia, prestimoso. Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contato com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter.
- Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? - gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso - aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez... Não é justo sofra, agora, as consequências?
E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção.
Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado:
- Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos... Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte... Fora daqui! Fora daqui!...
E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro:
- Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas... O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés...
E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto.
Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas. No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento e abatido. O recém-vindo, silencioso, aproximou-se, sutil, e tocou-o docemente. O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção, clamando, porém, impulsivo:
- Quem és tu, que chegas a estas horas, quando o dia de trabalho já terminou?
E porque o desconhecido não respondesse, insistiu com inflexão de censura:
- Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens...
Nesse instante, porém, deteve-se a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. Fitou os pés descalços, dos quais transpareciam, ainda vivos, os rubros sinais dos cravos da cruz e, ansioso, encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas...
Perplexo e desfalecente, compreendeu que se achava diante do Mestre, e, ajoelhando-se, em lágrimas, gemeu, aflito:
- Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo?
Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste:
- Pedro, lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras... Venho rogar-te a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão...
O rude, mas amoroso pescador de Cafarnaum, mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero, e quando ergueu, de novo, os olhos para abraçar o visitante querido, no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve...
Da obra: ‘Contos e Apólogos’. Ditada pelo Espírito ‘Irmão X’, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier.
Compaixão - Compilação
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COMPAIXÃO – COMPILAÇÃO
01 - AS AVES FERIDAS NA TERRA VOAM - NANCY P.D. GIROLAMO - ÍTEM X - ÔJE - O LOIRINHO BAIANO
Seu nome era Ôje, pronunciado em paroxítono. Não sabemos se alguém lhe deu esse nome, ou se foi ele mesmo que o escolheu do fundo do seu pensamento preso. Veio do Nordeste em "pau de arara". Entre duas dezenas de gente ele foi incluído, não se sabe por quem. Magrinho e calado, tão mal vestido como os outros meninos de sua idade — teria seis ou nove anos? — passou despercebido. No caminho lhe deram pedaços de pão amanhecido. Cada um dos adultos, a maioria homens, pensava que ele era do outro. Foi assim que chegou a São Paulo. E só então, na divisão das pessoas, percebeu-se que ele não estava com ninguém, não era de nenhum, e nem sequer alguém o conhecia. Uma "polícia feminina" tentou interrogá-lo, sem resultado. Levou-o a um assistente social, a um comissário de menores, a... Não adiantou. Ele não dizia nada. Olhava o ar comose estivesse vazio por fora e por dentro. Não fixava as pessoas. Tudo lhe parecia indiferente, até o alimento que mastigava como se fosse um "robô" e isso após longos intervalos de jejum. Só reagia — e negativamente — quando era tocado, como se sua pele quisesse ficar só para ele e se sentisse ofendida ou maculada pelos contatos. Foi assim que o conhecemos quando foi levado para o Centro de Reabilitação onde trabalhávamos. Embora de procedência baiana, depois de lavado e escovado, viu-se que era loiro, lembrando os invasores holandeses do Brasil nascente. Perguntamos: — Qual o seu nome? Sem resposta. Tentamos chamá-lo: João! Pedro! António! Nada. Cortamos, com grande dificuldade, seus cabelos loiros embaraçados. Ficou de "franjinha" e viu-se que era bonito.— Será mais bonito ainda quando conseguirmos que seu olhar marrom deixe de ficar curto e vago. Foi o que pensamos.
As pessoas, principalmente as crianças, são difíceis de ser compreendidas, mas é pelo olhar que podemos saber — não "como são" mas "como estão" naquele momento. O excepcional, ou os que agem como tal por motivos vários, apresentam seu grau de "status" interior pela expressividade do olhar. No Evangelho de Mateus 7:22 é dito o seguinte: "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons todo o teu corpo terá luz". Depois de bem examinado pela nossa equipe de reabilitação, o prontuário deste menino se resumiu em observações exteriores. Ele não se abriu para ninguém. Um resumo em linguagem popular seria este: Não era surdo, nem mudo, nem cego, mas estava trancado em si mesmo... Houve um diagnóstico, até complicado, e um prognóstico "reservado", o que é sempre um desafio. No dia seguinte ao de sua chegada, já foi colocado no programa de Desenvolvimento Integral de Possibilidades, que é, em suma, um ambiente de oportunidades e motivações. Fisioterapeuta, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Terapeuta Ocupacional nada conseguiram. Na sala de socioterapia, cheia de miniaturas ligadas à vida social, nada o interessou. Entretanto, uma tarde, quinze dias após sua chegada, estando no escritório, percebemos que o loirinho baiano passava pelo corredor no seu andar vago como folha ao vento. E, como se o vento atendesse a uma predestinação, o menino entrou na nossa sala e parou em nossa frente. De repente, o telefone tocou. íamos atender quando estacamos surpreendidos. O loirinho estremecera ao som do telefone. Tivemos a impressão subjetiva de que ele agia como quem esperasse um telefonema, uma chamada exatamente para ele. Tocou de novo. Agora o menino olhava fixa e diretamente o aparelho preto.
Terceiro sinal. Pegamos o fone e o colocamos em posição de atendimento sobre o ouvido do garoto. Com as duas mãos, suas próprias mãos, ele segurou fortemente o telefone e, como se respondesse a alguém, falou sua primeira e única palavra, num som que saiu como que do fundo de um túnel: Ôje. Pegamos aquele fiozinho de abertura solto de dentro para fora e não o largamos mais. Repetimos muitas vezes: Ôje! Ôje!, tentando uma integração olho no olho e, naquele mesmo dia, isso começou a ser conseguido. O baiano loirinho passou a responder à palavra mágica e, desde então, todos ficaram sabendo que o seu nome era Ôje. O estranho é que ele mesmo nunca mais falou durante os dois anos em que esteve na Terra conosco. Mas sempre respondeu "Ôje" como se esse fosse o seu nome.
— Ôje, venha almoçar.— Ôje, é hora de ginástica.— Ôje, vamos passear. Realmente ele ficou lindo quando seu olhar marrom conseguiu acompanhar o movimento dos objetos e mergulhar nos olhos das outras pessoas. Desde que teve um nome, aprendeu muitas coisas. Aceitou o manuseio e manifestou a alegria pelo sorriso. Chegou a bater palmas e a participar de jogos junto com outras crianças. Executou exercícios de forma ativa, o que não pensávamos lhe ser possível. Aprendeu a receber bem os abraços, e depois começou a retribuí-los. Ficou forte e corado. Parecia feliz, mas quando estava em seu melhor momento de saúde e receptividade, ficou doente e, em três dias, saiu do corpo, regressando à pátria dos espíritos.
Nos últimos segundos de vida corporal, na respiração profunda de despedida, tentamos ouvir algum som, mas ele nada disse. Abriu bem os olhos numa expressão luminosa, e depois, lentamente, cerrou as pálpebras. Nós é que ficamos falando: — Boa viagem, Ôje. Boa Viagem! Relembrando essa pequena história de vida, ocorre-nos associar a sua palavra mágica à conotação daquela outra palavra que, como som, é a mesma: Hoje. Vem ao nosso pensamento, dentro da saudade do loirinho baiano, a importância da hora presente, do minuto de vivência, da oportunidade do "agora", a significação que pode ter a mensagem das coisas, assim como o som do telefone para o garoto que tirou do fundo de seu pensamento a sua identificação. Talvez tivesse havido apenas uma tentativa de repetir a expressão baiana "ôche", ou o início de uma palavra inacabada, ou simplesmente um som sem sentido algum. O importante é que desse som nasceu o laço pessoal, afetivo, individual, que permitiu marcar a sua passagem consciente por mais uma experiência de vida na Terra.
Excepcionais como o pequeno Ôje, com incalculável esforço, chegam a perfurar uma brecha em meio à escuridão de um caminho fechado para canalizar uma preciosa gota de comunicação, enquanto nós, os libertos para a interprenetração em tudo o que Deus criou para mútuo burilamento, usamos e abusamos da palavra e da ação livres para, muitas vezes, confundir coisas e desperdiçar tempo. Cada vez mais certos de que temos muito a aprender com os "excepcionais", agradecemos ao loirinho baiano por nos ter dito o seu nome, o que nos permite extrapolar para uma verdade filosófica de grande alcance pragmático: a de que nosso verdadeiro,no dinamismo das mudanças, está sempre no "Hoje",no que fazemos em cada segundo de vida, porque só o "Hoje" realmente nos pertence, para nele construirmos o que quisermos; só ele nos identifica, e essa identidade é grande ou pequena, boa ou má, na medida em que nele nos movemos e nele nos transformamos.
07 - ESTUDE E VIVA - EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ - ACIDENTADOS DA ALMA - PÁG.102
Acidentados da alma: Compadeces-te dos caídos em moléstia ou desastre, que apresentam no corpo comovedoras mutilações. Inclina-te, porém, com igual compaixão para aqueles outros que comparecem, diante de ti, por acidentados da alma, cujas lesões dolorosas não aparecem. Além da posição de necessitados, pelas chagas ocultas de que são portadores, quase sempre se mostram na feição de companheiros menos atrativos e desejáveis. Surgem pessoalmente bem-postos, estadeando exigências ou formulando complicações, no entanto bastas vezes trazem o coração sob provas difíceis; espancam-te a sensibilidade com palavras ferinas, contudo, em vários lances da experiência, são feixes de nervos destrambelhados que a doença consome; revelam-se na condição de amigos, supostos ingratos, que nos deixam em abandono, nas horas de crise, mas, em muitos casos, são enfermos de espírito, que se enviscam, inconscientes, nas tramas da obsessão; acolhem-te o carinho com manifestações de aspereza, todavia, estarão provavelmente agitados pelo fogo do desespero, lembrando árvores benfeitoras quando a praga as dizima; são delinquentes e constrangem-te a profundo desgosto, pelo comportamento incorreto; no entanto, em múltiplas circunstâncias, são almas nobres tombadas em tentação, para as quais já existe bastante angústia na cabeça atormentada que o remorso atenaza e a dor suplicia...
Não te digo que aproves o mal, sob a alegação de resguardar a bondade. A retificação permanece na ordem e na segurança da vida, tanto quanto vige o remédio na defesa e sustentação da saúde. Age, porém, diante dos acidentados da alma, com a prudência e a piedade do enfermeiro que socorre a contusão, sem alargar a ferida. Restaurar sem destruir. Emendar sem proscrever. Não ignorar que os irmãos transviados se encontram encarcerados em labirintos de sombra, sendo necessário garantir-lhes uma saída adequada. Em qualquer processo de reajuste, recordemos Jesus que, a ensinar servindo e a corrigir amando, declarou não ter vindo à Terra para curar os sãos. Aspectos da dor: Os soluços de dor são compreensíveis até o ponto em que não atingem a fermentação da revolta, porque, depois disso, se convertem todos eles em censura infeliz aos planos do Céu. A enfermidade jamais erra o endereço para as suas visitas. As lágrimas, em verdade, são iguais às palavras. Nenhuma existe destituída de significação. Somente chega a entender a vida quem compreende a dor. A evolução regula também o sofrimento das criaturas e nelas se evidencia mais superficial ou mais profunda, conforme o aprimoramento de cada uma. Se você pretende vencer, não menospreze a possibilidade de amargar, algumas vezes, a aflição da derrota como lição no caminho para o triunfo. Aprende melhor quem aceita a escola da provação, porquanto, sem ela, os valores da experiência permaneceriam ignorados. A dor não provém de Deus, de vez que, segundo a Lei, ela é uma criação de quem a sofre.
09- JESUS NO LAR - NÉIO LUCIO - ÍTEM 42 - A MENSAGEM DE COMPAIXÃO - PÁG. 179
A mensagem da compaixão: Dentro da noite clara, a assembléia familiar em casa de Pedro centralizara-se no exame das dificuldades no trato com as pessoas. Como estender os valores da Boa Nova? como instalar o mesmo dom e a mesma bênção em mentalidades diversas entre si? Findo o longo debate fraternal, em que Jesus se mantivera em pesado silêncio, João perguntou-lhe, preocupado:— Senhor, que fazer diante da calúnia que nos dilacera o coração?— Tem piedade do caluniador e trabalha no bem de todos — respondeu o Celeste Mentor, sorrindo —, porque o amor desfaz as trevas do mal e o serviço destrói a idéia desrespeitosa.— Mestre — ajuntou Tiago, filho de Zebedeu —, e como agir perante aquele que nos ataca, brutalmente ?— Um homem que se conduz pela violência — acentuou o Cristo, bondoso —, deve estar louco ou envenenado. Auxiliemo-lo a refazer-se.— Senhor — aduziu Judas, mostrando os olhos esfogueados —, e quando o homem que nos ofende se reveste de autoridade respeitável, qual seja a dum príncipe ou dum sacerdote, com todas as aparências do ordenador consciente e normal?— A serpente pode ocultar-se num ramo de flores e há vermes que se habituam nos frutos de bela apresentação. O homem de elevada categoria que se revele violento e cruel é enfermo, ainda assim. Compadece-te dele, porque dorme num pesadelo de escuras ilusões, da qual será constrangido a despertar, um dia. Ampara-o como puderes e marcha em teu caminho, agindo na felicidade comum.— Mestre, e quando a nossa casa é atormentada por um crime? como procederei diante daquele que me atraiçoa a confiança, que me desonra o nome ou me ensanguenta o lar?
— Apiada-te do delinquente de qualquer classe — elucidou Jesus — e não desejes violar a Lei que o próximo desrespeitou, porque o perseguidor e o criminoso de todas as situações carrega consigo abrasadora fogueira. Uma falta não resgata outra falta e o sangue não lava sangue. Perdoa e ajuda. O tempo está encarregado de retribuir a cada criatura, de acordo com o seu esforço.— Mestre — atalhou Bartolomeu —, que fazer do juiz que nos condena com parcialidade?— Tem compaixão dele e continua cooperando no bem de todos os que te cercam. Há sempre um juiz mais alto, analisando aqueles que censuram ou amaldiçoam e, além de um horizonte, outros horizontes se desdobram, mais dilatados e luminosos.— Senhor — indagou Tadeu —, como proceder diante da mulher que amamos, quando se entrega às quedas morais? Jesus fitou-o, com brandura, e inquiriu, por sua vez:— Os sofrimentos íntimos que a dilaceram, dia e noite, não constituirão, por si só, aflitiva punição? Fêz-se balsâmico silêncio no círculo doméstico e, logo ao perceber que os aprendizes haviam cessado as interrogações, o Senhor concluiu:— Se pretendemos banir os males do mundo, cultivemos o amor que se compadece no serviço que constrói para a felicidade de todos. Ninguém se engane. As horas são inflexíveis instrumentos da Lei que distribui a cada um, segundo as suas obras. Ninguém procure satíar um crime, praticando outros crimes, porque o tempo tudo transforma na Terra, operando com as labaredas do sofrimento ou com o gelo da morte.
