Estudando o Espiritismo

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sábado, 16 de janeiro de 2016

600 anos de SOMBRAS

Fonte - http://www.jornaldosespiritos.com/2008/alem(2).htm

600 anos de SOMBRAS

“Todo pedido de perdão é um grande começo”

PAULO ROBERTO VIOLA (PARA A REVISTA ESPÍRITA ALÉM DA VIDA)

O Santo Ofício da Inquisição, o Espiritismo perdoa? Os seis séculos de Inquisição, que tanto abalaram e enegreceram o Planeta, não podem, de sã consciência, ser considerados um libelo contra a prestigiosa instituição Igreja Católica Romana, pois os desvios históricos ocorridos, por mais terríveis que tenham sido, não devem comprometer toda uma organização, mas, sim, os seus efetivos responsáveis, seres humanos frágeis e pecadores, sempre capazes de façanhas inimagináveis... para o bem ou para o mal. Afinal, essa mesma Igreja Católica que viveu as barbaridades da Inquisição praticadas pela Corte indecorosa de Papas perdulários e delinqüentes, como o impiedoso Paulo IV, o anti-Papa Inocêncio 3º, o bon vivan Leão X e mais recentemente o  Papa Pio IX,  foi a mesma que no curso do Cristianismo acolheu notáveis como os Papas João XXIII e João Paulo 2º  e trouxe tantas  pegadas luminosas, como as  do virtuoso de Assis, do venerável Bento, do eremita Francisco de Paula, da madre Teresa de Calcutá, da carmelita descalça Joanna de Ângelis,  de Frei Luis, de Teresa D’Ávila e de tantos outros. Com efeito, não teria sido por outra razão que o ilustre escritor Hermínio Miranda, um dia, chegara a uma “agradável conclusão”: “a Igreja é uma respeitabilíssima Instituição, com tantos virtuosos históricos, que vem varando os séculos. Afinal,todos já integramos, alguma vez, essa grande família, seja na infância, seja em encarnações anteriores” (do livro "Francisco de Paula, o Eremita da Caridade").

O histórico resumido resumido da Inquisição

Como Nasceram as Sombras do “Santo Ofício”.

A legislação contra aqueles que não comungavam com os princípios ortodoxos da Igreja Católica foi se tornando cada vez mais radical através da História. Em 1184,  o Papa Lúcio 3º, formula um direito penal para punir indivíduos considerados “hereges” (pessoas que pensavam, ou agiam, de forma conflitante com o que a Igreja apregoava como verdade). Com base nesses postulados, autoridades e leigos, ficaram obrigados a denunciar os hereges sob pena de confisco de suas propriedades. Em 1199, o Papa Inocêncio 3º tipifica a heresia como crime de lesa majestade, ou seja, um  delito contra a autoridade do monarca. Durante o pontificado de Inocêncio 3º as trevas predominaram. Com um Exército de cerca de  trinta mil soldados, convocados por ele, dentre mercenários e vadios, o sul da França foi invadido, instalando-se ali uma guerra que duraria quatro décadas, morrendo um número inestimável de crianças e inocentes. Seu objetivo era reconhecidamente político e não o de preservar a fé. Considera-se que foi um dos Papas mais corruptos e voltados para os valores mundanos.
Posteriormente, em 1209, a História registra o assassinato de 7.000 pessoas que foram queimadas vivas dentro de uma igreja local, acusadas de heresia,  na cidade de Béziers,  na França.
Mais adiante, o Papa Gregório IX, o mesmo que canonizou Francisco de Assis, Santo Antonio de Pádua e São Domingos de Gusmão, criou, em 1233, o Santo Ofício da Inquisição, através da Bula Licet ad Capiendos, com o que pretendia reprimir as doutrinas heréticas, ou seja qualquer movimento pensante  que fosse considerado afronta à visão oficial  do Catolicismo. Mediante essa Bula, Gregório confere aos dominicanos a tarefa de erradicar a heresia. Do temido e sombrio documento, constou: “Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando, em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis".
Nascia ali, de forma institucionalizada e escancarada, séculos de perseguição, interrogatórios e punições cruéis a quem divergisse do pensamento religioso dominante, a temida Inquisição. Nesse mesmo ano de 1233,  Roberto el Bougre, designado Inquisidor, promoveu saques e execuções em massa, e,  após dois anos, foi promovido a responsável pela Inquisição em toda a França. Em 1252, o Papa Inocêncio IV assinou a Bula "Ad Extirpanda", que consagrou definitivamente o temido Tribunal Eclesiástico da Inquisição, autorizando o uso da tortura e da barbárie. O Poder institucional do Estado era obrigado a colaborar com esse Tribunal da Igreja. Os inquisidores - pessoas encarregadas de investigar e denunciar os hereges – desfrutavam de padrão cultural de excelência, pois eram doutores em Teologia, Direito Canônico e Civil. Caso julgasse necessário, os inquisidores tinham o poder de exigir que as autoridades civis, sob juramento, defendessem a Igreja contra a maldade herética...
O padre Bernardo, jesuíta, foi um nome que muito se destacou nessa ação inquisitorial inicial, por ser, como Inquisidor, na Região francesa de Touluse, implacável com suas vítimas.
No início dos anos 1300, na pequenina aldeia de Montaillon, no sul da França, vivia um povo que se cansava de pagar pesados tributos e multas ao poder dominante da Igreja Católica. Por derradeiro, os padres mais se preocupavam com a colheita de impostos do que outra coisa. Nesse tempo a Igreja era considerada a guardiã da palavra de Deus. Em meio a esse contexto, brotou uma semente reformista de reação, chamada catarismo, ou seja um movimento religioso rebelde que foi imediatamente identificado pela Igreja como herético. (Sobre os Cátaros o escritor espírita Hermínio Miranda escreveu uma obra de grande sucesso editorial, denominado "Os Cátaros e a Igreja Católica" – Editora Lachâtre).
O catarismo se espalhou, a ponto de ameaçar o poder papal e nesse tempo qualquer afronta à Igreja era considerado um ataque ao Governo que, por sua vez,  protegia a segurança dos Papas. Em Montaillon ficou muito conhecido um padre que se tornou famoso na História por sua devassidão moral, pois escondia permanentes e múltiplos amores nos recantos sombrios de sua paróquia sacerdotal. Padre Pierre que vivia simpaticamente entre os Cátaros, um dia achou simplesmente, como confidenciaria mais tarde, que estava perdendo seu poder sacerdotal na Região e acabou traindo os habitantes da pequena aldeia, que tanto o estimavam,  pois serviu de elo de comunicação para que a impiedosa reação da Inquisição chegasse à Montaillon. Dezenas de famílias foram condenadas e obrigadas a usar a cruz amarela que tanto denegria o usuário condenado.

