Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Filho fala, em livro, de sua relação com Chico Xavier

Filho fala, em livro, de sua relação com Chico Xavier


“Certa vez um bondoso espírito escreveu singela poesia, cujos versos finais diziam: ‘Entretanto, a posição do Chico tem novo brilho: Eurípedes se fez pai e Chico hoje é seu filho.’” (Dinha, 1994)


Marlene Nobre



Parceria entre Eurípedes Higino e o jornalista Ariston Teles, Chico Xavier – Apóstolo do Brasil, da Editora Espírita Ano Luz, chega às livrarias no ano do centenário com um conjunto de histórias inéditas presenciadas pelo próprio Eurípedes, filho não biológico que conviveu com Chico por 40 anos. Nessa obra, ele faz revelações, fala de sua relação com Chico, do preço que pagou pelos cuidados adotados com o médium e do trabalho que permanece após sua desencarnação.

“Muita gente dizia que quando Chico partisse eu iria ficar totalmente desamparado e que os nossos trabalhos iriam acabar. Ouvi pessoas dizendo que eu não passava de uma sombra, um dependente e nada mais. Reconheço, sinceramente, minha insignificância, porém tudo o que estiver ao meu alcance eu farei para continuar leal ao meu compromisso assumido perante o Evangelho de Jesus. Um dia Chico assegurou: ‘Eurípedes, depois da minha partida, seu trabalho na seara espírita vai aumentar bastante’”, lembra.


FE – Eurípedes, o que o motivou a escrever o livro Chico Xavier, Apóstolo do Brasil?

Eurípedes – O missionário Chico Xavier, meu pai do coração, me dizia: “Muitos vão escrever sobre minha vida, meu filho. Verdades e inverdades. Mas eu estarei com você, não 24 horas, e sim 25. Não ligue para quem o criticou, porque o mundo, um dia, vai saber que nossa ligação é de muitas vidas, não de agora.” Diante da incompreensão das pessoas, ele sempre me dizia: “Quem acompanhou meu dia a dia foi você. Minha saúde, minhas tristezas... Quem colocou comida e remédio na minha boca foi você.” E ele sempre foi muito grato às pessoas que o acompanharam, como o amigo e companheiro dr. Eurípedes Tahan Vieira, que orientou todo o seu tratamento médico, e a nossa companheira da casa, Dinorá Fabiano, a quem ele chamava de mãe.



FE – Com seu livro, a gente conhece um pouco mais acerca do dia a dia da vida do médium. O que mais o marcou no convívio com ele?

Eurípedes – Ele era companheiro, chegava ao nosso nível para que não nos sentíssemos humilhados. Colocava sempre a gente na frente por bondade de seu coração. Mas nós sabemos da sua grandeza. Ele foi o grande amigo de Jesus. Muitas vezes fui criticado por decisões que ele me pedia para tomar: “Me poupe disso, meu filho. Não posso atender agora.” Apesar de sua evolução espiritual, ele era humano, sentia dores, cansaço, renunciou a quase tudo. Quando ele deixou a Comunhão Espírita Cristã e também mudou de casa, em 1976, passando a morar no número 165 da Rua Dom Pedro I, nós éramos muito poucos ao lado dele, somente uns oito gatos pingados. Para ele, foi muito triste deixar a Comunhão, a Casa Espírita que ele fundou em 1959. Ao sair ele me disse: “Aqui deixei a metade da minha vida.” Três meses depois teve seu primeiro enfarte. A angina apareceu com força. Como ele era previdente, fez Declaração Testamentária, com várias testemunhas, às quais atribuiu as responsabilidades de seu cumprimento. Procurei ser fiel. Isso me deixa feliz. Com a passagem dos anos, a saudade aumenta, mas estou em paz com o querido Chico Xavier e comigo mesmo.



FE – Chico foi um fraco, como algumas pessoas, equivocadamente, propagam? Ele sabia dizer “não”?