10 - JUSTIÇA DIVINA - EMMANUEL - DOENÇAS DA ALMA - PÁG. 113
DOENÇAS DA ALMA - REUNIÃO PÚBLICA DE 7.8.61 - 1ª. PARTE. CAP. VII, ÍTEM 7: Na forja moral da luta em que temperas o caráter e purificas o sentimento, é possível acredites estejas sempre no trato de pessoas normais, simplesmente porque se mostrem com a ficha de sanidade física. Entretanto, é preciso pensar que as moléstias do espírito também se contam. O companheiro que te fala, aparentemente tranquilo, talvez guarde no peito a lâmina esbraseada de terrível desilusão. A irmã que te recebe, sorrindo, provavelmente carrega o coração ensopado de lágrimas. Surpreendeste amigos de olhos calmos e frases doces, dando-te a impressão de controle perfeito, que soubeste, mais tarde, estarem caminhando na direção da loucura. Enxergaste outros, promovendo festas e estadeando poder, a escorregarem, logo após, no engodo da delinquência. É que as enfermidades do espírito atormentam as forças da criatura, em processos de corrosão inacessíveis à diagnose terrestre. Aqui, o egoísmo sombreia a visão; ali, o ódio empeçonha o cérebro; acolá, o desespero mentaliza fantasmas; adiante, o ciúme converte a palavra em látego de morte. . . Não observes os semelhantes pelo caleidoscópio das aparências.
É necessário reconhecer que todos nós, espíritos encarnados e desencarnados em serviço na Terra, ante o volume dos débitos que contraímos nas existências passadas, somos doentes em laboriosa restauração. O mundo não é apenas a escola, mas também o hospital em que sanamos desequilíbrios recidivantes, nas reencarnações regenerativas, através do sofrimento e do suor, a funcionarem por medicação compulsória. Deixa, assim, que a compaixão retifique em ti próprio os velhos males que toleras nos outros.
Se alguém te fere ou desgosta, debita-lhe o gesto menos feliz à conta da moléstia obscura de que ainda se faz portador. Se cada pessoa ofendida pudesse ouvir a voz inarticulada do Céu, no instante em que se vê golpeada, escutaria, de pronto, o apelo da Misericórdia Divina: «Compadece-te!» Todos somos enfermos pedindo alta. Compadeçamo-nos uns dos outros, a fim de que saibamos auxiliar. E mesmo que te vejas na obrigação de corrigir alguém — pelas reações dolorosas das doenças da alma que ainda trazemos — , compadece-te mil vezes antes de examinar uma só.
13 - O ESPÍRITO DA VERDADE - ÍTEM 96 - SÊ COMPASSIVO - CAIRBAR SCHUTEL - PÁG. 219
ÍTEM 96 - SÊ COMPASSIVO - Cap. XIII — Item 17: Sem compaixão não há caridade. As lágrimas vertidas ao calor vívido da piedade corroem as densas cadeias da provação. Desterremos de nós a insensibilidade crua diante das telas de angústia que se desenrolam em nossa estrada. A piedade é a simpatia espontânea e desinteressada que se antepõe à antipatia gratuita ou despeitosa. Ela deve induzir-nos à prática do socorro moral e material, junto daqueles que no-la despertam, sem o que se torna infrutífera. Quando o sofrimento alheio não nos sensibiliza, a Orientação Divina estatui venhamos a experimentá-lo igualmente para avaliar a dor do próximo e nos predispormos a ampará-lo. Só a piedade consoladora traz alegria ao espírito, criando elevação e valor. Fujamos à compaixão aparente que se manifesta em lágrimas de crocodilo, gestos e exclamações pomposas, nos cenários artificiais do fingimento. Mede-se a comiseração pelo devotamento e solicitude fraternais que promove. Deve-se-lhe o despovoamento gradativo das zonas de purgação moral da Espiritualidade.
Deixa-te enternecer ante os painéis comovedores das crises de pranto, vezes e vezes temperadas em sangue e suor; contudo, não te detenhas aí: busca dirimi-las. Perlustra as vielas ínvias da necessidade e beneficia as almas que se agitam em desespero, dentro da jaula do próprio corpo. Tem dó, não apenas dos quadros gritantes de falência íntima, mas também dos padecimentos mascarados de silêncio e de orgulho, ingenuidade e inexperiência. Inunda de amor os corações mantidos sob o vácuo do tédio. Protege a infância desvalida, pois os pequenos viajores da carne carecem de guias. Favorece com a moeda e abençoa com a palavra os pedintes andrajosos somente acariciados pelos cães que vagueiam nas ruas. E na certeza de que a piedade sincera jamais expressa covardia a derruir o bem, nem ridículo a excitar o riso alheio, acatemo-la como força de renovação das almas e luz interior da Verdadeira Vida, eternizada por Deus. Sê compassivo.
14 - O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAP. XIII, 13
13. Chamo-me Caridade, sou o caminho principal que conduz a Deus; segui-me, porque eu sou a meta a que vós todos deveis visar. Fiz nesta manhã o meu passeio habitual, e com o coração magoado venho dizer-vos: Oh! meus amigos, quantas misérias, quantas lágrimas, e quanto tendes de fazer para secá-las todas! Inutilmente tentei consolar as pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! Há corações bondosos que velam por vós, que não vos abandonarão; paciência! Deus existe, e vós sois as suas amadas, as suas eleitas. Elas pareciam ouvir-me e voltavam para mim os seus grandes olhos assustados. Eu lia em seus pobres semblantes que o corpo, esse tirano do Espírito, tinha fome, e que, se as minhas palavras lhes tranquilizavam um pouco o coração, não lhes saciavam o estômago. Então eu repetia: Coragem! Coragem! E uma pobre mãe, muito jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e ergueu-a no espaço vazio, como para me rogar que protegesse aquele pobre e pequeno ser, que só encontrava num seio estéril alimento insuficiente.
Mais adiante, meus amigos, vi pobres velhos sem trabalho e logo sem abrigo, atormentados por todos os sofrimentos da necessidade, e envergonhados de sua miséria, não se atrevendo, eles que jamais mendigaram, a implorar a piedade dos passantes. Coração empolgado de compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga para eles, e vou para toda a parte estimular a beneficência, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos. Eis por que "venho até vós, meus amigos, e vos digo: Lá embaixo há infelizes, cuja cesta está sem pão, a lareira sem fogo, o leito sem cobertas. Nào vos digo o que deveis fazer; deixo a iniciativa aos vossos bons corações; pois se eu vos ditasse a linha de conduta, não teríeis o Emérito de vossas boas ações. Eu vos digo somente: Sou a caridade e vos estendo as mãos pelos vossos irmãos sofredores.
Mas, se peço, também dou, e muito; eu vos convido para um grande festim, e ofereço a árvore em que vós todos podereis saciar-vos. Vede como é bela, como está carregada de flores e de frutos! Ide, ide, colhei, tomai todos os frutos dessa bela árvore que se chama beneficência. Em lugar dos ramos que lhe arrancardes, porei todas as boas ações que fizerdes e levarei a árvore a Deus, para que Ele a carregue de novo, porque a beneficência é inesgotável. Segui-me, pois, meus amigos, a fim de que eu vos possa contar entre os que se alistam sob a minha bandeira. Sede intrépidos: eu vos conduzirei pela via da salvação, porque eu sou a Caridade! CARITAS Lyon, 1861
14. Há muitas maneiras de fazer a caridade, que tantos de vós confundem com a esmola. Não obstante, há grande diferença entre elas. A esmola, meus amigos, algumas vezes é útil, porque alivia os pobres. Mas é quase sempre humilhante, tanto para o que a dá, quanto para o que a recebe. A caridade, pelo contrário, liga o benfeitor e o beneficiário, e além disso se disfarça de tantas maneiras! A caridade pode ser praticada mesmo entre colegas e amigos, sendo indulgentes uns para com os outros, perdoando-se mutuamente suas fraquezas, cuidando de não ferir o amor-próprio de ninguém. Para vós, espíritas, na vossa maneira de agir em relação aos que não pensam convosco, induzindo os menos esclarecidos a crer, sem os chocar, sem afrontar as suas convicções, mas levando-os amigavelmente às reuniões, onde eles poderão ouvir-nos, e onde saberemos encontrar a brecha que nos permitirá penetrar nos seus corações. Eis uma das formas da caridade. Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, esses deserdados do mundo, mas recompensados por Deus, quando sabem aceitar as suas misérias sem murmurações, o que depende de vós. Vou-me fazer compreender por um exemplo. Vejo, muitas vezes, na semana, uma reunião de damas de todas as idades. Para nós, como sabeis, são todas irmãs.
Trabalham rápidas, bem rápidas. Os dedos são ágeis. Vede também como os rostos estão radiantes e como os seus corações batem em uníssono! Mas qual o seu objetivo? É que elas vêem aproximar-se o inverno, que será rude para as famílias pobres. As formigas não puderam acumular durante o verão os grãos necessários à provisão, e a maior parte de seus utensílios está empenhada. As pobres mães se inquietam e choram, pensando nos filhinhos que, neste inverno, sofrerão frio e fome! Mas tende paciência, pobres mulheres! Deus inspirou a outras, mais afortunadas que vós. Elas se reuniram e confeccionam roupinhas. Depois, num destes dias, quando a neve tiver coberto a terra, e murmurardes, dizendo: "Deus não é justo!", pois é esta a expressão comum dos vossos períodos de sofrimento, então vereis aparecer um dos enviados dessas boas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres. Sim, era para vós que elas trabahavam assim, e vossos murmúrios se transformarão em bênçãos, porque, no coração dos infelizes, o amor segue de bem perto o ódio. Como todas essas trabalhadoras necessitam de encorajamento vejo as comunicações dos Bons Espíritos lhes chegarem de todas as partes. Os homens que participam desta sociedade oferecem tambem o seu concurso, fazendo uma dessas leituras que tanto agradam. E nós, para recompensar o zelo de todos e de cada um em particular, prometemos a essas obreiras laboriosas uma boa clientela, que as pagará em moeda sonante de bênçãos, a única moeda que circula no céu, assegurando-lhes ainda, sem medo de nos arriscarmos, que essa moeda não lhes faltará.
15 - OFERENDA - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 116
COMPAIXÃO E SEVERIDADE
Os infortúnios ocultos são epígrafe abrangente de muitos problemas, que merecem da piedade cristã especial atenção. Pelo hábito da caridade material, muitos lidadores da Causa evangélica preocupam-se em minimizar as necessidades socioeconômicas, oferecendo aos aflitos os recursos monetários, alimentícios, medicamentosos, habitacionais, firmados em salutares propósitos, dominados por euforia legítima e espírito nobre de solidariedade.
São de relevante importância essas expressões socorristas, sem dúvida. Visitar morros e favelas, distribuir agasalhos e farnéis, orar com unção em caráter intercessório, ministrar passes constituem todo um equipamento de amor com que o Céu visita as necessidades da Terra, distendendo consolação e esperança.
Os infortúnios ocultos se repletam, não obstante, de outros tantos problemas, que somente a acuidade cristã apurada os pode detectar e o coração amante, desarmado do egoísmo, consegue socorrer. Não apenas os que nos trazem seus dramas merecem nossa caridade Mas também, os que convivem conosco em regime de fraternidade e serviço, na condição de auxiliares humildes e pessoas difíceis, de enfermos impertinentes e de companheiros lutadores.
Pessoa alguma há, que se encontre na Terra, sem problemas nem testemunhos; todos, porém, com os seus infortúnios ocultos. Descobrir essas dores e atendê-las com elevação, deve constituir o desafio para quem enceta, com honestidade, a tarefa da lapidação íntima, da ascensão espiritual.
Evita censurar o teu irmão, mesmo que te escudes no eufemismo de que o fazes por amor. Impede a proliferação da maledicência, silenciando-a no algodão do descrédito, quando chegue a ti, não a divulgando. Credita ao próprio coração, com humildade, as lágrimas silenciosas que te constituem manancial de provação redentora, não espalhando azedume ou acrimônia.
Lembra-te de que o mundo passou até hoje sem ti e prosseguirá, depois que partas da Terra. Ouve os pedidos de socorro, sem palavras e atende-os quando se acerquem da tua afetividade. Mérito algum possui quem ama as pessoas simpáticas. Os que te parecem detestáveis têm suas dificuldades, como tu mesmo as tens, a teu turno antipático à apreciação de outrem...
Se não podes ou não queres ajudar, não reproves a ação alheia, nem geres animosidade contra eles. Tuas dificuldades e limitações merecem respeito. As do teu próximo também. Os infortúnios morais ocultos são muito complexos.
Estiolam vidas que se esforçam por sorrir e amar, e ninguém nota. Ceifam esperanças em que trabalha com aparente ânimo forte, e não se fazem perceber. Desagregam ideais em almas estóicas que lutam por vencê-los, sem se deixarem flagrar. São ácidos requeimando por dentro e intimamente atormentando, sem sinais exteriores.
Modifica a tua conduta diante das almas, já que estás informado, através da Doutrina Espírita, quanto à anterioridade do Espírito. Sabes que o processo evolutivo é grave desafio a todos. Por isso não abdiques da benignidade, da tolerância, da simpatia e da paciência - expressões edificantes da caridade! - no teu trato com as criaturas do caminho.
Enquanto estiveres no corpo, não cesses de burilar-te, vencendo os teus infortúnios ocultos de natureza moral, com a mesma compaixão e severidade com que os aplicas contra aqueles que se acercam de ti.
17 - RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS - EMMANUEL - PÁG. 191
Diante das tentações - Reunião pública de 2-10-59 Questão n°. 893: Tentado à permanência nas trevas, embora de pés sangrando, dirige-te para a luz. Enquanto não atravesse o suor e o cansaço da plantação, lavrador algum amealha a colheita. Até que atinjamos, um dia, o clima do reino angélico, seremos almas humanas, peregrinos da evolução nas trilhas da eternidade. Aqui e ali, ouviremos cânticos de exaltação à virtude e, louvando-a, falaremos por nossa vez, acentuando-lhe os elogios. Entretanto, manda a sinceridade nos vejamos por dentro, e, por dentro de nós, ruge o passado, gritando injúrias contra as nossas mais belas aspirações. Toma, porém, o facho que o Cristo te coloca nas mãos e clareia a intimidade da consciência, parlamentando contigo mesmo. Hora a hora, esclareçamos a nós próprios,tanto quanto nos lançamos no ensino aos outros. Reparando os caídos em plena viciação, inventaria as próprias fraquezas e perceberás que, provavelmente, respirarias agora numa enxerga de lodo, não fosse a migalha do conhecimento que te enriquece. Diante dos que se desvairam na crítica, observa a facilidade com que te entregas aos julgamentos irrefletidos e pondera que serias igualmente compelido ao braseiro da crueldade, não fosse algum ligeiro dístico da prudência que consegues mentalizar.