A ação sombria de Jaques Fournier na França

Em 1318, surge a figura sombria do padre Jacques Fournier, que fora bem educado na Universidade de Paris, onde recebeu doutorado em teologia, mas que, nem por isso, teria qualquer compaixão com quem interpretasse o catolicismo diferente dele. Fournier acabou descobrindo que Montaillon estava literalmente seduzida pelo pensamento herege e lá reabriu a Inquisição. Intimou homens e mulheres aos interrogatórios cruéis. Os escribas anotavam, com rigor, todos os depoimentos dos aldeões. A vida das pessoas era invadida sem qualquer parcimônia. Beatrice, amante do padre Pierre, ficou presa, à pão e água, na Torre da Aldeia.
E note-se que entre os Inquisidores de seu tempo, Fournier foi considerado um dos mais complacentes, pois somente queimou cinco hereges. Em 1327, esse Inquisidor se tornou Cardeal e, sete anos depois, foi eleito Papa, tomando o nome de Bento XII. Sua obra maior: o suntuoso Grand Palais.
Uma das vítimas de Fournier fora um coitado judeu viajante , preso durante a noite sob os berros dos inquisidores: “sejam batizados, ou mataremos imediatamente”. Claro, ele preferiu o batismo. Esse judeu, inteligente e culto,  fascinara Fournier, com ele debatendo durante quase dois meses e tudo fazendo para torná-lo cristão, mas o velho judeu preferiu permanecer como pensava. Fournier, então, deu o ultimato. Converter-se, ou morrer, uma terrível palavra de ordem que atravessou os séculos.
Em 1376,  o Inquisidor  Nicolau Eymerich, formulou o "Directorium Inquisitorum", que era o Manual dos Inquisidores, onde constavam regras inenarráveis sob o ponto de vista de crueldade. O Manual informava ao Inquisidor 50 artimanhas de que se valia o demônio para  impedir o ato sexual, provocar impotência ou ensejar praticas abortivas. De lá vieram inspirações as mais draconianas: "És capaz de lembrar da tua confissão ontem, ou anteontem, sob tortura? Então, agora, repete tudo com total liberdade". E a resposta era anotada. Se o acusado não ratificasse a afirmação, era submetido a novas sessões de tortura. As "bruxas", isto é, mulheres que não apresentavam boa aparência, eram costumeiramente acusadas por todos os males que açoitavam a Europa.
Em 1394, os padres já exigiam a conversão dos judeus. No século XV,  a comunidade judaica vivia em guetos. Quando “convertidos”, passavam a incomodar os antigos cristãos com seus prósperos negócios. Não havia quem entre os “convertidos” que não fosse tomado de medo, pois temia sofrer qualquer tipo de discriminação e violência.

