Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 20 de junho de 2016

ESPÍRITO DE VERDADE: QUEM SERIA ELE?


Assunto ainda polêmico no meio Espírita, já que para uns o Espírito de Verdade é Jesus, para outros é uma comunidade de espíritos superiores. Apesar de não ser um assunto capital, não deveria ser objeto de acirradas discussões. Mas, com quase um século e meio de Doutrina, já deveríamos ter plena certeza de quem assinou com esse codinome.

Iremos, na condição de um estudioso, dar nossa contribuição para a elucidação dessa questão. Seria uma comunidade de Espíritos? Na RE os Espíritos Jobard, Sanson e Lacordaire, o identificam como uma individualidade, assim como Kardec que disse: "... A qualificação de Espírito de Verdade, não pertence senão a um e pode ser considerado como nome próprio; ela é especificada no Evangelho...". (RE 1866, p. 222).

Por Jesus ter dito que enviaria o Consolador (Jo 14,15-18.26), disso muitos querem concluir que o Espírito de Verdade seja ele.
"Qual deve ser esse Enviado? Jesus dizendo: 'Eu pedirei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador', indica claramente que esse Consolador não é ele mesmo, do outro modo teria dito: 'Eu retornarei par a completar o que vos ensinei'. Depois acrescentou: Afim de que fique eternamente convosco e ele estará em vós.

Isto não se poderia entender de uma individualidade encarnada que não pode permanecer eternamente conosco, e ainda menos estar em nós; mas se compreende muito bem de uma doutrina, a qual, com efeito, quando assimilada, pode estar eternamente conosco. O Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade". (G, p. 340).

Assim, Kardec concluí que o Consolador é o Espiritismo, cujo inspirador foi o Espírito de Verdade. Diz ainda: "... reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do, Cristo com respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espirito de Verdade quem preside ao grande movimento de regeneração, a promessa do seu advento se encontra realizada, porque, pelo fato, é ele o verdadeiro Consolador". (p. 31).

A primeira vez que ele apareceu a Kardec foi no dia 24 de março de 1856, quando estava escrevendo um texto sobre os Espíritos e suas manifestações, ouviu repetidas batidas cuja causa não encontrou. No dia seguinte, era dia de sessão na casa do Sr. Baudin, lá Kardec interroga ao Espírito Z (Zéfiro) sobre a origem das batidas, obtendo como resposta que era seu Espírito Familiar, ao ser indagado do seu nome diz: - Para ti, me chamarei A Verdade, ... Kardec o reconhecia como sendo o seu guia espiritual: "... Eis, a este respeito, o que me dizia ainda ontem, antes da sessão, o meu guia espiritual: o Espírito de Verdade". (RE 1861, p. 356).

Mas a quem esse nome poderia qualificar? No Evangelho encontramos Jesus dizendo "Em verdade vos digo" cerca de sessenta vezes. Ressaltamos duas delas: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará " (Jo 8,32) e "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim " (Jo 14,6), ou seja: "Eu sou o caminho. Eu sou a Verdade. Eu sou a vida". Essas passagens nos indicam que Jesus seria o Espírito de Verdade, pois estariam nelas as razões de ter usado o nome: A verdade.

O que os Espíritos disseram? Chateaubriand e Erasto usam as expressões, pela ordem, "o próprio Cristo que preside aos trabalhos... ", "...o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado... " . Já no mundo espiritual o pai de Kardec disse "...Espírito dê Verdade, o Filho de Deus,...". Parece que para muitos Espíritas essas afirmações não têm nenhum valor. E, mais recentemente, no livro Missionários da Luz (p. 99), numa explicação a André Luiz, o espírito Alexandre diz:"... Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o proprio Senhor? ".

O que fala Kardec sobre esse assunto? A primeira vez que Kardec cita esse episódio foi no livro Insfruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas " (Iniciação Espírita, pp. 231/232), onde diz que o Espírito usou um nome alegórico e que soube depois, por outros Espíritos, ter sido ele "um ilustre filósofo da antiguidade". Entretanto, quando em O Livro dos Médiuns (p. 92), substituto desse, ao relatar novamente essa comunicação, já fala que "ele pertencia a uma ordem muito elevada, e que desempenhou um papel muito importante sobre a Terra", e, finalmente, em Obras Póstumas (pp. 263-265), quando narra todo o acontecimento, ele fala que o Espírito usou o codinome "A Verdade", se abstendo de revelar quem realmente teria sido.

