Estudando o Espiritismo

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sábado, 28 de maio de 2016

EUTANÁSIA

EUTANÁSIA

"EUTANÁSIA: O ESPIRITISMO NOS FAZ PENSAR SERIAMENTE SOBRE O QUE É A VIDA"


Uma Doutrina aberta à reflexão como a que nos deixou Allan Kardec permite que acompanhemos as grandes interrogações da atualidade, porque em seu tríplice aspecto - Ciência, Filosofia e Religião - estimula a capacidade de se buscar compreender as Leis Divinas com base numa fé raciocinada, condição imprescindível para a evolução do Espírito e o progresso da Humanidade.




Jornal Espírita - Primeiramente, vamos conceituar. O que é eutanásia?

Vannucci-A idéia principal é a de se abreviar a vida. Muitas vezes até por se ter pena da pessoa que está sofrendo.

David - A concepção grega de tanatos quer dizer morte, ou deus da morte; e o eu indicando boa, significando, portanto, boa morte. Acontece que essa boa morte é uma visão associada exclusivamente ao corpo, porque subentende-se boa morte como morte sem dor, sem sofrimento, sem angústia. O conceito atual de eutanásia seria a facilitação ou a indução, a provocação da morte física, quando considera-se que a doença não tem mais cura, não tem mais tratamento e a manutenção da vida, além de artificial, implicaria supostamente em sofrimento para o paciente.

JE - Marcos, aproveitamos para perguntar: isso é legal?
Marcos - No Brasil, não existe nada na parte legal com relação à eutanásia. Entende-se que o que está praticando a eutanásia está cometendo um homicídio mesmo. Ele estaria previsto no artigo 121 do Código Penal, quando no caso em que o paciente estiver em sofrimento e o médico sentir dó, coisas desse tipo, ou aplicar algum tipo de medicamento que venha abreviar a vida da pessoa. Se for a pedido do paciente, ele poderia estar incluso no artigo 122, que seria uma instigação, um auxílio ao suicídio. E se ele deixar a pessoa morrer, estaria incluso no artigo 135, que caracteriza uma omissão de socorro.

JE - Como espíritas, vamos pensar se é lícito abreviar a vida e, também, tentar definir o que é essa vida?
Vannucci - Até há algumas décadas, só se podia abreviar a vida, mas com os avanços da Medicina, agora pode-se também prolongar a vida. Artificialmente, pode-se manter um corpo com um coração batendo, pode-se ter o corpo ainda funcionando, mas o Espírito pode não estar mais ligado a ele. A Humanidade chegou a um ponto em que precisa pensar tanto, na questão da abreviação, quanto da extensão da vida. Se isso vai trazer sofrimento para o Espírito antes ou depois depois da desencarnação.

JE - Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, quando se pergunta se é lícito abreviar a vida de um doente que sofre sem esperança de cura, o Espírito São Luís diz o seguinte: "e quem lhes daria o direito de prejudicar os desígnios de Deus?"
David - Há um contra-senso de palavras. A gente está falando de morte, mas ainda não temos definição e conceituação de vida. É uma situação esquisita, por que se está colocando a carroça na frente dos bois. Vamos considerar o caso mais recente, da americana Terri Schiavo. Literalmente, segundo nosso advogado Marcos, o caso não é previsto no Código Penal Brasileiro. Foi o que fizeram. A mulher foi morta por fome e sede. Isso, aqui, é assassinato. Alguém pode argumentar: "Ela estava em vida vegetativa". Mas, se vida vegeta-tiva não for considerada vida, então, vamos acabar com qualquer campanha ecológica neste Planeta, porque boa parte dos trabalhos dos ecologistas são formas de vida que derivam da idéia de vida vegetativa, aquela que só cumpre função mecânica. O que difere a espécie humana é a nossa vida moral, nossa vida ética. Mas onde começa a vida e, principalmente, onde está a vida moral? Se a Ciência pudesse comprovar que a vida moral existe apenas no homem e essa vida moral está atrelada ao corpo físico, a eutanásia seria a coisa mais lógica e pertinente do nosso mundo, mas isso não é comprovado. Mesmo que nós nos abstraíssemos da visão espírita, a Ciência, pura e simplesmente, não conseguiria definir o que é vida moral, vida ética, quando surge a consciência, o que é consciência, onde a consciência está inserida, quando a consciência deixa de ser, para poder dizer: "aqui não tem consciência, então, pode-se eliminar a vida vegetativa".