O Santo Ofício na Espanha

Em 1478, os tempos já eram outros na Ibéria. A Inquisição e suas filhas cruéis, a tortura e a morte, eram uma realidade na Espanha, instituída por Bula do Papa Sixto IV.  O terror irradiava por todo canto e a tolerância desaparecera do cenário espanhol. Fernando de Aragão e Isabel haviam se casado e, com isso, reuniram os Reinos de Castella e Aragão. Eles não concordaram que a Inquisição espanhola fosse administrada por Roma, pois nesse País os nomes eram apenas aprovados pelo Papa, mas quem indicava era o monarca espanhol. Assim sendo, em 1483,  Sixto IV nomeou o monge dominicano Tomás de Torquemada para as funções de Inquisidor Mor de todos os territórios de Fernando e Isabel. Esse dominicano era de uma crueldade sem limites. Estima-se que ele torturou e condenou à fogueira aproximadamente dez mil pessoas. Torquemada é considerado um dos grandes genocidas da Humanidade. Segundo fontes históricas, o  Papa Alexandre VI,  pensou em destituí-lo de suas funções, mas teria desistido por exclusiva consideração à corte espanhola.

O calvário da judia Cinta Cacavi e o assassinato de um Inquisidor

A acusada, uma judia,  fora denunciada por sete testemunhas. Era considerada uma infiel. E, por isso, o inquisidor determinou sua tortura, que era admitida como forma de obter confissão, desde que prevista pelo Manual da Inquisição. Assim sendo, Cinta Cacavi foi queimada, com os pés amarrados, tendo os inquisidores o cuidado de cobrir o crucifixo para “não assistir” (ou “não ouvir”) os gritos de dor da sentenciada. A tortura foi tão cruel que a Corte acabou ouvindo o que queria: “sou cristã”.
O clima de denuncismo imperava, com parentes e vizinhos se acusando uns aos outros. Quando o fogo era aceso, tinha que arder até que os judeus presentes estivessem todos mortos e não existisse mais ninguém atacado pela “lepra da heresia”. Assim era o pensamento inquisitorial dominante.
Em 1485, o inquisidor Pedro Arbus morreu assassinado, justamente ele que fora declarado santo quatro séculos depois. Pelo assassinato Arbus, depois de buscas e inquéritos implacáveis,  mais de sessenta acusados foram condenados e atirados à fogueira.

