Estudando o Espiritismo

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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Alteridade - Links

http://www.caminhosluz.com.br/detalhe.asp?txt=2254

https://www.youtube.com/watch?v=zxS9EHwAK0k


O aporte da alteridade como valor e referência

http://www.expedienteonline.com.br/o-aporte-da-alteridade-como-valor-e-referencia/

Livro Alteridade, a diferença que soma

ALTERIDADE, a diferença que soma, é uma obra escrita por jornalistas, profissionais da área de comunicação e integrantes da ABRADE - Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo, a qual nos leva a refletir e debater acerca da necessidade de relacionarmos com a diversidade de pessoas e idéias, que faz parte do cotidiano de todos nós.
É um renovado parâmetro relacional que exigirá certo esforço de quem o adota, pois uma atitude alteritária não importa aceitar tudo sem senso crítico, mas a possibilidade de discordar sem confrontar ou inviabilizar o diálogo.
É com essa proposta o lançamento deste livro: colaborar para a melhoria das relações humanas, somando seus esforços aos de outras organizações da sociedade civil que acreditam num mundo mais humano, fraterno e tolerante.

AMOR E ALTERIDADE


Ermance Dufaux
 
"As reuniões Espíritas oferecem grandíssimas vantagens, por permitirem que os que nelas tomam parte se esclareçam, mediante a permuta das idéias, pelas questões e observações que se façam, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos os frutos desejáveis, requerem condições especiais, que vamos examinar, porquanto erraria quem as comparasse às reuniões ordinárias."
O Livro dos Médiuns - cap. XXIX - item 324

O episódio cristão da traição de Judas encerra infindáveis leituras e lições às nossas considerações.
Jesus sabia que o fato ocorreria, mas nem por isso tomou uma atitude excludente. Mesmo sabendo da diferente postura do apóstolo, manteve-se firme nos ideais de amá-lo incondicionalmente na sua peculiar diferença.

Isso é alteridade: o estabelecimento de uma relação de paz com os diferentes, a capacidade de conviver bem com a diferença da qual o "outro" é portador.

A ética da alteridade consiste basicamente em saber lidar com o "outro", entendido aqui não apenas como o próximo ou outra pessoa, mas, além disso, como o diferente, o oposto, o distinto, o incomum ao mundo dos nossos sentidos pessoais, o desigual, que na sua realidade deve ser respeitado como é e como está, sem indiferença ou descaso, repulsa ou exclusão, em razão de suas particularidades.

Alteridade, portanto, torna-se aprendizado urgente para o futuro de nosso Movimento Social Espírita, considerando o lamentável processo de exclusão que vem ocorrendo na surdina das fileiras de serviço cristão e espírita, em função de uma homogeneidade utópica.

Conviver com os contrários e aprender a amá-los na sua diversidade constitui desafio ético aos grupamentos espiritistas no campo da alteridade, mesmo porque o mastro da nova revelação cristã preconiza a fraternidade como postura de base para relações pacíficas e mantenedoras do idealismo superior, em direção às clareiras de necessidades do homem do terceiro milênio.

A inclusão, em nome do Amor, é ação moral para nossa convivência, sem o que não faremos a dolorosa e imprescindível cirurgia de extirpação da egolatria, tão comum a todos nós - almas com pequenas aquisições nos valores essenciais da espiritualização.

Diferenças não são defeitos ou álibis para que decretemos o sectarismo e a indiferença, somente porque não compreendemos o papel dos diferentes na engrenagem da vida, executando uma "missão específica" que, quase sempre, só conseguiremos entender quando, decididamente, vencermos as etapas do processo de construção da alteridade.

Sem deixar de considerar as inúmeras variações que resultam das peculiaridades individuais, apresentemos algumas dessas etapas na caracterização do processo alteritário, tais como:

CONHECER A DIFERENÇA - é a fase de acolhimento do "outro", despindo-se de preconceitos e "estereótipos éticos" pré-formulados, guardando abertura de afeto ao diferente e à sua diferença.

COMPREENDER A DIFERENÇA - criação de avaliações parciais, não definitivas, que favoreçam a análise desse "outro", buscando entender-lhe as razões, estudar-lhe os motivos até penetrarmos na essência de seu "ser", compreendendo-o pela apreensão do "sentido" que ele tem para Deus, seu papel cooperativo no universo.

APRENDER COM A DIFERENÇA - é uma fase que une e permite acessibilidade mútua, receptividade aos sentidos do "outro"; propicia uma relação de aprendizado e o elastecimento de noções sobre como a diversidade do outro pode nos ensinar algo, buscando, se possível, aprender a amá-lo na sua particularidade.

Fácil concluir, portanto, que alteridade pode estar presente nos atos de solidariedade, empatia e respeito nas relações em sociedade, sem que, necessariamente, o Amor legítimo esteja na base de tais atitudes. Por outro lado o Amor é sempre rico de alteridade e não existe sem ela.

A faina doutrinária conduz-nos a contínuos relacionamentos com companheiros de entendimentos diversos e, inclusive, oponentes como ocorre na vida social, embora não devam as reuniões espíritas tornaremse assembléias ordinárias, aderindo a relações de insana competição ou de cruel indiferença.

O processo de alteridade será valioso nas interações entre companheiros de ideal e ocasionará, parafraseando o Codificador, "grandíssimas vantagens".

Investir no entendimento de semelhante questão auxiliar-nos-á a estabelecer uma autosondagem frente aos testemunhos da vida relacional, investigando em nós mesmos, a partir dos atritos e desencontros com o "outro", as causas reais dos sentimentos que se assomaram no caleidoscópio do mundo emocional, efetuando uma viagem segura a um "outro diferente", ainda não dominado e também desconhecido que reside em nossa intimidade.

Esse "outro diferente" é o "eu Divino" que resgataremos no aprendizado do auto-Amor, possibilitando-nos, a partir dessa conquista, excursionarmos ao mundo alheio, sem tisnar com as sombras do primarismo moral os elos de Amor que devemos entreter com todos e com tudo, em favor do soerguimento de um mundo melhor e com mais paz, uns perante os outros.

Não olvidemos, portanto, laborar por mais sólida preparação ética em nossos conjuntos doutrinários, tratando das temáticas que versem sobre a edificação de relacionamentos consistentes, com alteridade, estudando o significado de compreender e aceitar, reflexionando com demora no que seja saber criticar e discordar sem inimizade, sem oposição sistemática e dissidência declarada, sabendo discordar sem amar menos, apesar de pensar diversamente.

