Estudando o Espiritismo

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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reflexões sobre a reencarnação e a Lei de Causa e Efeito

Reflexões sobre a reencarnação, parte 1

Esta série de artigos sobre reencarnação não irá se preocupar em demonstrar evidências de que a reencarnação é uma lei da natureza. Ao invés disso, irei falar sobre aspectos da reencarnação, e da crença na reencarnação, que geralmente não são muito abordados, embora mereçam - na minha opinião - uma reflexão mais cuidadosa. Se você procura por evidências da reencarnação, irá encontrar outros posts neste blog que tratam do assunto. Vale dizer, é claro, que esta série de artigos tampouco se propõe a convencer ninguém acerca da realidade ou irrealidade da reencarnação.

Potencialidade e personalidade

O reencarnacionismo é uma crença que data dos primórdios das civilizações egípcia e orientais, estando entre nós a bastante tempo. Não é muito complicado compreender o princípio básico da reencarnação: somos espíritos que habitam corpos durante o período em que estão aptos a receber um espírito; Quando as leis naturais fazem com que o corpo humano não consiga mais sustentar a vida orgância, o espírito então se desliga, pois de nada lhe adiantaria continuar habitando um cadáver. Por analogia, é simples compreender se pensarmos em um distinto senhor que troca de roupas toda a vez que elas estão gastas e puídas - não lhe convém comparecer ao trabalho, ou a alguma festa, com uma roupa inapropriada. Da mesma forma, espíritos trocam de corpos como este senhor troca de roupas. Porém, lembremos que isso é apenas uma analogia. Importante é, entretanto, lembrar que não há nada de sombrio na morte do corpo: é exatamente ela que permite a vida. Sem morte física não existiria vida física, pois no universo tudo está em constante mudança, e o sistema da natureza é todo encadeado em sutis e elegantes leis de causa e efeito. O que não tinha vida, no entanto, continuará não tendo: o espírito sopra onde é chamado, e habita os corpos e orbes que o seu nível de evolução, a sua potencialidade espiritual, lhes permite.

Há muitos espiritualistas que creem que o espírito é imaterial, mas isso não parece ser a verdade, ou pelo menos não é o que os espíritos dizem. Através da codificação do célebre Livro dos Espíritos, na pergunta #82 formulada por Kardec, temos a resposta de que os espíritos são incorpóreos (não possuem um corpo fisico), mas não imateriais, pois que tudo é formado por matéria; Muito embora a matéria que forme o espírito seja fluida, e ainda não detectada pela ciência (talvez porque não interaja com a luz, à semelhança de aproximadamente 96% da matéria do universo, segundo postula a teoria da Matéria Escura).

Também há muitos desinformados que atribuem a reencarnação crenças anedóticas como, por exemplo, a possibilidade de reencarnarmos em um porco, ou uma vaca, ou um inseto, etc. É verdade que a metempsicose postula sobre essa possibilidade, mas não a rencarnação. A reencarnação está associada a evolução, e também a simetria das leis da natureza, que são as mesmas por todo o Cosmos. Nesse sentido, a teoria de Darwin-Wallace é de vital importância para o reencarnacionismo. Assim como faz todo sentido dizer que ramos científicos como a biologia perderiam todo o sentido sem a teoria da evolução das espécies, o mesmo pode ser dito em relação ao reencarnacionismo. De fato, não é à toa que um dos criadores desta teoria era reencarnacionista e espiritualista. Ora, isso porque os espíritos não reencarnam somente entre o homo sapiens, mas vem necessariamente reencarnando desde a formação da vida na Terra, por milhões e milhões de anos e encarnando em milhares de espécies. Ocorre que, apenas no estágio em que os espíritos adquirem a capacidade de se reconhecerem como indivíduos, é que estarão aptos a habitar corpos de espécies onde o cérebro lhes permitirá ter um processo de consciência mais elaborado. Porém, segundo o espiritualismo, não é o cérebro quem gera a consciência, mas o espírito quem comanda o cérebro, e o corpo, através do processo de consciência.