JE - Marcos, nós temos penas para o homicídio no Brasil, mas não para a eutanásia. Como é que vamos resolver isso?
Marcos - O artigo 121 descreve um homicídio culposo. O Código prevê a detenção de um a três anos e a pena pode ser aumentada de um terço, se o agente deixar de prestar imediato socorro. No caso da instigação, o induzimento ou o auxílio ao suicídio, a pena seria de dois a seis anos de reclusão, podendo ser aumentada, se a vítima é menor ou tem diminuída por qualquer causa a capacidade de resistência. No caso de omissão de socorro, a detenção é de um a seis meses, podendo ser triplicada, se resulta em morte no caso de omissão de socorro, que é abandonar ou deixar de prestar assistência à pessoa inválida ou ferida. Como o David estava falando, a eutanásia é considerada como boa morte. Ultimamente, ouvimos falar muito em morrer com dignidade. Mas é estranho se falar em morrer com dignidade, quando existem tantas pessoas vivendo sem dignidade, nas ruas, necessitadas de todos os gêneros, com problemas de desemprego. A gente vive praticamente indigno nesse mundo. Nós, espíritas, temos a consciência de que vivemos num mundo de expiações e provas. Mas somos às vezes muito insensíveis, quanto às necessidades do próximo. O que devemos ter como norma é o entendimento da Doutrina Espírita. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 5, Santo Agostinho explica muito bem: a vida tem um sentido e o sentido dela não é material. Se entendermos que vamos nascer, passar por várias situações, morrer e tudo irá se acabar, a vida não terá sentido. O sentido da vida é espiritual, por isso que a gente tem que ter fé e esperança até o último momento. E até quando é necessária a nossa vida? Podemos viver com boa ou má qualidade. Mas para esse aprendizado todo, até quando servimos? Ora, tudo é interessante. Até o último segundo. Muitas vezes, nos momentos mais difíceis, de agonia, de ficar numa cama num estado terminal, a última coisa que vai restar a esses doentes é pensar... nada além do que pensar... E é talvez naquele instante que ele possa até fazer uma reflexão de seus próprios atos.

JE - Mas, como é que a gente sabe sê o Espírito vai sofrer mais ou menos: libertando-se logo do corpo físico ou ficando ainda ligado, embora com os laços perispirituais mais frouxos, mas não totalmente desligado, preso a uma vida vegetativa, por 20,30 anos? Isso não pode se prolongar eternamente, vai ter que ter um fim...
Vannucci - Eu acho que a gente tem que olhar casos mais específicos, para podermos pensar melhor sobre eles. Antes de falarmos do Espírito desencarnado, vamos falar do encarnado, para estendermos mais um pouco o assunto. Há pesquisas recentes, por exemplo, que falam sobre a morte cerebral. Há estudos citando que na morte cerebral, se for retirado o cérebro, pode-se recuperar quase a metade das pessoas. Há muitas dúvidas sobre a morte cerebral e a morte encefálica. Perguntas como, por exemplo, se a morte cerebral é mesmo o melhor critério para a morte. Sabe-se de uma briga jurídica na Inglaterra, entre os anestesistas. Eles indagavam se era certo se proceder a retirada dos órgãos para transplantes sem anestesia, porque muitas vezes, quando ia-se cortar com o bisturi, o corpo reagia, o batimento cardíaco aumentava, indicando possivelmente uma reação frente aos cortes para a retirada de órgãos. Acontece que se aplicassem a anestesia, indicaria que o paciente não estava morto e, no caso, seria então um caso de eutanásia. E realmente um assunto muito complexo, que precisa ser discutido com mais detalhes.

David - A orientação do Ministério da Saúde no Brasil estabelece parâmetros clínicos e instrumentais para a definição de morte cerebral. Não é só uma observação clínica. A orientação para a autorização de transplantes, por exemplo, implica em que o suposto doador seja avaliado no intervalo de 12 horas por três profissionais diferentes sobre o ponto de vista clínico. Se os três derem o mesmo parecer clínico, é acionada a Unidade de Transplantes. Um profissional dessa unidade vai fazer, também, uma avaliação clínica. Se ele ratificar a informação dos primeiros médicos, ele vai encaminhar esse suposto doador para a investigação laboratorial. A orientação do Ministério da Saúde pressupõe, no mínimo, duas documentações instrumentais e exames laboratoriais. Um eletro-encefalograma e uma angiografia cerebral. Cada exame desse tem que dar um padrão que ofereça condições de informar a morte cerebral. Isto feito, a família é comunicada dessa situação, é perguntado à família se o paciente tinha o interesse em doar órgãos ou não e, se a família concordar, é desencadeado o processo. Nesse paciente, ainda com vida vegetativa, são colhidos o sangue e outras amostras de tecido, para ver a compatibilidade diante da rejeição, sendo chamados os primeiros receptores compatíveis da fila. Quando todas essas condições estão preparadas, é que se aborda o doador, para a retirada do órgão.

