Estudando o Espiritismo

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sobre a vida, o amor e a solidão


Marcos Bueno
Psicólogo de orientação gestáltica e ericksoniana, fundador do NUP-GT de Uberlândia/MG, professor universitário, Mestre em Engenharia de Produção: Gestão da Inovação Tecnológica e Ambiental pelo PPGEP/UFSC, Especialista em Administração pela FGV e UFU/Université du Quebèc a Trois Rivières e formação em Psicologia pela UnG e ex-gerente de RH e Qualidade.
E-mail: mlbueno@brturbo.com

"São os sentimentos e as atitudes que promovem a ajuda, quando expressos, e não as opiniões ou os julgamentos sobre outra pessoa". Carl Rogers

Resumo: O texto foca três palavras essenciais para o ser humano à vida, o amor e a solidão.Sem vida não há o ser, sem amor a vida torna-se apenas um lamento amargo existencial e sem compreender a solidão como uma necessidade de encontro silencioso à vida perde seu sentido.
Palavras-chave: vida, amor, solidão e existência.


O ser humano vive a ânsia da vida. Num momento sonha em viver ansiosamente no presente como se fosse perdê-lo. Em outros momentos é escravo do desejo do futuro e esquece que não tem como garantir o amanhã, a não ser esperá-lo pacientemente, serenamente.
Estamos vivendo uma crise existencial que se repete, entre a ansiedade motivada pelo medo, insegurança e cobranças de todo tipo e por um sentimento coletivo de vazio, de solidão, sentir-se só no meio da multidão.
Jean-Yves Leloup diz que a crise é como a morte da lagarta e o nascimento da crisálida e da borboleta. É preciso que a lagarta morra para nascer a borboleta em toda sua formosura. Não devemos apressar ou facilitar o nascimento da borboleta, pois se assim fizermos ela nascerá fraca e não conseguirá voar e sobreviver. Tudo em nossa vida e na natureza há um sentido sábio, é preciso que passemos a ver com outros olhos aquilo que aparentemente não estamos conseguindo ver devido aos condicionamentos provocados pela normose.O psicólogo e antropólogo Roberto Crema vice-reitor da Unipaz diz que a doença muitas vezes é como um fax, ou um e-mail ou uma carta, só que não abrimos, não lemos e muitas vezes jogamos no lixo sem interpretá-la.
Tudo na vida tem uma razão de ser, uma lógica, um motivo, nem sempre percebemos.Isso é o óbvio, o gênio percebe o óbvio e consegue produzir coisas fantásticas, enquanto que o neurótico não percebe como dizia Perls o pai da gestalt-terapia. A doença é a manifestação do desequilibro, quando o ser humano está em equilíbrio ele está saudável.A doença é um caminho, não é um problema.
O ser humano necessita de um cuidado especial, diferente das máquinas, dos equipamentos tecnológicos, do capital, etc. Leloup diz que é preciso cuidar do ser humano em sua globalidade, como na gestalt-terapia, como um todo, uma boa configuração, mesmo quando são tratados apenas os dentes.
O doente é freqüentemente uma pessoa que se fechou num único nível de interpretação simbólica.Os Terapeutas terão de abrir, sem cessar, esta interpretação, para evitar a identificação. É necessário uma resignificação do percebido.Essa perspectiva Leloup chama de psicologia da profundeza ou antropologia da vastidão.Dos medos do self e do eu ao mergulho no ser.O ser que sofre o chamamento da lucidez, do encontro com a solidão que provoca um movimento da consciência que deseja se libertar das amarras dos condicionamentos provocados por uma sociedade doente e carente.
O ser humano na cosmovisão de Leloup é como no complexo abordado no livro sagrado de Jonas que em hebreu significa pomba. A pomba das asas aparadas. É o conflito do desejo de voar com o medo de tirar os pés do chão. Leloup aborda de forma perfeita o arquétipico de Jonas que dormindo ele sonha com o Senhor que diz: Jonas desperta, levanta e vá a Ninive levar minha palavra a aquele povo que vive na violência.Jonas acorda, mas foge, e não vai a Ninive enfrentar os inimigos, prefere ir para Tarsis uma cidade turística de calmaria e tranqüila na costa da Sardenha. Leloup traça um paralelo com a vida do homem moderno que continua sendo o Jonas que prefere ficar dormindo deitado, a levantar para se movimentar, que foge de sua missão pessoal e intransferível.Mas acaba pegando um barco de pesca para Tarsis e vem a tempestade e percebendo que sua atitude coloca em risco a vida dos pescadores ele se joga ao mar e a baleia o engole e passa três dias em seu ventre.O ventre da baleia é o deserto para refletir, para descobrir a fé perdida, para ir ao encontro de sua voz interna, do seu anjo, do seu mestre.Jonas desperta da normose, aceita sua missão e é despejado próximo a Ninive e cumpre sua missão.Jonas perdeu todos os seus mapas, todos os seus pontos de referência, todas as escalas, mas não perdeu a bússola, ele não perdeu sua orientação.Como diz Leloup a sua orientação para o Ser.Nossa bússola é o nosso coração.Um coração inteligente e vibra emocionalmente, mas tem o norte do intelecto racional.Não basta ter asas, é preciso saber voar, não basta ter uma bússola, é preciso saber interpretá-la.
