Estudando o Espiritismo

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domingo, 27 de dezembro de 2015

SOU TRABALHADORA ESPÍRITA... MAS FIZ UM ABORTO

SOU TRABALHADORA ESPÍRITA... MAS FIZ UM ABORTO

Lori Marli dos Santos - Instituto André Luiz

 Estamos em minha sala, Isa* e eu, para um atendimento fraterno especial. A tarde está quente e o calor deixa o ar mais pesado, desconfortável. Os minutos escorrem, enquanto espero a palavra dela.
Imagino o seu drama, a dificuldade que sente em se abrir comigo, em verbalizar um erro que nunca teve coragem de relatar a ninguém, nem ao marido e nem a ninguém no Centro Espírita em que trabalha.
Isa fez um aborto há alguns anos, antes de se tornar espírita.
Porque sei que está sofrendo, e porque sei o quanto é difícil colocar para fora algo que fere e envergonha, profundamente, ligo o ventilador e coloco uma música suave, para relaxar o ambiente. Mostro a ela a página que estou fazendo, as imagens já selecionadas e ela ri, passando a mão no rosto.
- Que lindo.
Depois de algum tempo tornamos a nos olhar, porque definitivamente não estamos ali para ver belas paisagens.
- Melhor contar logo, - diz de repente.
- Tem certeza? - pergunto, quase mais constrangida que ela.
- Sim. Desde que...
- Desde que nada saia desta sala*.... Fique tranqüila, Isa! Confie em mim!
- Tenho medo de que alguém saiba, que no Centro fiquem sabendo do meu aborto. Com toda a certeza, se algo chegar aos ouvidos do presidente e dos demais, não vou ter outra saída senão me retirar. E daquele jeito, né?
"Daquele jeito", sem dúvida alguma, aqui significa de cabeça baixa, humilhada e definitivamente inadequada para qualquer uma das atividades que desenvolve hoje, rodeada pelo carinho e pela consideração de todos: Isa é médium psicofônica, passista e evangelizadora infantil.
- Imagina se descobrem que já abortei! Talvez não me coloquem para fora, afinal hoje em dia todo mundo precisa ser moderno, compreensivo, ter a mente aberta... Mas, duvido que me deixem dar passes, a trabalhar mediunicamente. Afinal, sou uma devedora, não sou? E toda devedora é uma perturbada, ou um veículo de perturbação.
- Você se sente assim? Devedora?.... - questiono.
- Não como deveria.
_ Como assim?
- Olha... Penso que deveria estar arrancando os cabelos, ou pelo menos sofrendo muito. Mas não me sinto assim, sei lá. Sinto aqui dentro, as vezes, muita vontade de voltar no tempo, de poder estar grávida de novo e ter este bebê. Isso eu sinto. Sei que ficaria feliz em ter meu filho comigo agora, pois hoje penso diferente por causa do Espiritismo. Mas, sabe, por outro lado a falta dele não me faz sofrer, pelo menos não tanto como acho que deveria. Então também me culpo por isso, por não sentir remorso, sei lá...
- Mas quem te disse que deve ser assim?
Isa ri, um sorriso meio amargo.
- Ontem mesmo, na palestra, foi dito algo semelhante. O dr. José frisou várias vezes: crime, criminosa, criminosos. Fiquei péssima...
- Não vi a palestra ontem...
- Pois é... ele leu e comentou uma mensagem de André Luiz, chamada "Aborto", senão me engano, e depois passou uns slides pavorosos, com fetos destroçados...
Compreendo bem o que Isa está dizendo, já vi esses slides certa vez. Naquela ocasião ajudei a socorrer uma jovem que assistia à palestra, grávida de seis meses. A pobre ficou tão mal impressionada que desmaiou, colocando a gestação em risco. Fico pensando, às vezes, o que teria acontecido se ela tivesse perdido o bebê... Mais que complicações morais, sobrariam complicações legais, para todos nós.
- O problema - prossegue ela, - é que, se eu não tinha remorso, agora estou começando a ter... A ter remorso, sensação de culpa... De tanto ouvir falar no crime do aborto, estou começando a me sentir criminosa, de fato... Tenho tido sonhos ruins, é o começo da obsessão, eu sei...
- Isa! - repreendo com ternura, mas também com firmeza. - Que obsessão o que! Você tem desenvolvido suas tarefas corretamente, com empenho e dedicação. Tem ajudado a muitos desencarnados, tem ministrado passes com carinho e vem trabalhando com as crianças de uma forma que dá gosto de ver! Por que haveria de ficar obsidiada, me diz?
- Ah, Lori, você sabe bem porque!... Está nos livros, nas palestras, nas mensagens... Aborto é crime, eu fiz um, então eu sou criminosa. E todo criminoso é um obsidiado...
Agora quem ri sou eu. Isa se assusta, mas acaba me acompanhando, sem jeito.
- Você acha que não? - arrisca.
- Claro que não, minha criança! Acorda, alôôôuuuu!! Lembra do que estudamos na semana passada, antes do trabalho?
- Claro que lembro, sobre sintonia.
- Então, meu bem, é isso. Mesmo marcado por uma grande dívida, mesmo depois de um grande erro, só se torna obsidiado quem quer... Os espíritos nos acompanham, alguns desejando realmente a desforra, mas é só você quem vai permitir, ou não, que a sintonia aconteça... Na pior das condições, Isa, mesmo que o pior aconteça, você ainda poderá, sempre, escolher se quer olhar para o céu ou para o charco. E olha só... isso é André Luiz também, o mesmo que escreveu sobre o Aborto e cujo texto o dr. José interpretou de forma tão equivocada.