À frente daqueles que se envileceram na carruagem do ouro ou da influência política, recorda quantas vezes a vaidade te procura, por dia, nos recessos do coração, e reconhecerás que também forçarias as portas da fortuna e do poder, caso não fosse o leve fio de responsabilidade que te frena os impulsos. Analisando os que sofrem na tela da obsessão, pensa nos reiterados enganos a que te arrojas e compreenderás que ainda hoje chorarias nas angústias do manicômio, não fosse a pequenina faixa de serviço no bem a que te afeiçoas. Perante os companheiros atolados no crime, anota a agressividade que ainda trazes contigo e concluirás que talvez estivesses na penitenciária, amargando aflitiva sentença, não fosse o raiúnculo de oração que acendes na própria alma. E as lutas que te marcam a rota assinalam também o campo de serviço em que ainda estagias junto aos desencarnados da nossa esfera de ação. Situemo-nos no lugar dos que erram e nosso raciocínio descansará no abrigo do entendimento. Nenhum lidador vinculado à Terra se encontra integralmente livre das tendências inferiores mesmos. E se a estrada para semelhante triunfo se chama «caridade constante para com os outros», o primeiro passo de cada dia chama-se «compaixão».
20 -VINHAS DE LUZ - EMMANUEL - ÍTEM 6 - MULTIDÕES - PÁG. 23
MULTIDÕES: "Tenho compaixão da multidão." — Jesus. (MARCOS, 8:2.): Os espíritos verdadeiramente educados representam, em todos os tempos, grandes devedores à multidão. Raros homens, no entanto, compreendem esse imperativo das leis espirituais. Em geral, o mordomo das possibilidades terrestres, meramente instruído na cultura do mundo, esquiva-se da massa comum, ao invés de ajudá-la. Explora-lhe as paixões, mantém-lhe a ignorância e costuma roubar-lhe o ensejo de progresso. Traça leis para que ela pague os impostos mais pesados, cria guerras de extermínio, em que deva concorrer com os mais elevados tributos de sangue. O sacerdócio organizado, quase sempre, impõe-lhe sombras, enquanto a filosofia e a ciência lhe oferecem sorrisos escarnecedores. Em todos os tempos e situações políticas, conta o povo com escassos amigos e adversários em legiões. Acima de todas as possibilidades humanas, entretanto, a multidão dispõe do Amigo Divino. Jesus prossegue trabalhando. Ele, que passou no Planeta entre pescadores e proletários, aleijados e cegos, velhos cansados e mães aflitas, volta-se para a turba sofredora e alimenta-lhe a esperança, como naquele momento da multiplicação dos pães. Lembra-te, meu amigo, de que és parte integrante da multidão terrestre. O Senhor observa o que fazes. Não roubes o pão da vida; procura multiplicá-lo.
21 - INSPIRAÇÃO - EMMANUEL - PÁG. 86
COMPAIXÃO E AUXÍLIO:
Existem criaturas na Terra tão extremamente agarradas à idéia de posse dos bens de que dispõem no mundo e das pessoas a que se dedicam, que, frequentemente, em favor de nossa própria paz, necessitamos praticar, mais amplamente, os princípios da compaixão. Esse companheiro foi indicado pela Divina Providência para exercer a justiça, temperada de misericórdia; entretanto, apesar da autoridade de que disponha, precisará da compaixão alheia, traduzida em atitudes e palavras, para que o poder não se lhe converta nas mãos em bastão de tirania.
Aquele recebeu do Senhor o dom de falar com desembaraço, de maneira a conduzir multidões para o caminho do bem; no entanto, em pleno fastígio do verbo, necessitará da compaixão dos semelhantes, a fim de não desmandar-se em paixões violentas. Outro, em nome do Mais Alto, guarda o depósito de grande fortuna, de modo a administrá-la, criteriosamente, criando trabalho, em benefício dos irmãos do mundo, chamados à sustentação própria; contudo, não prescindirá da compaixão dos outros pra que não venha a aniquilar o patrimônio que a vida lhe confiou.
Aquele outro ainda recolheu da Divina Bondade grande ciclo de provações, a fim de lecionar com elas paciência e humildade, fé e coragem, no auxílio espiritual aos companheiros do mundo; entretanto, não dispensará o apoio da compaixão de quantos o assistem para que o sofrimento não se lhe faça veneno o desespero, nos recessos da alma. Seja diante de quem seja, compadece-te e auxilia para o bem.
E sempre que o teu passo cruze com o passo de alguém que se comporta como se Deus não existisse, tratando criaturas e bens, qual se lhes fosse proprietário exclusivo, coloca a imagem desse alguém na tua enfermaria de oração, porque estarás renteando com uma dessas criaturas que ignoram a Paternidade de Deus, desconhecendo igualmente que todos os dons e vantagens que estejamos usufruindo nos foram emprestados pelos institutos da Divina Providência e dos quais daremos conta na Administração da Vida em momento exato.
COMPAIXÃO – COMPILAÇÃO
01 - AS AVES FERIDAS NA TERRA VOAM - NANCY P.D. GIROLAMO - ÍTEM X - ÔJE - O LOIRINHO BAIANO
Seu nome era Ôje, pronunciado em paroxítono. Não sabemos se alguém lhe deu esse nome, ou se foi ele mesmo que o escolheu do fundo do seu pensamento preso. Veio do Nordeste em "pau de arara". Entre duas dezenas de gente ele foi incluído, não se sabe por quem. Magrinho e calado, tão mal vestido como os outros meninos de sua idade — teria seis ou nove anos? — passou despercebido. No caminho lhe deram pedaços de pão amanhecido. Cada um dos adultos, a maioria homens, pensava que ele era do outro. Foi assim que chegou a São Paulo. E só então, na divisão das pessoas, percebeu-se que ele não estava com ninguém, não era de nenhum, e nem sequer alguém o conhecia. Uma "polícia feminina" tentou interrogá-lo, sem resultado. Levou-o a um assistente social, a um comissário de menores, a... Não adiantou. Ele não dizia nada. Olhava o ar comose estivesse vazio por fora e por dentro. Não fixava as pessoas. Tudo lhe parecia indiferente, até o alimento que mastigava como se fosse um "robô" e isso após longos intervalos de jejum. Só reagia — e negativamente — quando era tocado, como se sua pele quisesse ficar só para ele e se sentisse ofendida ou maculada pelos contatos. Foi assim que o conhecemos quando foi levado para o Centro de Reabilitação onde trabalhávamos. Embora de procedência baiana, depois de lavado e escovado, viu-se que era loiro, lembrando os invasores holandeses do Brasil nascente. Perguntamos: — Qual o seu nome? Sem resposta. Tentamos chamá-lo: João! Pedro! António! Nada. Cortamos, com grande dificuldade, seus cabelos loiros embaraçados. Ficou de "franjinha" e viu-se que era bonito.— Será mais bonito ainda quando conseguirmos que seu olhar marrom deixe de ficar curto e vago. Foi o que pensamos.
As pessoas, principalmente as crianças, são difíceis de ser compreendidas, mas é pelo olhar que podemos saber — não "como são" mas "como estão" naquele momento. O excepcional, ou os que agem como tal por motivos vários, apresentam seu grau de "status" interior pela expressividade do olhar. No Evangelho de Mateus 7:22 é dito o seguinte: "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons todo o teu corpo terá luz". Depois de bem examinado pela nossa equipe de reabilitação, o prontuário deste menino se resumiu em observações exteriores. Ele não se abriu para ninguém. Um resumo em linguagem popular seria este: Não era surdo, nem mudo, nem cego, mas estava trancado em si mesmo... Houve um diagnóstico, até complicado, e um prognóstico "reservado", o que é sempre um desafio. No dia seguinte ao de sua chegada, já foi colocado no programa de Desenvolvimento Integral de Possibilidades, que é, em suma, um ambiente de oportunidades e motivações. Fisioterapeuta, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Terapeuta Ocupacional nada conseguiram. Na sala de socioterapia, cheia de miniaturas ligadas à vida social, nada o interessou. Entretanto, uma tarde, quinze dias após sua chegada, estando no escritório, percebemos que o loirinho baiano passava pelo corredor no seu andar vago como folha ao vento. E, como se o vento atendesse a uma predestinação, o menino entrou na nossa sala e parou em nossa frente. De repente, o telefone tocou. íamos atender quando estacamos surpreendidos. O loirinho estremecera ao som do telefone. Tivemos a impressão subjetiva de que ele agia como quem esperasse um telefonema, uma chamada exatamente para ele. Tocou de novo. Agora o menino olhava fixa e diretamente o aparelho preto.
Terceiro sinal. Pegamos o fone e o colocamos em posição de atendimento sobre o ouvido do garoto. Com as duas mãos, suas próprias mãos, ele segurou fortemente o telefone e, como se respondesse a alguém, falou sua primeira e única palavra, num som que saiu como que do fundo de um túnel: Ôje. Pegamos aquele fiozinho de abertura solto de dentro para fora e não o largamos mais. Repetimos muitas vezes: Ôje! Ôje!, tentando uma integração olho no olho e, naquele mesmo dia, isso começou a ser conseguido. O baiano loirinho passou a responder à palavra mágica e, desde então, todos ficaram sabendo que o seu nome era Ôje. O estranho é que ele mesmo nunca mais falou durante os dois anos em que esteve na Terra conosco. Mas sempre respondeu "Ôje" como se esse fosse o seu nome.
— Ôje, venha almoçar.— Ôje, é hora de ginástica.— Ôje, vamos passear. Realmente ele ficou lindo quando seu olhar marrom conseguiu acompanhar o movimento dos objetos e mergulhar nos olhos das outras pessoas. Desde que teve um nome, aprendeu muitas coisas. Aceitou o manuseio e manifestou a alegria pelo sorriso. Chegou a bater palmas e a participar de jogos junto com outras crianças. Executou exercícios de forma ativa, o que não pensávamos lhe ser possível. Aprendeu a receber bem os abraços, e depois começou a retribuí-los. Ficou forte e corado. Parecia feliz, mas quando estava em seu melhor momento de saúde e receptividade, ficou doente e, em três dias, saiu do corpo, regressando à pátria dos espíritos.
Nos últimos segundos de vida corporal, na respiração profunda de despedida, tentamos ouvir algum som, mas ele nada disse. Abriu bem os olhos numa expressão luminosa, e depois, lentamente, cerrou as pálpebras. Nós é que ficamos falando: — Boa viagem, Ôje. Boa Viagem! Relembrando essa pequena história de vida, ocorre-nos associar a sua palavra mágica à conotação daquela outra palavra que, como som, é a mesma: Hoje. Vem ao nosso pensamento, dentro da saudade do loirinho baiano, a importância da hora presente, do minuto de vivência, da oportunidade do "agora", a significação que pode ter a mensagem das coisas, assim como o som do telefone para o garoto que tirou do fundo de seu pensamento a sua identificação. Talvez tivesse havido apenas uma tentativa de repetir a expressão baiana "ôche", ou o início de uma palavra inacabada, ou simplesmente um som sem sentido algum. O importante é que desse som nasceu o laço pessoal, afetivo, individual, que permitiu marcar a sua passagem consciente por mais uma experiência de vida na Terra.
Excepcionais como o pequeno Ôje, com incalculável esforço, chegam a perfurar uma brecha em meio à escuridão de um caminho fechado para canalizar uma preciosa gota de comunicação, enquanto nós, os libertos para a interprenetração em tudo o que Deus criou para mútuo burilamento, usamos e abusamos da palavra e da ação livres para, muitas vezes, confundir coisas e desperdiçar tempo. Cada vez mais certos de que temos muito a aprender com os "excepcionais", agradecemos ao loirinho baiano por nos ter dito o seu nome, o que nos permite extrapolar para uma verdade filosófica de grande alcance pragmático: a de que nosso verdadeiro,no dinamismo das mudanças, está sempre no "Hoje",no que fazemos em cada segundo de vida, porque só o "Hoje" realmente nos pertence, para nele construirmos o que quisermos; só ele nos identifica, e essa identidade é grande ou pequena, boa ou má, na medida em que nele nos movemos e nele nos transformamos.
07 - ESTUDE E VIVA - EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ - ACIDENTADOS DA ALMA - PÁG.102
Acidentados da alma: Compadeces-te dos caídos em moléstia ou desastre, que apresentam no corpo comovedoras mutilações. Inclina-te, porém, com igual compaixão para aqueles outros que comparecem, diante de ti, por acidentados da alma, cujas lesões dolorosas não aparecem. Além da posição de necessitados, pelas chagas ocultas de que são portadores, quase sempre se mostram na feição de companheiros menos atrativos e desejáveis. Surgem pessoalmente bem-postos, estadeando exigências ou formulando complicações, no entanto bastas vezes trazem o coração sob provas difíceis; espancam-te a sensibilidade com palavras ferinas, contudo, em vários lances da experiência, são feixes de nervos destrambelhados que a doença consome; revelam-se na condição de amigos, supostos ingratos, que nos deixam em abandono, nas horas de crise, mas, em muitos casos, são enfermos de espírito, que se enviscam, inconscientes, nas tramas da obsessão; acolhem-te o carinho com manifestações de aspereza, todavia, estarão provavelmente agitados pelo fogo do desespero, lembrando árvores benfeitoras quando a praga as dizima; são delinquentes e constrangem-te a profundo desgosto, pelo comportamento incorreto; no entanto, em múltiplas circunstâncias, são almas nobres tombadas em tentação, para as quais já existe bastante angústia na cabeça atormentada que o remorso atenaza e a dor suplicia...
Não te digo que aproves o mal, sob a alegação de resguardar a bondade. A retificação permanece na ordem e na segurança da vida, tanto quanto vige o remédio na defesa e sustentação da saúde. Age, porém, diante dos acidentados da alma, com a prudência e a piedade do enfermeiro que socorre a contusão, sem alargar a ferida. Restaurar sem destruir. Emendar sem proscrever. Não ignorar que os irmãos transviados se encontram encarcerados em labirintos de sombra, sendo necessário garantir-lhes uma saída adequada. Em qualquer processo de reajuste, recordemos Jesus que, a ensinar servindo e a corrigir amando, declarou não ter vindo à Terra para curar os sãos. Aspectos da dor: Os soluços de dor são compreensíveis até o ponto em que não atingem a fermentação da revolta, porque, depois disso, se convertem todos eles em censura infeliz aos planos do Céu. A enfermidade jamais erra o endereço para as suas visitas. As lágrimas, em verdade, são iguais às palavras. Nenhuma existe destituída de significação. Somente chega a entender a vida quem compreende a dor. A evolução regula também o sofrimento das criaturas e nelas se evidencia mais superficial ou mais profunda, conforme o aprimoramento de cada uma. Se você pretende vencer, não menospreze a possibilidade de amargar, algumas vezes, a aflição da derrota como lição no caminho para o triunfo. Aprende melhor quem aceita a escola da provação, porquanto, sem ela, os valores da experiência permaneceriam ignorados. A dor não provém de Deus, de vez que, segundo a Lei, ela é uma criação de quem a sofre.
