Estudando o Espiritismo

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Parábola do Filho Pródigo - Compilação

http://acasadoespiritismo.com.br/parabolas/PARABOLA%20DO%20FILHO%20PRODIGO.htm

"Um homem tinha dois filhos. Disse o mais moço a seu pai: Meu pai, dá-me a parte dos bens que me toca. E ele repartiu os seus haveres entre ambos. Poucos dias depois o filho mais moço ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome e ele começou a passar necessidades. Então foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país e este o mandou para seus campos a guardar porcos; ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Caindo, porém, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai tem pão com fartura e eu aqui, morrendo de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado de teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. E levantando-se foi a seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai viu-o e teve compaixão dele, e, correndo, o abraçou e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa e vesti-lha, e pondo-lhe o anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também um novilho cevado, matai-o, comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou. E começaram a regozijar-se. Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e, quando voltou e foi chegando a casa, ouviu a música e a dança, e chamando os criados perguntou-lhes o que era aquilo. Um deles respondeu: Chegou teu irmão e teu pai mandou matar o novilho cevado porque o recuperou com saúde. Então ele se indignou, e não queria entrar; e, sabendo disso, seu pai procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; mas, quando veio este seu filho que gastou teus bens com meretrizes, tu mandaste matar o novilho mais gordo. Respondeu-lhe o pai: Filho: tu sempre estás comigo, e tudo que é meu é teu; entretanto, cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou".

(Lucas, XV, 11-32)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

Esta parábola imaginosa relatada pelo evangelista Lucas é a doce e melodiosa palavra de Jesus, dizendo aos homens da bondade sem limites, da caridade infinita de Deus! Ambas as individualidades que representam o filho obediente e o filho desobediente simbolizam a Humanidade Terrestre. O pai de ambos aqueles filhos, simboliza Deus. Uma pequena, pequeníssima parte da Humanidade personificada no filho obediente se esforça por guardar a lei divina e permanece, portanto, na casa do Pai. A outra parte personifica o filho desobediente, que, de posse dos haveres celestiais, dissipa todos esses bens e vive dissolutamente, até chegar ao extremo de ter de comer das alfarrobas que os porcos comem. Esse extremo é que o força a voltar à casa paterna, onde, acolhido com benemerência e conforto, volta a participar das regalias concedidas aos outros filhos.

Em resumo: esta simples alegoria, capaz de ser compreendida por uma criança, demonstra o amparo e a proteção que Deus sempre reserva a todos os seus filhos. Nenhum deles abandonado pelo Pai celestial, tenha os pecados que tiver, pratique as faltas que praticar, porque se é verdade que o filho chega a perder a condição de filho, o Pai nunca perde a condição de Pai para com todos, porque todos somos criaturas suas. Estejam eles onde estiverem, quer no mundo, quer no espaço; quer neste planeta, quer em país longínquo, ou seja noutro planeta, com um corpo de carne ou com um corpo espiritual, o Pai a nenhum despreza, a nenhum abandona, porque nos criou para gozarmos da sua luz, da sua glória, do seu amor.

O Pai celestial não é o pai da carne e do sangue, pois como disse o apóstolo: "a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus"; a carne e o sangue são corruptíveis, só o Espírito é incorruptível, só o Espírito permanece eternamente. O Pai celestial é Espírito, é Deus de verdade, Deus vivo, por isso seus filhos também são Espíritos que permanecem na imortalidade. A luz, a verdade, o amor não foram criados para os corpos, mas para as almas. Como poderia Deus criar um "filho pródigo", a não ser para que ele, depois de passar pela experiência dura do mal que praticou, voltar para o seu Criador, e, arrependido, propor o não mais ser perdulário, mas adaptar-se à vontade divina e caminhar para os destinos felizes que lhes estão reservados! Como poderia Deus criar uma alma ao lado de um Inferno eterno! que pai é esse que produz filhos para mandá-los atormentar para sempre?

A Parábola do Filho Pródigo é a magnificiência de Deus, e ao mesmo tempo o solene e categórico protesto de Jesus contra a doutrina blasfema, caduca, irracional das penas eternas do Inferno, inventada pelos homens. Não há sofrimentos eternos, não há dores infindáveis, não há castigos sem fim, porque se os mesmos fossem eternos Deus não seria justo, sábio e misericordioso. Há gozos eternos, há prazeres inextinguíveis, há felicidades indestrutíveis por todo o infinito, esplendores por toda a Criação, amor por toda a eternidade!

Erguei as vossas vistas para os céus. O que vedes? Um manto estrelado sobre vossas cabeças, chispas luminosas vos cercam de carícias; fulgurações multicores vos atraem para as regiões da felicidade e da luz! Olhai para baixo, para a terra, para as águas: o que vedes? Essas chispas, essas luzes, essas estrelas, essas cintilações retratadas no espelho das águas, nas corolas das flores, nos tapetes verdejantes dos campos; porque das luzes nascem as cores, são elas que dão colorido às flores que iluminam os campos, que agitam as águas!

O homem! onde quer que estejas, se quiseres ver com os olhos do Espírito, verás a bondade e o amor de Deus animando e vivificando o Universo inteiro! Tanto em baixo como em cima, à esquerda como à direita, se abrires os olhos da razão, verás a mesma lei sábia, justa, equitativa, regendo o grão de areia e o gigantesco Sol que se baloiça no espaço; o infusório que emerge, a gota dágua e o Espírito de luz, que se eleva sereno às regiões bem-aventuradas da paz. A lei de Deus é igual para todos: não poderia ser boa para o bom e má para o mau; porque tanto o que é bom quanto o que é mau estão sob as vistas do Supremo Criador, que faz do mau bom, e do bom melhor: pois tudo é criado para glorificar o seu imaculado nome!

Não há privilégios nem exclusões para Deus; para todos Ele faz nascer o seu Sol, para todos faz brilhar suas estrelas, para todos deu o dia e a noite; para todos faz descer a chuva!

CAIRBAR SCHUTEL

2 - PEDRO DE CAMARGO "VINICIUS"
Parábolas é uma história encerrando certa moralidade que deve ser destrinçada do enredo. Jesus utilizava-se desse meio para ensinar. É um processo pedagógico de relevância porque obriga o estudante a fazer uso do raciocínio. Uma das nossas aprendizes empregou certa figura elucidativa, bem interessante, a propósito deste assunto, a qual passamos a reproduzir. O avô ensinava evangelho aos seus netos. Chamando a atenção de um deles, perguntou-lhe: o que vês na parede da frente? Vejo uma sombra, retruca o interpelado. E você, continuou o velho instrutor, dirigindo-se a outra criança. É um cachorro; distingo a cabeça, o corpo e a cauda. Em seguida, um terceiro acrescenta: é cachorro policial, veja o formato e a posição das orelhas.

Concluiu então o avô: É isso mesmo. Um de vocês apenas viu a sombra projetada na parede pela estatueta de cerâmica que aqui está sobre a mesa. Outro distinguiu que era um cachorro; outro, finalmente, ajuntou que se tratava de um cachorro policial. As parábolas são assim: uns dizem que são historietas; outros, que são casos interessantes cujo enredo prende a atenção; finalmente, outros descobrem a moralidade ou ensinamento que a narrativa oculta em suas entrelinhas.

Comecemos pela parábola mais conhecida e que tem sido muito comentada: a do Filho Pródigo, inserta no Evangelho de Lucas, cap. XV.

Vamos comentada conjuntamente com as da Ovelha Desgarrada e da Moeda Perdida que a procedem, porque as três incidem sobre o princípio filosófico adotado pelo Espiritismo, isto é, a Unidade do Destino.


1 - "E chegavam-se a Ele os publicanos e demais pecadores para o ouvir. E os escribas e fariseus então murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles. E Jesus, por isso, lhes propôs a seguinte parábola: Que homem, dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove, e não vai após a perdida até que venha a encontrá-la? E, achando-a, põe-na, alegremente, sobre os ombros; e chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhe: Alegrai-vos comigo, pois achei a minha ovelha perdida. Digo-vos, pois, que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

2 - Ou, qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a encontrar? E, achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já encontrei a dracma perdida. Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.

3 - E, continuando, disse mais: Um certo homem tinha dois filhos e o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E havendo gastado tudo, sobreveio naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquele lugar, o qual o enviou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava ele encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, caindo, então, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui, perecendo de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou mais digno de ser chamado teu filho; recebe-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e quando estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não mereço ser considerado teu filho. Mas, o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel no dedo, e alparcas nos pés; e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; pois este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado. E começaram todos a alegrar-se. E o filho mais velho achava-se no campo; e quando veio, e chegou perto da casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, indagou o que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recuperou são e salvo. Mas, ele indignou-se, e não queria entrar. E, saindo, o pai insistiu com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir as tuas ordens, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; vindo, no entanto, esse teu filho, que esbanjou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e agora achou-se."

Conforme verificamos, o ponto central destas três parábolas é a unicidade do destino.

1 - De fato, é o que se depreende claramente do caso do pastor que tendo cem ovelhas, deixa no campo noventa e nove, e sai à procura de uma que se havia perdido.

2- O mesmo sucede com a dona-de-casa que, tendo dez moedas, perde uma. Aflita por isso, ela remove suas mobílias, varre todos os cómodos até encontrar aquela banho desfalcado de uma ovelha; como a mulher, que não se conforma com a perda de uma só de suas moedas;

3 - e, como o progenitor solícito e amorável que recebe jubiloso o moço arrependido, assim como o Pai Celestial não quer que se perca nenhum de seus filhos.


Esta é a moralidade que ressalta de modo inequívoco e insofismável desta trindade parabólica. É digno de nota sabermos que o céu está interessado no que se passa neste mundo. A sorte do pecador faz parte da cogitação dos anjos de Deus, os quais se rejubilam com a regeneração dos culpados. Nada há isolado no Universo. Os mundos e as humanidades que os habitam guardam relação íntima entre si. Os maiores, os justos e os sábios pensam e se preocupam com os pequenos, os injustos e os ignorantes.

