Estudando o Espiritismo

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Tempo de despertar a alma - Adenáuer Novaes


“Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha.” Mateus, 20:1.

O Cristo propôs salário àqueles que começassem a trabalhar mais tarde de igual valor aos que tivessem iniciado mais cedo. À primeira vista é um contra-senso, pois que, hoje em dia, se paga o salário pela hora trabalhada. Por outro ângulo, do ponto de vista ainda legal, pode-se afirmar que, depois de admitido no emprego, quando nada há para fazer no início de sua jornada de trabalho, o operário receberá a diária independente de ter iniciado a tarefa apenas no final do dia. Seria, portanto, pertinente o pagamento do mesmo salário independente da produção do operário, se não havia trabalho a ser feito.

Podemos, no entanto, estabelecer outras considerações a respeito do tema, tendo em vista a aparente injustiça na afirmação de que, cabe o mesmo salário ao que trabalhou o dia inteiro e àquele que só o fez na última hora do dia.

A complexidade da vida na Terra requer do ser humano a habilidade de aprender a fazer escolhas, pois muitos são os caminhos e processos a seguir. Há muito que aprender, não sendo possível fazê-lo numa única encarnação. Ao fazer suas escolhas estará, automaticamente, renunciando a outras, as quais poderá ter que optar mais tarde. Parecerá que, ao escolher determinada via, tenha negligenciado outras que, aparentemente, seriam mais importantes. Quando tiver que retomar aquelas vias não escolhidas, outros já a terão trilhado, parecendo displicência sua. Os que optaram primeiro pela via por ele não escolhida, serão os trabalhadores da primeira hora. Quando ele optar, será o trabalhador da última hora.

De um ponto de vista psicológico poderíamos afirmar que se trata de escolher aquilo que está mais próximo da consciência, como também o que é mais importante para o Espírito naquele momento. As escolhas recaem, muitas vezes, em resolver e vivenciar, o quanto antes, as questões primeiras do processo de Vida, tais como: profissão, casamento, filhos, dinheiro, etc, deixando-se de lado o que seria mais fundamental. Relega-se, na maioria das vezes, a último plano as questões ligadas à espiritualidade. Na visão junguiana existe uma zona psíquica consciente e outra inconsciente, sendo esta muito mais abrangente que aquela. Ao decidir-se cuidar de seu mundo interior, o ser humano pode iniciar seu processo com suas questões ligadas à área inconsciente como também iniciar pelas ligadas à área consciente. Se optar pela primeira, saberá que se trata de um processo longo e mais difícil do que se optasse pela última. Na primeira, terá que fazer um mergulho maior em sua essência, tendo que buscar aspectos mais profundos de sua personalidade, isto é, suas motivações espirituais, suas capacidades evolutivas, sua tendências arquetípicas, etc. Na última, tenderá a cuidar dos aspectos mais recentes de sua vida: infância, relacionamento familiar, escolha profissional, vivência afetiva, etc., todos estes da atual reencarnação.

Para quem optou pela primeira, ao se deparar com aqueles que optaram pela última, parecerá futilidade ou superficialidade tal preferência. Talvez ele não perceba que, um dia, terá que fazer semelhante caminho. Parecerá injusto para ele, por ter trilhado um caminho mais difícil e longo, chegar ao mesmo ponto que aquele que viveu processos, por ele considerados superficiais e, às vezes, fúteis. São os caminhos humanos e deverão ser trilhados por todos nós.

Psicologicamente, na idade adulta, é dar atenção às questões transcendentes do Self, além de cuidar das questões ligadas ao ego. Pode ser um equívoco não dar atenção à estruturação do ego na ascensão espiritual. Há pessoas que enveredam pela religiosidade exacerbada sem cuidar de sua vida pessoal.

O salário é o mesmo, porém o trabalho de estruturação do Espírito como ser interexistente da vida material e da vida espiritual é fundamental. Há que se buscar realizar-se em ambos os campos.

A última hora é o tempo não contado onde não se tem mais esperança quanto ao futuro. É o momento do entardecer na vida do ser humano. É o instante do desânimo e da possibilidade de fracasso. É também nesse momento que se deve buscar o crescimento espiritual, isto é, a atenção às coisas do Espírito. Não deve o candidato ao crescimento espiritual culpar-se por começar mais tarde e após ter vivido uma vida material preenchida de equívocos. É sempre tempo de começar a plantar a semente do próprio crescer.

Uma análise mais profunda nos levaria a entender que o Cristo também nos alertava quanto ao tempo e sua premência. Chamava-nos a atenção para que aproveitássemos todos os momentos de nossa Vida. É
sempre a última hora, o derradeiro minuto, isto é, nunca é tarde para buscarmos a transformação de nossos hábitos equivocados em atitudes positivas. Talvez ele também nos alertasse quanto ao momento do planeta Terra, que passa por uma fase transitória de provas e expiações para uma outra de renovação moral. Alerta-nos para valorizarmos todos os momentos de nossa Vida na busca do equilíbrio e da paz, pois o ‘salário’ será recompensador.

Àquele que reclamara por ter recebido o mesmo salário, embora tenha trabalhado mais, ele diz: “Mas o
proprietário respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último, tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos [porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos].”26 O preço do trabalho é o mesmo para todos os Espíritos, quer tenham começado seu processo evolutivo mais cedo ou não. Todos alcançaremos a felicidade através do conhecimento e da vivência das leis de Deus.

As palavras contidas na parábola do trabalhador da última hora nos levam a entender que não se deve retirar a esperança da vida das pessoas. Mesmo que a pessoa viva iludida, não se deve sumariamente eliminar o motivo que a mantém viva. É preciso aproveitar sua última cota de esperança e de motivação para lhe fazer perceber uma nova realidade. É dar-lhe o ‘salário’ necessário para que rompa com os equívocos do passado.

A mensagem da parábola nos convida a não viver do passado nem reclamar do que não tivemos. Fixar-se no passado é perder tempo no presente. A investigação do próprio passado só tem sentido quando buscamos acertar no presente para não mais cometermos equívocos no futuro.

O trabalhador da última hora não perde tempo em disputas estéreis com seu semelhante, uma vez que enxerga em si mesmo seu próprio adversário interior. É esse seu campo de batalha onde terá de sair vitorioso no futuro. Sua felicidade, isto é, seu ‘salário’ lhe é dado pelo seu próprio esforço em se melhorar.

As frustrações da infância ou de outras encarnações não devem se constituir em exigências do presente, mas tão somente em caminhos percorridos a fim de se apreender as leis de Deus.