09- JESUS NO LAR - NÉIO LUCIO - ÍTEM 42 - A MENSAGEM DE COMPAIXÃO - PÁG. 179
A mensagem da compaixão: Dentro da noite clara, a assembléia familiar em casa de Pedro centralizara-se no exame das dificuldades no trato com as pessoas. Como estender os valores da Boa Nova? como instalar o mesmo dom e a mesma bênção em mentalidades diversas entre si? Findo o longo debate fraternal, em que Jesus se mantivera em pesado silêncio, João perguntou-lhe, preocupado:— Senhor, que fazer diante da calúnia que nos dilacera o coração?— Tem piedade do caluniador e trabalha no bem de todos — respondeu o Celeste Mentor, sorrindo —, porque o amor desfaz as trevas do mal e o serviço destrói a idéia desrespeitosa.— Mestre — ajuntou Tiago, filho de Zebedeu —, e como agir perante aquele que nos ataca, brutalmente ?— Um homem que se conduz pela violência — acentuou o Cristo, bondoso —, deve estar louco ou envenenado. Auxiliemo-lo a refazer-se.— Senhor — aduziu Judas, mostrando os olhos esfogueados —, e quando o homem que nos ofende se reveste de autoridade respeitável, qual seja a dum príncipe ou dum sacerdote, com todas as aparências do ordenador consciente e normal?— A serpente pode ocultar-se num ramo de flores e há vermes que se habituam nos frutos de bela apresentação. O homem de elevada categoria que se revele violento e cruel é enfermo, ainda assim. Compadece-te dele, porque dorme num pesadelo de escuras ilusões, da qual será constrangido a despertar, um dia. Ampara-o como puderes e marcha em teu caminho, agindo na felicidade comum.— Mestre, e quando a nossa casa é atormentada por um crime? como procederei diante daquele que me atraiçoa a confiança, que me desonra o nome ou me ensanguenta o lar?
— Apiada-te do delinquente de qualquer classe — elucidou Jesus — e não desejes violar a Lei que o próximo desrespeitou, porque o perseguidor e o criminoso de todas as situações carrega consigo abrasadora fogueira. Uma falta não resgata outra falta e o sangue não lava sangue. Perdoa e ajuda. O tempo está encarregado de retribuir a cada criatura, de acordo com o seu esforço.— Mestre — atalhou Bartolomeu —, que fazer do juiz que nos condena com parcialidade?— Tem compaixão dele e continua cooperando no bem de todos os que te cercam. Há sempre um juiz mais alto, analisando aqueles que censuram ou amaldiçoam e, além de um horizonte, outros horizontes se desdobram, mais dilatados e luminosos.— Senhor — indagou Tadeu —, como proceder diante da mulher que amamos, quando se entrega às quedas morais? Jesus fitou-o, com brandura, e inquiriu, por sua vez:— Os sofrimentos íntimos que a dilaceram, dia e noite, não constituirão, por si só, aflitiva punição? Fêz-se balsâmico silêncio no círculo doméstico e, logo ao perceber que os aprendizes haviam cessado as interrogações, o Senhor concluiu:— Se pretendemos banir os males do mundo, cultivemos o amor que se compadece no serviço que constrói para a felicidade de todos. Ninguém se engane. As horas são inflexíveis instrumentos da Lei que distribui a cada um, segundo as suas obras. Ninguém procure satíar um crime, praticando outros crimes, porque o tempo tudo transforma na Terra, operando com as labaredas do sofrimento ou com o gelo da morte.
10 - JUSTIÇA DIVINA - EMMANUEL - DOENÇAS DA ALMA - PÁG. 113
DOENÇAS DA ALMA - REUNIÃO PÚBLICA DE 7.8.61 - 1ª. PARTE. CAP. VII, ÍTEM 7: Na forja moral da luta em que temperas o caráter e purificas o sentimento, é possível acredites estejas sempre no trato de pessoas normais, simplesmente porque se mostrem com a ficha de sanidade física. Entretanto, é preciso pensar que as moléstias do espírito também se contam. O companheiro que te fala, aparentemente tranquilo, talvez guarde no peito a lâmina esbraseada de terrível desilusão. A irmã que te recebe, sorrindo, provavelmente carrega o coração ensopado de lágrimas. Surpreendeste amigos de olhos calmos e frases doces, dando-te a impressão de controle perfeito, que soubeste, mais tarde, estarem caminhando na direção da loucura. Enxergaste outros, promovendo festas e estadeando poder, a escorregarem, logo após, no engodo da delinquência. É que as enfermidades do espírito atormentam as forças da criatura, em processos de corrosão inacessíveis à diagnose terrestre. Aqui, o egoísmo sombreia a visão; ali, o ódio empeçonha o cérebro; acolá, o desespero mentaliza fantasmas; adiante, o ciúme converte a palavra em látego de morte. . . Não observes os semelhantes pelo caleidoscópio das aparências.
É necessário reconhecer que todos nós, espíritos encarnados e desencarnados em serviço na Terra, ante o volume dos débitos que contraímos nas existências passadas, somos doentes em laboriosa restauração. O mundo não é apenas a escola, mas também o hospital em que sanamos desequilíbrios recidivantes, nas reencarnações regenerativas, através do sofrimento e do suor, a funcionarem por medicação compulsória. Deixa, assim, que a compaixão retifique em ti próprio os velhos males que toleras nos outros.
Se alguém te fere ou desgosta, debita-lhe o gesto menos feliz à conta da moléstia obscura de que ainda se faz portador. Se cada pessoa ofendida pudesse ouvir a voz inarticulada do Céu, no instante em que se vê golpeada, escutaria, de pronto, o apelo da Misericórdia Divina: «Compadece-te!» Todos somos enfermos pedindo alta. Compadeçamo-nos uns dos outros, a fim de que saibamos auxiliar. E mesmo que te vejas na obrigação de corrigir alguém — pelas reações dolorosas das doenças da alma que ainda trazemos — , compadece-te mil vezes antes de examinar uma só.
13 - O ESPÍRITO DA VERDADE - ÍTEM 96 - SÊ COMPASSIVO - CAIRBAR SCHUTEL - PÁG. 219
ÍTEM 96 - SÊ COMPASSIVO - Cap. XIII — Item 17: Sem compaixão não há caridade. As lágrimas vertidas ao calor vívido da piedade corroem as densas cadeias da provação. Desterremos de nós a insensibilidade crua diante das telas de angústia que se desenrolam em nossa estrada. A piedade é a simpatia espontânea e desinteressada que se antepõe à antipatia gratuita ou despeitosa. Ela deve induzir-nos à prática do socorro moral e material, junto daqueles que no-la despertam, sem o que se torna infrutífera. Quando o sofrimento alheio não nos sensibiliza, a Orientação Divina estatui venhamos a experimentá-lo igualmente para avaliar a dor do próximo e nos predispormos a ampará-lo. Só a piedade consoladora traz alegria ao espírito, criando elevação e valor. Fujamos à compaixão aparente que se manifesta em lágrimas de crocodilo, gestos e exclamações pomposas, nos cenários artificiais do fingimento. Mede-se a comiseração pelo devotamento e solicitude fraternais que promove. Deve-se-lhe o despovoamento gradativo das zonas de purgação moral da Espiritualidade.
Deixa-te enternecer ante os painéis comovedores das crises de pranto, vezes e vezes temperadas em sangue e suor; contudo, não te detenhas aí: busca dirimi-las. Perlustra as vielas ínvias da necessidade e beneficia as almas que se agitam em desespero, dentro da jaula do próprio corpo. Tem dó, não apenas dos quadros gritantes de falência íntima, mas também dos padecimentos mascarados de silêncio e de orgulho, ingenuidade e inexperiência. Inunda de amor os corações mantidos sob o vácuo do tédio. Protege a infância desvalida, pois os pequenos viajores da carne carecem de guias. Favorece com a moeda e abençoa com a palavra os pedintes andrajosos somente acariciados pelos cães que vagueiam nas ruas. E na certeza de que a piedade sincera jamais expressa covardia a derruir o bem, nem ridículo a excitar o riso alheio, acatemo-la como força de renovação das almas e luz interior da Verdadeira Vida, eternizada por Deus. Sê compassivo.
14 - O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAP. XIII, 13
13. Chamo-me Caridade, sou o caminho principal que conduz a Deus; segui-me, porque eu sou a meta a que vós todos deveis visar. Fiz nesta manhã o meu passeio habitual, e com o coração magoado venho dizer-vos: Oh! meus amigos, quantas misérias, quantas lágrimas, e quanto tendes de fazer para secá-las todas! Inutilmente tentei consolar as pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! Há corações bondosos que velam por vós, que não vos abandonarão; paciência! Deus existe, e vós sois as suas amadas, as suas eleitas. Elas pareciam ouvir-me e voltavam para mim os seus grandes olhos assustados. Eu lia em seus pobres semblantes que o corpo, esse tirano do Espírito, tinha fome, e que, se as minhas palavras lhes tranquilizavam um pouco o coração, não lhes saciavam o estômago. Então eu repetia: Coragem! Coragem! E uma pobre mãe, muito jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e ergueu-a no espaço vazio, como para me rogar que protegesse aquele pobre e pequeno ser, que só encontrava num seio estéril alimento insuficiente.
Mais adiante, meus amigos, vi pobres velhos sem trabalho e logo sem abrigo, atormentados por todos os sofrimentos da necessidade, e envergonhados de sua miséria, não se atrevendo, eles que jamais mendigaram, a implorar a piedade dos passantes. Coração empolgado de compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga para eles, e vou para toda a parte estimular a beneficência, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos. Eis por que "venho até vós, meus amigos, e vos digo: Lá embaixo há infelizes, cuja cesta está sem pão, a lareira sem fogo, o leito sem cobertas. Nào vos digo o que deveis fazer; deixo a iniciativa aos vossos bons corações; pois se eu vos ditasse a linha de conduta, não teríeis o Emérito de vossas boas ações. Eu vos digo somente: Sou a caridade e vos estendo as mãos pelos vossos irmãos sofredores.
Mas, se peço, também dou, e muito; eu vos convido para um grande festim, e ofereço a árvore em que vós todos podereis saciar-vos. Vede como é bela, como está carregada de flores e de frutos! Ide, ide, colhei, tomai todos os frutos dessa bela árvore que se chama beneficência. Em lugar dos ramos que lhe arrancardes, porei todas as boas ações que fizerdes e levarei a árvore a Deus, para que Ele a carregue de novo, porque a beneficência é inesgotável. Segui-me, pois, meus amigos, a fim de que eu vos possa contar entre os que se alistam sob a minha bandeira. Sede intrépidos: eu vos conduzirei pela via da salvação, porque eu sou a Caridade! CARITAS Lyon, 1861
14. Há muitas maneiras de fazer a caridade, que tantos de vós confundem com a esmola. Não obstante, há grande diferença entre elas. A esmola, meus amigos, algumas vezes é útil, porque alivia os pobres. Mas é quase sempre humilhante, tanto para o que a dá, quanto para o que a recebe. A caridade, pelo contrário, liga o benfeitor e o beneficiário, e além disso se disfarça de tantas maneiras! A caridade pode ser praticada mesmo entre colegas e amigos, sendo indulgentes uns para com os outros, perdoando-se mutuamente suas fraquezas, cuidando de não ferir o amor-próprio de ninguém. Para vós, espíritas, na vossa maneira de agir em relação aos que não pensam convosco, induzindo os menos esclarecidos a crer, sem os chocar, sem afrontar as suas convicções, mas levando-os amigavelmente às reuniões, onde eles poderão ouvir-nos, e onde saberemos encontrar a brecha que nos permitirá penetrar nos seus corações. Eis uma das formas da caridade. Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, esses deserdados do mundo, mas recompensados por Deus, quando sabem aceitar as suas misérias sem murmurações, o que depende de vós. Vou-me fazer compreender por um exemplo. Vejo, muitas vezes, na semana, uma reunião de damas de todas as idades. Para nós, como sabeis, são todas irmãs.
Trabalham rápidas, bem rápidas. Os dedos são ágeis. Vede também como os rostos estão radiantes e como os seus corações batem em uníssono! Mas qual o seu objetivo? É que elas vêem aproximar-se o inverno, que será rude para as famílias pobres. As formigas não puderam acumular durante o verão os grãos necessários à provisão, e a maior parte de seus utensílios está empenhada. As pobres mães se inquietam e choram, pensando nos filhinhos que, neste inverno, sofrerão frio e fome! Mas tende paciência, pobres mulheres! Deus inspirou a outras, mais afortunadas que vós. Elas se reuniram e confeccionam roupinhas. Depois, num destes dias, quando a neve tiver coberto a terra, e murmurardes, dizendo: "Deus não é justo!", pois é esta a expressão comum dos vossos períodos de sofrimento, então vereis aparecer um dos enviados dessas boas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres. Sim, era para vós que elas trabahavam assim, e vossos murmúrios se transformarão em bênçãos, porque, no coração dos infelizes, o amor segue de bem perto o ódio. Como todas essas trabalhadoras necessitam de encorajamento vejo as comunicações dos Bons Espíritos lhes chegarem de todas as partes. Os homens que participam desta sociedade oferecem tambem o seu concurso, fazendo uma dessas leituras que tanto agradam. E nós, para recompensar o zelo de todos e de cada um em particular, prometemos a essas obreiras laboriosas uma boa clientela, que as pagará em moeda sonante de bênçãos, a única moeda que circula no céu, assegurando-lhes ainda, sem medo de nos arriscarmos, que essa moeda não lhes faltará.
15 - OFERENDA - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 116
COMPAIXÃO E SEVERIDADE
Os infortúnios ocultos são epígrafe abrangente de muitos problemas, que merecem da piedade cristã especial atenção. Pelo hábito da caridade material, muitos lidadores da Causa evangélica preocupam-se em minimizar as necessidades socioeconômicas, oferecendo aos aflitos os recursos monetários, alimentícios, medicamentosos, habitacionais, firmados em salutares propósitos, dominados por euforia legítima e espírito nobre de solidariedade.