Esta circunstância é animadora. Ninguém está abandonado nem esquecido. Tudo pende para a Unidade Suprema que é Deus. Comentemos agora de modo particular a parábola do Filho Pródigo. Dentre todas as imaginadas pelo Mestre, é a mais conhecida e a quem tem dado margem a publicações de vasta literatura. Realmente trata-se de uma lição tocante, que fala à nossa alma e sensibiliza o nosso coração. É, geralmente, sob o aspecto sentimental que essa magnífica página evangélica tem sido vista e explanada. Mas, não é somente debaixo desse prisma que devemos encará-la. Cumpre que aprofundemos, tirando de sua estrutura as grandes verdades que encerra. Comecemos pelo seu título.

Seria mais acertado a denominarmos: O Pródigo e o Egoísta — considerando que o seu enredo gira principalmente em torno de dois personagens que encarnam aquelas duas modalidades de indivíduos. Apenas três figuras aparecem neste conto evangélico: o pai e os dois filhos. No entanto, só se tem comentado o procedimento de um dos filhos, o mais moço, o pródigo, e nada diz sobre o outro filho, o mais velho, o egoísta, o maior pecador. Vamos, pois, trazê-lo à baila, pois é protagonista importante cuja conduta deve ser meditada.
À simples leitura do texto percebemos que aquele pai é Deus. Seus filhos representam os homens, os pecadores de todos os matizes.

O mais moço personifica os que se entregam desvairadamente aos prazeres sensuais, concentrando na gratificação dos sentidos todas as suas aspirações, consumindo em bastardos apetites as riquezas herdadas do Divino Progenitor. Empobrecido e arruinado, faminto e roto, material e espiritualmente, acaba reconhecendo-se o único culpado de tamanha desventura, o responsável, em suma, pela penosa situação em que se vê. Arrependido, resolve procurar os penates abandonados insensatamente, voltando para junto do seu lugar de filho e herdeiro de todos os bens e prerrogativas paternas.

A história desse moço encarna a odisséia dos pecadores que se encarnam neste orbe. Devaneios, aventuras, busca de prazeres, aspirações malogradas, tendo como consequência desapontamentos, dores e angústias. Em seguida — arrependimento, regeneração, retorno a Deus. Entre os dois extremos — prodigalidade e egoísmo — encontra-se a grande série de pecados e erronias que os homens cometem. O final ou remate de toda a trajetória do Espírito através das encarnações e reencarnações, das provas e expiações, por que venha a passar, é um só: confissão da culpa, o arrependimento e a consequente reabilitação pela dor e pelo amor! Ninguém se perde, não há culpas irremissíveis. O desígnio divino é um só. A porta da redenção jamais se fecha, está sempre aberta aos pródigos e aos egoístas arrependidos, de todos os tempos.

Outro ensinamento de relevância que ressalta da parábola em apreço é o que respeita à lei da consequência ou de causalidade, propagada pela Terceira Revelação. A redenção do Filho Pródigo deu-se mediante a sua influência. Ele criou um conjunto de causas que determinaram um conjunto de efeitos análogos. Como as causas foram más, os efeitos foram dolorosos. Suportando-os como era natural, e não como castigo imposto por agente estranho, o moço acabou compreendendo a que suportava. Tomou, então, espontaneamente, e não coagido por terceiros, a resolução de emendar-se. E assim o fez. A obra da nossa redenção, portanto, deve ser iniciada intimamente, em nosso interior, processando-se no recôndito de nossas almas. Dessa reforma individual decorrerá a reforma da sociedade.

Deus é imutável. Seu atributo principal é o Amor. Na sua imutabilidade, Ele espera que o homem o procure. Deus é a luz da Vida. Quando mais d'Ele nos aproximamos, tanto mais nos sentiremos iluminados pela sua luz e fortalecidos pelo seu calor, o que vale dizer que mais intensificaremos a nossa própria vida. Afastarmo-nos de Deus é embrenharmo-nos nas trevas, é caminharmos para a morte. Daí o dizer da parábola: Este meu filho era morto e reviveu, tinha-se perdido e agora achou-se. Ir a Deus é encontrarmos a nós próprios, descobrindo-nos em nossa vida imortal. Ainda outro ensinamento: a relatividade do livre-arbítrio. O homem é um ser relativamente livre. Se não possuísse essa faculdade seria um títere, movendo-se ao sabor das circunstâncias que o cercam. O Espírito, quanto mais atrasado, menor soma de liberdade possui.

À medida que vai progredindo — moral e intelectualmente —, sua esfera de ação livre dilata-se e se amplia, até que adquire completo livre-arbítrio. A ignorância, em seu duplo aspecto —- moral e intelectual —, constitui o cárcere do Espírito. Basta considerarmos a condição do analfabeto. É um emparedado que se debate entre as grades da prisão. Abre um livro e não pode interpretar os seus símbolos: é um cego. A liberdade, pois, depende do grau evolutivo do Espírito. Não basta o desenvolvimento intelectual; é indispensável que a educação seja equilateral, isto é, que o sentimento constitua a base da nossa evolução. É pelo despertar do sentimento que se opera a conversão dos culpados, conforme atesta exuberantemente o caso do moço desassisado. O Pródigo faz jus à nossa simpatia, porque é um pecador confesso.

Errou, sofreu as consequências, reconheceu-se culpado, implorou e obteve a divina misericórdia. Pela sinceridade do seu gesto e humildade de sua atitude, ele atrai a nossa indulgência e conquista o nosso coração. E, como não há de ser assim se nós nos vemos nele, como num espelho, refletindo o que somos e indicando o roteiro a seguir ? O delito do Pródigo é menor, e menos grave do que o do seu irmão. A sua culpa revela fraqueza, inexperiência, e não maldade ou desamor. Fez mal a si próprio. Não envolveu a ruína de terceiros em suas aventuras; não ocasionou dor física nem moral a seu próximo. Foi insensato, leviano, boêmio e perdulário, prejudicando-se, como dissemos, a si mesmo.

E o Egoísta, com sua aparente santidade, jactando-se de jamais haver infringido as ordens e preceitos paternos? Na sua impiedade manifesta e ostensiva, esquivando-se indignado a tomar parte no banquete promovido pelo pai em regozijo ao regresso de seu irmão, ele mostra toda a aridez e secura de sua alma. O Pródigo, a despeito das insânias que cometeu, não atentou tão gravemente contra a Lei como ele: não feriu os sentimentos paternos de modo tão desalmado e cruel. Sendo a encarnação viva do egoísmo, pretendeu monopolizar a herança e o convívio paternos. Sentiu-se bem sem o irmão transviado, por cuja sorte jamais se interessou. Desapareceu o irmão? Melhor, ele se tornaria o único herdeiro do céu! Por isso, estomagou-se com o seu retorno e com a maneira afetuosa como o pai o recebera. Que outra prova maior de impiedade poderia demonstrar? Onde a sua decantada santidade, onde o seu presumido puritanismo?

Estará, acaso, nas virtudes negativas que proclamara tão enfaticamente? Virtudes negativas importam na abstenção do mal. Mas, isso não basta. O homem pode abster-se do mal visando somente ao proveito próprio, ao seu bem-estar, ao bom conceito e à fama. E o que prova tudo isso, se não egoísmo? Não procede mal, para não se comprometer, para zelar pela sua integridade moral. Sim, empregamos o prefixo propositadamente, porque, em realidade, tal pessoa não passa de um bom aparente, de um santo de fancaria, incapaz de um gesto altruísta em prol do seu próximo. Não arrisca um fio de cabelo na defesa do inocente ou de uma causa justa; não dedica um momento do seu tempo em favor de outrem. Ainda mais: entristece-se com a felicidade alheia e revolta-se com a alegria do próximo.

Refestelando-se presumidamente no céu, conforma-se com a perdição eterna de seu irmão! Tal o grande pecador, imagem fiel do fariseu que, orando no templo, assim se pronunciava: Graças te dou, meu Deus, porque não sou como aquele publicano. Não sou ladrão, pago o dízimo e jejuo regularmente. O publicano, porém, orava deste modo: Meu Deus, tem piedade de mim, miserável pecador. Em verdade, ensinava o Mestre, este voltou para sua casa justificado, e não aquele.

A lição mais importante da alegoria que ora comentamos está resumida no seu último tópico, quando o Egoísta, extravasando zelos e ciúmes, queixou-se ao pai, dizendo: Mataste o novilho cevado em sinal de regozijo pela volta desse teu filho que dissipou teus bens com as meretrizes, enquanto que a mim, que tão bem te sirvo, nunca me deste um cabrito para regozijar-me com meus amigos. O pai, então, retruca: Filho, tu sempre estiveste ao meu lado, e tudo que é meu é teu; entretanto, cumpria regojizarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e agora achou-se. O ensinamento áureo está sintetizado num simples possessivo: esse teu irmão. O adjetivo — teu — é, no caso, tudo quanto há de mais significativo.

O Egoísta viu, no Pródigo, apenas, o filho dissoluto de seu pai; mas, este mostrou-lhe naquele — o seu irmão! Que importam os seus erros e desatinos? Ele é teu irmão! Apliquemos em nossa vida este preceito. Saibamos ver nos que se transviam, nos que cometem culpas e mesmo delitos graves, o nosso irmão. Lembremo-nos de que o dia de sua regeneração e redenção será festivo nos céus. Alegremo-nos com Deus na reabilitação do pecador, expurgando o nosso coração de todo o pensamento sectário e exclusivista. A Casa do Pai Celestial é bastante grande para agasalhar todos os seus filhos. Regozijemo-nos e nos confraternizemos, todos, no alegre banquete do Amor, olhos fixos em nossa sublime e sábia legenda:

"Fora da Caridade não há Salvação".

PEDRO DE CAMARGO "VINICIUS"

3 - PAULO ALVES GODOY

Evidentemente a Parábola do Filho Pródigo é a mais consoladora, a mais bela e a mais edificante página dos Evangelhos, encerrando o duplo mérito de revelar toda a grandiosidade do amor de Deus para com Seus filhos, e destruir pela base as tão absurdas teorias das penas eternas e do pecado chamado irremissível.

Reiteradamente, afirmava Jesus que muitos dos homens de sua época "tinham olhos mas não viam, tinham ouvidos mas não ouviam". Essa afirmação do Mestre tem também aplicação nos dias atuais, quando alguns ensinamentos religiosos ultrapassados, não permitem que se veja, na referida parábola, a mais insofismável e decisiva afirmação contra as tão decantadas penas eternas.