JE - Já houve retorno à vida de alguém que teve a morte cerebral diagnosticada?
David - Eu não conheço, dentro da nossa legisJação, do nosso processo de orientação...

JE - E os casos de se aliviar os sofrimentos com a sedação dos doentes em fase terminal, isso também não é acelerar a morte?
David - A gente tem que separar analgesia de sedação. A analgesia implica em suprimir a dor e é possível em tratamentos terminais, principalmente em pacientes oncológicos, que têm dores importantes. Significa aliviar a dor sem suprimir a consciência do paciente. A sedação implica em suprimir a consciência.

JE - Isso não é permitido?
David - Eu não conheço o Código Penal, mas acredito que não. Também não seria ético. O nosso Conselho Regional de Medicina e os centros que trabalham com dor falam de analgesia. Há orientação, sim, de medicação para aliviar a dor. Não tem porque o indivíduo vivenciar uma dor angustiante até o último momento. A dor pode e deve ser aliviada, se nós temos medicamentos que permitem isso, sem comprometer a consciência do paciente.

JE - Vamos tentar agora considerar essa parte técnica, relacionando-a com a Doutrina Espírita, que é o nosso principal propósito. Como analisar tudo isso, sabendo-se que o Espiritismo é contra a eutanásia?
David - Se formos pensar apenas em termos éticos, vamos colocar as coisas no seguintes termos: a nossa sociedade é donista, é corpólatra. Ela vive para o corpo e pelo corpo. Valoriza-se a morte digna. Mas a vida foi indigna. Na hora de morrer, não pode ter sofrimento físico, ele precisa ser abolido. Mas sofrimento moral, degradação moral na vida inteira, isso é normal. Essa visão é imoral, tremendamente imoral, porque a propositura que está por trás é a seguinte: enquanto temos saúde, vamos aproveitar o corpo. Viva o prazer! Na hora em que não se puder mais ter prazer através do corpo, descarta-se o corpo. E a discussão caminha mais ou menos neste contexto. Então, antes, vamos definir vida, dignidade na vida. Em segundo lugar, um problema dos tempos modernos, voltar àquele conceito que se tinha no tempo de nossos avós, de que a morte era considerada um evento normal, fazia parte da vida. Os indivíduos morriam em casa, ao lado de seus familiares, naturalmente. A morte foi tirada de casa, foi colocada no ambiente estéril do hospital, e vê-se apenas o seu lado físico: parar com a dor, parar com o sofrimento. Mas, e o lado emocional desse sistema, nessa passagem, nessa experiência, não estaria sendo desprezado?

JE - Vocês acham que isso tem a ver um pouco com o orgulho ou algo parecido, para se buscar morrer "dignamente"?
Marcos - Eu não sei se seria o orgulho, acho que é a própria visão errada que se tem da vida, que é uma visão material. Estamos aqui para viver e, às vezes, nem sabemos o porquê e vivemos até sem razão. O David falou muito bem. Ou seja, a gente vai vivendo a vida sem sentido e, depois, devido a um certo sofrimento, acha-se que não é interessante viver mais. E sempre associamos sofrimento com doença. Existem diversos tipos de sofrimento. Há pessoas sofrendo com muita saúde. São situações de sofrimento moral, mas o sofrer ainda está ligado a doenças. Acho que a gente tem que dividir as coisas, ou se vê a vida de forma material e se tem a morte como um fim, ou a gente apenas desencarna e tem essa visão mais espiritualizada da vida. E o sentido da vida que estávamos falando antes, o sentido que é espiritual, pois a nossa vida aqui é transitória. Por mais que você esteja bem, aproveitando a vida, você também vai morrer. Morrer não é sofrer.