O caso do Frei dissidente Baldo Lupertino e do Estudante de Pádua

A reação começava a se constituir espontaneamente. O monge alemão Martín Lutero lançaria, mais em seguida, a Reforma Protestante, desafiando o poder que emanava de Roma. O fascínio dos Papas pelos valores transitórios do mundo e pela bonança financeira, indignavam o monge alemão. O padre Baldo Lupertino, que era franciscano, também  já demonstrava idéias independentes, que se harmonizavam com os ideais de Lutero,  dizendo que o Papa era apenas o Pastor de sua própria Igreja. “Acredito na verdade contida nas Escrituras, mas não na autoridade do Papa, que é um ser humano como outro qualquer”.
Nesse tempo papas, cardeais e bispos viviam cercados de luxo, mais preocupados em questões políticas e financeiras do que nos verdadeiros valores espirituais.
Leão X assumira o seu Pontificado totalmente seduzido pelos prazeres do mundo. “Uma vez que Deus nos conferiu o nosso pontificado, vamos aproveitá-lo”, disse ele sem qualquer escrúpulo. Leão X (1513/1521) dedicava seu tempo às artes, às festas, à caça e ao teatro. Sua corte era abastecida por banquetes regados às melhores bebidas finas. As delícias do mundo anestesiavam incontrolavelmente o poder daquele Pontífice. Uma única preocupação marcaria seu reinado: a reforma da Catedral de São Pedro, o projeto mais ambicioso de Leão X, que levaria a Igreja ao fundo do poço. Para resolver a situação financeira difícil que criou, Leão X passou a vender indulgências (perdão comprado pelos católicos medievais, que ficavam isentos das penas temporais por pecados cometidos contra Deus).
A única providência desse Papa contra Lutero foi simplesmente excomungá-lo, em 1521. Mas toda a devassidão moral que imperava na Corte papal não era compartilhada pelo Bispo Giovanni Pietro Carafa, que fora embaixador do Vaticano na Espanha, onde observou a eficiência da Inquisição contra dissidentes, como Lutero. E passou,  em Roma, a sonhar com a mesma coisa. Assim sendo, Carafa passou a liderar um grupo de monges que se voltaria contra Lutero e os inimigos da então mais poderosa Religião da Terra.
Em 1529, a cidade de Veneza já estaria contaminada pela disseminação da heresia protestante. O padre franciscano Baldo Lupertino liderava a conspiração das idéias. Pregava para o público com independência, a reforma, afirmando que ninguém precisava do clero para falar com Deus, pois achava que esse contato deve ser direto. Sobre o sacramento da confissão, dizia: “somente Deus perdoa e sem uma confissão sincera e arrependida  a Ele, nenhuma confissão será válida, nem ao Papa”. Por isso, esse prelado dissidente tornou-se o alvo da vingança do Bispo Carafa. Por sua vez, outro reduto de hereges era a Universidade de Pádua, próximo a Veneza, famosa pela liberdade das idéias e por seu primor acadêmico.
Não demorou muito e um participante da comunidade denunciou Frei Lupertino em Roma. Nessa altura o Bispo Carafa já era Cardeal, com grande prestígio no Vaticano. Valendo-se dessa condição, fez a cabeça do Papa Paulo 3º, dizendo que era necessário exterminar a heresia protestante que crescia incontrolavelmente. E seu remédio para salvar Roma e a Península itálica não era outra: a Inquisição. E assim aconteceu com a construção de câmaras de interrogatório e celas de prisão próprias dos processo inquisitorial. Nem mesmo o pai de Carafa seria poupado, caso dele discordasse na fé: “se ele se tornasse um herege, eu armaria a fogueira para dizimá-lo”, dizia, sem escrúpulo, o impiedoso Cardeal. E a Inquisição tomava conta da Península.
Em Veneza, o dissidente Frade Lupertino seria  a primeira vítima do Cardeal Carafa. Preso, foi levado ao Tribunal da Inquisição, em 1542, onde manteve as idéias dissidentes que o fizeram réu. O enviado do Papa queria a execução exemplar do acusado, amarrando-o na Praça de San Marco e queimando-o para que suas cinzas fossem atiradas ao mar “pela honra e glória do Cristo”. Mas, para não ensejar repercussão nos negócios da cidade, preferiu-se o aprisionamento de Frei Lupertino por tempo indeterminado, permanecendo ele no cárcere por quatorze anos, até que o Papa Paulo IV -  nome que o Cardeal Carafa assumiu ao ser eleito Pontífice – requereu a execução pública do prelado, o que foi vetado pelas autoridades de Veneza, e, em conseqüência, o padre acabou sendo atirado ao mar, às escondidas, na calada da noite, com uma pedra amarrada ao pescoço.

Segundo confessou, “nem seu pai escaparia da fogueira, caso fosse herege”.

Em 1555, o Inquisidor cardeal Carafa é, como dito acima,  proclamado Papa, com o nome de Paulo IV. A Universidade de Pádua logo entrou na mira ensandecida do Pontífice, que determinou a expulsão de todos os hereges. Um estudante de Direito, de apenas 24 anos de idade, tornou-se também uma vítima derradeira, que bem ilustra essa investida ação papal.  Intimado, o estudante compareceu ao Tribunal, onde manifestou em sua defesa o direito de expressar livremente suas idéias, enquanto estudante universitário de Pádua. “A Igreja se desvia da Verdade”, acusou ele, recusando-se a abjurar. Foi condenado à prisão e, depois, executado publicamente na Piazza Navona, mergulhado num barril de óleo fervendo, piche e água raz, onde sobreviveu por quinze minutos sob sofrimento atroz.