Mesmo que nos agastemos inicialmente pela ausência do hábito de conviver harmoniosamente com conflitos e tribulações da vida interpessoal, anelemos por novos comportamentos repletos de Amor e alteridade, aprendendo a maleabilidade, o altruísmo, a assertividade, o domínio emocional e os imperativos de vigilância sobre os impulsos menos bons, que serão promissoras sendas na conquista da ética da alteridade.

Evidentemente, não fazemos apologia ao convívio no círculo estreito de desafetos, em climas adversos; privilegiemos os afins como quesito fundamental ao bom andamento dos compromissos assumidos, aprendendo que afinidades são "lembretes" de Deus, a fim de não esquecermos o desejo de amar, e estímulos para a alegria da amizade.

Contudo, não desconsideremos que o aprendizado do Amor autêntico, a sedimentação da conduta amorosa é arregimentada na "fusão" relacional com os menos afins, os que não nos atraem, com os quais superaremos, paulatinamente, pesada fortaleza de entraves emocionais, libertando-nos para vôos mais amplos pelos céus universais pulsantes de Amor Divino, na vitória sobre o egoísmo que ainda nos aprisiona.

* * * * *
Amigo dirigente,

A responsabilidade que te cabe junto aos ofícios doutrinários é de inestimável valor.

Difundir esperança, promoção humana, delegação de responsabilidades e estímulo para viver são alguns dos inúmeros deveres a ti confiados, quando assumes os postos da direção espírita.

Pensa e medita em teus desafios.

Estás no cargo que te "onerará" com graves ocorrências na medida das tuas necessidades de aprendizado.

Não fujas da ocasião e faze o melhor que puderes. Nos terrenos do afeto com aqueles que te rodeiam, vigia tuas manifestações de carinho e atenção avaliando os efeitos de tuas ações, continuadamente.

Alteridade para ti será o desafio de aceitares cada pessoa em tua experiência evolutiva, auxiliando-a a crescer e se libertar.

Se guardares contigo os preconceitos e estereótipos, ainda que manifestes afeto e reconhecimento aos que te rodeiam, certamente obliterarás o ciclo espontâneo das relações que devem vigorar em teus ambientes de esforço.

As pessoas à tua volta nem sempre saberão traduzir a linguagem universal dos sentimentos que as envolvem, perceberão, porém, o "hiato", a reserva com que são tratadas...

Afeto para ser Divino precisa ser espontâneo, autêntico, natural.

Se guardas dificuldades em entender esse ou aquele companheiro, se não admites determinadas expressões comportamentais que diferenciam de tua formação doutrinária, se não compreendes determinadas idéias que a ti parecem desconexas da proposta espírita, tenha muito discernimento para que não te aprisiones aos grilhões do personalismo que subtrai-te a alteridade, a capacidade de entendimento com o outro.

Os dirigentes espíritas conscientes na atualidade precisarão de muita alteridade para cumprir sua missão a contento.

Razão pela qual, mais que nunca, aprendas o que seja promover e delegar, a fim de permitires aos que te cruzam as vivências encontrarem o quanto antes, com o preparo elementar, os caminhos adequados de crescimento que nem sempre serão ao teu lado.

Liberta-te da idéia de uniformidade e ajuda cada qual a descobrir o seu caminho para Deus, sem jamais esquecer que cada criatura tem o seu Roteiro Divino.

Este texto faz parte da obra Laços de Afeto, de autoria de Wanderley Soares de Oliveira, pelo espírito Ermance Dufaux, publicada Editora INEDE.
O autor e a editora, autorizam a reprodução e distribuição gratuita deste texto, sem no entanto poder haver qualquer alteração de seu conteúdo e que sempre seja mencionada a sua origem.

ESPIRITISMO E ÉTICA DA ALTERIDADE


Sergio F. Aleixo
Frei Betto pergunta e responde: “O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença”.[1] Assim, esta nova ética filosofal quer estabelecer uma relação de entendimento e paz entre os que considera essencialmente diferentes, afinal, para um dos maiores teóricos do assunto: “O absolutamente outro é outrem; não faz número comigo”.[2] Sem discutir a real possibilidade de uma tão abismal distinção entre os filhos de um mesmo Deus, o fato é que tem sido essa a ambiência teórica que há fomentado a ânsia pelo pluralismo filosófico e doutrinário em nossas fileiras de uns tempos para cá, um espiritismo em que Kardec não seja senão mais uma das “correntes” do pensamento espírita.
O instrumento de que se servem esses irmãos mais irrequietos é justamente um discurso em que se postam como paladinos da nova ética da alteridade; tudo, é claro, para progredirem sem óbices no movimento espírita, fazendo os adeptos menos avisados crerem que não seria boa conduta opor-lhes resistência ou às suas ideias. Grosso modo, a filosofal ética alteritária não é exatamente uma novidade para o espiritismo. Pode-se dizer que é a via de luz em que, desde sempre, tem encontrado sua identidade de fé raciocinada, e não essa viela escura de novidadismos confusos em que, num minuto insano, logo a perderia.
Ninguém respeitou mais as diferenças e apreendeu o outro em sua plenitude e dignidade do que o professor Kardec. O controle universal que criou o obrigava a levar muito a sério até o que entidades de pouca elevação tinham a dizer sobre a vida espiritual. Para ele, os espíritos foram, “do menor ao maior”, meios de se informar, não reveladores predestinados.[3] Aos detratores, mesmo aos mais encarniçados, respondia serena, mas altivamente:
“O espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para os seus adeptos, do mesmo modo que para toda a gente. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão da reciprocidade”.[4]
Todavia, o que saberiam realmente da filosofal ética da alteridade os que, desde a morte do mestre lionês até hoje, asseveram que Kardec está ultrapassado e oferecem aos espíritas, como solução ao suposto problema, as obras que eles próprios adotaram de outrem, escreveram por si ou receberam de espíritos? Isso não é um desrespeito à diferença? Não é uma imposição? Mais ainda: se insistem em se dizerem espíritas, negando, contudo, a validade da obra de Kardec para os dias de hoje, não se trata, pois, de uma usurpação? A verdade é que não pode haver nenhuma ética da alteridade nisso, a menos que a reciprocidade seja aí algo de somenos. Se agissem conforme a nova ética filosofal, reconheceriam ser o pensamento espírita algo “diferente” do que concebem nas suas ações de franca censura a Kardec; definitivamente, um "outro" que não é "outrem" e, afinal, bem diverso, que merece, portanto, o respeito de existir da forma mais limitada e atrasada que assim a julguem.
Mas não. Os senhores da nova ética da alteridade, paladinos do pluralismo filosófico e doutrinário dentro das fileiras espíritas, estão sempre dispostos a se proclamarem adeptos do espiritismo, embora defendam contraditórios ao pensamento kardeciano, tais como: 1) a reencarnação é castigo a espíritos falidos noutra dimensão (rustenismo); 2) incensos e defumadores são válidos, pois representam detonadores de miasmas astralinos (ramatisismo); 3) a atual filosofia espírita é limitada por não nos esclarecer as primeiras origens do universo e o plano geral da criação, faltando-lhe, assim, visão completa do todo (ubaldismo); 4) o espiritismo é uma doutrina laica, neutra quanto ao pensamento religioso e, desse modo, não cristã (laicismo pan-americano); 5) espiritismo é toda forma de interpretação que possibilite ao homem a sua espiritualização, razão pela qual, nos centros e associações espíritas, deve imperar o regime do mais livre pluralismo de concepções acerca dos postulados da doutrina (Atitude de Amor), etc., etc.
Não é soberbo que campeões da filosofal ética alteritária defendam o respeito às diferenças e, para o caso particular da diferença que caracteriza o espiritismo em si, trabalhem por diluí-la, tendo por fim transformá-lo no produto nada alteritário de suas próprias concepções, a título de "atualização", de "contribuição" a sua sobrevivência? Não é singular que, de um lado, combatam as ações doutrinantes da velha postura colonial e, de outro, não hesitem, a seu modo, em reproduzi-las contra a identidade kardeciana do espiritismo, cuja diferença deveria ser apreendida por eles na inviolável plenitude de sua dignidade? Onde então a ética da alteridade? Querem-na por obrigação alheia, mas não a impõem a si mesmos neste caso.

