Estudando o Espiritismo

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Pecado original ou “arquétipos”?

ROGÉRIO COELHO
rcoelho47@yahoo.com.br
Muriaé, Minas Gerais (Brasil)


Pecado original ou “arquétipos”?

 Heranças ancestrais propelem o ser para as diferentes
atitudes comportamentais

“O ser humano é herdeiro das suas próprias realizações através dos tempos, que permanecem armazenadas nos refolhos do ser eterno que é.”
- Joanna de Ângelis.[1]


Todos nós temos: personalidade e individualidade. À feição de um “iceberg”, a personalidade seria representada pela parte menor, visível acima da linha d`água, e a individualidade a parte maior, submersa, ambas, porém, formando um bloco só, monolítico...

Assim, a personalidade é a nossa “vitrina”, o escaparate com o qual estabelecemos o relacionamento interpessoal. Sem embargo, a personalidade é abastecida com os elementos depositados nas profundezas da individualidade, elementos esses que Jung chamou de “arquétipos”.

Segundo os lúcidos assertos de Joanna de Ângelis1, “A palavra “arquétipo” se origina do grego “arke”, que significa: marca, cunho, modelo; sendo, por isso mesmo, as marcas ou modelos primordiais, iniciais, que constituem o arcabouço psicológico do indivíduo, facultando a identificação da criatura humana. Existem no ser como herança, como parte integrante do seu processo de evolução”.

Compreendemos assim, segundo nosso insuperável Mestre Lionês[2], “ser muito antigo o Espírito vinculado ao corpo de uma criança que nasce e traz, reencarnando para a vida corporal, as imperfeições de que não se tenha despojado em suas precedentes existências”.

Fazemos, assim, uma releitura da antiga lenda do “pecado original” cometido por “Adão e Eva”, agora transformada em realidade científica e facilmente compreendida à luz da razão plena.

Não nos pode ser imputada a culpa do “erro” daquele casal (que na verdade nem existiu), caracterizando o que em linguagem jurídica é conhecido por “resgate vicário”, isto é: um inocente pagando pela falta de outrem. Aliás, Jesus já havia deixado esta questão muito clara ao afirmar[3]: “a cada um será dado de acordo com as suas obras”.

Kardec esclarece ainda[4]: “Ao aproximar-se-lhe a encarnação, o Espírito entra em perturbação e perde pouco a pouco a consciência de si mesmo, ficando, por certo tempo, numa espécie de sono, durante o qual todas as suas faculdades permanecem em estado latente. Sobre ele, no entanto, reage o passado (arquétipos). É assim que renasce maior, mais forte, moral e intelectualmente, sustentado e secundado pela intuição que conserva da experiência adquirida. A partir do nascimento, suas ideias tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem, pelo que se pode dizer que, no curso dos primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, por se acharem ainda adormecidas as ideias que lhe formam o fundo do caráter (arquétipos). Durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele é mais maleável e, por isso mesmo, acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais”.

Voltando às elucidações de Joanna de Ângelis1, conseguiremos compreender melhor toda essa nuança do processo evolutivo. Vejamos o que esse Espírito Amigo chama de Processo de individuação:

“As multifárias experiências da reencarnação deixam no ser profundo infinitas características, que poderíamos denominar como sendo os arquétipos junguianos. Heranças ancestrais, que se transformam em material volumoso no Inconsciente, ditando os processos de evolução das ocorrências no ser e que o propelem para as diferentes atitudes comportamentais.

Todos os indivíduos são os somatórios de suas existências transatas, em que as diversas personalidades constroem a sua realidade pensante, com toda a carga de conflitos e lutas vivenciados que os assinalaram profundamente.  Poder mergulhar nesse oceano tumultuado de atividades vividas é a proposta em favor da sua conscientização.

A fim de lograr o êxito, cada qual se deve considerar único, diferente, não obstante com todas as analogias que são comuns aos demais membros da imensa família humana.    Normalmente, o indivíduo toma como padrões e procura assemelhar-se àqueles que lhe parecem melhores, verdadeiros modelos, esquecendo-se que se torna impossível conseguir resultados positivos, nesse tentame, porque, à medida que imita outros, perde a sua identidade, o seu caráter, amoldando-se a fórmulas e ídolos falsos, que também lutam e disfarçam as suas necessidades na exteriorização da personalidade.