Essa última é a que considerarmos como a realidade dos acontecimentos, pois acreditamos na hipótese de que ele colocou diferente por absoluta discrição e para não atrair a ira dos religiosos de seu tempo, contra a Doutrina nascente. No E.S.E (cap. VI, item 5 - O Cristo Consolador), há uma mensagem assinada pelo Espírito de Verdade que é a mesma que se encontra em o LM (cap. XXXI -pp. 422-423), mas que não contém nenhuma assinatura, fato explicado por Kardec:

"Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, está assinada por um nome que o respeito não nos permite reproduzir senão sob todas as reservas, tão grande seria o insigne favor de sua autenticidade, e porque, muito frequentemente, dele se abusou nas comunicações evidentemente apócrifas; esse nome é o de Jesus de Nazaré. Não duvidamos, de nenhum modo, que não possa se manifestar; mas se os Espíritos verdadeiramente superiores não o fazem senão em circunstâncias excepcionais, a razão nos proíbe crer que o Espírito puro por excelência responda ao apelo de qualquer um; haveria, em todos os casos, profanação em lhe atribuir uma linguagem indigna dele ".

"Por essas considerações, é que sempre nos abstivemos de publicar algo que levasse esse nome; e cremos que não se poderia ser mais circunspecto nas publicações desse gênero, que não têm autenticidade senão pelo amor-próprio, é cujo melhor inconveniente é o de fornecer armas aos adversários do Espiritismo ".

"Como dissemos, quanto mais os Espíritos são elevados na hierarquia, mais seu nome deve ser acolhido com desconfiança; seria preciso estar dotado de uma bem grande dose de orgulho para se vangloriar de ter o privilégio das suas comunicações, e se crer digno de conversar com ele como com seus iguais. Na comunicação acima, não constatamos senão uma coisa, que é a superioridade incontestável da linguagem e dos pensamentos, deixando a cada um o cuidado de julgar se aquele cujo nome leva não a desmentiria ".

Está aí esclarecido porque Kardec não quis colocar a assinatura na mensagem. Ao afirmar que essa comunicação tem a assinatura de Jesus e ao invés desse nome colocar Espírito de Verdade é porque provinham da mesma origem. Isso fíca mais claro, quando em o LM, ao tratar das Comunicações Apócrifas (págs. 4447 445), Kardec coloca duas assinadas por Jesus, às quais, em nota, acaba por confirmá-la como verdadeira:

"Não há, sem dúvida, nada de mau nessas duas comunicações; mas o Cristo jamais teve essa linguagem pretensiosa, enfática e empolada. Que sejam comparadas com aquela que citamos mais acima e que leva o mesmo nome, e se verá de que lado está a marca da autenticidade ".

E o Espirito de Verdade nos deixou alguma pista? Acreditamos que sim. Vejamos uma comunicação assinada pelo Espírito de Verdade datada de maio de 1864:

"Provas e expiações, eis a condição do homem sobre a Terra. Expiação do passado, provas para fortalecê-lo contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela atividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria, e prepará-lo para os gozos puros que o esperam no mundo dos Espíritos ".

"Ha várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos. Estas palavras o Espiritismo veio fazer compreendê-las". (RE 1864, PP- 399-400). A respeito da assinatura, coloca Kardec:

"Sabe-se que tomamos tanto menos a responsabilidade dos nomes quanto pertençam aderes mais elevados. Nós não garantimos mais essa assinatura do que muitas outras, nos limitamos a entregar esta comunicação á apreciação de todo Espírita esclarecido. Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de todo supérfluo.

Se se a compara àquelas que estão reportadas em A Imitação do Evangelho, (prefácio, e cap. III— O Cristo Consolador), e que levam a mesma assinatura, embora obtidas por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamento que acusa uma fonte única. Por nós, dizemos que ela pode ser de O Espírito de Verdade, porque é digna dele;...".

Kardec, embora reservado, não fugindo a essa sua característica, diz que tal comunicação pode ter vindo do Espírito que a assinou, mas quem diria: "eu " lhes disse há dezoito séculos" senão o próprio Jesus?

Concluímos que o Espírito de Verdade seria realmente Jesus. As informações dos Espíritos, a fala de Kardec, o Evangelho e o próprio Espírito de Verdade, todas elas contidas nas^" obras básicas, são as bases em que apoiamos nossa convicção.

Bibliografia:

KARDEC, A. Revista Espírita, Araras- SP: IDE, vol. I a XI, diversas edições. '
KARDEC, A. A Gênese, Araras-SP:J IDE, 1993.
KARDEC, A. Iniciação Espírita, São" Paulo: Edicel, 1987.
KARDEC, A. Obras Póstumas, Araras-SP, IDE,1993.
KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Araras-SP: IDE, 1993.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Rio: FEB, 1982.
XAVIER, C. Missionários da Luz, Brasília: FEB, 1986.
Bíblia Sagrada, São Paulo: Ave Ma­ria, 1989.

Paulo da Silva Neto Sobrinho, Jornal Espírita, março/05