Isa me olha diferente, agora, como quem busca uma luz.
- Está certo, - prossigo - você fez um aborto, é fato consumado, infelizmente. Mas não há porque você botar o dedo na ferida de propósito ou deixar que alguém bote o dedo, só porque se disse cobras e lagartos sobre o aborto e a mulher que o pratica ou praticou. Um erro não é motivo para se pensar que não há mais nada a ser feito, que só resta esperar pelo pior, pela punição inclemente!... Apesar das palestras meio agressivas e de algumas mensagens, acredito que mal interpretadas, não perca a esperança em uma reparação feliz! Você sabe que todo o dia é dia de refazer o destino, não sabe? Aliás.... eis de novo André Luiz, pois essa frase também é dele e consta igualmente na mensagem sobre o Aborto. O dr. José não leu isso?
- Nem sei, sabe? Minha cabeça estava pegando fogo, lá no salão. Pensei até em ir embora, em não dar passe em ninguém... Imaginei minhas mãos cheias de sangue. Já pensou se, dando passe em alguém, começo a fornecer fluidos maléficos? Essa pessoa pode sair da sala pior do que quando entrou...
- Isa... Isso é um absurdo!...
- Sim, um absurdo, agora compreendo, porém naquela hora me pareceu lógico, natural eu fornecer maus fluidos por causa do aborto que fiz, eu estava convicta de que era uma criminosa...
Isa silencia por alguns segundos, pensativa. Depois prossegue:
- Mas aí, de repente, pensei: vou dar passe sim, e que Deus me perdoe e me ajude!
- E... sentiu alguma coisa diferente, durante o trabalho?
Isa pensa um pouco.
- Não, diz finalmente. - Foi como sempre, aquele calorzinho bom nas mãos, a sensação de paz, de amparo espiritual...
- Então você já tem a resposta.
- Tenho, é? - pergunta ela, intrigada.
- Sim, tem. Ela lhe foi dada ontem à noite, no Centro. A palestra ilustrou a ignorância humana, mesmo a bem-intencionada como foi certamente a palestra do dr. José, e que, desejando acertar, mas por não ter desenvolvido em si o amor integral, acaba sempre julgando, condenando e desajudando; o passe foi a bondade e a misericórdia divina, que não tem o que perdoar pois nunca julga ninguém.
Isa arregala os olhos, num transporte de felicidade.
- Com quem você quer sintonizar para rever sua falta? Com Deus ou com o mundo? - pergunto.
- Claro que com Deus! Claro!...
- Então prossiga em suas tarefas com coração leve, com alegria. Jesus mesmo disse que aquele estivesse sem pecados que apedrejasse primeiro. Isso significa que somos todos uns endividados, desta ou de vidas passadas... Temos faltas atuais, das quais lembramos, e faltas antigas que já esquecemos, mas que prosseguem conosco, exigindo trabalho e perseverança para a sua quitação... Olha que eu disse trabalho e perseverança, não disse dor, desespero e lágrimas... Isso só irá acontecer com você se você deixar, se você permitir que as zonas baixas da vida te alcancem...
_ Mas e meu filho? Ele não vai me perseguir? Sim, porque "eles" se vingam sempre....
- O que você sente por ele?
- Muito amor... queria que ele me perdoasse, que não me odiasse pela droga do aborto que eu fiz. Eu não tinha muita consciência do que estava fazendo, na época. Era boba, imatura, vaidosa. E já tinha muito trabalho com a Bibi, para que outra criança?
Isa suspira profundamente e prossegue:
- Na época, a gravidez me irritou, me senti coagida a fazer algo que não queria. Não pensei em meu filho, pensei só em mim. Então por isso acho que ele está com ódio e vai se vingar.
- Caso seu filho queira se vingar, e se você persistir na boa conduta, se persistir em seus trabalhos no Centro, poderá não só ajudá-lo a mudar de idéia como recebê-lo, renovado, em seu lar novamente, como filho ou neto, Deus é quem sabe...
Isa se surpreende e ri, alegre ante esta perspectiva.
- Será que ele aceitaria ser meu filho novamente? - arrisca, comovida.
- Por que não tenta? - encorajo. Porque não tentar? - Assim você poderá aliviar a culpa, retirar esta sombra do coração e trabalhar com mais entusiasmo na Seara Espírita. É um conselho que dou à você e à todas as mulheres que já fizeram aborto. Nunca deixem de trabalhar, não se afastem do Espiritismo porque ouviram condenações e outras coisas desagradáveis acerca do ato que praticaram, mas também que procurem, de alguma forma, consertar o mal-feito, seja engravidando novamente, seja adotando uma criança ou dedicando-se à causas nobres, preferencialmente na área infantil. Deus não pune a mulher que fez o aborto, assim como não pune quem pratica outros atos reprováveis. É a pessoa quem se pune e tanto maior é o seu sofrimento quanto maior o desajuste causado pela auto-punição. Remorso desequilibrado, provação ampliada, entende? O sofrimento dura o tempo da correção, não apenas do gesto infeliz, mas também da mente que se desequilibrou, distante da confiança em Deus e em sua misericórdia...