JE - Sim, a vida é transitória, mas a dúvida é justamente em função de termos um Espírito ligado a esse corpo físico. Então, o que nós podemos fazer com esse corpo, para esse Espírito ficar mais feliz?
Marcos - Essa situação de Espírito e corpo é uma relação importante que precisa ser melhor compreendida. Ora, qual é a visão espírita do deficiente mental? O que é que estaria aprendendo ele ou o louco de todo o gênero, aquele que não tem o raciocínio de nada, já que na vida temos que evoluir intelectual e moralmente? Dá a impressão, por uma visão limitada, que a pessoa não está vivendo. E a gente sabe que na Antiguidade havia, em alguns países, a tendência de se eliminar as pessoas que tinham alguma debilidade mental ou deficiência física. A visão espírita é outra. Sabemos que há algum motivo para que aquele Espírito esteja ali, animando aquele corpo, naquele momento, naquela situação. O corpo físico é só seu instrumento. Essa é a crença.

JE - É crença ou é razão?
Marcos - Como a Doutrina Espírita tem um aspecto filosófico, vejo muita razão nisso. É próprio da evolução do Espírito. Agora, quem não vê evolução em nada, só vê a vida no dia-a-dia, essas coisas vão parecer um absurdo.

JE - Como a Ciência se comporta diante dessa discussão, uma vez que ela só considera a vida no sentido material?
Vannucci - O papel da Ciência é investigar. E aqueles que não aceitam fazer uma transfusão de sangue e morrem sem aproveitar dos recursos, porque isso vai contra os seus princípios religiosos? Se está assim, então, vamos fazer como antigamente? Será que a Ciência precisa buscar novas técnicas, novas maneiras? O assunto é realmente complexo. Vejo que não tem uma solução definida. A Ciência busca alternativas, mas, por exemplo, para se manter uma pessoa por vários anos com aparelhos sofisticados, o dinheiro investido aí é outro assunto interessante a ser analisado. Se você fosse investir essa quantia em saneamento básico e na melhoria de vida da população de menor renda, subnutrida, que morre até por tuberculose não tratada, por sarampo etc... Vamos ver que à dïs-cusão não é tão simples. É claro que a Ciência precisa progredir, não se pode bloquear a Ciência. Mas ela e os cientistas em todas as áreas têm que ter um certo cuidado ético-moral, porque não é simplesmente em nome da Ciência que você pode fazer qualquer coisa, pois pode-se cometer erros muito graves. Eu até trouxe o livro Obreiros da Vida Eterna, de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier - FEB, que tem um caso específico. O Jerônimo e o André Luiz vão trabalhar na desencarnação de algumas pessoas e uma delas, o Cavalcanti, está a alguns minutos da morte. Ele só não desencarnou antes, porque tem medo de morrer e se apega ao corpo. Os mentores espirituais tentam dar um jeito de desatar os laços fluídicos, até que vem um médico e lhe aplica uma injeção calmante. Parece até que seda a pessoa e André Luiz fala que, para o pesar do seu orientador espiritual, a injeção aplicada atrapalhou muito o processo de desencarnação, pois amorteceu as células do corpo e amorteceu também o Espírito, que só pôde continuar o trabalho 20 horas depois.

Marcos - Eu acho que a Ciência tem que ter total liberdade para trabalhar, porque ela precisa descobrir as coisas. Diz-se: mas a pessoa está naquele estado, será que a Ciência não vai descobrir um remédio para sua doença, para reverter a situação? É como o David falou, o médico tem uma grande responsabilidade no que faz e precisa de mais de um médico para dar uma conclusão sobre determinado paciente, um estado irreversível, que a Ciência naquele momento não tem meios de resolver. Ninguém vai descobrir um milagre de um dia para o outro. A Ciência tem que continuar trabalhando nisso. Se um dia os cientistas descobrirem uma fórmula de trazer o Espírito ao corpo (risos) ou qualquer coisa neste sentido, maravilha! A gente não sabe os desígnios da evolução espiritual. Quem sabe, precisamos ficar mais tempo aqui encarnados! Até o momento, ainda não temos determinadas conclusões. O que sabemos hoje é que o indivíduo pode chegar ao estado terminal, deplorável, às vezes, mas que isso também tem um sentido. Tudo o que a gente passa é para o nosso crescimento espiritual. Aí é que vem a explicação da Doutrina Espírita. Tudo está servindo para crescermos espiritualmente. Por isso, para um sujeito que está numa cama 24 horas por dia, só olhando para o teto, só restou a ele a opção de dormir e pensar. Ele poderá estar naqueles instantes concluindo alguma coisa, desta ou da vida anterior, talvez valorizando o que tinha e deixou de aproveitar, transformando seus valores. Essa transformação é o que é mais interessante para ele. Essa reflexão sobre a vida é mais real do que o próprio corpo que está ali.