A reencarnação não trata, portanto, apenas do homem, e apenas da Terra, mas sim de todos os seres vivos da natureza, na Terra e em outros planetas onde haja vida. Ou seja: o que tem vida, o que vivifica os corpos orgânicos, terá sempre vida. E o que não tinha vida, o que era só o corpo, continuará em seu ciclo natural. Como dizia Lavoisier, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Ora, a vida é o que evolui, o que se tranforma de forma não-entrópica, o que organiza a matéria. Aquilo que não tinha vida é o que continua a ser jogado para cá e para lá pelo turbilhão da natureza em seu movimento eterno, como a poeira estelar que possibilitou o surgimento da vida orgânica em nosso planeta.

Há que saber diferenciar, no entanto, potencialidade de personalidade.

Personalidade é tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros indivíduos, ou seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua individualidade pessoal e social. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único para cada indivíduo. O termo deriva do grego persona, com significado de máscara, que designava a "personagem" representada pelos atores teatrais no palco. Todos somos chamados a construir nossas personalidades, a vida em sociedade pede isso. A questão está em saber diferenciar nossa essência espiritual da máscara construída por nossa mente - a máscara para a alma. Não é culpa da mente que tenhamos que usar essas máscaras, isso também é algo que faz parte da evolução naturtal dos seres. Ora, todo ser que se reconhece como indivíduo passa a ter a necessidade de construir este indivíudo, de saber como diferencia-lo, como representa-lo e apresenta-lo para os outros. Ocorre que muitos de nós não estão à altura do desafio, não conseguem suportar a angústia de encarar a si próprios, de elaborar da melhor forma possível os seus próprios medos, incertezas, sua moral, etc. Então torna-se mais simples apenas seguir um padrão social, e ao invés de elaborar nossa personalidade por nós mesmos, copiar aquelas que são mais aceitas no mercado da sociedade.

O problema é que nossa essência é única, diz algo somente a nós próprios, necessita de aprendizagem que outros não necessitam, e é capaz de fazer o que outros não fazem. Copiando a máscara alheia, é capaz de termos sérios problemas. O nariz pode apertar e não permitir que respiremos direito, o material pode incomodar a pele e fazer coçar até ferir, o elástico pode arrebentar e nos deixar expostos sem uma máscara para nos proteger... Ora, máscaras são necessárias, mas somente até que compreendamos que tudo o que somos realmente é nossa essência espiritual - aí então não precisaremos mais delas, e saberemos viver a vida em paz, enxergando em todos que cruzam a nossa frente a fagulha divina de espíritos antigos, arqueados em exaustão de tanto rodar pelas trilhas das encarnações terrenas.

As personalidades são como máscaras que usamos de encarnação em encarnação, são mais caras para nós do que nosso corpo, porém tão dispensáveis e passageiras quanto ele. Eis que trocamos de máscaras como trocamos de roupa. Já a potencialidade é diferente: ela está sempre caminhando à frente, é ela o sentido de termos de viver por tanto tempo, através de tantas vidas e tantas histórias que nos parecem ainda absolutamente disconexas. Amala e Kamala foram duas crianças selvagens achadas a oeste de Calcutá, na India, em 1920. Elas foram aparentemente abandonadas na floresta ainda bebês e foram criadas por lobos. Enquanto estiveram entre os homens, não se comportaram de forma muito diversa dos lobos - andavam com as mãos no chão, comiam carne crua, não sabiam pronunciar as palavras mais simples, etc. O cético irá pular de alegria e ver aí, sem muita reflexão, a prova de que o espírito sequer existe... Mas, analisando de forma mais profunda, alguns talvez compreendam que se tratam de potencialidades não despertas.

