Estudando o Espiritismo

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domingo, 2 de outubro de 2016

A PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO E A INDIFERENÇA HUMANA


“Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, cobriram-no de feridas e se foram, deixando-o semimorto. Aconteceu, em seguida, que um sacerdote descia pelo mesmo caminho e tendo-o percebido passou do outro lado. Um levita, que veio também para o mesmo lugar, tendo-o considerado, passou ainda do outro lado. Mas um samaritano que viajava, chegou ao lugar onde estava esse homem, e tendo-o visto, foi tocado de compaixão por ele. Aproximou-se, pois, dele, derramou óleo e vinho em suas feridas e as enfaixou; tendo-o colocado sobre seu cavalo, conduziu-o a uma hospedaria e cuidou dele...”

Parábola do Bom Samaritano, Capítulo XV, item 2 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.


Atualmente não sabemos o que nos choca mais: se o assassinato de pais pelos filhos ou se o do filho por um pai desesperado. Ficamos petrificados ao ouvir um grupo de rapazes de bom nível social declarar que só atearam fogo no índio pataxó, pois julgavam ser um mendigo.

Assistimos com imensa dor milhares de jovens e adultos se reduzirem a trapos humanos em virtude das drogas. Causa-nos compaixão verificar que tantos outros se transformaram em cabides e vitrines para as grifes da moda e em ouvidos e olhos, que mais parecem esponjas a absorver tudo o que vêem pela frente.

E nós, iludidos, achamos que permanecemos imunes a todo esse apelo que implica em milhares de imposições que nos são enfiadas goela abaixo no nosso cotidiano veloz e conturbado. Ledo engano!!!

Compramos um modelo de vida ideal, um sonho que poderia ser alcançado por todos, sem dores nem preços a pagar. Um casamento ideal, um emprego fantástico, filhos doces e submissos a nossos sonhos, casa, carro, saúde perene, uma alegria permanente, uma festa eterna... E assim fomos nos afastando da realidade, da vida simples, das nossas emoções, dos nossos limites humanos e principalmente da nossa proposta para a encarnação atual.

Enfrentamos um conflito permanente entre o que é viver de verdade, encarar nossos desafios conforme programado para nossa etapa reencarnatória e a “vida de sonhos” que o sistema econômico que nos abriga propõe e impõe. Talvez seja esse nosso maior desafio nesta jornada: nos mantermos íntegros e fiéis aos nossos propósitos de evolução, vencendo essa batalha, já que iludidos, buscamos o que a vida não nos pode dar.

Somos levados, em conseqüência desse conflito entre o real e o sonho, a tomarmos uma posição cada vez mais individualista, buscando alcançar nossos objetivos a qualquer preço e tendo isso como nosso único foco. Voltamo-nos apenas para nossos próprios problemas, nossas depressões, ódios, revoltas e insatisfações. Somos eternos famintos em busca da perfeita felicidade que nunca é alcançada, pois a procuramos sabe lá Deus em que lugar e, muitas vezes no caminho onde certamente ela não está. E nessa permanente e irreconhecida infelicidade, passamos a agir com indiferença diante de nossos semelhantes. Infelizmente, essa é uma tendência cada vez maior, chegando aos disparates extremos que povoam as páginas policiais.

Quanto menor a consciência, maior é o risco dessa indiferença caminhar para o alheamento, que faz com que o ser humano não reconheça o outro como um semelhante, desqualificando-o e não o respeitando na sua integridade física, psíquica, moral e até mesmo espiritual. O outro passa a ser apenas um fornecedor ou portador de objetos, valores ou desejos. Nada mais vale além disso. E esta é a real origem da violência que nos espanta, amedronta e paralisa. Se o pai é um empecilho, elimina-se. Se aparece o impulso para dar vazão à violência, incendeia-se o mendigo.

Hoje, num mau momento, podemos passar por cima de um irmão que está deitado em nosso caminho e ainda reclamar perguntando porque não se deitou em outro lugar. Todos os que nos retardam os propósitos de viver rapidamente são tratados como transtornos, adversários. Desde as atitudes menos lesivas até as mais perversas, estamos todos sendo atingidos por esse mal. A violência divulgada nos meios de comunicação nos choca, mas logo é esquecida.

Recordando-nos da parábola do Bom Samaritano, nos questionamos: se hoje Jesus fosse perguntado sobre quem poderia ser o nosso próximo, talvez dissesse que é aquele “estranho” com quem “trombamos” todos os dias, pois possui a chave da mesma casa, ou talvez nosso “adversário” de trabalho com quem medimos força e poder ou o chefe que grita, ou ainda o garoto pobre do cruzamento da avenida, os praticantes de outras crenças muitas vezes intolerantes, o companheiro da mesma fé que nos desagrada. São tantos... São todos. E nós, permanecemos alheios à sua existência como irmãos, compostos das mesmas células e por espíritos semelhantes, que como nós sofrem contingências, dores e dificuldades.

Nesse campo a impiedade impera, já que no alheamento, as pessoas não conseguem enxergar sua violência, muitas vezes disfarçada sob a capa do medo ou de desculpas escapistas. Apenas nos posicionamos diante dessa impiedade no momento em que, nos tornamos o próximo irreconhecido pela agressividade daqueles que nos vêem como meros suportes dos seus objetos de desejo, sejam eles um tênis, um Rolex, um cargo ou qualquer outra coisa. É nesse momento que clamamos por um samaritano que ainda tenha a capacidade de sentir compaixão, que nos dispense um mínimo de atenção e nos limpe as feridas, estas, hoje abertas em nossas consciências doridas.

Nestes tempos em que a materialidade e o narcisismo dita as regras de vida, nossa miséria espiritual e psíquica precisa ser sanada. Que não seja às custas de uma dor maior do que a que já sentimos por estarmos apartados da nossa essência espiritual e não termos ainda aprendido a viver como nos exortou o Espírito Protetor no capítulo VII, item 10 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Temos o livre arbítrio que nos possibilita colocarmo-nos no papel do agredido ou no do samaritano, que nos fará reencontrar nossa humanidade perdida. Os dois caminhos, sem dúvida, são eficazes para o redespertar: a dor sentida na pele ou o bálsamo que estanca feridas. A escolha, como sempre, será nossa. Se voltarmos os nossos olhos para os que se encontram vivenciando a dor e colocarmos nosso coração e o trabalho de nossas mãos a serviço da caridade, que poderá nos irmanar, certamente voltaremos a enxergar o próximo como um reflexo de nós mesmos.

Lilian Approbato de Oliveira