As trevas da Inquisição em Portugal e no Brasil

A Inquisição foi instituída em Portugal no ano de 1536 e somente terminou em 1821. O primeiro auto-de-fé foi assinado em 20 de setembro de 1540 na capital, Lisboa. Aproximadamente 70 mil portugueses foram condenados pelo Tribunal do Santo Ofício. Destes, mais de trinta mil  foram "purificados pelo fogo". Os que não eram destinados à fogueira normalmente eram exportados para o  Brasil-colônia, onde cumpriam pena.
Informam os historiadores que os Tribunais da Inquisição nunca foram oficialmente instalados em terras brasileiras. Entretanto, afirma-se que o clero detinha poderes inquisitoriais. Os vigários fiscalizavam a população, informando para as autoridades eclesiásticas  comportamentos considerados suspeitos de heresia. Por sua vez, os bispos tinham autoridade para determinar prisões, confiscar bens e transferir  suspeitos de heresia para julgamento em Lisboa. Segundo a historiadora Anita Novinsky, numa entrevista que concedeu no Rio,  “tivemos um Tribunal do Santo Ofício, que atuou no Brasil durante 285 anos, sobre o qual não conhecemos nada”.

A Inquisição na cruel perseguição aos judeus

Durante a atuação impiedosa do ex-cardeal Carafa, depois Papa Paulo IV, considerava-se que “nenhum Tribunal trabalhava melhor pela obra de Deus”, do  que a Corte da Inquisição.
Mas o fato é que Paulo IV  também fora implacável com os judeus. A Bula papal  que esse Pontífice emitiu, em 1555,  instalou o desassossego e o pavor entre a comunidade judaica, que passou a ser confinada em guetos, somente podendo sair de lá com permissão especial. Milhares de manuscritos judaicos foram atirados à fogueira. Qualquer livro hebraico estaria proibido. O Talmude (compilação de leis judaicas) passou a ser considerado “livro perigoso”.
Mas como não há mal que não tenha fim, chegou o dia 18 de agosto de 1559. Paulo IV se encontrava em seus últimos momentos no Planeta. À meia-noite ele mandou chamar seus cardeais e a eles confiou o prosseguimento da Santa Inquisição “em nome de Jesus Cristo”. Não obstante, logo após seu último suspiro, a população de Roma invadiu eufórica as ruas da Cidade Eterna para comemorar o fim do martírio imposto por aquele implacável Pontífice. As prisões foram abertas e os condenados soltos.
Mas a sombra de Paulo IV ainda  permaneceria viva por muito tempo, pois deixara como seu legado uma lista de livros proibidos, que ficou conhecida como Index Librorum Prohibitorum, (índice dos livros proibidos) criado  “para evitar a corrupção dos fiéis”. E por causa disso, os livros somente poderiam ser editados na Itália com aprovação prévia. As idéias e informações eram restritas, mediante controle rígido do pensamento.
Em 1606, quase toda a população de Veneza chegou a ser excomungada pelo Papa, a evidenciar a expansão das doutrinas dissidentes.

Napoleão, o grande adversário da Inquisição

O Imperador francês Napoleão Bonaparte fora, com efeito, o grande adversário dos papados inquisitoriais. Ele era o maior defensor da separação entre a Igreja e o Estado. Ao conquistar o norte da Itália, em 1796, Napoleão baixou atos determinando que os guetos judaicos fossem imediatamente liberados e se tornassem livres. Em Madri, em 1808, Napoleão extinguiu a Inquisição. Libertou homens e mulheres que estavam acorrentadas, onde “só demônios poderiam gerar os instrumentos de tortura encontrados”, como afirmou uma testemunha da época. Os documentos que comprovavam os horrores da perseguição religiosa espanhola viriam a ser examinados e organizados pelo Secretario Geral da Inquisição de Madri, servindo de legítimo embasamento histórico.
Em 1810, os ideais de Napoleão no sentido de submeter o poder papal a degradante humilhação estava próximo de tornar-se realidade. Os documentos da Inquisição foram coletados, com ordem do Imperador de seguir para Paris. Cerca de 3.000 caixotes contendo arquivos, sentenças, pronunciamentos doutrinários e peças de interrogatório foram conduzidos para a capital da França. Tais documentos eram a prova de que necessitava Napoleão para desencantar os italianos diante da Igreja Católica e de seus Papados. Lá estava o julgamento de Galileu com seu argumento impecável: “E se amanhã for comprovado definitivamente que a Terra gira em torno do sol, como ficará a posição atual da Igreja ?”
Mas o fato é que após a derrota de Napoleão veio a reviravolta. Em 1814, na Espanha, quem acompanhou a França durante a ocupação seria executado e os hereges teriam a língua perfurada por uma barra quente de ferro, conforme anunciava a Corte. A vingança oficial grassava. Após a morte de Napoleão, os Estados papais ainda mantiveram os horrores da  Inquisição por mais quatro décadas.