[1] Alteridade. In: Agencia Latinoamericana de información. http://alainet.org/active/3710〈=es
[2] LÉVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 26.
[3] Obras Póstumas. Minha primeira iniciação no espiritismo.
[4] Obras Póstumas. Ligeira resposta aos detratores do espiritismo.
Fonte: ENSAIOS DA HORA EXTREMA

OS ESPÍRITAS E A ALTERIDADE

Jurandy Castro

Embora pouco conhecido, o vocabulário “alteridade” tem sido bastante empregado pelos trabalhadores da Espiritualidade, em suas mensagens e orientações aos encarnados, em especial, aqueles que se reuniram em torno de uma proposta visando de modo mais concreto, ao despertar e à conscientização das lideranças espíritas, para um melhor posicionamento do quadro preocupante de distanciamento do Movimento Espírita, e dos valores simples e profundos que caracterizaram o Cristianismo Primitivo. A terceira edição atualizada do dicionário Aurélio, define a palavra “alteridade” como sendo o “estado de qualidade de que é outro, distinto, diferente”. Consiste no estabelecimento de uma relação de paz com os diferentes; a arte de conviver bem com a diferença do qual o próximo é portador”.

No Congresso Espírita Brasileiro que aconteceu em outubro de 1999, foi dado destaque ao Movimento Espírita que teve seu marco inicial nos compromissos de unificação estabelecidos no Pacto Áureo de 1949. Foi verificado na visão dos trabalhadores da Espiritualidade que o movimento de unificação edificou relevantes conquistas no curso dos últimos 50 anos. O mencionado congresso reuniu as lideranças do Movimento Espírita nacional, real e sinceramente comprometidas com os ideais da Codificação, muito embora a diversidade das percepções individuais, das diferenças regionais e culturais que pudessem criar controvérsias ocasionais, se constituíram no grande mérito do conclave por ter germinado ali “o embrião das novas e saudáveis construções do futuro, no campo da unificação”. Entretanto, os companheiros da espiritualidade chamam a atenção para uma série de ocorrências, por eles testemunhadas nos interregnos da comemoração, que deixou evidente o quanto ainda temos de trabalhar para conquistarmos posturas mais evangélicas e vigilantes, a fim de nos relacionarmos com o devido respeito diante da multiplicidade das opiniões. Ditas ocorrências se constituíram em “comentários, indisposições vibratória na convivência, mágoas, discursos vaidosos, lisonjas e dissimulações próprias das pessoas invigilantes...” Note-se que no congresso estavam reunidas as lideranças do Movimento Espírita nacional... Assim também, essas ocorrências lamentáveis são rotineiras no dia a dia das nossas Casas Espíritas.

Por que, em detrimento do conhecimento adquirido, ainda nutrimos sentimentos e manifestações tão destrutivas e desagregadoras? - Poderíamos dizer que o Movimento Espírita carece de Alteridade. Analisando o problema com o apoio das obras espíritas verificamos que o Movimento Espírita padece de duas mazelas, comuns a todos nós, que precisam ser combatidas, que são: o orgulho e o personalismo com a ausência de afeto. A propósito do orgulho, Maria Modesto, trabalhadora da Espiritualidade, costuma dizer que “os espíritas estão muito orgulhosos da humildade que imaginam possuir”.

Aqueles que buscam auxílio na Casa Espírita são, em geral, assistidos, orientados amparados, consolados. Embora meritória essas práticas, cumpre nos interrogarmos com severidade: qual o sentimento que nos impulsiona nessas ações? A compaixão que nos permite sentir o sofrimento do outro e nos impele a abraçar a sua causa, ou adotamos a postura daquele que já detém algum conhecimento e orienta e ajuda sem descer do seu nível ”superior”? – Se a segunda premissa foi o móvel das nossas ações, aí está o orgulho! – Nas palestras, cursos e exposições que fazemos como nos situamos diante dos eventuais elogios e manifestações agradecidas? Se a vaidade se apresenta, lá está o orgulho que precisa ser trabalhado no íntimo para ser extinto. Até mesmo quando nos rotulamos de tímidos, e deixamos de atuar e participar, a fim de não ficarmos em evidência, revelamos mais uma faceta do nosso orgulho; aquela que não deixa que nos exponhamos devido ao medo de sermos criticados. . .