Um confronto, ainda que bastante superficial entre o Criador e a criatura, seria o bastante para destruir essa abominável concepção religiosa. Se o homem, eivado de imperfeição, não concilia a idéia de condenar um seu filho e o máximo que poderá fazer é aplicar ligeiros corretivos; e não se deve supor, de forma alguma, que Deus, perfeição absoluta e expressão máxima do amor, pudesse agir de modo diverso, através de suas leis imutáveis, punindo de forma eterna os seus frágeis filhos, que transgridem as suas leis.

Na Parábola do Filho Pródigo, Jesus Cristo deixou transparecer todo o amor de Deus, que não se limita a aguardar a volta do filho fracassado, mas, vai buscá-lo nos caminhos da vida, fazendo-o através dos seus mensageiros de amor e bondade, que tudo fazem para soerguer aqueles que desfalecem, preparando-os para novos aprendizados reedificantes, no decorrer de novas vidas com a aplicação da magnânima lei da reencarnação.

A aceitação da teoria esdruxula das penas eternas implicaria na repulsa daquele filho transviado: o "pai" da parábola deveria se limitar a fechar as portas do seu lar àquele filho que esbanjara tão prodigamente os seus bens, acumulados com tantos sacrifícios, ordenando que ele fosse severamente punido.

O ato do pai, acolhendo em seu seio aquele filho transviado, fazendo-o com satisfação e com festa, simboliza bem o amor incomensurável de Deus, traduzido naquelas palavras do Meigo Nazareno: "Há mais alegria nos céus por um pecador que se regenera, de que por noventa e nove justos que perseveram". Como reforço a essa ponderação, devemos também salientar a afirmação D'Ele: "Qual o pastor que não deixa o rebanho sujeito ao assédio dos lobos vorazes e tudo faz na procura de uma ovelha tresmalhada, sendo grande a sua alegria quando a encontra?"

Não se concebe a idéia de um Pai que cria os seus filhos pusilânimes, para após qualquer deslise condená-los a habitar os domínios de um decantado príncipe dos demônios. Tal idéia jamais poderá prevalecer num século de destacado progresso espiritual. A sua aceitação seria a negacão pura e simples de toda a virtude, de toda a sabedoria, de toda a misericórdia e de todo amor.

Não é esse Deus que o Espiritismo apregoa. Esse Deus pertence aos egoístas, aos maus e aos rancorosos. O Deus que o Espiritismo apresenta é um Pai de clemência, infinitamente Bom e a Expressão Máxima da tolerância e da brandura.

Deixemos, pois, de lado o Deus-inquisitorial da Idade Média; o Deus dos antigos israelitas, consubstanciado no Jeová dos Exércitos; os deuses dos antigos povos politeístas, e consagremos a imagem de um Deus Onipotente, Onisciente, Eqüitativo e Bom.

Abandonemos o Deus que se fecha num paraíso exclusivista, que se compraz no gozo de ladainhas intermiináveis, que se deleita com as preces de homens intolerantes e eivados de maldade, e exaltemos o Pai Infinito que abre as portas dos páramos mais elevados do Grande Além, não apenas para receber as "almas eleitas", mas, precipuamente, enviar os grandes missionários da luz, para recolherem as almas falidas nos escabrosos caminhos da vida.

Posterguemos o Deus das adorações contemplativas, e alegremo-nos por termos por Pai um Deus que é todo vibração, trabalho, amor e ação.

Devemos sentir em nossos corações um Deus que quer mais a ação, e coloca em segundo plano a adoração por parte dos seus filhos.

É óbvio, na narrativa evangélica, que o Filho Pródigo representa os que Deus coloca nos caminhos da vida, para o aprendizado comum, e que, por uma razão ou outra, vem a falir no desempenho das tarefas peculiares ao processo evolutivo.

Em outras palavras, o Filho Pródigo da parábola simboliza a parcela de criaturas humanas que é cumulada de bens para o desempenho satisfatório de determinada tarefa e que, por invigilância, prevaricação ou desídia, vem a fracassar, retomando ao mundo espiritual sem ter praticado os atos meritórios, mas como "um morto que reviveu", dotado de experiência suficiente para poder prosseguir a sua tarefa ascencional rumo ao Criador, em futuras vidas na Terra ou em "outras moradas da casa do Pai". Tudo isso confirmando o dizer evangélico de que "há mais alegria nos Céus por um pecador que se regenera, de que por noventa e nove justos que perseveram no caminho do bem".

O irmão do Filho Pródigo, por outro lado, representa a outra parcela de seres humanos: aqueles que se encastelam nas muralhas dos dogmas, julgando-se os únicos herdeiros das coisas celestiais e os monopolizadores da verdade, arrogando-se ao qualificativo de "eleitos" ou "escolhidos", jamais tolerando que os seus irmãos, que eles qualificam de "hereges" venham a ser, um dia, recebidos na Casa do Pai com o mesmo amor e carinho a eles dispensados.

Esses homens avocam a si o título de herdeiros do reino de Deus, fazendo-o simplesmente pelo fato de se assentarem nos bancos das igrejas e templos da Terra, cumprindo exteriormente as ordenações que suas religiões prescrevem, revoltando-se intimamente pelo fato de Deus cobrir com o Seu infinito amor todos aqueles que "estiveram sobrecarrregados" nos caminhos da vida, mas que uma experiência tardia levou de volta ao roteiro do bem.

Foi a atitude egoística de homens dessa estirpe, que levou o Cristo a proclamar: "Muitos virão do Oriente e do Ocidente e assentar-se-ão ao lado de Abraão, de Isaac e de Jacó, no reino dos Céus".

Foi a demonstração de falta de amor desses homens, que levou o Cristo a exclamar: "Os publicanos e as meretrizes entrarão no reino dos Céus adiante de vós".

Paulo Alves Godoy

4 - PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO - THEREZINHA OLIVEIRA

Por derradeiro, na terceira história, Jesus coloca como elemento central o maior valor que podemos conceber: um ser humano, alguém como nós mesmos, e narra a comovente história de um pai e seus dois filhos, que examinaremos a seguir.

Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse ao Pai:
- Dá-me a parte dos bens que me toca.
E o pai repartiu os seus haveres entre ambos.

Segundo a lei mosaica, entre os judeus, os bens de um casal dividiam-se por herança entre os seus filhos. Mas não igualmente. O primogênito, o nascido primeiro, o mais velho, geralmente gozava os direitos de sucessão na família (tornava-se o seu chefe e representante) e herdava em dobro (uma parte a mais do que seus irmãos). No caso, sendo dois os filhos, a divisão seria em três partes: uma terça parte para o mais moço e as outras duas partes eram do irmão mais velho.

O pedido do mais moço, dá-me a parte dos bens que me toca, é típico dos muito jovens. O jovem anseia pela liberdade de ação, por fazer o que quiser, sem controle de ninguém. Capacidade para gerir o patrimônio? Acha que tem. Responsabilidade? Ainda não pensou nisso. Não avaliou se custou ao pai produzir e juntar os bens, nem para que, como e quando devem ser usados. Só entende que tem direito a uma parte desses bens e deles quer usufruir livremente.

'E o pai repartiu os seus haveres entre ambos. Costumava ser pela morte dos pais que os filhos herdavam e o pai ainda não morrera.. Há pais que seguram demais a herança e acarretam problemas entre os seus descendentes e herdeiros. Não era assim o pai da parábola. Além de justo, revela-se bom e generoso, pois acedeu, ainda em vida, em calcular o que caberia a cada filho e entregar ao jovem a sua parte.

Poucos dias depois, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo.

Não demorou nada, poucos dias, para o moço abandonar a casa do pai. Natural, era jovem, inexperiente... E, assim que se viu na posse de seus bens, saiu, se aventurou, partiu para um país longínquo. Quase podemos visualizar a figura do jovem na estrada. Lá vai ele! Nos alforjes carregados, leva a sua parte da herança. E até lhe desejamos: — Aplique acertadamente, moço, e manterá suas posses. Quem sabe poderá, até, multiplicá-las!
Mas ele era jovem, inexperiente...

E ali desperdiçou os seus bens...

Ah, em desregramentos, excessos de toda sorte! Com tal comportamento, não há dinheiro que chegue, saúde que resista, situação social que não se abale.

Quando já havia dissipado tudo,
grande fome assolou aquele país e
ele começou a passar privações.

Fazendo o que queria, porque queria, como e quando queria, esbanjou tudo! Em consequência do mau uso de sua liberdade, veio o momento difícil e começou a passar privações...

Então, pôs-se a serviço de um dos habitantes do país.

Subordinou-se a outrem, perdeu sua autonomia. Pôs-se a serviço. De quem? De um dos habitantes daquele país. Mas era um país longínquo, afastado, distante...Como seriam os seus habitantes? Não como os judeus. De sentimentos e costumes muito diferentes dos que o jovem conhecera na casa de seu pai

...o qual o mandou para seus campos a guardar porcos.

Naquele país longínquo, dissipou todos os seus bens. Gastou tudo, tudo! Sem controle nem proveito. Por isso é denominado de pródigo, ou seja, esbanjador, perdulário.
Como foi que gastou tudo tão depressa?

Um trabalho como outro qualquer? Não para os judeus. Para eles, o porco era um animal impuro, por se alimentar de sobras de comida, de coisas podres, o que quer que satisfaça a sua voracidade, e sua carne não deveria ser comida. Os judeus não lidavam com esse animal. Quem criasse ou guardasse porcos não poderia, sequer, entrar no Templo de Jerusalém, e só poderia casar com mulher da mesma profissão. Guardar porcos era, pois, a condição mais aviltante a que um judeu poderia chegar. E nessa condição se encontrava o jovem da parábola, no ápice da degradação!
Trabalhando, fazia jus a um salário, certamente muito pequeno, pago diariamente mas somente ao fim da jornada de trabalho. Durante o dia, o moço deveria sentir fome.

Aí, muito desejaria ele se fartar com a comida que os porcos comiam mas ninguém lhe dava.