O rumoroso caso do menino Edgardo Mortara que precipitou o fim da Inquisição

O garoto Edgardo Mortara pertencia a uma família judia e fora batizado secretamente por uma babá, à revelia dos pais. Os judeus ainda viviam nessa época -  a metade do século XIX -  em guetos e não lhes era permitido frequentar universidades, viajar, ou se relacionar com cristãos, tudo segundo as leis do Santo Ofício. Em 24 de agosto de 1858, a polícia do Papa sequestrou o pequeno Edgardo Mortara porque ele se tornara “propriedade da Igreja” visto que “uma norma papal fora descumprida”, segundo a justificativa do Oficial responsável. O menino foi arrebatado da mão dos pais, passando o Oficial condutor apenas um recibo, sem dizer para onde ele seria conduzido. Nessa época eram comuns os sequestros de crianças judiais pela polícia papal.
Depois de percorrer, em vão,  uma longa via crucis, o pai do menino Momolo Mortara  teve seu apelo desesperado atendido pelo Papa Pio IX e pode ver o filho, com restrições. Prometeram ao Sr. Mortara o direito de viver com o filho se ele se “convertesse”. Mas Mortara persistia em seu desespero. E não descansava, ganhando o caso espaço na imprensa eletrônica do mundo, que estava  chegando.
O momento era grave para a História da Igreja, pois o movimento pela unificação da Itália ganhava força. O Exercito austríaco, que garantira a segurança do impérios papais durante dois séculos e meio, viu-se obrigado a deixar a Itália. E a segurança de Pio IX e de sua Corte ficou literalmente entregue à própria sorte.
Em 1860, o sacerdote inquisidor, padre Feletti, que fora responsável pelo seqüestro do menino Edgardo Mortara, era preso pela antiga polícia papal, agora fiel ao novo Governo civil. Feletti foi processado por seu ato criminoso de sequestro, mas, nem assim, o garoto  foi devolvido. Pio IX, por sua vez, em carta que endereçara ao jovem, tempos depois, diria, segundo registros históricos: “Eu adquiri você em nome de Jesus Cristo, por um alto preço e ninguém demonstrou preocupação comigo, pai de todos os fiéis...”
Em 1870, o Exercito italiano pôs fim aos reinos papais, restringindo os domínios de Pio IX a 40 hectares de terra, onde estavam os prédios do Vaticano. Não teria sido, pois, em vão que a Santa Sé relutou, até 1929, para reconhecer a Itália como Estado soberano. E derradeiramente o menino Mortara nunca mais voltaria para a família. Ele tentara insistentemente convencer seu pai sobre “as verdades da Igreja”, tornando-se monge de uma abadia belga, onde se entregou durante o resto de sua vida à oração e à contemplação.
Se a Igreja Católica ganhara a batalha do menino que sequestrou das mãos dos pais, o mesmo não se poderia dizer a respeito da rígida Doutrina que impôs como única e verdadeira do mundo, durante aproximadamente quase 1000 anos. Os tempos novos chegaram e o mundo evoluiu, não mais admitindo reinados religiosos que sejam considerados indevidamente supremos donos da verdade.
E o fato é que o Santo Ofício da Inquisição,  que no ano de 1908 foi transformado pela Santa Sé em Congregação para a Doutrina da Fé, não mais ameaçaria a liberdade de crença no mundo, hoje garantida por quase todas as Constituições dos Estados modernos e livres. E, assim sendo, o ex-chefe desse Santo Ofício hoje transformado, como dito,  em Congregação da Fé -  o atual Papa Bento XVI - se comprometeu a lutar pela união de todos os credos terrestres através do Ecumenismo (união na convergência e respeito na divergência), um princípio sagrado inaugurado pelo saudoso Pontífice João XXIII, o Papa que trouxe  luzes sobre as trevas medievais.

E o Papa João Paulo 2º pediu “perdão a Deus e desculpas ao mundo”