Ora, um homo sapiens criado por lobos talvez nunca seja muito mais do que um lobo, mas será, cognitivamente, pelo menos um ser do mesmo nível de um lobo. Já o inverso seria impossível: um lobo jamais chegaria ao nível de cognição dos homo sapiens, mesmo que seja educado e treinado pelos melhores adestradores de animais... Isto porque a potencialidade do espírito do lobo não se compara a potencialidade do espírito de um homem. Potencialidade cognitiva, ética, de nível de consciência e raciocínio, etc. Não sejamos ingênuos, mesmo Mozart nunca teria sido gênio se não houvesse sido apresentado a um piano ainda quando criança, imaginem então se houvesse sido também criado por lobos. As leis da natureza valem para todos, se o cérebro em nossa infância não é estimulado da maneira correta, há muito pouco que possamos fazer depois. O espírito necessita despertar suas potencialidades através da interação simbólica, intuitiva, interpretativa e amorosa com o mundo que o cerca. Se isso não ocorre, o cérebro físico não se desenvolve, a personalidade defeituosa não possibilita que a individualidade se manifeste, e a potencialidade da alma permanece adormecida, esperando uma nova oportunidade.

Não existem atalhos neste caminho: todos temos, invariávelmente, que trilha-lo, passo a passo, vida a vida; Sempre em busca do maior desenvolvimento dessas potencialidades da alma, que se manifestam através do corpo mas não fazem parte do corpo, e que não estão em DNA algum. Entretanto, Deus não nos criou princípios inteligentes e nos largou a esmo no Cosmos, ora encarnando na secura das tribos nômades do Quênia, ora no aconchego de uma distinta família burguesa da Suécia, ora perfeitamente saudáveis, ora com doenças que limitam nossas vidas a poucos dias de vida... Não, a reencarnação não é algo que se opera de forma aleatória, ela obedece a leis bastante específicas. Sem seu correto entendimento, é talvez impossível compreender a profundidade e a lógica da justiça do reencarnacionismo.

Por isso, à seguir vamos refletir sobre a Lei de Causa e Efeito.

A Lei de Causa e Efeito, em filosofia, parte da definição de que "nenhum efeito é quantitativamente maior e/ou qualitativamente superior à causa". Segundo as doutrinas espiritualistas, é um conceito que determina que todo ato moral ocasiona uma resposta da natureza, que mais cedo ou mais tarde "retornará" a quem o efetuou - ou, em outras palavras, "cada um colhe o que plantou".

Pela dor ou pelo amor

Eu dizia que a reencarnação não opera a esmo, e de fato a compreensão da Lei de Causa e Efeito é a essência da compreensão da reencarnação. Primeiramente, é preciso diferenciar a Lei de Causa e Efeito do conceito de Karma: enquanto que normalmente o conceito de Karma sugere uma dívida a ser resgatada, a Lei de Causa e Efeito nos apresenta a idéia de que o futuro depende das ações e decisões do presente. Uma causa positiva gera uma efeito positivo, enquanto que uma causa negativa gera um efeito igualmente negativo. Ou seja, a compreensão do Karma vem muitas vezes associada a conceitos como "punição divina" ou "destino", como se só houvesse uma forma de purificar nosso espírito: pelo sofrimento e pela quitação de dívidas morais pregressas. Já a Lei de Causa e Efeito é mais abrangente e, principalmente, mais fluida: somos nós, e somente nós, os construtores de nosso próprio destino. Nada está escrito em pedra, nenhum evento infortuno é absolutamente inevitável, pois pela mesma via com que contraimos débitos para com a harmonia de nossa própria consciência, poderemos saldar com créditos. Evolui-se pela dor, isso é certo; Mas também evolui-se pelo amor, e isso depende de nossa vontade.

Acredito que seja mais simples ilustrar tal conceito com uma alegoria. Não cabe a nós julgar o porque do sofrimento alheio, disso só mesmo sabe o próprio ser que sofre, e o Deus onisciente, mas como se trata de uma alegoria, queiram desculpar-me.

Imaginemos um padre inquisidor na época medieval que, por sua crença cega, tenha enviado inúmeras pessoas inocentes para a morte na fogueira, por acusações de "bruxaria"... Certamente este espírito que acreditava ser "extremamente religioso" há de ter tido uma inesquecível desilusão quando compreendeu o resultado de seus atos com a consciência plena, seja ainda antes de desencarnar, seja após a morte. Ignoremos o tempo que tal espírito tenha passado em confusão mental ante a própria nebulosidade de sua consciência; Passemos os séculos adiante e imaginemos que tal espírito, após muito vagar a esmo pela escuridão de sua alma, tenha refletido e compreendido a extensão macabra de seus atos pregressos, e neste momento esteja por decidir (certamente com o auxílio de espíritos superiores em moral) quais eventos deseja vivenciar em sua próxima encarnação, com o objetivo de se depurar, de purificar as chagas de sua alma o mais breve possível...