São de relevante importância essas expressões socorristas, sem dúvida. Visitar morros e favelas, distribuir agasalhos e farnéis, orar com unção em caráter intercessório, ministrar passes constituem todo um equipamento de amor com que o Céu visita as necessidades da Terra, distendendo consolação e esperança.
Os infortúnios ocultos se repletam, não obstante, de outros tantos problemas, que somente a acuidade cristã apurada os pode detectar e o coração amante, desarmado do egoísmo, consegue socorrer. Não apenas os que nos trazem seus dramas merecem nossa caridade Mas também, os que convivem conosco em regime de fraternidade e serviço, na condição de auxiliares humildes e pessoas difíceis, de enfermos impertinentes e de companheiros lutadores.
Pessoa alguma há, que se encontre na Terra, sem problemas nem testemunhos; todos, porém, com os seus infortúnios ocultos. Descobrir essas dores e atendê-las com elevação, deve constituir o desafio para quem enceta, com honestidade, a tarefa da lapidação íntima, da ascensão espiritual.
Evita censurar o teu irmão, mesmo que te escudes no eufemismo de que o fazes por amor. Impede a proliferação da maledicência, silenciando-a no algodão do descrédito, quando chegue a ti, não a divulgando. Credita ao próprio coração, com humildade, as lágrimas silenciosas que te constituem manancial de provação redentora, não espalhando azedume ou acrimônia.
Lembra-te de que o mundo passou até hoje sem ti e prosseguirá, depois que partas da Terra. Ouve os pedidos de socorro, sem palavras e atende-os quando se acerquem da tua afetividade. Mérito algum possui quem ama as pessoas simpáticas. Os que te parecem detestáveis têm suas dificuldades, como tu mesmo as tens, a teu turno antipático à apreciação de outrem...
Se não podes ou não queres ajudar, não reproves a ação alheia, nem geres animosidade contra eles. Tuas dificuldades e limitações merecem respeito. As do teu próximo também. Os infortúnios morais ocultos são muito complexos.
Estiolam vidas que se esforçam por sorrir e amar, e ninguém nota. Ceifam esperanças em que trabalha com aparente ânimo forte, e não se fazem perceber. Desagregam ideais em almas estóicas que lutam por vencê-los, sem se deixarem flagrar. São ácidos requeimando por dentro e intimamente atormentando, sem sinais exteriores.
Modifica a tua conduta diante das almas, já que estás informado, através da Doutrina Espírita, quanto à anterioridade do Espírito. Sabes que o processo evolutivo é grave desafio a todos. Por isso não abdiques da benignidade, da tolerância, da simpatia e da paciência - expressões edificantes da caridade! - no teu trato com as criaturas do caminho.
Enquanto estiveres no corpo, não cesses de burilar-te, vencendo os teus infortúnios ocultos de natureza moral, com a mesma compaixão e severidade com que os aplicas contra aqueles que se acercam de ti.
17 - RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS - EMMANUEL - PÁG. 191
Diante das tentações - Reunião pública de 2-10-59 Questão n°. 893: Tentado à permanência nas trevas, embora de pés sangrando, dirige-te para a luz. Enquanto não atravesse o suor e o cansaço da plantação, lavrador algum amealha a colheita. Até que atinjamos, um dia, o clima do reino angélico, seremos almas humanas, peregrinos da evolução nas trilhas da eternidade. Aqui e ali, ouviremos cânticos de exaltação à virtude e, louvando-a, falaremos por nossa vez, acentuando-lhe os elogios. Entretanto, manda a sinceridade nos vejamos por dentro, e, por dentro de nós, ruge o passado, gritando injúrias contra as nossas mais belas aspirações. Toma, porém, o facho que o Cristo te coloca nas mãos e clareia a intimidade da consciência, parlamentando contigo mesmo. Hora a hora, esclareçamos a nós próprios,tanto quanto nos lançamos no ensino aos outros. Reparando os caídos em plena viciação, inventaria as próprias fraquezas e perceberás que, provavelmente, respirarias agora numa enxerga de lodo, não fosse a migalha do conhecimento que te enriquece. Diante dos que se desvairam na crítica, observa a facilidade com que te entregas aos julgamentos irrefletidos e pondera que serias igualmente compelido ao braseiro da crueldade, não fosse algum ligeiro dístico da prudência que consegues mentalizar.
À frente daqueles que se envileceram na carruagem do ouro ou da influência política, recorda quantas vezes a vaidade te procura, por dia, nos recessos do coração, e reconhecerás que também forçarias as portas da fortuna e do poder, caso não fosse o leve fio de responsabilidade que te frena os impulsos. Analisando os que sofrem na tela da obsessão, pensa nos reiterados enganos a que te arrojas e compreenderás que ainda hoje chorarias nas angústias do manicômio, não fosse a pequenina faixa de serviço no bem a que te afeiçoas. Perante os companheiros atolados no crime, anota a agressividade que ainda trazes contigo e concluirás que talvez estivesses na penitenciária, amargando aflitiva sentença, não fosse o raiúnculo de oração que acendes na própria alma. E as lutas que te marcam a rota assinalam também o campo de serviço em que ainda estagias junto aos desencarnados da nossa esfera de ação. Situemo-nos no lugar dos que erram e nosso raciocínio descansará no abrigo do entendimento. Nenhum lidador vinculado à Terra se encontra integralmente livre das tendências inferiores mesmos. E se a estrada para semelhante triunfo se chama «caridade constante para com os outros», o primeiro passo de cada dia chama-se «compaixão».
20 -VINHAS DE LUZ - EMMANUEL - ÍTEM 6 - MULTIDÕES - PÁG. 23
MULTIDÕES: "Tenho compaixão da multidão." — Jesus. (MARCOS, 8:2.): Os espíritos verdadeiramente educados representam, em todos os tempos, grandes devedores à multidão. Raros homens, no entanto, compreendem esse imperativo das leis espirituais. Em geral, o mordomo das possibilidades terrestres, meramente instruído na cultura do mundo, esquiva-se da massa comum, ao invés de ajudá-la. Explora-lhe as paixões, mantém-lhe a ignorância e costuma roubar-lhe o ensejo de progresso. Traça leis para que ela pague os impostos mais pesados, cria guerras de extermínio, em que deva concorrer com os mais elevados tributos de sangue. O sacerdócio organizado, quase sempre, impõe-lhe sombras, enquanto a filosofia e a ciência lhe oferecem sorrisos escarnecedores. Em todos os tempos e situações políticas, conta o povo com escassos amigos e adversários em legiões. Acima de todas as possibilidades humanas, entretanto, a multidão dispõe do Amigo Divino. Jesus prossegue trabalhando. Ele, que passou no Planeta entre pescadores e proletários, aleijados e cegos, velhos cansados e mães aflitas, volta-se para a turba sofredora e alimenta-lhe a esperança, como naquele momento da multiplicação dos pães. Lembra-te, meu amigo, de que és parte integrante da multidão terrestre. O Senhor observa o que fazes. Não roubes o pão da vida; procura multiplicá-lo.
21 - INSPIRAÇÃO - EMMANUEL - PÁG. 86
COMPAIXÃO E AUXÍLIO:
Existem criaturas na Terra tão extremamente agarradas à idéia de posse dos bens de que dispõem no mundo e das pessoas a que se dedicam, que, frequentemente, em favor de nossa própria paz, necessitamos praticar, mais amplamente, os princípios da compaixão. Esse companheiro foi indicado pela Divina Providência para exercer a justiça, temperada de misericórdia; entretanto, apesar da autoridade de que disponha, precisará da compaixão alheia, traduzida em atitudes e palavras, para que o poder não se lhe converta nas mãos em bastão de tirania.
Aquele recebeu do Senhor o dom de falar com desembaraço, de maneira a conduzir multidões para o caminho do bem; no entanto, em pleno fastígio do verbo, necessitará da compaixão dos semelhantes, a fim de não desmandar-se em paixões violentas. Outro, em nome do Mais Alto, guarda o depósito de grande fortuna, de modo a administrá-la, criteriosamente, criando trabalho, em benefício dos irmãos do mundo, chamados à sustentação própria; contudo, não prescindirá da compaixão dos outros pra que não venha a aniquilar o patrimônio que a vida lhe confiou.
Aquele outro ainda recolheu da Divina Bondade grande ciclo de provações, a fim de lecionar com elas paciência e humildade, fé e coragem, no auxílio espiritual aos companheiros do mundo; entretanto, não dispensará o apoio da compaixão de quantos o assistem para que o sofrimento não se lhe faça veneno o desespero, nos recessos da alma. Seja diante de quem seja, compadece-te e auxilia para o bem.
E sempre que o teu passo cruze com o passo de alguém que se comporta como se Deus não existisse, tratando criaturas e bens, qual se lhes fosse proprietário exclusivo, coloca a imagem desse alguém na tua enfermaria de oração, porque estarás renteando com uma dessas criaturas que ignoram a Paternidade de Deus, desconhecendo igualmente que todos os dons e vantagens que estejamos usufruindo nos foram emprestados pelos institutos da Divina Providência e dos quais daremos conta na Administração da Vida em momento exato.
O despertar da compaixão
O despertar da compaixão
Muito se fala dela, pouco se sabe. A compaixão pode não ser exatamente o que você pensa que é: existem várias maneiras de experimentá-la, a maioria das vezes de forma surpreendente
por Liane Alves
Quando resolveu contar histórias para crianças em hospitais como voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, o juiz desembargador Antonio Carlos Malheiros teve de superar a si mesmo. No dia escolhido para seu turno na ala de queimados de um grande hospital de São Paulo, ele colocou seu nariz de palhaço, ajeitou seu avental colorido e enfrentou a forte visão das crianças com queimaduras. Foi um grande choque. Mas em poucos minutos, porém, Malheiros já estava solto. Sabia que sua maneira de exercitar a compaixão ali era dar alegria a quem estava mergulhado no sofrimento. O que ele não podia, naquele momento, era sentir dó, piedade, “peninha”. Por isso riu, e arrancou muitos sorrisos, com as histórias que contou. Foi um verdadeiro sucesso. Quando estava quase saindo, sentiu um puxão lá embaixo no seu avental. Era um menino de uns 5 anos com o rosto quase totalmente envolto por bandagens e esparadrapos. O garoto fez um sinal para o juiz se inclinar e disse bem baixinho no seu ouvido: “Tio, pode não parecer, mas eu estou rindo...”
Aí não tem jeito, algo se desmancha no coração. Ele se torna mais tenro, mais terno. E perde sua carapaça habitual de dureza. Como não preenchê-lo de amor por aquela criança vivendo em condições tão difíceis? O sentimento da compaixão é mesmo um transbordamento amoroso. Como as lágrimas, que rolam pelos olhos por causa da emoção, ela transborda diretamente do coração, só que em direção ao mundo.
Amor e sabedoria
Compaixão é amor, sim. Mas uma espécie particular de amor, que pode ser vivenciado de diferentes maneiras. Pode ser passando por cenas como essa descrita no começo do texto. Ou exercitando a paciência, a tolerância, um estar perto em silêncio. A compaixão pode ser praticada até com socos e palavrões, como os bombeiros são obrigados a fazer quando têm de dominar pessoas em pânico para poder salvá-las. Ter compaixão é olhar para o outro e ver o que ele precisa naquele momento. Pode ser um abraço apertado, uma bronca, uma orientação, uma ajuda material. A única condição essencial é que qualquer uma dessas ações parta do coração e que corresponda ao que é preciso naquele instante. Mas compaixão, diferentemente do que nossa tradição de catolicismo lusitano pode indicar, está a léguas da pena. Quem tem pena, muitas vezes, não ama verdadeiramente.
A pergunta que se deve fazer ao sentir a compaixão nascendo dentro do peito é: “De que forma posso ajudar agora?” E a resposta depende tanto de sentimento quanto de raciocínio. “Ter compaixão significa aliar amor e sabedoria”, disse o mestre Geshe Lhakdor, um especialista em filosofia budista que esteve no Brasil. Com palavras tão simples, ele dá a chave de ouro de como se pode exercitar a compaixão. Porque é preciso sentimento, sim, mas também um certo domínio da situação e inteligência. De outra maneira, ficaríamos só chorando ao lado de quem está sofrendo. Bombeiros e salva-vidas não salvariam pessoas, enfermeiras não conseguiriam cuidar direito de seus pacientes, acompanhantes de pessoas doentes entrariam na mais profunda depressão. “Para ajudar o outro, compartilhar sua dor, é preciso estar inteiro, íntegro, e não caindo aos pedaços, emocionalmente falando”, diz a psicóloga Ana Maria Silva, que dá suporte aos contadores de histórias da Associação Viva e Deixe Viver. A entidade tem um programa rigoroso, severo na formação de seus voluntários: de 600 candidatos iniciais, podem ser aprovados apenas 60, justamente os que têm mais condições psicológicas para exercer a compaixão de forma constante e militante. Isto é, de saber avaliar o que realmente a outra pessoa precisa. Em outras palavras, é mais prudente não praticar a compaixão de maneira continuada quando ainda não foram resolvidas grandes questões internas ou, então, quando se deseja ajudar apenas para tentar suprir uma carência afetiva. “Primeiro, é necessário ajudar a si mesmo. Mais inteiro, pode-se começar a pensar em ajudar os outros de forma mais contínua e responsável”, diz.
Isso quer dizer que você vai ter de adiar para sempre esse estar próximo ao sofrimento do outro? Afinal, somos humanos, e nunca estamos totalmente resolvidos... Não, o estar bem e inteiro não pode se transformar numa desculpa ardilosa para nosso egoísmo habitual. Pontualmente, todos nós podemos estar abertos para a dor alheia. Estar ao lado de um amigo em um momento difícil, abrir a casa para um parente que precisa de apoio, participar de uma ação voluntária numa emergência, passar a noite no hospital com alguém, isso todo mundo pode fazer. Mas, para exercitar a compaixão de maneira mais continuada, precisamos, sim, estar mais preparados para poder atender a esse chamado do coração de um jeito mais preciso.
Saber como ajudar
Em seu livro Por um Fio, o médico e escritor Drauzio Varella confessa que durante muitos anos se deixou contaminar pelas reações dos doentes, sentindo-se “imobilizado” emocionalmente e incapaz de oferecer seus préstimos de médico à altura. Tudo porque não conseguia deixar de pensar no sofrimento pelo qual seus pacientes estariam passando. Com o tempo, Drauzio aprendeu a não se paralisar de angústia diante de alguém que estivesse sofrendo. Isso não ajudaria em nada o paciente.
