Estudando o Espiritismo

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Instinto Independe Da Inteligência?


Richard Simonetti (Meu Baú)

Precisamente, não, por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêm às suas necessidades ("O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, questão 73).
Um dos inventos mais prodigiosos de nosso século é o computador, cada vez mais sofisticado, beneficiando todos os setores da atividade humana.
Minha sensação, quando comecei a usá-lo, aposentando velha máquina de escrever, foi de quem deixa uma carroça para usar moderno carro importado.

O computador está presente nos lares, nas comunicações, nos veículos, facilitando a vida, tornando-a mais confortável e segura.
Há cálculos relacionados com a astronomia e viagens espaciais que demandariam meses. Hoje computadores os faz em horas. Os mais possantes, em minutos.

No século dezesseis o genial astrônomo alemão Johannes Kepler levou quatro anos para calcular a órbita de Marte, uma elipse perfeita. Um computador faria os mesmos cálculos em quatro segundos.
-Só falta falar - diz boquiaberto um usuário noviço.
Está enganado.
Já existem computadores que transformam os impulsos eletromagnéticos em voz humana sintetizada. Em processo inverso atendem ao comando do operador.

Curiosamente, não obstante os prodígios que realiza, o computador não tem nada de inteligente.
É até muito obtuso - só faz o que mandamos, segundo as características do software, seu sistema de rotinas e funções.

Lembra o instinto, que é uma programação para os seres vivos, relacionada com conservação, reprodução, prole, hábitat, sociedade...
Nenhuma espécie animal precisa de orientação para o acasalamento. Podemos criar um cão sem jamais ter contato com qualquer animal. Quando o colocarmos junto a uma cadela no cio, ele exercitará o ato sexual instintivamente, sem dificuldade.

Aves migratórias viajam milhares de quilômetros, em determinada época do ano, fugindo dos climas frios ou buscando uma região para o acasalamento.
No período denominado piracema, grandes cardumes de peixes sobem os rios até as nascentes para desova, enfrentando predadores e corredeiras.
Quem orienta essas aves e peixes?
Ninguém.
Eles obedecem a um software inscrito em sua consciência embrionária e que no momento oportuno comanda suas ações, levando-os a fazer exatamente aquilo para o qual foram programados.

Em algumas espécies há o instinto gregário.
Temos, por exemplo, a sociedade das abelhas, que faz a admiração dos entomologistas.
A colméia é uma autêntica cidade, com notável senso de cidadania entre as abelhas. Todas têm uma função definida, as operárias, as guerreiras, a rainha...
Há um conselho que decide quem é quem? Não. Apenas cumprem o software da espécie.
Uma característica em comum nas espécies é a sua imutabilidade relativa. Não mudam ou o fazem mui lentamente como se a Natureza houvesse elaborado para elas um programa especial, quase definitivo.

Exemplo - as baratas.
São fósseis vivos, porquanto vivem na Terra há milhões de anos. Desde que surgiram têm a mesma tendência de se infiltrarem em vãos minúsculos e escuros e de se nutrirem com restos de alimentos.

Mudou apenas o comportamento feminino em relação a esses ortópteros onívoros. Nos primórdios da humanidade, na idade da pedra, as mulheres apreciavam as baratas como petiscos. Hoje sentem horror delas.

Essa idéia de relativa imutabilidade fica meio estranha para quem está familiarizado com Darwin.
Em A Origem das Espécies o grande naturalista inglês proclama que todos os seres vivos passam por mutações. O aparecimento do Homem teria sido a culminância de um processo evolutivo que começou com organismos extremamente simples. Isso está suficientemente demonstrado, não é mera teoria.

Ocorre que a programação de cada espécie é um segredo guardado na intimidade dos genes. Os Espíritos superiores que supervisionam a vida na Terra têm acesso a esse “painel de controle”. Ao longo de milhões de anos, alteram a programação de alguns indivíduos, promovendo mutações que culminam com o aparecimento de novas espécies, enquanto seus pares permanecem imutáveis, cumprindo o planejamento celeste.

A evolução não seria, assim, mera decorrência de uma seleção natural, como pretendia Darwin, ou uma questão de adaptação ao meio, como ensinava Lamarck.
Diga-se de passagem que o Homem começa a entrar nessa câmara íntima onde está o “painel”. Já é capaz de interferir na intimidade dos genes. Pode assim, alterar características de uma espécie, e conseguirá criar novas espécies.

O problema está em suas motivações e competência. Ele não está interessado em colaborar com Deus. Cuida apenas de interesses imediatistas. Além do mais, nesse terreno é uma espécie de aprendiz de feiticeiro, mexendo com forças que desconhece, e - o que é pior - sem um princípio ético, de respeito à Natureza.

Costuma-se dizer que um dos problemas do ser humano está em trazer resquícios de programações da animalidade inferior. É a minha natureza - diz o indivíduo agressivo, como se trouxesse algo do leão.

O irrequieto revela o temperamento dos macacos.
O indolente guarda a pachorra do bicho-preguiça.
O que se compraz com a desgraça alheia lembra a risada sinistra da hiena.
Velha fábula, atribuída a Esopo, é bem ilustrativa. Um escorpião, desejando transpor largo rio, pediu à rã que o ajudasse.

-De modo algum. Você vai me picar e morro envenenada. O rabo torto a tranqüilizou.
-Seria um tolo se fizesse isso, porquanto eu também morreria. Não sei nadar.
Argumento lógico. A rã decidiu atendê-lo.
Quando estavam no meio do rio, o escorpião picou sua benfeitora, que surpreendida, já em agonia, reclamou:

-Que loucura, você me envenenou e agora vai morrer afogado!
-Desculpe. É a minha natureza...

Assim poderiam explicar os homens suas atitudes inconseqüentes, resquícios da animalidade primitiva.
Só há um detalhe. Uma pequena diferença:
Somos seres pensantes.
Temos a capacidade de comandar nossas vidas.
Age instintivamente, dando vazão a impulsos de animalidade inferior, aquele que não exercita a razão, recusando-se a distinguir o certo do errado, o que deve ou não fazer.
Diz o apóstolo Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios: Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.

É chegado o tempo de deixarmos o comportamento instintivo, próprio de nossa infância espiritual, e assumirmos a condição de seres pensantes, criados para o Bem e a Verdade, que compõem um software básico, um programa imutável instalado pelo Criador em nossa consciência. Podemos ignorá-lo ou descumpri-lo, já que detemos o livre-arbítrio, mas sempre retornaremos a ele, após amargas frustrações, até que completemos as transformações íntimas que façam resplandecer nossa natureza espiritual como filhos de Deus.

Richard Simonetti