Estudando o Espiritismo

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quarta-feira, 16 de março de 2016

Chico e Ignez de Castro



Chico e Ignez de Castro
O romance Ignez e Pedro, que editamos em dezembro de 2013, nasceu de longos papos com Francisco Cândido Xavier e relata a vida extremamente simples da bela Ignez de Castro, embora o poder real a visse como séria ameaça ao reino de Portugal. As alegadas razões de Estado para a sua morte permanecem inexplicadas.
Chico Xavier jamais escondeu seu fascínio pela dama galega, decapitada a 7 de janeiro de 1355, deixando o marido enlouquecido e três filhos pequeninos.
Nos velhos tempos de nossa convivência, Chico discorria sobre Ignez com lágrimas nos olhos. E falava-nos, também, com carinho inexcedível, de Maria João de Deus, sua mãe, e de Isabel de Aragão, a santa rainha que a comunidade da península Ibérica tanto respeita.
Lembra-me, especialmente, certa ocasião em que Chico, emocionadíssimo, relatoume com detalhes a cena que se seguiu à brutal morte de Ignez, ocorrida na presença dos filhos tão pequenos, da aia Ana, da irmã Maria do Convento de Santa Clara e do espírito de Isabel de Aragão. Não estava presente Pedro, seu esposo, envolvido em uma caçada com o cunhado Álvaro, a poucos quilômetros do local onde Ignez perdera a vida.
Ignez de Castro foi cruelmente degolada nas primeiras horas da manhã fria de uma quarta-feira, daquele trágico 7 de janeiro.
O que ouvi do Chico consta do capítulo Inês e Isabel, do livro Ignez e Pedro e reproduzo a seguir:
Surgiam as claridades do dia naquela manhã que enlutava toda Coimbra. Respirava- se imensa tristeza.
O carrasco cumprira sua missão e afastara-se, envergonhado, levando o cepo e o machado que martirizaram Inês. Os algozes se retiraram do pátio com a estranha sensação do dever cumprido...
Ana, atônita, desesperada ante a terrível cena que presenciara, envidava todos os esforços para ocultar Inês desfigurada às inocentes crianças, apesar da rebeldia do mais velho.
João Álvaro, apavorado, presenciou a decapitação da mãe, pois desgarrou-se de Ana, que fizera de tudo para segurá-lo.
Em eloquente mudez, estavam também presentes as caridosas irmãs do mosteiro.
Dentre elas uma se destacava pelo zelo e carinho com que procurava recompor o corpo de Inês, para conduzi-lo, com desvelo, à igreja do convento de Santa Clara.
Seu nome?
Maria! Tornara-se clarissa pelas mãos de Isabel. Sua caminhada, nos séculos vindouros, se interligaria à de Inês para toda a eternidade, sob as bênçãos da Rainha Santa.
O silêncio era sepulcral, e somente o interrompiam os soluços contidos das poucas pessoas presentes naquele ambiente de dor...
Serviçais reconhecidas à jovem dama lavavam, desconsoladas, o pátio do paço, onde o sangue da mártir se espalhava por toda parte.
Até mesmo a natureza prestava sua última homenagem à criatura de Deus cuja vida fora ceifada com tamanha violência:
Ali, bem próximos, na Quinta das Lágrimas, encontravam-se tentilhões em fuga dos rigores do frio do norte europeu, na ansiosa busca do inverno mais brando em Coimbra. Mas, não se ouvia o seu forte gorjeio tenoril.
Igualmente estavam ausentes o farfalhar das agitadas toutinegras e o alarido dos tordos. Silentes, abrigavam-se esses pássaros na ramaria dos carvalhos e plátanos, solidários a Inês naquele momento de infinita dor...
E Inês de Castro?
Onde se encontrava a mulher de olhar penetrante, que procurou, de todas as formas possíveis, evitar aqueles assustadores momentos, suplicando a atenção de Pedro para as tramas palacianas? Onde estaria Inês, que não conseguira sensibilizar o esposo com suas aflitivas premonições?
Já repousava na igreja do convento...
Do verde aguado do lençol translúcido que a cobria, emanava um quê de misteriosa paz. Isabel, vindo das Alturas Celestiais, desde a chegada dos algozes no paço de Santa Clara, ainda de madrugada, não se afastara de Inês em momento algum.