O personalismo, igualmente, está presente toda vez que, inadvertidamente, adotamos atitude de intransigência e intolerância; quando nos colocamos como donos da verdade ou simplesmente desmerecemos a opinião ou as idéias de outras pessoas que, para o personalista, é visto como um concorrente. O indivíduo tem, então, visível dificuldade de trabalhar em equipe; não permite a troca de experiências com o outro; tem dificuldade de cultivar amizades sinceras, assim como não sabe ser solidário e companheiro. O orgulho e o personalismo bloqueiam sua capacidade afetiva. Essas duas mazelas – o orgulho e o personalismo – criam uma série de bloqueios capaz de enclausurar o ser e dificultar o relacionamento com os seus semelhantes.

Em trabalho de pesquisa e análise sobre o tema, Cairbar Schutel, na Espiritualidade, mostra com clareza que a trajetória da maioria daqueles que hoje trabalham nas frentes espíritas, está indelevelmente marcada por reencarnações sucessivas, no curso dos últimos 20 séculos, nas diversas religiões comprometidas com a mensagem do Evangelho, falhando, também sucessivamente, em decorrência do orgulho e do personalismo ao longo de tantas lutas. Prosseguindo, afirma ele: “segundo as conclusões de sábios psicólogos celestes, o maior obstáculo íntimo, para almas com esse perfil, seria a indisposição para o contato comunitário, o que levou a incitar o serviço de unificação, como medida apropriada para que a lição da convivência, em comunidade, pudessem ser aprendida e desenvolvida, considerando outros compromissos maiores no futuro”.

Em alguns aspectos, a ética da alteridade vem deixando a desejar e poderá, inclusive, resvalar por atalhos como acontece com a decantada “reforma íntima”, que acaba sendo uma prescrição para os outros e não para nós mesmos, ou então, acaba transformando-se em uma tentativa “obsessiva” de melhora, a qual, por ausência de preparo e de condições morais, não atinge os patamares que nós mesmos estimamos. O grande desafio da alteridade está na convivência dos diversos movimentos, entidades, instituições e correntes de igual teor, pois pelo exercício do livre-arbítrio, desenvolvem-se teorias e fundamentos, idéias e opiniões nem sempre homogêneas ou similares. Assim, o que importa, em essência, é a aceitação de determinados princípios básicos espíritas e, a partir daí, o que cada pessoa ou grupo faz com tal conhecimento, passa a ser de inteira responsabilidade do mesmo, sem a necessária concordância absoluta em todos os pontos.

Na Doutrina dos Espíritos, não há hierarquia e isto importa como conseqüência que “qualquer pessoa pode considerar-se espírita pela aceitação de sua filosofia e, principalmente, por sua prática de amor em relação ao seu semelhante”. Então, se estamos concordes quanto à existência de Deus, a imortalidade do Espírito, a pluralidade das existências sucessivas e dos mundos habitados, todos nós somos espíritas, ou não? É preciso algo mais para que sejamos considerados assim?

Ser alteritário não é “fechar os olhos” para o que acontece ao nosso redor, nem baixar a cabeça para desmandos e arbitrariedade, nem aceitar a violência, principalmente a coação moral, a ameaça e a dissimulação. Desse modo, sempre que nos sintamos agredidos ou que presenciemos a violência, é nosso dever denunciá-la e manifestar nosso descontentamento público. Isto não importará em “quebra de respeito” ou em atitude “anti-fraternal”, nem tampouco em redução no nível “vibratório”. Todos nós temos defeitos e isto não deve impedir de apontar aquilo que nos pareça negativo em relação à ordem espiritual, aquela que estabelece a igualdade plena em direitos e deveres perante o Criador. Se temos “telhado de vidro”, e o temos de verdade, não importa o que os outros possam dizer de nós, de nossas atitudes, de nossas atividades. Será até bem salutar que alguém possa apontar nossos equívocos e comprometimentos, para que possamos refletir recompor e prosseguir. A alteridade representa, pois, a relação pacífica e respeitosa em relação ao próximo, no respeito às diferenças, em termos de idéias, entendendo que o outro é diferente de nós e exerce o seu direito de “ser diferente”.

Assumir responsabilidades tem sido motivo de afastamento de muitas pessoas das lides religiosas, principalmente na seara espírita, não só para não se expor como também por ser caracterizado como um trabalho voluntário, onde todos indistintamente, sentem-se chamados a uma participação ativa. O voluntário, por muito tempo, foi visto como um “turista”, que agia sem regularidade ou assiduidade; que estaria fazendo um favor ao vir dar uma “mãozinha” e que voltava às suas atividades habituais, certo de que havia desempenhado sua cota de “caridade”.

A Doutrina Espírita reformulou esses conceitos quando nos chama a uma participação responsável, a uma conduta operante e a uma assiduidade que tornará a tarefa passível de ser realizada com êxito. O estar no mundo se traduz por uma responsabilidade pessoal, familiar e social; mas o Espiritismo nos convida ainda a uma participação ativa na Casa Espírita, onde podemos estudar trabalhar e assumir tarefas, observando o fim útil de estarmos visando ao nosso retorno à pátria espiritual, em melhores condições íntimas do que quando aqui chegamos. O trabalhador da Casa Espírita precisa estar consciente de que sua participação nas atividades da Casa não será uma realização apenas em proveito do outro, mas principalmente em seu próprio benefício. Nela começa o seu aprendizado de
doação, humildade, troca de idéias, renúncia, qualificação e evolução; que pode encaminhar os tarefeiros às atividades mais específicas e até aos cargos de dirigentes da própria Casa que freqüenta. O dirigente de uma Casa Espírita é sempre visto como aquele que tem a responsabilidade maior, e que por isso, tem que assumir todas as falhas e cobrir a irresponsabilidade de possíveis dirigentes e tarefeiros da Casa. Isso assusta e afasta outras pessoas de compartilhar do trabalho e de se preparar e substituir o dirigente. O movimento espírita ouve e repete com freqüência: São poucos os tarefeiros e a Seara é muito grande. – O servidor que amadurece moral e espiritualmente, vai percebendo que é exatamente nos momentos mais difíceis que ele precisa do labor, da auto-superação, que as escapatórias ou fugas só multiplicarão as amarguras e adiarão os compromissos e as genuínas soluções. Lutas, dissabores, cansaço, desânimo não podem impedir o tarefeiro ou o dirigente ou torná-lo vacilante perante a tarefa abraçada. Disciplina, abnegação, fé, boa-vontade, instrução e prece farão de todos, os trabalhadores escolhidos e comprometidos com a causa do Mestre Amado.

