Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 14 de junho de 2016

O ESCÂNDALO AINDA É UM MAL NECESSÁRIO. NELSON MORAES

No livro, Recordações de Chico Xavier, de R.A. Ranieri, publicado pela Editora Fraterna, Ranieri conta que em visita a dona Esmeralda Bittencourt, residente no Rio de Janeiro, leu uma carta escrita pelo Chico e endereçada a ela, nessa carta, Chico contava que certa ocasião, se viu desprendido do corpo surgindo nas pedras das ruas de Paris. Sentiu como que saía das próprias pedras e se tornara uma menina de nove anos. Viu-se caminhando pela rua e entrou pelas portas de um palácio, subiu a escada, e, chegando a um salão, viu Catarina de Médici, o Duque de Guise, a Duquesa de Nemour e outra pessoa da qual não me lembro, mas que era filha ou filho de Catarina de Médici e discutiam o massacre a ser desencadeado da noite de São Bartolomeu.* Catarina vacilava, mas a Duquesa de Nemour insistia com ela para que desse a ordem de massacre. Sob a influência e coação da duquesa, Catarina, de repente, embora contrariada e indecisa, deu a ordem e o massacre se realizou com a morte de milhares de protestantes.


        Segundo a carta, Chico Xavier revela que ele fora essa menina que assistiu à cena, e que Esmeralda Bitencourt fora a Duquesa de Nemour, que havia colaborado para que o massacre ocorresse. Diante dessas revelações, dona Esmeralda compreendeu o motivo dos seus sofrimentos e o porquê teve que perder seus filhos em um trágico acidente. O fato de Chico ter sido essa menina, demonstra uma ligação dele com os personagens da história, fato que justifica a grande amizade que nutria por dona Esmeralda, a qual cultivava por ele um grande carinho e colecionava tudo o que se referia a sua vida e que, nessa ocasião, já havia organizado quatro álbuns sobre Chico Xavier.
         A narrativa de Ranieri sobre essa particularidade da vida de Chico, tem consistência e credibilidade pelo fato de terem sido publicadas no período em que os personagens estavam reencarnados, ninguém de sã consciência ousaria inventar histórias que facilmente seriam desmentidas pelos envolvidos. Sem dúvida é um episódio que traz profundos esclarecimentos sobre as leis de causa e efeito, pois sabe-se que a maioria dos protestantes massacrados nessa fatídica noite de São Bartolomeu, era composta de jovens, e que, conseqüentemente, muitas mães perderam seus filhos amargando terrível sofrimento, nada mais justo do que os responsáveis viessem a experimentar o amargor desse sofrimento, como no caso de dona Esmeralda Bitencourt.
         Não existe consolo maior do que o conhecimento da verdade, saber o porquê sofremos representa uma poderosa mensagem convidando-nos à renovação e ao crescimento espiritual. Essa revelação fez mais bem à dona Esmeralda do que fariam centenas de mensagens psicografadas de seus filhos tentando reconfortá-la com notícias do mundo espiritual. Por isso entendemos que não devemos cultivar a idéia de apenas consolar a morte, mas sim esclarecê-la como parte integrante da verdadeira vida.
         Com certeza, os filhos de dona Esmeralda eram espíritos necessitados de vivenciarem uma morte violenta e prematura a fim de resgatarem a própria consciência, assim como ela necessitava de sofrer tal perda. É nesses dramas que devemos entender a grandeza da misericórdia divina nos proporcionando a valiosa oportunidade de retomarmos a paz que perdemos ao comprometer nossas consciências quando praticamos atitudes desajustadas do amor e da fraternidade.
         Em um mundo de expiações e provas, como o nosso, esses dramas são comuns e necessários, pois estamos em regime reeducativo, caso contrário, estaríamos reencarnados em um mundo mais avançado. Raros são os que estão aqui em missão, mesmo aqueles que passaram pela Terra com características de missionários, viveram no cursos de suas encarnações, alguns acontecimentos que se configuraram como expiação, ou seja, uniram o útil ao agradável, ao mesmo tempo que cumpriram uma missão, zeraram ou quase zeraram seus débitos com as leis divinas.
         Pedro em 1 4:8 afirmou: “A caridade cobre multidões de pecados.”, nessa afirmação entendemos que a caridade pode cobrir muitos erros, mas não todos, pois, para certos crimes temos que nos submeter a pena de talião.
         Quando renascemos com o propósito de resgatarmos nossas consciências atormentadas pelo remorso, renascemos imantados ao acontecimento que atenderá as nossas necessidades reparadoras. As características do sofrimento serão semelhantes as que causamos a outrem, caso contrário não alcançaríamos o equilíbrio em nossas consciências.
         A caridade só cobre as multidões de pecados quando praticados na usura, no egoísmo e nos excessos da vaidade que descrimina e humilha, são os erros morais que, quando substituídos pela humildade e pelo exercício da caridade praticada mesmo quando sofremos a injúria, a incompreensão e a ingratidão acaba eliminando dos nossos sentimentos as marcas da nossa insensatez vivenciada no passado.
         O senso de justiça estabelecido em nossas consciências pelo Criador, não nos permite acreditar que um espírito que reencarnou destinado a perder a visão total  para reparar o mesmo mal que causou a outrem, e que, por se dedicar a caridade acabaria perdendo a visão apenas de um dos olhos. Temos que praticar a caridade ela representa a evolução do espírito, entretanto, só seremos felizes e libertos para continuarmos ascendendo à planos maiores quando resgatarmos na íntegra o mal que causamos ao nosso semelhante, sofrendo o quanto fizemos sofrer.
         Quando no mundo espiritual, o espírito ao se conscientizar dos erros praticados, o que mais ele deseja é poder repará-los, por isso, antes de reencarnar, exceto quando nas reencarnações compulsórias, de livre e espontânea vontade se prontifica a vivenciar o resgate de forma a atender os reclamos da própria consciência. Ao renascer, essa decisão passa a ser um direito adquirido do espírito, nenhuma força do universo poderá impedir que ocorra o solicitado facultando-lhe sofrer o que lhe importa sofrer. O mesmo ocorre no desencarne onde no momento certo será atraído para o cenário do acontecimento ao qual está imantado e que lhe facultará o desencarne revestido das características necessárias para equilibrar a sua consciência.

         Infelizmente, como afirmou Jesus, o escândalo ainda é um mal necessário, mas ai daquele por quem vem o escândalo, a imprudência, a negligência e a criminalidade são escândalos ainda presentes nas atitudes da maioria dos seres humanos, os quais acabam servindo de instrumentos para compor os cenários necessários para beneficiar os espíritos necessitados de repararem suas consciências.
         A própria natureza tem sido um instrumento valioso das leis divinas para ajudar os espíritos em expiação e prova, situando-os através da reencarnação nas regiões propensas a desenvolver tragédias naturais, como terremotos, tsunamis e outros tantos fenômenos naturais.
         Nas leis divinas não existem penalidades especificas para cada erro praticado pelos seres humanos, ela apenas nos coloca diante dos resultados das nossas atitudes para vivenciarmos as suas consequências que poderão se revestir de agravantes ou atenuantes, segundo as intenções e os sentimentos que animaram as nossas atitudes infelizes.

 * Massacre São Bartolomeu ocorrido em Paris na noite de 23 para 24 de agosto de 1572