No ano de 2000, o falecido Papa João Paulo 2º, falando como soberano Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana, pediu formalmente desculpas ao mundo  num evento penitencial solene e sincero. O Pontífice também pediu oficialmente perdão a Deus, “em nome da Santa Igreja”, diante dos pecados cometidos pela Instituição  desde a sua fundação há dois mil anos. E, mais adiante, João Paulo 2º pediria, também,  desculpas ao mundo pelos  “dramas relacionados com a Inquisição e pelas  feridas deixadas na memória”, referindo-se à reminiscência coletiva  registrada depois daquele funesto e longo  período histórico".
O gesto, sem precedentes na História da Igreja Católica, ocorreu  na Basílica de São Pedro, em Roma, durante a Missa do primeiro domingo da Quaresma. Segundo a imprensa da época, sete confissões de culpas foram formuladas por sete dignitários da Cúria Romana, seguidas de sete pedidos de perdão pelo próprio Papa. Também se registrou  uma confissão geral  pelas culpas do passado e um pedido formal de perdão pelos “erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor"; pela separação dos cristãos; pelas perseguições impiedosas aos judeus; pelo desrespeito às  culturas e religiões de todos os povos; e, finalmente, um mea culpa pelas longas e reconhecidas violações dos direitos humanos..
"Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas".(Mateus 6:14-15)

A posição do Espiritismo diante do pedido de perdão do Papa

Entrevista com Jorge Andréa dos Santos: “Todo pedido de perdão é um perdão e um grande começo”. A Revista Além da Vida foi buscar no escritor, cientista e famoso expositor espírita, o médico psiquiatra Jorge Andréa dos Santos, (90 anos) -   uma das maiores autoridades morais e intelectuais  do Espiritismo -  a síntese do que pensa a Religião codificada por Allan Kardec sobre essa longa noite histórica de perseguição religiosa. E Jorge Andréa concedeu a seguinte entrevista:

Revista Além da Vida -  Sabemos que o Livro dos Espíritos, o primeiro do  chamado  pentateuco kardequiano, foi incluído no Index Librorum Prohibitorum”, (índice dos livros proibidos)  criado ao tempo da Inquisição, como “obra capaz de corromper os fiéis”. O Espiritismo aceita o pedido de perdão do Papa?

Jorge Andréa - Todo pedido de perdão é um perdão e um grande começo para o equilíbrio das mentes. Este caminho nós não podemos nos furtar e separar. Quem perdoa tem necessidade imensa de cobrir as dificuldades pretéritas. A Doutrina Espírita, pelo seu grande movimento holístico, não poderia deixar de apreciar esse pedido que faz parte da sua estrutura de desenvolvimento pessoal, uma estrutura para o equilíbrio das mentes, para o equilíbrio do homem, para o equilíbrio de uma sociedade.  A Doutrina Espírita, que não se posiciona contra qualquer fórmula religiosa, seja de que natureza for,  tem naturalmente uma posição de equilíbrio para sentir na comunidade de cada setor desses, de cada formulário religioso, de sentir os seus limites e, mais do que isso, uma necessidade para um grupo que ainda não atingiu o potencial holístico universal que a Doutrina Espírita professa.
“Não importa de onde veio o ser humano e qual as suas paragens. O que temos de considerar é o seu cabedal moral e intelectual”.

Revista Além da Vida - Considerando que os seres humanos são os mesmos em todas as religiões, o senhor acredita que se o Espiritismo tivesse ocupado o lugar da Igreja, há dois mil anos, como Instituição religiosa organizada, estaria isento de qualquer culpa dessa natureza?

Jorge Andréa -  É preciso considerar a evolução da sociedade nessas épocas. Conforme o tipo de evolução, o homem poderia ser mais universal, ou menos  universal e coibido pelo seu interior, pelas suas necessidades pessoais, que devemos levar em conta no contexto da espécie humana. Tanto isso é verdade, que existe uma multiplicidade de conceitos religiosos pelo mundo, porque o homem é diferente, ainda não atingiu um patamar daquilo que podemos dizer -  da estrutura da Doutrina Espírita -   de irmandade. Quando seremos irmãos realmente na Terra? Esses rótulos religiosos todos desaparecerão, inclusive o próprio rótulo Espírita, uma vez que, de futuro, teremos uma Religião – porque isso não pode deixar de existir -  e que se vai chamar Fraternidade.
"A Religião precisa da Ciência para se estabelecer com equilíbrio”.

Revista Além da Vida - Nossos maiores ídolos Espíritas foram católicos: Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Joanna de Angelis, Teresa D'Ávila e por ai em diante. Como o senhor vê essa realidade?

