Estudando o Espiritismo

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domingo, 7 de setembro de 2014

Razão e Flexibilidade

Razão e Flexibilidade


"Todo comportamento extremista responde por danos imprevisíveis e de lamentáveis consequências, por se sustentar na intolerância e no desrespeito à inteligência e ao discernimento dos demais. A consciência equilibrada busca sempre o comportamento mais saudável, expressando-se de maneira gentil, mesmo nas circunstâncias mais severas e afligentes."  Joanna de Ângelis    


"No vendaval, a árvore que não deseja ser arrancada verga-se, para depois retornar a postura. Se pretender manter-se ereta, sofrerá a violência que a derrubará na sucessão das horas.  O bambu é um dos mais belos exemplos de flexibilidade, pois que se recurva, submete-se com facilidade às imposições que lhe são dirigidas, sem arrebentar-se, mantendo-se vigoroso." Joanna de Angelis          


Tema  bastante delicado o que escolhemos para discorrer nesta postagem, a flexibilidade. A atitude flexível, ponderada na razão iluminada pelos ensinamentos Crísticos, é como uma brisa fresca a renovar o ar que se respira, é brecha de céu azul, diante  da intolerância, é seiva de árvore a perfumar o ambiente contaminado pelo preconceito e pelo excesso de rigorismo.


Quando nos propomos a escrever sobre a flexibilidade não estamos dando realce à atitude de viver  irresponsável, que não mede as consequências das ações e que  é irmã da omissão, mas à capacidade de se colocar na condição do outro, de empatizar e perceber que cada pessoa está inscrita em um projeto existencial  muito particular. Estamos falando sobre a flexibilidade que é o aroma suave da tolerância e da compreensão.


Nesta semana, tivemos notícia de que a cantora e compositora Paula Fernandes foi alvo de uma saraivada de intolerância religiosa medieval pelo fato de ter se  apresentado como espírita numa entrevista. Causa espécie saber que em um país democrático, no qual a liberdade de credo é preceito constitucional, uma situação lamentável como essa aconteça. Tal atitude extremista, porém, nos convoca não a buscar nos defender como espíritas, mas  a assumir uma postura espírita, qual seja, dar a outra face, como ensinou Jesus, e procurar compreender a condição evolutiva de quem  ainda assim age e seguir em frente, sem vacilar nas nossas convicções. 


Não importa mesmo a doutrina religiosa a que a pessoa se afiniza, importa saber se, vivenciando os postulados dessa religião, a pessoa está aprendendo a ser  amorosa, compassiva e tolerante com seus irmãos.


A intolerância é filha do preconceito e este das fragilidades psíquicas e morais da pessoa que, aprisionada no orgulho e na vaidade, não consegue estender o olhar amoroso para seus irmãos. Somos todos filhos de Deus, independente de credo, etnia, orientação afetiva ou conta bancária. Todos inscritos em processos únicos de despertamento por Misericórdia do Pai. Todos amados pelo Cristo e destinados a alcançar a mesma senda de luz e felicidade. Para avançar, porém, não precisamos ser iguais, cada um de nós é um vaso único, a ser lapidado nas arestas da vida e por assim ser, cada um de nós, semelhantes e diversos, estamos com o cinzel nas mãos  a elaborar a Beleza Divina incrustada em nossa consciência. Diferentes, porém destinados à Unidade.


Por isso nada de querer que todos se conduzam e aspirem as mesmas ideias que encontramespaço na acústica de nossa alma.  Nada de totalizar conceitos e determinar caminhos para nossos irmãos. Procurar, sim, analisar nosso próprios passos, se de fato estamos amando as pessoas e exemplificando aquilo que tentamos propor à conduta dos outros, sem contudo aplicar a nós mesmos.


Quando enfeixamos nosso psiquismo em ideias totalitárias, extremistas, radicais, deixamos de aprender com as diferenças e promovemos a desarmonia. Muito embora tenhamos sede de unidade, não podemos prescindir da diversidade. Devemos procurar incentivar nossos irmãos a avançarem,  colaborando e valorizando suas disposições no bem, mesmo que não coadunemos com algumas de suas ideias. Ser flexível não é se associar aos  equivocos, mas compreender e procurar harmonizar, promover a paz. 


A benfeitora Joanna de Angelis nos ensina sobre a delicada virtude da flexibilidade:


" Quando se assume uma atitude de dureza, destrói-se a futura floração do bem, porque nenhuma ideia é irretocável de tal maneira que não mereça reparo ou complementação, e diversas mentes elaborando programas são mais eficazes do que apenas uma. Ademais, essa imposição representa alta presunção decorrente da vaidade de se deter o conhecimento total ou mesmo a verdade plena.  Quando se age dessa maneira, gera-se temor e animosidade por se bloquear as possibilidades dos demais, igualmente portadores da faculdade de pensar, de discernir.Uma atitude flexível contribui para o somatório das realizações dignificantes que são confiadas a todos."


Como filhos de Deus, todo o código ético Divino está inscrito em potência dentro de nós. Cada pessoa realiza o processo  de fazer emergir a filiação divina de forma muito particular, em consonância com a lei do livre arbítrio. Por isso, sempre que queremos nos impor aos outros, sem respeitar as diferenças, que muitas vezes são salutares e nos ajudam a avançar, estaremos agindo de forma contrária às Leis Divinas.


Nosso Mestre, Jesus, que é todo amor e misericórdia, jamais tentou se impor a quem quer que seja. Conhecia profundamente as fragilidades de cada um que a ele se apresentou, mas procurava promover nas pessoas o melhor delas, impulsionando-as ao Bem.

Diante do mancebo rico, Jesus fez o convite sublime, convocando-o a integrar o grupo dos que caminhavam com Ele. O jovem, não obstante encantado com a presença do Mestre, ainda apegado acertas ilusões do mundo, recua ao amoroso apelo e afasta-se do Amigo  Divino. Jesus não se impôs para o jovem, nem o admoestou. Deixou que ele segui-se adiante, respeitou suas escolhas, embora sofresse por isso. Certamente, aquele espírito querido iria aprender, na dinâmica existencial, a servirnas hostes divinas sem vacilar.


Também se mostrou compassivo e incentivador perante a mulher que adulterara e que, em vias de ser lapidada,conforme a lei da época, recorre ao Divino Amigo, rogando que a salve. Jesus se ajoelhae  escreve na areia, depois lavanta-se, majestoso e diz que aquele que estiver sem  pecado, atire a primeira pedra. Quando os lapidadores se afastaram, ele acolheu a jovem e a convocou a seguir, porém sem incorrer no mesmo erro. 


Nestas passagens do Evangelho, Jesus exemplifica a postura flexível, que é saneadora e promovedora da paz. Busquemos meditar quando pensamentos extremistas e intolerantes encontrarem espaço na nossa alma. Procuremos pensar, em cada situação,   o que Jesus faria se estivesse em nosso lugar. Ser flexível é expressar o amor crístico nas diversas ocorrências do dia a dia, é escolher a via mais iluminada, é tratar nossos irmãos da mesma forma que gostariamos de ser tratados, quando em deslize ou em equívoco.