Estudando o Espiritismo

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Anunciação do anjo a Maria

Anunciação do anjo a Maria


“Eu te saúdo, ó cheia de graça; o Senhor está contigo; és bendita entre as mulheres” (Lucas, 1:28).

 

Essas foram às palavras de saudação do anjo Gabriel àquela que fora escolhida para simbolizar aos olhos do mundo, a missão de mãe de Jesus, o Cristo de Deus. Maria era uma jovem judia virgem e, segundo os costumes da época, entre os judeus, prometida a um homem de nome José e da descendência de Davi.

Maria, como todas as moças de sua idade, devia ser ignorante das coisas relacionadas com a fé ou a religião de seu povo, uma vez que às mulheres muito pouco era permitido saber, sendo obrigadas a seguir caprichosamente as vontades dos pais e sob os ditames da lei.

Assim, os fatos relacionados com a anunciação por uma entidade espiritual a Maria devem ter sido guardados em segredo até ao dia em que ela os revelou, em confiança, aos discípulos de Jesus, possivelmente depois do terrível sacrifício a que foi submetido o Mestre. Deve ela, no entanto, tê-los revelado a José, seu esposo, após o sonho em que foi avisado pelo espírito que não devia abandonar a esposa, uma vez que ela era pura e o que se gerava em seu ventre era do Espírito Santo.

Convinha e era necessário que Jesus fosse realmente reconhecido como nascido de alguém, pertencente a uma família conhecida de todos. Todos deviam de fato testemunhar-lhe o crescimento natural, embora ninguém se desse conta da origem ou procedência espiritual do menino.

Os fatos tinham que ser conservados assim, em segredo. E continuaram secretos até que a humanidade amadurecesse para um entendimento satisfatório de toda a verdade. Numa palavra, até que fosse alcançada, no tempo, a era do espírito, pela manifestação do Consolador prometido por ele, Jesus.

Com o advento do Espiritismo, tudo se esclareceria a par das revelações que se fizessem necessárias. Não obstante, e como sempre ocorreu existirem entre os homens espíritos sempre mais argutos, muitas opiniões surgiram e se fizeram ouvir em torno da natureza de Jesus ao longo da história do cristianismo.

Ao lado daqueles que aceitam cegamente as coisas que lhes são ditas, que não as discutem nem duvidam, simplesmente acolhem as informações mais esdrúxulas como verdadeiras, há, também, aqueles que refletem em profundidade, que analisam os fatos, obtendo ilações inteligentes e sérias.

Ainda hoje é assim. Tudo que se publica é prontamente aceito por aqueles, simplesmente pelo fato de estar escrito num jornal ou numa revista, quando há neles interesse ou tendência para isso.

Os escribas, por exemplo, que eram encarregados da interpretação dos textos sagrados, gozavam do poder de impingir mentiras ou falsidades nas mentes predispostas ou desprevenidas, incautas, como fazem os políticos em nossos dias.

Ao longo dos séculos, desde o ano 312, quando Constantino obteve a adesão política dos cristãos, ao tornar público um sonho de sua imaginação, os pais da Igreja de Roma, mais e mais assumiram, como novos ditadores da fé, o papel dos escribas e fariseus, impondo aos religiosos as coisas em que acreditavam como verdadeiras ou convenientes, utilizando para isso o nome do Senhor.

Foi desse modo que estabeleceram, através de concílios que se multiplicaram no perpassar dos séculos, os dogmas do inferno, da ressurreição da carne, da santíssima trindade, da divindade de Jesus, da ascensão de Maria e centenas de outros, culminando com a aprovação do direito de torturar e matar pelo fogo os que fossem considerados hereges...Mas, de todas as infâmias cometidas a que nos parece mais ignominiosa e solerte é a de fanatizar as mentes desprevenidas ou despreparadas!

Foi assim que pouco a pouco conseguiram afastar dos adeptos da religião, cauterizando-lhes as mentes, o espírito do Cristianismo do Cristo, para que melhor se lhes sedimentasse o espírito do cristianismo que mais conviesse aos interesses da poderosíssima organização romana da fé.

A anunciação do anjo a Maria, em si, é muito simples e apropriada ao entendimento de uma virgem inocente e pura, cuja explicação, também simples, só viria mais tarde, quando mais amadurecido racionalmente estivesse o inquilino desta pequena morada da Casa do Pai, que é a Terra. Atentemos para as palavras do mensageiro espiritual:

“Nada temas Maria; porquanto caíste em graça perante DEUS. É assim que conceberás em teu seio e que de ti nascerá um filho ao qual darás o nome de Jesus.Ele será grande e será chamado filho do altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó. Seu reino não terá fim” (Lucas, 1:30-33).