Era pago para cuidar dos porcos, não para comer a comida deles. Dos porcos, o dono tinha cuidados, pois lhe rendiam algo; com o moço não se preocupava, era apenas um serviçal.
Em que dolorosa situação estava o moço judeu! A narrativa de Jesus deveria estar causando grande impacto, emocionando aos seus ouvintes.

Afinal, caindo em si, o moço disse:
Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura e eu aqui estou morrendo de fome!

Afinal! Depois de muito sofrer, o moço analisou sua triste situação, lembrou como era diferente na casa de seu pai; lá, nem mesmo um simples servo passava fome.
Adiantaria ficar se lamentando, se acusando? Pensou no que fazer para sair daquela situação.

Levantar-me-ei, irei a meu pai e lhe direi:
- Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados.

Uma decisão acertada e corajosa. Baseada em arrependimento sincero e muita humildade.

E levantándose foi ter com o pai....

Raciocinou, compreendeu, decidiu e agiu. Se não agisse de acordo com o que entendera, continuaria lá, na mesma situação, apesar de já estar arrependido.

O moço não teve medo do pai. Conhecia-o, sabia que era bom. Levantou-se e se pôs a caminhar de volta para casa. . "

Vinha ele ainda longe quando o pai o viu...

Não havia concluído a caminhada de retorno, estava ainda longe, mas o pai o viu! Como? Olhava a estrada, pensando nele, esperando-o. Quando o viu, lá Ionge, vindo pela estrada, em andrajos, os passos trôpegos, aspecto abatido...

...e tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, abraçou o e o beijou.

Que atitude terna e amorosa Jesus põe no pai da parábola!

E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti. E já não sou digno de ser chamado teu filho.

Estava cumprindo o que, intimamente, se prometera: demonstrar seu arrependimento. Às vezes, prometemos e não cumprimos... Humildemente, ia pedir ajuda, nova oportunidade. Conforme o discurso que preparara, ainda iria dizer: Trata-me como a um dos teus empregados.

Mas o pai disse aos seus servos:
- Trazei depressa a melhor roupa e o vistam. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés;

O pai não o deixou terminar o discurso e, de imediato, atendeu as maiores carências do jovem, restaurando-o no seu verdadeiro estado: o de filho. Veste e anel de família lhe devolviam a identidade e o valor, sandálias lhe protegiam os pés feridos na caminhada. E fez mais!

Trazei, também, um novilho gordo, matai-o, comamos e regozijemo-nos...

Era costume judeu manter um novilho cevado, gordo, e matá-lo numa grande ocasião, a fim de demonstrar alegria, ou para homenagear pessoa importante na sua chegada.
Por que fazia o pai tanta festa e demonstrava tanto contentamento?

Porque este meu filho estava morto, e reviveu. Tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se.

Saibamos cultivar alegria com o bem que nos suceda.

E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio e chegou perto da casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo.
- Veio teu irmão; e teu pai matou o novilho gordo porque o recebeu são e salvo.

Entrou em cena o filho mais velho. Seria de se esperar que fosse mais experiente, mais maduro. Porém, informado de que o irmão voltara são e salvo e por isso o pai estava alegre, qual a sua reação: alegrou-se, também?

Mas ele se indignou, e não queria entrar.

Não gostou e demonstrava seu descontentamento, com a recusa de entrar na casa.

E, saindo o pai, instava com ele.

O pai veio insistir com o filho mais velho para que entrasse. Amava os dois, queria ambos em sua casa.

Mas, respondendo ele, disse ao pai:

Vai explicar do que não gostou, porque está indignado.

Eis que te sirvo há tantos anos sem nunca transgredir o teu mandamento e nunca me deste nem um cabrito para alegrar-me com os meus amigos.

Começa enunciando como é bom e as suas qualidades: não se ausentou, sempre cumpriu as ordens do pai com perseverança (há tantos anos). E se queixa de que não recebeu nenhuma compensação especial.

Vindo, porém, este teu filho que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o novilho gordo.

Aponta as falhas do irmão, os prejuízos que causou. Acha injusta a comemoração especial e honrosa pelo seu retorno. Parece-nos justa sua reclamação? Sim, se o nosso senso de justiça for duro, como olho por olho, dente por dente. Mas, nesse critério de justiça dura, o pai poderia dizer: Serviu obedientemente? Não fez mais do que seu dever. Não lhe dei um cabrito!... Quantos você já comeu nesta casa em que participa de tudo? Não era seu dever se alegrar com a recuperação de seu irmão? Em vez disso, fica lhe apontando as faltas!

Mas o pai não é dessa justiça dura e fria. Amoroso, quer que o filho mais velho compreenda e sinta como ele, por isso lhe fala:

Filho, tu estás sempre comigo e todas as minhas coisas são tuas. O teu irmão estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado. Era justo alegrarmo-nos e folgarmos.

Ou seja, você partilha de tudo, sempre, aqui comigo. Seu irmão, porém, experimentou muitas dores e carências. Somente agora, ele está podendo se sentir bem de novo, volta a gozar a felicidade de estar em casa Devemos nos alegrar!

O irmão mais velho não pensara nem sentira nada disso. Em sua justiça (egoísta, invejosa, agressora), queria a condenação do outro e a sua própria exaltação.

Não era assim que estavam agindo os escribas e fariseus? Diziam-se mais conhecedores e cumpridores das leis divinas mas não tinham amor nem piedade para com seus irmãos ignorantes, fracos e infelizes. Julgavam mal a atitude benevolente de Jesus para com os que se haviam desviado do bom caminho, e murmuravam: Ele recebe pecadores e come com eles. Não entendiam que o Filho do Homem veio: salvar o que estava perdido, chamar ao arrependimento não os justos mas os pecadores, curar não os sãos mas os enfermos. (Lucas 19:10 e Mateus 9:12/13)

No simbolismo das três parábolas: da dracma e da ovelha perdidas, bem como na do filho pródigo, Jesus acabara de dar à murmuração dos escribas e fariseus, a mais cabal, clara e luminosa das respostas: manda o amor que se procure resgatar quem está espiritualmenie desorientado.

Aplicando a parábola à nossa atualidade

O Pai e os filhos

O pai é Deus, a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas, o Criador. Os filhos somos nós, os espíritos, seres que Deus criou à sua imagem e semelhança, quanto à natureza espiritual (inteligência, sentimento e capacidade de ação), filhos aos quais ama e de que cuida com sabedoria, nos prevendo e provendo do necessário.

A herança

Nossa herança é o Universo inteiro (mundos, coisas e seres), tudo o que Deus criou e, como pai generoso, partilha com seus filhos, nós, os seres espirituais, seus herdeiros e co-herdeiros com Jesus Cristo, no dizer do apóstolo Paulo (Romanos 8:17).

Espíritos imortais a progredir incessantemente, já vivemos muitas vidas corpóreas, renascendo em épocas, lugares e povos diversos, ocupando, em cada existência, esta ou aquela condição. Ao fim do processo evolutivo, todos teremos experimentado, igualmente, as mais variadas situações que a vida humana pode oferecer. Agora, neste momento, estamos numa determinada situação.

Qualquer que ela seja, é tão útil e necessária ao nosso progresso intelecto-moral como as que já vivemos em encarnações passadas ou as que ainda iremos viver, em encarnações futuras.

A vida no Universo e suas imensas possibilidades! Eis o patrimônio divino de que todos nós podemos usar, usufruir, cada qual a seu tempo, cada qual na medida de sua evolução, conforme o que já é capaz de pensar, sentir e agir, mas que nenhum de nós pode deter em suas mãos indefinidamente, como se fosse de sua propriedade pessoal, particular.

Que estamos fazendo com o que temos, sabemos e podemos? Como difere de pessoa para pessoa o aproveitamento! No entanto, o que estamos fazendo com os bens de que dispomos é o que nos importa, pois estará trazendo resultados desiguais (bons ou maus) e definindo o nosso futuro espiritual. A cada um segundo suas obras. (Mateus 16:27)

Dois são os filhos

Por que não agem os espíritos igualmente? Não tiveram todos um mesmo princípio, tendo sido criados simples e ignorantes? Não evoluem por um processo semelhante, através de experiências corpóreas e no Além? Não rumam todos para uma mesma destinação, a perfeição e a felicidade? Sim, mas não se individualizaram todos na mesma época, há espíritos mais "moços" e mais "velhos". Nem todos aproveitaram igualmente as oportunidades, há espíritos mais e menos evoluídos. Essa diferença de idade e experiência entre os espíritos, fica bem simbolizada na parábola por serem dois os filhos, cada qual agindo conforme o seu grau de desenvolvimento.

O mais moço

O espírito pouco evoluído, inexperiente, imaturo, anseia dispor livremente de ação no Universo. Quer ter, usar, gozar logo tudo que puder.

Já saberá por que e para que Deus criou o Universo? Como, quando, quanto e para que deve esse patrimônio divino ser usado? Já terá plena consciência de que seus atos produzem efeitos pelos quais é responsável?

Provavelmente, não. Mas, como o filho mais moço da parábola pedia a seu pai, dá-me a parte dos bens que me toca, o espírito pouco evoluído pede a Deus: Deixa eu viver como eu quero. E Deus deixa! Permite ao espírito, mesmo inexperiente, no plano espiritual ou como encarnado, usar livremente das situações que a vida enseja, na medida de suas próprias possibilidades. Porque o espírito precisa se desenvolver e só poderá progredir intelectual e moralmente se exercitar livremente suas potencialidades.

Não há perigo de ele retroceder? O que já desenvolveu, não perde mais. Nem de degenerar? Nossa essência espiritual não degenera. E se exorbitar prejudicialmente com seus atos? Os mecanismos naturais das leis divinas mantêm a ação do espírito em limites providenciais. E a chance de ele acertar, produzindo o bem, é grande; bastará aplicar corretamente os bens recebidos.

Saindo da casa do Pai

Entretanto, quando o espírito pouco evoluído se sente com liberdade de ação sobre os bens da vida, podendo escolher por si mesmo o rumo a dar para a sua existência, o que acontece, geralmente? Como o jovem da parábola, ajunta tudo o que é seu (vale-se de tudo que é ou tem ao seu dispor) e deixa a casa do Pai (afasta-se do que é espiritual). Quando encarnamos nesta nova existência: recebemos um corpo novo, família, passamos a ter acesso a tantas coisas e pessoas!... E o que fizemos com tudo isso?