O papel do terapeuta para Leloup é colocar o individuo em contato com sua bússola interior, que mostra o seu norte, que mostra o Ser em sua plenitude.
O mesmo medicamento, segundo a qualificação do profissional que nos receita, terá efeitos diferentes. É por isto que, na formação dos terapeutas, é importante o desenvolvimento de sua qualificação, de sua competência, mas também é muito importante o desenvolvimento de sua qualidade humana.Porque um individuo pode ter muitas qualificações, muitos diplomas e muito pouca qualidade e é necessário juntar as duas para que o resultado apareça(Leloup,1997:59).
O ser humano vive um eterno conflito entre o desejo de voar e o medo de tirar os pés do chão.O medo de ser alguém que vai incomodar a muita gente e o Zé ninguém abordado na psicologia de massa do fascismo de Wilhelm Reich onde é um ilustre desconhecido.
Leonardo Boff diz que o ser humano é um ser desejante, insaciável, queremos tudo, queremos viver para sempre, somos protestantes, protestamos contra tudo. Não conseguimos silenciar e acalmar nossa mente que vive numa turbulência inesgotável, todos os dias alimentamos essa turbulência mental.
Krishnamurti educador integral diz que vivemos continuamente uma guerra contra nossa mente, que é o nosso intelecto. E para entendermos e educarmos nossa mente temos que buscar recursos fora da mente. E o maior recurso que todos temos é o amor.Mas, o que é o amor? Quando há pensamento sobre o amor, isso é o amor?O pensamento é amor? E, provavelmente só o amor pode unir as pessoas, e não o pensamento.Onde há amor, não há grupo, classe, nem nacionalidade, nem religião.Em plena guerra entre os Estados Unidos e Iraque tivemos um casal de passagem pelo Brasil, ele americano e ela iraquiana demonstrando um amor invejável.
Será o amor uma coisa da mente? Ele é uma coisa da mente quando as coisas da mente preenchem o coração.E com a maioria de nós conforme Krishnamurti cita é isso o que acontece. Preenchemos nosso coração com coisas da mente, que são opiniões, idéias, preconceitos, visões distorcidas da realidade, sensações, crenças e acabamos vivendo e amando essas coisas. O amor só pode ser vivenciado quando o pensamento não está funcionando, sereno, calmo, dando permissão ao coração para sentir o amor.Infelizmente muitos associam amar com ciúme, com ambição, posse do outro, busca desesperada pelo desejo e não há dúvida que quando essas coisas existem não há o amor presente, mas apenas um pensamento sobre o amor.
Não temos que se preocupar com amor, que vem à existência naturalmente, sem nenhum esforço no sentido de buscá-lo de encontrá-lo, ele simplesmente está dentro de cada ser humano, basta permiti-lo aflorar a superfície da consciência.O amor é a resposta para aquietar, serenar nossa mente, reduzir nossa ansiedade e entender nossa solidão, que não é algo tão ruim quanto popularmente se fala. Estar só é uma oportunidade de encontro consigo mesmo.Quando estamos sentindo solidão é por que dissociamos, nos dividimos, perdemos a integração espírito, mente, corpo e aí surge o vazio. O que temos que fazer não é buscar preencher loucamente esse vazio que está nos incomodando, mas sim entendê-lo, interpretá-lo, buscar o seu significado. As doenças são apenas mensagens do nosso espírito, de nossa mente, de nossas emoções e de nosso corpo que alguma coisa não está bem e precisamos saber o que e termos a coragem de resolver para que o equilíbrio volte. Só é possível pensar de modo correto, viver livre e com plenitude e inteligentemente, quando há um autoconhecimento cada vez mais profundo e amplo, como disse um dos maiores sábios que foi Sócrates.Precisamos aprender a resgatar o que perdemos há muito tempo, a integração plena, corpo, mente e espírito.
Para Krishnamurti o essencial para o homem, jovem ou velho, é que viva plena e integralmente, e, por conseguinte, nosso mais relevante problema é o cultivo da inteligência, que traz integração. Amar autenticamente é promover a integração.Apenas o amor e o pensar correto farão a verdadeira revolução, a revolução interior.A revolução amorosa interna é à busca da saúde, a revolução externa motivada pela ganância é cultivar a neurose e a normose social.
Milton Erickson um dos maiores psiquiatras e hipnoterapeuta do século XX afirma em seus livros que todos os recursos que precisamos para resolver nossos problemas estão dentro de nós, basta aprendermos a utilizá-los. Precisamos aprender a caminhar pela vida de forma saudável e feliz, nós merecemos. A solidão, assim como a doença pode ser um caminho amadurecido para uma vida melhor, é preciso termos a coragem de aprender com ela e não apenas rejeitá-la.

Bibliografia consultada:
KRISHNAMURTI, Jiddu. A educação e o significado da vida. São Paulo; Cultrix,1985.
____________________O descobrimento do amor. São Paulo: Cultrix, 1985.
____________________Nossa luz interior. São Paulo; Agora, 2000.
____________________A mente sem medo.São Paulo, Cultrix, 1984.
____________________Sobre o amor e a solidão.São Paulo, Cultrix, 1993.
____________________Caminhos da realização.Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
____________________Raízes profundas. São Paulo, Ed. Psy, 1996.