Maria apenas indagou segundo lhe parecera sensato: “Como sucederá isso, se não conheço varão? E o anjo aquietou-lhe a alma, explicando:

“O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, e por isto o santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus. E eis que a tua parenta Isabel concebeu na velhice um filho e está no sexto mês de gravidez, ela que é chamada estéril. É que nada é impossível a DEUS” (Lucas 1: 34-37).

Maria nada mais tinha a retrucar. Humildemente exclamou: “Aqui está à serva do Senhor, faça-se em mim conforme as tuas palavras.” E o assunto foi encerrado para só retornar o anjo, em sonho a José, diante da perplexidade dele ao perceber que a esposa estava grávida, e guardar no coração certo propósito de afastar-se dela, secretamente. Tudo muito simples. Facílimo: Maria estava convencida pela voz do anjo e os homens, mais tarde, utilizar-se-iam por sua vez da técnica simplória do milagre que tudo explica e justifica. Uma virgem dá à luz um filho sem a participação indispensável do elemento masculino. Era a vontade de Deus. A lei afinal de contas era dele. Podia, pois, derroga-la, quando e como o quisesse. Para isso ele era Deus. Deus, consoante os homens imaginam: um deus antropomorfo?

É assim que têm raciocinado os teólogos, humanizando Deus, isto é, tornando-o caprichoso, estúrdio, indeciso, irascível, estulto, irresponsável como o próprio homem, que só apresenta tão lamentáveis atributos por força de sua imperfeição.

É chegado, porém, o momento de tudo ser esclarecido através de instrumentos próprios e precisos de que o Pai dispõe sem ter que dar satisfações de suas decisões, mas utilizando-se da participação daqueles que para isso nasceram, e contando com a boa vontade dos que, amadurecidos e sensatos, já em condições de muito compreender das verdades eternas, integram, resolutos, mesmo na carne, as sublimes falanges do Consolador Prometido.

Deus se utilizou dos recursos da mediunidade, ainda que desconhecida dos homens da época, para tornar possível a presença na Terra, de seu Governador, um ser puríssimo, e cuja encarnação como homem comum denunciaria imperícia divina ou atentaria contra o seu atributo de plenipotência e onisciência. Ele não quis que o seu plenipotenciário divino fosse um mágico, um ilusionista, mas o ser espiritual que efetivamente é o detentor de todos os poderes de sua hierarquia, dado que somente assim cumpriria com pleno êxito a sua missão.

Convinha que assim ocorresse e ocorreu não nos competindo pedir contas a Deus de seus atos.

Era necessário que o Cristo viesse pessoalmente trazer à humanidade o Evangelho, o código de sabedoria perfeita e lei de paraíso sem que nada pudesse obstar o cumprimento de tão magno mister. Nenhum risco, nenhuma possibilidade de falha. Por isto a tarefa não podia ser confiada senão a ele próprio, o Cristo, mas em condições especialíssimas e infalibilíssimas.

Antes da anunciação do anjo Gabriel, houve duas outras anunciações proféticas que descrevem em minúcias os fatos que teriam de ocorrer: as previsões de Isaías e de Malaquias. Tudo fora previsto por eles e seriamente programado nos planos espirituais superiores. E como tal ocorreram.

A anunciação do anjo a Maria, o nascimento de Jesus tal como descrito pelos evangelistas e a necessidade de uma explicação racional dos fatos foram razões suficientes para acordarem da atonia algumas mentes amadurecidas do passado, entre docetas e apolinaristas. Mas o poder do fanatismo e o sentimento político que já então dominava no seio do Cristianismo fizeram abafar as vozes dessas mentes, anatematizando-as nos concílios de Alexandria, em 360; de Roma, em 374; e de Constantinopla, em 381.

Por isso veio a Revelação da Revelação (Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing), explicando, versículo a versículo, os quatro livros fundamentais do novo testamento. Aí tudo se esclarece à luz da razão. Todas as dúvidas são dirimidas nas mentes que estudam, trabalham e esforçam-se na busca da perfeição. Dela tomou conhecimento o Codificador, sugerindo fosse lida com proveito pelos espíritas. Mas deixando a teoria do corpo fluídico de Jesus ao cuidado dos espíritos.



                                                                         Inaldo Lacerda Lima





Texto extraído da revista “Reformador” mensário religioso de espiritismo cristão, ano 109, mês de maio de 1991 nº. 1946, editado pela FEB – Federação Espírita Brasileira.