Pela estrada da vida corpórea, lá vai o espírito pouco evoluído! Está cheio de vitalidade, pleno de forças, rico de tempo! Mas se afastando, cada vez mais, do que é espiritual e rumando, voluntariamente, para o materialismo, país longínquo, muito distante da espiritualidade. Começa a viver só para a matéria, buscando conquistar coisas terrenas mais e mais, lançando-se às sensações físicas, no afã de gozar tudo dos sentidos. Acredita que, no campo da vida terrena, pode fazer o que quer, porque quer, como e quando quer, sem qualquer consequência, sem responsabilidade. Deixa-se encantar pelas ilusões e arrastar pelas paixões...

Como gasta nisso suas energias, fluidos, corpo e tempo! Gasta loucamente, tudo! tudo! Sem nada produzir de realmente proveitoso para o seu eu imortal. Que grande pródigo, esbanjador dos recursos divinos, é o espírito que vive apenas para a matéria e somente para o momento que passa!

A subordinação e a fome

Mas, com os desvios e excessos materiais e morais: as energias se exaurem sem que se faça a devida reposição; a saúde física se desgasta e abala; os fluidos perispirituais se alteram prejudicialmente.

Espíritos inferiores se aproximam do esbanjador, atraídos por seus pensamentos, sentimentos e atos também inferiores, e passam a influenciá-lo dominadora e perniciosamente, a ponto de se tornarem seus amos e ele seu servo, levando-o a viciações físicas e espirituais: prostituição, crueldades e violências, práticas indignas e criminosas... Tudo muito impróprio de um filho de Deus, coisas "imundas" e tão aviltantes para o espírito humano como degradante era, para o jovem judeu, cuidar de porcos.

O tempo passa, o desencanto chega, a insatisfação, o desânimo... Complexo de culpa, tristeza, insegurança, medo, angústia... Uma indizível sensação de esvaziamento (orgânico e psíquico). É a fome da alma!

Que podem os seus comparsas e dominadores oferecer para lhe preencher esse vazio na alma? Nada! Nem mesmo lhe prestam um mínimo daquela atenção que dão aos seus "porcos" (seus interesses impuros). Para eles, a pessoa dominada é, apenas, um instrumento de que se servem para os seus propósitos.

Pobre espírito esbanjador de seus valores divinos, agora subjugado a seres e práticas inferiores! Maltratado, sofredor, faminto de fé, de paz, de amor!

Quanta gente há, neste mundo, vivendo assim em dolorosa e infeliz subjugação espiritual! E são nossos irmãos, filhos de Deus, seus herdeiros e co-herdeiros com Jesus Cristo!

Caindo em si

Depois de muito sofrer (só então!), o moço da parábola, afinal, caiu em si. "Quem não vem pelo amor, vem pela dor", a qual tem função providencial. A dor física resulta da sensibilidade do sistema nervoso e nos ajuda a identificar e reconhecer, no próprio corpo, limites e carências, qual região está afetada; alerta-nos para que tomemos providências necessárias à restauração do bem-estar. A dor moral vem da nossa sensibilidade como espíritos e nos alerta sobre o que nos esteja trazendo prejuízos, quais as nossas carências, a fim de que atendamos ao necessário, corrijamos o erro, retomemos o equilíbrio.

Pessoas há que, ao caírem no sofrimento, ficam revoltadas e querem culpar a Deus pelos seus padecimentos. Foi o pai que colocou o jovem em situação difícil e dolorosa, à mercê de criaturas sem piedade? O pai só lhe deu bons valores. Ele é que não os soube empregar, desgastou-se em atividades inferiores e se entregou à dependência de criaturas más. As condições do meio ambiente o levaram a isso? Ele é que se afastou da conduta correta, aceitando a má influência sem lhe opor resistência, como poderia e deveria fazer. As condições do ambiente sugerem, estimulam, mas não obrigam. Jesus desafiava aos maus: Quem me convence de pecado? (João 8:46)

A vida terrena enseja certas provas e lutas, que são naturais nela e apropriadas ao nosso estágio evolutivo. Não constituem fardo pesado demais para nossos ombros. Nós as podemos evitar, superar ou suportar. Quando, porém, nos afastamos da lei de Deus, caímos em situações mais difíceis que o normal, muito dolorosas e angustiantes.
Por desvios assim, nesta ou em encarnações anteriores, é que surgiram os graves problemas que ora enfrentamos, o desencanto e a insatisfação que costumamos sentir. A fome na alma!

Comparando

Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura e eu aqui estou, morrendo de fome! refletia o filho pródigo. Vivendo segundo as leis de Deus, a mais simples criatura, o mais humilde servidor espiritual, sempre estará suprido, abastecido do que é essencial para a vida do espírito: energias, fluidos bons, fé, esperança, amor e paz. Na casa do Pai, há trabalho, disciplina, deveres, responsabilidades mas, fome na alma? Jamais!

E decidindo

Na parábola, Jesus aponta a atitude correta para quem, sofrendo, teve a consciência despertada: Arrependimento sincero, humildade, propósito de reaproximação espiritual. Sem medo de Deus, confiando em sua bondade.

Cairbar Schutel (Parábolas e Ensinos de Jesus), comenta que, se, às vezes, perdemos a condição de filho, Deus nunca perde a condição de Pai de todas as criaturas. Como e onde estejam os espíritos, seus filhos, na vida terrena ou no espaço, neste planeta ou em outro, num corpo de carne ou em corpo espiritual, o Pai a nenhum despreza, a nenhum abandona, a todos sempre ama.

Agindo

Reerguer-se e caminhar de retorno compete à pessoa. Ninguém pode fazer isso por ela. É do seu livre-arbítrio, depende de sua vontade e esforço. Nos centros espíritas, por exemplo, tudo está aparelhado para a prestação de assistência espiritual às criaturas. Mas a pessoa tem de querer receber essa assistência e ir mesmo até lá, vencendo dificuldades, superando tentações. E, estando na casa espírita, deve prestar atenção às orientações doutrinárias e evangélicas que ali ministram, procurando vivê-las e colaborar nas atividades do bem.

Colocando no pai da parábola a atitude compassiva e amorosa para com o filho pródigo, Jesus quer nos assegurar que Deus nunca rejeita nem condena as suas criaturas, aguarda sempre que o filho que se extraviou queira voltar. E todos, um dia, voltam ao bem, ao regaço do Pai. A obra divina não se perderá. Comenta Cairbar Schutel, na mesma obra: "Não há falta por maior que seja, que não se possa reparar; assim como não há nódoa por mais fixa que pareça que não possamos apagar. Tudo se retempera, tudo se corrige, tudo se transforma, do pequeno para o grande, do mau para o bom, das trevas para a luz, do erro para a verdade! Tudo se lipa, alveja e reluz ao atrito do fogo sagrado do progresso, tudo se aperfeiçoa, tudo evolui, todas as almas caminham para Deus!".

E, quando a pessoa inicia a sua parte, Deus vai-lhe ao encontro, se apressa em ampará-la no seu retorno, abrindo-lhe com todo o amor as portas da regeneração, facultando-lhe, de novo, o que lhe seja necessário para o grandioso trabalho do aperfeiçoamento.

Leis divinas incessantemente transbordam o bem, em todo o Universo. Leis e forças estão prontas, ao dispor dos seres espirituais, filhos de Deus. Corretamente acionadas, logo produzem bons efeitos. Pedi e se vos dará, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á... (Mateus 7:7).

Nas reuniões mediúnicas, os bons espíritos acolhem em nome de Deus os espíritos sofredores, restauram-lhes as energias, recompõem-lhes o perispírito, confortam-nos e lhes fortalecem o ânimo. E' o fazem como quem mata o novilho gordo, ou seja, em clima de festa espiritual.

Por que a alegria?

Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi achado. Espírito se perde? Sim, quando, no caminho da evolução se desvia, complicando o próprio destino. E morre? Sim, quando se entrega ao materialismo, porque se anula quanto à atividade espiritual superior, não participa das belezas da vida espiritual. E como se, em espírito, não estivesse vivendo. Deixai que os mortos enterrem os seus mortos. (Mateus 8:22) Mas se volta a agir acertadamente, revive! Se de novo pensa e sente o bem, é achado! Meditemos e oremos e cultivemos bons pensamentos e sentimentos. Eles produzem efeitos fluídicos, vibrações, sinais, que evidenciam o que se passa no íntimo da criatura.

E assim por essa movimentação íntima que, nas regiões trevosas do Além, caravanas socorristas identificam os espíritos que já estão em condições de melhora e procedem ao seu resgate. E com que alegria o fazem! Há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não precisam de misericórdia. (Lucas 15:7) Céu são os planos elevados da espiritualidade. Os bons espíritos que o habitam trabalham para que se cumpra, em si mesmos e nos outros, a vontade de Deus. E a vontade de Deus é que todos os seus filhos evoluam, alcançando a perfeição e, com ela, a felicidade decorrente.

Justo é o espírito que está progredindo bem, agindo de acordo com o programa evolutivo. Ele não precisa de misericórdia, prossegue feliz, ao amparo das leis divinas. Isso é bom e há natural contentamento no Além, pelo seu bem-estar e seu progresso. Pecador é o espírito que está desviado do bem. Forçosamente em sofrimentos, porque sua inércia e seus erros provocam consequências infelizes e dolorosas. Mas, se começar a reagir acertadamente, deixará de sofrer, voltará a se sentir bem. Nele recomeçará a ser alcançado o objetivo divino de progresso e felicidade para todos os seres. Não é motivo de grande alegria espiritual? Sim, para quem entende os desígnios divinos e com eles concorda, quem tem amor e compaixão para com o seu semelhante.

Discordando

Mas o filho mais velho não entendia assim. Achava que, por haver errado muito, por haver se comportado mal, o irmão nada mais merecia de bom, enquanto ele próprio, que se comportava bem, merecia recompensa e ainda nem recebera. Por isso, se indignou, e não queria entrar em casa.

Ainda bem que é Deus que nos julga e não os homens, porque Deus nos avalia com justiça mas, também, com misericórdia. Que todo aquele que se dispõe a recomeçar seja acolhido com amor e alegria! Essa é a vontade divina. E os bons Espíritos a cumprem sempre na Terra e no Céu.