É importante que nos conscientizemos que é missão dos espíritas, divulgarem as palavras consoladoras, não só para os espíritas, mas para todas as pessoas. Se atentarmos à seguinte frase contida no texto “Missão dos Espíritas”; “Certamente falareis com pessoas que não quererão ouvir a palavra de Deus”, o espírito de Erasto certamente não estava se referindo aos que freqüentam a Casa Espírita. Sendo assim, concluímos que nossa missão vai além do que hoje estamos fazendo. Precisamos fazer a divulgação de nossa Doutrina de acordo com as nossas possibilidades. Se Jesus e Kardec foram audaciosos, plantando em terreno hostil, sendo maltratados, criticados e ultrajados; por que nós espírita devemos tranqüilos, continuar sendo levados ao sabor do vento calmo? – Por tudo isso, é importante sabermos que, para fazer parte do grupo que divulga a Doutrina dos Espíritos, além das quatro paredes do Centro Espírita, é preciso que o espírita tenha algumas especiais qualidades: a) Seja um conhecedor da Doutrina Espírita; b) Seja espírita praticante; c) Não forçar as pessoas tentando fazer proselitismo; d) respeitar as demais instituições religiosas sérias; e) Não entrar em polêmicas inúteis; f) Agir sempre com brandura e bom senso. - Encontrar pessoas que reúnam todas as qualidades mencionadas não é impossível, mas também não é fácil. A tendência natural é que acatam essa missão, os espíritas que mais usam as palavras do que os atos; o ideal, entretanto, seria para essa tarefa, os espíritas que mais valorizam os atos do que as palavras, porquanto o exemplo vale mais que as palavras.

Joana de Angelis reforça a necessidade de levarmos aos outros lugares, a essência da Doutrina, dizendo: “Cabem neste momento graves compromissos que não podem e nem devem ser postergados”. Essa educadora espiritual passa-nos os quatro procedimentos que cabem aos espíritas: 1- Proclamar a Era Nova; 2- Demonstrar a existência de mundo de causa e efeito; 3- Demonstrar a anterioridade do Espírito ao corpo; 4- Demonstrar os incomparáveis recursos saudáveis decorrentes da conduta correta, dos pensamentos edificantes e da ação do bem. E nos alerta ainda dizendo que esses procedimentos devem ser executados pelos espíritas conscientes das suas responsabilidades – aqueles que se equivocaram em outras encarnações e que agora recomeçam em condições melhores. “Ide e pregai a palavra divina. É chegada á hora em que deveis sacrificar, em favor da sua divulgação, o comodismo e as ocupações fúteis. Ide e pregai o Evangelho: os Espíritos Superiores estão convosco”, pois sois os trabalhadores da Última Hora. Alteridade torna-se necessária para a nossa missão, disse Erasto, e segundo Joana de Angelis, temos que assumir nossos compromissos. Sejamos espíritas audaciosos, levando além das quatro paredes, as palavras consoladoras de nossa Doutrina...

Alteridade

Carlos Pereira

Olhe para os dedos de sua mão. Eles são diferentes. Ainda bem. Exatamente por serem diferentes eles são harmoniosos quando vistos em conjunto. Já imaginou se eles fossem todos iguais? Certamente teríamos dificuldade de fazer o que fazemos de maneira tão natural. A humanidade, pode-se dizer, é semelhante a uma mão. Somos diferentes numa família. Somos diferentes numa região. Somos diferentes numa nação. A diferença é inerente, portanto, à natureza humana. Que bom que assim seja. Mesmo óbvio este raciocínio, o homem tem demonstrado ao longo de sua história ser incapaz de reconhecer e conviver pacificamente com o diverso, com o plural. Em função disso, ele tem alimentado as guerras, os movimentos de intolerância de toda sorte, as antipatias gratuitas, os separatismos, o racismo, a exclusão, a intolerância, a discórdia, o seu próprio desequilíbrio, enfim.

Olhe para os dedos de sua mão. Eles são diferentes. Ainda bem. Exatamente por serem diferentes eles são harmoniosos quando vistos em conjunto. Já imaginou se eles fossem todos iguais? Certamente teríamos dificuldade de fazer o que fazemos de maneira tão natural. A humanidade, pode-se dizer, é semelhante a uma mão. Somos diferentes numa família. Somos diferentes numa região. Somos diferentes numa nação. A diferença é inerente, portanto, à natureza humana. Que bom que assim seja. Mesmo óbvio este raciocínio, o homem tem demonstrado ao longo de sua história ser incapaz de reconhecer e conviver pacificamente com o diverso, com o plural. Em função disso, ele tem alimentado as guerras, os movimentos de intolerância de toda sorte, as antipatias gratuitas, os separatismos, o racismo, a exclusão, a intolerância, a discórdia, o seu próprio desequilíbrio, enfim.

O que fazer para reverter este quadro de auto-aniquilamento? Praticar a alteridade. Alter... o quê? Alteridade. Significa considerar, valorizar, identificar, dialogar com o outro (alter, em latim). Diz respeito aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais. Na relação alteritária, o modo de pensar e de agir, as experiências particulares, são preservadas e levadas em conta sem que haja sobreposição, assimilação ou destruição.

Eis o desafio: estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes. Um caminho de superação deste embate estaria baseado em três fases: identificar, entender e aprender com o contrário.
Ao se deparar com o diverso deve-se, inicialmente, retirar da mente qualquer "pré-conceito", deixar-se livre para receber o conteúdo do outro sem opinião formada. Em seguida, é necessário procurar entender as razões pelas quais o outro concebe as coisas do seu jeito, desenvolver uma certa capacidade empática para, finalmente, conquistar o aprendizado na relação, ampliando sua capacidade de entendimento e, mais ainda, de convivência fraterna.

A prática da alteridade, nos dias hodiernos, é fundamental diante do ambiente plural, amplificado pela tecnologia da Informação, pela globalização das relações, pelas conquistas democráticas e pela facilidade das comunicações. Imprescindível até pelo clima conflituoso que cresce entre os povos. Martin Luther King dizia que "Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas".

A sabedoria nos ensina que somente haverá crescimento quando lidamos com aqueles que pensam diferente do que a gente, porque ele, de fato, vai ter o que acrescentar no relacionamento. Quantos avanços não têm sido possíveis por causa da convivência solidária entre os aparentes divergentes. É necessário compreender, de uma vez por todas, que o tempo da inquisição já passou, embora muitos ainda teimem em querer sempre ressuscitá-lo das mais diversas formas.

