Estudando o Espiritismo

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domingo, 23 de março de 2014

Reunião Mediúnica no Tabor

Reunião Mediúnica no Tabor



RICHARD SIMONETTI

Mateus, 17:1-13 Marcos, 9:2-13 Lucas, 9:28-36



        Alguém não familiarizado com a Doutrina Espírita poderá estranhar o título deste artigo, que se reporta a um dos acontecimentos mais significativos do apostolado de Jesus.
       Reunião mediúnica no Tabor?
        O intercâmbio com o Além não foi instituído pelo Espiritismo?
        Negativo.
        Sabemos que sempre existiu, desde as culturas mais antigas, envolvendo grupos e indivíduos.
        No tempo de Moisés havia tantos abusos que ele decidiu proibir o intercâmbio.
        Isso está registrado em dois livros do Pentateuco mosaico.

        Levítico, 19:31:
        Não vos voltareis para os médiuns, nem para os feiticeiros, a fim de vos contaminardes com eles... Deuteronômio, 18:10-11: Não haja no teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos.

        Impertinentes contestadores do Espiritismo apegam-se a essa proibição, o que é uma tolice.
        Moisés legislava para seus contemporâneos.
        Suas orientações diziam respeito ao povo judeu, em determinado tempo, não para a Humanidade, em todos os tempos.
        Se alguém pretende cumprir essa orientação, tudo bem. Só que, por coerência, deve observar toda a legislação mosaica.
        Alguns exemplos:

   l Os filhos devem pagar pelos pecados dos pais (Êxodo, 20:5);

   l Quem trabalhar no sábado será morto (Êxodo, 35:2);

   l Animais e aves serão sacrificados, sangue espargido sobre altares, atendendo a variados objetivos (Levítico, capítulos 1 a 7);

   l Quando morrer o homem sem deixar descendentes, seu irmão deverá casar-se com a viúva (Deuteronômio, 25:5);

   l Os filhos desobedientes e rebeldes, que não ouçam seus pais e se comprometam no vício, serão apedrejados até a morte (Deuteronômio, 21:18-21);

   l É proibido comer carne de porco, lebre ou coelho (Levítico, 11:5-7);

   l O homossexualismo será punido com a morte (Levítico, 20:13);

   l A zoofilia sexual será punida com a morte (Levítico, 20:15-16);

   l Deficientes físicos estão proibidos de aproximar-se do altar do culto, para não profaná-lo com seu defeito (Levítico, 21:17-23);

   l O hanseniano deve ser segregado da vida social, vivendo no isolamento (Levítico, capítulo 13);

   l Os adúlteros serão apedrejados até a morte (Deuteronômio, 22:22);

   l A blasfêmia contra Deus será punida com o apedrejamento, até a morte (Levítico, 24:15-16); Quanto à mulher, em particular:

   l Ao dar à luz um menino ficará impura por 40 dias. Se for uma menina ficará impura 80 dias (Levítico, 12:1-5);

   l A noiva que simular virgindade ao casar-se será apedrejada até a morte (Deuteronômio, 22:21);

   l Descontente com a esposa, o homem poderá dispensá-la, sem nenhuma compensação, dando-lhe carta de divórcio (Deuteronômio, 24:1);
        Se as piedosas representantes de movimentos pentecostais, tão empolgadas com a Bíblia, tomassem conhecimento do que há contra elas no Velho Testamento, certamente mudariam de opinião.
        Qualquer pessoa de bom senso constatará que essas orientações estão totalmente superadas, mero folclore para o nosso tempo.
        Ora, por que cargas d’água haveremos de considerar que a proibição quanto à evocação dos mortos é inamovível? Ficou bem no tempo de Moisés, para coibir os excessos do povo. Não tem nada a ver com o nosso tempo, principalmente a partir da Doutrina Espírita, que disciplina o intercâmbio com o Além.
        Outro detalhe: As pessoas que combatem o Espiritismo, apegando-se aos textos bíblicos, proclamam ser impossível o contato com os mortos.
        Contrariam o próprio Moisés que, ao proibi-lo, passou atestado de que é possível.
        Ocioso legislar sobre o impossível.
        Exemplo: Proibir o homem de volitar.