Isa me olha com lágrimas nos olhos. Mas não há dor neles, há esperança, fé, coragem... Vejo-a erguer a cabeça, a assumir uma postura ereta, cheia de suave dignidade, muito diferente da postura de quando entrou em minha sala, algo curvada, os olhos baixos, envergonhados.
Parece-me que Isa tornou a reencarnar e digo isso a ela.
- É, Lori, acho que nasci de novo sim... - diz, rindo. Estou me sentindo super bem agora! Com a alma leve, tranquila... Nossa... que alívio!...
- Deus jamais abandona seus filhos, lembre-se disso. Seja responsável sempre; porém, errando, não se acredite abandonada por Ele, só por isso. Talvez seja este momento em que Deus esteja mais próximo, mais atento! O importante é não se afastar dele... Não se soltar de suas mãos compassivas!...
- A culpa é uma coisa horrível, diz Isa, num último desabafo.
- A falta de fé também! - retruco.
Isa se vai, na alegria dos trinta e poucos anos, a vida ainda plena no corpo ágil e contente. Sei não... mas acho que daqui a alguns meses teremos um bebezinho novo na área. (Obrigada, meu Deus!)

Relato verídico de um atendimento fraterno, em junho de 2005.
*Este relato foi autorizado posteriormente por Isa, para divulgação no Canal Aberto.

Lori Marli dos Santos
lori_santos@uol.com.br
* Nome fictício