JE - Há provas de reflexão, de consciência, de pacientes que dizem que foram e voltaram. Como é isso na Medicina?
David - Existem relatos de todos os tipos de pacientes em estado de coma e de quando eles retornam desse estado. Curiosamente, essas experiências podem ser agrupadas em três grandes grupos: o grupo dos indivíduos que dizem que dormiram o tempo todo e não se lembram de absolutamente nada; o , grupo dos pacientes que dizem que ficaram acordados, presentes na UTI, acompanhando o corpo e o que estava acontecendo; e o grupo daqueles que viajaram, foram ver luzes, túneis, outras pessoas com quem conversaram e depois voltaram para o corpo. Os três grandes grupos acabam definindo três grandes perfis, três grandes maneiras de viver: o grupo do indivíduo materialista, que só vive a vida material, sem nenhuma percepção de vida espiritual e que sem o instrumento físico não tem percepção de consciência; o grupo que até já ouviu falar de Espírito, mas está mais preocupado com a balada do sábado à noite e ao se ver do lado, meio perdido, meio confuso, ouve as coisas, vê o que está acontecendo sem entender nada; e aquele indivíduo que tem uma concepção espiritual e, nesse momento, estabelece outros contatos.

JE - A gente sabe que Ciência e Religião têm que andar juntas. E Kardec disse que quando a Ciência demonstrasse algum erro (demonstrasse, não mostrasse) que a gente ficasse com a Ciência. Eu pergunto para o Vannucci: tem limite nisso?
Vannucci - Vou dar um exemplo bem específico. Essa idéia da clonagem. O filho está com problema de fígado, precisa de um transplante, não tem doador. Se a gente pegar uma célula dele, um núcleo, colocar numa outra célula, gera-se um corpo, para que depois se retire o fígado para transplantar no filho doente. Tem gente querendo fazer isso, pode ser tentado. Acho que a possibilidade disso acontecer é grande, porque já se consegue clonar ovelhas, cavalos... é uma questão de tempo. Agora, vêm as perguntas que importam: isso é ético? vai contribuir para o avanço espiritual da Humanidade? Há quem diga: "mas, se não for uma coisa boa, o plano espiritual não vai deixar acontecer, o plano espiritual vai vigiar". Não é verdade, pois Jesus disse que os escândalos seriam necessários, mas ai daqueles que os provocassem. Precisamos sempre lembrar que estamos num planeta de provas e expiações.

JE - Mas isso seria um escândalo? Ou um progresso?
Vannucci - O plano espiritual apro veita tudo. As grandes guerras trouxeram grandes avanços tecnológicos e científicos. E só por isso vamos provocar guerras? A guerra é um escândalo. Traz progresso, claro, mas não é por isso que vamos fomentar a guerra.

JE - Toda essa conversa nos faz pensar que realmente a gente está passando por uma crise significativa, devido à falta do despertar espiritual. Eu queria que vocês fizessem as conclusões finais sobre tudo o que foi discutido.
David - A crise é invenção nossa. E é recente. Tem uma obra de um grande filósofo do século 20, chamado Karl Popper, intitulada Eu e o seu Cérebro,onde ele discute o problema corpo/mente, a relação portanto entre o Espírito e o corpo. Ele faz a seguinte analogia: até Descartes, no século 17, essa conversa não tinha nenhuma razão de ser. Seria ilógica, seria totalmente sem pé e sem cabeça, porque até aquele momento o Espírito, a alma humana, era uma realidade; o corpo humano era outra realidade. A interação dos dois era fato. Como interagir, a maneira de interagir, — era outros quinhentos. A Filosofia era toda dualista e interacionista. O próprio Descartes se definiu assim. Os pós-cartesianos é que começaram a fragmentar. Então, um grande antagonista dos cartesianos, por exemplo, Baruch Espinosa, saiu do dualismo-interacionismo e fez uma proposta de paralelismo, onde corpo e espírito seriam dois aspectos diferentes da mesma substância. Curiosamente, foi esse o modelo filosófico que mais agradou à Medicina. E é o modelo filosófico que a Medicina usa até hoje. Encontramos, no meio médico, literatura fartíssima sobre isso. Algumas delas conseguiram ganhar status de best-seller entre os autores não médicos, advogando que toda a nossa atividade mental, tudo o que nós pensamos, sentimos, vivenciamos, é fruto do nosso metabolismo cerebral. Esse tipo de propositura não me agrada nem um pouco, porque eu não gosto de ser considerado uma sopa bioquímica. E não me agrada a idéia de que na verdade eu não amo a minha esposa. Que o que sinto é simplesmente uma questão de interação molecular do meu cérebro, que faz com que eu tenha a ilusão de que eu amo a minha esposa.

