Estudando o Espiritismo

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Hermenêutica, Exegese e Espiritismo


Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos clamam: “Irmãos! nada perece. Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade.” – O Espírito de Verdade. (Paris, 1860.) [1]

No Cristianismo e em outras religiões como o Budismo ou o Hinduísmo, há mais de uma vertente. Há, ainda, muitos ateus, seja por convicção, seja por desilusão com as religiões. Tanta heterogeneidade e divergência em uma parcela tão pequena do Universo que é a Terra... Por quê?

Toda compreensão que temos do mundo advém de uma pré-compreensão, baseada em coordenadas espaço-temporais, uma expressão da forma como estamos, por sermos Espíritos que já envergaram diversas personalidades ao longo dos séculos, e das lições aprendidas durante essas existências, tanto encarnados quanto na erraticidade (período entre encarnações). As diferentes histórias de evolução de vidas de cada um de nós implicam diferenças de visão, e daí uma série de entendimentos distintos sobre religião, tal como sobre política, sociedade, arte etc.

Necessitamos, assim, entender os campos de estudo da hermenêutica e da exegese e como essas ciências, ambas contempladas na Doutrina Espírita, nos ajudam a compreender tais diferenças. Segundo o dicionário Aurélio [2], temos:

Hermenêutica: Interpretação do sentido das palavras;
Exegese: Comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra.

Hans-Georg Gadamer é um autor decisivo no estudo da hermenêutica do século XX. Em seu livro “Verdade e Método” [3], lançado em 1960, Gadamer afirma:
“Quem quiser compreender um texto realiza sempre um projetar. Tão logo apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete prelineia um sentido do todo. Naturalmente que o sentido somente se manifesta porque quem lê o texto, lê a partir de determinadas expectativas e na perspectiva de um sentido determinado. A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração do sentido.”

Allan Kardec, na obra “A Gênese” [4], lançada em 1868, ou 92 anos antes do livro supracitado de Gadamer, já trazia uma visão convergente com a que seria trazida pelo referido pensador do século XX:
“Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todos e as Escrituras não são mais a arca santa na qual ninguém se atreveria a tocar com a ponta do dedo, sem correr o risco de ser fulminado.
(...) Os homens só puderam explicar as Escrituras com o auxílio do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da Natureza, mais tarde reveladas pela Ciência. Eis por que os próprios teólogos, de muito boa-fé, se enganaram sobre o sentido de certas palavras e fatos do Evangelho. Querendo a todo custo encontrar nele a confirmação de uma ideia preconcebida, giraram sempre no mesmo círculo, sem abandonar o seu ponto de vista, de modo que só viam o que queriam ver. Por muito instruídos que fossem, eles não podiam compreender causas dependentes de leis que lhes eram desconhecidas.
(...) Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis se forem revelando, saberão separar da realidade os sistemas utópicos. Ora, as ciências tornam conhecidas algumas leis; o Espiritismo revela outras; todas são indispensáveis à inteligência dos Textos Sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo.”

Peguemos um pequeno exemplo, o da palavra grega “bapto”, citada à introdução da tradução do Novo Testamento, feita diretamente a partir do grego, lançada pelo Conselho Espírita Internacional [5]:
“Figuremos um exemplo singelo: o verbo grego ‘bapto’ (mergulhar, imergir, lavar), pelos processos de derivação das palavras, é responsável pela formação do substantivo ‘baptismo’ (mergulho, imersão, ato de lavar)”. Ao se traduzir esse substantivo por batismo, é impossível que o leitor moderno não associe o vocábulo aos temas teológicos ligados ao sacramento do batismo.
Todavia, urge reconhecer que essas teologias não existiam ao tempo em que os livros do Novo Testamento foram redigidos, ou melhor, não existiam nem mesmo igrejas nos moldes das atuais. Não possuímos sequer registros seguros de que os judeus, sistemática e institucionalmente, utilizavam a imersão em água como ritual para conversão de prosélitos.”