Eurípedes – Jamais. Chico Xavier, além de ser forte, era um sábio. Digo isso com base em atitudes dele em várias ocasiões: ele não entendia a Doutrina de Jesus com chefes. Ele nos dizia que a grande vantagem dessa abençoada Doutrina é que “nasceu livre, do povo para o povo, com Jesus, o Mestre Maior”. Um dirigente da Aliança Municipal Espírita de Uberaba fazia comentários às sextas-feiras no Grupo Espírita da Prece. Em várias reuniões falava o nobre orador: “As casas, centros ou grupos espíritas que não fossem inscritos nas Alianças Espíritas Municipais, não eram considerados espíritas.” Um dia Chico se cansou do assunto e me disse: “Saí da Comunhão para nunca mais ter chefe. Se para ser espírita, para levar as palavras de Jesus tem de pedir licença, largo de ser espírita, para tentar continuar a ser cristão.” Como se vê, ele sabia falar não, quando envolvia a Doutrina de Jesus. Nos outros casos, ele pedia ao para-choque, a mim, para falar. Seu irmão José foi o para-choque na época de Pedro Leopoldo, e, em Uberaba, fui eu. Ser chamado atenção discretamente por Chico era muito forte, o constrangimento era bem maior. Ele poupava um pouco as pessoas. Falava por parábolas.



FE – Quais as orientações que Chico dava acerca do Movimento Espírita?

Eurípedes – Chico Xavier dizia que a Doutrina Espírita, a Doutrina de Jesus que ele conhece, teria sempre muitos estudos em centros, grupos e outras entidades, mas dois ensinamentos de Jesus não poderiam ser esquecidos jamais: “Fora da Caridade não há salvação” e “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.” Ele esperava que os intelectuais da Doutrina pensassem melhor sobre os cursos, porque estes iriam despertar disputas no nosso meio, discussões, opiniões contrárias. E não foi isso que Jesus, Allan Kardec e ele próprio, através dos bons espíritos, esperavam. Disse que o movimento iria crescer e muito, mas não deveria perder o brilhantismo da humildade.



FE – Por que você acha que algumas pessoas têm tanta dificuldade em aceitar que Chico seja a reencarnação de Allan Kardec?

Eurípedes – Chico Xavier afirmava taxativamente que era Allan Kardec e que voltou para cristianizar, facilitar o entendimento da Doutrina Espírita e da Reencarnação, que um dia não seria estudada somente por espíritas, mas também pelos homens da Ciência, ajudando as pessoas a se aceitarem. Ele dizia que o maior problema do homem não vem dos outros, mas sim da luta que cada um trava consigo mesmo. Quando a gente se aceita, nem as ofensas nos atingem mais. Temos uma qualidade de vida melhor. E que ele via a reencarnação no futuro como matéria de estudo de médicos, psicólogos. Assim penetrariam melhor na alma das pessoas, ajudando na qualidade de vida.



FE – Por que Chico deu o aval ao livro Kardec Prossegue, de Adelino da Silveira?

Eurípedes – Adelino da Silveira chegou a Uberaba pedindo ao Chico para assumir que era Allan Kardec reencarnado, porque havia surgido alguém no meio espírita que iria se lançar como sendo o Codificador. Como Adelino tinha convicção de que era o Chico, quis esclarecer a verdade a todos, lançando mais rapidamente possível o livro que estava escrevendo. Imagine você a posição de Chico. Ele teve de começar a falar sobre o assunto, afirmando que era Kardec, não só para o próprio Adelino, mas também para Neusa Arantes, Weaker e Zilda Batista. Quanto a mim, como eu disse, ele apenas reafirmava o que sempre havia me dito. Se ele não assumisse, iriam aparecer vários kardecs.

Veja o que está acontecendo com Emmanuel, seu querido mentor espiritual. Segundo o que temos visto, têm aparecido comunicações dele em alguns lugares, como, por exemplo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Mas como pode ser isso, se Emmanuel já está reencarnado? E esses médiuns ainda recebem o apoio de entidades que têm a responsabilidade de orientar, não de mandar nas casas, mas de orientar grupos espíritas. Do mesmo modo, essas entidades admitem outras mentiras, como as psicografias do querido Chico Xavier, meu pai. Que pena a vaidade falar tão alto.