O grande trabalho psicológico de crescimento do ser reside na busca de si mesmo.   Embora parecido com outros, qual ocorre com o material físico que a todos constitui, cada pessoa é diferente da outra.  Psicologicamente, existem no Inconsciente todos os símbolos das diferentes culturas, que se mesclam, formando a realidade individual.   Todavia, é indispensável buscar a individuação, isto é, a sua legitimidade, construindo-se idealmente e assumindo-se com os valores que lhe são peculiares e intransferíveis.   Nesse processo, deve operar a transformação moral do Si, descobrindo tudo aquilo que lhe é perturbador e tentar superar, por eliminação, sem que esse esforço gere trauma ou insatisfação, assim diluindo as condensações das vivências anteriores, através da conscientização da sua integridade interior em harmonia com as suas manifestações exteriores.  Esse processo pode durar toda a existência, o que é muito saudável, porque o ser se descobre em constante renovação para melhor, liberando-se das cargas negativas que lhe ditavam as reações e lhe produziam problemas em forma de distúrbios íntimos, afetando-lhe a conduta.

Tornar-se um ser total, original, único, é a proposta da individuação, que liberta a consciência das constrições mais vigorosas do Inconsciente dominador. É indispensável, dessa forma, enfrentar o Inconsciente com serenidade, descobrindo-o e integrando-o à consciência atual, pelos melhores caminhos que estejam ao alcance.  Cada ser encontra a sua própria rota, que deve seguir confiadamente, trabalhando-se sempre, sem culpa, sem ansiedade, sem receios injustificáveis, sem conflitos responsáveis por remorsos...

Buscando a individuação, percebe-se que as contribuições do mundo exterior imprimem, no ser, valores que não são verdadeiros para o seu nível de maturidade, e que somente possuem legitimidade aqueles que lhe procedem do âmago, do seu Inconsciente, agora em sintonia com a consciência lúcida. Isso oferece muita tranquilidade, porque permite identificar que não se torna necessário, para obter o triunfo, ser igual a ninguém, símile de outrem ou cópia dos modelos que se exibem na mídia, nos sucessivos festivais da ilusão e dos tormentos generalizados. Cada ser possui uma infinita riqueza no seu mundo interior, que é a herança divina nele jacente, que agora desperta e toma-lhe a consciência, libertando-o dos atavismos perturbadores.

A psique humana, que se constrói como resultado dos símbolos universais existentes, dilata-se na individuação que aguarda ser alcançada por todos os seres pensantes, por outro lado, meta da reencarnação: a conquista do Si, a elevação do Espírito, pairando sobre os destroços das experiências malogradas, transformadas em edificações de paz.

Em se considerando a universalidade dos arquétipos, há uma grande variedade de símbolos que foram classificados por Jung, e posteriormente pelos seus discípulos e sucessores. No entanto, não podem ter um número fixo porque estão sempre a apresentar-se com características individuais, em variações naturais, decorrentes de padrões e sinais de cada personalidade.

Quando alguém se refere a outrem, exaltando-lhe o estoicismo ou citando a covardia, está identificando o arquétipo que vive no seu próprio inconsciente e tem um caráter geral, comum a todos os demais. Assim sendo, sempre é encontrado nos outros aquilo que jaz na própria pessoa, o que lhes facilita o reconhecimento.

As criaturas são todas multidimensionais, possuindo características comuns, resultado da perfeita reunião dos arquétipos que constituem cada individualidade.

O processo da reencarnação explica a presença dos arquétipos no ser humano, porque ele é herdeiro das suas próprias realizações através dos tempos, adquirindo, em cada etapa, valores e conhecimentos que permanecem armazenados nos refolhos do ser eterno que é.

Podemos, portanto, em uma visão transpessoal dos acontecimentos, associar os arquétipos a outro tipo de realidade vivida e ínsita no Inconsciente profundo, ditando os comportamentos da atualidade, que são as experiências espirituais, parapsíquicas e mediúnicas.

Aprofundar a busca no oceano do Inconsciente para eliminar os conflitos decorrentes das várias ocorrências passadas – as atuais e as reencarnações anteriores –, conseguir a individuação, eis a meta que aguarda aquele que deseja estar desperto, consciente da sua realidade e que luta em favor da sua iluminação interior e felicidade total”.    



[1] - FRANCO, Divaldo. Vida: Desafios e Soluções. Salvador: LEAL, 1967.

[2] - KARDEC, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 125. ed. Rio: FEB, 2006, cap. VIII, item 3.

[3] - Mateus, 16:27.

[4] - KARDEC, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 125. ed. Rio: FEB, 2006, cap. VIII, item 4.