...

        Havia abusos, o que ocorre ainda hoje – a velha tendência de apelar aos Espíritos para resolver problemas imediatistas. Foi por isso que Moisés adotou a medida extremada.

        Convenhamos que houve excesso de zelo, algo como suprimir o passe magnético no Centro Espírita porque existem os “papa-passes”, que fazem desse benefício uma rotina. As pessoas devem ser orientadas em relação aos excessos, jamais impedidas de buscar os recursos espirituais. O equívoco de Moisés foi corrigido por Jesus, que reinstituiu o contato com os mortos. Mesmo depois de sua morte, cultivou o intercâmbio, materializando-se diante dos assombrados discípulos.

...

        A reunião mediúnica que Jesus se propôs realizar aconteceu no alto de um monte, provavelmente o Tabor, que fica a sudeste de Nazaré. Estavam presentes Simão Pedro, João e seu irmão Tiago, enquanto os demais discípulos atendiam à multidão, ao pé do monte. Os três eram os discípulos de maior afinidade com Jesus e os que mais se destacariam no colégio apostólico.

        Paulo os chamaria “as colunas da comunidade” (Gálatas, 2:9). Provavelmente eram os mais bem dotados para a reunião que Jesus se propusera realizar. Subida cansativa, o monte fica a 580 metros acima do nível do mar, e aproximadamente 300 metros em relação à planície onde se ergue. Ofegantes, após a longa subida, os discípulos assombraram-se com um fenômeno inesperado que ocorreu com Jesus. Segundo Mateus:

        (...) foi transfigurado diante deles: seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a luz. A transfiguração é um notável fenômeno espiritual que pode acontecer por mediunismo ou animismo. No mediunismo, há uma alteração das feições do médium, que assume a aparência do Espírito comunicante. No animismo, o fenômeno manifesta-se na forma de intensa luminosidade que envolve o indivíduo, emanada dele próprio e das esferas mais altas com as quais sintoniza naquele momento. Foi o que aconteceu com Jesus. Surgiram ao seu lado dois ilustres representantes do Velho Testamento: Moisés, o grande legislador, que vivera há 1.250 anos. Elias, o combativo profeta, que vivera há 800 anos. Ali estavam materializados – visíveis e tangíveis. Simão Pedro, sempre o mais ativo, observando Jesus conversar com os dois Espíritos, animou-se:

–        Senhor, é bom estarmos aqui; se queres, farei três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.

 O Evangelista Marcos, que certamente colheu informações do próprio Pedro, afirma que ele assim falou por não saber o que dizer, porquanto estavam todos apavorados. Como já acontecera em outras oportunidades, o contato com os Espíritos assustou os discípulos, o que não é novidade. A falta de familiaridade com os desencarnados sempre infunde temor.

        É a temida assombração. As pessoas preferem enfrentar a presença de um malfeitor vivo ao benfeitor morto. Certamente, mais assustados ficaram os discípulos quando surgiu uma nuvem brilhante, de onde ouviram uma voz que proclamava:

        – Este é o meu filho amado, em quem me comprazo. Ouvi-o. Repetiu-se o fenômeno mediúnico de voz direta que ocorreu quando Jesus se encontrou com João Batista, às margens do Jordão (Marcos, 1:11). Mentores espirituais realizavam essas intervenções, procurando sedimentar nos discípulos a convicção de que Jesus era o Messias, que viera à Terra investido de grandiosos poderes, como um representante de Deus. Era preciso ouvi-lo, dar atenção às suas orientações, que consubstanciavam uma revelação divina, tendente a imprimir novos rumos à Humanidade, nos caminhos do progresso. Após esses espantosos acontecimentos, Moisés e Elias retiraram-se. Encerrada a reunião mediúnica, Jesus recomendou-lhes que nada comentassem a respeito. Não era chegado o tempo de divulgar aquelas maravilhas.