O Espiritismo busca a consistência das ideias pela chegada a conclusões convergentes, por meio de diversos estudos independentes, efetuados em locais e por grupos distintos. É um método científico, sem “ocultismo”. Kardec assim cita a respeito, no item II da Introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [6]:
“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.
(...) Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas ideias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: ‘Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos.’ A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.
Na posição em que nos encontramos, a receber comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados pelos mais diversos pontos da Terra, achamo-nos em condições de observar sobre que princípio se estabelece a concordância. Essa observação é que nos tem guiado até hoje e é a que nos guiará em novos campos que o Espiritismo terá de explorar.”

Como a maioria da Humanidade terrestre é composta por seres em etapas mais básicas da evolução, ainda distantes dos Espíritos de maior alcance nos campos intelectual e moral, não se consegue a apreensão da essência dos fatos e ensinos. Apreendemos o que está fora de nós como um fragmento do real, uma faceta de uma dimensão, o que não significa que não haja outras facetas, outras dimensões, as quais podem ser apreendidas por outros e devem respeitadas inclusive por quem não as verificou ou mesmo com as quais não concorde. Respeitemos e valorizemos a divergência, o contraditório, desde que fundamentados em argumentos.


Todos nós apreendemos segundo nossos limites, nosso horizonte, o qual pode se ampliar, pelo aprendizado e estudo. Assim, o entendimento de um determinado texto implica uma ação de projetar sentidos, a partir do que o intérprete possui de compreensões prévias. O sistema, porém, se realimenta: ao mesmo tempo em que a ideia lida só tem como ser compreendida pelos entendimentos prévios do leitor, as novas informações recebidas auxiliam na modificação desse conjunto de compreensões prévias, as quais vão, portanto, se alterando.

Kardec também apontou esse caráter progressivo do entendimento da Doutrina Espírita, por exemplo, nos trechos a seguir apresentados, constantes dos itens 16 e 55 do primeiro capítulo da obra “A Gênese” [7]:
“O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente (...). Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a exposição das leis da Natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis. (...) Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”

Complementando a Hermenêutica com a interpretação das palavras, a Exegese vem estudar os significados moral e espiritual dos textos. O Codificador do Espiritismo preocupou-se com esses dois aspectos, apresentando-os à Introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [8]:
“É certo que tratados já se hão escrito de moral evangélica; mas, o arranjo em moderno estilo literário lhe tira a primitiva simplicidade que, ao mesmo tempo, lhe constitui o encanto e a autenticidade. (...) Para obviar a esses inconvenientes, reunimos, nesta obra, os artigos que podem compor, a bem dizer, um código de moral universal, sem distinção de culto. (...) Esse, entretanto, seria um trabalho material que, por si só, apenas teria secundária utilidade. O essencial era pô-lo ao alcance de todos, mediante a explicação das passagens obscuras e o desdobramento de todas as consequências, tendo em vista a aplicação dos ensinos a todas as condições da vida. Foi o que tentamos fazer, com a ajuda dos bons Espíritos que nos assistem.”

Quanto mais estudarmos e apreendermos esses conhecimentos, aplicando-os efetivamente em nossa vida prática, mais eficientes nos tornamos na tarefa de fazer o Bem. Respeitemos os posicionamentos divergentes, pois todos têm sua história particular de evolução, da qual decorrem seus entendimentos; bem como o respeito à diferença também é uma demonstração de caridade.


Leia também, neste blog, as postagens “Os Opositores da Doutrina Espírita”, “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, “Não Vim Trazer a Paz, mas a Divisão”, “Tranquilidade no Retorno à Pátria Espiritual”, “A Reencarnação na Bíblia” e “Mediunidade na Bíblia”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. RIO DE JANEIRO, FEB: 1987. Capítulo VI, Item 5.
[2] HOLANDA, Aurélio Buarque de. “Novo Dicionário Eletrônico Aurélio”. Versão 5.0 de 2004. Positivo Informática. Palavras hermenêutica e exegese.
[3] GADAMER, Hans-Georg. “Verdade e Método”. 3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. Segunda parte, item 2.
[4] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I, item 29.
[5] Novo Testamento. Tradutor Haroldo Dutra Dias; revisor Cleber Varandas de Lima. Brasília, DF: Conselho Espírita Internacional, 2010. Introdução.
[6] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. RIO DE JANEIRO, FEB: 1987. Introdução, Item II.
[7] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I, itens 16 e 55.
[8] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. RIO DE JANEIRO, FEB: 1987. Introdução, Item I.


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