E no meio espírita, pratica-se a alteridade?
Não. Ainda não. Costuma-se encarar a dissidência do pensar como oposição deliberada. Taxa-se até de obsedado àquele que queira defender de maneira equilibrada um ponto de vista. Na realidade, adota-se uma postura de discriminação. Pior. Trata-se o diferente com a indiferença. Joga-se por terra a própria condição da filosofia que pressupõe como base do conhecimento o livre pensar, a especulação sadia. O comportamento corrente, paradoxalmente, é dogmático. Joga-se por terra o emblema kardequiano que destaca a tolerância como princípio básico das relações do espírita verdadeiro. Joga-se por terra, finalmente, a própria condição cristã do amar uns aos outros que não admite o repúdio ao seu irmão simplesmente por ele possuir uma ótica diferente de enxergar a mesma realidade.

O Espiritismo, desde a sua aparição sistematizada no século XIX até hoje, tem sido vítima, sobretudo, da ausência da prática alteritária pelos nossos irmãos de outras filosofias, crenças religiosas e do meio científico. Como exigir, portanto, uma ética alteritária externa se não a exercitamos dentro de nossas fileiras?

Há muito a aprender sobre alteridade nos agrupamentos espíritas, principalmente porque o Espiritismo só poderá influenciar os vários campos do conhecimento humano se conseguir se inserir de maneira harmoniosa junto àqueles que atualmente pensam divergentemente de seus postulados. As idéias espíritas predominarão na Terra um dia pelo alteritarismo de relacionamento e não pelo autoritarismo de comportamento.

É chegada a hora de dar-nos as mãos. Diferentes, mas, ao mesmo tempo, bem iguais. Compreender que apenas a diferença é que verdadeiramente soma. "Você pode pensar que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único".


Carlos Pereira: Administrador, Escritor e Conferencista Espírita,é atualmente presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco - ADE-PE. E-mail: carlosp@correios.com.br

Espiritualidade e Alteridade – Edgard Armond por Edelso da Silva Junior

por Edelso da Silva Junior

Visivelmente entendemos que o ser humano constitui boa parte do mundo que habitamos, ou seja, a maioria dos habitantes do planeta Terra é constituída de gente como nós, com necessidades semelhantes.

Quando vemos o discurso de muitas pessoas em relação ao sentimento de piedade, de caridade em relação ao seu próximo, nos deparamos com o conceito de alteridade sendo propagada de forma textual, porém, a alteridade no discurso é fácil de compreender, mas difícil de aplicar.

Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de penetrar no mundo do outro e conseguir vê-lo tal como ele é e não como desejaríamos que fosse.

Na era moderna (1600 d. C.) já se percebe uma preocupação sobre o tema, pois em pleno renascimento cultural na Europa, vemos a busca da racionalidade do homem, e da mudança da importância da religião para a figura humana da sociedade, o homem com suas necessidades mais urgentes e não mais a figura da religião como fator principal da sociedade. O homem renascentista acreditava que a religião vigente na Europa havia corrompido a forma de pensar o mundo, o homem e sua relação com a divindade. É fácil de entender isso, pois a visão cristã do período medieval, por exemplo, era a centralização em Deus (dentro de uma visão antropomórfica) e não no homem. O homem era problema de Deus. Ele que deveria conceder ou não as benesses aos seus filhos.

Com o pensamento espírita sendo propagado em pleno século XIX, em um país onde o racionalismo fora propagado de forma contundente e o sentimento religioso descartado como manifestação de uma postura retrógrada e nociva ao desenvolvimento do homem, como ser humano livre de amarras intelectuais. A proposta de Allan Kardec, que tivera educação positivista, dentro do perfil racionalista, científico, herdado do renascimento cultural, rompeu com isso e resgata através de sua postura em publicar “O Evangelho segundo o Espiritismo”, um cristianismo dentro de seus conceitos filosóficos e religiosos aos moldes do que foi proposto pelo Cristo na Palestina.

Para os Espíritos que sustentaram toda a obra Kardequiana a relação entre o ser humano deveria estar dentro do conceito da alteridade. A visão do ser humano e suas necessidades mais importantes, para ter importância no quadro de valores de uma sociedade justa, deveriam estar baseadas no conceito de alteridade.

Embora essa questão seja uma marca indelével na codificação Kardequiana, esse princípio de se colocar no lugar do outro, de compreender o mundo dos outros, tal como ele é e não como pensamos ou desejamos que seja, ficou em plano secundário, pois era um sentimento mais desperto em espíritos mais maduros, mais sensíveis à dor alheia. Tínhamos um espiritismo para intelectuais, mais ao gosto do positivismo francês que permeou a formação intelectual em nossa pátria no período da república.

O período que antecede a década de 1940, podemos ver um Espiritismo estagnado, disperso, de interesse em questões fenomenológicas como as materializações ou mesmo o auxílio social. Com a reestruturação da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) através das várias ações de Edgard Armond, seu administrador, o Espiritismo começa assumir uma forma mais ampla.

Toda a trajetória da FEESP a partir de 1940 deve ser relembrada como um divisor de águas dentro do Movimento Espírita Nacional, pois antes mesmo do período de implantação dos programas elaborados por Edgard Armond, nota-se que antecedendo à década de 1940 a Doutrina Espírita não tinha nenhum tipo de reconhecimento social e as instituições existentes, não eram unidas; não possuíam orientação para que dinamizassem suas atividades, contando assim, com a boa vontade de quem as comandava. Porém, a criação da Escola de Aprendizes do Evangelho em 6 de maio de 1950, representa o marco inicial de uma profunda transformação na maneira de se vivenciar o Espiritismo no Brasil.