Tem gente que sabe isso intuitivamente, sem precisar treino, como a psicóloga carioca Ana Helena Vieira, que enfrentou, durante quase um ano, um entra-e-sai de hospital por causa da doença do marido. Numa das vezes, teve de esperar por uma cirurgia que durou oito horas. Ela podia ficar roendo as unhas na sala de espera. Mas como sabia que a operação, embora demorada, não tinha grande risco, resolveu almoçar num restaurante charmoso ali por perto, assistir a um filme leve, bater perna nas imediações e voltar radiante para o pós-operatório do marido, que lhe exigiria paciência, boa disposição física e muita dedicação. “No começo, sentia culpa. Depois, sabia que sentir-me bem era fundamental para eu poder cuidar e dar a atenção devida a ele.” Quanto sofrimento inútil poderia ser jogado fora se a gente soubesse que é possível praticar a compaixão desse jeito, com tanta leveza e harmonia...
Outras pessoas precisam se autoanalisar, ou contar com terapia, antes de resolver ajudar mais sistematicamente. Foi o que aconteceu com as 15 mulheres que participam de um site com informações sobre câncer de mama. Todas elas passaram pela doença e se conheceram num grupo virtual que tratava do assunto. Ali compartilhavam suas dúvidas, medos e esperanças. Foi quando decidiram fazer um site para ajudar mulheres como elas. Só que uma coisa era desabafar e trocar impressões entre si, como faziam no grupo virtual, outra era começar tudo de novo e ajudar objetivamente, com informação qualificada, a quem passava pelo câncer. Tiveram de reavaliar a si mesmas e sua relação com a doença e estabelecer a melhor maneira de colocar a questão mais racionalmente, ainda que com muito amor. Um duro aprendizado, mas que elas exercitam voluntariamente todos os dias.
E, sim, há várias maneiras de se preparar para exercer a compaixão, até as mais controvertidas. Na antiga série de televisão M.A.S.H., o cirurgião-chefe de um acampamento hospitalar do Exército americano usava sua rebeldia e senso de humor para manter sua sanidade em meio a carnificina geral da Guerra da Coréia. Servia-se do mercado negro local para garantir o consumo de uísque entre os médicos nos horários livres, subornava oficiais para conseguir férias para seus ajudantes mais estressados, aprovava bonés e bermudas fora do uniforme para alegria dos enfermeiros. Tudo para poder suportar o calor úmido de 40 graus de uma floresta tropical, mosquitos, doenças infecciosas e atender, com compaixão, pacientes destroçados por explosivos. Condenar, quem há de?
Os cinco tipos
Mas compaixão não é uma coisa só, um sentimento inequívoco que se apresenta de apenas uma maneira. O lama budista gaúcho Padma Samten conta como se manifestam os cinco aspectos diferentes da compaixão, relacionando-os às cinco cores (ou energias) emanadas pelos budas primordiais. “Na compaixão azul, por exemplo, olhamos para quem sofre e o acolhemos com ternura”, diz ele. “E perguntamos interiormente: ‘Quais as potencialidades e qualidades escondidas nesse ser? Como ele pode desabrochar?’ E o ajudamos a seguir essa direção”, explica.
A compaixão amarela está ligada à generosidade e à riqueza. “Então, quando vamos ajudar alguém, nós podemos não somente ouvi-lo e entendê-lo, como também podemos fazer algo a mais, dando oportunidades ou oferecendo meios materiais para que a pessoa possa sair daquela situação difícil”, afirma o lama. É uma ajuda prática, que pode envolver dinheiro, comida ou trabalho.
Na compaixão vermelha, nossa principal atitude é tentar despertar a força interior da pessoa que está passando por uma dificuldade. É dar estímulo, promover sua alegria ou até aproveitar a raiva dela para direcioná-la na construção de uma nova vida. “Às vezes não basta dar acolhimento e condições materiais, se a gente não estimula o despertar do eixo interno emocional do outro, com entusiasmo e um referencial positivo do que pode acontecer no futuro”, diz o lama.
A compaixão verde é a do grito, da bronca, do basta. “Se vemos uma criança puxando uma toalha com uma caneca de leite fervente em cima e não gritamos, ela pode se queimar gravemente. Quando gritamos ‘Não faça isso!’, nós interrompemos uma ação negativa, para bem da pessoa. Isso também é compaixão”, afirma o lama Samten. A psicóloga paulista Maria Cândida Amaral afirma que isso é muito comum entre as famílias. “A compaixão pode ser exercida com brabeza, isto é, com-paixão, com emoção. E isso não tem nada a ver com sentimentos melosos”, diz. Qualquer mãe sabe disso. Às vezes o grito tem de ser forte, a bronca tem de ser enérgica para surtir algum resultado. A mãe pode fazer isso com o coração apertado, mas sabe que tem de fazer e que, ao se omitir, cometerá uma falha na educação dos seus filhos.
A última forma de compaixão, segundo prega o budismo, é a branca. “É a culminância desse sentimento. Nela oferecemos nossa própria natureza essencial, que é luminosa, amorosa e compassiva. Porque ainda que eu acolha com ternura, ainda que propicie meios, ainda que procure despertar a coragem da pessoa e que impeça sua negatividade, se não oferecer amor, todas as outras formas de compaixão ficam quase sem sentido”, conclui o lama.
Curar, aliviar, sentir
Bom, até aqui, vimos que existem diferentes formas de exercitar a compaixão, que esse sentimento pode ser vivenciado por qualquer um e que, para ser experimentado de uma maneira mais continuada, exige equilíbrio interno e, talvez, uma preparação. O budismo, mais uma vez, oferece um método excelente para esse treino: a meditação tong-len. Nessa prática, você inspira todas as dores e sofrimentos do outro, que às vezes passa pela mesma dor que você, para expirar esperança, alívio, amor e alegria. Quando praticamos o tong-len, fazemos um trabalho intenso com o ego, pois temos uma resistência natural a inspirar o sofrimento alheio. Até chegar um momento em que isso não tem mais importância.
A gerente administrativa paulista Maria de Lurdes Assunção Ferrari, por exemplo, perdeu o filho de 21 anos num acidente de automóvel e fez a prática para se recuperar da própria dor. “Meu sofrimento era tão grande, tão imenso, e me sentia tão impotente, que minha única saída era me irmanar com quem passava por isso. Inspirava a dor de todas as mães do mundo que tinham perdido um filho naquelas condições e expirava aceitação, paz, alívio”, conta. Não era mais seu infinito sofrimento, mas o sofrimento de todas as mães que cabiam na sua dor que, por sua vez, já não conhecia limites. Aí o coração se expande de forma verdadeira. Desaparece a separação entre nós e os outros, e tudo se torna apenas uma coisa. O sofrimento passa a fazer parte de um todo, não é mais apenas individual e tão pesado. Ao fazer a prática pelas mães que perderam seus filhos, Maria de Lourdes também a realizava por si mesma, pois estava irmanada na mesma dor. A aceitação e a serenidade que desejava às outras mulheres aos poucos foi tomando conta de seu próprio coração. “A união com outras mães era tão profunda que pensava que eu não existia mais, só aquele pulsar cheio de amor, ao ritmo da respiração.”
Hoje, muitos voluntários budistas ensinam a prática do tong-len para quem se sente imerso em sua dor, ou mesmo para quem está imobilizado numa cama. É uma prática que exige um coração compassivo, tanto que há 40 anos só era praticada por monges.
Também podemos fazer o tong-len por nós mesmos. Aliás, essa é a melhor maneira de começar: inspirando todos os nossos sofrimentos e mágoas e expirando purificação, alívio e perdão. Simon Luna, um dos maiores instrutores da tradição Shambhala, ensinava que podemos aprender a curar a criança ferida que temos em nosso coração com a prática do tong-len, inspirando sua dor e expirando acolhimento, carinho, ternura num cálido abraço. Pois quem mais precisa de amor e compaixão, nos passos iniciais desse longo caminho, somos, afinal de contas, nós mesmos.
Para saber mais
Livros:
• A Alegria de Viver, Yongey Mingyur Rinpoche, Campus-Elsevier
• Bondade, Amor e Compaixão, Dalai Lama, Pensamento-Cultrix
• Comece Onde Você Está, Pema Chödron, Sextante
• Por um Fio, Drauzio Varella, Companhia das Letras
Matéria publicada na Revista Vida Simples, edição de novembro de 2007
Muito se fala dela, pouco se sabe. A compaixão pode não ser exatamente o que você pensa que é: existem várias maneiras de experimentá-la, a maioria das vezes de forma surpreendente
por Liane Alves
Quando resolveu contar histórias para crianças em hospitais como voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, o juiz desembargador Antonio Carlos Malheiros teve de superar a si mesmo. No dia escolhido para seu turno na ala de queimados de um grande hospital de São Paulo, ele colocou seu nariz de palhaço, ajeitou seu avental colorido e enfrentou a forte visão das crianças com queimaduras. Foi um grande choque. Mas em poucos minutos, porém, Malheiros já estava solto. Sabia que sua maneira de exercitar a compaixão ali era dar alegria a quem estava mergulhado no sofrimento. O que ele não podia, naquele momento, era sentir dó, piedade, “peninha”. Por isso riu, e arrancou muitos sorrisos, com as histórias que contou. Foi um verdadeiro sucesso. Quando estava quase saindo, sentiu um puxão lá embaixo no seu avental. Era um menino de uns 5 anos com o rosto quase totalmente envolto por bandagens e esparadrapos. O garoto fez um sinal para o juiz se inclinar e disse bem baixinho no seu ouvido: “Tio, pode não parecer, mas eu estou rindo...”
Aí não tem jeito, algo se desmancha no coração. Ele se torna mais tenro, mais terno. E perde sua carapaça habitual de dureza. Como não preenchê-lo de amor por aquela criança vivendo em condições tão difíceis? O sentimento da compaixão é mesmo um transbordamento amoroso. Como as lágrimas, que rolam pelos olhos por causa da emoção, ela transborda diretamente do coração, só que em direção ao mundo.
Amor e sabedoria
Compaixão é amor, sim. Mas uma espécie particular de amor, que pode ser vivenciado de diferentes maneiras. Pode ser passando por cenas como essa descrita no começo do texto. Ou exercitando a paciência, a tolerância, um estar perto em silêncio. A compaixão pode ser praticada até com socos e palavrões, como os bombeiros são obrigados a fazer quando têm de dominar pessoas em pânico para poder salvá-las. Ter compaixão é olhar para o outro e ver o que ele precisa naquele momento. Pode ser um abraço apertado, uma bronca, uma orientação, uma ajuda material. A única condição essencial é que qualquer uma dessas ações parta do coração e que corresponda ao que é preciso naquele instante. Mas compaixão, diferentemente do que nossa tradição de catolicismo lusitano pode indicar, está a léguas da pena. Quem tem pena, muitas vezes, não ama verdadeiramente.
A pergunta que se deve fazer ao sentir a compaixão nascendo dentro do peito é: “De que forma posso ajudar agora?” E a resposta depende tanto de sentimento quanto de raciocínio. “Ter compaixão significa aliar amor e sabedoria”, disse o mestre Geshe Lhakdor, um especialista em filosofia budista que esteve no Brasil. Com palavras tão simples, ele dá a chave de ouro de como se pode exercitar a compaixão. Porque é preciso sentimento, sim, mas também um certo domínio da situação e inteligência. De outra maneira, ficaríamos só chorando ao lado de quem está sofrendo. Bombeiros e salva-vidas não salvariam pessoas, enfermeiras não conseguiriam cuidar direito de seus pacientes, acompanhantes de pessoas doentes entrariam na mais profunda depressão. “Para ajudar o outro, compartilhar sua dor, é preciso estar inteiro, íntegro, e não caindo aos pedaços, emocionalmente falando”, diz a psicóloga Ana Maria Silva, que dá suporte aos contadores de histórias da Associação Viva e Deixe Viver. A entidade tem um programa rigoroso, severo na formação de seus voluntários: de 600 candidatos iniciais, podem ser aprovados apenas 60, justamente os que têm mais condições psicológicas para exercer a compaixão de forma constante e militante. Isto é, de saber avaliar o que realmente a outra pessoa precisa. Em outras palavras, é mais prudente não praticar a compaixão de maneira continuada quando ainda não foram resolvidas grandes questões internas ou, então, quando se deseja ajudar apenas para tentar suprir uma carência afetiva. “Primeiro, é necessário ajudar a si mesmo. Mais inteiro, pode-se começar a pensar em ajudar os outros de forma mais contínua e responsável”, diz.
Isso quer dizer que você vai ter de adiar para sempre esse estar próximo ao sofrimento do outro? Afinal, somos humanos, e nunca estamos totalmente resolvidos... Não, o estar bem e inteiro não pode se transformar numa desculpa ardilosa para nosso egoísmo habitual. Pontualmente, todos nós podemos estar abertos para a dor alheia. Estar ao lado de um amigo em um momento difícil, abrir a casa para um parente que precisa de apoio, participar de uma ação voluntária numa emergência, passar a noite no hospital com alguém, isso todo mundo pode fazer. Mas, para exercitar a compaixão de maneira mais continuada, precisamos, sim, estar mais preparados para poder atender a esse chamado do coração de um jeito mais preciso.
Saber como ajudar
Em seu livro Por um Fio, o médico e escritor Drauzio Varella confessa que durante muitos anos se deixou contaminar pelas reações dos doentes, sentindo-se “imobilizado” emocionalmente e incapaz de oferecer seus préstimos de médico à altura. Tudo porque não conseguia deixar de pensar no sofrimento pelo qual seus pacientes estariam passando. Com o tempo, Drauzio aprendeu a não se paralisar de angústia diante de alguém que estivesse sofrendo. Isso não ajudaria em nada o paciente.
Tem gente que sabe isso intuitivamente, sem precisar treino, como a psicóloga carioca Ana Helena Vieira, que enfrentou, durante quase um ano, um entra-e-sai de hospital por causa da doença do marido. Numa das vezes, teve de esperar por uma cirurgia que durou oito horas. Ela podia ficar roendo as unhas na sala de espera. Mas como sabia que a operação, embora demorada, não tinha grande risco, resolveu almoçar num restaurante charmoso ali por perto, assistir a um filme leve, bater perna nas imediações e voltar radiante para o pós-operatório do marido, que lhe exigiria paciência, boa disposição física e muita dedicação. “No começo, sentia culpa. Depois, sabia que sentir-me bem era fundamental para eu poder cuidar e dar a atenção devida a ele.” Quanto sofrimento inútil poderia ser jogado fora se a gente soubesse que é possível praticar a compaixão desse jeito, com tanta leveza e harmonia...