Eis que os espíritos superiores lhe oferecem duas opções (lembremos que isto é tão somente uma alegoria): morrer em um incêndio, da mesma forma que matou tantos inocentes nos séculos passados, ou ser um médico da Cruz Vermelha, passando a vida a atender queimados em guerras e nas regiões mais inóspitas e pobres do planeta, sem no entanto padecer de uma queimadura sequer durante toda uma vida... O que você escolheria? Morrer queimado, porém sem muito esforço ou responsabilidade pela própria melhora, ou passar toda uma vida praticando caridade, convivendo com o sofrimento alheio e auxiliando da melhor forma possível?

Obviamente que qualquer homem são escolheria a segunda opção. O problema, no entanto, é que não basta escolher simplesmente, é preciso arregaçar as mangas e efetivamente praticar a caridade. Oh, e quantos, quantos de nós temos falhados miseravelmente em cumprir aquilo que prometemos aos seres de luz. Em tão somente amar e tomar as rédeas de nossa vida, enquanto tantos outros se limitam a passar pela vida como um barco de papel a flutuar pelo mar. Mas eis que, quando somos postos à prova, preferimos a acomodação, o fascínio de nosso próprio ego, as promessas vãs da matéria que nada mais é do que fumaça condensada, a transformar-se eternamente.

Os estóicos diziam que devíamos nos preocupar somente com aquilo que podemos modificar. Não podemos mudar as leis naturais nem o ânimo dos homens cegos, mas podemos compreender as leis naturais e agir à seu favor - e podemos servir de auxílio para todos aqueles que seguem ainda cegos pelas estradas milenares. Mas os estóicos sabiam: nosso problema é com nós mesmos, é com nossa própria consciência. Nós somos nosso próprio mal, e não poderia ser de outra forma...

Certamente a linguagem poética e alegórica não irá agradar aqueles que desejam, meticulosamente, avaliar a Lei de Causa e Efeito como quem calcula a velocidade de um objeto arremessado pelo ar. Mas não é pela razão pura que a compreenderemos: necessitamos do auxílio da intuição... Será que podemos perceber, em nossa consciência, quando tomamos atitudes que vão contra a harmonia da natureza? Pratiquem! Será que podemos aprender, tal qual a criança no jardim de infância, a fazer caridade, talvez simplesmente por dar o primeiro passo, e visitar algum asilo ou pediatria? Pratiquem! Será que podemos olhar para trás e, analisando as escolhas de nossa própria vida, refletir sobre aquelas que nos trouxeram as recompenças realmente profundas, a sabedoria verdadeira? Pratiquem!

Já foi dito que não há lei além de faz o que tu queres, e que sob a vontade, o amor é a lei... Nada poderia resumir melhor, talvez, a Lei de Causa e Efeito. Não se trata de ajustar as contas com um deus-que-pune-pecados, nem tampouco sofrer egoisticamente circundando a própria culpa, mas sim ter a coragem, o ânimo e a vontade para se colocar novamente de pé e encarar, frente a frente, as próprias faltas. E tomar o remédio amargo para a melhora. Amargo, sim, mas que não deixa de ser remédio. Escolher, na medida em que conquista cada vez mais sabedoria, o caminho do amor e da caridade, e não o da dor e da tragédia. Mas sobretudo compreender que, por bem ou por mal, pela dor ou pelo amor, caminha-se sempre a frente!

À seguir, irei discorrer sobre algumas peculiaridades da crença na reencarnação, como por exemplo "não acreditar em idade"... Será que somos realmente reencarnacionistas?

http://textosparareflexao.blogspot.com/2009/07/reflexoes-sobre-reencarnacao-parte-2.html

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