Há quem não consiga entender nem aceitar a ideia de um Deus bondoso assim. Preferem um Deus vingativo, que jamais perdoa os pecadores e os condena a sofrerem por toda a eternidade. Pensam: Tivemos de nos esforçar muito para servir a Deus, cumprindo as suas leis. E os pecadores, que erram tanto, vão ser perdoados, ajudados, receberem tanto quanto nós? Não é justo!

Quem pensa assim, também está se colocando fora da casa do Pai, por discordar da lei de amor universal. Deus, porém, que ama a todos os seus filhos, também o ama e procura trazê-lo de volta a uma plena convivência. Filho, tu estás sempre comigo e todas as minhas coisas são tuas.

Quem segue, fiel, as leis divinas sem se afastar do sentido espiritual da vida, está sempre com Deus, sob sua proteção; na medida do que já sabe e pode, está desfrutando do divino patrimônio universal, sem que nada lhe falte espiritualmente: segurança íntima, paz na alma, progresso constante. De que se queixa? Que mais poderia desejar? O Senhor é meu pastor, nada me faltará. (Salmos 23:1)

Seu irmão errou muito, é verdade, mas, também, muito sofreu. Dores e males que você nunca experimentou! Somente agora está retornando ao equilíbrio. Vai se reajustar, recuperar, voltar a progredir, produzir o bem! Não é motivo para que nos alegremos?

Que filho somos?

O pródigo? Mergulhados no materialismo e no imediatismo, gastando sem controle e sem proveito maior energias da alma, recursos espirituais, tempo e vida? Arrependamo-nos e, quanto antes, iniciemos o retorno à casa do Pai, procurando melhor ajuste com as leis divinas.

O irmão mais velho? Correto mas impiedoso, sem compaixão para com quem erra e sofre? Aprendamos com a bondade divina a acolher bem os que estão querendo voltar (na família, na comunidade).

Não é endossar atos maus ou pactuar com erros nem permitir que invadam nosso ambiente com hábitos maus. Mas é:

• ajudar a que pensem sobre a sua própria situação;

• mostrar que podem se reerguer moralmente;

• estimular o esforço pelo reequilíbrio;

• amparar com amor quem está fazendo a longa, difícil e trabalhosa viagem de volta, até que recupere a dignidade de filho de Deus, revestindo-se novamente de valores espirituais.

Alegremo-nos!

E quando alguém estiver conseguindo sentir de novo o bem-estar na alma porque voltou, enfim, à casa do Pai, ao clima de fé, paz e amor, onde, por mercê divina, já estamos habitando, alegremo-nos todos! Festejemos espiritualmente! Este filho de Deus, este irmão nosso, estava morto na inércia e no erro e reviveu para a prática do bem! Estava perdido nos anseios e sensações inferiores e foi achado, pelo seu desejo de redenção espiritual! Louvado seja Deus!

THEREZINHA OLIVEIRA
CAIR EM SI

- Parábola do Filho pródigo:
Cair em si

Lucas, 15:11-24

Tinha dois filhos aquele homem rico, senhor de muitas terras...
Um dia o mais moço, certamente cansado das disciplinas a que era submetido na casa paterna, disse-lhe:

- Meu pai, quero minha parte na herança.

Bem merecia severa reprimenda por sua petulância. Era herdeiro, não o dono.
Sabiamente, porém, o pai considerou que era chegado o tempo do filho ter suas próprias experiências.
Deixaria o aprendizado suave no lar e teria mestra bem mais rigorosa - a Vida.
Segundo a lei, quando eram apenas dois filhos, o primogênito herdava dois terços dos bens.
Assim, o filho mais moço recebeu um terço, juntou seus pertences e partiu para um país distante, o mais longe possível.
Não queria os olhos paternos sobre ele.
Ansiava por desfrutar plena liberdade.
Engano frequente, próprio da juventude - desprezar a experiência dos mais velhos.
Logo se cercou de amigos... do seu dinheiro.
Viveu prodigamente, gastando muito sem economizar nada, sem investir, empolgado pelos prazeres imediatistas.
Em pouco tempo dissipou seus haveres.
Com eles perdeu os supostos amigos.
Viu-se só, sem recursos.
Era época de depressão, país assolado pela fome.
Depois de muito procurar, tudo o que conseguiu foi um serviço no campo - guardador de porcos. Suprema humilhação para um judeu - cuidar de animais considerados "imundos" em suas tradições religiosas.
Vivia miseravelmente, com inveja até dos suínos sob seus cuidados. Bem tratados, recebiam rações abundantes de alfarroba, uma vagem adocicada e nutritiva.
Quanto aos servos, chegavam a passar fome. Eram descartáveis... Sobrava a oferta de mão-de-obra.
Afinal, depois de muito sofrer, o jovem caiu em si.
Reconheceu que cometera um grave engano.

- Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui estou, morrendo de fome!

E decidiu:
- Regressarei à casa de meu pai. Chegou até a pensar no que diria:
- Pai, pequei contra o Céu e diante de ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um de teus empregados.

Deixou a fazenda e partiu.
Viagem longa e sofrida, sem dinheiro, sem acompanhantes, sem serviçais, sem carruagem... Transpôs a imensa distância a esmolar alimento e pousada.
Finalmente, depois de muito caminhar, chegou ao fim da jornada. Exausto, faminto, roupas esfarrapadas, cabelos e barba em desalinho, mais parecia um mendigo. Coração a pulsar agitado, emoção incontida, aproximou-se do lar.
O pai certamente fora avisado de sua presença, pois veio correndo ao seu encontro. Sem uma palavra de admoestação ou queixa, deu-lhe apertado abraço e o beijou carinhosamente.
O filho, em lágrimas copiosas, extravasando arre¬pendimento e saudade, ajoelhou-se.
- Pai, pequei contra o Céu e diante de ti! Já não sou digno de ser chamado teu filho...

Adivinhando que o jovem pretendia submeter-se à suprema humilhação de ser acolhido como simples empregado, o pai não o deixou prosseguir. Ergueu-o de encontro ao peito e, transbordante de felicidade, dirigiu-se a seus servos:

- Trazei-me depressa a melhor túnica e a vesti em meu filho; ponde-lhe o anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei também o novilho cevado. Preparemos uma festa. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.

A melhor túnica, longa, de fino linho, era reservada para acontecimentos especiais.
O anel, com pedra preciosa engastada, era usado pelas pessoas de classe social elevada.
Os calçados distinguiam os senhores dos servos. Estes andavam descalços.
Aquelas recomendações significavam que o jovem não fora rebaixado a simples servo.
Era o filho muito amado de retorno ao lar.

***

Temos aqui a famosa Parábola do Filho Pródigo, a mais notável de quantas Jesus contou.
E tão bela quão simples. Fácil de ser interpretada.

O pai generoso é Deus. Seu filho, o ser humano.
No estágio de evolução em que nos encontramos, alma adolescente, imaturos e orientados pelo egoísmo, malbaratamos as dádivas divinas.
Tomamos nossa herança, simbolizada pelos valores da inteligência e o tesouro do tempo, e nos afastamos da casa paterna, isto é, da disciplina e do discernimento, que sustentam a comunhão com Deus.
Empolgados por enganosas promessas de prazer, conforto, riqueza e poder, com que o mundo nos acena, resvalamos para o imediatismo terrestre, na rotina do comer, dormir, vestir, trabalhar, procriar, divertir-se...
Avançamos por estéreis campos de indiferença em relação aos objetivos da vida e dissipamos as oportunidades de edificação como quem joga fora imensa fortuna.
Quando surgem as atribulações, os períodos de crise, de dificuldade, em que a vida testa nossas aquisições ou exige a reformulação de nosso comportamento, ei-nos à semelhança do homem imprevidente, que não se preparou na abundância para os dias de escassez.
Espírito vazio de ideais, coração atrelado às sombras, sentimo-nos quais mendigos de paz, atormentados por dúvidas e aflições, em clima de infelicidade crônica.
E invejamos pessoas que sob o ponto de vista humano parecem inferiores - têm menos dinheiro, são incultas, estão em posição social humilde -, mas detentoras da única riqueza autêntica, pela qual daríamos tudo o que temos: um coração em paz!
A semelhança do filho pródigo, poderíamos considerar:

- Quantos humildes servidores de meu pai têm o pão da tranquilidade, enquanto eu me alimento de inquietação.
E que eles permanecem na casa paterna
Estão em comunhão com o Pai, a exprimir-se nos valores do sacrifício e da renúncia, do trabalho e da abnegação.
Cumprem fielmente seus deveres, particularmente o de comportarem-se como filhos do Altíssimo.

***

Para saber a que distância estamos do Senhor da Vida, basta examinar nosso íntimo.
Se há inquietação, tensão, angústia, insatisfação, tristeza, depressão, desajuste, é porque permanecemos afastados da casa paterna.
O filho pródigo caiu em si, segundo a expressão evangélica, isto é, reconheceu seus enganos, a necessidade de procurar o pai.

Glorioso e decisivo momento!
Felizes os que caem em si, os que se dispõem a mudar de rumo enquanto no trânsito terrestre.
Multidões o fazem apenas no plano espiritual, depois de prolongados padecimentos. Há, ainda, Espíritos que se demoram séculos em regiões sombrias, por não reconhecerem sua miséria moral, nem decidirem caminhar ao encontro do Criador.

***

Imperioso que esse despertamento ocorra durante a experiência humana, a fim de que a morte não nos imponha penosas surpresas. É o primeiro passo para que nos habilitemos à renovação, agilizando nossa jornada para Deus.
O caminho delineado está no comportamento religioso. Não é por acaso que o termo religião, do latim religare, significa ligar ou religar.
Esqueçamos o aspecto formal da religião, o culto exterior, a mera frequência aos templos.
Privilegiemos o conteúdo moral, a vivência dos princípios, cuja essência está nas lições ensinadas e exemplificadas por Jesus.
Diz o Mestre, em O Sermão da Montanha (Mateus, 5:8):

Bem-aventurados os que têm limpo o coração, porque verão Deus.