Com este projeto de iniciação em massa, Armond populariza um sistema de espiritualização em que o homem desenvolve, através de programas de trabalho, seu potencial humano de se importar consigo mesmo, sua evolução espiritual e isso leva a uma atitude de alteridade, pois no processo de evolução espiritual, no autodescobrimento, o homem começa a se ver no outro, se identificar com o outro através das diversas experiências. A dor é uma dessas experiências. Embora ela seja uma experiência individual, privada, pois o outro não tem acesso à ela, mas através de sua própria experiência e dos conhecimentos que adquire, ele sabe o quanto é difícil vivê-la. A proposta da Escola de Aprendizes do Evangelho ensina ao aluno que o fato de falar da sua dor diante da dor alheia, não é o suficiente para compreendê-la no outro, pois muitas vezes isso se torna uma postura egoísta. A questão é de identificação da dor entendendo que embora humanos, temos reações diferentes diante dos desafios da vida. E é nesta diferença que aprendemos a sermos solidários uns com os outros. Somo iguais na essência, mas com experiências e maturidade diferentes, o que não nos torna maior nem menor, porém diferentes no processo de evolução e a nossa utilidade para o próximo está justamente não naquilo que temos em comum, mas sim, no que nos diferencia, pois o que nos diferencia nos completa.

Este conceito está diluído na obra Kardequiana, porém, mais especificamente em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, mas depende muito mais de uma atitude de espíritos mais maduros para o processo de compreensão, embora a questão 919 de “O Livro dos Espíritos” seja objetiva, não competia a Kardec lançar métodos que facilitasse colocar em prática as diversas possibilidades de transformações do ser humano.

Portanto é com Edgard Armond que o Espiritismo sai de seu aspecto positivista, somente científico e filosófico, muitas vezes friamente propagado, para adentrar num aspecto mais pragmático, mais objetivo no sentido de oferecer ao ser humano uma escola de reforma íntima, com metodologia própria, levando o ser humano às portas, não somente de uma iniciação científica e filosófica, mas impreterivelmente a uma iniciação espiritual onde a alteridade é um dos seus componentes fundamentais.

Alteridade - fórum espírita 2

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Alteridade é uma palavra que vem ganhando uso por indagações e constatações, e particularmente os oradores espíritas, já a usam corriqueiramente.   
   Esse é um termo relativamente novo, tanto que a pouco os dicionários passaram a registrá-lo, mas seu significado reflete uma nova mentalidade, aquela que deverá vigorar na civilização que, certamente, irá transformar a Terra num mundo de regeneração porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o aprender com os diferentes, o amar ou ser responsável pelo outro, aceitando e respeitando as suas diferenças.
   Alteridade, palavra que representa, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres.
   A pessoa que a vivencia passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando de criticar, julgar, agredir...
   A não-crítica, a não-agressão, o não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida.
   Você poderá contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há uma grande diferença entre analisar, estando consciente dos erros e desacertos, e julgar, criticar, enviar uma vibração negativa para o errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as instituições e as nações são formadas por pessoas.   
   Você vê uma pessoa caminhando sobre a grama de um parque para encurtar caminho, e pensa: que sujeito mais sem educação!
   Nesse ato de criticar intimamente a atitude daquela pessoa você está gerando uma vibração negativa. Parte dessa vibração, desse magnetismo ou energia pesada fica em você, seu gerador, e outra parte alcança a pessoa que pisou a grama.
Por outro lado, se você apenas registrar o ato errado, mas, respeitando a diferença do outro, não criticá-lo, estará fazendo um bem a si mesmo e deixando de fazer mal ao outro.
Digamos que, agindo com alteridade, você entende que deve falar com aquela pessoa alertado-a para o erro que está cometendo, fá-lo-á afetuosamente, de forma a não humilhá-la, encontrando a melhor maneira de ser, junto a ela, uma presença benéfica.
   Quando nos habituamos a tudo criticar, nosso foco de vida fica dirigido aos outros, na forma como eles se conduzem nos menores detalhes e, é claro, colocamos a nós mesmos como parâmetro nessa medição de erros, nesse julgamento contínuo que exercemos com relação a tudo e a todos. Esse fato nos leva a desenvolver de forma contínua uma vibração pesada e antagônica em relação aos outros porque sempre iremos encontrar neles o que qualificamos como errado. Além disso, estaremos também desenvolvendo nossa vaidade, ao compararmos os que consideramos errados, conosco.
   Mas, se desenvolvemos a alteridade, respeitando a maneira de ser dos outros, lembrando que todos somos seres em diferentes faixas evolutivas, tornamo-nos mais leves, mais de bem com a vida, mais alegres e, é claro, mais saudáveis.


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É vero amado irmão Marco,
Cito o Espiritismo como marco regulatório para disseminação do conceito alteritário, pelos motivos que venho expor:
a)- Tem suas raizes fincadas nos conceitos ensinados por Sócrates, escritos por Platão, que se exorcizaram das mazelas miticas de seus países e beberam nas fontes do Egito antigo, que por sua vez se inspiraram como outras culturas nos Atlantes...
b) Reconheçe em Bhuda um mistico diferente dos de Atenas que sacrificaram Sócrates para aceitarem a acomodação Aristotélica, e permitir que conhecimentos proporcionassem ganhos  justificados legal e ética, mas que Sócrates recusou, depois Cristo e Paulo também...
c) Reconhece em Cristo figura de exemplo impar para nortear nosso viver enquanto evoluimos, e como Cristo o Espiritismo não nos pede perfeição, mas integração, solidariedade, amor ao próximo., que nada deixou escrito não sendo seu viver ortodoxia de Doutrina, diferente nos impele ao livre pensamento, e não dogmatiza, e só superficialmente pode-se  lhe definir conceito de religião, unicamente pelo religare... sem intermediários.
d) Reconhece nos Ensinos dos Espíritos não a Pureza mas a desvinculação do individualismo em favor do coletivismo, norteando o pleno sentido de igualdade, veiculação livre de seus postulados sem cooptação de seguidores,  formadores de prosélitos e manifestando que a razão séria como a ferramenta que o indivíduo teria para compreender e empreender sua jornada evolutiva. Se somente dessemos créditos aos puros Espíritos para compreender nossa jornada na corrupção, a ICAR estaria em melhores condições que nós Espíritas, posto que possuem os santos, mas a ICAR caminhou pela acomodação dos interesses dos poderosos como Ariostóteles, repetiram com Constantino, e são ferrenhos defensores do individualismo e formam corpo dogmático na forma e no pensa-mento ensinando filhos de Deus a pensar e a agir mas os exemplos que mostram provam que estão em engano, posto que adulteraram as leis naturais que regem os indivíduos, tanto no que diz respeito ao celibato quanto a liberdade das mulheres.
Eu teria o abecedário completo para dedilhar no meu teclado, mas fiquemos por aqui, penso que já é o suficiente por hoje.
Saúde e Paz!