Outras pessoas precisam se autoanalisar, ou contar com terapia, antes de resolver ajudar mais sistematicamente. Foi o que aconteceu com as 15 mulheres que participam de um site com informações sobre câncer de mama. Todas elas passaram pela doença e se conheceram num grupo virtual que tratava do assunto. Ali compartilhavam suas dúvidas, medos e esperanças. Foi quando decidiram fazer um site para ajudar mulheres como elas. Só que uma coisa era desabafar e trocar impressões entre si, como faziam no grupo virtual, outra era começar tudo de novo e ajudar objetivamente, com informação qualificada, a quem passava pelo câncer. Tiveram de reavaliar a si mesmas e sua relação com a doença e estabelecer a melhor maneira de colocar a questão mais racionalmente, ainda que com muito amor. Um duro aprendizado, mas que elas exercitam voluntariamente todos os dias.
E, sim, há várias maneiras de se preparar para exercer a compaixão, até as mais controvertidas. Na antiga série de televisão M.A.S.H., o cirurgião-chefe de um acampamento hospitalar do Exército americano usava sua rebeldia e senso de humor para manter sua sanidade em meio a carnificina geral da Guerra da Coréia. Servia-se do mercado negro local para garantir o consumo de uísque entre os médicos nos horários livres, subornava oficiais para conseguir férias para seus ajudantes mais estressados, aprovava bonés e bermudas fora do uniforme para alegria dos enfermeiros. Tudo para poder suportar o calor úmido de 40 graus de uma floresta tropical, mosquitos, doenças infecciosas e atender, com compaixão, pacientes destroçados por explosivos. Condenar, quem há de?
Os cinco tipos
Mas compaixão não é uma coisa só, um sentimento inequívoco que se apresenta de apenas uma maneira. O lama budista gaúcho Padma Samten conta como se manifestam os cinco aspectos diferentes da compaixão, relacionando-os às cinco cores (ou energias) emanadas pelos budas primordiais. “Na compaixão azul, por exemplo, olhamos para quem sofre e o acolhemos com ternura”, diz ele. “E perguntamos interiormente: ‘Quais as potencialidades e qualidades escondidas nesse ser? Como ele pode desabrochar?’ E o ajudamos a seguir essa direção”, explica.
A compaixão amarela está ligada à generosidade e à riqueza. “Então, quando vamos ajudar alguém, nós podemos não somente ouvi-lo e entendê-lo, como também podemos fazer algo a mais, dando oportunidades ou oferecendo meios materiais para que a pessoa possa sair daquela situação difícil”, afirma o lama. É uma ajuda prática, que pode envolver dinheiro, comida ou trabalho.
Na compaixão vermelha, nossa principal atitude é tentar despertar a força interior da pessoa que está passando por uma dificuldade. É dar estímulo, promover sua alegria ou até aproveitar a raiva dela para direcioná-la na construção de uma nova vida. “Às vezes não basta dar acolhimento e condições materiais, se a gente não estimula o despertar do eixo interno emocional do outro, com entusiasmo e um referencial positivo do que pode acontecer no futuro”, diz o lama.
A compaixão verde é a do grito, da bronca, do basta. “Se vemos uma criança puxando uma toalha com uma caneca de leite fervente em cima e não gritamos, ela pode se queimar gravemente. Quando gritamos ‘Não faça isso!’, nós interrompemos uma ação negativa, para bem da pessoa. Isso também é compaixão”, afirma o lama Samten. A psicóloga paulista Maria Cândida Amaral afirma que isso é muito comum entre as famílias. “A compaixão pode ser exercida com brabeza, isto é, com-paixão, com emoção. E isso não tem nada a ver com sentimentos melosos”, diz. Qualquer mãe sabe disso. Às vezes o grito tem de ser forte, a bronca tem de ser enérgica para surtir algum resultado. A mãe pode fazer isso com o coração apertado, mas sabe que tem de fazer e que, ao se omitir, cometerá uma falha na educação dos seus filhos.
A última forma de compaixão, segundo prega o budismo, é a branca. “É a culminância desse sentimento. Nela oferecemos nossa própria natureza essencial, que é luminosa, amorosa e compassiva. Porque ainda que eu acolha com ternura, ainda que propicie meios, ainda que procure despertar a coragem da pessoa e que impeça sua negatividade, se não oferecer amor, todas as outras formas de compaixão ficam quase sem sentido”, conclui o lama.
Curar, aliviar, sentir
Bom, até aqui, vimos que existem diferentes formas de exercitar a compaixão, que esse sentimento pode ser vivenciado por qualquer um e que, para ser experimentado de uma maneira mais continuada, exige equilíbrio interno e, talvez, uma preparação. O budismo, mais uma vez, oferece um método excelente para esse treino: a meditação tong-len. Nessa prática, você inspira todas as dores e sofrimentos do outro, que às vezes passa pela mesma dor que você, para expirar esperança, alívio, amor e alegria. Quando praticamos o tong-len, fazemos um trabalho intenso com o ego, pois temos uma resistência natural a inspirar o sofrimento alheio. Até chegar um momento em que isso não tem mais importância.
A gerente administrativa paulista Maria de Lurdes Assunção Ferrari, por exemplo, perdeu o filho de 21 anos num acidente de automóvel e fez a prática para se recuperar da própria dor. “Meu sofrimento era tão grande, tão imenso, e me sentia tão impotente, que minha única saída era me irmanar com quem passava por isso. Inspirava a dor de todas as mães do mundo que tinham perdido um filho naquelas condições e expirava aceitação, paz, alívio”, conta. Não era mais seu infinito sofrimento, mas o sofrimento de todas as mães que cabiam na sua dor que, por sua vez, já não conhecia limites. Aí o coração se expande de forma verdadeira. Desaparece a separação entre nós e os outros, e tudo se torna apenas uma coisa. O sofrimento passa a fazer parte de um todo, não é mais apenas individual e tão pesado. Ao fazer a prática pelas mães que perderam seus filhos, Maria de Lourdes também a realizava por si mesma, pois estava irmanada na mesma dor. A aceitação e a serenidade que desejava às outras mulheres aos poucos foi tomando conta de seu próprio coração. “A união com outras mães era tão profunda que pensava que eu não existia mais, só aquele pulsar cheio de amor, ao ritmo da respiração.”
Hoje, muitos voluntários budistas ensinam a prática do tong-len para quem se sente imerso em sua dor, ou mesmo para quem está imobilizado numa cama. É uma prática que exige um coração compassivo, tanto que há 40 anos só era praticada por monges.
Também podemos fazer o tong-len por nós mesmos. Aliás, essa é a melhor maneira de começar: inspirando todos os nossos sofrimentos e mágoas e expirando purificação, alívio e perdão. Simon Luna, um dos maiores instrutores da tradição Shambhala, ensinava que podemos aprender a curar a criança ferida que temos em nosso coração com a prática do tong-len, inspirando sua dor e expirando acolhimento, carinho, ternura num cálido abraço. Pois quem mais precisa de amor e compaixão, nos passos iniciais desse longo caminho, somos, afinal de contas, nós mesmos.
Para saber mais
Livros:
• A Alegria de Viver, Yongey Mingyur Rinpoche, Campus-Elsevier
• Bondade, Amor e Compaixão, Dalai Lama, Pensamento-Cultrix
• Comece Onde Você Está, Pema Chödron, Sextante
• Por um Fio, Drauzio Varella, Companhia das Letras
Matéria publicada na Revista Vida Simples, edição de novembro de 2007
Exercício de Compaixão - Emmanuel
Se fosses o pedinte agoniado que estende a mão à bondade pública...
Se fosses a mãezinha infeliz, atormentada pelo choro dos filhinhos que desfalecem de fome...
Se fosses a criança que vagueia desprotegida à margem do lar...
Se fosses o pai de família, atribulado, ante a doença e a penúria que lhe devastam a casa...
Se fosses o enfermo desamparado, suplicando
remédio...
Se fosses a criatura caída em desvalimento, implorando compreensão...
Se fosses o absidiado, carregando inomináveis suplícios interiores, para desvencilhar-se das trevas...
Se fosses o velhinho atirado às incertezas da
rua...
Se fosses o necessitado que te roga socorro, decerto perceberias com mais segurança a função da fraternidade para sustento da vida.
Se estivéssemos no lado da dificuldade maior que a nossa, compreenderíamos, de imediato, o imperativo da caridade incessante e do auxílio mútuo.
Reflitamos nisso. E nós, que nos afeiçoamos a estudos diversos, com vistas à edificação da felicidade e ao aperfeiçoamento do mundo, façamos, quanto possível, semelhante exercício de compaixão.
Se fosses a mãezinha infeliz, atormentada pelo choro dos filhinhos que desfalecem de fome...
Se fosses a criança que vagueia desprotegida à margem do lar...
Se fosses o pai de família, atribulado, ante a doença e a penúria que lhe devastam a casa...
Se fosses o enfermo desamparado, suplicando
remédio...
Se fosses a criatura caída em desvalimento, implorando compreensão...
Se fosses o absidiado, carregando inomináveis suplícios interiores, para desvencilhar-se das trevas...
Se fosses o velhinho atirado às incertezas da
rua...
Se fosses o necessitado que te roga socorro, decerto perceberias com mais segurança a função da fraternidade para sustento da vida.
Se estivéssemos no lado da dificuldade maior que a nossa, compreenderíamos, de imediato, o imperativo da caridade incessante e do auxílio mútuo.
Reflitamos nisso. E nós, que nos afeiçoamos a estudos diversos, com vistas à edificação da felicidade e ao aperfeiçoamento do mundo, façamos, quanto possível, semelhante exercício de compaixão.
A mensagem da compaixão
A mensagem da compaixão
Dentro da noite clara, a assembleia familiar em casa de Pedro centralizara-se no exame das dificuldades no trato com as pessoas.
Como estender os valores da Boa Nova? Como instalar o mesmo dom e a mesma bênção em mentalidades diversas entre si?
Findo o longo debate fraternal, em que Jesus se mantivera em pesado silêncio, João perguntou-lhe, preocupado:
— Senhor, que fazer diante da calúnia que nos dilacera o coração?
— Tem piedade do caluniador e trabalha no bem de todos — respondeu o Celeste Mentor, sorrindo —, porque o amor desfaz as trevas do mal e o serviço destrói a ideia desrespeitosa.
— Mestre — ajuntou Tiago, filho de Zebedeu —, e como agir perante aquele que nos ataca, brutalmente?
— Um homem que se conduz pela violência — acentuou o Cristo, bondoso —, deve estar louco ou envenenado. Auxiliemo-lo a refazer-se.
— Senhor — aduziu Judas, mostrando os olhos esfogueados —, e quando o homem que nos ofende se reveste de autoridade respeitável, qual seja a dum príncipe ou dum sacerdote, com todas as aparências do ordenador consciente e normal?
— A serpente pode ocultar-se num ramo de flores e há vermes que se habituam nos frutos de bela apresentação. O homem de elevada categoria que se revele violento e cruel é enfermo, ainda assim. Compadece-te dele, porque dorme num pesadelo de escuras ilusões, do qual será constrangido a despertar, um dia. Ampara-o como puderes e marcha em teu caminho, agindo na felicidade comum.
— Mestre, e quando a nossa casa é atormentada por um crime? Como procederei diante daquele que me atraiçoa a confiança, que me desonra o nome ou me ensanguenta o lar?
— Apiada-te do delinquente de qualquer classe — elucidou Jesus — e não desejes violar a Lei que o próximo desrespeitou, porque o perseguidor e o criminoso de todas as situações carrega consigo abrasadora fogueira. Uma falta não resgata outra falta e o sangue não lava sangue. Perdoa e ajuda. O tempo está encarregado de retribuir a cada criatura, de acordo com o seu esforço.
— Mestre — atalhou Bartolomeu —, que fazer do juiz que nos condena com parcialidade?
— Tem compaixão dele e continua cooperando no bem de todos os que te cercam. Há sempre um juiz mais alto, analisando aqueles que censuram ou amaldiçoam e, além de um horizonte, outros horizontes se desdobram, mais dilatados e luminosos.
— Senhor — indagou Tadeu —, como proceder diante da mulher que amamos, quando se entrega às quedas morais?
— Jesus fitou-o com brandura, e inquiriu, por sua vez:
— Os sofrimentos íntimos que a dilaceram, dia e noite, não constituirão, por si só, aflitiva punição?
Fez-se balsâmico silêncio no círculo doméstico e, logo ao perceber que os aprendizes haviam cessado as interrogações, o Senhor concluiu:
— Se pretendemos banir os males do mundo, cultivemos o amor que se compadece no serviço que constrói para a felicidade de todos. Ninguém se engane. As horas são inflexíveis instrumentos da Lei que distribui a cada um, segundo as suas obras. Ninguém procure sanar um crime, praticando outros crimes, porque o tempo tudo transforma na Terra, operando com as labaredas do sofrimento ou com o gelo da morte.
Dentro da noite clara, a assembleia familiar em casa de Pedro centralizara-se no exame das dificuldades no trato com as pessoas.
Como estender os valores da Boa Nova? Como instalar o mesmo dom e a mesma bênção em mentalidades diversas entre si?
Findo o longo debate fraternal, em que Jesus se mantivera em pesado silêncio, João perguntou-lhe, preocupado:
— Senhor, que fazer diante da calúnia que nos dilacera o coração?
— Tem piedade do caluniador e trabalha no bem de todos — respondeu o Celeste Mentor, sorrindo —, porque o amor desfaz as trevas do mal e o serviço destrói a ideia desrespeitosa.
— Mestre — ajuntou Tiago, filho de Zebedeu —, e como agir perante aquele que nos ataca, brutalmente?
— Um homem que se conduz pela violência — acentuou o Cristo, bondoso —, deve estar louco ou envenenado. Auxiliemo-lo a refazer-se.
— Senhor — aduziu Judas, mostrando os olhos esfogueados —, e quando o homem que nos ofende se reveste de autoridade respeitável, qual seja a dum príncipe ou dum sacerdote, com todas as aparências do ordenador consciente e normal?
— A serpente pode ocultar-se num ramo de flores e há vermes que se habituam nos frutos de bela apresentação. O homem de elevada categoria que se revele violento e cruel é enfermo, ainda assim. Compadece-te dele, porque dorme num pesadelo de escuras ilusões, do qual será constrangido a despertar, um dia. Ampara-o como puderes e marcha em teu caminho, agindo na felicidade comum.
— Mestre, e quando a nossa casa é atormentada por um crime? Como procederei diante daquele que me atraiçoa a confiança, que me desonra o nome ou me ensanguenta o lar?
— Apiada-te do delinquente de qualquer classe — elucidou Jesus — e não desejes violar a Lei que o próximo desrespeitou, porque o perseguidor e o criminoso de todas as situações carrega consigo abrasadora fogueira. Uma falta não resgata outra falta e o sangue não lava sangue. Perdoa e ajuda. O tempo está encarregado de retribuir a cada criatura, de acordo com o seu esforço.