Sinalização perfeita, na singeleza do ensinamento. Caminhar para Deus é depurar o coração, eliminando nódoas que se sustentam nos sentimentos inferiores que caracterizam a Humanidade, no estágio evolutivo em que nos encontramos.
Podemos até avaliar nossos avanços nessa direção, considerando algumas situações:

Diante dos filhos. O homem comum:
- São indisciplinados. Precisam de castigo.
O homem puro:
- São imaturos e inseguros. Precisam de carinho.

Diante dos pais. O homem comum:
- Não sabem nada.
O homem puro:
- Tenho muito a aprender com eles.

Diante do familiar em desajuste.
O homem comum:
- E' um imbecil, tresloucado!
O homem puro:
- É o irmão que pede paciência.

Diante do pedinte.
O homem comum:
- Mais um malandro!
O homem puro:
- Em que posso ajudar?

Diante da ofensa.
O homem comum:
- Vou comer-lhe o fígado!
O homem puro:
-Não foi nada.

Diante das atribulações.
O homem comum:
- Estou farto!
O homem puro:
- Poderia ser pior.

Diante da enfermidade.
O homem comum:
- É uma tortura insuportável!
O homem puro:
- Abençoado embelezamento para a alma!

Diante de uma falta.
O homem comum:
- Negarei até a morte!
O homem puro:
- Assumo minha responsabilidade!

Diante da maledicência.
O homem comum:
- .. .E tem mais!
O homem puro:
- Não me compete julgar.

Diante da morte.
O homem comum:
- Tenho medo!
O homem puro:
- Estou pronto!

Dá para perceber que estamos mais perto do homem comum.
Não obstante, conquistaremos a pureza ideal para o encontro com Deus, se estivermos dispostos a usar esse tira-manchas infalível - o Evangelho.
É preciso "esfregar" com perseverança e vigor esse "detergente" infalível que depura nossos pensamentos, palavras e ações.
E como nos receberá o Todo-Poderoso. Com sanções severas? Com admoestações exasperadas? Com o rigor do patrão intransigente diante do servo em falta?
Não! Deus é nosso Pai e já nos amava antes que o conhecêssemos.
A parábola é muito clara a esse respeito.
Júbilos celestes marcarão nosso encontro com o Senhor que, na intimidade de nossas almas, nos procura, nos fala, nos chama, nos guia, nos espera!

Richard Simonetti


CAIR EM CIMA

Cair em Cima

Lucas, 15:25-32

A Parábola do Filho Pródigo tem um desdobramento, nem sempre observado, mas igualmente importante.
Durante a comemoração pelo retorno do filho caçula, o mais velho, que estava no campo, retornou ao lar.
Aproximando-se, ouviu música e o burburinho festivo.
Chamando um dos servos, perguntou-lhe o que estava acontecendo.

- Teu irmão voltou e teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou são e salvo.

Indignado, ele não quis entrar.
Vendo-o, o pai aproximou-se e insistiu para que participasse da festa.
Raivoso, o primogênito "caiu em cima" do genitor, a reclamar:
- Há tantos anos que eu te sirvo, e nunca transgredi uma ordem tua, e jamais me deste um cabrito para festejar com meus amigos. No entanto, veio esse teu filho, que devorou teus bens com meretrizes, e mataste para ele um novilho gordo!

O pai lhe disse:
- Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso fazer festa e alegrar-nos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi reencontrado.

Há aqui o velho problema do egoísmo, móvel das ações humanas, origem primordial de todo o mal que há no Mundo.
Sua ação é terrível.
É capaz de conturbar a instituição mais sagrada do mundo - a família.
O sangue fala alto quando envolve os desafios da existência, o enfrentar a adversidade, os problemas, as dores... O grupo familiar faz-se unido, coeso, um por todos, todos por um!
Mas, quando entra o interesse pessoal, principalmente de ordem pecuniária, envolvendo bens materiais, salve-se quem puder!
Sucedem-se brigas e discussões. O familiar toma-se inimigo. Parente vira serpente!
Os tribunais estão lotados de processos envolvendo heranças e divisão de bens.
Nesse vale tudo, os mais fortes, com mais recursos para contratar os melhores advogados e forjar situações favoráveis, acabam levando vantagem, sem nenhuma preocupação com os prejuízos que causam às pessoas do mesmo sangue. E como se não fossem da família.
Observemos como o filho mais velho, dirigindo-se ao pai, refere-se ao mais novo:

... esse teu filho...

Já não era o irmão. Apenas um estranho, um atrevido que vinha apossar-se de seus bens.

***

Num primeiro momento poderíamos dar razão ao filho mais velho. Afinal, permaneceu no lar, obediente ao pai. Deu duro, trabalhou, enquanto o mais novo desfrutava de prazeres, envolvia-se com gente de má vida.
Eis que, depois de ter gasto um terço dos bens da família, atreveu-se a retornar.
Embora o pai tenha comentado que tudo o mais era dele, sempre haveria pressão para que algo de substancial fosse destinado ao caçula, prejudicando-o.
Se analisarmos a questão sob o ponto de vista estritamente humano, considerando a justiça da Terra, o raciocínio está perfeito.
Fez! Que pague!
Se não se comportou como filho, seja servo - com muitos deveres e nenhum direito.
Ocorre que não estamos lidando com a justiça da Terra.
Trata-se da justiça do Céu, que é diferente.
No Sermão da Montanha (Mateus, 5:20), há uma observação basilar de Jesus:

Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus.

A justiça dos escribas e fariseus é a de Moisés: olho por olho, dente por dente.
A justiça proposta por Jesus tem um componente a iluminá-la - a misericórdia.
E aquela justiça que dá a cada um segundo suas obras, mas jamais discriminando o que erra, oferecendo-Ihe reiteradas oportunidades de reabilitação.
Foi essa justiça que o pai usou com o filho pródigo, já suficientemente castigado pelos sofrimentos que enfrentou, na longa jornada de retomo à casa paterna.
Tomou consciência de seus erros, sofreu as consequências, arrependeu-se, dispôs-se a mudar.
Por que, portanto, discriminá-lo?
Curioso como os homens pretendem levar a justiça torta do irmão mais velho Além-Túmulo, com a ideia das penas eternas.
Morreu em pecado, ainda que próximo de nós, ainda que ligado a nós pelo sangue, já não é nosso familiar. Perdeu a humanidade. Que se dane para sempre nas profundezas do inferno!
E onde fica a misericórdia infinita de Deus, revelada por Jesus, que pressupõe infinitas oportunidades de reabilitação?

***

Filha dileta do egoísmo é a inveja, um pecado capital capaz de remeter-nos para as profundezas do inferno, quando a morte providenciar nossa transferência para o Além.
Bem antes disso, ainda em vida, o invejoso costuma sentir-se nele.
Em sua expressão mais simples, inveja é o desejo de possuir o bem alheio e o desgosto por não tê-lo.
Acontece, frequentemente, entre irmãos.
Raras famílias não enfrentam esse problema.
Os pais vêem-se na contingência de agir com muito cuidado no lidar com os filhos, porquanto tudo o que façam por um será cobrado pelos outros. Estão sempre vigilantes, exigindo algo semelhante, sem considerar as circunstancias e as necessidades de cada um.
Tragédias, não raro, acontecem, envolvendo irmãos inconformados.
O primeiro fratricídio da história, irmão que mata irmão, está na Bíblia (Gênesis, 4:1-8):
Caim, com inveja de Abel, achando que o pai lhe dava mais atenção, conduziu o irmão a local ermo e o matou.
Quando Jeová veio perguntar-lhe onde estava Abel, deu de ombros:

-Acaso sou eu o guardião de meu irmão?

Não estava nada preocupado com a sorte dele. Muito menos com o fato de tê-lo assassinado.

A propósito, leitor amigo, proponho-lhe um teste relacionado com o cotidiano, envolvendo a inveja.
Anote os itens em que se enquadre, segundo sua idade e sexo, envolvendo família, sociedade e profissão:

• Família.
O irmão ganha um presente de nossos pais.
a) Festejamos com ele.
b) Ficamos possessos:
- Exijo algo semelhante!

Nossos pais preocupam-se com um filho. Vive aprontando. Não medem dedicação para colocá-lo no bom caminho.
a) Damos a maior força. Precisa de ajuda.
b) Vociferamos:

- Injustiça! Logo esse pilantra é o preferido?!

Nosso irmão vai muito bem na escola. Tem ótimas notas.
a) Vemos nele um exemplo a imitar.
b) Torcemos o nariz:

- É um idiota. Vive debruçado nos livros, sem tempo para viver!

• Sociedade.
A amiga compra belo vestido.
a) Elogiamos sinceramente seu bom gosto.
b) Logo o desvalorizamos:
- Não combina com você. E já notou um defeito nas costas?

Ela se casa com jovem rico, bonito e charmoso.
a) Regozijamo-nos.
b) Ficamos incomodados:
- Não sei o que viu nela!

Nasce o primeiro filho do casal.
a) Ficamos jubilosos.
b) Questionamos o Criador:

- Por que tudo para ela e nada para mim?!

O casamento conturba-se. Vem a separação.
a) Solidarizamo-nos. Sofremos com nossa amiga.
b) Experimentamos uma ponta de satisfação:
- Era muita areia para seu caminhão!

O amigo vai em viagem de férias à Europa.
a) Vibramos com ele. E' uma excursão maravilhosa.
b) Ficamos incomodados:
- Pobre metido a besta!

O amigo constrói bela residência.
a) Consideramos elogiável o seu bom gosto.
b) Fofocamos:
- De onde tirou o dinheiro? Sei não... • Profissão.

O colega de serviço faz amizade com o chefe:
a) Enaltecemos seu bom relacionamento.
b) Destilamos veneno:
- Puxa-saco desavergonhado!

Ele é prestativo e disciplinado.
a) Admiramos sua dedicação.
b) Menosprezamos seu esforço:

- Quer aparecer!

O colega de serviço recebe uma promoção.
a) Vamos cumprimentá-lo. Mereceu!
b) Ficamos indignados:
- Panela de sem-vergonhas! Fui passado para trás!