Enquanto as clarissas oravam ao Senhor, em comovente silêncio, irmã Maria divisou no recinto uma suave claridade que cobria toda a ambiência. E exclamou, levando a mão à boca na tentativa de conter a voz:
— Estou a ver a Rainha Santa, nossa protetora, nimbada de luz!
Isabel de Aragão contemplou-a com o olhar triste, sem nada dizer, em respeito à grave situação, e permaneceu junto ao corpo dilacerado da jovem martirizada, ajeitando Inês, já despojada do veículo físico, com desvelo em seu regaço. A santa soberana afagava Inês, beijando-a e acariciando seus cabelos com inexcedível ternura.
Em determinado momento, achegou-se um pouco mais do seu rosto, tão belo, e falou-lhe:
— Filha querida! Roguei tanto a Maria, nossa Mãe Santíssima, que me permitisse estar junto a ti!
Inês, decapitada, estava atordoada pela anestesia ministrada por caroáveis médicos da Vida Maior. Atentos e zelosos, seguiam de perto a Rainha Santa desde os primeiros instantes da tragédia.
Isabel permaneceu demoradamente em prece, apondo-lhe sobre a fronte suas mãos evanescentes.
A inocente vítima, aturdida, despertou sem nada compreender. As lágrimas brotavam de seus olhos glaucos.
Descrever sua beleza com nosso restrito acervo de palavras é impossível.
Seus longos cabelos estavam viçosos como sempre, qual se nada lhe tivesse ocorrido...
Assim como as flores no Plano Espiritual se revestem de matizes mais vivos que os da Terra, o rosto de Inês, agora sereno, estava arrebatador e mostrava-se diverso daquele que rolara minutos atrás, ante a cruel agressão do machado.
Do ouro dos cabelos e da face alva irradiava sutilíssima claridade que realçava o verde dos olhos tão belos.
Lembrava aquela Inês dos saudosos tempos, os da Quinta de Canidelos, de longe o período mais feliz de sua vida. Era quando Pedro a contemplava, qual se dirigisse o olhar a uma deusa, cujo sorriso exalava a paz que lhe reconfortava o espírito sempre atribulado.
Seu implemento físico restara destruído no pátio do paço da rainha, mas seu espírito estava vivo para a eternidade, aconchegado ao colo de Isabel.
Ao sentir as vibrações da santa rainha, ainda vacilante e indecisa, com extrema dificuldade, mal refeita do golpe de Brás, Inês conseguiu falar, reconhecendo a benfeitora:
— A senhora é Isabel de Aragão!
Eu vos reconheço pela descrição que ouço sempre de Pedro, destacando-vos a beleza e o olhar bondoso. Recordo-me também de vossa voz, tranquilizando-me, quando me achava febril, após o enlace de Pedro e Constança na Sé de Lisboa... Há quanto tempo, meu Deus!
Por favor, suplico-vos, trazei Pedro e as minhas crianças. Preciso vê-los! Sinto-me desmemoriada, cansada, com a sensação de que violento impacto atingiu-me. E, num último esforço, já abatida pelo cansaço, sussurrou:
— Graças a Deus, isso não aconteceu...
Isabel, não desejando assustá-la, respondeu com muito afeto, sem mencionar o que ocorrera:
— Sim, minha querida filha, sou Isabel. Precisas descansar um pouco.
Ofegante, Inês solicitou-lhe:
— Minha senhora, por misericórdia, antes trazei Pedro e as crianças.
Isabel ponderou:
— Minha filha tão amada! Que emoção reter-te em meus braços. Jesus permitiu-me que ficasse a teu lado nessa manhã que tanto significa para nós.
Doravante estaremos sempre juntas. Afinal tu és um pedaço do meu coração, minha criança. Acompanho-te há tempos que se perdem no imensurável passado. Tem paciência, rogo-te. Logo Pedro e os filhinhos virão. Tu careces de longo repouso, para retomar as energias combalidas. Trouxe comigo tua mãe para ficar a teu lado.
Num grande sobressalto, Inês, emocionada com o devotamento da Rainha Santa, divisou o vulto de D. Aldonça destacar-se no ambiente iluminado e abraçá-la com todas as forças de seu coração.
Apenas conseguiu dizer:
— Mãe, desde a meninice não vos vejo!
Então, com um travo de amargura, Inês a tudo compreendeu: já deixara o seu corpo na Terra...
— Anjo de minha vida, viestes buscarme? Ides levar-me ao Céu?