...

        Os discípulos exprimiram uma dúvida:

        – Por que dizem os escribas ser preciso que Elias venha primeiro? Segundo as profecias, Elias voltaria à Terra, como o precursor, aquele que prepararia os caminhos do Senhor. Se Jesus era o Messias, por que não viera Elias antes? Por que só agora se apresentara? Jesus respondeu:

        — Certamente, Elias vem primeiro e restaurará todas as coisas, mas eu vos digo que Elias já veio e não o conheceram, antes fizeram com ele tudo o que quiseram; assim também o filho do Homem há de padecer por parte deles. A passagem evangélica termina com o seguinte comentário de Mateus:

        Então os discípulos souberam que lhes falara a respeito de João Batista. Os teólogos insistem que Jesus se referia a alguém igual a Elias, que viria anunciar sua vinda. Contrariam o próprio texto. Jesus afirma que ambos eram a mesma pessoa.

        Malaquias (4:5) diz claramente que seria enviado o profeta Elias, e não alguém que se parecesse com ele. Oportuno destacar que no episódio da transfiguração João Batista já tinha retornado à espiritualidade, decapitado a mando de Heródes.

...



        O  ilustre visitante apresentar-se como Elias, não  como João Batista, é compreensível.

        O Espírito superior dá à forma perispiritual a aparência que deseje ou que lhe pareça conveniente. Interessante notar, a esse respeito, as experiências de Emmanuel, o mentor espiritual de Chico Xavier. Foi:

   l Nestório, o escravo, no livro 50 Anos Depois.

   l Padre Manoel de Nóbrega, fundador de São Paulo.

   l Padre Damiano, do livro Renúncia. No entanto, consta apresentar-se como o senador romano Públio Lentulus, do livro Há 2000 Anos, talvez por ter sido a existência que lhe falou mais intimamente ao coração. Marcou seu glorioso encontro com Jesus.

...

        A transfiguração tinha por objetivo animar os discípulos e sedimentar a idéia de que Jesus era um ser superior, em missão na Terra. Ao mesmo tempo estabelecia uma conexão com o velho Testamento, representado por dois de seus expoentes. O Cristianismo deveria situar-se como um desdobramento do Judaísmo. Iluminaria as antigas crenças com a revelação do Deus pai, que substituía Jeová, o deus guerreiro, estabelecendo as bases de um reino divino, a partir do exercício do amor, que irmanaria todos os homens. Imbuídos do espírito da raça, com a pretensão de povo escolhido, dispostos a conquistar o mundo com a liderança de Jeová, os judeus rejeitaram a mensagem e mataram o mensageiro. Por isso o Evangelho floresceu fora do Judaísmo, dando origem a novo movimento religioso.

...

        Algo semelhante ocorreu com o Espiritismo. Poderia ser um desdobramento natural do Cristianismo, ajudando-o a depurar- se de suas mazelas. Ocorre que os círculos religiosos estavam aferrados ao materialismo e negavam veementemente a possibilidade de intercâmbio com o Além. Lamentável paradoxo, tanto maior quando lembramos que Jesus conversava com os Espíritos, o mesmo acontecendo com a primitiva comunidade, orientada pelo Espírito Santo, designação genérica dos Espíritos Superiores que se manifestavam em seu seio. A supressão do fenômeno mediúnico na comunidade cristã fechou a porta de acesso ao mundo espiritual. A partir daí os teólogos passaram das revelações celestes para as especulações terrestres, e surgiu uma doutrina fantasiosa, fixada pelo dogma, este instrumento terrível de aniquilamento da razão. Por isso o Espiritismo teve que se manifestar fora dos círculos religiosos.

        Reinstituído o intercâmbio com o Além, fenômenos como a materialização dos profetas voltaram a ocorrer. Alertam sobre nossas responsabilidades, ante a certeza da vida que não acaba nunca e onde nunca está ausente a justiça de Deus.?

RICHARD SIMONETTI