Chico dizia, oito anos antes do seu desencarne, o seguinte: “Depois da minha desencarnação, é possível que apareça muita gente recebendo mensagens atribuídas a mim; diga-lhes que não é minha intenção parar de trabalhar, mas, se puder, como o pessoal costuma dizer, gostaria de “dar um tempo” com a caneta e com o papel...”



FE – Não lhe incomoda o fato de as pessoas não acreditarem em você?

Eurípedes – Prefiro acreditar no querido Chico, com quem convivi no dia a dia e que me afirmou ser o Codificador por várias vezes. Nem a Casa-Máter da Doutrina Espírita deu crédito a ele, por que dariam a mim? Chico Xavier, meu pai, nunca mentiu para mim. Mas toda Luz preocupa muito.

Há indivíduo que diz ter sido muito amigo de Chico Xavier, em Pedro Leopoldo. Chico, sim, foi amigo de todos, sempre muito gentil, um gentleman. Esse indivíduo colocou-lhe até um apelido para a intimidade, conforme se falou no Congresso de Brasília. Mas que grande amigo é esse, que, nos 44 anos de Uberaba, apareceu por lá somente uma vez para ver Chico Xavier?! Estaria assim tão ocupado?!...

Há pouco esse mesmo que se diz muito amigo publicou horríveis histórias de supostas reencarnações de Chico. Vaidades. Para quê? Chico é do mundo. De todos. Também das periferias, onde ele se sentia feliz, no meio do povo.

Mas o grupão do outro Allan Kardec é bem grande!

Não é preciso que alguns intelectuais da Doutrina fiquem nervosos comigo. Já me fizeram muito mal e ao querido Chico. Sei, por exemplo, que Augusto César Vanucci (amigo e grande jornalista brasileiro) e o Freitas Nobre é que encabeçaram a campanha para que Chico fosse indicado para o Prêmio Nobel da Paz, e não quem a revista História do Espiritismo erroneamente afirmou. Se acreditam ou não no que a matéria da revista conta, é problema de cada um. Quem conta um conto aumenta um ponto.



FE – Chico também nos disse que, após sua partida para o mundo espiritual, tão cedo, não escreveria mensagens ou livros, e ele tem mantido a sua palavra. Por que ele deixou uma senha com vocês? Por que você acha que ele tem procedido dessa forma?

Eurípedes – Imagine você. Quando ele ainda estava encarnado, apareceram grandes médiuns com psicografias dele. Queriam desencarná-lo a todo custo. Ele ainda viveu bastante depois desses episódios. Chico previa o futuro, que a disputa por ser médium de Chico Xavier iria acontecer, mesmo ele tendo falado a frase que está na resposta anterior, que está publicada no livro Evangelho de Chico Xavier, de Carlos Antônio Baccelli. Dizia estar saindo do mundo com sua Missão Cumprida, título de um livro de suas psicografias de 21/11/1997 a 2002, que ficaram com o Grupo da Prece de “Chico Xavier”, onde sou presidente.

Doce ilusão de todos que receberam psicografias. A Doutrina tem muito trabalho para todos, não tem lugar para vaidades. Um dia sairemos do mundo, todos, dizia Chico Xavier. E estaremos em frente ao espelho da vida. Nós, com nós mesmos e todas as verdades vão surgir para cada um.

É bem melhor estarmos com a consciência tranquila com Chico Xavier, meu pai, meu filho...

Sim, sinto-me honrado, porque tive como pai, e ao mesmo tempo como filho, um dos seres humanos mais importantes da Humanidade.



FE – Qual a melhor maneira de seguirmos os exemplos de Chico?

Eurípedes – Seu exemplo de vida está aí, para todos. Agora, inclusive, em filme do diretor Daniel Filho. “Humildade; amor ao próximo; amar a todos como eu vos amei; fora da Caridade não há salvação.” Chico Xavier não é quem sabemos porque psicografou Nosso Lar, Paulo e Estêvão, Parnaso de Além-Túmulo. E sim por seu exemplo de vida. Era como Jesus, nunca mandou ninguém fazer isso ou aquilo. Seu dia a dia falava mais alto. Não mandou ninguém mudar de religião e nem dizia que a Doutrina Espírita era o caminho certo. Dizia ele: “O Caminho é Jesus.”