— Filha querida, já estamos no Céu. Tua profunda afeição a Pedro e às crianças e tua vida de renúncia fazem-te merecedora da presença de Isabel, um céu em nossas vidas.
Peço-te um pouco de paciência; logo reverás as criaturas que tanto amas, porém é preciso partir. Não te preocupes, pois estarei sempre vigilante ao lado de Ana, amparando a Pedro, Beatriz, João e Dinis.
Por favor, acompanha Isabel.
Inês segurou-lhe a mão com tamanha determinação que D. Aldonça dirigiu o olhar em súplica à Rainha Santa, rogando ajuda.
Nesse momento, surgiu no ambiente uma faixa etérea de um azul suave, desenhando o caminho a ser percorrido em direção a paragens celestiais.
Isabel fez Inês adormecer e conduziu-a, volitando sobre essa esteira de luz, a acolhedor recanto, onde lhe preparara com afeto um leito aconchegante.
Quem estivesse presente veria duas grandes almas de incomum beleza seguirem juntas.
Uma com as marcas do sofrimento, embora atenuadas, a lhe fatigar o rosto adormecido. Outra, levando consigo um presente de Deus, que conduzia com extremo cuidado. Era a mais bela rosa de seu jardim...
A precisão de repouso se fazia mister para o socorro imediato à jovem heroína, em decorrência de sua violenta e brusca separação do corpo. Era essencial que ela se desligasse do mundo que não a compreendera.
E Inês descansou.
Enquanto Isabel de Aragão ascendia aos Céus com aquele anjo ao colo, vozes harmoniosas de espíritos alcandorados seguiram- na, entoando hinos de louvor ao Divino Mestre:
— Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra!...
E foi assim que Portugal perdeu a oportunidade de viver sob a proteção de uma rainha que, inspirando o marido, traria paz e solidez ao reino, amparo e esperança ao povo, sobretudo à gente sofrida dos campos, que ela tanto amava.
Seria ela a discípula da santa rainha, seguindo-lhe o exemplo e auxiliando Pedro a exercer seu mandato real.
Isabel sempre acompanhara as deliberações de D. Dinis, sobretudo batendo-se com firmeza para atenuar ou evitar as guerras e mostrando-lhe, com sua sublime atuação em favor dos desafortunados, ser imprescindível a tolerância em suas decisões.
Inês, após quase três meses de repouso e reintegração à vida no Além, sob os cuidados de Isabel, voltaria à Terra já refeita, para rever os filhos e permanecer junto a Pedro.
Sob a orientação da Rainha Santa, dedicou- se com devoção, para que o esposo pusesse fim à vingança contra o pai e selasse as Pazes de Canaveses.
Com essa interferência direta do Plano Espiritual, o reino renasceria da comoção dos tremendos embates que o sacudiram, tendo como causa apenas uma simples história de amor.
História tão simples, qual aquela de um casal enamorado que vive no casebre, ao sopé da montanha, com o riacho cristalino correndo ao lado e tendo como dossel as estrelas...
Pena, pena mesmo, que Chico Xavier, com sua imensa bondade, não mais esteja fisicamente conosco.
Nós espíritas temos muito a aprender com ele, que a tudo renunciou, servindo a Jesus ao longo de todo o século passado.
Se estivesse ainda conosco, ter-nos-ia Chico contado muito mais sobre Ignez e Isabel de Aragão, anjos que iluminavam o triste e obscuro período medieval, mergulhado na fome, nas pestes e nas guerras.
E também falar-nos-ia daqueles tempos longínquos, baldos de esperança na vida após a morte, que tanto os infelicitava, desenhada para o cidadão da Idade Média na figura do Céu inabordável e das chamas infernais.
A consoladora doutrina de Kardec, vivenciada plenamente pelo Chico, somente se materializaria séculos depois, descortinandonos a realidade da vida no Plano Espiritual e as bênçãos regeneradoras da reencarnação.
E mais, Chico buscou, com seu terno sorriso, mostrar-nos que podemos, sim, ser felizes na Terra, qual ele foi. Como?
Servindo à causa de Jesus, que nos ensinou sua mensagem de Vida Eterna nas pregações no Mar da Galileia, o imenso lago de margens recamadas de simples povoados, de tão grata recordação: Corazim, Cafarnaum, Magdala, Tiberíades, Betsaida...
Caio Ramacciotti