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Concordo com o postulado pelo nobre irmão...
Todavida, a alteridade já se encontra inserida sistemáticamente desde a raiz no Espiritismo, é que os próprios Espíritas ainda não se deram conta disso, e ainda não praticam, mas está exarado no Livro dos Espíritos assim:

878. Podendo o homem enganar-se quanto à extensão do seu direito, que é o que
lhe fará conhecer o limite desse direito?

“O limite do direito que, com relação a si mesmo, reconhecer ao seu semelhante, em
idênticas circunstâncias e reciprocamente.”

a) - Mas, se cada um atribuir a si mesmo direitos iguais aos de seu
semelhante, que virá a ser da subordinação aos superiores?
 Não será isso a anarquia de todos os poderes?

“Os direitos naturais são os mesmos para todos os homens, desde os de condição
mais humilde até os de posição mais elevada. Deus não fez uns de limo mais puro do que o
de que se serviu para fazer os outros, e todos, aos Seus olhos, são iguais. Esses direitos são
eternos. Os que o homem estabeleceu perecem com as suas instituições. Demais, cada um
sente bem a sua força ou a sua fraqueza e saberá sempre ter uma certa deferência para com
os que o mereçam por suas virtudes e sabedoria. É importante acentuar isto, para que os que
se julgam superiores conheçam seus deveres, a fim de merecer essas deferências.
A subordinação não se achará comprometida, quando a autoridade for deferida à sabedoria.”

879. Qual seria o caráter do homem que praticasse a justiça em toda a sua pureza?

“O do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, porquanto praticaria também o amor do
próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.”

O Ser humano desde sempre, viveu sob a bandeira do Poder... da força, dos clãs, dos partidos, enfim nenhum outro modo de exercício do poder deixou de encontrar resistência, com certa força residente na razão...
E a Doutrina Espírita em tudo tem explicado que todo poder emana da Autoridade, como acima:
A subordinação não se achará comprometida, quando a autoridade for deferida à sabedoria.

Então alteridade, pressupõe a compreensão da autoridade e da subordinação... na justa medida da evolução alcançada, individualmente.
Esse pensamento é raiz no Espiritismo desde sua criação...
Saúde e Paz!


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Ética da Alteridade

“Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?”
(S.Mateus, cap.V, vv.46 e 47.)


A escola dos relacionamentos é o convite da vida para a vitória sobre o egoísmo. Viver é de todos, conviver é de poucos, e conviver bem é para quantos disponham encetar nova jornada ante a nossa condição de “cidadãos do universo.”

Cada pessoa que passa pela nossa vida, ainda que superficial e circunstancialmente, é portadora de uma mensagem de vida para nós. Não existem relações casuais.

A boa convivência é quesito de qualidade de vida. Quem a experimenta sorri mais, tem melhor tônus muscular, forra-se do cansaço dos agastamentos, logra melhor nível de sono, vence facilmente a rotina, imuniza-se contra o tédio, amplia sua criatividade e viver na atmosfera da paz.

Livros desatualizam, eventos fecham ciclos, instituições extinguem-se e as tarefas são recursos didáticos, mas os relacionamentos perpetuam na consciência, são as únicas realidades plausíveis de todo o cosmo doutrinário, é a essência do Espiritismo em nós.

Por isso, temos que aprofundar conceitos em torno da alteridade no melhor encaminhamento das nossas questões de amor ao próximo, seja nas atividades educativas da doutrina, seja nas forjas disciplinadoras da sociedade.

Concebamos a alteridade, sem rigor técnico, como sendo a singularidade pertinente a cada criatura. Naturalmente, o conjunto das singularidades humanas estabelece a diversidade. Essa diversidade nos solicita, perante os sábios Códigos do Criador, uma ética nas relações que reflita os princípios de pluralidade natural para a harmonia e evolução.

Assinalemos, assim, de forma compreensível, que a “ética da alteridade” é a nossa capacidade de relativizarmo-nos perante as diferenças das quais os outros são portadores, convivendo em paz com nossos diferentes e suas diferenças, rendendo-lhes respeito e amor na forma como são e se expressam, nas suas particularidades.

Reconhecemos a melhoria das nossas condições pessoais através desse preito espontâneo de reverência, a quem quer que seja, sem que tenhamos que perder a identidade íntima, mantendo-a sempre resguardada pela definição de propósitos e coerência como características de criaturas espiritualmente saudáveis. Ética de alteridade não significa concordar com tudo ou aprovar tudo, ela não nos retira o senso de valor moral enobrecedor, pois nem toda alteridade está engajada nas sendas do bem. Por exemplo: algumas comunidades aferradas ao folclore manterão rituais ou festas que, para o progresso social, em nada cooperam objetivamente, trazendo algum benefício somente para aqueles que fazem cultos a lendas e tradições. Nosso “dever alteritário”, contudo, é respeitar a diferença, buscar aprender algo sobre a “essência do outro” – uma razão profunda e Divina para aquele comportamento, algo “invisível aos olhos” como acentua o inspirado Antoine de Saint Exupéry.

Portanto, perante diferenças sociais, corporais, intelectuais ou de que natureza for, adotemos a ética da alteridade e vivamos em paz.

Muitas pessoas nutrem um terrível vazio existencial porque querem existir mudando o outro, querem se realizar no outro, acham que têm as respostas para ele, querem “anular a diferença” alheia para se sentirem bem.

Por isso é tão comum encontrarmos deficiências no próximo. Sempre achamos que se ele mudasse nisso ou naquilo tudo seria melhor e ele, inclusive, seria mais feliz. Esse é o velho hábito da intromissão perniciosa nas desconhecidas terras do mundo da diversidade, que queremos moldar a gosto pessoal, talhando a igualdade importuna ou contraria os interesses. Muitos conflitos nascem exatamente nesse ato de apropriação indevida da conduta e da forma de ser do próximo. Não sabendo considerar-lhe a singularidade, tentamos combater a diferença ou, o que é pior, adotamos a indiferença...

Pensemos urgentemente na construção da conduta de alteridade em nossas relações.

Prezemos as diferenças e honremo-las com a ética da fraternidade, esse o roteiro saudável proposto por Jesus em Sua sábia interrogação: Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa?



Do livro Unidos pelo Amor – Ética e Cidadania à Luz dos Fundamentos Espíritas
Psicografia de Wanderley S. de Oliveira
Espíritos: Ermance Dufaux e Cícero Pereira

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