Jorge Andréa – Tudo é uma questão de evolução.  Não importa de onde veio o ser humano e qual as suas paragens. O que temos de considerar é o seu cabedal moral e intelectual. Vamos falar de Joanna de Angelis... Ela foi, segundo  Hermínio Miranda, com sua grande visão,  a Rainha  Nefertiti, mulher de Amenofis IV, da 19ª dinastia egípcia. Depois com a vinda do Cristo, retornou como Joanna de Cusa, vivendo as dificuldades que os cristãos da época passaram. Mais tarde, ela reencarna junto com Francisco de Assis, que foi um dos apóstolos do Cristo (João evangelista). E ela volta como Clara. Ela e Francisco sofreram, por assim dizer, um rebuliço intelectual, religioso, afetivo, muito grande. Ela funda as Clarissas e ele a fraternidade dos franciscanos. Depois não tenho mais notícia dele, mas ela volta, agora como Joanna de Ângelis, que marcou presença na época de nossa Independência, na Bahia, quando os portugueses invadiram o seu Convento e ela foi sacrificada por um soldado. Reencarnou, ainda, como Juana de la Cruz, no México, que fez jornadas fantásticas no movimento intelectual.  Então, não importa de onde ela veio, assim como não importa de onde veio um Francisco de Assis. Importa que foi um Espírito que se formou não só no intelecto, mas na moral, no amor e no amor através de grandes compromissos dolorosos, com dores físicas. Clara e Francisco não recusaram a vida, mas ficaram distante do processo normal de vida de todo mundo. Na sua característica, na sua formação, vieram de degrau em degrau num processo altamente produtivo e evolutivo. E isso é o que interessa e não a Religião a que pertenceram...

Revista além da Vida - A seu ver, o preconceito religioso ainda prejudica a evolução da Ciência?

Jorge Andréa - Considero que sim, se bem que houve uma abertura muito grande com Einstein, quando disse que a Ciência precisava da religiosidade, ou da religião (ele falava de uma Religião Superior, não rotulada), assim como a religião precisa da ciência para se estabelecer com equilíbrio. E este casamento da ciência com a religião está se dando através da Doutrina Espírita.

Revista Além da Vida -  Disse certa vez um político, ironizando, que “a lógica é a pior forma de convencimento”. Na sua avaliação esse princípio se aplica, ainda que a contragosto, no contexto da concepção religiosa, já que  as provas científicas de fenômenos espíritas (reencarnação e comunicação) ainda não conquistam as massas mundiais?

Jorge Andréa – O Espiritismo tem apenas 150 anos. Não é nada. Somos a Nação mais Espírita do mundo. Porém, somos apenas 6 milhões, incluindo simpatizantes. Para onde vamos caminhar? Claro que será sempre num processo de evolução. No dia em que a ciência colocar o Espírito dentro das células, como fica isso? Os processos religiosos vão entrar  em ritmo de acomodação. Não estranharei se amanhã os grupamentos protestantes e católicos vierem a colocar o processo de reencarnação em substituição ao de ressurreição...

Revista Além da Vida - Qual o papel do Espiritismo no futuro das Religiões?

Jorge Andréa - É de totalidade. O Espiritismo vai dar uma abertura muito grande. Estará   presente 24 horas. Só se vai trabalhar para o bem. No mundo, só vai preponderar o amor. Os indivíduos se entenderão.  As guerras fratricidas vão desaparecer. Os movimentos telúricos se abrandarão. Quem sabe se esses movimentos telúricos de hoje não tem  correlação com a massa imensa de pensamentos negativos. Somos uma tônica vibratória do universo. Cada indivíduo tem sua faixa, mas a comunidade humana tem uma faixa geral de irradiação. 6 bilhões de indivíduos irradiando. 18 bilhões de Espíritos do lado de lá, presos na atmosfera terrestre, irradiando. Como fica isso? No dia em que o homem tiver a irmandade que ele precisa alcançar, tenho a impressão que a vida na Terra abrirá um conceito fantástico da ciência. O trabalho não será mais esta obsessão de hoje. Todo mundo vai trabalhar com calma, com horas de lazer, de música, de literatura. E dentro desse contexto o Espiritismo estará irradiando o tempo todo, em todas as direções religiosas. E nesse sentido dizemos que o Espiritismo não será a Religião do futuro, mas o futuro das Religiões.

RECORDAR PARA NÃO REPETIR NUNCA MAIS - A inquisição é um fato histórico, que deve ser considerado antes de seu aspecto religioso. E, por isso, pertence ao mundo, não podendo ser privilégio de arquivos secretos, ou de gavetas privativas, pois faz parte da própria história da humanidade, do homem e de seu aprendizado na  trajetória evolutiva do tempo. As páginas da história, se não servem para outra coisa, se bastam pelo que nos ensinam a não fazer e pelo que nos impelem a realizar em prol da construção do homem e do mundo. Recordar é, pois, refletir, para nunca mais repetir.