Marcos - Corpo e alma precisam interagir. E se os dois estão juntos, existe um porquê. Um o Espírito que se sabe, que é eterno; o outro, é o corpo servindo ao Espírito. É um posicionamento doutrinário lógico. O corpo servindo ao Espírito, com toda certeza como matéria vai se deteriorando, sujeito às doenças. Mas todas essas situações facilitam o crescimento do Espírito. Algumas ainda nos parecem absurdas, às vezes. Se nós queremos achar a razão da expressão boa morte em questões desse tipo, vamos passar, sem perceber, a um processo de eugenia, à busca de uma coisa perfeita, aqui na Terra. Temos que tomar cuidado, pois podemos cair em situações piores como a eutanásia A forma de viver dignamente é a forma que a pessoa escolheu. E a reflexão, ela tem até o último segundo da sua vida. Temos que dar essa liberdade a ela. O suicídio no Brasil não é considerado crime. O induzimento ao suicídio, sim. A pessoa tem a liberdade de fazer o que quiser. E vai responder pela forma como agir.

Vannucci - Eu acho que todos nós vamos passar por problemas e vamos ter que tomar decisões. É claro que só vai passar por situações mais complicadas quem tiver uma prova, uma experiência necessária a sua evolucão. Mas de qualquer forma, vai ter que tomar uma decisão. E a decisão tem que ser tomada segundo a consciência, olhando inclusive o bem-estar da criatura, não só sob o ponto de vista material, mas principalmente espiritual. A maior parte da preocupação deve ser com o que vai acontecer depois. E é claro que surgem dúvidas. Acho que tem que haver o conhecimento adequado de tudo o que está acontecendo, de todos os pontos de vista, para depois se tomar uma decisão. Agora, o importante é que, tomada a decisão, não se torture de culpa.

JE - Essa decisão deve se basear na lei do amor...
Vannucci - O amor tem que reger tudo.

Marcos - Há diferentes formas de se ver com amor. Ë a gente vai buscando a verdade segundo o que entendemos da vida. Cada um tem a sua personalidade pelas experiências que já viveu e vai fazendo a sua vida de acordo com o que entende que é melhor para si. Amar com o melhor entendimento. E responder por aquilo que faz ou deixa de fazer. É assim que se promove o aprendizado, o aperfeiçoamento e a evolução.

David - As decisões têm que ser regidas pela Lei do Amor, mas não pode ser o nosso amor mundano, que impera nas ruas. Tem que ser o amor como era defendido, ensinado e pregado por Jesus. Aquele amor eterno, aquele amor que submetia-se à vontade de um Pai amoroso, que buscava cumprir Sua vontade. Aquele amor que era manso, pacífico e tolerante. Senão nós vamos começar a misturar, confundindo-o com o nosso egoísmo, com o nosso orgulho. E aí vamos ter grandes desvios.

Entrevista e edição: Eliana Ferrer Haddad
Transcrição da fita: Altamirando Carneiró
Fotos: Frank Gemina

Debatedores:
1- Álvaro Vannucci - Físico e professor da Universidade de São Paulo, pesquisador espírita, colabora na Casa Espírita Maria de Nazaré e no Centro Espírita Caminhos de Luz.
2 - Marcos Roberto Carvalho Barbosa - Advogado, expositor espírita, trabalha na Área de Ensino e na Área de Assistência Espiritual da Federação Espírita do Estado de São Paulo.
3 - David Vieira Monducci - Médico neuro-cirurgião e professor universitário. Expositor espírita da Área de Ensino e da Área Federativa da Federação Espírita do Estado de São Paulo.