Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 21 de junho de 2016

Aliança da Ciência e da Religião

Aliança da Ciência e da Religião


Em termos históricos, a relação entre a Ciência e a Religião pode ser entendida como, no mínimo, complexa, considerando que tanto as inspirações religiosas impulsionam o desenvolvimento científico, como o conhecimento científico e tecnológico produzem efeitos significativos nas crenças religiosas. Justamente por se tratar de relacionamento complexo, a união entre a Ciência e a Religião é e foi marcada por conflitos cuja solução encaminha para uma coexistência pacífica, como bem esclarece o Espiritismo.

A Ciência e a Religião são duas alavancas da inteligência humana; uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Ambas, porém, tendo o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porque Deus não pode querer destruir a sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias provém apenas da observação defeituosa e de um excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí o conflito que deu origem à incredulidade e a intolerância.1

Relevantes contribuições de teólogos e cientistas da atualidade confluem para o consenso de que o ser humano foi criado para ter uma visão integral da vida. Entende-se hoje com mais clareza que a mente humana não foi concebida para perceber a realidade de forma dicotomizada, resultando daí que o homem aprende a lidar com temas antagônicos como Ciência e Religião que, por si sós, são provocadores de conflitos, uma vez que revelam domínios distintos da experiência humana. Percebe-se, porém, que tais conflitos são mais de forma do que de conteúdo, uma vez que indicam, na essência, desentendimentos relacionados à manifestação da autoridade religiosa ou científica, ambas fortemente impregnadas pelas normas, dogmas, rituais e preceitos, as quais lhes impõe barreiras para a vivência dos preceitos morais. Vencidas estas barreiras, a aliança entre a Ciência e a Religião se estabelece.

Neste sentido, Immanuel Kant (1724-1804) lembra que “somente a pura intenção moral do coração pode tornar agradável a Deus (Evangelho de Mateus, 5:20 a 48)”.2 Para este admirável filósofo alemão os conflitos entre religiosos e cientistas deixam de existir se ambos se dispuserem a seguir apenas dois deveres na vida:

1º) Adotar como regra universal de conduta o preceito considerado legislador de todos os deveres, “[…] que compreende em si a condição moral interior como condição moral exterior do homem, isto é, cumpre teu dever sem invocar outro motivo que seu valor imediato, ou seja, ama a Deus acima de tudo. […]”.2
2º) Utilizar como regra particular de vida a aplicação do dever universal de conduta, ora citado, “[…] nas relações externas com os outros homens: Ama teu próximo como a ti mesmo, ou seja, adianta seu bem com uma benevolência que, imediata, não deriva de motivos egoísticos. […]”.2
Com base nesses e em outros princípios, o perfil que se delineia no mundo atual é o de que a Religião está perdendo gradualmente a guerra contra a Ciência, e vice-versa, tornando-se viável a construção de pontes de entendimentos entre ambas. A proposta emergente da atualidade indica, até por uma questão de sobrevivência da humanidade, que religiosos e cientistas aprenderão a conviver em paz. Primeiro, porque os religiosos estarão, cada vez mais, livres dos dogmas estatutários. Segundo, porque os cientistas romperão as algemas que os mantêm cativos do primado da razão.

No campo religioso, a Religião responderá afirmativamente às seguintes indagações do famoso escritor francês, destacado filósofo iluminista, François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire:

Não seria aquela mais simples? Não seria aquela que ensinasse muita moral e poucos dogmas? Aquela que tendesse a tornar os homens mais justos sem torná-los absurdos? Aquela que não obrigasse a crer em coisas impossíveis, contraditórias, injuriosas à divindade e perniciosas ao gênero humano? […]. Aquela que só ensinasse a adoração de um Deus, a justiça, a tolerância e a humanidade? 3

No meio científico, a Ciência desenvolverá ações distanciadas do jugo reacionário e cartesiano do culto à razão, introduzido por outro francês de renome, o matemático e filósofo René Descartes (1596-1650). O maior equívoco de Descartes, afirma o professor Antonio R. Damasio, chefe do departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, USA, foi desenvolver premissas de que mente e corpo são entidades independentes, não relacionadas entre si:

Ainda que Descartes tenha se notabilizado ao propor um método de observação, análise e interpretação dos fatos científicos, condição muito útil para se chegar a conclusões racionais, o método cartesiano oferece graves empecilhos para conceituar Deus, sobretudo a perfectibilidade divina, assim como a riqueza da capacidade de aprender, discernir da mente humana. Nestas condições a educação moderna e as mais recentes conquistas das neurociências demonstram que o cogito (isto é o pensar), só por si, dificilmente poderia constituir um fundamento sólido para o conhecimento. Quer isto dizer que nem sempre o conhecimento e a explicação de certos fatos, por mais evidentes que sejam, se explicam exclusivamente pelo raciocínio. Há outras vias, como a percepção extrassensorial que, a rigor, extrapolam o raciocínio lógico. Nestes termos o cogito não é, pois, garantia suficiente de um conhecimento à prova de erro.

Algo digno de nota é que esse atual direcionamento da pesquisa científica, mesmo em áreas tão estritamente racionais, como a Física e a Matemática, foi admiravelmente percebido por Allan Kardec que, se de um lado, se valeu da metodologia racional para classificar, relacionar e compreender certos fatos espíritas, soube, porém, extrapolar o entendimento racional para discernir a respeito da magnitude das consequências morais que os princípios espíritas trazem em seu bojo: uma proposta renovadora e moralizadora da espécie humana. É por estes e outros motivos que o Espiritismo explica ser possível a aliança entre a Ciência e a Religião:

A Ciência e a religião não puderam entender-se até hoje porque cada uma, encarando as coisas do seu ponto de vista exclusivo, repeliam-se mutuamente. Era preciso alguma coisa para preencher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse. Esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo, leis tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Uma vez constatadas pela experiência essas relações, fez-se uma nova luz: a fé dirigiu-se à razão, a razão nada encontrou de ilógico na fé, e o materialismo foi vencido. […].5

Estamos, pois, diante de um processo revolucionário, transformador das ideias que atingirá a humanidade de frente.

É toda uma revolução moral que neste momento se opera e trabalha os espíritos. Após uma elaboração que durou mais de dezoitos séculos, chega ela à sua plena realização e vai marcar uma Nova Era para a humanidade. As consequências dessa revolução são fáceis de prever; deve produzir inevitáveis modificações nas relações sociais, às quais ninguém terá força para se opor, porque estão nos desígnios de Deus e resultam da lei do progresso, que é a Lei de Deus.5

Referências

1 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2.  mp. Brasília: FEB, 2013. cap. 1, it. 8, p. 40.

2 KANT, Immanuel. A religião nos limites da simples razão. Trad. Ciro Mioranza. 2. ed. São Paulo: Escala, 2008. cap. I, p. 183, 184 e 185, respectivamente.

3 VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Trad. Ciro Mioranza e Antonio Geraldo Silva. São Paulo: Escala, 2008. Verbete: Religião, it. Quinta questão, p. 442.

4 DAMÁSIO, Antônio R. O erro de Descartes. Trad. Dora Vicente Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. pt. III, it. O Erro de Descartes, p. 279.

5 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. I, it. 8, p. 41.