Se cravamos várias respostas no item "b", estamos mal.
Sempre que nos sentimos incomodados, deprimidos, inquietos, infelizes, irritados com o sucesso alheio, entramos nos perigosos caminhos da inveja.
É preciso mudar, reconhecendo que a felicidade tem muito a ver com a capacidade de ficarmos felizes com a felicidade dos que cruzam nosso caminho.

Richard Simonetti



A GÊNESE ESPIRITUAL DAS DOENÇAS

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO
DR. INÁCIO FERREIRA
CAPÍTULO 19

"A Parábola do Filho Pródigo", contada por Jesus e anotada apenas no Evangelho de Lucas, capítulo 15, versículos 11 a 32, para mim, é uma das mais belas e significativas. Desde encarnado, tenho me dedicado a estudá-la, em seu sentido profundo, pois que, segundo depreendo, resume toda a trajetória evolutiva do espírito, a partir de sua criação.

Relendo-a com calma, fui, então, efetuando resumidas anotações noutras folhas de papel que fariam parte de meus arquivos. No intuito de tomar o estudo mais didático, a ser utilizado em futuras palestras, reescrevia trechos da Parábola e, logo abaixo, alguns comentários alusivos aos respectivos versículos.
11 Continuou: Certo homem tinha dois filhos;
12 o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte que me cabe dos bens. E ele lhes repartiu os haveres.

O filho mais moço, provavelmente, era adolescente e, portanto, sem qualquer experiência da Vida. Reclamava independência e o Pai não protestou. Ele permutou o determinismo pelo livre-arbítrio. A compreensão em torno do segundo filho, o mais velho, é mais complexa. Subentende-se que ele delibera não sair da companhia do Pai - talvez seja uma alusão aos espíritos que permanecem na condição em que foram criados, ou seja, simples e ignorantes, já que, no final da Parábola, há uma reação de imaturidade espiritual do filho mais velho.

13 Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente.

O filho mais moço ajuntou o que o Pai lhe dera, e não o que havia conquistado a partir do próprio esforço. Quantos filhos não dissipam o que recebem por herança de seus pais? O filho mais moço já começa cometendo um equívoco: reclamando o que, a rigor, não lhe pertencia! Saiu da casa paterna, como quem sai batendo a porta, e vai viver a vida que deseja - em terra distante, imaginando estar longe das vistas do Pai! Em tradução metafísica, deixando o Plano Etéreo, ele reencarna! Mergulha, de cabeça, na experiência da reencarnação! Até então, ele não possuía carma, estava isento!

14 Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade.

Aqui tem início o carma do filho mais moço: ele sofrerá as consequências de sua atitude. Tendo tudo consumido, na vida dissoluta que passou a levar, fica sem nada e não encontra, naquele "país", com o que se alimentar. Longe de Deus, o espírito sente fome - fome de luz! O jovem começa a se inquietar, mas ainda não o suficiente para retroceder. O Pai, certamente, que conhece o desfecho da história, acompanha e abençoa o filho a distância. O Pai sabe que ele voltará! Por este motivo, consente na sua partida sem mais argumentos, para que não se entregue a tal aventura. Afinal, o filho reclamava independência!

15 Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos.

Por "um dos cidadãos daquela terra", compreendo os espíritos que já se encontravam em exílio, igualmente rebelados - espíritos que por lá se radicavam há muito tempo, sem se decidirem pelo regresso! "Habituaram-se" à estranha situação. Provavelmente, desmemoriados quanto à sua origem divina. Isto poderia acontecer àquele filho mais moço, como acontece a muitos que transformam a reencarnação num círculo vicioso e, por milênios, vivem a repisar antigas provas.

16 Ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada.

Vejamos a que o espírito pode descer! Ele se nivelara aos porcos, que, nos tempos antigos, eram tomados por símbolos de impureza. Inclusive, Mateus, no capítulo 8, versículos 28 a 34, narra o episódio dos dois endemoninhados gadarenos que viviam entre os sepulcros. Ao curá-los de semelhante estado de possessão, Jesus ordena que os espíritos que os atormentam passem para uma manada de porcos. "Alfarrobas" são espécies de vagens com que os porcos eram alimentados naquela região (não vamos entrar no mérito da questão sobre a existência, ou não, de porcos, à época, naquela região da Palestina - não nos prendamos tanto às palavras). Com tal imagem, Jesus queria dizer que a provação do filho mais moço chegara ao extremo - ele quase se animaliza!

17 Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!

Este, talvez, seja o versículo mais interessante da Parábola. "Caindo em si", quer dizer: tomando-se lúcido o suficiente para compreender que errou! Aqui, o filho mais moço para de se afundar ou de se distanciar do Pai em espírito. Ele descobre que, em Deus, não existe necessidade. Representando o Pai, Jesus nos disse: "Eu sou o pão da Vida"\ O espírito, motivado pelo sofrimento, deixa de ser jovem e começa a amadurecer-ele sai da adolescência! E o que o conhecimento espírita nos enseja: fazer com que saiamos de nossa prolongada adolescência espiritual! O Espiritismo, sem dúvida, é a doutrina do fazer "cair em si"!

18 Levantar-me-ei e irei ter com meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti;

19 já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.

A decisão de empreender a "jornada de volta" abandonar a periferia e retornar ao centro! Assumir e reparar os equívocos cometidos. Não apenas abandonar o mal, mas praticar o bem. Em suma, deixar de reencarnar sem proveito - dar um basta ao próprio carma! Jesus fora enviado por Deus à Terra para suscitar esse "cair em si" do espírito. A Misericórdia Divina não nos abandona e nunca nos deixa à mercê das circunstâncias. Jesus não se coloca na Parábola que narra, mas, ao narrá-la, Ele está la. "'Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará!" "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!". O filho, vilependido, quer renunciar à sua condição filial, mas o Pai não renuncia à sua condição paternal, como veremos.
Ele faz com que "se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos ".

20 E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou e, compadecido dele, correndo, abraçou-o e beijou-o.

É comovente este versículo. O Pai vai ao encontro do filho. À sua simples intenção de voltar, abre-lhe os braços em aconchego. Estamos a infinita distância de Deus, mas Deus não está a menor distância de nenhum de nós! Atentemos para a expressão: "correndo"... Deus tem imensa saudade de cada um de nós! "... e, compadecido dele, correndo, abraçou-o e beijou-o." Não lhe faz qualquer pergunta ou repreensão. Apenas o abraça e o beija! Por isso, no fundo do poço do arrependimento, Deus vem nos estender as mãos e nos resgatar. Este versículo me arranca lágrimas e me enche o coração de esperança. A solicitude do Criador pela Criação é algo que ainda não compreendemos. A gente não reencarna para encontrar Deus alhures, mas para encontrá-Lo dentro de nós!

21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

22 O pai, porém, disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés;

23 trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos,

E' claro que o Mestre, em suas lições à Humanidade, recorria aos costumes e às convenções sociais da época. O novilho cevado, por exemplo, era reservado para as grandes ocasiões festivas. O anel no dedo era sinal de nobreza. O Pai quer receber, regiamente, seu filho de volta. É notória a sua alegria! De fato, há mais alegria no Céu quando um pecador se converte do que quando noventa e nove justos perseveram! Outra atitude digna de destaque, conforme já o dissemos, é que 0 Pai não quer, absolutamente, saber do passado do filho. Ele se justifica por um impositivo da consciência e não porque esteja sendo constrangido a fâzê-lo. A verdade é que o filho ainda não se sente completamente redimido. A Bondade do Pai se revela maior do que ele fosse capaz de supor!

24 porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.

"Morto", quer dizer: imerso na matéria! Voluntariamente, ele havia se colocado fora de Deusl "Estava perdido" - era um espírito errante! Peregrinava por ínvios caminhos! Está escrito nas páginas de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", no capítulo XI: "O sangue resgatou o espírito e o espírito tem hoje que resgatar da matéria o homem". A matéria é o cadinho onde o espírito se acrisola! A reencarnação é indispensável à evolução do espírito.

25 Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.

26 Chamou um dos criados e perguntou-lhe o que era aquilo.

27 E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde.

Para mim, este é o trecho mais difícil de interpretar da Parábola: o ciúme do filho mais velho! Ele, o irmão mais velho, que não saíra da companhia do Pai, revela-se mesquinho e egoísta - com certeza, a fim de aprender o que o irmão mais novo aprendeu no sofrimento, deverá sair... Será que o seu amor pelo Pai seria verdadeiro, incapaz de se alegrar pelo regresso do irmão que estava perdido? Eis uma questão das mais transcendentes, envolvendo o despertar do espírito e a sua real integração com Deus. Vejamos, em seguida, como é descrita a sua reação.

28 Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai procurava conciliá-lo.
Desculpem-me, mas não resisto: ele fez birra! O pai procurava contornar a situação, o que, convenhamos, deveria fazer com umas boas chineladas astrais... Eu não sei se haveria uma alusão à ciumeira de religiosos. Ora, parece até que o Céu é pequeno demais para mais de um!

29 — Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos;

30 vindo, porém, esse teu filho que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.

Além de tudo, é respondão. Eu nunca poderia imaginar que os filhos de Deus fossem tão problemáticos quanto os filhos da gente! Ele diz, com desprezo: "...esse teu filho" - nem o chama de irmão! O texto nos leva a concluir que, sem sair de casa, a gente não volta para casa, porque não se sente em casa nem "sabe" o que é casa. Recordo-me da "Parábola dos Trabalhadores na Vinha", quando, acusado de injustiça, o dono da vinha responde: "Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?". Para quem não é feliz, a felicidade dos outros é sempre um desperdício.

31 - Então lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo que é meu é teu.

32 Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

O filho é pródigo, mas somente o amor de Deus é sempre prodigioso! O Cristo não se revela um irmão ciumento; tanto é assim, que veio nos redimir. Não obstante, na Casa do Pai, que possui numerosa família - maior do que concedeu a Abraão! - devem existir alguns com aparência de virtude. Eu não sei como termina a história, porém presumo: o filho regressou repleto de equimoses e hematomas, a vontade do Pai se impôs, a festa aconteceu, o irmão mais velho deve ter ficado com um pedaço do novilho cevado engastalhado na garganta e, até hoje, está procurando digeri-lo! Apenas uma pergunta que, sinceramente, não tenho cancha para responder: Não teria se transformado esse menino cheio de vontades num anjo rebelado?!...