Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Necessidade da culpa

Texto de Joanna de Ângelis, do Livro "O Despertar do Espírito", psicografado por Divaldo Franco.

A culpa sempre se esculpe no inconsciente como uma necessidade de punição, através de cujo mecanismo o ego se liberta do delito.
Originada na conceituação ancestral de pecado — herança atávica do pecado original, que seria a desobediência de Adão e Eva, os arquétipos ancestrais do ser humano, a respeito da Árvore da sabedoria do Bem e do Mal —tem sido, através do processo da evolução, um agente cruel punitivo, que vem desequilibrando o seu mecanismo psicológico.
Desse modo, a consciência de culpa torna-se tortura lúcida ou não para o emocional, gerando tormentos que poderiam ser evitados se outros processos houvessem sido elaborados para facultar a reparação do erro.
Por isso mesmo, ao invés de pecado ou culpa, surge o conceito de responsabilidade, mediante a qual a colheita se deriva da semeadura, sem qualquer expressão castradora do discernimento nem fatalista do sofrimento.
Não obstante a anuência com esse contributo psicoterapêutico valioso, a culpa lúcida, bem absorvida, transforma-se em elemento positivo no que tange ao acontecimento malsucedido.
A simplificação psicológica do ato infeliz, diminuindo-lhe a gravidade e não lhe concedendo o valor que merece — nem mais nem menos do seu conteúdo legítimo — pode conduzir à irresponsabilidade, à perda de discernimento dos significados éticos para o comportamento, gerando insensibilidade, desculpismo, falta de esforço para a aquisição do equilíbrio saudável.
Existe a culpa tormentosa, aquela que se mascara e adormece no inconsciente profundo, trabalhando transtornos de consciência, ante a consideração do ato ignominioso não digerido. No entanto, pode-se considerá-la numa outra expressão, que seria uma avaliação oportuna sobre o acontecimento, tornando-se necessidade reparadora, que propele ao aloperdão, como ao autoperdão.
Essa conscientização do gravame equipa os instrumentos morais da personalidade, no Eu superior, para mantê-lo vigilante, precatando-o de futuras flutuações comportamentais e deslizes ético-morais. Por outro lado, desperta a consciência para estar atenta ante as ocorrências nos momentos infelizes, isto é, naqueles, nos quais, o cansaço, o estresse, a saturação, o mal-estar, a irritação estejam instalados no organismo. Esse é o momento perigoso, a hora errada para tomar decisões, assumir responsabilidades mais graves. O seu significado terapêutico propõe limites geradores de sensibilidade para perceber, orientar e viver a conduta edificante.
Poderemos encontrar esse tipo de culpa não perturbadora na primeira infância, quando medra a faculdade de discernir nos seus primórdios, favorecendo a criança com a noção do que deve em relação àquilo que não convém ser realizado, mais ou menos a partir dos três anos.
Se o indivíduo não possui interiormente, nele esculpido, um código moral para o comportamento, vagueia entre a irresponsabilidade, as psicopatias pessoais e as sociopatias no grupo no qual se encontra.
A culpa terapêutica evita que o paciente se lhe agarre transformando-a em necessidade de reparação do delito, assim derrapando em situação patológica. Trata-se apenas de uma plena conscientização de conduta, com vistas à vigilância emocional e racional para os futuros cometimentos.
Identificada, surge o imperativo do autoperdão, através do qual a racionalização do ato abre campo para o entendimento do fato menos feliz, sem punição, nem justificação doentia, mas, simplesmente, digestão psicológica do mesmo.
Após o autoperdão, surgem os valores da reabilitação, que facultam o enfrentamento das consequências desencadeadas pelo ato praticado.
Necessário seja entendido que o autoperdão, de forma alguma anula a responsabilidade do feito perturbador. Antes faculta avaliação equilibrada da sua dimensão e dos recursos que podem e devem ser movimentados para minimizar-lhe ou anular-lhe as consequências.
Considerada a ação sob a óptica da culpa saudável, não será factível de introjetá-la, evitando que se transforme em algoz interior, que ressurgirá quando menos seja esperado.
Ademais, esse trabalho de identificação da culpa contribuirá para a compreensão da própria fragilidade do ego, dos fatores que o propelem as condutas doentias, assim como à lucidez de como pode autoamar-se e amar às demais pessoas e expressões vivas da Natureza.
Quando se foge a esse compromisso de avaliação do erro, estagiando-se no patamar transitório da culpa terapêutica, o inconsciente elabora instrumentos punitivos que estabelecem os meios cruéis para a regularização, a recomposição do quadro alterado pelos danos que lhe foram impostos.
Assim trabalhada, a culpa não se converte em ressentimento contra a vítima que foi ferida, nem se traveste de necessidade de serem exteriorizadas a raiva e a animosidade contra as demais pessoas.
Aqueles que se não conscientizam do erro e preferem ignorá-lo, soterram-no no inconsciente, que o devolve de maneira inamistosa, irônica, quase perversa contra tudo e contra todos.
O ato de perdoar não leva, necessariamente, à ideia de anuência com aquilo que fere o estatuto legal e o código moral da vida, mas proporciona a compreensão exata da dimensão do gravame e dos comportamentos a serem adotados para que ele desapareça, devolvendo à vida a harmonia que foi perturbada com aquela atitude.
É inevitável o arrependimento que a culpa proporciona, mas também faculta o sofrimento expiatório em relação ao engano, fase inicial do processo de reparação. Não será necessário que se prolongue por um largo período esse fenômeno emocional, a fim de que não se transforme em masoquismo desnecessário e perturbador, gerando autocompaixão, autopunição.
As fronteiras entre uma culpa lúcida e aqueloutra punitiva são muito sutis, e quando não recebem uma análise honesta, confundem-se em um tumulto entre o desejo de ser livre e de ficar aprisionado até a extinção do mal praticado.
Tem ela o objetivo de proporcionar o exercício da honestidade para com o Si, evitando autojustificação, transferência de responsabilidade, indiferença diante do acontecimento.
O Eu superior é o fiel para delimitar as linhas de comportamento entre uma e outra conduta, por ter um caráter universalista, que trabalha pela harmonia geral.