— Mestre — atalhou Bartolomeu —, que fazer do juiz que nos condena com parcialidade?
— Tem compaixão dele e continua cooperando no bem de todos os que te cercam. Há sempre um juiz mais alto, analisando aqueles que censuram ou amaldiçoam e, além de um horizonte, outros horizontes se desdobram, mais dilatados e luminosos.
— Senhor — indagou Tadeu —, como proceder diante da mulher que amamos, quando se entrega às quedas morais?
— Jesus fitou-o com brandura, e inquiriu, por sua vez:
— Os sofrimentos íntimos que a dilaceram, dia e noite, não constituirão, por si só, aflitiva punição?
Fez-se balsâmico silêncio no círculo doméstico e, logo ao perceber que os aprendizes haviam cessado as interrogações, o Senhor concluiu:
— Se pretendemos banir os males do mundo, cultivemos o amor que se compadece no serviço que constrói para a felicidade de todos. Ninguém se engane. As horas são inflexíveis instrumentos da Lei que distribui a cada um, segundo as suas obras. Ninguém procure sanar um crime, praticando outros crimes, porque o tempo tudo transforma na Terra, operando com as labaredas do sofrimento ou com o gelo da morte.
Compaixão - Momento Espírita
Hamilton é um homem simples. Trabalha como operador de escavadeira, na cidade de Salvador, Bahia.
Em certa manhã, ele recebeu uma missão difícil de realizar: deveria destruir as duas casas singelas onde Telma morava com o marido, sete filhos e mais cinco parentes.
O terreno em que Telma construíra suas casinhas, fora doado a sua mãe por um antigo patrão, mas o patrão teria vendido essa propriedade a um engenheiro.
O suposto comprador entrou na justiça com o pedido de reintegração de posse e o processo foi julgado a seu favor.
A família de Telma deveria ser despejada.
E lá foi Hamilton...
Tomou o volante da máquina e apontou para as casas, mas não conseguiu avançar.
A cena era comovente...
Sentada na calçada, com alguns dos filhos, estava Telma.
Com seu salário de merendeira, certamente não teria condições de alugar uma casa para abrigar sua família numerosa.
Com a cabeça apoiada nas mãos, Telma chorava discretamente.
Hamilton, pai de nove crianças, não resistiu e também chorou.
Desligou a máquina. Desobedecendo a ordem de um dos policiais que estava lá para garantir o despejo, ele se recusou a executar o serviço.
Endureça seu coração e cumpra a ordem, falou o policial.
O operário não se moveu. Pela desobediência, recebeu ordem de prisão.
Como era hipertenso, Hamilton passou mal e teve de ser levado ao hospital.
A história entrou nos noticiários da noite.
Hamilton teve a prisão revogada e virou herói nacional.
Duas semanas depois, a Prefeitura de Salvador anunciava que regularizaria o terreno de Telma, para que ela pudesse morar sem temer outra ação de despejo.
* * *
A compaixão é um sentimento nobre, que brota nos corações daqueles que se deixam sensibilizar pelo sofrimento dos outros.
Sem se importar somente com a parentela corporal, quem tem compaixão se coloca no lugar daqueles que sofrem, mesmo que jamais os tenha visto.
É um sentimento que, segundo Jesus, deveria animar o coração do cristão verdadeiro.
Colocar-se no lugar dos semelhantes, fazer o que gostaria que lhe fosse feito: eis um princípio de fraternidade e solidariedade verdadeiras.
Como Hamilton, o operário que virou herói nacional, existem muitos anônimos que lutam pelos direitos dos outros com disposição e coragem.
E a compaixão é muito comum onde a pobreza é mais acentuada.
Quem sofre ou já sofreu, geralmente se compadece quando percebe alguém sofrendo.
Essa empatia, no entanto, não se constitui regra, pois existem pessoas que são indiferentes ao sofrimento alheio, ainda que conheçam de perto o que é sofrer.
Jesus, o Mestre, ergueu bem alto essa bandeira, recomendando que façamos ao próximo o que gostaríamos que o próximo nos fizesse.
E quem não gostaria de receber do próximo sentimentos de compaixão e indulgência?
Bem, a receita está aí. E a Humanidade já a conhece há, pelo menos, dois milênios.
É simples e não precisa ter dinheiro nem poder para exercê-la. Basta ter um coração piedoso, como o de Hamilton.
* * *
A piedade fraternal, que é o amor em começo, filha dileta da caridade excelsa, logo descobre como coparticipar de todo esse triste festival de angústias no cenário desolador das dores humanas.
Redação do Momento Espírita,
com base em matéria publicada no Almanaque Brasil de
Cultura Popular, nº 55, de outubro de 2003 e no verbete Piedade, do
livro Repositório de sabedoria, v. II, ed. Leal.
Em 6.8.2012.
Em certa manhã, ele recebeu uma missão difícil de realizar: deveria destruir as duas casas singelas onde Telma morava com o marido, sete filhos e mais cinco parentes.
O terreno em que Telma construíra suas casinhas, fora doado a sua mãe por um antigo patrão, mas o patrão teria vendido essa propriedade a um engenheiro.
O suposto comprador entrou na justiça com o pedido de reintegração de posse e o processo foi julgado a seu favor.
A família de Telma deveria ser despejada.
E lá foi Hamilton...
Tomou o volante da máquina e apontou para as casas, mas não conseguiu avançar.
A cena era comovente...
Sentada na calçada, com alguns dos filhos, estava Telma.
Com seu salário de merendeira, certamente não teria condições de alugar uma casa para abrigar sua família numerosa.
Com a cabeça apoiada nas mãos, Telma chorava discretamente.
Hamilton, pai de nove crianças, não resistiu e também chorou.
Desligou a máquina. Desobedecendo a ordem de um dos policiais que estava lá para garantir o despejo, ele se recusou a executar o serviço.
Endureça seu coração e cumpra a ordem, falou o policial.
O operário não se moveu. Pela desobediência, recebeu ordem de prisão.
Como era hipertenso, Hamilton passou mal e teve de ser levado ao hospital.
A história entrou nos noticiários da noite.
Hamilton teve a prisão revogada e virou herói nacional.
Duas semanas depois, a Prefeitura de Salvador anunciava que regularizaria o terreno de Telma, para que ela pudesse morar sem temer outra ação de despejo.
* * *
A compaixão é um sentimento nobre, que brota nos corações daqueles que se deixam sensibilizar pelo sofrimento dos outros.
Sem se importar somente com a parentela corporal, quem tem compaixão se coloca no lugar daqueles que sofrem, mesmo que jamais os tenha visto.
É um sentimento que, segundo Jesus, deveria animar o coração do cristão verdadeiro.
Colocar-se no lugar dos semelhantes, fazer o que gostaria que lhe fosse feito: eis um princípio de fraternidade e solidariedade verdadeiras.
Como Hamilton, o operário que virou herói nacional, existem muitos anônimos que lutam pelos direitos dos outros com disposição e coragem.
E a compaixão é muito comum onde a pobreza é mais acentuada.
Quem sofre ou já sofreu, geralmente se compadece quando percebe alguém sofrendo.
Essa empatia, no entanto, não se constitui regra, pois existem pessoas que são indiferentes ao sofrimento alheio, ainda que conheçam de perto o que é sofrer.
Jesus, o Mestre, ergueu bem alto essa bandeira, recomendando que façamos ao próximo o que gostaríamos que o próximo nos fizesse.
E quem não gostaria de receber do próximo sentimentos de compaixão e indulgência?
Bem, a receita está aí. E a Humanidade já a conhece há, pelo menos, dois milênios.
É simples e não precisa ter dinheiro nem poder para exercê-la. Basta ter um coração piedoso, como o de Hamilton.
* * *
A piedade fraternal, que é o amor em começo, filha dileta da caridade excelsa, logo descobre como coparticipar de todo esse triste festival de angústias no cenário desolador das dores humanas.
Redação do Momento Espírita,
com base em matéria publicada no Almanaque Brasil de
Cultura Popular, nº 55, de outubro de 2003 e no verbete Piedade, do
livro Repositório de sabedoria, v. II, ed. Leal.
Em 6.8.2012.
Aulas de Compaixão
E o mentor, finalizando a aula valiosa, falou com simplicidade:
– Para auxiliar com segurança nas trilhas humanas, é necessário que a compaixão se nos faça base em qualquer atitude.
Nenhuma exasperação conduz à beneficência.
Qualquer apontamento destrutivo é agente perturbador no campo das boas obras.
Entreguemo-nos à sementeira do amor, sem aguardar qualquer tributo de gratidão.
Os espíritos reencarnados trazem por si pesada carga de tribulações, para que nos seja lícito atormentá-los com admoestações e censuras.
Quase sempre, todos eles sofrem e choram…
Esse apresenta alto nível de vigor, no entanto, carrega as desvantagens da precipitação; aquele atingiu a segurança econômica, mas transporta enfermidade oculta a frenar-lhe os movimentos; outro acumulou enorme fortuna, contudo, lastima o desequilíbrio dos descendentes; outros muitos que ontem se mostravam despreocupados, hoje lamentam a perda de criaturas inesquecíveis; esse conquistou a fama, entretanto, se vê relegado à solidão; aquele que obteve influência e poder sobre milhares de pessoas, todavia, precisa apoiar-se em algum coração amigo, a fim de não cair sob o peso das próprias obrigações; outro é sábio, mas necessita escorar-se em alguém, de modo a não sucumbir ante as exigências da vida comunitária; e outros muitos se destacam em campeonatos de beleza e inteligência, no entanto, acalentam consigo os impulsos negativos que os aproximam da doença e da morte.
Misericórdia para todos é o que nos pede o Senhor da vida.
O instrutor dera por terminada as elucidações, mas um companheiro abeirou-se dele e perguntou:
– Professor, existirá, porventura, algum processo pelo qual possamos instalar facilmente a compaixão por dentro de nós?
O interpelado sorriu com bondade e rematou:
– Amigo, a compaixão é fruto do discernimento. Quantos de nós, que nos achamos neste recinto, já atravessamos as estradas humanas, e, por isso, conhecemos quanto custa trabalhar pelo bem nos constrangimentos e dificuldades do plano físico. Em razão disso, recordemos a lição de Jesus: aquele de nós que houver passado pelo caminho dos homens, com a grandeza dos anjos, atire a primeira pedra.
Autor: Meimei
Psicografia de Chico Xavier. Do livro: Deus Aguarda
O QUE É COMPAIXÃO?
O QUE É COMPAIXÃO?
Quanto mais compaixão tivermos pelos outros, mais nossa visão de mundo se expandirá. Toda criatura digna tem como característica comum a compaixão.
A compaixão não considera as vestes físicas. Encoraja homens e mulheres, adultos e crianças, europeus e asiáticos, a descobrir sua essência real, a reencontrar suas necessidades naturais e a expressar sua unicidade como seres humanos. A partir daí, todos se favorecem, não apenas por terem maior liberdade de agir e pensar, mas também por terem autonomia de modificar suas vidas, modificando sua mentalidade.
A compaixão e a sensibilidade são partes do amor cristão e ferramentas eficazes para entrarmos em contato com o que os outros sentem e escutá-los com atenção silenciosa. Só podemos expressar autêntica compaixão se utilizarmos uma atmosfera de aceitação e respeito pelas dificuldades alheias. Dessa maneira podemos penetrar e tocar o Espírito de outra pessoa.
Quanto mais compaixão tivermos pelos outros, mais nossa visão de mundo se expandirá. Toda criatura digna tem como característica comum a compaixão.
“(…) Que os antigos tenham visto no Senhor do Universo um deus terrível, ciumento e vingativo, isso se concebe; na sua ignorância, emprestaram à divindade as paixões dos homens. Mas não está aí o Deus dos cristãos que coloca o amor, a caridade, a misericórdia, o esquecimento das ofensas no lugar das primeiras virtudes: poderia ele próprio faltar às qualidades das quais faz um dever? Não há contradição em atribuir-lhe a bondade infinita e a vingança infinita? Dizeis que antes de tudo ele é justo, e que o homem não compreende sua justiça, mas justiça não exclui a bondade, e ele não seria bom se consagrasse penas horríveis, perpétuas, à maior parte das suas criaturas (…)”.
Alguns dicionários oferecem as palavras pena e dó como vocábulos de significação semelhante ao termo compaixão. No entanto, há diferença considerável entre elas. A base do aspecto conceitual da pena e do dó tem profunda ligação com uma restrita forma de ver, ou seja, o sentimento do indivíduo estaria confinado a uma linha horizontal, enquanto a compaixão estaria vinculada a uma atuação vertical.
Se nos expressamos utilizando essa alegoria de linhas geométricas, é para bem elucidar os limites em que todos nós estamos circunscritos, em se tratando do campo do sentimento e da emoção.
Ter dó aprende-se socialmente; quando temos dó ou pena de alguém é porque acreditamos que essa criatura é impotente e inferior e que, sem a nossa ajuda, não será capaz de resolver sua problemática existencial. Em outras palavras, subentende-se: “sinto-me mais poderoso, importante, eficiente e superior em relação a ela”.
Por outro lado, o sentimento de compaixão provém das profundezas da alma, envolve o sofredor em um clima de generosidade, utilizando como forma de ajuda a solidariedade. Na atitude compassiva, a criatura vê o necessitado de igual para igual, sem nenhuma distinção, e percebe que ele precisa de uma mão amiga naquele momento circunstancial e aflitivo de sua vida.
Ter compaixão é lembrar que a dor do outro poderia ser sua. É reconhecer o sofrimento do próximo e ajudá-lo a superar o momento difícil. A compaixão está intimamente ligada à ação.
O grande “pecado” que ocorre nos dias atuais entre os povos e raças e, da mesma forma, em todas as áreas dos relacionamentos humanos é a indiferença e a insensibilidade com a condição aflitiva dos seres humanos.
A insensibilidade é a mais vil transgressão das leis naturais, porque ela corrói e destrói o modo solidário de ser e viver, não só em família, mas também em sociedade.
A alegoria evangélica que o Mestre Jesus fez das sementes que caíram ao longo do caminho, entre os espinhos e sobre pedregulhos, nos faz recordar os relacionamentos que não germinam sufocados pela frieza e pela superficialidade que frequentemente existem entre os seres humanos. Um olhar atencioso e um abraço carinhoso curam mais do que inúmeras caixas de remédios – o amor expressado dissipa toda e qualquer enfermidade.
Através dos olhos da alma podemos identificar com maior nitidez as aflições e dores escondidas nos outros e, dessa forma, reconfortá-los ou acalentá-los com os braços da compaixão.
Fonte: extraído do livro “Os prazeres da alma”, de Francisco do Espírito Santo Neto, ditado por Hammed – Editora Boa Nova.
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